Eline se foi.

E com ela, uma era...

 

Osvaldo Luiz Ribeiro

28 de abril de 2006

 

 

Eline regia a congregação, enquanto cantávamos. Era a década de oitenta. Foi aí que me tornei um batista, sem antes ter conhecido o que era isso. E no que dizia respeito a cantar, era uma coisa linda...

 

Descobri que, além de nós, batistas havia outros confessos evangélicos. Mas, cantar como nós, os batistas, difícil, heim?! Claro que havia quem cantasse melhor do que nós: um certo grupo adventista, por exemplo, arrancava suspiros. Quando falo que era difícil alguém cantar como nós, batistas, falo da congregação, sob a regência. Éramos campeões. Acima de nós, quem sabe, apenas os negros americanos, os negros africanos...

 

Isso era distintivo para nós, segundo me parecia, à época. Olhava para nós, e via que não éramos lá os melhores em ação social. Perdíamos na capacidade de gerar recursos (exceção impressionante para missões). Não nutríamos um amor muito profundo pela pesquisa. Mas, para deixar as coisas mais ou menos equilibradas – éramos extraordinários cantores congregacionais.

 

Não acredito que Deus escolhesse boas gargantas para as congregações batistas, deixando as menos melhores para as demais congregações. Se há uma doutrina que me irrita, é a da predestinação. Assim, tinha de dar uma explicação para o fenômeno, que não envolvesse seleção – seja “natural”, seja “sobrenatural”.

 

E lá estava Eline. Maldade da vida, coisas para perguntarmos um dia a Deus, deixou-nos tão cedo... cedo demais. Mas, enquanto esteve, penso que posso usar sua memória como símbolo de uma era: a era da regência congregacional, conforme nós batistas brasileiros a experimentamos. Faz tão pouco tempo...

 

À altura de Eline, milhares de regentes, mulheres e homens, mãos aladas voejando acima de nós, arrancando-nos toda a atenção, dirigindo-nos rumo ao melhor canto possível, em todas as ocasiões. Eline, e outras regentes, interrompiam a congregação, se errávamos uma nota: “não, não, não: ouçam”, e, mostrando-nos, pela voz maviosa, como era, tentávamos, depois, sempre com sucesso, aprender.

 

O segredo era esse, eu acho. Havia sempre uma preocupação com a técnica, com o aprimoramento, com o melhor. As regentes e os regentes, além de existirem abundantemente, não eram peça de ornamentação de altar: eram dirigentes do canto. Não eram “puxadores”: eram dirigentes. Eram líderes: iam à frente, e nós os seguíamos. Lindo! Até que estivéssemos tão bons, todos nós da congregação, que pudéssemos ir todos juntos. Mas, mesmo aí, lá estavam aqueles ouvidos, meu Deus, atentos para qualquer deslize nosso.

 

Lá se vão mais de vinte anos. Talvez Deus tenha querido poupar minha amiga Eline. Talvez seu coração não suportasse mesmo ver o que andamos aprontando em sua área...

 

Não é que acabaram, de todo, os regentes. Há, aqui e ali, uma renhida resistência. Dita “velha guarda”. Nesses ambientes, ainda parece que estamos nos anos oitenta – e não digo isso como quem diz que, ali, perdeu-se o bonde. Não. Pelo contrário: para mim, ali não se pegou um bonde errado...

 

Não lamento exatamente que tenhamos substituído regentes congregacionais por “equipes de louvor”. Não, meus amigos. Trata-se de lamentar como as coisas acabaram acontecendo.

 

Por mais paradoxal que pareça, a culpa, quero crer, deve-se a uma sanha meio patológica de louvar. Louvar por louvar. Louvar com a alma. Louvar de olhos fechados. Essas coisas. Isso nos pôs a perder. Raras (eu nunca vi – uso o termo “raras”, apenas por desejo de que haja alguma por aí), raríssimas são as equipes que têm consciência de que não são “puxadores” de louvor, ou “atores” de louvor, a quem , nós, crentes nos bancos, devemos seguir ou imitar – cada um como pode e quer. O canto congregacional tornou-se uma experiência extática de cânticos desafinados e desencontrados. Transformou-se num conjunto desarmonioso de experiências individuais de louvor. É como se cada um estivesse sozinho, e Deus por todos.. Nenhuma relação didática, nenhuma preocupação com a beleza estética. Apenas uma assim manifestada como preocupação com o “verdadeiro” louvor.

