Mas que Teologia?

– Projetos de Lei para o reconhecimento de “teólogos/as”

Osvaldo Luiz Ribeiro

(O Jornal Batista, Ano CVIII, 06/04/2008, p. 11)

 

 

A Profª Drª Mary Rute G. Esperandio, professora da Faculdade Teológica Batista do Paraná, encaminha-me e-mail em que me informa a respeito de Projetos de Lei em tramitação no Congresso, postulando que o título de “teólogo/a” seja conferido a qualquer profissional religioso, sob certas condições, sem a exigência de curso de graduação na área. A notícia foi divulgada pela versão Internet de O Estado de São Paulo (cf. http://www.estadao.com.br/geral/not_ger142115,0.htm).

 

Segundo a nota, os Projeto de Lei defendem as seguintes postulações:

 

O primeiro, do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus e candidato à prefeitura do Rio, reconhece o não-diplomado que há mais de cinco anos exerça efetivamente a "atividade de teólogo". O segundo, do ex-deputado Victorio Galli (PMDB-MT), pastor da Assembléia de Deus, abre mais o leque: "Teólogo é o profissional que realiza liturgias, celebrações, cultos e ritos; dirige e administra comunidades; forma pessoas segundo preceitos religiosos das diferentes tradições; orienta pessoas; realiza ação social na comunidade; pesquisa a doutrina religiosa; transmite ensinamentos religiosos, pratica vida contemplativa e meditativa e preserva a tradição.

 

Ao tomar conhecimento da nota, minha primeira reação foi negativa – absurdo! Cheguei a pensar em freqüentadores de bar, sob efeito de excitantes substâncias, tecendo profundas reflexões sobre a vida e o sentido da vida, a morte e sua miséria, fazendo jus, portanto, após cinco anos de “ministério”, ao título de filósofos. Pensei em algumas de minhas famosas vizinhas (ah, e também, de vizinhos!), mulheres noturnas, encarnação da expertise indiciária – e venatória! – de cuidar da vida alheia – metidas em passeatas a postular para si o título de historiadoras, alternativamente, o de jornalistas. Vi políticos – uma interminável fila deles – merecedores, em cinco anos – logo, dois mandatos, salvo se for um Senador da República, para o que bastaria um – a ostentar na parede de casa – ou do gabinete – o diploma de artes cênicas. Foi uma reação de gueto, essa minha, confesso, dada a minha formação teológica – e formação formal!

 

Súbito, contudo, percebi que há uma questão relevante nesse caso. É certo que desde 1996 a Teologia não pode mais aparecer em praça pública a procurar pelos pais. O Estado assumiu-a – depois de tanto tempo... A partir de 1996, a Teologia – e isso também foi obra de evangélicos! – tornou-se uma das disciplinas habilitadas a compor o rol das “ciências” assumidas pelo Sistema Federal de Ensino, ao lado não apenas da Filosofia, que parira séculos e séculos antes, mas da Física. Um positivismo secular, de origem francesa, foi vencido, é certo, mas, nem por isso, a entrada da Teologia na câmara das Senhoras Ciências deu-se de modo epistemologicamente satisfatório. A promoção da Teologia, de idiossincrasia de religiosos, a “ciência” oficial do sistema de ensino brasileiro foi muito mais um gesto político, do que, propriamente, um fenômeno “acadêmico”.

 

Veja-se, por exemplo, o caso bastante interessante de haver, já, no Brasil, Faculdades de Teologia cristã – tanto católicas quanto evangélico-protestantes –, quanto (ao menos uma) Umbandista (http://www.ftu.edu.br/organizacao.php). Nada mais legítimo, porque, se de fato o Brasil é um Estado laico – e o é e deve ser – não há como discriminar as diversas teologias disponíveis – e quantas ainda há que fazerem-se representar formal e oficialmente. Contudo, uma breve análise dos conteúdos programáticos das duas representações, cristãs, de um lado, e umbandista, de outro, resulta na sensação constrangedora de que uma coisa é a teologia, sob o ângulo cristão, e outra, a (mesma?) teologia, sob ângulo umbandista. (Quase) nada ali é mutuamente pertinente. Sequer demonstram conhecimento mútuo, interesse mútuo.

