COMPLEXIDADE E TRANSDISCIPLINARIDADE

- histórico de um olhar renovado sobre o passado, o presente e o futuro -

 

 

 

Aqui, você poderá ler os seguintes textos críticos introdutórios às noções de complexidade e transdisciplinaridade:

 

 

  • De Edgar Morin: Da Necessidade de um Pensamento Complexo

  • De Basarab Nicolescu: Um Novo Tipo de Conhecimento - Transdisciplinaridade

  • De Basarab Nicolescu: Reforma da Educação e do Pensamento: complexidade e transdisciplinaridade

  • De Américo Sommerman: A Inter e a Transdisciplinaridade

  • De Américo Sommerman: Complexidade e Transdisciplinaridade

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    COMPLEXIDADE E TRANSDISCIPLINARIDADE

    - histórico de um olhar renovado sobre o passado, o presente e o futuro -

     

     

     

    Um Novo Tipo de Conhecimento

    – transdisciplinaridade

    Basarab Nicolescu

     

    1º Encontro Catalisador do CETRANS

    – Escola do Futuro – USP. Itatiba, São Paulo – Brasil: abril de 1999.

    Físico teórico do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (C.N.R.S.). Fundador e Presidente do Centro Internacional de Pesquisas e Estudos Transdisciplinares (CIRET).

     

     

    1. A necessidade moderna da transdisciplinaridade

     

    O processo de declínio das civilizações é extremamente complexo e suas raízes estão mergulhadas na mais completa obscuridade. É claro que podemos encontrar várias explicações e racionalizações superficiais, sem conseguir dissipar o sentimento de um irracional agindo no próprio cerne deste processo. Os atores de determinada civilização, das grandes massas aos grandes líderes, mesmo tendo alguma consciência do processo de declínio, parecem impotentes para impedir a queda de sua civilização. Uma coisa é certa: uma grande defasagem entre as mentalidades dos atores e as necessidades internas de desenvolvimento de um tipo de sociedade, sempre acompanha a queda de uma civilização. Tudo ocorre como se os conhecimentos e os saberes que uma civilização não para de acumular não pudessem ser integrados no interior daqueles que compõem esta civilização. Ora, afinal é o ser humano que se encontra ou deveria se encontrar no centro de qualquer civilização digna deste nome.

     

    O crescimento sem precedente dos conhecimentos em nossa época torna legítima a questão da adaptação das mentalidades a estes saberes. O desafio é grande, pois a expansão contínua da civilização de tipo ocidental por todo o planeta torna sua queda equivalente a um incêndio planetário sem termo de comparação com as duas primeiras guerras mundiais.

     

    O crescimento sem precedente dos conhecimentos em nossa época torna legítima a questão da adaptação das mentalidades a estes saberes. O desafio é grande, pois a expansão contínua da civilização de tipo ocidental por todo o planeta torna sua queda equivalente a um incêndio planetário sem termo de comparação com as duas primeiras guerras mundiais.

     

    A harmonia entre as mentalidades e os saberes pressupõe que estes saberes sejam inteligíveis, compreensíveis. Todavia, ainda seria possível existir uma compreensão na era do big-bang disciplinar e da especialização exagerada? Este processo de babelização não pode continuar sem colocar em perigo nossa própria existência, pois faz com que qualquer líder se torne, queira ou não, cada vez mais incompetente.

     

    Um dos maiores desafios de nossa época, como por exemplo os desafios de ordem ética, exigem competências cada vez maiores. Mas a soma dos melhores especialistas em suas especialidades não consegue gerar senão uma incompetência generalizada, pois a soma das competências não é a competência: no plano técnico, a interseção entre os diferentes campos do saber é um conjunto vazio. Ora, o que vem a ser um líder, individual ou coletivo, senão aquele que é capaz de levar em conta todos os dados do problema que examina? A necessidade indispensável de pontes entre as diferentes disciplinas traduziu-se pelo surgimento, na metade do século XX, da pluridisciplinaridade e da interdisciplinaridade.

     

    2. Disciplinaridade, multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade

     

    A pluridisciplinaridade diz respeito ao estudo de um objeto de uma mesma e única disciplina por várias disciplinas ao mesmo tempo. Por exemplo, um quadro de Giotto pode ser estudado pela ótica da história da arte, em conjunto com a da física, da química, da história das religiões, da história da Europa e da geometria. Ou ainda, a filosofia marxista pode ser estudada pelas óticas conjugadas da filosofia, da física, da economia, da psicanálise ou da literatura. Com isso, o objeto sairá assim enriquecido pelo cruzamento de várias disciplinas. O conhecimento do objeto em sua própria disciplina é aprofundado por uma fecunda contribuição pluridisciplinar. A pesquisa pluridisciplinar traz um algo a mais à disciplina em questão (a história da arte ou a filosofia, em nossos exemplos), porém este “algo a mais” está a serviço apenas desta mesma disciplina. Em outras palavras, a abordagem pluridisciplinar ultrapassa as disciplinas, mas sua finalidade continua inscrita na estrutura da pesquisa disciplinar.