 

Plasticamente, é feio. Muito feio. Bota feio nisso. Muitas vezes, é pura zoada, puro barulho. Não se ouve o que se canta (até, graças a Deus, porque se canta tão mal, que, ouvindo, talvez fosse pior!). Os instrumentos musicais travam verdadeira competição! Se a bateria estronda, a guitarra estoura os tímpanos. E pensar que ainda ontem lutávamos para poder tocar essas coisas na igreja. Ganhamos o que com isso? Pedimos liberdade, nos deram, e, tanto nós, quanto quem nos deu, não sabemos o que fazer com ela. Lembro os cães magros das ruas correndo atrás dos pneus dos carros velhos, até que parem, e ele, que faz? Podíamos ter feito grandes coisas com essa liberdade. Talvez ainda haja tempo...

 

Compreendo que, no meio de tudo isso, os corações ainda estejam em sincera devoção. O meu não consegue, porque esse estado de coisas me irrita tanto, que é impossível que, num culto desse tipo, eu consiga sequer relaxar. Sinto-me, às vezes, como se tivesse que fazer força para, ultrapassando tudo o que está à volta – e “tudo”, aí, não significa o “mundo”, mas o próprio “culto” – conseguir, quem sabe, tranqüilizar minha alma, diante do pensamento plácido de um Pai amoroso, que me abraça. Quando cantava com Eline “me” regendo, ela me dava a mão, e me levava até lá. Agora, tantas mãos desesperadas, num louvor “espontâneo”, mas nenhuma me pode ajudar...

 

Sei que há corações que gostam dessa situação. Mas acreditem mesmo esses corações, que estragamos o que tínhamos de melhor. Como disse: é feio. Não há mais beleza, salvo para quem trata como beleza esse tipo de comportamento, somente porque ele recebe um rótulo de “louvor” e uma legitimação “litúrgica”. Contudo, ainda continua feio.

 

Não penso que apenas a intenção do coração valha. No culto congregacional, no culto público, tudo é testemunho e mensagem: inclusive como cantamos. E não nos enganemos com a retórica do louvor do coração: nós mesmos, perdidos e perdendo mais ainda a capacidade de cantar direito, de saber cantar, nos bajulamos com esse nhem-nhem-nhem, como se houvesse alguma virtude em dizer que, entre sinceridade, e beleza, melhor a sinceridade... Não há virtude nesse discurso, porque a falta de beleza não está imposta de fora; não é um destino que nos impõem. Nós é que nos tornamos, e a cada dia mais, maus cantores. Nós é que jogamos fora a beleza. E, porque não fazemos nada a respeito, justificamos nossa situação, escolhendo o outro lado da moeda, como se existissem moedas de um lado só.

 

Queremos cantar de coração: ótimo! Exigimos isso até dos cantores populares. Mas podemos e devemos, e, pelo amor de Deus, precisamos, cantar tanto de coração, quanto inteligentemente. Não é que deveríamos, necessariamente, voltar à década de oitenta – mas devíamos trazê-la, naquilo que ela teve de melhor, para cá.

 

Se nossas equipes de louvor aprendessem a cantar; se aprendessem a ensinar a cantar; se treinassem os ouvidos; se treinassem as vozes; se modificassem sua compreensão do momento de louvor; talvez não precisássemos das Elines como eram as Elines, porque, então, cada equipe de louvor se tornaria uma Eline.

 

Do jeito que está, contudo, não acredito que seja apenas eu que, começado o momento de louvor, mais fica triste do que alegre, e é consumido pela saudade. Talvez seja a saudade que me ajude a passar por esse momento triste...

 

Triste maneira de começar o século XXI. Felizmente, tem muito século pela frente...