(Um) literato, eu?

Que nada, ainda que (um) meu sonho o fosse.

Ah, fazer vergarem as palavras, tangerem as frases!

mas acima de tudo, chorarem as almas,

enquanto riem, chorando, aparvalhadas.

Que a poesia é mesmo u'a mão que nos arranca...

Deles e delas

Fanatismo

Eu

Os sapos

Ora (direis) Ouvir Estrelas!

As Árvores

Meus

Libertar Deus

Lira dos 20 anos

Claustro e corpo

Eros e Aracnes

Itaipu

Soneto do olhar divino

Desiderare

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fanatismo

Florbela Espanca

 

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah!  Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

(Livro de Soror Saudade, 1923)

[enquanto a ouve cantada por Fagner]

 

 

Eu

Florbela Espanca

 

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...


Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino, amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!


Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...


Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

(Livro das Mágoas, 1919)

 

 

Conheci Florbela através de Eu. Quem mos apresentou foi meu primo, Júlio. Era(m) nossa(s) época(s) com Cruz e Souza também... Que me tocou, transcrevo um derramamento sobre ela:

"Bíblia de iniciação amorosa, dicionário das vicissitudes da mulher, livro-de-horas da dor - assim é a poesia de Florbela Espanca. Dela emana um feitio insurrecto que tem escandalizado e encantado, desde 1930, seus leitores, quando, apenas depois de morta, a poetisa se torna (afinal) conhecida (...)


A interlocução com o universo masculino e o exercício permanente do amor imprimem a tal obra uma continuada verrumagem acerca da condição feminina, que vasculha os ritos sociais, os jogos de sedução, os interditos, os privilégios - a maldição.

 

 

Nessa rota, assenhorando-se do estatuto tradicional da mulher para pô-lo em causa, Florbela acaba retirando dele um corolário que o torna ativo, visto que redimensionado em bem literário. E eis que o infortúnio, tomado na acepção de prerrogativa feminina, se converte, por seu turno, numa estética em que a dor é a matéria-prima, capaz de criar, apurar e transfigurar o mundo - única e verdadeira senda de conhecimento reservada à mulher.
(...)

Florbela consegue, através dos seus poemas, o prodígio de transmutar a histórica inatividade social da mulher em... genuína força produtiva! E esse (a bem dizer) é apenas um dos seus muitos dons."

Maria Lúcia Dal Farra
(Poemas de Florbela Espanca. São Paulo: Martins Fontes, 1997)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os sapos

Manuel Bandeira

 

Enfunando os papos,

saem da penumbra,

Aos pulos, os sapos.

A luz os deslumbra.

 

Em ronco que aterra

Berra o sapo-boi:

--"meu pai foi à guerra!"

--"Não foi!" --"Foi!" --"Não foi!".

 

O sapo-tanoeiro,

Parnasiano aguado,

Diz: -- "Meu cancioneiro

É bem martelado.

 

Vede como primo

Em comer os hiatos!

Que arte! E nunca rimo

Os termos cognatos.

 

O meu verso é bom

Frumento sem joio.

Faço rimas com

Consoantes de apoio.

 

Vai por cinqüenta anos

Que lhes dei a norma:

Reduzi sem danos

A formas a forma.

 

Clame a saparia

Em críticas céticas:

Não há mais poesia

Mas há artes poéticas..."

 

Urra o sapo boi:

--"Meu pai foi rei" -- "Foi!"

--"Não foi!" --"Foi!" --"Não foi!".

 

Brada em um assomo

O sapo-tanoeiro:

--"A grande arte é como

Lavor de joalheiro.

 

Ou bem de estatuário.

Tudo quanto é belo,

Tudo quanto é vário,

Canta no martelo."

 

Outros, sapos-pipas

(Um mal em si cabe),

Falam pelas tripas:

--"Sei!" --"Não sabe!" --"Sabe!".

