Jesus, o Messias, e Cristologia

Experiência e Doutrina

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

 

Era uma aula de Hermenêutica. Faz aí um tempo já. Mas lembro (do que lembro) (quase) como se fosse ontem. Exausto, coitado, de me ouvir, o seminarista, terminando eu a minha fala, e com ela, a aula, soltou (até hoje não sei se pensando ou sem pensar): “Ufa! Agora vamos deixar Hermenêutica... e ficar com Jesus!” (não sei mais se ele disse o “ufa!”, mas coloco aqui porque dá efeito, não dá?).

 

Olhei pra ele, o coitado, os alunos começando a arrumar o material para saírem. Olhei pra ele. Não sei mais o que senti, só que disse mais ou menos assim: “Que bom!”. Todos pararam: “lá vem ele”, devem ter pensado... “Que bom! Traz Jesus então, que queremos todos, e eu, falar com ele”. Ele arregalou os olhos. Pergunto-me se fui muito perverso. Até hoje não sei. Ele retrucou: “Não, professor, estou falando... é...”. “Não, querido”, disse eu (o querido acho que não), “agora quem quer largar Hermenêutica e ficar com Jesus sou eu. Então traz ele  aqui pra nós rapidinho”. É, já era maldade minha. Eu sabia que ele não tinha “Jesus” na mão, nem em casa, nem no hotel. Não tinha como ele me trazer Jesus. Mas eu continuei, malvado que fui: “Ué? Então quer dizer que você não tem Jesus? Só aquele em quem você crê? E como é que você crê nele? Ah, seu pastor... Entendo. E como seu pastor creu nele? Das duas uma: ou a gente vai de um em um até chegar a Pedro, e, com e depois de Pedro, a Jesus, ou então vai ter que assumir que aprendemos de Jesus na Bíblia. E, se como parece ser mais verdadeiro e honesto admitir, aprendemos dele na Bíblia, se é na Bíblia mesmo, e não na catequese, na tradição, seja ela qual for, então não temos como chegar a Jesus sem a Hermenêutica”. Porque Bíblia é ta biblia, “os livros”, e Hermenêutica é coisa muito apropriada para “os livros”...

 

Pergunto-me, agora, enquanto escrevo, se é possível uma “experiência” com o Cristo que não seja, antes, uma adesão a um “credo”, forte ou fraco, um dogma forte ou uma doutrina cristológica de caráter mais catequético que seja... Julgo que não. Julgo que não, porque há uma diferença gritante, incontornável, inexorável, entre o Deus-Pai e o Deus-Filho, para mantermos inclusive a linguagem da “fé” (=doutrina). O Deus-Pai, conquanto “revelado” na história, não tem, contudo, caráter histórico. Não se fez “homem”. Captamos do Pai, de Deus, do Sagrado, apenas o leve sopro, que, guardado na memória, torna-se saudade – e doutrina, claro, mas aí já sabemos que não se trata, mais, do Pai...

 

Quem se fez homem foi, aí sim, o Filho. Com isso, o Filho assumiu uma forma, uma condição, uma prática: fez-se “objetivamente dado”, e em dois níveis – o histórico, enquanto homem vivente, e o literário, enquanto confissão de fé canônica e polêmica apologética. Se pode haver uma mística solúvel e “mole” com relação ao Pai, uma mística com o Filho, se é este Jesus de Nazaré, deve ser uma mística “dura”, bíblica, escriturística. Não? Penso que sim. Deus está na Natureza? Está. Na sombra? Está. No espaço e no hiper-espaço? No tempo e no espaço-tempo? Sim, está. Posso olhar para as estrelas e ver, lá, olhos me olhando... Mas Jesus? Penso que só posso olhar para ele “através” de sua encarnação, e vê-lo como o nazareno, sob o risco de perdê-lo por excesso de mística: Jesus é mais barro, menos luz, mais concreto, menos diáfano... Naturalmente há reflexões como a do Cristo Cósmico, mas estamos falando do Jesus bíblico, mesmo, sem ironias.

 

Penso que esse pensamento cristológico meu seja um derivado de minha “alma” protestante (por favor, deixem de lado aqui a questão relacionada aos termos “evangélico” e “protestante”). Minha alma é, antes de tudo, essa alma cristã, uma alma “protestante”. E é protestante não porque proteste (mais) contra quem Lutero protestava, mas porque (curioso!) levei a sério os princípios que, para mal ou para bem, usamos para estabelecer a “alma” protestante – princípios que os batistas prezam até hoje, gosto de crer.

