Então eu sou moderno

– sobre o casamento por amor

Osvaldo Luiz Ribeiro

(01/09/2007)

 

Quem me conhece sabe que eu gosto de Nietzsche. Mas há coisas que Nietzsche diz que, se eu não gostasse dele, ficaria muito contrariado. É que Nietzsche costuma pôr o dedo na ferida – disso consiste a grandeza dos grandes homens. 

 

Em O Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche critica o casamento “moderno”, isto é, aquele do final do século XIX, quando ele escreve. O que Nietzsche está chamando, ai, de casamento moderno, é o casamento “por amor”. Apenas umas poucas frases bastam para ter-se uma idéia de sua posição: “não se pode fundar o matrimônio no amor”, “o casamento moderno perdeu sua significação; conseqüentemente está sendo abolido”, e “ainda que isso não seja uma objeção ao matrimônio, mas sim contra o modernismo” (Nietzsche, o Crepúsculo dos Ídolos). Para Nietzsche, o casamento por amor era o responsável pela perda do estatuto de indissolubilidade do casamento.

 

Os argumentos de Nietzsche são relativamente simples. Como sempre teria sido no passado, o casamento deveria ser uma Instituição, uma Tradição, em sentido forte. O casamento deveria ser sustentado por outras razões que não o “amor”: a) o instinto da espécie (razões biológicas), b) o instinto de propriedade, e ele especifica: “a mulher e os filhos eram uma propriedade” (razões econômicas), c) a consciência do casamento como feudo, que necessita de herdeiros para sua manutenção fisiológica no tempo (razões políticas). Tais razões, segundo Nietzsche, serviriam para dar uma base menos frágil ao casamento, fundamentos para além das variações de ânimo e humor das pessoas, como ele dizia: “jamais se fundou uma instituição numa idiossincrasia”.

 

O casamento, ele continua, tinha sua razão “na responsabilidade exclusiva do homem”. Com as rédeas na mão, o homem garantia a estabilidade do casamento. Assim, a Instituição não ficava à mercê das paixões e dos instintos, e sustentava-se sua indissolubilidade administrada. Por outro lado, garantia-se, ainda, a manutenção da Tradição pelo fato de as famílias assumirem a responsabilidade pela escolha dos noivos. Nada mais eficiente contra as tênues paixões da adolescência. Na forma de contrato inter-famílias, e sob a tutela masculina forte, o casamento estava garantido.

 

Agora, diz Nietzsche, quando é o amor, essa faísca nervosa, instável, essa chama trêmula e vaidosa, que inflama os corações da moça e do moço, e, tomados de cegueira luxuriosa e paixão romântica, os dois se casam, fundamentado que fica nessa vacilante garantia sentimental, que futuro há para o casamento? E se a chama, bruxuleante, apaga?

 

Eu compreendo tudo quanto Nietzsche está falando. De fato, ele descreve bem a instituição antiga. E tem razão quando diz que ela garantia a estabilidade do casamento, quando fazia das mulheres (e dos filhos) propriedade da parte masculina do contrato nupcial. Era mesmo assim em Israel, por exemplo. As mulheres eram propriedade do “senhor meu marido”. Bem como os filhos. Os patriarcas ensinaram-nos que um homem podia ter – que verbo! – muitas mulheres (mas não o contrário!). Lembro-me daquela discussão entre Raquel e Léia sobre uma ter roubado o marido da outra e uma comprar da outra, pela raízes de mandrágora que Rúben achara, a noite com seu homem (cf. Gn 30,13-18). Oh, sim, a “instituição” era, mesmo, muito “firme”, mas – quero crer – ao preço da redução da dignidade da mulher. Não me parece que Raquel e Léia estivessem exatamente, hum, “felizes”. Mas que é a felicidade feminina, não é mesmo?, diante da relevância institucional do casamento? É curioso como o judaísmo tardio considerou muito constrangedora essa história – mas não pelo fato de duas “esposas” brigarem pela cama de seu esposo, mas pelo fato de que “mandrágoras” fossem raízes afrodisíacas, com as quais se fazem poções... de amor. Quando O Testamento dos Doze Patriarcas foi escrito, a história foi mudada: não eram raízes de mandrágora, eram tomates cheirosos. Mas as mulheres permaneceram como “propriedade” de Jacó. As poções, escreveu-se, foram os “demônios” que as ensinaram às mulheres. E esse “casamento” – no qual as mulheres eram propriedade do “senhor meu marido” –, chegou-se a dizê-lo, sem constrangimentos, ter sido planejado por Deus. Se vamos dizer que o “casamento” foi inventado por Deus, convém que, antes, cheguemos a um consenso sobre que tipo, afinal, de casamento, Deus teria inventado. Um em que duas mulheres atracam-se pela noite do marido?

 

Eu não vou transformar esse artigo numa denúncia do sufocamento do valor da mulher na história humana. Pisadas, humilhadas. Ainda hoje. Ainda hoje! Eu apenas gostaria de dizer que, apesar de Nietzsche estar certo ao afirmar que o fundamento passional do casamento o torna instável, é necessário que ele se torne instável mesmo, para que haja, realmente, igualdade e liberdade ali, uma relação de amor entre iguais, relação que encerra risco e fragilidade. Não pode haver amor, se não há liberdade. Se o casamento é uma prisão, imposta de fora, ouvir-se-ão muitos gemidos – e não de prazer – nessa cadeia. Quantas vezes engolidos em seco, na penumbra da dor do silêncio.

 

 O amor conjugal – como critério – é mesmo uma invenção recente, que fragiliza, sim, a “instituição”. Porque, casados, depois de um ano, dois anos, dez, pode-se chegar à conclusão de que não se ama mais, se é que se chegou a amar. E aí, se o fundamento do casamento é mesmo o amor, se não há mais – se é que houve – amor, acabou-se o casamento. Não é à toa que o século XX reconheceu a necessidade do divórcio, porque a ideologia do amor como fundamento da relação conjugal exige que o amor seja o critério. A legislação foi coerente. Teologias há que ainda têm muita dificuldade com isso, aquelas mesmas que não compreendem que não se pode forçar o amor, nem mesmo o amor a Deus.

 

Eu não consigo me imaginar casado com outra pessoa que não Bel. E ela me diz o mesmo, quanto a mim. Somos modernos, então. Sou moderno. E como gosto disso. Bel e eu somos duas pessoas apaixonadas, que estão juntas, porque inventaram de se gostar. Bel é uma criatura selvagem, indomável. Bel é dela mesma. E ter eu sido o seu escolhido, para receber o seu amor, é uma dádiva. Dentre todos os homens do planeta, foi a meus pés que Bel derramou seus potes de amores. Isso eu não arrancaria dela, por qualquer outra razão que não o beneplácito de sua vontade libérrima de mulher. Nietzsche não conheceu a sensação de ser amado assim. Amou, quis, e não foi amado e quisto. O que é muito triste. Talvez resida aí seu apego ao modelo antigo. Talvez se ele pudesse levar sua amada para casa. Talvez, se o amor não estivesse já em moda.

 

O percurso até a possibilidade real do casamento por amor foi longo e demorado. A possibilidade de expressão subjetiva que uma relação dessas exige é, sim, um risco para a solidariedade social, porque a tendência de satisfação egocêntrica concentra-se no núcleo familiar passional. Mas não acredito que devemos batalhar pela solidariedade social ao preço da supressão dessa expressão subjetiva. É com ela e apesar dela que temos de aprender a – além de amarmos nossos cônjuges até o fundo do pote de amor – abrirmo-nos também à fraternidade solidária. É outra lição a que a modernidade nos constrange.