Um menos dois é igual a menos um

coisas sobre crises, brisas e raios de sol

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

 

Lembro-me daquela manhã como se tivesse acontecido ainda ontem, como se o sol ainda entrasse pela vidraça da escola. Era a quinta série – ô, quinta série esperada! – e agora eu era um aluno do ginásio! Sabe lá o que é isso?! Agora é que eu ia ver como era sabido...

 

Primeira aula de matemática. Caderno sobre a carteira, folheia que folheia para achar a seção reservada para  m a t e m á t i c a, caneta à mão. Lá na frente, a professora escreve no quadro-verde (não sei por que chamamos de quadro-negro se a lousa é verde!) [deve ter sido feito de lousa preta no passado...]; a professora escreve a hierofania: “1 - 2 = -1” (um menos dois é igual a menos um).

 

Começamos mal a quinta série, uma professora que nem escrever contas sabe. A besta quadrada levanta a mão e se mete a ser a besta que é: “_ Professora! A senhora inverteu aí, ó! É 2 - 1 = 1!” Já se sabe no que deu. “_ Não, menino [é o que me salva; era um “menino”]. Assim está certo: 1 - 2 = -1”. Deus do céu! pensei calado – lascou-se!

 

As séries anteriores não me haviam preparado para essa hierofania. Hierofania, sim, porque aquilo foi uma revelação no sentido mais profundo da palavra – arrancavam-se de meus olhos cortinas e cortinas, e depois de uma relativamente longa jornada no mundo da matemática concreta, descobria eu, ali, sem ninguém me avisar nem preparar, que a matemática nada tinha de concreto, e que o menos um passaria a ser tão real quanto o um (agora, mais um).

 

Os caminhos da matemática guardariam ainda outras surpresas – como a gente ter que descobrir, novamente ao contrário do que aprendera, e agora no segundo grau, que existe, sim, raiz quadrada de número negativo, ai! ai! ainda que menos com menos dá mais – mas desde o um menos dois é igual a menos um, as demais crises seriam crises anunciadas. Pelo menos as crises da matemática.

 

 

As crises da fé-teologia

 

 

E a fé? Há crises da fé? Quero dizer, momentos-limites como esse do 1 - 2 = -1, mas na fé? Ó, sim, há momentos-limites na fé, em que as crises eclodem. Há, contudo, que se estabelecer uma necessária – incontornável, diria – distinção entre os vários sentidos possíveis com que a palavra fé pode ser e é usada e, nesse caso, perguntar pela instância da crise na fé.

 

Crises de fé são momentos como aquele momento em que eu descobri que, ao contrário do que eu pensava – porque assim me havia sido ensinado – existe a possibilidade matemática de se subtrair dois de um, caso em que o resultado será um número negativo: menos um (-1). Ora, ora! Então logo de cara uma intuição me salta aos olhos: há crises de fé no sentido de fé enquanto uma coisa que eu aprendi com alguém. Quero dizer que eu aprendo algo sobre Deus e/ou sobre as coisas de Deus, e isso que aprendo, aprendo-o com alguém, seja a família, a escola, a “rua”, a vida, a igreja, a escola bíblica; qualquer “alguém”, formal ou informal, institucional ou coloquial – “alguém”. Isso que eu aprendo como a coisa a ser aprendida, e que guardo agora como o meu dois menos um é igual a um, isso pode ser chamado de fé. Fé como “proposição” e “confissão” de conceitos religiosos. Fé como idéias sobre Deus e/ou as coisas de Deus. Fé como doutrina, como dogma, como teologia. Fé como coisa que se ensina e se aprende. Fé como “coisa”.

 

Esse tipo de fé é de que trata o livrinho de Judas. Todo o livrinho trata de fé como coisa ensinada. Leiam-se lá as expressões: “fé que de uma vez para sempre foi entregue aos santos” (v. 3b), ainda: “quero lembrar-vos, se bem que já de uma vez para sempre soubestes tudo isto” (v. 5a), e: “mas vós, amados, lembrai-vos das palavras que foram preditas pelos apóstolos (...) os quais voz diziam” (v. 17-18b). Observem-se as palavras “fé (...) entregue”, “lembrar-vos (...) soubestes” e “lembrai-vos das palavras (...) diziam”. Em Judas, fé quer indicar para um conjunto de coisas ensinadas, de doutrinas transmitidas, de teologias sistematizadas. São coisas ditas e ensinadas uma vez e que devem ser lembradas sempre. Coisas que podem ser ensinadas, evocadas e lembradas.

