Um rio de quatro braços

metáforas e alegorias para adultos

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

 

Lia eu Gn 2. Estava atrás de indícios que me dessem conta das intenções do autor desse texto quando o escreveu. Coisas de quem foi encantado pelo canto da exegese, e de quem, ainda que não a tenha aprendido, descobriu que mesmo assim é o que mais gosta de fazer – depois, claro, de dar um bom beijo na Bel (Ct 1,1 e passim).

 

Bateram-me os olhos em Gn 2,10: um rio saía de Éden, para regar o jardim e de lá se dividia formando quatro braços. Dias depois, me dei conta de que os versos 10-14 parecem ter ares de estarem completamente fora de cena – o que poderia significar que algum escriba lá pelos idos dos séculos mais próximos de Jesus tivesse ali inserido o pequeno texto de rio, braços e nomes de rios, na forma de um midrash: um comentário interpretativo ou mesmo um novo fôlego acrescentado ao texto mais antigo. Isso, contudo, foi dias depois; naquela hora, ali, enquanto ia lendo o verso, minha cabeça enxergava outra coisa...

 

É a forma de o texto dizer o que diz que me fez ver coisas. O fato é que essa afirmação de que um rio saía do Éden, mas que logo se tornava em quatro, zuniu entre minhas orelhas e me transportou para momentos de reflexão mágica, uma terra pululante de paisagens da fenomenologia religiosa e da comunhão cristã de útero e próstata, coisa visceral mesmo, lá de dentro...

 

 

Um rio saía, em quatro braços se tornava – fenomenologia e hermenêutica!

 

 

Na minha alegoria sobre o midrash, pensei na infinitude de Deus, no seu tamanho inimaginável, na sua inefabilidade, na sua inescrutabilidade, na sua impenetrabilidade, na sua inexorabilidade – e vou aqui tentando usar palavras complicadas mesmo, para até ilustrar a insondabilidade de Deus. Quem somos nós? Que de Deus entendemos nós? Que de Deus sabemos? Que de Deus vemos? Que de Deus controlamos? Nós, pontos de barro sob o kâbôd de um nigérrimo céu estrelado – quem somos nós sob o peso desse Deus que é tanto maior que aquele céu quanto menor o somos?!

 

 

E, no entanto, quanto falamos de Deus! Ah, quantas palavras! Quantas teologias! Quantas doutrinas! Quantos Credos! Quantos dogmas! Quanto barulho! As montanhas entram em trabalho de parto – e eis nasce um rato. Tanto esforço para dizer Deus – para pôr Deus no papel e no livro, mas Deus não cabe lá, não cabe em parte alguma – tudo é que cabe nele 10infinito vezes! Deus é esse rio enorme, caudaloso, o Amazonas é um fiapo e todos os mares, gota; Deus, não, Deus é todo rio – e um só rio.

 

Deus é o rio e um rio enquanto Deus em si mesmo, sombra e luz, tudo e nada, preto e branco – indefinido eternamente infinito. Os homens, contudo, não têm para si esse Deus, que é o e um rio. O que têm são suas impressões das águas que passaram e passarão – experiências e esperança. O que têm é sede (Sl 42,1-2), posto que apesar das muitas águas desse rio a sede teima e está eternamente na garganta e na língua dos que nelas molham os pés. Os homens e as mulheres têm desse rio tantos braços quanto são os homens e as mulheres que molham nele os pés. Cada homem e mulher experimentam desse rio como um braço. Deus é um rio – mas os homens e as mulheres o recebemos como braços desse rio, que se divide infinitamente quanto infinitamente se multiplicam os homens e as mulheres.

 

Feuerbach tentara nos dizer isso, mas estávamos nos afogando no rio que criamos (criar para nós rios é algo que Tillich chama de idolatria, e ainda que para muitos, Tillich lá não tenha coisas a dizer, isso que disse é coisa, sim, que se diga e sobre o que se deva pensar!). Em lugar de nadarmos no braço que podíamos, pensamos que podíamos nadar no próprio rio. Precisou Otto e Eliade nos alertarem para o fato de que não é que dizer que o que temos é um braço do rio – e não o rio – signifique dizer que o rio mesmo não esteja lá, além do braço, inalcançável, mas lá, intocável, mas lá, inapreensível, mas lá – posto que o braço cá está justamente por conta disso! Dizer que o braço de rio em que nos banhamos não é o próprio rio é apenas dizer que uma coisa é o rio em si, outra, a idéia humaníssima que fazemos dele. Assim é porque homens e mulheres somos construtores de braços de rio – fabricamos nossa imagem do próprio rio, encharcados de memória e esperança.