     

    A interdisciplinaridade tem uma ambição diferente daquela da pluridisciplinaridade. Ela diz respeito à transferência de métodos de uma disciplina para outra. Podemos distinguir três graus de interdisciplinaridade: a) um grau de aplicação. Por exemplo, os métodos da física nuclear transferidos para a medicina levam ao aparecimento de novos tratamentos para o câncer; b) um grau epistemológico. Por exemplo, a transferência de métodos da lógica formal para o campo do direito produz análises interessantes na epistemologia do direito; c) um grau de geração de novas disciplinas. Por exemplo, a transferência dos métodos da matemática para o campo da física gerou a física matemática; os da física de partículas para a astrofísica, a cosmologia quântica; os da matemática para os fenômenos meteorológicos ou para os da bolsa, a teoria do caos; os da informática para a arte, a arte informática. Como a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade ultrapassa as disciplinas, mas sua finalidade também permanece inscrita na pesquisa disciplinar. Pelo seu terceiro grau, a interdisciplinaridade chega a contribuir para o big-bang disciplinar.

     

    A transdisciplinaridade, como o prefixo “trans” indica, diz respeito àquilo que está ao mesmo tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de qualquer disciplina. Seu objetivo é a compreensão do mundo presente, para o qual um dos imperativos é a unidade do conhecimento. Haveria alguma coisa entre e através das disciplinas e além delas? Do ponto de vista do pensamento clássico, não há nada, absolutamente nada. O espaço em questão é vazio, completamente vazio, como o vazio da física clássica. Mesmo renunciando à visão piramidal do conhecimento, o pensamento clássico considera que cada fragmento da pirâmide, gerado pelo big-bang disciplinar, é uma pirâmide inteira; cada disciplina proclama que o campo de sua pertinência é inesgotável. Para o pensamento clássico, a transdisciplinaridade é um absurdo porque não tem objeto. Para a transdisciplinaridade, por sua vez, o pensamento clássico não é absurdo, mas seu campo de aplicação é considerado como restrito.

     

    Diante de vários níveis de Realidade, o espaço entre as disciplinas e além delas está cheio, como o vazio quântico está cheio de todas as potencialidades: da partícula quântica às galáxia, do quark aos elementos pesados que condicionam o aparecimento da vida no Universo.

     

    A estrutura descontínua dos níveis de Realidade determina a estrutura descontínua do espaço transdisciplinar, que, por sua vez, explica porque a pesquisa transdisciplinar é radicalmente distinta da pesquisa disciplinar, mesmo sendo complementar a esta. A pesquisa disciplinar diz respeito, no máximo, a um único e mesmo nível de Realidade; aliás, na maioria dos casos, ela só diz respeito a fragmentos de um único e mesmo nível de Realidade. Por outro lado, a transdisciplinaridade se interessa pela dinâmica gerada pela ação de vários níveis de Realidade ao mesmo tempo. A descoberta desta dinâmica passa necessariamente pelo conhecimento disciplinar. Embora a transdisciplinaridade não seja uma nova disciplina, nem uma nova hiperdisciplina, alimenta-se da pesquisa disciplinar que, por sua vez, é iluminada de maneira nova e fecunda pelo conhecimento transdisciplinar. Neste sentido, as pesquisas disciplinares e transdisciplinares não são antagonistas mas complementares.

     

    Os três pilares da transdisciplinaridade (os níveis de Realidade, a lógica do terceiro incluído e a complexidade) determinam a metodologia da pesquisa transdisciplinar. Há um paralelo surpreendente entre os três pilares da transdisciplinaridade e os três postulados da ciência moderna. Os três postulados metodológicos da ciência moderna permaneceram imutáveis de Galileu até os nossos dias, apesar da infinita diversidade dos métodos, teorias e modelos que atravessaram a história das diferentes disciplinas científicas. No entanto, uma única ciência satisfaz inteira e integralmente os três postulados: a física. As outras disciplinas científicas só satisfazem parcialmente os três postulados metodológicos da ciência moderna. Todavia, a ausência de uma formalização matemática rigorosa da psicologia, da historia das religiões e de um número enorme de outras disciplinas não leva à eliminação dessas disciplinas do campo da ciência. Mesmo as ciências de ponta, como a biologia molecular, não podem pretender, ao menos por enquanto, uma formalização matemática tão rigorosa como a da física. Em outras palavras, há graus de disciplinaridade proporcionais à maior ou menor satisfação dos três postulados metodológicos da ciência moderna.

     

    Da mesma forma, a maior ou menor satisfação dos três pilares metodológicos da pesquisa transdisciplinar gera diferentes graus de transdisciplinaridade. A pesquisa transdisciplinar correspondente a um certo grau de transdisciplinaridade se aproximará mais da multidisciplinaridade (como no caso da ética); num outro grau, se aproximará mais da interdisciplinaridade (como no caso da epistemologia); e ainda num outro grau, se aproximará mais da disciplinaridade. A disciplinaridade, a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade são as quatro flechas de um único e mesmo arco: o do conhecimento.

