Eu creio na dúvida

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

 

O título que este artigo leva não deve ser lido como se quisesse dizer “na dúvida, (então) eu creio”. Se quisesse ser lido assim, teria sido escrito assim: “Na dúvida, eu creio”. Se este fosse o título do artigo, escrito assim, então eu estaria dizendo que, na dúvida, é melhor crer. Dizendo isso, isso que eu dissesse poderia ser aplicado a uma série de situações e, principalmente àquela que se costuma remontar à Pascal, da tal aposta. Dois sujeitos comparam suas “fés”, uma, a de um cristão, a outra, não. Se por acaso o não cristão está certo, e daí? Que mal haverá passado, por ser cristão, o cristão? Nenhum, pelo contrário. Mas e se o cristão estiver certo? Em que palpos de aranha não se terá metido, por não o ser, o não cristão? Diga lá, ó mouro...

 

 

Mas não é isso que o título quer dizer, não, por mais interessante que seja a “aposta” – e atual, porque a recebi renovada num e-mail dias desses... Também não quer dizer o título que dei a este artigo algo como “enquanto vou duvidando, vou crendo”. Dizer “eu creio na dúvida”, nesse caso, significaria dizer que, por mais que eu descreia, no fundo eu vou crendo... Algo assim escrevi dia desses, uma pequena poesiazinha, composta ao volante, pela manhã:

 

Fé não tenho:

a fé me toma.

Quanto mais da fé desdenho,

tanto mais fé se me soma...

 

Nesse pequena coisa lúdica e estética vai, sim, dito mais ou menos aquilo, isto é, que, achando que não creio, no fundo creio. O poeta, então, ao mesmo tempo em que sabe que não crê, no fundo sabe que crê, e sabe crer justamente porque sabe não crer. Não se trata de jogo de palavras, mas algo como se o poeta assumisse que a fé é mais do que uma aposta, porque, ainda que descreia das chances, e nem sequer compre as fichas e as jogue na roleta, ainda assim lá está ela, a Dona Fé, olhos arregalados, fitando os olhos fugidios do poeta...

 

Não foi isso, contudo, que quis dizer com o título que dei: “eu creio na dúvida”. Não foi, porque não acho que fé seja, afinal, recitação de crenças, quaisquer que sejam. Quer dizer, há até um sentido da fé que é justamente esse, com o que se deve trabalhar na carta de Judas, lendo, ali, as diversas ocorrências da palavra “fé”. Fé ali é isso: formulação doutrinária. É justamente quando o poeta daquele poemazinho pensa descrer de doutrinas que a fé o toma. Claro, não mais essa fé-doutrina, mas outro tipo, que, aqui, e provisoriamente, chamaria de fé-silêncio. A diferença de uma e de outra? Ah, é que uma fala, a outra, cala. A que fala, é a da aposta: tem lá o cristão sua representação da verdade, e aposta todas as suas fichas nela. Não é disso que trata o título deste artigo. A que cala é aquela consciência de ser tomado por um silêncio que se impõe de fora, mas também de dentro, um silêncio de e para “Deus”, diante de quem se deve calar a terra inteira... Nem é disso também que fala o título.

 

Fala de que, então, ó homem de Deus? Ora, fala do que está escrito mesmo: “eu creio na dúvida”, com o que quer o título dizer que a dúvida consiste em excelente instrumento de trabalho. Que o é para a ciência, (talvez) ninguém discute. Que o seja para a Filosofia, para as chamadas Humanidades, quem o há de retrucar? Ouço alguém? Sigamos então... O que o título quer dizer é que seu autor crê na dúvida como instrumento de trabalho também na Teologia. E tanto faz, aqui, Teologia ou Religião, Fé ou Cristianismo. Segundo o que o título expressa, é trocar seis por meia dúzia...

 

Tenho participado de aulas de Teologia em que se tem dito que a Teologia parte ou deve partir da fé (ao que uns Mestres acrescentam: “porque senão...”). Na maioria das vezes, pouco se dá ao trabalho de explicitar o que se quer dizer com “fé” quando se usa a palavra, como se “fé” fosse “fé” e pronto, é simples e todo mundo sabe do que se trata. Mas alto lá! Eu cá conheço, pelo menos, quatro sentidos diferentes para a palavra “fé”, de modo que dizer que a Teologia começa com a fé é dizer pouco e mal, porque não diz muita coisa. E se eu não sei do que o professor está falando, que fazemos eu e ele ali?

 

Penso, antes, que a Teologia deva começar com a dúvida. Sim, porque o que se quer dizer, quantas vezes, com “Teologia começa com fé” é que, primeiro, aprenda doutrina, primeiro, assuma os dogmas, faça catequese, depois, então, você está pronto para revisitar os campos floridos já desde sempre visitados, desta feita guiado pela mãe Teologia.

 

Ora, se Teologia é mesmo reflexão humana – e o é, toda ela – por que devem os seus amantes começarem pelo fim? Não seria mais aconselhável começarmos pelo começo? E o começo não seria, então, justamente pressupor, sim, que o final pode estar equivocado? Então lá vai o teólogo às línguas originais, para ver se as traduções se salvam, se os comentários têm jeito, essas coisas; depois, à História da Teologia, para ver as mãos e os pés que por ali estiveram, os compromissos que assumiram, os pressupostos que esconderam, o que viram, o que não viram, não quiseram ver. Lá vai ainda o teólogo às ferramentas de leitura e de pesquisa, de reflexão e de juízo, um mundo de competências, difíceis todas, impossíveis, agora, para uma vida, mesmo com Internet, e por isso mesmo...

 

Não, não creio na fé como ponto de partida para a Teologia. Eu creio na dúvida. Dúvida como ponto de partida... A estrada será longa, longa, longa. Talvez sem fim. Talvez se descubra feita de uma infindável série de fios duvidosos – cada um que eu puxo, encontro mais dois que lá não vira. E, terminada a sempre longa série de fios intermináveis, a última ponta na mão, olho para trás e começo tudo de novo. É meu precioso jogo, onde me sinto menino aos pés da vovó, que tricota a sua malha, mas o menino quer mesmo é puxar os fios, e ver os olhos da vovó olhando pra ele...

 

Não é para isso que lá estão os fios?