 

Otto e Eliade nos ensinaram a nos contentarmos com o braço do rio, a nossa hermenêutica vital, incontornável forma de ser gente. E nos deram a possibilidade de amar profundamente Feuerbach, o tocador do shofar filosófico dos ouvidos modernos. Hoje sabemos que há um rio, sim, belíssimo rio, mas que o que nos toca dele são os braços em que se divide, os quais esses sim nos molham através das águas de nossa hermenêutica vital – quando falamos “Deus”, falamos da nossa hermenêutica, falamos do nosso braço de rio, que sai do rio, mas é nosso, nasceu lá, mas corre cá, corre onde correm nossos olhos, mãos, pés e coração, mente e útero e próstata. Deus, o Deus-rio nos criou; nós criamos nossos braços de rio para tentar falar do Deus-rio-Criador: o perigo é, tomando que tomamos daquelas águas, cuidarmos beber destas.

 

 

Um rio saía, em quatro braços se tornava – fraternidade e história!

 

 

De repente somos todos mais iguais do que imaginávamos, mesmo mais do que gostaríamos. Homens e mulheres de linha teológica crítica; homens e mulheres de linha teológica confessional; conservadores ou não, críticos ou não, evangelicalistas ou calvinistas, fundamentalistas ou arminianos, todos nós somos iguais – criamos nós os nossos braços de rio assim que vimos (como?) o rio. O rio é um – já sabemos – mas quatro (milhões de milhões) são os braços em que esse rio se divide quando toca a Terra e o povo da Terra.

 

De repente descobrimos que o braço de rio do teólogo crítico ele o criou para si, contornou-o com pedras e encheu-o de alpondras, para ir para lá e para cá; pôs um pier, alugou barcos; nada nele muitas vezes, criou-o para isso, para deleite e gozo. Subitamente descobrimos que também o braço de rio do teólogo confessional foi cavado por ele mesmo, com as próprias mãos, descalço ele, posto que cavava justo a terra (que é) santa; não pôs pedras nem pier, que seu braço de rio não é para coisas que tais; mas ama o seu braço de rio como ao seu próprio o ama o crítico – os dois amam cada qual o seu próprio filho e umbigo. Claro está, sempre falando de teólogos e de teólogas!

 

Descobrimos isso. Descobrimos que se por um lado o rio é um só saindo do Éden, os braços em que se vai dividindo vão assim sendo abertos na vida pelos homens e pelas mulheres que nos vamos banhando nesse rio – rio que, contudo passa, não fica, vai embora, não pode ficar, não podemos reter as águas desse rio, nada pode, só a lembrança do banho fresco, aleluia! E cada um de nós, banhados no rio, guardamos dele apenas a memória – o braço de rio. E eis então que o braço de rio que guardamos – as águas mesmas foram-se – é memória, e não o próprio rio. Memória que é em tudo útero e próstata como nos ensinara Feuerbach, porque ele nos disse que teologia é antropologia, os narizes que se torcem e os cenhos que se franzem podem estar a confundir o rio com os braços que se formam nas mentes humanas... Só por isso se torcem e se franzem cada um a seu tempo e modo.

 

E se memória são, são nossas! Não do rio. Memórias confessionais, memórias críticas, memória arminianas, memórias calvinistas, sistemáticas e bíblicas, do Antigo e do Novo, das Introduções e das Teologias de um e de outro – tudo memória, tudo nosso – e nós, do rio. E se memória, que diferença há entre tantas essas memórias? Como se pode comparar memória com memória em relação ao rio? Como medir? Como pesar? Como demonstrar? Como distinguir senão pelo gosto, a língua prova, hum que gostoso! e pronto, gosta-se disso e não daquilo. Para esse, aquele tem mau gosto porque não gosta disso e sim daquilo; o que este dirá igualmente do primeiro – mas tudo isso é o que é: questão de gosto – um de ir até o fundo, outro de nadar na beirada, outro nem sequer de água gosta... Tudo braços de rio.