     

    Como no caso da disciplinaridade, a pesquisa transdisciplinar não é antagonista mas complementar à pesquisa pluri e interdisciplinar. A transdisciplinaridade é, no entanto, radicalmente distinta da pluri e da interdisciplinaridade, por sua finalidade: a compreensão do mundo presente, impossível de ser inscrita na pesquisa disciplinar. A finalidade da pluri e da interdisciplinaridade sempre é a pesquisa disciplinar. Se a transdisciplinaridade é tão freqüentemente confundida com a inter e a pluridisciplinaridade (como, aliás, a interdisciplinaridade é tão freqüentemente confundida com a pluridisciplinaridade), isto se explica em grande parte pelo fato de que todas as três ultrapassam as disciplinas. Esta confusão é muito prejudicial, na medida em que esconde as diferentes finalidades destas três novas abordagens.

     

    Embora reconhecendo o caráter radicalmente distinto da transdisciplinaridade em relação à disciplinaridade, à pluridisciplinaridade e à interdisciplinaridade, seria extremamente perigoso absolutizar esta distinção, pois neste caso a transdisciplinaridade seria esvaziada de todo seu conteúdo e sua eficácia na ação seria reduzida a nada.

     

    3. A metodologia da transdisciplinaridade

     

    a. A física quântica e os Níveis de Realidade

     

    No começo do século XX, Max Planck confrontou-se com um problema de física, de aparência inocente, como todos os problemas de física. Mas, para resolvê-lo, ele foi conduzido a uma descoberta que provocou nele, segundo seu próprio testemunho, um verdadeiro drama interior. Pois ele tinha se tornado a testemunha da entrada da descontinuidade no campo da física. Conforme a descoberta de Planck, a energia tem uma estrutura discreta, descontínua. O “quantum” de Planck, que deu seu nome à mecânica quântica, iria revolucionar toda física e mudar profundamente nossa visão do mundo.

     

    Como compreender a verdadeira descontinuidade, isto é, imaginar que entre dois pontos não há nada, nem objetos, nem átomos, nem moléculas, nem partículas, apenas nada. Aí, onde nossa imaginação habitual experimenta uma enorme vertigem, a linguagem matemática, baseada num outro tipo de imaginário, não encontra nenhuma dificuldade. Galileu tinha razão: a linguagem matemática tem uma natureza diversa da linguagem humana habitual.

     

    Colocar em questão a continuidade, significa colocar em questão a causalidade local e abrir assim uma temível caixa de Pandora. Os fundadores da mecânica quântica: Planck, Bohr, Einstein, Pauli, Heisenberg, Dirac, Schrödiger, Born, de Broglie e alguns outros – que também tinham uma sólida cultura filosófica –, estavam plenamente conscientes do desafio cultural e social de suas próprias descobertas. Por isto avançavam com grande prudência, enfrentando polêmicas acirradas. Porém, enquanto cientistas, eles tiveram de se inclinar, não importando suas convicções religiosas ou filosóficas, diante das evidências experimentais e da autoconsistência teórica.

     

    Assim começou uma extraordinária Mahabharata moderna, que iria atravessar o século XX e chegar até os nossos dias. O formalismo da mecânica quântica e posteriormente, o da física quântica (que disseminou-se depois da segunda guerra mundial, com a construção dos grandes aceleradores de partículas), tentaram, é verdade, salvaguardar a causalidade local tal como a conhecemos na escala macrofísica. Mas era evidente, desde o começo da mecânica quântica, que um novo tipo de causalidade devia estar presente na escala quântica, a escala do infinitamente pequeno e do infinitamente breve. Uma quantidade física tem, segundo a mecânica quântica, diversos valores possíveis, afetados por probabilidades bem determinadas. No entanto, numa medida experimental, obtém-se, bem evidentemente, um único resultado para a quantidade física em questão. Esta abolição brusca da pluralidade dos valores possíveis de um “observável” físico, pelo ato de medir, tinha uma natureza obscura mas indicava claramente a existência de um novo tipo de causalidade.

     

    Sete décadas após o nascimento da mecânica quântica, a natureza deste novo tipo de causalidade foi esclarecida graças a um resultado teórico rigoroso — o teorema de Bell — e a experiências de grande precisão. Um novo conceito adentrava assim na física: a não separabilidade. Em nosso mundo habitual, macrofísico, se dois objetos interagem num momento dado e em seguida se afastam, eles interagem, evidentemente, cada vez menos. Pensemos em dois amantes obrigados a se separar, um numa galáxia e outro noutra. Normalmente, seu amor tende a diminuir e acaba por desaparecer. No mundo quântico as coisas acontecem de maneira diferente. As entidades quânticas continuam a interagir qualquer que seja o seu afastamento. Isto parece contrário a nossas leis macrofísicas. A interação pressupõe uma ligação, um sinal e este sinal tem, segundo a teoria da relatividade de Einstein, uma velocidade limite: a velocidade da luz. Poderiam as interações quânticas ultrapassar esta barreira da luz? Sim, se insistirmos em conservar, a todo custo, a causalidade local, e pagando o preço de abolir a teoria da relatividade. Não, se aceitarmos a existência de um novo tipo de causalidade: uma causalidade global que concerne o sistema de todas as entidades físicas, em seu conjunto. E no entanto, este conceito não é tão surpreendente na vida diária. Uma coletividade — família, empresa, nação — é sempre mais que a simples soma de suas partes. Um misterioso fator de interação, não redutível às propriedades dos diferentes indivíduos, está sempre presente nas coletividades humanas, mas nós sempre o repelimos para o inferno da subjetividade. E somos forçados a reconhecer que em nossa pequena Terra estamos longe, muito longe da não separabilidade humana.

