Gn 1,30 e Burgess Shale

 – a Bíblia e a visão-de-mundo dos seus autores

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Uma das mais interessantes curiosidades que constato na vida é a relação que acabam tendo detalhes aparentemente tão distantes uns dos outros. Que relação poderia haver entre um disquete de 1,44 MB contendo a fonte Bwhebb e Burgess Shale? Acabei descobrindo, e acabei sorrindo...

 

Burgess Shale é um extraordinário sítio arqueológico, localizado nas Montanhas Rochosas, no Canadá, onde, em 1909, foram encontrados os mais importantes fósseis com partes moles, provenientes do baixo Cambriano (c. 530 milhões de anos). Os espécimes encontrados são surpreendentes, e possuem formas que, segundo o autor de Vida Maravilhosa, mais parecem ter saído das cenas de um filme de ficção científica: Marrella, Anomalocaris, Wiwaxia, Sanctacaris, Habelia, Sidneyia, Odaraia, Hallucigenia, Opabinia e tantos outros, que, se bem observados, fazem com que toda a fauna gigantesca dos grandes répteis desaparecidos no final do Cretáceo (c. 65 milhões de anos) nos pareçam surpreendentemente próximos. Os representantes de Burgess Shale estão entre os antepassados de praticamente todas as espécieis existentes atualmente, ainda que a esmagadora maioria dos filos identificados tenha sido extinta.

 

Quanto ao disquete com a fonte hebraica, a recebi de meu colega do Seminário do Sul, pastor e professor Élcio Sant’anna, que mo deu por termos em comum a admiração considerável pelo estudo do texto hebraico do Antigo Testamento, já que aquela fonte permite  melhor apresentação de nossos trabalhos de doutorado. Utilizando-o, decidi-me a realizar um projeto simples, mas trabalhoso: acompanhar as variantes do texto hebraico impresso que o apparatu critico da Biblia Hebraica Stuttgartensia apresenta, comparando com minhas versões da Bíblia, a fim de identificar quais delas seguem que variantes. Um exercício lúdico e sem maiores ambições, mas que, na terceira variante, me deu com que pensar.

 

Em Gn 1,30, o texto da Stuttgartensia, que adota como texto base o manuscrito de Leningrado B19a, não possui a expressão  yTit;n" (lê-se nâthatî, “eu dou”, “eu tenho dado”). Sua descrição está apenas no apparatu critico, que sugere uma probabiliter praemittit do termo em Gn 1,30 – uma supressão. O apparatu critico informa, ainda, que o termo consta de Gn 9,3, onde é dito que ‘Elohim [em Almeida, “Deus”]  teria dado ( yTit;n" ) as ervas como mantimento para todos os animais. Por se tratar de uma suposição dos editores da Stuttgartensia, imaginei que as minhas versões não a utilizariam em suas traduções. Enganei-me: 3 versões apenas não consideraram a suposição de que em Gn 1,30 deveria haver a expressão nâthatî traduzindo como sugere o manuscrito B19a: “toda erva verde lhes será para mantimento” (ARA), enquanto que a esmagadora maioria, 14 versões, incluem o provável nâthatî de forma que traduzem, por exemplo: “tenho dado todas as ervas verdes como mantimento” (Melhores Textos, seguida por outras versões importantes em português, inglês e alemão).

 

Fiquei intrigado com o fato de tantas versões incorporarem a expressão nâthatî uma vez que não se trata de uma variante textual, além de não constar no texto da LXX. Trata-se de uma suposição da crítica textual: supor o termo nâthatî na tradução, é considerar que, no início, ele estava presente no texto hebraico, mas que, à semelhança de tantos outros casos desse tipo, algum copista deixou de o copiar, ficando nossos manuscritos mais considerados sem o termo.

 

Um outro fator levava-me, contudo, a considerar que, efetivamente, se deve pressupor esse nâthatî como estando presente no texto original: existe um acusativo no manuscrito B19a, a partícula ta, que indica a presença de um objeto direto que, no caso, seria “as ervas verdes” – daí: “eu dou” [ou “tenho dado”] as ervas verdes como mantimento”. Como o objeto direto pressupõe um sujeito, nâthatî cumpriria bem esse papel, corroborando a maioria das traduções que vertem “eu dou” ou “tenho dado” em Gn 1,30.

 

Somando àquela referência ao acusativo hebraico dois outros detalhes: 1) o fato de que a expressão nâthatî é usada em Gn 1,29 e 2) o fato de que muitas versões fazem-se mediante comparações com outras anteriores já publicadas, pareceu-me que encontrava uma explicação porque algumas versões consideram um nâthatî em Gn 1,30.

 

Seja como for, Gn 1,30, corroborado por 9,3, dá-nos a entender que os primeiros animais eram herbívoros. A nota respectiva de A Bíblia de Jerusalém sugere que se trata da “imagem de uma idade de ouro, na qual o homem e os animais viveriam em paz, alimentando-se de plantas”, enquanto que 9,3 marcaria uma nova época:

 

29Deus disse: “Eu vos dou todas as ervas que dão semente, que estão sobre toda a superfície da terra, e todas as árvores que dão frutos que dão semente: isso será vosso alimento. 30A todas as feras, a todas as aves dos céus, a tudo o que rasteja sobre a terra e que é animado de vida, eu dou como alimento toda a verdura das plantas e assim se fez”.

 

 

(...)

