Ela quer beijos

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

 

“Ela quer beijos”: “ela”, “quer”, “beijos”. “Ela”, a mulher, e quer coisa mais feminina do que a mulher? “Quer”, isto é, “deseja”, e quer verbo mais divinamente humano do que esse? “Beijos”, beijo de boca, ainda por cima! Quer coisa mais divinamente humana para se querer do que essa?

 

Falo de Cântico dos Cânticos. Falo de 1,2a: “beije-me ele com beijos da sua boca”. Fico impressionado todas as vezes que leio esse versículo, e vejo-me sempre obrigado a ler o verso seguinte, para ter certeza de que é isso mesmo que li, o que faço, geralmente em outra versão, como agora:

 

2Que me beije com beijos de sua boca!

Teus amores são melhores do que o vinho,

3o odor dos teus perfumes é suave,

teu nome é como um óleo escorrendo,

e as donzelas se enamoram de ti...

 

Confesso que acho lindos esses dois versículos. Levaram-me a estudar com atenção o livro. Nesse breve artigo, gostaria de chamar a sua atenção apenas para alguns pontos muito interessantes, e provocativos...

 

 

Ela

 

 

Já reparamos que é “ela” quem fala. Não é curioso que um texto das Escrituras, especificamente, da Bíblia Hebraica, comece com uma fala de “mulher”? Eu acho isso muito interessante. Confesso que não interpreto esse detalhe como se fosse uma condescendência feita à mulher, como se, afinal, ela pudesse lá receber seu pedacinho. Penso que o fato de o livro começar pela fala de uma mulher, pela fala “dela”, da amada, pode, quem sabe, e não sei, apenas admito a hipótese, significar uma autoria feminina para o livro de Cantares.

 

Sei que para muitos batistas isso seria uma imensa impropriedade, porque ainda há muitos batistas que sequer imaginam a possibilidade de a mulher ser pastora, isto é, oficialmente ordenada, com imposição de mãos e todos os demais rituais próprios, porque “pastoras” de fato as há, e os sertões estão cheios delas... Pois bem, se já é difícil para alguns admitirem pastora, imagina pensar, Deus o livre! em escritoras na Bíblia!

 

Bem, já há pastoras entre nós. Poucas. Mas há. Logo serão muitas. Isso pode significar que, dentro de uma ou duas gerações, quem sabe, a idéia de uma escritora inspirada não seja lá, então, tão tresloucada...

 

Se, contudo, tratar-se apenas de um recurso literário de um autor masculino, isto é, se o autor masculino abre o livro com a voz da amada, mas quem escreve é um homem, não uma mulher, ainda assim a simples presença da mulher na abertura do poema é impressionante, não acha? Eu acho. Todas as vezes que leio, fico feliz...

 

Tenho esperança de que um dia, definitivamente, as mulheres terão plenos direitos, todos os direitos, absolutamente todos. Naturalmente, homem que sou, não gostaria que deixassem de ser femininas, e há mesmo uma tendência de as feministas, algumas, depois de um bom tempo, necessariamente, ganhando terreno com pisadas fortes no chão, tendo-o conquistado, descansam um pouco, retocando a maquiagem. Bonitas feministas essas! Mas sei que se trata de um olhar masculino, e não vale...

 

Deus abençoe as mulheres, e que façam valer seus direitos, porque não se trata de conquistar, mas de receberem por direito aquilo que lhes pertence, e não lhes é dado.

 

“Ela”... mas que coisa impressionante...

 

 

Ela quer

 

 

Não bastava se tratar de uma mulher: tinha ainda que ser uma mulher que “quer”? Tinha de ser uma mulher cheia de “vontade”, de “força”, uma mulher que começa “falando”? Não, não é apenas um recurso literário: há uma mensagem aí. O fato de o texto começar já com uma mulher, e uma mulher falando, e falando que quer, isso significa o desenho de um perfil: trata-se de uma mulher que se apresenta, se adianta, se diz, se faz, quer, e pronto... Eta mulher arretada, sô!