     

    Em todo caso, a não separabilidade quântica não põe em dúvida a própria causalidade, mas uma de suas formas, a causalidade local. Ela não põe em dúvida a objetividade científica, mas uma de suas formas: a objetividade clássica, baseada na crença na ausência de qualquer conexão não local. A existência de correlações não locais expande o campo da verdade, da Realidade. A não separabilidade quântica nos diz que há, neste mundo, pelo menos numa certa escala, uma coerência, uma unidade das leis que asseguram a evolução do conjunto dos sistemas naturais.

     

    Um outro pilar do pensamento clássico — o determinismo — iria, por sua vez, desmoronar. As entidades quânticas: os quanta, são muito diferentes dos objetos da física clássica: os corpúsculos e as ondas. Se quisermos a qualquer preço ligá-los aos objetos clássicos, seremos obrigados a concluir que os quanta são, ao mesmo tempo, corpúsculos e ondas, ou mais precisamente, que eles não são nem partículas nem ondas. Se houver uma onda, trata-se, antes, de uma onda de probabilidade, que nos permite calcular a probabilidade de realização de um estado final a partir de um certo estado inicial.

     

    Os quanta caracterizam-se por uma certa extensão de seus atributos físicos, como, por exemplo, suas posições e suas velocidades. As célebres relações de Heisenberg mostram, sem nenhuma ambigüidade, que é impossível localizar um quantum num ponto preciso do espaço e num ponto preciso do tempo. Em outras palavras, é impossível traçar uma trajetória bem determinada de uma partícula quântica. O indeterminismo reinante na escala quântica é um indeterminismo constitutivo, fundamental, irredutível, que de maneira nenhuma significa acaso ou imprecisão. O aleatório quântico não é acaso.

     

    A palavra “acaso” vem do árabe az-zahr que quer dizer “jogo de dados”. Com efeito, é impossível localizar uma partícula quântica ou dizer qual é o átomo que se desintegra num momento preciso. Mas isto não significa de modo algum que o acontecimento quântico seja um acontecimento fortuito, devido a um jogo de dados (jogado por quem?): simplesmente, as questões formuladas não têm sentido no mundo quântico. Elas não têm sentido porque pressupõem a existência de uma trajetória localizável, a continuidade, a causalidade local. No fundo, o conceito de “acaso”, como o de” necessidade”, são conceitos clássicos. O aleatório quântico é ao mesmo tempo acaso e necessidade ou, mais precisamente, nem acaso nem necessidade. O aleatório quântico é um aleatório construtivo, que tem um sentido: o da construção de nosso próprio mundo macrofísico. Uma matéria mais fina penetra uma matéria mais grosseira. As duas coexistem, cooperam numa unidade que vai da partícula quântica ao cosmo.

     

    Indeterminismo não quer de maneira alguma dizer “imprecisão”, se a noção de “precisão” não estiver implicitamente ligada, de maneira talvez inconsciente, a noções de trajetórias localizáveis, continuidade e causalidade local. As previsões da mecânica quântica sempre foram, até o presente, verificadas com uma grande precisão por inúmeras experiências. Porém, esta precisão diz respeito aos atributos próprios às entidades quânticas e não aos dos objetos clássicos. Aliás, mesmo no mundo clássico, a noção de precisão acaba de ser fortemente questionada pela teoria do “caos”.

     

    Uma minúscula imprecisão das condições iniciais leva a trajetórias clássicas extremamente divergentes ao longo do tempo. O caos instala-se no próprio seio do determinismo. Os planificadores de toda espécie, os construtores de sistemas ideológicos, econômicos ou outros, ainda podem existir num mundo que é ao mesmo tempo indeterminista e caótico?

     

    O maior impacto cultural da revolução quântica é, sem dúvida, o de colocar em questão o dogma filosófico contemporâneo da existência de um único nível de Realidade. Damos ao termo “realidade” seu significado tanto pragmático como ontológico. Entendo por Realidade, em primeiro lugar, aquilo que resiste a nossas experiências, representações, descrições, imagens ou formalizações matemáticas. A física quântica nos fez descobrir que a abstração não é um simples intermediário entre nós e a Natureza, uma ferramenta para descrever a realidade, mas uma das partes constitutivas da Natureza. Na física quântica, o formalismo matemático é inseparável da experiência. Ele resiste, a seu modo, tanto por seu cuidado pela autoconsistência interna como por sua necessidade de integrar os dados experimentais, sem destruir esta autoconsistência. Também noutro lugar, na realidade chamada “virtual” ou nas imagens de síntese, são as equações matemáticas que resistem: a mesma equação matemática dá origem a uma infinidade de imagens. As imagens estão latentes nas equações ou nas séries de números. Portanto, a abstração é parte integrante da Realidade.

