Feuerbach e João.

Deus “escondido” no outro...

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

 

Não é que eu possa falar sobre o tema. Da forma como o julgo, não, não poderia. Porém não tenho conseguido deixar de falar dele, seja porque a minha consciência deve andar a me cobrar alguma coisa nessa área, seja porque a reflexão teológica acaba esbarrando nisso... Falo do tema do “amor”.

 

Chegarei ao tema do “amor” passando por dois teólogos: Feuerbach e João. Feuerbach é um filósofo alemão do século XIX, famosíssimo nos meios filosóficos e teológicos. Famosíssimo, mas “amaldiçoado” – pelo menos naqueles meios em que a Filosofia está a serviço de dogmas não confessos, e a Teologia andar de nariz em pé. Tudo porque Feuerbach teria dito – e, pelo que eu li em seu A Essência do Cristianismo, disse mesmo – que “teologia” é “antropologia”, ou seja, falar de Deus é como falar do homem, e o homem só pode falar de Deus aquilo que lhe é dado em sua própria experiência. Segundo Feuerbach, Deus seria uma espécie de “projeção” da “essência” humana, que, depois de projetada e objetivada como uma coisa externa ao próprio homem, coisificada, portanto, é concebida como “Deus”. Falar disso hoje para mim é gostoso, mas me recordo que as primeiras leituras exigiram um pouco de Elixir Paregórico, porque as tripas, não acostumadas, torceram-se e foram torcidas.

 

Mas devo confessar que não tive crise séria com Feuerbach... Acho que no fundo estava atrás de alguma coisa assim, de um discurso assim. Explico, explicando como entendo Feuerbach. Melhor: explico dizendo como fui levado a entender Feuerbach. Na época, Liz também Mircea Eliade, um livro fantástico dele, Tratado de História das Religiões, que na verdade é um tratado de Fenomenologia da Religião. Os dois dizem a mesma coisa, praticamente, só que com modos e processos diferentes. Mircea Eliade diz que o que caracteriza a manifestação do sagrado pode ser classificado como “dialética”: o sagrado brinca de pique-esconde com os homens, mostrando-se... escondendo-se... O sagrado manifestar-se-ia na vida, nas coisas – não que a vida e a coisa deixassem de ser o que são, vida e “coisas”, mas é que alguém, de repente, vendo a vida e as coisas, vê mais do que a vida e as coisas, vê uma realidade que está lá... mas não está... não está... mas está. Segundo Mircea Eliade, essa “manifestação” consiste na irrupção do sagrado no mundo profano – que é profano em comparação ao sagrado –, sendo percebido de forma indireta pelos homens e mulheres que testemunham essa manifestação. Como o sagrado seria indizível, incomunicável, a única tradução possível – a teologia – se daria a partir de elementos do veículo ou objeto da manifestação do sagrado, bem como de elementos da própria pessoa, da testemunha da hierofania. Logo – a teologia, nesse sentido, seria a tentativa de dizer o que não pode ser dito, e, além disso, baseada em elementos do mundo – vida e coisas de um lado, homens e mulheres de outro – e não do próprio “sagrado”. Não é o mesmo que dissera Feuerbach?

 

De que forma o “amor” passa por essas questões? Talvez através de algumas afirmações de João, seja o João “evangelista”, seja o João das “epístolas”. O evangelista guardou para o final do seu Evangelho aquela cena de profundidade humana como poucas nas Escrituras – talvez comparável à cena da mulher siro-fenícia e sua contra-argumentação extraordinária. Por três vezes, através de três perguntas e três respostas, o Jesus de João faz ver a Pedro que a forma de demonstrar o seu “amor” por Jesus é cuidar das “ovelhas” de Jesus. Pedro, me amas? Três vezes, ah?! Imagina... Talvez para reforçar a idéia de que o que realmente importava, para o Jesus de João – pelo menos para o dessa passagem –, era o “cuidado”, cuidado no sentido de “tomar conta”, de “cuidar”, de zelar... apascentar.

 

Observe-se a pergunta: “Pedro, amas-me?”; agora, a resposta de Pedro: “Amo”; então, a afirmativa categórica, peremptória, infalível como Bruce Lee: “(Então) apascenta as minhas ovelhas”. Finjo que sou Pedro: sim, amo Jesus; o que faço, então? Quero demonstrar, quero “provar”, sei lá; o que faça? Amo as ovelhas de Jesus, que são, logo vejo, meus irmãos. Se amo Jesus, cuido dos irmãos. Se cuido dos irmãos, é porque amo Jesus. E eu não poderia dar um jeitinho de “demonstrar” esse amor de outro modo? Bem, “cuidar de ovelhas”, cuidar dos irmãos, para isso há muitos, muitos meios; logo, posso arranjar um monte de maneiras de “cuidar” dos irmãos – mas somente estarei praticando “amor” a Jesus, a depender da passagem, caso esteja de alguma forma verdadeiramente “apascentando ovelhas”... Não haveria um cantinho onde se pudesse amar Jesus de outro modo. Jesus estaria apenas disponível para ser amado... no outro.

 

Talvez seja o mesmo que o João das epístolas dirá, que amar Deus é amar o próximo, nem mais nem menos. Ainda se pergunta como é possível amar a Deus – que não se vê, ele frisa – e desamar o irmão. Ele não o sabia, nem nós, ainda que nos desamemos quantas vezes, disso o sabemos melhor do que ninguém. Deus disponível para ser amado no outro; Jesus disponível para ser amado nas ovelhas.

 

Podem chamar do que quiserem, mas para mim isso é puro Feuerbach e Mircea Eliade. Ah, sim, de um jeito light, mas é. Se por um lado, Feuerbach e Mircea Eliade contarão o corinho segundo o qual todo discurso humano sobre Deus é “humano” – logo, toda teologia é discurso humano – e toda a representação do sagrado é humana em sua base e essência, por outro lado, os Joões do Evangelho e das epístolas vão cantar o  hino que diz que Deus e Jesus só podem ser amados indiretamente: no outro. Assim como não é possível para a Teologia dar um retrato de Deus – ainda que se tente –, também não é possível ao cristão amar a Deus que não através do outro. O discurso teológico que se propõe um retrato não-humano do “divino” tem problemas de identidade, assim como o cristão que entende que pode criar alternativas litúrgico-devocionais para amar a Deus tem problemas de foco...

 

Não precisam concordar comigo, mas acho que Feuerbach e Mircea Eliade consistem em desenvolvimentos “intelectuais” de um pressuposto bíblico relevante: Deus não está disponível, sob qualquer forma, através de nenhum meio ou instrumento, à apreensão objetiva humana. Por mais que a tentação humana seja grande, Deus esconde-se de nós, e se alguns de nós acham que têm a vista mais acurada, como aqueles meninos que são especialistas em achar os colegas atrás das árvores, dos muros, nos becos, nas valas, sabe-se lá onde esses moleques nos escondíamos e aqueles azes nos achavam, acho que é urgentíssimo uma consulta ao oftalmologista teológico-filosófico mais próximo: há uma mancha na lente...