Fé com Felicidade é Fácil

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Fé no futuro faz ficar forte. Por outro lado, olhar para a frente, com desânimo, com desalento, com falta de confiança, faz a gente ficar fraco, muito fraco, sem vontade de dar um passo, sem energia nas pernas, nas mãos, nem mesmo nos olhos, porque nem olhar para o futuro – que futuro!? – dá gosto... Fé, pois, é também uma questão de felicidade...

 

Não é que a fé esteja indisponível em situações de sofrimento e dor. Há casos em que a situação de dor e sofrimento proporciona um recrudescimento das forças espirituais, que por sua vez levam a um desenvolvimento da “fé”...

 

Há, contudo, e não poucas vezes, vezes em que a situação de dor, sofrimento ou angústia, de quaisquer natureza e ordem, podem provocar desesperança e desalento, “depressão” e falta de ânimo. Nesses contextos, aí sim, a manutenção da fé é uma coisa difícil. Quero acentuar que a palavra “fé” aqui deve ser entendida como aquela sensação de que as coisas vão caminhar de acordo com a melhor perspectiva possível, de que as coisas vão dar certo, ou seja, fé enquanto confiança no futuro, no rumo melhor possível da vida e das situações da vida. Ah, quando nós estamos enfiados até o pescoço em situações de desânimo, como é difícil manter firme a confiança no amanhã...

 

Essas situações de desânimo podem ser causadas por uma série de fatores. Pode ser que estejamos cansados de “tudo dar errado”. Não pensem que na vida de um “crente” não há a possibilidade de “tudo dar errado”. Há sim. Há períodos na vida em que parece que tudo e todos conspiram contra nós. Por mais que façamos, dá tudo errado; por mais que nos esforcemos, as coisas não acontecem; por mais que oramos, contra todas as promessas, nada ganhamos... Então o desalento pode, sim, nos invadir. E nos invade, às vezes mansamente, imperceptivelmente, como um vírus virulento; outras vezes com a rompância avassaladora de uma enchente de janeiro...

 

Pode ser que a falta de esperança se dê por conta de problemas químico-hormonais. A depressão é um caso sério, que quantas vezes demanda tratamento alopático. Durante crises depressivas, ou mesmo para pessoas portadoras de síndromes depressivas, a “fé” no futuro é quase uma impossibilidade. Pensar no futuro? Para quê? Agarrar-se à vida? Para quê? Lutar? A troco de quê? Sim, a depressão tira todo o valor de todas as atividades laborativas e lúdicas, nada vale a pena, nada tem valor, nada...

 

Nesses contextos, confiança no futuro é uma pedra grande demais para ser erguida. Pesada, ela fica lá, impossível de ser movida, e o desanimado nem se pergunta por que deveria mover a pedra, deixa ela lá, deixa eu cá, a vida não vale a pena...

 

Melhor do que depois nos esforçarmos para sair do meio dessas crises é tentar evitá-las. E seria bom que enquanto estamos alegres, felizes, quando então a fé, a vontade de caminhar para a frente, a confiança no valor da vida e das coisas da vida, essas pétalas de luz, essas alegrias de gosto doce estão vivas nos olhos, na língua e na pele, que então nos concentrássemos em atividades que nos ajudassem a todo custo a não entrar naquele beco escuro e úmido do desalento. Porque com alento, com felicidade, fé é fácil...

 

Talvez devêssemos nos concentrar em atividades das quais gostamos – arranjarmos um projeto a nosso alcance, relativamente exeqüível, ao mesmo tempo desafiador, na dose certa, metade metade, como se diz,  que nos enchesse de vontade de viver por cento e cinqüenta anos. Criar expectativa e razão para querer viver, viver muito. Gerar uma vontade de fazer aquela coisa, de concretizar aquele sonho e o tornar realidade, a fim de que, continuamente lutando para tornar o sonho em realidade, gerássemos, além disso e por causa disso, a necessária vontade de viver tanto quanto possível – e mais – para o realizar. Num contexto assim, a fé fica fácil, acreditar no amanhã fica fácil, porque o amanhã nos toma desde agora, desde já, e nos arrasta desde lá com sua mão alentadora. Mais do que nós a ele, o futuro como que vem a nós...

 

Quanto àquelas situações em que “tudo dá errado”, é difícil estabelecer uma “receita”. Algumas vezes esse “tudo dá errado” é uma questão de foco e de tempo. Para uma vida inteira, um período de dois ou três anos em que “tudo dá errado” é um fragmento. Mas se nos agarramos a olhar para esses dois ou três anos como sendo “a vida inteira”, se nos comportamos como um carrapicho que não larga a calça, como um cão que não larga o osso, fatalmente, quero crer, nos sentiremos derrotados, e a mão descarnada e feia do desânimo nos assolará a alma, nos sorverá a alegria, nos levará para o limo do tempo e o linho da cama... Não! Mil vezes não! Nunca esquecer que a vida não se resume nos acontecimentos de hoje, e ainda que hoje as cores sejam mais vivas, ou mais mortas, o arco-íris deve ser contemplado à luz de toda a vida vivida, enquanto vai sendo vivida...

 

Crente é gente. Gente é corpo. Corpo é isso – sentimentos e ressentimentos, dores e dissabores, alegrias e temperos, hoje isso, amanhã aquilo... Vamos, sim, uma hora ou outra, enfrentar o fantasma horrível do desânimo – e ele será tanto mais horrível quanto durar. No meio da crise, recorrer à orientação especializada talvez seja a decisão mais sábia – mas muitas vezes os pés e as pernas não quererão dar nem dois passos. Algumas vezes, dar tempo ao tempo resolve tudo, porque o tempo resolve muitas coisas, mas outras vezes, quanto mais tempo for dado, tanto mais estrago o desânimo fará. Como saber quando e quando? Difícil. O importante é que nos conheçamos a nós mesmos, que sejamos honestos diante do espelho, que não permitamos que falsos escrúpulos pseudo-espirituais num mundo religioso e evangélico massificado nos impeçam de admitir que estamos acuados, atordoados e quase falidos, e que precisamos de cuidados especiais, se precisamos deles. Palavras de ordem evangélico-marciais quantas vezes não encobrem fantasmas mais horrendos do que os espetáculos públicos das catedrais amontoam na mídia...

 

O desânimo passará, de um jeito ou de outro. Seja na forma de pílulas ou comprimidos, seja na forma de um “tarja preta” ou na forma de um traje velho, seja na forma de algumas semanas vendo filmes na TV, ou jogando jogos no PlayStation, mais cedo ou mais tarde os fantasmas serão exorcizados, o desalento, enxotado, as nuvens de chumbo serão atravessadas poderosamente pelos raios dum sol como nunca.

 

Ah, sim, claro, e nunca esquecer, agora e depois, que acima desses fantasmas e dessas nuvens, maior do que esse sol e mais poderoso do que todos os seus raios, Deus vela e zela por nós, ainda que nossas pálpebras, fracas, tenham dificuldade de entrever sua face amorosa sorrindo para nós... Porque a primeira e maior arma do fantasma do desânimo é encobrir o Pai das Luzes, porque ele sabe que na penumbra é tanto mais fácil querer deitar e lá ficar deitado... para sempre... No meio dessa penumbra, porém, a Luz vai brilhar, um sorriso se abrirá, um não, dois, e o futuro voltará a fazer sentido, a vida, a ter valor. Oh, sim, porque com felicidade a fé é fácil...