     

    É preciso dar uma dimensão ontológica à noção de Realidade, na medida em que a Natureza participa do ser do mundo. A Natureza é uma imensa e inesgotável fonte de desconhecido que justifica a própria existência da ciência. A Realidade não é apenas uma construção social, o consenso de uma coletividade, um acordo intersubjetivo. Ela também tem uma dimensão transsubjetiva, na medida em que um simples fato experimental pode arruinar a mais bela teoria científica. Infelizmente, no mundo dos seres humanos, uma teoria sociológica, econômica ou política continua a existir apesar de múltiplos fatos que a contradizem.

     

    Deve-se entender por nível de Realidade um conjunto de sistemas invariável sob a ação de um número de leis gerais: por exemplo, as entidades quânticas submetidas às leis quânticas, as quais estão radicalmente separadas das leis do mundo macrofísico. Isto quer dizer que dois níveis de Realidade são diferentes se, passando de um ao outro, houver ruptura das leis e ruptura dos conceitos fundamentais (como, por exemplo, a causalidade).

     

    Ninguém conseguiu encontrar um formalismo matemático que permita a passagem rigorosa de um mundo ao outro. As sutilezas semânticas, as definições tautológicas ou as aproximações não podem substituir um formalismo matemático rigoroso. Há, mesmo, fortes indícios matemáticos de que a passagem do mundo quântico para o mundo macrofísico seja sempre impossível. Contudo, não há nada de catastrófico nisso. A descontinuidade que se manifestou no mundo quântico manifesta-se também na estrutura dos níveis de Realidade. Isto não impede os dois mundos de coexistirem. A prova: nossa própria existência. Nossos corpos têm ao mesmo tempo uma estrutura macrofísica e uma estrutura quântica.

     

    Os níveis de Realidade são radicalmente diferentes dos níveis de organização, tais como foram definidos nas abordagens sistêmicas. Os níveis de organização não pressupõem uma ruptura dos conceitos fundamentais: vários níveis de organização pertencem a um único e mesmo nível de Realidade. Os níveis de organização correspondem a estruturações diferentes das mesmas leis fundamentais. Por exemplo, a economia marxista e a física clássica pertencem a um único e mesmo nível de Realidade.

     

    O surgimento de pelo menos dois níveis de Realidade diferentes no estudo dos sistemas naturais é um acontecimento de capital importância na história do conhecimento. Ele pode nos levar a repensar nossa vida individual e social, a fazer uma nova leitura dos conhecimentos antigos, a explorar de outro modo o conhecimento de nós mesmos, aqui e agora.

     

    b. A Complexidade

     

    Ao longo do século XX, a complexidade instala-se por toda parte, assustadora, terrificante, obscena, fascinante, invasora, como um desafio à nossa própria existência e ao sentido de nossa própria existência. A complexidade em todos os campos do conhecimento parece ter fagocitado o sentido.

     

    A complexidade nutre-se da explosão da pesquisa disciplinar e, por sua vez, a complexidade determina a aceleração da multiplicação das disciplinas. A lógica binária clássica confere seus títulos de nobreza a uma disciplina científica ou não científica. Graças a suas normas de verdade, uma disciplina pode pretender esgotar inteiramente o campo que lhe é próprio. Se esta disciplina for considerada fundamental, como a pedra de toque de todas as outras disciplinas, este campo alarga-se implicitamente a todo conhecimento humano.

     

    Na visão clássica do mundo, a articulação das disciplinas era considerada piramidal, sendo a base da pirâmide representada pela física. A complexidade pulveriza literalmente esta pirâmide provocando um verdadeiro big-bang disciplinar.

     

    Paradoxalmente, a complexidade instalou-se no próprio coração da fortaleza da simplicidade: a física fundamental. De fato, nas obras de vulgarização, diz-se que a física contemporânea é uma física onde reina uma maravilhosa simplicidade estética da unificação de todas as interações físicas através de alguns “tijolos” fundamentais: quarks, léptons ou mensageiros. Cada descoberta de um novo tijolo, prognosticada por esta teoria, é saudada com a atribuição de um prêmio Nobel e apresentada como um triunfo da simplicidade que reina no mundo quântico. Mas para o físico que pratica esta ciência, a situação mostra-se infinitamente mais complexa.

     

    Os fundadores da física quântica esperavam que algumas partículas pudessem descrever, enquanto tijolos fundamentais, toda a complexidade física. No entanto, já por volta de l960 este sonho desmoronou: centenas de partículas foram descobertas graças aos aceleradores de partículas.