 

Diante de uma fé assim, quando vem a crise? A crise vem quando essas coisas ensinadas não dão mais conta de explicar parte da realidade, ou ainda quando a “professora” escreve no quadro um menos dois é igual a menos um. Claro que a fé enquanto doutrina, enquanto coisa que se aprende desde a classe de catecúmenos – as instituições religiosas e confessionais, todas, sem exceção, têm seus sistemas de ensino tradicional [e mesmo instituições não religiosas, como partidos políticos e até escolas “científicas” (escolas de filosofia, de sociologia, de psicologia, etc.), de forma que nada há de necessariamente ruim no ensino confessional institucional – a fé, portanto, enquanto convicção religiosa pode enfrentar questionamentos adequados à sua configuração, e não questionamentos da matemática! Só estamos usando o 1 - 2 = -1 como exemplo. O que há de comum entre fé e matemática, é que ambas são conjuntos de proposições que se vão aprendendo e a respeito das quais, muitas e quantas vezes, se pode chegar à conclusão de que estão com ligeiros problemas de adequação – para não dizer no português “bem dizido”: podem estar erradas.

 

Os cursos de Teologia são ambientes especialíssimos para a eclosão das crises de fé. É natural, porque aquilo ali é (deveria ser!) uma escola. Para ali vão (deveriam ir!) estudantes para estudar [não alunos para aprender]. Cada estudante chega ali com sua fé – bem entendido, seu conjunto de informações confessionais sobre Deus e/ou as coisas de Deus, suas doutrinas, sua teologia, seus dogmas. Aprendeu-os na sua igreja, com seus pais, com seus pastor ou sua pastora, leu-as nos livros, viu-as na TV, não importa. O que importa é que ali chega o estudante com sua fé – carregando informações doutrinais aprendidas no processo confessional de ensino.

 

Eis o palco preparado para a crise. E ela tem de vir. Se não vir, não é esse o palco propício para as encenações programadas. Se o estudante não vai ali para confrontar-se com os um menos dois é igual a menos um da fé, então continuará, digamos assim, na quarta série. Para ir para a quinta série, vamos usar assim de metáforas e de comparações, para “passar de ano”, terá de deixar que a professora escreva no quadro-branco com Pilot que as fórmulas teológicas da quarta série devem ser necessariamente superadas (como diz Hb 6,1-2), e que a quinta série (e depois o segundo grau, e mais distante ainda, a faculdade, a pós-graduação, o doutorado e os pós-doutorados; cf. 1 Co 13,12 para cursos além desses graus) exige novas fórmulas, porque uma são as equações de primeiro grau, outras, as de segundo, e outras ainda as de terceiro grau – em cada uma delas, devemos estar preparados para descobrir, sempre, absolutamente sempre, que um menos dois é igual a menos um.

 

São tanto fórmulas novas a que precisamos ir nos adaptando (Rm 12,2), quanto novos níveis de maturidade a que nos vamos aproximando (1 Co 13,11). São as crises incontornáveis do amadurecimento humano. Digamos assim que essas crises são portais pelos quais é imprescindível à vida passar...

 

Se a professora escrever no quadro algo assim como um menos dois é igual a menos um, não precisamos ficar calados, não. Podemos cair na “tolice” do menino apressado e feliz a levantar a mão apressada e feliz e a dizer tolamente que não é assim, descobrindo que é assim, sim, e que ele vai ter que fazer uma faxina no quarto da matemática – façamos a nossa faxina no quarto da fé, que é o quarto da teologia, da doutrina, do ensino religioso, do dogma. Se esse quarto não for constantemente limpo, abertas as suas janelas, que entre ar, a deliciosa brisa de ar fresco, a luz, raios saltitantes de vida desse sol de Deus, ah, se não abrirmos as janelas e deixarmos entrar ar e luz, esse quarto da fé-doutrina torna-se bolorento, cria mofo nos cantos, teias de aranha por toda parte, pó e poeira, camadas de pó e poeira; ácaros acumulam-se numa orgia de comer restos de pele morta, bactérias proliferam-se, a cem, a quinhentos, a dez mil por um! Ou o quarto da fé – o quarto da doutrina e da teologia – está sempre aberto e arejado, ou o habitante desse quarto corre sério risco de adoecer, definhar e morrer – e o que é pior, de levar outros consigo a deitarem numa cama de escaras...