 

 

Vida Maravilhosa classifica os espécimes de Burgess Shale em seis grandes categorias ecológicas, reunindo-os em grupos de animais que só viviam no fundo do mar; outros que tanto caminhavam no fundo do mar, quanto nadavam e ainda outros que apenas nadavam, sendo que, invariavelmente, ou eram detritívoros, ou predadores, ou se alimentavam de cadáveres! Simplesmente, aquelas criaturazinhas de milhões de anos, preservadas por um verdadeiro milagre geológico, não eram herbívoras, mas carnívoras. Ottoia, por exemplo, o verme priapulídeo mais comum da fauna de Burgess “engolia suas presas inteiras. Os hiolítidos (...) constituíam sua alimentação preferida, tendo sido encontrados 31 espécimes nos (seus) intestinos” (Stephen Jay Gould, Vida Maravilhosa, p. 344). Encontrou-se, até, um espécime de Ottoia que “havia comido membros de sua própria espécie – o mais antigo exemplo de canibalismo do registro fóssil” (idem, p. 344s.).

 

Fiquei muito pensativo depois de relacionar Gn 1,30 e os relatos sobre a fauna de Burgess. A primeira impressão que tive foi a de que não se encaixavam: como podiam ser carnívoros os animaizinhos de Burgess, se o texto de Gn 1,30 declarava que, ao serem criados os animais, ‘Elohim os fizera herbívoros e que, além do mais, somente após o dilúvio teria a dieta carnívora sido incorporada aos hábitos alimentares dos seres-vivos? A fauna de Burgess é constituída de animais muito, muito antigos, muito mais do que se ampliássemos os cálculos literais para a data da Criação que têm sido feitos a partir das cronologias registradas nas Escrituras. Ottoia tem 530 milhões de anos: daria para ‘Elohim repetir o fiat lux 88.300 vezes!

 

Um segundo pensamento que poderia ter experimentado seria jogar o Vida Maravilhosa no lixo. Mas isso não resolveria o problema, já que os milhares de espécimes da fauna de Burgess estão no Instituto Smithsoniano, em Washington e, ontem mesmo assistia ao filme Agora e Sempre, no qual Samantha esperava que seu pai a levasse àquele Instituto. De que adianta serem jogadas 390 páginas no lixo se lá estão quase 13 mil espécimes coletados! E ainda que eu jamais bote os pés lá dentro, eles estão lá – eles existiram, e agora sabemos disso.

 

Meu último pensamento foi atraído pela conclusão metodológica de Vida Maravilhosa, a história da reinterpretação da fauna de Burgess Shale, 60 anos depois que seu descobridor publicou suas primeiras e únicas notas a respeito. A nova interpretação de Burgess foi possível graças à observação criteriosa de cada um dos espécimes, sua dissecação partícula a partícula, que permitiu analisar o exterior e o interior daqueles animais, até o ponto em que, diante das evidências, ainda que não tenha sido essa a intenção da equipe de pesquisadores responsável pelas revisões, não foi mais possível deixar de reformular as proposições de 1909.

 

E, então, concluí que devemos dedicar o mesmo tipo de pesquisa ao texto bíblico: observação criteriosa de suas palavras e seus textos orgânicos. Ainda que possamos efetuar nossas pesquisas exegéticas com formulações filosóficas e teológicas já estabelecidas, não podemos fechar-nos à possibilidade real de reformularmos tanto umas como outras. E, nesse sentido, penso que precisamos rever nossa visão sobre Gn 1,30 – não podemos considerar que a Palavra Sagrada que ele carrega esteja cunhada na sua literalidade, já que essa literalidade rui sob o peso das Rochosas de Burgess Shale; nem podemos, ainda, com tanto mais razão, fundamentá-la na leitura alegórica de Gn 1,30, dissociada de seu mundo e tempo. Talvez precisemos nos perguntar se Gn 1,30 não corresponde simplesmente a uma visão cultural das origens, que sequer estranharíamos fosse um texto antigo qualquer, e somente nos recusamos a admiti-lo por conta do modelo de compreensão de inspiração bíblica que adotamos – as mais das vezes uma espécie de ditado verbal. Seja dito, entretanto, que esse modelo não é co-natural às Escrituras, mas um a priori metodológico, como o de Charles Doolittle Walcott, que, ao descobrir os fósseis de Burgess Shale, decidiu-se a os fazer coincidir com sua concepção da biologia e da teologia – esteve errado todo o tempo, e morreu sem o descobrir. Não é o nosso conceito de teologia que deve determinar o estudo dos textos bíblicos – ao contrário, são eles, os textos bíblicos, que devem determinar nossa teologia. E o texto de Gn 1,30, se vai nos falar alguma coisa, será justamente através da visão cultural que lhe serve de fundo. A Palavra de Deus em Gn 1,30 deverá, necessariamente, corresponder à visão de seu escritor, ainda que ele formule ou recolha uma concepção cultural das origens. Qualquer outra maneira de manter a sacralidade de sua mensagem mediante a descontextualização de sua visão-de-mundo e projeção de nossas teologias contemporâneas corre o risco de ser sustentada por nós, em lugar de nos sustentar. O risco é que a Palavra de Deus seja considerada de Deus justamente porque é nossa.

 

Considero que é possível ler Gn 1,30 como remanescente de uma visão cultural da vida, sem desmerecer em absolutamente nada sua sacralidade, já que sacralidade nada tem a ver com conteúdos homologados. Seja como for, até o final dos tempos, em gavetões de madeira do Instituto Smithsoniano, em Washington, os remanescentes da família Ottoia carregarão 31 espécimes diferentes de hiolítidos conchosos em seus intestinos fossilizados. E, se observarmos um pouco mais atentamente do que fizeram os membros da equipe que os reinterpretou, se nos debruçarmos um pouco mais sobre eles, poderemos jurar que estarão sorrindo...