Sacerdote e búzio

– mística nos arraiais batistas

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

 

Há alguns anos vi-me fiscal de curva de nível numa fazenda em São Paulo. Pegaram-me pela mão e me puseram sobre um trator alugado: “_ Conta o tempo e anota”. O trator cobrava por hora. Agrônomo a pé, mede que mede, o carregador de estacas de bambu andando, finca aqui, finca ali. Numa dessas, o trator empurra um tronco velho e oco. Ruuum! Ruuum! No terceiro ruuum elas vieram – abelhas pra o mundo inteiro tremer. Nunca corremos tanto na vida...

 

Meteram um moleque a cuidar de curva de nível e acabou-se mexendo em vespeiro! E aqui lá vai o mesmo incorrigível moleque a mexer de novo em vespeiro. Tomara que entenda de sacerdotes e búzios mais do que de curvas de nível!

 

 

Sacerdotes

 

 

Sacerdotes e búzios são coisas que não combinam com o nome batista. Quando falo sacerdote, falo do homem ou da mulher que se entende como sacramento. Do homem ou da mulher que pressupõe que seja boca de Deus. Explico – não é que Deus não possa usar homem ou mulher para falar o que quer que queira, quando o queira e a quem quer que queira. Creio nisso. Deus fala através de mula, de azul e nuvens, de anônimos (Jz 13), não vai falar através desse ou daquele? Claro que pode. O problema é quando esse ou aquele homem ou essa ou aquela mulher entendesse como aquela voz divina. Quando homem ou mulher passa a achar que receberam unção que lhes conceda o privilégio de falarem mais em nome de Deus do que outros.

 

Se tomarmos essa presunção como possível, primeiro admitamos que é um mal de que muitos se sentem acometidos ultimamente. Não é mais preciso imposição de mãos para que aqui e ali Deus se ponha a falar. Mas depois de admitida essa primeira percepção, admita-se a segunda – é um tipo de presunção que poderíamos considerar endêmica no metro quadrado pastoral. Os amados irmãos pastores não só se sentem especialmente veículos da ipsissima vox Dei, mas chegam mesmo a proclamar o privilégio em púlpito, cátedra ou sessão como a coisa mais natural do mundo. Fosse apenas uma esquisitice dessas que os idosos as mais das vezes desenvolvem e que deve o jovem compreender, posto que chegará a desenvolvê-las também ele, tudo ia bem. O problema é que com essa presunção põe-se a calar todos os homens e todas as mulheres que, não tendo tido o privilégio de receberem sobre a cabeça outras tantas humaníssimas mãos, coitados, não podem ser boca, só dedo e pé e ouvido – principalmente ouvido!

 

Quando ouço uma afirmação dessas – de que esse ou aquele é o porta-voz de Deus, o ungido, o anjo – ai, ai, confesso que sinto um nó na garganta e outro nas tripas! Mas ao mesmo tempo penso que haja um quê de honestidade nesse coração que fala assim, e que ele ou ela achem mesmo que o sejam. Confundem sua vocação, seu amor, seus sentimentos, sua fé, sua confiança e esperança com a própria manifestação de Deus – não sabem o risco de idolatria que correm? Acredito, sim, que haja dentre esses que se sentem e proclamam sacerdotes do Deus vivo gente sincera que aja assim porque não tem a mínima idéia do que significa ser batista – logo, protestante, historicamente falando. Ainda são padres e não sabem – mesmo que considerem os padres falsos profetas, tratam-se como tais, e de fato o são, teologicamente falando. Na sua sinceridade vão tropeçando e fazendo tropeçar, mas acho que Deus vai ter compaixão deles, porque eu sou um pecador miserável que perdoa as artes dos filhos – quanto mais o Pai de Coração de Mãe não há de perdoar seus filhos que têm febre de sacramento?

 

Fossem somente esses os sacerdotes, estaríamos melhores. Há, contudo, os diplomados! Não digo os que só passaram pelo diploma, mas os que o engoliram, sentiram seu gosto e peso, leram suas letras, entenderam suas proposições – e malgrado o privilégio, cuspiram fora e fecham os olhos. É desses que principalmente temos de nos precaver, nós inocentes leigos sem nome! Um homem ou uma mulher que tendo tido o conhecimento da História, da Teologia, da Filosofia, da Psicologia, da Sociologia, da Antropologia – ainda que rasteira tenha sido a conversa – ainda assim se apresenta como sacerdote – quer no discurso, quer no gesto, quer na impostação da voz, quer na imposição de si mesmo, nos mandos e desmandos, quer na igreja, quer na família, ora, ora, temei inocentes batistas, incautos leigos! Em lugar de dar graças porque tendes um profeta, lamentai o embusteiro!

 

Nós batistas não cremos no sacramento da ordem. Ou cremos? Temos entre nós pequenos resíduos sacerdotais? Ou cremos nós que entre nós há somente homens e mulheres igualmente irmãos, igualmente acessíveis ao trono, porque definitivamente o véu rasgou-se para todos? “Jesus Cristo é o único Mediador entre Deus e os homens” – eis o que pregamos (DDCBB, II.2 § 2). Ao lado disso, ratificamos: “Ser pessoal e espiritual, o homem tem capacidade de perceber, conhecer e compreender (...) a verdade revelada, e tomar suas decisões em matéria religiosa, sem a mediação, interferência ou imposição de qualquer poder humano, seja civil ou religioso” (DDCBB, III). Quando votamos na 67ª Assembléia da CBB que há entre nós escolhidos, chamados e separados (DDCBB, XI), estávamos reconhecendo o sacramento da ordem? Ou estávamos simplesmente recordando as três vezes em que, dirigindo-se a Pedro, Jesus implorava: “Apascenta minhas ovelhas!” (Jo 21,15.16.17)? Não concluímos assim, logo adiante, que cabe ao “ministério docente da igreja, sob a égide do Espírito Santo” a instrumentalização da Palavra de Deus (DDCBB, XIV)? Acho que sim. Acho que nos faz bem um homem ou uma mulher que por amor de Cristo nos apascente – não esquecendo um nem outro que apascentar é uma metáfora e que nós batistas não comemos grama nem pastamos, gente que somos, de carne e osso, como o Jesus dos cordeirinhos... Acho que não nos faz bem um homem ou uma mulher que depois de postas mãos humaníssimas à cabeça, à cabeça venham sonhos de sacramento e saudades de velhas ordens medievais, que bonitinhas até em capuchinhos e franciscanos – mas inadequadas a batistas, o Senhor o julgue.