 

Falamos de risco, claro, não de fatalidade. É natural que uma pessoa de fé – fé nesse sentido de assimilação de um corpo tradicional de doutrinas – se apegue tão firmemente a essas formulações que sequer aceite ler as palavras do quadro-branco... Não há problemas com isso, há? Penso que não, desde que essa decisão não importe em juízos de valor apressados e condenações arrogantes lançadas sobre a fé ou a crise de fé de outras pessoas que leram as fórmulas no quadro-branco. Pessoas humildes de espírito poderão se agarrar a sua própria fé, sem necessariamente imaginar a possibilidade de condenar a dos outros. Cuidado devemos ter todos quanto lermos coisas escritas em quadros-brancos por professoras da quinta série é com pessoas “convictas” de suas fórmulas “matemático-teológicas”, corretíssimas e inerrantes todas, e a tal ponto convictas estão que se postam a expelir pelas ventas bulas excomungatórias após encíclicas condenatórias ad maiorem Dei gloriam!

 

A crise de fé é, pois, uma coisa naturalíssima. Mais do que isso – ótima! Ainda mais – necessária! É o arejar do quarto, o iluminar dos raios do sol. A brisa sempre refresca a nossa percepção, e os raios do sol sempre iluminam nossos olhos: poderemos assim ver melhor – talvez. Aliás, como diz em um certo lugar: “o indivíduo deve aceitar a responsabilidade de estudar a Bíblia com a mente aberta” (desconfio que isso esteja escrito nos Princípios Batistas, ali pelo capítulo I, na seção 2 – é ir lá e checar). Brisas matinais e vesperais, vinde refrescar-nos a cachola! Raios de sol, invadi nossas órbitas – iluminai-nos por dentro! Xô, mofo!

 

 

Há crises na fé-experiência?

 

 

Fé, contudo, não é apenas uma coisa que se aprende na igreja, uma doutrina, uma teologia, um dogma. Há, antes desse, um sentido primário para fé – experiência. Talvez essa seja a fé. E devemos refletir um pouquinho sobre a fé enquanto experiência.

 

Essa fé consiste no reconhecimento de uma experiência de sentido último. Essa é uma forma filosófica para se dizer uma experiência com o Sagrado – que a seu tempo é uma forma fenomenológica de se dizer: um encontro com Deus (que é a forma piedosa de se dizer ter fé). Em todas essas linguagens está uma tentativa de expressar o que não pode ser expresso – o encontro entre o humano e o divino (aqui dito em linguagem teológica). O homem não tem a mínima chance de expressar-se a respeito do Sagrado. Deus não cabe nos olhos do homem e da mulher. Não cabe em seus ouvidos, nas mãos deles, no coração. Não cabe. Deus não pode ser captado pela razão humana – que nada capta, mas a tudo tenta dar sentido. Deus, logo, não pode ser compreendido, respectivamente, explicado. Não há, em última análise, palavras sobre Deus. Porque Deus não cabe nas palavras. A Palavra “Deus” em si mesma é uma ambigüidade – necessária, mas ambígua. “Deus” é uma maneira de nos referirmos ao que não pode ser apontado.

 

Mas que apontamos...

 

A questão é: para onde apontamos? E, então, justamente aí, quando apontamos, quando tentamos indicar Deus, quem é, onde está, como é, o que faz, do que gosta, o que pensa, essas coisas de cartilhas e catecismos, é justamente nesse momento que a fé-enquanto-experiência é substituída pela fé-enquanto-teologia (doutrina). Nós homens e mulheres passamos, então, quando falamos de “Deus”, a falar da nossa opinião sobre Deus – opinião (= teologia = doutrina = dogma) que aprendemos em nosso meio religioso (casa = igreja = escola bíblica = seminários). Quando estamos falando de Deus, já não se trata mais da experiência de fé, a fé instauradora de sentido – o encontro com o Sagrado – mas se trata agora de fé enquanto teologia e doutrina – do encontro conosco mesmos – e, convenhamos, Deus não é teologia nem doutrina. Deus não é nada que possamos manipular, seja com o pensamento, seja com a boca, seja com as mãos.