 

É interessante que não se trate de um “imperativo”. Imperativo é ordem. A Melhores Textos que tenho aqui sobre a mesa, 13ª impressão, de 2000, traduz “beije-me ele”: imperativo. Não acho que seja uma boa idéia. A Bíblia de Jerusalém, que citei acima, traduz “que me beije ele”. “Que me beije ele” não é imperativo, é jussivo. Nós não temos jussivo em nossa língua, mas é um modo verbal que expressa “desejo”, “vontade”, “pedido”. Ela não manda, ela pede.

 

E pede por quê? Porque deseja. E deseja o quê? Beijos. Veja você, que textinho da gota esse! Primeiro, uma mulher; segundo, uma mulher que deseja; terceiro, uma mulher que deseja um beijo. Um beijo? Não, ela quer beijos! Uma penca deles! Muitos! Que maravilha!

 

Lembro-me da história de Lia, concubina de Jacó, cujo filho, Rúbem achou mandrágoras no campo. A tradição judaica posterior re-escreveu essa história, modificando um detalhe: Rúbem acha não mandrágoras, mas tomates cheirosos! É que mandrágoras são raízes consideradas afrodisíacas, e parece que se considerou impudica a referência. Seja como for, o fato é que consta de Gn 30,14-18, que Lia compra o direito de deitar-se com Jacó, pelo preço das mandrágoras, e daí tem Issacar por filho. Lia quer um filho, e, por isso, diz a Jacó: “é preciso que durmas comigo, pois paguei por ti com as mandrágoras de meu filho” (Gn 30,16). Lia queria um filho, e por isso pagou pela noite com Jacó.

 

Nossa amada, não, ela não quer filhos, ela quer beijos! Ela quer ser arrastada pelo amado, para os aposentos dele (Ct 1,4), porque os amores dele são melhores do que o vinho. Ora, ora, que maravilha!

 

Seja quem foi que escreveu Cantares, num só gesto de mão deixa a mulher por duas vezes abrir a boca: para manifestar seu desejo, que ele me beije, e para beijar a boca dele. Que maravilha! Não é mesmo nada bom que as mulheres estejam de boca fechada, não senhor!

 

 

Ela quer beijos

 

 

...de “entrada”, digamos assim. Trata-se de aperitivos, digamos. Se o posso dizer, um do Porto, só para abrir o apetite... Porque o que eu vejo é uma explosão dos sentidos: visão, paladar, olfato, audição, tato... Sim, sim, não acredita? Veja lá:

Visão

“teus” amores... teus perfumes... teu nome”: ela fala para ele, agora; desejou-o, foi até ele, tem-no diante dos olhos!

 

Paladar

 

“teus amores são melhores do que o vinho”

 

Olfato

 

“o odor dos teus perfumes...”

 

Audição

 

“teu nome”: ela o pronuncia, e gosta de ouvi-lo!

 

Tato

 

“é como um óleo escorrendo”, e faltou dizer, “escorrendo pela pele”...

 

Ela” quer beijos só para começar, mas preparou todos os seus sentidos, todos os que Yahveh colocou no corpo dela, lembra-se? Criatura de Deus, a amada tem sentidos, a amada sente pelos sentidos, vive pelos sentidos, ama pelos sentidos. Faz sentido!

 

Como nós, maridos de nossas mulheres, e mulheres de nossos maridos, sabemos o que é beijar na boca, sabemos porque, depois de desejar beijos de boca, ela está com os sentidos à flor da pele... Que beleza, Yahveh, que coisa linda...

 

 

Saindo de fininho...

 

 

Outro dia vamos ver no que deu essa festa. Por hora, lembro-me apenas de outra explosão de sentidos na Bíblia. Vai lá. Olha lá. Fala-se de ouvido, de olhos, de mãos, e diz-se que a coisa toda nos é contada para nossa alegria. Do que estou falando? De 1 Jo 1,1-4!

 

Quando Yahweh deu sentidos para nós, sabia o que estava fazendo...