     

    Foi proposta uma nova simplificação com a introdução do princípio do bootstrap nas interações fortes: há uma espécie de “democracia” nuclear, todas as partículas são tão fundamentais quanto as outras e uma partícula é aquilo que ela é porque todas as outras partículas existem ao mesmo tempo.

     

    Esta visão de autoconsistência das partículas e de suas leis de interação, fascinante no plano filosófico, iria por sua vez desabar devido à inusitada complexidade das equações que traduziam esta autoconsistência e à impossibilidade prática de encontrar suas soluções. A introdução de subconstituintes dos hádrons (partículas de interações fortes) — os quarks — iria substituir a proposta do bootstrap e introduzir assim uma nova simplificação no mundo quântico. Esta simplificação levou a uma simplificação ainda maior, que domina a física de partículas atualmente: a procura de grandes teorias de unificação e de superunificação das interações físicas. Contudo, ainda assim, a complexidade não demorou em mostrar sua onipotência.

     

    Por exemplo, segundo a teoria das supercordas na física de partículas, as interações físicas aparecem como sendo muito simples, unificadas e submetendo-se a alguns princípios gerais, se descritas num espaço-tempo multidimensional e sob uma energia fabulosa, correspondendo à massa dita de Planck. A complexidade surge no momento da passagem para o nosso mundo, necessariamente caracterizado por quatro dimensões e por energias acessíveis muito menores. As teorias unificadas são muito poderosas no nível dos princípios gerais, mas são bastante pobres na descrição da complexidade de nosso próprio nível. Alguns resultados matemáticos rigorosos até indicam que esta passagem de uma única e mesma interação unificada para as quatro interações físicas conhecidas é extremamente difícil e até mesmo impossível. Um número enorme de questões matemáticas e experimentais, de extraordinária complexidade, permanece sem resposta.

     

    A complexidade matemática e a complexidade experimental são inseparáveis na física contemporânea. Aliás, a complexidade se mostra por toda parte, em todas as ciências exatas ou humanas, rígidas ou flexíveis. A biologia e a neurociência, por exemplo, que vivem hoje um rápido desenvolvimento, revelam-nos novas complexidades a cada dia que passa e assim caminhamos de surpresa em surpresa.

     

    A complexidade social sublinha, até o paroxismo, a complexidade que invade todos os campos do conhecimento. Edgar Morin tem razão quando assinala a todo momento que o conhecimento do complexo condiciona uma política de civilização. O conhecimento do complexo, para que seja reconhecido como conhecimento, passa por uma questão preliminar: a complexidade da qual falamos seria uma complexidade desordenada, e neste caso seu conhecimento não teria sentido, ou esconderia uma nova ordem e uma simplicidade de uma outra natureza que justamente seriam o objeto do novo conhecimento? Trata-se de escolher entre um caminho de perdição e um caminho de esperança.

     

    Teria a complexidade sido criada por nossa cabeça ou se encontra na própria natureza das coisas e dos seres? O estudo dos sistemas naturais nos dá uma resposta parcial a esta pergunta: tanto uma como outra. A complexidade das ciências é antes de mais nada a complexidade das equações e dos modelos. Ela é, portanto, produto de nossa cabeça, que é complexa por sua própria natureza. Porém, esta complexidade é a imagem refletida da complexidade dos dados experimentais, que se acumulam sem parar. Ela também está, portanto na natureza das coisas.

     

    Além disso, a física e a cosmologia quânticas nos mostram que a complexidade do Universo não é a complexidade de uma lata de lixo, sem ordem alguma. Uma coerência atordoante reina na relação entre o infinitamente pequeno e o infinitamente grande. Um único termo está ausente nesta coerência: o vertiginoso vazio do finito – o nosso. O indivíduo permanece estranhamento calado diante da compreensão da complexidade. E com razão, pois fora declarado morto. Entre as duas extremidades do bastão – simplicidade e complexidade –, falta o terceiro incluído: o próprio indivíduo.

     

    c. A lógica do Terceiro Incluído

     

    O desenvolvimento da física quântica, assim como a coexistência entre o mundo quântico e o mundo macrofísico, levaram, no plano da teoria e da experiência científica, ao aparecimento de pares de contraditórios mutuamente exclusivos (A e não-A): onda e corpúsculo, continuidade e descontinuidade, separabilidade e não separabilidade, causalidade local e causalidade global, simetria e quebra de simetria, reversibilidade e irreversibilidade do tempo etc. O escândalo intelectual provocado pela mecânica quântica consiste no fato de que os pares de contraditórios que ela coloca em evidência são de fato mutuamente opostos quando analisados através da grade de leitura da lógica clássica. Esta lógica baseia-se em três axiomas:

     

    1. O axioma da identidade: A é A;

    2. O axioma da não-contradição: A não é não-A;

    3. O axioma do terceiro excluído: não existe um terceiro termo T (T de “terceiro incluído”) que é ao mesmo tempo A e não-A.