 

A crise é epistemológica. Desde as transformações abissais dos séculos XVIII, XIX e XX, que resultaram no advento do Estado Democrático de Direito, das Ciências Humanas, da sociedade secularizada e emancipada do Ocidente, que a Teologia reagiu – sempre muito negativamente – à sua crise epistemológica. Recusou-se, e ainda recusa, desesperadamente, a refletir-se, a compreender-se, à luz das Ciências Humanas. Ainda acredita-se divina, revelada, normativa, “platônica”, absoluta. Karl Barth, de um lado, o Vaticano I, de outro lado, e o movimento estadonidense The Fundamentals, cada um a seu modo, reagiram negativamente à emancipação epistemológica do Ocidente – diga-se, à libertação da sociedade dos paradigmas político-platônicos dos cristianismos concretos. Ali, nesses lugares, Teologia continuou a ser “estudo de Deus”. Olhando de fora, contudo, “dos deuses”, já que muitos cristãos de um lado tinham nos cristãos – teólogos/as – do outro lado, encarnações de seu respectivo e herético deus-diabo. Coisas dessa(s) Teologia(s).

 

Até onde estou informado, poucos – raros – são aqueles que defenderam, no século XX, uma Teologia que assumisse, honestamente, verazmente, sinceramente, os postulados epistemológicos, metodológicos, das Ciências Humanas. Aí – e somente aí – Teologia torna-se uma das Ciências Humanas. Hans Küng defendeu tal coisa para a Teologia Bíblica, mas ainda faz uma espécie de teologia metafísica na defesa de seu vínculo a Jesus. Ele ainda tropeça nos próprios pés. Mesmo alguém tão alinhado às Ciências Humanas, como Faustino Teixeira, professor do Curso de Pós-Graduação em Ciências da Religião, da Universidade Federal de Juiz de Fora, no artigo “O Lugar da Teologia na(s) Ciência(s) da Religião” (em Faustino TEIXEIRA (org), A(s) Ciência(s) da Religião no Brasil – afirmação de uma área acadêmica. São Paulo: Paulinas, 2001, p. 297-346), ainda vincula a Teologia a fórmulas tais como “ciência da fé”, “ reflexão ‘à luz da fé’”, “no plano de Deus”, “à luz da revelação cristã” – expressões com as quais, se aplicadas à Teologia das Universidades, das Faculdades, do MEC, eu não posso – absolutamente – concordar, pela simples razão de, aí, as Ciências Humanas não podem chegar. Nem devem.

 

Ora, se Teologia for – e ainda, na prática, o é, pelo menos a seus próprios olhos (mesmo aquelas instaladas no MEC), “estudo de Deus”, ou, como o parece pressupor o artigo de Faustino Teixeira, “uma reflexão que se mantém vinculada aos imprescindíveis laços da fé e da revelação, mas que guarde sua autonomia e liberdade face a qualquer autoridade” (p. 309), não me parece absurda a pretensão dos senhores representantes evangélicos, quando apresentam os citados Projetos de Lei. Fé por fé, revelação por revelação, que diferença faz sentar-se num banco de seminário, faculdade? O critério, aí, é a fé, engajada, tornada ministério, tomado o cristão pelo espírito teológico, o umbandista, pelo espírito teológico, o padre, o xamã, a mãe-de-santo, o pastor, qualquer um, aquela benzedeira, aquela rezadeira, aquele preto-velho. Que diferença faz? Nenhuma. A rigor, há inúmeros alunos dos cursos de teologia que, na verdade, só estão ali porque suas respectivas congregações, a política dessas congregações, os obrigam a tanto. Porque o que querem, mesmo, é o ministério carismático da fé, e, cá entre nós, o que se ensina, academicamente naqueles ambientes – o que eu mesmo ensino ali – serve pra quê, se os ministérios são mediados, no frigir dos ovos, pelo carisma da fé e pela unção do(s) espíritos?

