Autonomia – sexualidade dá nisso

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

A maçã do “pecado original” é mais ou menos como a coroa dos reis magos: não existe. A coroa não existe, porque não existem “reis” magos – são apenas “magos”. A maçã não existe, porque não se dá nome ao fruto, deixando-o genérico, como convém a fórmulas dinâmicas de ideologia.

 

Não há nem maçã, nem sexo ali. O “pecado” de Adão e Eva, nada tem a ver com sexo ou sexualidade. Fala-se de “comer do fruto”, e de que tal fruto constitua conhecimento do (que é) bom e do (que é) ruim”. O que está em jogo é os próprios Adão e Eva quererem eles mesmos decidir o que é “bom” e o que é “ruim”, isto é, o que é bom ou ruim para eles mesmos. O que está em jogo é os dois decidirem tomar a vida em suas próprias mãos. O que está em jogo é sua autonomia. Sua liberdade. Sua vida.

 

Antes que alguém se surpreenda de minha afirmação, mais por medo das conseqüências, do que pelo seu sentido, é bom lembrarmos que, nas narrativas, os personagens agem conforme a vontade de quem escreve as narrativas. Lá estão Adão, Eva, a serpente, o jardim, a brisa, Yahweh, os arbustos, as folhas, a pele. Lá está o medo, o castigo, a expulsão. Lá estão os personagens todos, a mobília toda, a cena inteira. E quem dirige a cena, o nome dele é “narrador”. Para o bem, quando Deus faz coisas boas, e para o mal, quando Deus faz coisas ruins, nas narrativas, é o narrador quem desenha Deus fazendo essas coisas, dizendo essas coisas. É bom ter isso em mente. É saudável. É necessário.

 

A alguém parece um absurdo que “Adão” e “Eva” possam, mesmo queiram, obter o discernimento do que é bom (para eles) e ruim (para eles). Como Platão, que julgava saber a “verdade” divina, a Idéia, enquanto os outros, não, o diretor de nossa cena julga ser a pessoa mais indicada para saber o que seja bom e ruim para Adão e Eva. Por extensão, para todo homem e mulher. O problema, contudo, é que Adão e Eva querem, eles mesmos, decidir. Eu acho que sim, porque, caso Adão e Eva não pretendessem decidir por si mesmos, escolher por si mesmos, o que, a seu juízo, era bom ou ruim, não haveria necessidade de alguém se preocupar com isso. Houve quem se preocupasse. A ponto de escrever nossa pequena “tragédia”. Imagino que houvesse por que se preocupar.

 

Uma coisa é considerarmos justo que Deus decida, por nós, o que seja bom e ruim para nós. Sendo Deus o Deus que é, é justo. Outra coisa é alguém, qualquer pessoa, de qualquer cargo, pretender que Adão e Eva aceitem que, dizendo ele, essa pessoa, o que seja bom ou ruim para Adão e Eva, Adão e Eva tomem essa opinião dele como opinião de Deus. Naturalmente que, na narrativa, é Deus quem fala. Mas, nós sabemos, isso é assim na narrativa, porque, também sabemos, na vida real, é a pessoa que escreve a narrativa que põe Deus a falar, e faz Deus falar o que ela, a pessoa que escreve a narrativa, quer que Deus fale. Mais ou menos como hoje em dia, quando se pode ouvir Deus falar por uma boca aqui, nesta igreja, uma coisa, e ali, naquela outra igreja, Deus falar outra coisa, diferente. Até contrária. Ou Deus tem opiniões diferentes a cada instante, ou tem gente por aí falando que é Deus falando, quando, logo se vê, é a própria pessoa falando.

 

Por que eu preciso falar o que eu quero, dizendo que é Deus que está falando? Respondo: para que as pessoas façam o que eu quero, acreditando, porque acreditam, que estão fazendo o que Deus quer. Assim, quem compôs aquela cena do Jardim do Éden, quer coisas. Quer que pessoas façam coisas. Quer que pessoas deixem de fazer coisas. Usa Deus para isso. Não, minto: usa o nome de Deus para isso.

 

Penso assim: quanto ao “pecado” que é encenado, nada tem de sexualidade. É autonomia.

 

O interessante vem depois, na hora da maldição. A maldição do homem é o cansaço do trabalho, como se, antes, fosse beijar a terra e pronto, lá vem a plantinha serelepe, e, agora, amaldiçoado, o homem tenha que lutar contra a terra, as ervas, as pragas, a fadiga, a dor, a morte. A maldição do homem é a dificuldade do trabalho braçal, no campo. Fazer o parto da terra, só com muito, muito esforço. O cio da terra é maldito.