 

 

Búzios

 

 

Ocorre também entre nós – leigos – que não nos bastam sacerdotes: queremos búzios! Terá alguém já investigado donde vem que não nos bastem sacerdotes e que queiramos também búzios, e mais – quando é que, já tendo sacerdotes, corramos atrás de búzios?! Não sei. O que tenho visto é que se copiamos dos romanos a ordem, dos africanos tomamos os búzios. Estou chamando de búzios – poderia falar de bola-de-cristal, tarô, runas, quaisquer dessas coisas com que se que ouvir os deuses! Estou chamando de búzios, mas estou falando da Bíblia – e não sei onde há mais abelhas que não se deve mexer!

 

A Bíblia, contudo, cada vez mais deixa de ser Bíblia, e vai se transformando em búzio. Um búzio é uma concha de molusco. Um sacerdote o joga e ele diz o que os deuses querem e não querem. Muitas vezes a gente está fazendo assim, jogando a Bíblia como búzio: “Fala Deus! Fala!”. Dor de barriga, desemprego, tosse, asma, briga de namorado, projeto missionário, viagem, segredo – tudo queremos que Deus nos diga através da Bíblia. Não faz diferença se é através de Levítico, de Jó, de Tiago ou da terceira de João – o que importa é que o Oráculo fale.

 

Será se a Bíblia foi feita para ser usada assim? Uma oração, um sentimento piedoso, um abrir de suas páginas, um dedo a correr na página, os olhos ansiosíssimos atrás... atrás... aqui! Esse é um território sagrado – perigoso pisá-lo mesmo descalço, mas devemos nos perguntar com toda a honestidade se a Bíblia foi feita para ser usada dessa forma! O que é que no fundo estamos procurando com essa prática, com esse dedo, esse olho, nessa página...?

 

Talvez se a lêssemos – aprendamos; talvez se a estudássemos – desejemos; talvez se a tratássemos como Bíblia, biblioteca, livros – se lêssemos palavras e texto, história e mensagem, talvez os seus princípios fossem suficientes para nossa paz – posto que deve ser a falta dela que nos move dedo e olhos na página. Mas quando nós a tratamos como búzio, não estamos atrás de mensagem nem de história. Os séculos dos séculos com que o Espírito esculpiu cada letra, cada palavra, cada frase, cada texto, materializando ali por meio da vida real dos homens e das mulheres e das crianças reais o caminho a seguir ou a evitar – esses séculos que já milênios vão virando tornam-se pó e nada e coisa nenhuma, porque interessa-nos uma voz, só ela, só essa, minha, para mim, quero-a agora e tenho-a aqui na minha mão!

 

Como búzio não há como diferenciar a Bíblia de mais nada – salvo pela força de espadas e escudo como o foi de fato. Como búzio, por ela fala Deus, diz o fiel. Mas outro fiel de outra fé dirá que pelo búzio falam os deuses – e então é fé contra fé, espada contra espada, os homens pondo os deuses a brigar e dizendo que os deuses é que lhes impõem guerra e morte gloriosa, amém! Não – se usamos a Bíblia como um instrumento oracular místico, fazemos da Bíblia mais um instrumento oracular místico como os há quantas culturas haja – nuns papeis há salmos, noutros, figuras de enforcados, mas todos esses papéis manipulam-nos homens e mulheres em busca duma única e mesma voz que lhes apazigúe a alma.

 

Trata-se a Bíblia como livro, contudo. Seja lida como o deve ser. Seja estudada como pede. É ímpar – não tem par. E não tem par porque os homens a as mulheres e as crianças que a viveram são ímpares. Vida real. Triste ou alegre, boa ou ruim – vida real. É na vida real daquela gente – nossa gente, que a Bíblia torna-se aí sim, insubstituível. Búzios os há em qualquer feira – livro como a Bíblia, que nos arrebata a alma, que nos diz no fundo da alma, que nos mata a sede e nos deixa sempre sedentos, que nos dá vida, mas nos mata também, que acaricia e bate, que nos arranca a alma e nos dá liberdade – onde achar outro igual?

 

 

Pastor e livro

 

 

Como povo – dá-nos, Pai, pastores. Sacerdotes, não, Pai: pastores. Que te amem e que nos apascentem. Que cuidem de nós.

 

Ao pastor – dá-lhe Pai o sentimento que houve em Cristo Jesus, que nada mais queria de Pedro senão que cuidasse – por Ele – das Suas ovelhas.

 

Como povo – dá-nos compreender que a Tua Palavra é Palavra – não búzio. Que na sua história está a vida e a morte, que nos mata o mal em nós e nos rejuvenesce para a vida eterna. Dá-nos a nós teu povo lê-la! Dá-nos estudá-la! Não com o dedo, não com o olho – estudá-la, sim, com o corpo todo.

 

Ao pastor, Pai, dá-lhe ensinar teu povo – nós – a lermos a tua Palavra, a estudarmos tua Palavra.

 

Povo assim e pastores assim, batistas maravilhosos seremos nós.