Sede, sim, e de Deus

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

 

Usemos a imaginação. A corça grita pela corrente das águas. E nós nos perguntaríamos: por que grita a corça pela corrente das águas? Eu me responderia: porque ela tem sede. Sim, isso parece claro, porque logo depois o salmista dirá que tem “sede” de Deus, com o que, se a poesia é construída de inter-relações e paralelismos, os dois, a corça e o salmista, têm sede – ainda que de grandezas e profundezas diferentes. Por que, então, a corça grita pela corrente das águas justo agora, que tem sede...? Eu responderia: vai ver ela já teve sede um dia, já bebeu das águas um dia, quando isso aconteceu, as águas das quais bebeu mataram-lhe a sede, e agora, quando de novo tem sede, porque se lembra de que as águas lhes matam a sede, grita por elas... Se é por isso, não sei, mas faz sentido. Imaginemos que o seja...

 

Então o que teríamos? Teríamos uma corça que no passado teve sede, lá e então bebeu das águas, e a sede “desmaiou”. Agora, aqui e agora, tem sede de novo. Movida pela memória, pela saudade, pela nostalgia, quer das águas. Seu desejo é que daqui a pouco as encontre, beba delas, mitigue a sede devoradora da paz, e fique bem...

 

Temos três “tempos” nessa nossa brincadeira teológica com a corça: passado, presente, futuro. No passado, a sede a o mitigar da sede. No presente, só a sede e o grito pelas águas. No futuro, o sonho de a sede ter sido mitigada.

 

Quero brincar um pouco mais, advertindo que para mim, Teologia se faz de duas maneiras – ou brincando, ou guerreando: opto pela brincadeira, pelo lúdico, pelo prazer, pela vida, o que implica em ser “tolerante”, pacífico, ter boa vontade, paciência... Vamos lá: se o salmista compara sua sede à da corça, ainda que ela tenha sede de água, enquanto ele, de Deus, será no que resulta transportar para a sede do salmista a mesma estrutura de tempo – presente, passado, futuro – em sua relação com Deus e sua sede?

 

Não fico surpreso em constatar que se o fizermos, chegaremos à conclusão de que a sede de Deus comporta-se como a sede da corça por água. Se temos sede, agora, no presente, é porque, ontem, quer dizer, no passado, tivemos uma “experiência” com Deus – gosto de usar a expressão “encontro com o sagrado”. Mas se tivemos essa experiência, por que temos sede de Deus agora? Eu diria que é porque o sagrado não é, em essência, apreensível, capturável. Ele passa por nós, como a água por nossa garganta... mas se vai logo, também como a água. E então sentimos “sede”, como de água, e porque sabemos que Deus mata essa sede, queremos “bebê-lo” de novo.

 

Resulta a surpresa de que Deus está no passado, e, desejamos – temos sede – estará no futuro. Mas, surpreendentemente, a julgar pela comparação do salmista, no presente, não, só sede, só saudade, só desejo...

 

As pesquisas com Fenomenologia da Religião constatam essa “ausência” essencial e natural de Deus no presente. Na experiência humana, o sagrado dá-se a perceber, a “conhecer” – num sentido especial – mas nunca ontologicamente, nunca absolutamente, nunca essencialmente. É capturado pela experiência, traduzido pelas estruturas de interpretação do indivíduo, verbalizado em expressões teológicas... Mas tudo isso resulta em um discurso que é humano, porque Deus mesmo, que Deus é e não discurso humano, fica lá, na experiência, aquela que tivemos, agora há pouco, que seja, ma lá, não cá, porque cá e agora, só sede, saudade e desejo... Gosto desse negócio de Fenomenologia da Religião... Talvez porque tenha sede, muita sede... Romantismo? Misticismo? Fenomenologia!

 

Essa sede tem-na, então, quem teve uma “experiência” com o sagrado – e há inúmeras, talvez tantas e de tantas formas quanto tantos são os seres humanos e suas cabeças-corpos-culturas. É uma sede profunda, no corpo e na alma, no todo em que consiste o homem, e é tão grave que gera caminhos alternativos para um “poço” onde haja água para a mitigar. São, contudo, poços como a da mulher samaritana – boa água, mas apenas água. Ah se ela soubesse...

 

Um poço assim é a ortodoxia. A experiência com o sagrado foi interpretada, objetivada e verbalizada. Virou agora sistema de referência doutrinário e sistema de valores. Parece que tem de ser assim, porque parece que o ser humano é assim, foi feito ou tornou-se nisso que é, e é assim, cria mundos, gera sentido, estabelece valores. O problema é que quando vai sentir aquela sede, pode achar que a pode matar com esse sistema que cria – sistema de doutrinas e de valores. E, pior ainda, pode cismar que sede de Deus só se mata assim, e só com esse sistema, e só com esses valores. A ortodoxia, boa que é, como tudo quanto é bom, pode tornar-se um tropeço – um arrimo falso, por isso mesmo um tropeço...

 

É necessário um sistema de doutrinas; é incontornável um sistema de valores; mas  nenhum dos dois pode permitir-se substituir o “sagrado”, que não cabe neles, que não depende deles, porque eles são desenvolvimentos interpretativos humanos a partir de uma experiência tida como com o sagrado, mas não são nem por isso “o sagrado”. Viva a ortodoxia, se ela é viva! Mas se ela se agarra a si mesma, se se idolatra a si mesma, se se diviniza a si mesma, e se em nome de si mesma pega, mata e come, vade retro...

 

Ah, mas há outro poço – o da utopia. Diferente da ortodoxia, que se agarra ao que aí está, a utopia se agarra ao que não está aí. Tão necessária quanto a ortodoxia, a utopia pode, também, tornar-se um câncer. É boa porque é sonho, sonho que pode catalisar o melhor de todos nós... mas também o pior. Os revolucionários todos eles são guiados por utopias, e viva os revolucionários se são vivos, mas se se agarram a seus sonhos como se foram “os deuses” ou “o Deus”, ai ai! Utopistas há que se fazem de profetas, e misturam seus sonhos com o que seria, também, sonho de Deus, e não sei porque caminhos chegaram a eles, posto que os sonhos de Deus, se chegamos a eles, como saberemos? Mas os utopistas o sabem, muito bem, e só eles, e saiam da frente em nome de Deus aqueles que lhes estorvarem o caminho de realizarem, eles mesmos, os sonhos de Deus, que são deles, profetas... posto que para isso nasceram: saberem e realizarem os planos de Deus (?)...

 

Acho que a sede de Deus impede de nos agarrarmos às ortodoxias e às utopias como se fossem elas deuses-ímas, ou como se fôssemos nós carrapichos. Devemos conviver com as ortodoxias na plena dinâmica das relações indivíduo-instituição, difíceis, sempre. Devemos deixar-nos contagiar pelas utopias, motores fundamentais da caminhada humana pela Terra. Mas acima de tudo, acho que devemos estar sempre alertas para o fato de que a sede de que somos tomados (se) é de Deus, (então) jamais será mitigada, só “desmaiada”, e que todas as ortodoxias juntas e todas as utopias reunidas sequer podem – por mais que sejamos tentados a tanto, e malgrado todos os "profetas" de ontem e de hoje – substituir a experiência inefável, intraduzível, irrepetível com o sagrado.

 

O bom é sentir sede. Diria que nisso se traduz a saúde do espírito.