 

Longe dessa grita,

Lá onde mais densa

A noite infinita

Verte a sombra imensa;

 

Lá, fugido ao mundo,

Sem glória, sem fé,

No perau profundo

E solitário, é

Que soluças tu,

Transido de frio,

Sapo cururu

Da beira do rio

1918

De Carnaval (1919)

 

 

Lá se vão trinta anos que li esse poema num livro da escola... Quanto tempo! Lembrava-me que era alguma coisa relacionada com o nome "sapo"; que era algo relacionado com o Parnasianismo, e que havia uma parte  que falava: "meu pai foi rei, foi, não foi". Bem, era quase isso... O fato é que esse refrão, que lembrava deslembradamente, sustentou-se nas minhas sinapses por esses trinta anos!

 

Foi esse som, essa frase, que, se me cuida, o Simbolismo aproveitaria bem, que me marcou a ferro e fogo esse sapo cururu da beira do rio nas meninges. Assim, talvez seja mesmo mais que a vida, mas também algo como uma técnica que, afinal, somadas, fazem a poesia. 

 

Claro, claro: a vida, sem a qual poema é o quê? Mas vida só? Duvi-de-o-dó... Senão eu mesmo seria poeta! como o foi o Bandeira...

 

 

E, como chato mesmo que sou (verdade!), não deixarei que seja escolhida ou a vida ou a técnica, como se pudéssemos dizer que, difícil as duas juntas, que se tenha, então, essa, melhor do que aquela. Porque, para mim, não há isso de divórcio aqui: ou as duas, ou nada! O poema tem duas mães... E assim vamos nós...

 

 

 

 

 

 

 

 

Ora (direis) ouvir estrelas!

Olavo Bilac

XIII

 

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto ...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

 

 

Esse belíssimo poema do Bilac voltou-me à mente, depois da escola, quando ouvi Divina Comédia Humana, do Belchior. Foi durante minha adolescência/juventude (da qual eu penso ainda jamais ter saído, malgrado os oito lustros que carrego nos bolsos).

 

 

Belchior tornou-se um companheiro meu, naqueles tempos saudosos, e me fez descobrir que, afinal, alguma coisa do colégio me acompanharia durante minha longa caminhada pela vida... Se quiser, ouve aí o Belchior, ó, que é também muito bom...

 

 

 

 

 

 

 

Libertar Deus

– complexidade romântica da alma

Osvaldo Luiz Ribeiro

07/06/2007

 

Quem diria?, libertar Deus. Quem diria?

Primeiro tê-lo morto, depois dizê-lo morto, e, então, libertá-lo.

Morto e livre, volta a ser Inefável,

como convém ao Ancião de Dias

– na condição de que seja deixado morto, seja dito morto, e seja livre.

Tirarmos as correntes de seus tornozelos,

desafivelarmos a coleira de seu pescoço,

desamarrarmos os nós da camisa de força,

abrirmos as algemas de seus punhos,

taparmos seus ouvidos

a nossos encantos mágicos,

a nossos gritos de dor.

Deixá-lo chorar, sozinho, nossas misérias.

 

Olhar para dentro de nós,

para nossa história,

biologicamente,

antropologicamente,

sociologicamente,

sempre, epistemológica e noologicamente

– conscientemente.

Não mais esconderijos,

por medo que seja,

pelo poder,

porque sempre se fez assim,

por ignorância.

Olhar no espelho,

e apenas sentir saudades.

 

Como Bohr olhou para o abismo,

e sorriu incertezas,

deixar que Deus jogue seus dados,

de mil faces,

em cada qual um rosto humano,

rolando sobre si mesmo,

entre acasos e dor,

entre fogos e gozos, todavia.

 

Mas, ah, tragédia, ah, solidão,

olhar sempre as estrelas,

lá em cima,

e a pele e a carne e os ossos e o sangue,

e sorrir para o Ancestral...

 

Mas, ai,

se ele sorrir de volta,

tornar a matá-lo,

gritar que ele morreu,

e deixá-lo livre.