     

    Na hipótese da existência de um único nível de Realidade, o segundo e terceiro axiomas são evidentemente equivalentes. O dogma de um único nível de Realidade, arbitrário como todo dogma, está de tal forma implantado em nossas consciências, que mesmo lógicos de profissão esquecem de dizer que estes dois axiomas são, de fato, distintos, independentes um do outro. Se, no entanto, aceitamos esta lógica que, apesar de tudo reinou durante dois milênios e continua a dominar o pensamento de hoje, em particular no campo político, social e econômico, chegamos imediatamente à conclusão de que os pares de contraditórios postos em evidência pela física quântica são mutuamente exclusivos, pois não podemos afirmar ao mesmo tempo a validade de uma coisa e seu oposto: A e não-A. A perplexidade produzida por esta situação é bem compreensível: podemos afirmar, se formos sãos de espírito, que a noite é o dia, o preto é o branco, o homem é a mulher, a vida é a morte? O problema pode parecer da ordem da pura abstração, pode parecer interessar apenas alguns lógicos, físicos ou filósofos. Em que a lógica abstrata seria importante para nossa vida de todos os dias?

     

    A lógica é a ciência que tem por objeto de estudo as normas da verdade (ou da “validade”, se a palavra “verdade” for forte demais em nossos dias). Sem norma, não há ordem. Sem norma, não há leitura do mundo e, portanto, nenhum aprendizado, sobrevivência e vida. Fica claro, portanto, que de maneira muitas vezes inconsciente, uma certa lógica e mesmo uma certa visão do mundo estão por trás de cada ação, qualquer que seja: a ação de um indivíduo, de uma coletividade, de uma nação, de um estado. Uma certa lógica determina, em particular, a regulamentação social.

     

    Desde a constituição definitiva da mecânica quântica, por volta dos anos 30, os fundadores da nova ciência se questionaram agudamente sobre o problema de uma nova lógica, chamada “quântica”. Após os trabalhos de Birkhoff e van Neumann, toda uma proliferação de lógicas quânticas não tardou a se manifestar. A ambição dessas novas lógicas era resolver os paradoxos gerados pela mecânica quântica e tentar, na medida do possível, chegar a uma potência preditiva mais forte do que a permitida com a lógica clássica.

     

    A maioria das lógicas quânticas modificaram o segundo axioma da lógica clássica: o axioma da não-contradição, introduzindo a não-contradição com vários valores de verdade no lugar daquela do par binário (A, não-A). Estas lógicas multivalentes, cujo estatuto ainda é controvertido quanto a seu poder preditivo, não levaram em conta uma outra possibilidade, a modificação do terceiro axioma: o axioma do terceiro excluído.

     

    O mérito histórico de Lupasco foi mostrar que a lógica do terceiro incluído é uma verdadeira lógica, formalizável e formalizada, multivalente (com três valores: A, não-A e T) e não contraditória. A compreensão do axioma do terceiro incluído — existe um terceiro termo T que é ao mesmo tempo A e não- A — fica totalmente clara quando é introduzida a noção de “níveis de Realidade”.

     

    Para se chegar a uma imagem clara do sentido do terceiro incluído, representemos os três termos da nova lógica — A, não-A e T — e seus dinamismos associados por um triângulo onde um dos ângulos situa-se num nível de Realidade e os dois outros num outro nível de Realidade. Se permanecermos num único nível de Realidade, toda manifestação aparece como uma luta entre dois elementos contraditórios (por exemplo: onda A e corpúsculo não-A). O terceiro dinamismo, o do estado T, exerce-se num outro nível de Realidade, onde aquilo que parece desunido (onda ou corpúsculo) está de fato unido (quantum), e aquilo que parece contraditório é percebido como não contraditório. É a projeção de T sobre um único e mesmo nível de Realidade que produz a impressão de pares antagônicos, mutuamente exclusivos (A e não-A). Um único e mesmo nível de Realidade só pode provocar oposições antagônicas. Ele é, por sua própria natureza, autodestruidor, se for completamente separado de todos os outros níveis de Realidade. Um terceiro termo, digamos, T’, que esteja situado no mesmo nível de Realidade que os opostos A e não-A, não pode realizar sua conciliação.

     

    Toda diferença entre uma tríade de terceiro incluído e uma tríade hegeliana se esclarece quando consideramos o papel do tempo. Numa tríade de terceiro incluído os três termos coexistem no mesmo momento do tempo. Por outro lado, os três termos da tríade hegeliana sucedem-se no tempo. Por isso, a tríade hegeliana é incapaz de promover a conciliação dos opostos, enquanto a tríade de terceiro incluído é capaz de fazê-lo. Na lógica do terceiro incluído os opostos são antes contraditórios: a tensão entre os contraditórios promove uma unidade que inclui e vai além da soma dos dois termos.