 

Essas memórias precisam de fraternidade. De tolerância pelo menos! Se os construtores de braços de rio que somos não estivermos próximos o suficiente da nascente do rio, para amarmo-nos um pouco, que pelo menos reconheçamos que todos têm ao fim e ao cabo apenas braços de rio, e que o verdadeiro rio é que tem a todos, para lavar ou afogar conforme o caso (mesmo aqui falo como de um braço de rio, posto que de Deus mesmo, como falar?). Prioritariamente amor! Pelo menos tolerância! Tolerância não do superior pelo inferior, mas que nasce da humildade de reconhecer que nosso braço de rio é até bonito, mas que outros rios correm, um é o Eufrates, outro o Tigre, perto até esses dois pelas bandas da Mesopotâmia, mas lá embaixo, na Etiópia (?[Cush]) e na Arábia vão correndo outros tantos, o Fisom e o Geon pelo menos.

 

 

Um rio e tantos braços – teologia e tolerância

 

 

O rio que é um é Deus – tão inefável que aqui apenas posso fazer que falo dele, quando na verdade todos já sabemos que é da minha compreensão que falo, mas que fazer?! Os braços de rio são as nossas teologias, expressões de nossa fé. Sim, fé é teologia e não há fé sem teologia – ainda que haja teologia sem fé. Fé é humaníssima expressão teológica, posto que para se aplicar ao objeto a que se dirige deve primeiro criá-lo hermeneuticamente. O rio passa por nós; criamos nosso braço de rio particular, com condomínio e tudo – e agora nos pomos a filosofar sobre ele – eis teologia! eis o filhote neoplatônico entorpecido!

 

Assim, uma coisa é Deus; outra, a compreensão que temos dele. São coisas distintas. Ligadas por um breve e sutil instante no tempo-espaço (ou fora dele). Deus é pura sombra indiscernível – enquanto que nossas teologias, esforçando-se com toda mística que seja, são perfeitamente discerníveis na História, na nossa História, ontem, aqui, ali, têm todas Certidão de Nascimento, RG e CPF. Deus não é teologia. Teologia não é Deus. E o que temos é só teologia. As nossas. As teologias de que gostamos. Brinquedos nossos. Como os de Natal, quando éramos o que nunca deveríamos ter deixado de ser – crianças que esperam a noite, porque depois da noite chegam os presentes...

 

Contentes com isso, sejamos amigos uns dos outros, sem vaidade nem rancor, sem ódio nem medo. Como crianças, façamos nossas teologias, as de que gostamos, brincando nas águas dos braços de rio que vamos criando. Teologia é coisa para crianças, não para adultos. Adultos estragam a teologia. Adultos matam e ferem por teologia. Afogam-se mutuamente em seus braços de rio. Quando não se afogam mutuamente, fazem confrarias cujo eterno ritual de iniciação é o afogamento da diferença. Crianças não. Crianças brincam e riem e pulam e fazem bolhas na água. Não gosto de teologia de adultos. Elas ferem. Gosto de teologia de crianças. Elas divertem.

 

Adultos ferem com teologia porque usam rótulos. Os rótulos são como alvos de arco e flecha: nos rótulos acertamos nossas flechas certeiras, de ponta esmerilhada, com cicuta e cianeto. Crianças não usam rótulos. A massa informe de barro que Yahveh modela entre os dedos não tem rótulo – é puro barro; o comum de tudo é (o) rûah soprado, a vida infundida, o sangue, a seiva, a saliva. Sem rótulos. Um. Todos. Barro e rûah – eis o que somos. Não somos os rótulos. Somos o que somos. São todos o que são. “Amas-me?3”.

 

Se fecharmos os olhos e ouvirmos dentro de nós, ouviremos duas vozes e um som. A voz de adulto – ela grita e quer: cuidado com ela! A voz de criança chama-nos para nos banharmos no rio (elas, as crianças, sabem que são braços de rio, mas vão imaginando; imaginação é coisa das boas entre as crianças... À voz de criança de nossas (in)consciências – prestemos atenção!

 

E o som? Ah, sim, ouvíramos um som também: é o som das águas do rio. Lá longe, lá fora... Se pararmos tudo, se silenciarmos tudo, se acalmarmos tudo – principalmente se baixarmos nossas armas – ouviremos um murmurejar de águas entre as pedras... Som de rio, incessante som, interminável rio... A vida ser-nos-á infinitamente melhor, se ousarmos suspeitar (imaginar!) que são rumorejos de águas de um rio a nos lavar pecados inconfessos...

 

Lavados assim, como crianças, vamos brincar nos nossos braços de rio, que se não têm esses poder rumorejante de lavagem, têm o encanto maravilhoso de nos fazer a vida mais alegre e melhor.