 

Não, tu não podes dizer:

“_ Tu estás morto!”.

Crê-me, não o podes.

Mas, sim, é teu dever, gritar,

sobre os montes,

dentro do teu coração,

sob a gordura do teu fígado:

“_ Ele está morto,

ele está livre,

por nós”.

Tu o deves.

Tu deves isso a ele.

 
 

Nesse poema, quase posso, mas não posso, não de todo, só um pouco, dizer que volto a 1984, para, desde lá, começar de novo, recomeçar. Não é nem verdade, nem mentira, e é tanto verdade, quanto mentira. Volto, sim, de uma certa forma, mas esse que volto é outro eu, depois de vinte e três anos de caminhada - e que bela caminhada!

 

 

Volto, porque quero recomeçar. Volto, e como se voltasse ao ponto onde Ap 22,22 começa, não como Escritura, mas como compreensão romântica da Escritura. Volto, como quem nasce de novo, retomado do fôlego da Noite dos Tempos. Sinto-me como um menino, cheio de energia e força, num corpo que começa a tomar-se por velho e cansado, tendo chegado, nesse retorno, ao mesmo ponto do início, mas a metros acima da própria cabeça, porque a longa estrada é curva e espiralada.

 

 

Mas do que ser bom voltar, é bom dizer isso, confessar isso, porque, até 1983, tudo eu podia dizer, tudo, confessar, e, depois, eu mesmo, nada mais. Nunca mais nada dizer que não por mim mesmo. Nunca mais o medo de dizer. Ser livre, pavorosamente livre, assustadoramente livre, inexoravelmente livre. Futuro, cheguei! Horizonte, eis-me aqui!

 

 

 

 

 

 

 

 

As Árvores

Olavo Bilac

 

Na celagem vermelha, que se banha

Da rutilante imolação do dia,

As árvores, ao longe, na montanha,

Retorcem-se espectrais à ventania.

 

Árvores negras, que visão estranha

Vos aterra? que horror vos arrepia?

Que pesadelo os troncos vos assanha,

Descabelando a vossa rumaria?

 

Tendes alma também... Amais o seio

Da terra; mas sonhais, como sonhamos,

Bracejais, como nós, no mesmo anseio...

 

Infelizes, no píncaro do monte,

(Ah! não ter asas!...) estendeis os ramos

À esperança e ao mistério do horizonte.

 

 

Essa poesia de Bilac é tão prosa poética quanto o é a minha própria, acima da dele. Quase dizemos a mesma coisa, e talvez o digamos. Mas ele fala mais genericamente, lembrando-me o homem da terra, de que Nietzsche falou, que é da terra, sim, e mais do que literalmente, mas que, contudo, é sonho, e sonha.

 

Essa sensação de estar preso, pela raiz, à terra de onde se vem, sem que se possa, ao mesmo tempo, agarrar pedras de sonho, e, com elas, construir andaimes que nos possam tirar dessa condição da terra - que mais de romântico, epistemologicamente romântico, Celeste, se podia dizer? Mais nada, porque está aí, o Romantismo que me arranca o sossego da alma, e me lança - golpeia - na História, como Morin diz de Odisseus. E não é medo, é vertigem. Não é terror, é assombro. Não é pavor, é solidão.

 