 

Um deles é o livre-exame das Escrituras: não tenho problemas com esse. O outro, a leitura das Escrituras sob chave cristológica. E eis, justo aqui, um problema grave, que não resolvemos até hoje: se a leitura da Bíblia deve ser feita sob a ótica cristológica, segue-se que a cristologia define a leitura bíblica; mas, por outro lado, a cristologia, se protestante é, é, antes, bíblica, de modo que eu me vejo na difícil missão de ter de ler a Bíblia mediante uma chave que é a leitura da Bíblia que me deve dar. A conta não fecha... Ai, que não consigo fazer essa conta!

 

Historicamente, ou se pende para a tradição (e a cristologia passa a ser dogmática, conciliar, assumida ou escamoteada) ou para a exegese (e a cristologia passa a ser histórico-crítica). A solução para esse imbróglio não cabe num artigo, se cabe num século (parece que não). De um jeito ou de outro, se crítica, se dogmática, a cristologia-enquanto-formulação-doutrinária antecipa-se a qualquer “experiência”. Quer falemos de “experiência” no sentido moderno (quase – se não já – cartesiano) ou de “experiência” no sentido místico, a mediação será, sempre, cultural, porque o Cristo será, sempre, um construto histórico-cultural, hermenêutico, mediado quer seja pela exegese histórico-crítica ou pela dogmática tradicional, dê-se-lhe o nome que se lhe quiser dar, de fundamentalismo a neo-ortodoxia, e seja produzida por qual metodologia se cogite, também sob qualquer nome politicamente correto. Dogma, de um lado, e exegese crítica, de outro, ambas são chaves de elaboração cristológica, sendo a cristologia daí derivada, por sua vez, chave protestante de leitura bíblica... De novo a conta que não fecha... De um jeito ou de outro, “essa” cristologia (crítica ou dogmática) constitui a base da experiência mística com o “Cristo”.

 

Penso que não levamos esse assunto suficientemente a sério. Penso que, no fundo, nós evangélicos (= protestantes), na prática, assumimos uma tradição, dita bíblica, e, com ela identificamos Jesus de Nazaré, hora encarnado, hora glorificado. Se bíblica ou não é realmente essa imagem, e o quanto o é, uma certa dogmática não está interessada em saber, porque às metodologias críticas que lhe poderiam servir de arrimo à resposta ela as trata de “nocivas” e “prejudiciais à igreja”. Em que situação “me vejo”, então? Na situação de, crendo em Jesus, reconhecer que creio num construto doutrinário – a mediação cultural da experiência de fé. Mas não quero crer num construto doutrinário, mas aderir a uma pessoa, a Jesus de Nazaré. Então tenho de me perguntar se minha expressão doutrinária é fiel ao construto bíblico, que media o “encontro” entre Jesus e eu. Mas como? Se, por um lado, não “critico” minha leitura, com risco de pôr a perder minha expressão doutrinária, então não tenho como assumir, honestamente, que, sim, tenho certeza de que minha expressão de fé seja bíblica. Ela pode ser ótima, boa, tradicional, ortodoxa, o mais que o valha, mas, se bíblica, não saberei. Por outro lado, se critico, perco, ainda que num momento, num átimo, que seja, aquela grandeza que julgava inescapável: lanço mesmo num torvelinho cético metodológico assustador aquilo que, faz dois segundos, era o SER de Parmênides, que não aceita ceticismos... Num e noutro caso, do meio da cristologia, Jesus de Nazaré, um certo Jesus de Nazaré, nascido, e homem, me observa como que de longe, muito a seu jeito, mas da mesma forma como, também penso, do meio da teologia, Deus, também de longe, me observa. Este, porque é Deus, logo, inefável, intocável; Aquele, não por isso, porque se fez homem, e, justamente por se ter assim se feito, se fez história, e aí, sim, por isso, também Ele me olha como de longe...

 

Os dois me olham de longe, e, cá, de cá, olho para eles. Tão divino, e tão longe! Tão humano e tão longe! Se o(s) divinizo, me escapa(m), se o(s) humanizo, me fogem. Fogem, tudo bem, mas eu os capturo na fé, que, agora acabei de ver, é construto cultural, mediador, e comecei tudo de novo... E eles, lá longe...

 

Talvez o Novo Testamento me ajude a dar alguns passos em sua direção...