Pensar, Querer, Sentir

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

"Ao mesmo tempo que a razão é vontade de razão (..), a vontade de realização da razão é - em sentido popperiano - a vontade de realização de uma 'sociedade aberta'. A vontade de realização de uma sociedade aberta, no entanto - note-se bem -, é a vontade de modificação das relações políticas e sociais que se opõem a uma realização da 'sociedade aberta'".

Karl-Otto APEL, Transformação da Filosofia II. O a priori da comunidade de comunicação. p. 171 (lido em 26/05/2006).

Acordei de manhã, e disse para mim mesmo:

 

“Queria que todo mundo pensasse igual...”

 

Achei que era um bom pensamento.

 

Meio dia, almoçando, percebi que havia um problema. Se todo mundo pensasse igual, todos quereriam que todo mundo pensasse igual. Como todo mundo pensa diferente, apenas um pensamento permaneceria, ou à custa da exclusão dos demais, ou na forma de uma salada de frutas, uma supervitamina de pensamento processado. Qual seria esse pensamento igual para todo mundo? Quem o definiria? Quem o julgaria?

 

Antes de dormir, à noite, fui abandonando esse desejo, e dormi já sem ele.

 

Acordei na manhã seguinte, e disse para mim mesmo:

 

“Queria que todo mundo pensasse igual a mim...”

 

Achei que era um pensamento melhor do que o anterior.

 

Meio dia, almoçando, percebi que havia um problema maior. Se todo mundo pensasse igual a mim, então todos estariam pensando que todo mundo deveria pensar conforme o pensamento assim imposto. Para que o “meu” pensamento passasse a ser o de todo mundo, primeiro eu teria que desconsiderar o pensamento de todo mundo, e, depois, sua vontade de que todos pensassem como eles mesmos também. E que garantias tenho eu de que meu pensamento é, afinal, o melhor?

 

Antes de dormir, à noite, fui abandonando esse desejo, e dormi já sem ele.

 

Acordei de manhã, no terceiro dia, e disse para mim mesmo:

 

“Queria que todo mundo pensasse...”

 

 

(...)

 

 

De um lado, a vida tem sido assim: pessoas pensam. Quer dizer, refletem, julgam, criticam, analisam... Desde que o homem é homem, pensa-se. Ultimamente, a espécie humana chegou a requintes do pensamento. Desde o século XVIII, e principalmente no XX, nunca se viu tanta capacidade de pensamento de uma só vez. Resultado? Duas grandes guerras, algumas bombas atômicas, alguns holocaustos, milhares, milhões de mortos. Matou-se mais no século XX, quero crer, do que todas as mortes anteriores, e nada nos garante que, graças ao pensamento, não se chegará a matar mais...

 

Na verdade, o pensamento que mata mata porque é pensamento. O pensamento religioso mata porque é religioso, é divino, é sócio de Deus, porta-voz do Governo, encarnação dele. O pensamento secular mata porque se circunscreve numa lógica interna que legitima a força, e se aparelha tecnologicamente de instrumental de morte. Um escritor quer ver seu livro vendido – imagino se um fabricante de bombas não tem também lá seus desejos de “publicidade”...

 

Quando era religioso, o pensamento matava. A lógica racionalizadora (não necessariamente racional) do pensamento religioso consegue fazer, do Deus da vida, um Deus de morte, do Deus do amor, um Deus do ódio, com justificativa, com súmula, com “razão”, com discurso, com convencimento...

 

Quando secular, o pensamento fez a mesma coisa. Tirou “Deus”, mas manteve a morte e o ódio. Controlou tudo, e quanto descontrole! Talvez seja mais verdadeiro dizer que “fez-se Deus”, e, por isso, “fez-se morte”, porque é mais fácil usar “Deus” para a morte do que para a vida.

 

“Pensar”, enfim, não garante nada...

 

 

(...)

 

 

Hoje acordei, então, pensando sobre o pensamento, e penso na incapacidade de o pensamento se articular para a vida desatrelado do “valor”, da “afetividade”. À abstração do pensamento, deve corresponder a concretude do “outro”. O “outro” deve ser seu (meu) limite, e meu referencial. O “outro” deve ser o critério de controle para o meu pensamento, como Jesus já teria dito, “dar ao outro aquilo que quero receber”, “fazer ao outro aquilo que quero seja feito comigo”, “tratar o outro como quero ser tratado”. Encher então, o pensamento de sentimento, a razão, de afetividade, a mente, de coração, o raciocínio, de amor.

 

Assim, nascerá o respeito. Pensarei, o outro pensará, e o respeito criará entre nós uma relação sim-bólica, não dia-bólica. Se pensarmos de modo diferente, nos recordaremos dos desejos de pensar ou “igual” ou “igual a mim”, e sacudiremos a cabeça, e compreenderemos, afetivamente, “uterinamente”, que é melhor que não haja consenso, mas que haja paz...

 

Assim nascerá a civilidade. Pensarei, o outro pensará, e compreenderemos que a convivência civilizada pressupõe não só que possamos pensar, mas que, pensando, e também tomados do desejo de convivência social conveniente, submetamos nossos pensamentos aos limites do “outro”, ele a mim, eu a ele.

 

Assim nascerá a ética. E já não sei se é necessário, mesmo, um pensamento de fundo para sua instalação, antes que um desejo honesto comprometido com o respeito, a civilidade, a paz. Bastante “humano” o pressuposto da ética: “fazer ao outro...”. Unir, sem confundir, sentimento, isto é, desejo por paz e convivência ética, com a reflexão ética. Reflexão ética sem compromisso afetivo ético faz-se em salas de aula, lê-se em livros...

 

“Esvaziamento”: pensar “forte”, mas para “esvaziar-se” diante do outro. Querer, e saber que o outro quer, e querer que o outro também possa querer. Pensar, e saber que outro pensa, e pensar que o outro deve e pode querer pensar e pensar. Ter a mesma “mente” de Jesus, eu acho, naquele momento em que ele se esvazia de sua condição não-humana, para fazer-se condição humana. Vejo nele alguém que pensou e que sentiu, e que, pensando e sentindo, pensou e sentiu a liberdade do outro pensar e sentir.

 

Somos radicais nesse ponto, Jesus e nós. Jesus, a ponto de morrer por isso. Nós, a ponto de matar... Mas se pensarmos e sentirmos, como Jesus, talvez acordemos todos os dias, tentados a querer que se queira, se pense, e se sinta só o que queremos, pensamos e sentimos, mas com a possibilidade de, vencendo-nos a nós mesmos, vencendo o nosso pensamento, nossa vontade, nossa afetividade, chegarmos a querer tudo isso, mas a querer também que também o outro igualmente o possa. E o círculo virtuoso do respeito, da civilidade, da paz, começará e recomeçará.

 

Pensamos as implicações disso? Sentimos as implicações disso? Queremos as implicações disso?