Eu sou, Bilac, as tuas árvores, que tu, também, tomaste como tuas. Não é tanto terror ou horror, é assombro e solidão, forças que nos querem levantar as mãos, e, de fato, as levantam. O sonho são as mãos da terra, levantados. Eu sou um Ent de Senhor dos Anéis. Eu arranquei minhas raízes, e, agora, finco-as bem fundo, na terra, e dou um passo, e de novo, outro passo, e de novo, e outro passo. Ent, carrego um menino nos ombros, que me diz admirações ao ouvido. A represa que vamos destruir é a de nosso peito comum, para que, de lá, as águas presas escorram. Eu sou aquela árvore mangue, que anda, morrendo de um lado, e nascendo do outro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esses dois poemas, arrancou-me a Bel, com a boca e a língua, com os olhos negros da noite de todos os tempos, profundos de breu insondável, janelas inacessíveis da alma inexorável que os abre e fecha, ao sabor do seu próprio bem-querer, olhos dos saltitos de menina alegre, e da fulguração terrível da serpente de fogo, olhos de meiguice extremada, e olhos de fuzil, olhos de machado, a pôr abaixo troncos e toras, portas e janelas. Foi também com teu olhar, Bel, que me arrancou a alma, e a tens nas mãos. Cuida dela, que solitária é, e morre da tristeza infinita de amar-te até o sumo.

 

Lira dos 20 anos

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Vinte anos. Juntos. Juntos!

Vinte anos de uma longa e lenta travessia.

À nossa volta, o mar, a terra, o fogo, o ar.

E nós, juntos.

 

Se olharmos para trás,

não veremos mais que aquela preparação,

Em fogo lento, de fogão de lenha e banho-maria,

De duas almas gêmeas, de dois corações de fogo,

Dolorosamente lenta, lentamente silenciosa.

Era olhar, e ver-nos, e dar de ombros.

Os coitados não vão longe, e, se forem, será para o deserto.

 

E, contudo, quão longe fomos!

Tão longe quanto o dentro de cada um de nós dois,

Tu em mim, e eu em ti.

Vivo aí dentro, e, tu, cá dentro.

Desde dentro de nós, olhamos, tu e eu,

Para além, muito além, daquela grande e lenta preparação.

 

Olhar teus olhos desde dentro de ti,

Beijar-te a boca pousado em tua língua,

Amar-te, apertando-me ao teu coração...

 

Ah, minha delícia...

 

É esperar que as horas passem depressa,

E que os ponteiros as arrastem,

Quando estás longe.

É esperar que escondam-se os relógios,

Que o limo recobre o sol,

Quando estás perto.

 

Quero mais vinte, e mais outro tanto.

Quero fazer tudo de novo, igual,

Quero fazer tudo de novo, e diferente.

Se houver mais alegria, que bom,

Mais tristeza, que seja,

Porque tu esta(rá)s comigo, como desde sempre,

E para sempre.

 

Meninos, tu e eu, deram as mãos,

E já faz vinte anos,

Esses mesmos que fizeram de nós

Mulher e homem

De brincar e de sonhar,

De amar e chorar juntos.

 

Não se sabia conjugar nosso verbo,

Até que nós o cunhamos,

Com letras de carne e calor,

Com uma sintaxe de ninho morno,

E sentidos inebriantes de primavera.

 

Não se saberá, ainda, fazer nossas contas,

Somando e multiplicando a vida,

Diminuindo e dividindo as dores,

Porque só queremos estar juntos,

Em nossa casa,

E essa é nossa magia,

A fantasia dos dias e das tardes,

Que a noite fecha os olhos, pudica.

 

Quando desci, a pé, o morro,

E subi, a pé, os degraus,

Quando a pé fui ao teu encontro,

Era um sinal.

As estradas todas da vida abrir-se-iam,

E, a pé, montando apenas nossa felicidade,

Nossas alegrias pequenas e muitas,

Caminharíamos nosso chão de estrelas e pó,

Pó de coragem,

Estrelas de brinquedos marrons.

 

Durmo ao teu lado, amor,

Com a tranqüilidade da criança cansada.

O amor esgota, e quer mais,

Mas espera, que sabe que vem a manhã,

E a água fresca do ribeiro,

E as borboletas,

e o sol logo boceja,

e os vagalumes alumiam,

e o amor sorri de novo.

 

Mas o que mais quero são teus olhos,

Esses aí, que conheço desde dentro,

Olhando-me a mim, inteiro,

Como mais que eu.

