Teologia (oficialmente) Reconhecida!

Temores e desafios

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

 

A Universidade brasileira abre finalmente as portas à Teologia. Parece que se dá conta, agora, de que tanto a religião constitui parte indissociável da sociedade quanto a Teologia não pode ser deixada de fora no esforço de compreensão humana da cultura, da vida, dos homens. Até “ontem” a Teologia fora relegada aos cursos livres... Pelos menos aqui no Brasil – já que, em muitos lugares do mundo, a Teologia era (mesmo ainda) uma das cadeiras mais importantes.

 

Justiça seja feita: já havia sido aberta a porta do “andar superior”, e por ela chegaram a entrar não apenas “religiosos”, mas “pesquisadores” também. Sim, refiro-me ao fato de que, já há algum tempo, o Brasil tenha criado seus cursos de Pós-Graduação em Teologia [e mais recentemente ainda, os cursos de “Ciência(s) da Religião”]. O exemplo veio “de cima” (a Pós-Graduação), e eis que “agora”, então, seguindo-lhe os passos, o andar térreo (a Graduação) reconhece a Teologia como uma disciplina a ser regida pelo Sistema Federal de Educação. A Teologia, agora, vai merendar como a Filosofia, com a Psicologia, com a Sociologia e com todas as outras “filhas” emancipadas. Nem todo mundo ficou contente com isso...

 

Não se pode mesmo, nunca, agradar a todos: há queixas e queixosos. Para estes – e todos têm tantas e suas razões por que se queixarem – há um risco terrível rondando... rondando? Rondando nada, já entrou porta adentro, e a Teologia, indefesa, vai virar presa do “governo” e do “mundo”! Não deixam de ter uma certa – e boa – dose de razão esses queixosos, porque é claro que a Teologia não será mais a mesma daqui para frente. Se nós, simples mortais, quando entramos numa “Faculdade”, vamo-nos mudando por dentro – e por fora! – quanto mais a Teologia não vai lá sofrer suas “transformações” mesmo porque a Teologia não é a mesma desde Parmênides, Justino, Tillich... Mudam-se os homens, muda-se a Teologia... Mas alto lá! Não é de se dizer, também, que a Teologia vai deixar de ser Teologia, porque a Teologia passou por Voltaire & Cia., aprumou-se, ajeitou-se, ouviu umas poucas e boas, disse-as também, vai muito bem, obrigado, e não vai ser agora, justo aqui no Brasil, só porque o MEC resolveu tratar a Teologia como “cidadã”, que a Teologia vai deixar de ser Teologia... Não, não. Acho que vai ser bom para todos – para a Teologia, para o Brasil e mesmo, em longo prazo, para os queixosos...

 

Há, pois, eu acho, dois grupos muito específicos que, num primeiro momento (que se vai virando “horas”) não ficaram lá muito satisfeitos com o título de cidadania da Teologia – um grupo de “religiosos”, e um outro grupo, de “acadêmicos”. Para os primeiros, o MEC pode acabar ditando regras para a Teologia. Uns falam de “ingerência” do Estado na Igreja, outros, de “mundanização” mesmo, e já oram, ciosos do final dos tempos... Os do outro grupo chegam a temer a perda da “objetividade” da pesquisa em Ciências Humanas, porque a Teologia lhes parece um punhado de idéias metafísicas que Feuerbach já teria tratado de sepultar; de cujo “espectro” Nietzsche teria dignamente atestado o óbito; cujos fundamentos materiais Marx já teria denunciado, é só uma questão de tempo; e, finalmente, cujos diagnósticos psicossomáticos Freud já descrevera, inclusive indicara tratamento...

 

Felizmente, também eu acho, são “grupos”, e não são, nem de longe, representativos da opinião nem dos “religiosos”, nem dos “acadêmicos”. Religiosos há que vêem com bons olhos que a Teologia possa, finalmente, sentar-se à mesa, e, igualmente, acadêmicos há que, desde há algum tempo, sentiam falta dela. De minha parte, conto-me entre os dois grupos, como “religioso” que sou, e como “acadêmico” que me esforço para ser (é que o “religioso” nasce feito...).

 

Interessa-me, contudo, apontar para riscos, sim, a que a Teologia está sujeita depois desse abraço do MEC. Inverto, porém, as perspectivas. Quero refletir sobre o risco em que “religiosos” e “acadêmicos” podem constituir-se para a Teologia. Não é o fato de a Teologia sentar-se à mesa que me preocupa, mas uma certa etiqueta de alguns dentre os comensais...