 

Se Teologia é alguma coisa parecida com conhecimento de Deus, fé em Deus, qualquer fé, qualquer Deus, então, tanto se me dá que Brasília atole o Brasil de teólogos e teólogas – porque esses já estão aí, nas ruas, nas casas. A diferença é que a Globo, quando eventualmente os entrevista, não escreve na legenda, “teólogo”, porque ele não lustrou bancos de cursos de graduação. Ganharão a legenda, então, depois de aprovados os Projetos. Apenas uma ressalva – por que, nesse caso, apenas, os “profissionais”? No estrito sentido que os Projetos de Lei parecem manipular o conceito de Teologia – o conceito de Bruno Forte serviria como uma luva: “a conjugação do Absoluto com a história” (Bruno Forte, Teologia em Diálogo Loyola, p. 38) – qualquer um/a é teólogo/a, desde aquela dona de casa que, enquanto lava os pratos, reflete sobre sua fé, até o fenomenal Saramago, que, recentemente, escreveu: “se há um Deus, há um só” (cf. minha Carta Aberta a Saramago, em http://www.ouviroevento.pro.br/diversos/carta_a_Saramago.htm).

 

Mas, alto lá! Se Teologia – essa do MEC – não é isso, não deve ser isso; se a aceitação da Teologia no Colégio das Ciências Humanas, dá-se sob o regime epistemológico do Colégio, e não da fé medieval e pré-medieval, normativa e acrítica – escute-se-me, então, meu veemente NÃO. Aí, Teologia torna-se uma “ciência” – em construção, um tanto perdida de si, confusa de seu estatuto epistemológico, mas, acima de tudo, antes de tudo, reflexão crítica a respeito do que mulheres e homens pensam e dizem pensar sobre deus, deuses, deusa, deusas, de toda sorte e tipo, em todo tempo e lugar – e Feuerbach seria seu patrono. Jamais, um Agostinho.

 

Essa Teologia, essa sim, e só ela, merece assentar-se à mesa com as demais Ciências Humanas. O teólogo, filho dessa Teologia, esse sim, mereceria, e apenas ele, o diploma e o grau de “Bacharel em Teologia” – de teólogo. Seja cristão, seja umbandista. Afinal, esse/a teólogo/a o é por grau conferido pelo Sistema Federal de Ensino e – não – pelas respectivas instituições de fé que eventualmente os tenham por afiliados.

 

É urgente – está-se constrangedoramente atrasado – que se discuta, seriamente, o estatuto epistemológico da Teologia, sob risco de constituir-se, na Academia, no Sistema Federal de Ensino, uma esdrúxula esquizofrenia, politicamente mediada, a correr o risco de se passar para o campo cênico da hipocrisia. Se a teologia é o equivalente terceiro olho de Lobsang Terça-Feira Rampa, que se dêem toneladas de diplomas a todos que têm a pedra sagrada a pressionar a pineal. Mas se não, se Teologia é “ciência” – e demanda educação, estudo, crítica, reflexão, carreira, horas e horas de pesquisa e investigação, que Deus nos livre desse novo atropelo político.

 

Não vai aqui, entenda-se, qualquer crítica à prática da teologia como carisma. Penso que seja legítimo que cada homem, que cada mulher, viva sua vida como bem entende – desde que sua vida esteja nos limites legais do respeito à liberdade do vizinho. Minha peremptória má vontade, contudo, é direcionada àquela prática de imiscuir-se a “fé” – a rigor, a adesão cega a doutrinas, a racionalização de partido – onde ela não é, absolutamente, bem-vinda.

 

Senhoras e senhores da Teologia – teólogos, teólogas – e a quem me dirijo? – defini, logo, o que é isso que, há séculos, freqüenta os salões e as naves, e que, agora, escreve-se no site do MEC...