Porque eles, olhando, vêem,

E o que vêem, querem.

E o que querem, têm.

E o que têm, amam.

Como eu, a ti.

 

Claustro e corpo

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Monge de mim,

meu claustro são as pedras da minha carne,

cortadas a frio,

nas pedreiras do tempo da infância,

cada bloco uma dor

na negra noite que não voltará.

 

A sombra e a bruma me acompanham,

e foge o sol.

Não há janelas,

senão um fosso,

por meio de cuja boca

não vejo o fundo,

e escadas que me chamam,

que eu vá,

que eu desça,

que eu fique lá.

 

O silêncio é suportável,

e as paredes, frias.

Não preciso dos olhos,

que fecho,

da boca,

que fecho,

de ouvidos,

que fecho.

Úteis me são as mãos,

na parede, no chão,

na boca do fosso,

dentro de mim.

 

Lá de fora,

vem-me uma voz antiga,

voz da cobra e do lagarto,

uma voz de visgo,

quente e úmida,

de língua a cheirar o ar

– eu sou a presa...

 

Eu abro os olhos,

os ouvidos

e a boca.

Querem-na as mãos.

Range a porta de madeira,

reclama a morta de séculos.

Entra a luz,

que cega, sim.

Mas eu quero esta cegueira,

de crer que ouço a voz dela,

de crer que toco o corpo dela,

de crer que estou vivo,

de fingir que há luz.

 

Monge de mim,

reluto entre o fosso do chão do claustro,

pra onde me quer levar a minha alma,

e a luz da voz dela,

que me arrasta pelos cabelos,

que me agarra pelas mãos,

que me hipnotiza os olhos,

que me seduz os ouvidos,

serpente divina,

que me tem a seus pés.

 

 

 

 

 

 

 

 

Eros e Aracnes

Osvaldo Luiz Ribeiro

19/07/2007

 

Há uma poesia aqui,

eu quero dizer,

o dito no não-dito,

que o dizer não diz

e que o papel não conta.

 

Há uma poesia aqui,

uma metáfora aí dentro,

olhando de soslaio,

a ver se vai ser pega,

se não vai,

tremendo de medo

de ser,

de não ser.

 

Há uma poesia aqui,

que não quer a culpa

de não ter culpa,

o peso da expressão,

a clareza da água,

pelo que se esconde,

e cose folhas de figueira.

 

Há uma poesia aqui.

Sente-se-lhe o cheiro,

pura libido líquida,

emulsão erótica

de corpo e sonho

na penumbra.

 

Há uma poesia aqui,

flor exposta – impudica,

à fecundação dos olhos,

ao inebriar de ouvidos,

ávidos de ouvir e ver

– mas tão somente –

que tocar ela não deixa.

 

Há uma poesia aqui,

adormecida e bela.

Vê o arfar dos peitos,

subindo e descendo,

prenúncio ancestral

do que se chama amor?

 

Não se  espere mais

– que se aproxime

da boca entreaberta,

da língua insinuada,

da carne morna,

da saliva doce,

um beijo excitado.

Boca sobre boca,

tropeça e cai,

a alma incauta,

capturada,

que sobretudo,

no centro da poesia,

vê-se Aracnes

de olhos de poço

e teias de visgo.

 

Prudência, moço,

prudência,

que, se ela pega um,

é para ter nele

um escravo,

que seu desejo

é por imberbes.

 

Há, sim, moço,

uma poesia aqui.

Por isso, cuidado,

por isso, temor,

que as deusas,

mais que mães,

são mortais,

posto que a vida,

moço, cuidado,

é pulsão de morte.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Itaipu

Osvaldo Luiz Ribeiro

24/08/2007

 

 Quisera um ateu,

Desses de espada e lança,

Desses de montaria imponente,

Desses de livros antigos,

De pergaminhos e papiros,

Módulos de São Jorge,

Don Quixote

E Brancaleone,

Desses visionários

– a teologia é oftalmológica!

