Bíblias Fechadas

imperativo e paradoxo

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

No século XVI – o mesmo da Imprensa e da Reforma – dizia um fabricante de queijos na Itália romana: “os inquisidores não querem que nós saibamos o que eles sabem” (Carlo Ginzburg, O Queijo e os Vermes. Cia. das Letras, 1989. p. 128s). Boa história a de Menocchio, que depois de ler livros comprados em banquinhas em Veneza (viva a imprensa), podia ousar perceber que uma coisa era o que se ensinava na igreja e que outra a que se via nos livros (viva a Reforma [cadê ela?]). Levado diante da Inquisição, “Menocchio confirmava quase com insolência a própria independência de julgamento, o direito de ter uma posição autônoma” (p. 54). Não tardou a lhe fritarem as carnes e a insolência no fogo...

 

No século XX, em 1964 – um ano antes de eu nascer – uma comissão especial da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, composta por 19 líderes, escrevia o seguinte: “Estreitamente ligada a essa competência está a responsabilidade de (o [próprio] indivíduo) procurar a verdade e, encontrando-a, agir conforme essa descoberta” (CBF, Princípios Batistas. Em: Impacto – Realidade Batista, 2001. p. 12; cf. JUERP, Princípios Batistas, 1987. A informação encontra-se na ficha catalográfica). Que diferença: na Itália romana, Menocchio é queimado porque queria ele mesmo buscar a verdade; nos Princípios Batistas, somos nós instados a tanto!

 

Na aula inaugural do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, em 2002, na Capela, foram tais (dentre tantas) as palavras do pr. Sócrates (então futuro e agora secretário geral da CBB): “nós não precisamos ter medo de teologia, porque não precisamos ter medo de pensar” (citado com autorização).

 

Minha pergunta que não cala é: por que, então, temos medo de pensar? Se a Itália romana viu apagadas as suas chamas pela Reforma; se nossa tradição nos insta e motiva ao pensamento (Rm 12,1-2), à pesquisa (Princípios Batistas I.2), ao concurso harmônico da fé e da razão (Princípios Batistas V.8), ao desapego à “esterilidade do tradicionalismo” (Princípios Batistas V.9. Em: Impacto, p. 20) – por que, pergunto-me, por que temos desesperado medo de pensar?

 

Segurança?

 

Às vezes sinto que seja por uma falsa idéia de segurança. Construímos um pedaço seguro de chão para pôr os pés, e estamos bem assim. A simples possibilidade de conferirmos se esse chão é mesmo assim tão sólido assusta, ameaça, amedronta...

 

Essa espécie de medo de perder a segurança parece-me falsa compreensão da fé. Porque os mesmos Princípios Batistas dizem: “A fé e a razão aliam-se no conhecimento verdadeiro. A fé genuína procura compreensão e expressão inteligente” (idem, p. 20). Porque também as Escrituras (que amamos) instam a que nos transformemos pela renovação de nosso entendimento (Rm 12,1-2) e nos instruem ainda a que estejamos prontos para dar conta da razão de nossa esperança (1Pe 3.15) – por que cargas d'água, então, temos medo?

 

Sinto que muitos de nós, muitas vezes (e nós mesmos, quantas vezes!) abandonamos aquele dia. “Aquele dia” aqui é o meu 10 de agosto de 1984, dia glorioso em que – no escuro – saltamos: “Pai! Segura-me”. Aquele dia e aquele salto – é isso, penso que nos esquecemos deles, nos assustamos com eles, vamos nos dando conta da sensação de saltar e saltar no escuro – e então, depressa depressa construímos um chão para sustentar nossos pés. Assim construído esse chão (que cabe na catequese) – agora não estamos mais no escuro, nem no ar, mas na luz e no chão – agora estamos seguros!

 

Catequese, contudo, são produções humanas, históricas, nossas, que fizemos ontem, fazemos hoje e o bolo de amanhã já queima no forno das nossas lides cotidianas. Se humanas são as teologias – todas – e as doutrinas – sem exceção – como podemos agarrar-nos a elas como a tábuas em alto mar? Como podem servir de sustento para os pés feridos da raça e do homem? Não. A segurança não pode vir de construções humanas e catequeses eclesiásticas (tantas as igrejas e quantas as catequeses!), porque teremos medo de pensar e descobrir que são ao fim e ao cabo humaníssimas. Tão-somente a paz inefável, a mão da paz inefável que nos aperta o nó da garganta e sufoca, ao mesmo tempo que nos acalenta, a paz da Graça, só a Graça, nada mais do que a Graça – tão-somente a Graça nos dê segurança. Graça no escuro e em pleno e terreno vôo. O mesmo vôo daquele dia – 10 de agosto de 1984. Nove horas e quinze minutos. Cada um teve seu vôo, cada qual bata as asas diariamente...

 

A Palavra

 

Como a hierofania (a manifestação do Sagrado), a Palavra a um tempo nos sustenta e nos tira o chão. Nos sustenta, porque cremos que a Palavra é de Deus (2Pe 1.20-21); mas nos tira o chão, porque de Deus é a Palavra, não a catequese – esta, interpretação nossa. Fechada a Palavra, intacta, é de Deus; aberta, interpretada, é humana – expressão da compreensão transitória e condicionada de cada um – mesmo dos crentes, mesmo de Lutero, malgrado sua discussão com Erasmo sobre a suficiente, particular e iniludível iluminação do Espírito Santo (cf. Richard Popkin, História do Ceticismo de Erasmo a Spinoza. Francisco Alves, 2000. p. 25-47). Pobre Espírito Santo usado para dar ares de divinas a humanas seguranças construídas e catequeses! O que o medo de pensar não nos faz fazer...

 

Que a Escritura interpretada é questão de ortodoxia e heterodoxia já o sabiam Justino, Ireneu e Tertuliano, que não apelaram para a iluminação, mas para a regra de fé “apostólica” – diga-se de uma vez, a interpretação da igreja (cf. os volumes 3 e 5 da série Patrística, da Paulus: Justino e Ireneu, respectivamente; interessante ainda ler Roy B. Zuck, A Interpretação Bíblica. Vida Nova, 1994. p. 39s, que fala dos três pais como dos outros e, portanto, sem reservas).

 

Há que se distinguir entre segurança pela Palavra e segurança pela interpretação da Palavra. A primeira é protestante (e batista); a segunda, tradicional e romana (cf. Dei Verbum, Paulinas). Nada contra ser esta romana – só que é romana, e não protestante e batista. O crente batista é instado a agarrar-se à Palavra (para temor de Erasmo: “E como saberão, Lutero, a correta interpretação?”); as doutrinas e teologias que nascerem desse abraço não devem – sob risco de superá-la e matá-la (o risco de Lutero, para quem sua interpretação é fruto de iniludível iluminação, logo, certa e inequívoca) – tomarem seu lugar e trono.