 

Um risco que a Teologia corre diante de certa postura de “religiosos” é fechar-se dentro de si mesma. À mesa, a Teologia aí está para dialogar, não para se impor. À mesa, a Teologia deve ser educada. O espírito religioso, contudo, corre o risco de confundir “Teologia” com “Revelação”, pesquisa com fé, e, aí, danou-se... Uma Teologia-que-se-considera-Revelação é um desastre à mesa, porque não terá o necessário “espírito” de diálogo. Para que a Teologia dos “religiosos” sente à mesa com os acadêmicos, então, ela tem de tomar-se a si mesma como “pesquisa” (= conjunto de conhecimentos históricos a respeito das reflexões tradicionais de tantos outros “teólogos”). Penso que o religioso pode e deve levar a sério o tema da “Revelação”, mas também acho que o religioso deve ter consciência de que “Revelação” é uma coisa, e outra coisa o conteúdo “objetivo” da “Teologia”. E acho até que muitos comensais da ala das Ciências Humanas têm muito a ensinar ao teólogo sobre aspectos ligados ao tema da Revelação. Sim, porque se na “Revelação” é Deus quem fala, também nela são os “homens” quem ouvem... Se de “Deus” “entende” a Teologia, dos homens entendem as Humanas...

 

Temo também, e não sem menos fundamento, o que podem os “acadêmicos” de certa linha fazerem com a Teologia. Paira no ar, qual borboleta venenosa, de longa língua, uma certa antipatia para com a Teologia. Está bem, reconhecemos que a Teologia fez inimigos na história, e tem gente malferida que não perdoa com facilidade; mas, mesmo deixando de lado os malferidos, tem gente que simplesmente tem antipatia por Teologia. Um caso interessante é o da aproximação “histórica” à Bíblia: há quem não considere “sério” o trabalho de aproximação histórica à Bíblia, nem mesmo com os pressupostos e recursos da “História”, como se a Bíblia, ainda que documento “histórico”, não merecesse a consideração de uma pesquisa séria... Qual será a razão disso? Não será um “preconceito” tão “religioso” quanto o dos “religiosos”?

 

Diante desses temores todos, também tenho pensamentos mais positivos, no sentido de ir construindo um jeito de pensar a Teologia. Primeiro penso numa Teologia feliz em ser quem é. Esse é um problema, porque acho que a Teologia não sabe quem é, exatamente. A Teologia deve assumir a tarefa de desvendar sua identidade. Depois, reconhecimento de seu limite: difícil para uma Teologia que veio do trono (e das armas), e que vem perdendo, dia a dia, espaço e poder. O teólogo deve hoje entrar na sala com muita humildade, e a Teologia deve saber que não tem todas as respostas – e que mesmo as que tem são respostas “suas”, que está construindo. Além disso, reconhecimento de que deve “ouvir”. Falou muito durante os séculos: agora está na hora de ouvir. Ouvir para também falar, porque é claro que tem o que falar! Todos têm o que falar, mas falar “teologicamente” – seja lá o que isso venha a significar – só a Teologia, e mais ninguém. Mas falar teologicamente (e bem) é falar tendo ouvido as outras disciplinas, os outros saberes, “os outros”, e “ouvido” no sentido de: a) saber que há outros “falando”; b) reconhecer que isso que outros estão falando tem “valor”; c) interessar-se por esse valor específico; d) e re-construir-se à luz desse valor ouvido dos outros.

 

Gosto da idéia da Teologia sentar-se à mesa, porque estou aprendendo a sentar-me à mesa. E esse é o ponto, eu acho. A Teologia vai refletir o nosso gosto, a nossa etiqueta. Porque no fundo, no fundo, tudo é uma questão de gosto. Se nosso coração estiver pronto para sentar-se à mesa, a Teologia fará um bom papel nesse almoço; mas se o nosso coração não estiver com vontade de estar ali, eis uma Teologia de nariz em pé desfilando pelos corredores do MEC. Sabendo, portando, que, para sermos aceitos, temos de aceitar, enfrentemos o desafio de nos sentarmos à mesa, teólogos que somos, e o desafio de saber quando ouvir e quando falar, de saber quando é a hora de a Teologia opinar, e quando é a hora de a Teologia ouvir uma opinião. Nesses novos dias que nos desafiam, é re-aprendendo a estar à mesa que quem sabe descobriremos quem realmente somos – nós e nossa querida Teologia...