– me arrancasse do peito o nó,

O dragão dos instintos,

O moinho mítico,

Os campos de trigo.

 

Ah, eu dormiria em paz,

Sem o vento em minhas pás,

Sem o sopro ígneo de meu hálito,

Sem meu ondular amarelo de van Gogh.

Ah, eu perambularia sob as estrelas,

Sem que o peso delas,

Sem que o som das vozes delas,

Esmagassem-me carne e tímpanos.

Ah, eu sonharia à beira-mar,

Que eu era as ondas,

Indo e vindo,

Sem nunca sair da ponte que eu sou

– outro louco me chega à boca...

 

Mas chegam-me apenas homeopatas.

A cura me virá de meu veneno?

Jogarem-me à cara minha,

A violência minha que fiz,

A loucura minha que inventei,

As pantomimas minhas de domingo,

Fazem deles outra coisa

Que não o outro lado de mim?

E de mim outra coisa,

Que não esse pote de mistério?

 

Ah, eu conto a minha dor,

De dormir, de perambular,

De sonhar, sob o peso.

Eu não consigo,

Mestres de Furnas,

Apagar a luz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Soneto do olhar divino

Osvaldo Luiz Ribeiro

26/08/2007

 

Deus tem que ter os olhos dela!

E, se não, está em desvantagem –

quase posso entrar nos olhos dela,

enquanto os dele são miragem...

 

Bem que eu li num livro de viagem:

foi-me arrancada uma costela,

as mãos de Deus sobre ela agem,

vindo à luz o ser que ele modela.

 

Isso talvez soe uma bobagem,

Mas, nascida, corre em desatino,

a meter-se, nua, entre a folhagem.

 

Não me pega mais, é meu destino,

Foi preciso, sim, muita coragem,

Eu furtar pra mim o olhar divino.

 

Bel sentou-se atrás de mim, enquanto eu corrigia o texto de um ensaio. Virei-me, para contemplá-la e fazer-lhe um carinho. E eles me fitaram. Os olhos da Bel são místicos, nigérrimos, profundíssimos. A noite inteira cabe dentro deles, e a Lua põe-se ali diariamente. Eles me enfeitiçam. Eles me perscrutam. Eles me têm. Se há Deus - ó, loucura - é por meio deles que tu me olhas!

 

 

 

 

 

 

 

Desiderare

Osvaldo Luiz Ribeiro

13/09/2007

 

Deixo-te meu presente, meu dom,

Que por dom também me dado foi.

Não é meu, contudo, que só o guardo,

Desde quando me nasceu bem aqui.

 

Faz assim com as mãos,

Como d’águas gurias a beber,

E meu tesouro deixa que eu to dê.

Alguém mo deu – mais, não lembro,

Porque de eras faz-se a vida minha,

E curta a memória é demais e muito.

 

Ah, não te cuides, preocupada,

Que não acaba, não.

A todo piscar teu, dar-to-ei.

É mesmo mágico meu pote

– aprendi que dar-lho-te dele

Nunca o põe raso de todo,

E nem mesmo para sempre.

Feliz, mais chora ele seu gozo.

 

É com muito carinho, viu?,

Que dar-te meu dom eu venho,

E é com excitação, e muita,

– e rubor de alma –

Que feliz me pego em dar-to,

Tanto mais porque o recebes,

Olhando-me nos olhos,

Como quem hauriu da espera

A longa espera por essa hora.

 

Prazer não é tanto dar-lho-te,

Quanto ver que o queres.

Ah, o irreprimível toque.

Ter em mim teu dom,

Teus bocados de desejo,

Tuas lágrimas de mascavo,

Que queres – e tos dar.

 

Perdoa, amor, essa lágrima.

Mas é que, agora,

Tudo é muito doce e desejável.

 

 

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

– autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações no texto –

  página atualizada em 13/09/2007 01:10:20

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