Por que ouviroevento?

 

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

O nome de minha página reproduz, a meu ver, meu objetivo de fundo em relação às Escrituras Cristãs, de modo geral, e ao Antigo Testamento, em particular. O nome "ouviroevento" constitui-se de três noções específicas que, juntas, constituem meu projeto: 1) ouvir; 2) o, e 3) evento. Explico-as daqui pra lá: com “evento”, quero me referir aos acontecimentos histórico-sociais que determinaram a produção d(e determinado)o texto bíblico; com “o”, quero deixar claro que entendo haver entre a narrativa que leio e o texto em que constitui o resultado daquele evento uma relação unívoca de fundo – não me interessam as aberturas polissêmicas da narrativa, que reconheço, mas o fechamento histórico-social em que se constituiu a sua elaboração na qualidade de instrumento de intervenção social; finalmente, com “ouvir”, reconhecendo as implicações filosóficas disso, quero afirmar a minha intenção de reconstrução arqueológica do sentido original daquele pronunciamento histórico-social em que constitui o “texto”, objeto de intervenção social que é (foi), restituindo-o à sua original condição de "fala".

 

Meu projeto, portanto, apresenta-se como uma tentativa de fusão entre exegese e história. O tipo de exegese que tento fazer, e que acho que faço, parece ser verdadeiro dizer dele que constitui uma espécie de “outro” metodológico do exercício da atividade do historiador. Um historiador quer olhar para o “evento” histórico, quer delimitá-lo, quer reconstituí-lo, e, para o fazer, deve, necessariamente, recorrer aos vestígios: pergaminhos, papiros, tabuinhas de barro, inscrições, óstracos, estelas, vasos, isto é, textos e objetos arqueológicos diversos. De posse de uma hipótese de fundo, configura tais vestígios de forma a construir uma reconstituição plausível do lugar e do dia, ou seja, do evento. O historiador olha mesmo para o evento, mas, para olhar para ele, precisa, antes, olhar para os vestígios dele... Um exegeta faz quase a mesma coisa: quase! Um exegeta tem nas mãos o vestígio de um evento – o texto. O que lhe interessa é esse vestígio. Mas esse exegeta (particularmente se lhe apetece, como a mim, a metodologia histórico-crítica e a abordagem histórico-social) sabe que esse texto é vestígio de um evento, e que seu sentido é função de sua função naquele evento, lá e então, porque o texto em que consiste esse vestígio constitui-se, por hipótese, instrumento de intervenção social, tendo sido para isso e por isso lá e então elaborado. Essa condição genésica e funcional do texto obriga o exegeta, então, a olhar para o evento, a identificá-lo, a reconstituí-lo, para, então, encaixar nele o vestígio que lhe corresponde. Está claro? Os olhos do exegeta e do historiador se cruzam em algum ponto entre o lugar e o dia e a narrativa que o lugar e o dia produziram. Deviam trabalhar em conjunto os dois, porque são co-irmãos de uma tarefa deliciosamente ingrata – imaginar e propor, sem ter como provar, jamais...

 

Mas um exegeta é um exegeta – não é um historiador. Não é que ame o evento: ele ama o vestígio, o “texto”, mas é obrigado, e gosta disso, claro, a cavoucar o pó do tempo. Se não o faz, permitam-me dizer como vejo a coisa, não é exegeta. É outra coisa – e cada um seja o que desejar ser. Exegeta, contudo, se isso é bom ou ruim o julgue quem se meter a tanto, é aquele que, do texto que tem nas mãos, para o entender, para o ouvir, deve, antes, e incontornavelmente, reconstituir seu dia e lugar, o dia e lugar que lhe deu à luz, e cuja luz é a função hermenêutica da audição exegética.

 

Muito bem. E que ferramentas usa esse exegeta?

 

Começo pelas ferramentas do método histórico-crítico. Autores diversos dão às vezes diferentes nomes a elas, mas talvez eu possa enumerá-las não muito rigorosamente: crítica textual, crítica literária, crítica da redação, crítica da tradição, crítica das formas, crítica dos gêneros etc. Essas são ferramentas elaboradas durante um tempo relativamente longo, durante os últimos duzentos ou duzentos e cinqüenta anos, ainda que lampejos dela tenham reverberado mesmo antes, com Rashi e Spinoza, por exemplo, para citar dois importantes judeus, e Jean Astruc, para dar nome a um cristão.

