Consciência, Culpa e Perdão

Jogos psicológicos e teológicos da alma

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Outro dia chorei ao volante. Foi a segunda vez em minha vida. Na primeira vez, as lágrimas eram de um profundo sentimento de culpa. Essas últimas, agora, eram por conta de uma fulminante descarga psicológica do reconhecimento do perdão. Fora eu agraciado com a sensação consciente, teológica e psicológica do perdão divino, e estava ali, vividamente consciente de que eu nada poderia fazer para pagar por ele, senão colocar-me mansamente à disposição de seus efeitos benfazejos à alma e ao corpo. Segundo a teologia cristã que professo, o perdão, seja ele qual for, teve, sim, um preço – a cruz –, mas não era especificamente a teologia da cruz que ali me vertia lágrimas, mas o fato da minha absoluta incapacidade de corresponder ao ato de misericórdia que a graça divina derramara desde minha cabeça até os pés, e além deles, porque a graça apaga pecados e, quantas vezes, rastros...

 

Perdão tem a ver com culpa, e culpa, com consciência. Culpa é um negócio sério, que pode levar uma pessoa para o buraco, ou, se quisermos melhorar a linguagem, para processos depressivos importantes. Consciências mais ou menos sensíveis têm relações mais ou menos traumáticas com a questão da culpa. Quanto mais sensível a consciência às implicações da culpa – e disso dependem questões como educação familiar, educação cultural e religiosa, bem como as não menos importantes questões relacionadas à constituição bio-psicológica do indivíduo – tanto mais somática será a sensação de culpa decorrente dessa consciência, em face de pensamentos, atitudes e atos então interpretados como falta ou pecado. E há pecados verdadeiramente mortificadores para as consciências sensíveis. Não se trata de uma questão de “tabela” de pecados, mas de uma relação entre consciência e culpa, em face do julgamento que faz de si mesma a consciência sensível.

 

Uma teologia da culpa constitui, historicamente, um conjunto de relações de poder e de controle sobre uma determinada comunidade que, doravante, deve submeter-se ao instrumental perdoador/purificador que as estruturas de intercessão e redenção, que sempre acompanham, claro, as teologias de culpa, instituem com o fim de prodigalizar perdão e purificação. Como toda teologia, essa é também tecnologia de controle. É a forma “intelectual” com que entendo a teologia da culpa, e tenho investigado as perícopes do dilúvio em Gn 6,5-9,17 com esse objetivo – identificar a estrutura social por trás da teologia da culpa ali presente. Contudo, ainda que saiba disso, de que as “teologias de culpa” constituem instrumentos político-sociais de controle, ah, eis-me metido amiúde em palpos de aranha por conta de minha consciência de culpa. Percebo, então, que se trata de uma atitude pessoal, de um sentimento derivado da forma como olho as coisas que faço – e os pensamentos que penso. “Pecado” e “culpa”, sociais e teológicos, são também profundamente subjetivos e pessoais, derivados da “consciência” em interação com um código de pensamento e conduta interior (autônomo ou heterônomo).

 

É preciso ter pecado para se saber o que é o sentimento de culpa, e se patológico ou não, se fundamentado ou não – particularmente acho que haja “culpa”, sim, independentemente de abordagens ditas terapêuticas que a relativizem – a consciência da culpa do pecado só não é mais grave e aguda do que a consciência do perdão.

 

A consciência do perdão é uma experiência traumática, estraçalhadora de ossos, que sacode o esqueleto e os ossos, a carne quase cai do corpo, a alma, quase foge, a voz, cadê?... Por quê? Porque consciência de perdão só é possível se houve consciência de culpa. Sem consciência de culpa não há consciência de perdão. Ora, a consciência de culpa, se profunda, escancara aos olhos do ser sensível, dia e noite, a tragédia do erro e a desgraça do pecado, rói, mói e corrói, devasta, desgasta e maltrata alma e corpo, faz da gente picadinho que ogros noturnos comem e devoram, que dragões fantasmagóricos tostam com bafo de fogo e enxofre. Esse quadro de Dali constitui uma presença, um peso, uma glória de chumbo sobre os ombros. E é concreta, morta-viva a gemer aos ouvidos do culpado que tem consciência da culpa – ou do que tem consciência de culpa sem que seja realmente culpado, porque há consciências tão supersensíveis à culpa que se deixam tomar por ela em dimensões desproporcionais, ou mesmo falsas.

 

Ah, mas qual não é o impacto da graça – da consciência do perdão – nessa alma atormentada por trasgos e ogros dos infernos?! O impacto é mais avassalador do que o da culpa, é mais comovente, é mais profundo, é mais corpóreo, é mais sensível... Por quê? Porque o perdão não pede nada, não cobra nada, não exige nada, só perdoa. Sim, sim, a teologia cristã entende o preço disso, eu entendo o preço de que a teologia cristã fala, mas estou falando da sensação pessoal de ser absoluta e inexoravelmente perdoado, da consciência disso, das conseqüências disso, dos efeitos disso não na teologia e no culto, mas na carne da gente, na cabeça da gente, na alma da gente... O que é que preciso fazer? Nada. Só receber o perdão. Que transformações profundas não devem ser operadas no inconsciente humano para preparar a consciência para sentir o perdão, para refletir sobre ele, para encará-lo de frente. Ah, é mais difícil encarar os anjos do que os demônios...

 

Em que situação ficamos? Em que situação me vejo? Na situação de completa obrigação de dar perdão; de dar, não, que já não é nosso, é o pecado do outro que nos toma o perdão, que nos abre o peito e pega, dá-me, senão morro; na incontornável obrigação de não cuspir impropérios sobre faltinhas e faltonas alheias; de não andar a levantar em público acusações e condenações sobre almas e corpos irmãos; a colocar sobre códigos de leis a teologia da graça e a graça da teologia. O pecado dos outros torna-se pequeno, menor, irrelevante, insignificante, grande era o meu, e maior foi o perdão. O olho da gente tende a se tornar um caldo de perdão, que antes de olhar a culpa daquele ou daquela – e culpa há – já derramou a sopa perdoadora goela adentro. A Oração do Pai Nosso assume uma intimidade nunca antes percebida, naquela parte em que ela nos incita e ensina a perdoar como temos sido perdoados – luz! Pura luz a nos inundar, e a tornar as teologias da culpa cada vez mais desumanas e cruéis, pelo menos diante da graça superabundante do superabundante Deus gracioso. Aleluia!

 

Impossível não perdoar. Impossível sopesar culpa e perdão, a ver se há um quilo nas duas mãos: o perdão vai ganhar a luta entre nossos olhos e nossas tripas. O perdão vai decidir com que força apertaremos a mão que se nos estende. O perdão vai colorir a vida. Não, não vai fingir que não há pecado, e culpa, e falta, e erro, e maldade, e luxúria, e soberba, e... e... e... mas vai fazer com que tudo isso seja relido, relido com a graça daquele que diante da pecadora dizia “vai”, e, se também dizia “e-não-peques-mais”, também dizia “pai-perdoa-os-porque-não-sabem-o-que-fazem”.

 

Oh, Pai, o meu pecado serviu para que eu não julgue (mais) o outro. O seu perdão foi transformador... Não que o pecado preste para alguma coisa, mas é que seu perdão é tão nobre e humanamente divino que transforma até o erro em possibilidade de um novo olhar em direção aos homens e às mulheres, que como eu, do pó vieram, do pó fazem parte, e ao pó retornarão. Pó, sim, mas com a água do teu perdão, Deus, fizeste bonitos bonecos de barro...