 

É só tentarmos falar sobre Deus que mudamos de tipo de fé – saímos da fé-experiência e passamos para a fé-doutrina. Como a crise é uma crise de fórmula, de explicação, de coisas que nos tinham ensinado, mas que na verdade são diferentes do que nos haviam ensinado, a crise então só é possível na fé-doutrina, não na fé-experiência. Crises de fé são sempre crises de ensinamentos, de doutrinas, de compreensões, de “verdades” eclesiásticas. Não vale a pena matar e morrer por elas. Nunca. Mesmo porque são coisas boas em si mesmas – arejar quartos e iluminar o ambiente é uma das coisas mais gostosas numa casa!

 

Uma advertência necessária poderia ser nos lembrarmos de que é a fé-teologia que vai dar sentido racional para a nossa fé-experiência. Em si mesma, a fé-experiência não tem sentido. O encontro com o Sagrado é uma experiência situada no nível da irracionalidade e da inefabilidade. Demanda, contudo, ser interpretada, explicada. Deve ser por isso que em outro lugar daquele mesmo lugar se diz que “a fé verdadeira busca compreensão e expressão inteligente” (Princípios Batistas, V, 7). Fé, aí, consiste na experiência com o Sagrado, e o mais que se diz consiste no esforço pela interpretação dessa experiência. O que é existencial é a experiência, inefável. O que é circunstancial e histórico, o que é teológico e relacional – e, por que não? racional – é a explicação da experiência (Rm 12,1; 1 Pd 3,15). Essa explicação que nós construímos ou que nós recebemos pronta do meio religioso em que estamos inseridos, ah, amados, essa explicação deve merecer não uma, mas dezenas de fórmulas durante toda a vida, muita brisa e muitos raios de sol, porque é fácil, extremamente fácil, a gente fechar as janelas e cultivar bolor no colchão.

 

 

Crises e oportunidades

 

 

A fé-experiência determina a fé-doutrina no sentido de que esta se inicia como tentativa de explicar aquela. A primeira não tem boca, não fala – e mesmo se lhe tentam dar uma boca, não sabe falar. É a segunda que deve – e se esforça para isso – tentar explicar a experiência fundamental da fé, o encontro com Deus, a percepção do sentido último da existência. Cuidado: dissemos “tentar explicar”. Trata-se de um esforço, de uma tentativa. Não há garantias de que sejamos eficientes e eficazes enquanto seres que tentam explicar o que consideramos inexplicável, e que ainda assim tentamos explicar porque não podemos deixar de falar sobre o que temos visto e ouvido – mas é sempre o que nós vimos e o que nós ouvimos, numa dimensão em que ver e ouvir é pura metáfora.

 

Quantas vezes devemos tentar explicar aquela experiência? Sim, aquele encontro com Deus... Uma? E essa uma vez dá conta? Penso que não. Duas, então? E duas tentativas de explicação são suficientes? Dão conta? Não, não, não. Nada de estabelecer limites. O jeito é viver atento às oportunidades. Viver como se cada dia a professora entrasse na sala de aula da vida e escrevesse na nossa retina: um menos dois é igual a menos um. Viver voltando sempre à quinta série. Viver (re)aprendendo – sabendo sempre que aprendemos para (des)aprender.

 

E quando na sala da nossa vida não entrarem mais professoras da quinta série, talvez tenhamos encontrado a paz, paz de olhar para a folha do dente-de-leão ali, aquela ali que cismou de nascer bem debaixo da torneira, no quintal. Se não nos entram mais professoras, que seja só por isso – porque nos contenta a folha do dente-de-leão. Verdinha e fresca como a vida deveria sempre ser...

 

Se, contudo, as folhas do dente-de-leão ainda não nos falam suficientemente do viço da vida na altura de a irmos deixando pouco a pouco, e se as professoras que nos entram vida adentro não querem escrever coisas como um menos dois é igual a menos um, das duas uma: ou mudamos de escola, porque queremos as fórmulas – às fórmulas! – ou pedimos com todo jeito do mundo:

 

Ô, professora, bota umas fórmulas aí, vai...