 

O objetivo dessas ferramentas é dar condições ao exegeta de saltar da “narrativa” para o “evento”, do texto para a história, para, assim saltando, retornar com a função hermenêutica bem formulada. Uma vez que o texto foi elaborado em seu contexto histórico, o sentido desse texto está, em termos exegéticos, incontornavelmente ligado àquele contexto. As ferramentas exegéticas indicadas têm por função promover as condições metodológicas para esse “salto”.

 

É um assunto complexo e controverso. Carlo Ginzburg outro dia mesmo escreveu Relações de Força (que amei) justamente para tratar dessa questão constrangedora da leitura histórica de textos. É controverso, porque a lingüística reconhece variações de critério para acesso a textos. A teoria literária anda às voltas com as discussões em torno de três modelos teóricos: intentio lectoris, intentio operis e intentio auctoris, que, respectivamente, partem do princípio de que o “sentido” de um texto é determinado pelo “leitor” do texto, pela estrutura autônoma desse próprio texto (“sentido” aqui é um termo equivocado, claro), ou pelo “autor” do texto. Se você desejar aprofundar a questão, comece lendo Interpretação e Superinterpretação, de Umberto Eco, em cujo início se desenha essa problemática. Naturalmente que, exegeta que (pretendo) s(er)ou, alio-me à teoria da intenção do autor, confiado na possibilidade metodológica de arqueologia do sentido histórico-social de um texto. Se não cresse nisso, seria outra coisa. Mas creio, e sou, então, fadado às fainas exegéticas. Segundo essa teoria, o sentido de um texto está ligado à intenção de seu autor, de forma que, “ouvir” o que esse texto tem a dizer é “ouvir” o que seu autor tem a dizer.

 

É preciso, contudo, situar a questão em planos mais propriamente históricos. É possível que sim, mas dificilmente textos bíblicos, especialmente textos do Antigo Testamento, são produções do “gênio” pessoal. São na sua maioria produção coletiva, de forma que o conceito de “autor”, aqui, precisa ser ampliado. De qualquer forma, cada caso é um caso, e a reconstrução do ambiente histórico-social em que o texto foi gerado passa, também, senão principalmente, pela reconstituição do caráter de seu(s) próprio(s) compositor(es). Vale aqui, portanto, a discussão que faço sobre a diferença metodológica entre “texto” e “narrativa”, que deve ser considerada, então, uma espécie de desdobramento dessa apresentação de pressupostos teórico-metodológicos.

 

Ficam pendentes as questões relativas ao “olhar” com que analiso os textos bíblicos. São textos considerados “revelação”, textos que consistiriam em resultado de “inspiração”, o que, segundo se diz na literatura confessional, exige uma aproximação reverente...

 

De fato. Bem, a rigor, revelação e inspiração não são conceitos cheios. São conceitos que demandam explicação, e eu remeto o leitor para minha própria discussão sobre o assunto. Todos os textos publicados nesta página tratam da questão sobre o enfoque da Teoria da Inspiração Cósmico-Histórica, que, resguardada a observação teológica sobre o caráter “inspirado” desses textos, em nada restringe o trabalho exegético mais sério e crítico – pelo contrário! De qualquer forma, a reverência não se identifica com a passividade, e meu olhar sobre os textos do Antigo Testamento quer pegá-los em sua plena humanidade, posto que não me considero em condições, desde Kant e Schopenhauer, os filósofos, e, além deles, Eliade e Croatto, os fenomenólogos da religião, a tocá-los em sua “divindade”.

 

Não é que eu simplesmente dê de ombro, academicamente. Não. Existencialmente, tais textos me falam numa dimensão para além da literatura e da história. Mas recuso-me a permitir que tal dimensão restrinja o trabalho técnico. Absolutamente. A reverência diante de tais textos não impede a crítica – pelo contrário! Se me pergunto sobre o seu sentido para mim, hoje, não pergunto por conteúdos ontológicos absolutos, mas por denúncias humanas, riscos, possibilidades, admoestações, exemplos. Principalmente as denúncias me interessam. Falo da possibilidade de identificar nos textos todos os riscos que corremos os homens quando lidamos com as questões relativas ao sagrado, e principalmente o risco de nos sentirmos tocados, compreende? É que os homens e as mulheres perdemos o bom senso quando nos tomamos por oráculos, e isso ainda acontece hoje, tanto quanto acontecia naquela época, quando os textos com que lido eram produzidos. Ver o que se fazia por conta dessa pressuposição é uma excelente maneira de se esforçar por ser um pessoa equilibrada, ainda que, e, por isso mesmo, quando envolvida com religião, como é o meu caso.

 

(depois escrevo mais...)

 

 

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