 

A maldição da mulher, aí sim, é a sexualidade. Coisa curiosa. Castigada, diz-se que o desejo da mulher a inclinará ao marido, e ele, marido, a dominará. Quer dizer, porque a mulher é tomada de desejo sexual, está amaldiçoada por esse desejo, então maldito, a submeter-se ao homem. É uma estratégia e tanto do nosso narrador. Vamos analisar?

 

O desejo sexual é próprio do ser humano. Quando Deus modela o homem e a mulher da terra, como um artesão do barro modela um boiadeiro ou uma vendedora de cocadas, Deus modela o corpo todo. Todo. Cabeça. Braços. Pernas. Olhos, boca, mãos, sexo. Modela e faz funcionar. Olhos, para ver. Boca, para comer, beber, falar, beijar. Mãos, para pegar, acenar, escrever, acariciar. Sexo. Sabemos pra que. Tudo isso funciona como deve funcionar. Funcionando, tudo isso é muito bom. E se houve cristãos que se castraram, cheios de culpa, a culpa não é do sexo, mas do que eles fizeram com o sexo. Não puderam apagar o que fizeram, arrancaram aquilo com que o fizeram. Terapia teria resolvido.

 

Mas lá está nosso narrador a tornar a sexualidade feminina na própria imagem da maldição. Por que não a do homem, também? Suspeito de nosso narrador. Não consigo vê-lo bem-intencionado. Se ele ainda pusesse sob maldição também a minha sexualidade... Mas só a de Eva? É como o voto, que, quando surgiu, era coisa de homens, não de mulheres. Há algo por trás da cena do Jardim, como se a mulher, já fora do Jardim, sofresse, na prática, a discriminação que, agora, vai ser encenada no Jardim. Mulher – controlada desde as suas carnes.

 

Fechar a porta para a compreensão da sexualidade feminina como bem saudável e natural, lindo e limpo, é fechar a porta para sua autonomia. Quando o corpo dela pede amor, ela tem de se lembrar que é maldita a sua maldição, desde dentro das suas próprias carnes, e calar-se, boca e corpo.

 

Não é à toa que surgiu uma tradição na cultura que elaborou essa cena. Conto. Segundo a tradição, Eva não foi a primeira mulher que Deus criou. Foi Lilith. Que lá vem bomba a gente percebe logo pelo nome que deram a ela: Lilith, que era como os demônios femininos dos desertos da Babilônia eram chamados. Mas Lilith, depois que Deus a criou, não queria de jeito nenhum “deitar por baixo”. Absurdo! O lugar da mulher é “por baixo”. Na comunidade, na casa, na cama. Aí, então, Deus criou Eva, pra que ela aceitasse “deitar por baixo”. A boa Eva é a que “deita por baixo”.

 

Logo se vê que a sexualidade feminina não é o que está em jogo. O que está em jogo é a autonomia. É a vontade de as pessoas decidirem sua própria vida, como queiram. A sexualidade feminina, aí sim, está diretamente relacionada a isso, à autonomia. Não é por outra razão que, no corpo da gente, puberdade e autonomia estão relacionados – e tanto, que “adolescente” virou sinônimo de “rebelde”. Quando a narrativa encena a sexualidade feminina como maldição, demonstra que sabe onde começa o vento que vai virar tempestade. Deixem o corpo da mulher desejar, e logo ela vai achar que é gente.

 

Eu diria o seguinte: das duas uma, ou a Natureza gosta de ver o circo pegar fogo, e preparou cada ser humano para tornar-se livre e autônomo, dono do seu próprio nariz, ou é o próprio Deus quem, planejando criar criaturas, criou-as para caminharem com os próprios pés. Em qualquer dos casos, o registro que abre a represa é a sexualidade. Sexualidade pede autonomia. Pede liberdade. Amaldiçoar a sexualidade, é amaldiçoar a autonomia.

 

Tinha alguém que não queria isso. Duvido que fosse Deus.

 

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

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Adendo (05/12/2006):

 

Para outro uso de bAj) (†ôb) no sentido de "(o que é) bom", cf. Sl 107,9:

hq"+qevo vp,n<å [:yBif.hiâ-yKi

9a Porque satisfez a vida sequiosa,

`bAj)-aLemi hb'[er>÷ vp,n<ïw>

9b e a vida faminta encheu do (que é) bom.