     

    Vemos assim os grandes perigos de mal-entendidos gerados pela confusão bastante comum entre o axioma de terceiro excluído e o axioma de não-contradição. A lógica do terceiro incluído é não-contraditória, no sentido de que o axioma da não-contradição é perfeitamente respeitado, com a condição de que as noções de “verdadeiro” e “falso” sejam alargadas, de tal modo que as regras de implicação lógica digam respeito não mais a dois termos (A e não-A), mas a três termos (A, não-A e T), coexistindo no mesmo momento do tempo. É uma lógica formal, da mesma maneira que qualquer outra lógica formal: suas regras traduzem-se por um formalismo matemático relativamente simples.

     

    Vemos porque a lógica do terceiro incluído não é simplesmente uma metáfora para um ornamento arbitrário da lógica clássica, permitindo algumas incursões aventureiras e passageiras no campo da complexidade. A lógica do terceiro incluído é uma lógica da complexidade e até mesmo, talvez, sua lógica privilegiada, na medida em que nos permite atravessar, de maneira coerente, os diferentes campos do conhecimento.

     

    A lógica do terceiro incluído não abole a lógica do terceiro excluído: ela apenas limita sua área de validade. A lógica do terceiro excluído é certamente validada em situações relativamente simples, como, por exemplo, a circulação de veículos numa estrada: ninguém pensa em introduzir, numa estrada, um terceiro sentido em relação ao sentido permitido e ao proibido. Por outro lado, a lógica do terceiro excluído é nociva nos casos complexos, como, por exemplo, o campo social ou político. Ela age, nestes casos, como uma verdadeira lógica de exclusão: bem ou mal, direita ou esquerda, mulheres ou homens, ricos ou pobres, brancos ou negros. Seria revelador fazer uma análise da xenofobia, do racismo, do anti-semitismo ou do nacionalismo à luz da lógica do terceiro excluído.

     

    4. Conclusão:

     

    Sem uma metodologia a transdisciplinaridade seria uma proposta vazia. Os Níveis de Realidade, a Complexidade e a Lógica do Terceiro Incluído, definem a metodologia da transdisciplinaridade. Só se nos apoiarmos nesses três pilares metodológicos poderemos inventar os métodos e modelos transdisciplinares adequados a situações particulares e práticas.

     

    Referências

     

    GIBBONS, Michael et al., The New Production of Knowledge - The Dynamics of Science and Research in Contemporary Societies. Londres, Sage: 1994.

     

    NICOLESCU, Basarab O Manifesto da transdisciplinaridade. São Paulo, Triom: 1999. Tradução do Francês por Lúcia Pereira de Souza.

    Acesso ao artigo pela Rede Brasileira de Transdisciplinaridade

     

     

     

     

     

    COMPLEXIDADE E TRANSDISCIPLINARIDADE

    - histórico de um olhar renovado sobre o passado, o presente e o futuro -

     

     

     

     

    Reforma da Educação e do Pensamento:

    complexidade e transdisciplinaridade

     

    Basarab NICOLESCU*

    Tradução de Paulo dos Santos Ferreira

     

    1. Multi, inter e transdisciplinaridade

     

    O processo de decadência das civilizações é enormemente complexo e suas raízes mergulham na mais absoluta escuridão. É claro que podemos encontrar, a posteriori, inúmeras explicações e racionalizações, sem conseguir contudo dissipar a idéia de que há algo de irracional atuando no próprio âmago desse processo. Os atores de uma civilização bem estabelecida, desde as grandes massas até os principais responsáveis pelas grandes decisões, mesmo que sejam mais ou menos conscientes desse processo de decadência, parecem impotentes para sustar a queda de sua civilização. Uma coisa é certa: uma grande defasagem entre a mentalidade dos atores e as necessidades internas de desenvolvimento de um tipo de sociedade acompanha invariavelmente a queda de uma civilização. Tudo ocorre como se os conhecimentos e os saberes que uma civilização incessantemente acumula não pudessem ser integrados no ser interior daqueles que compõem essa civilização. Ora, afinal de contas, é o ser humano que se encontra ou deveria encontrar-se no centro de toda civilização digna desse nome.

    Na época atual, o crescimento sem precedentes dos saberes torna legítima a questão da adaptação das mentalidades a esses saberes. O risco é enorme, porque a contínua expansão da civilização ocidental, em escala mundial, faria com que a queda dessa civilização fosse equivalente ao incêndio de todo o planeta, em nada comparável às duas primeiras guerras mundiais.

    A harmonia entre mentalidades e saberes pressupõe que tais saberes sejam inteligíveis, compreensíveis. Mas será que essa compreensão pode ainda existir, na era do big bang disciplinar e da extrema especialização?

    A imprescindível necessidade de liames entre as diferentes disciplinas traduziu-se na emergência – por volta do meado do século 20 – da pluridisciplinaridade e da interdisciplinari­dade.

    A pluridisciplinaridade diz respeito ao estudo de um objeto de uma única e mesma disciplina efetuado por diversas disciplinas ao mesmo tempo. Por exemplo, a filosofia marxista pode ser estudada sob a visão cruzada da filosofia e da física, da economia, da psicanálise ou da literatura. O objeto sairá assim enriquecido pelo cruzamento de várias disciplinas. O conhecimento do objeto em sua própria disciplina é aprofundado mediante uma fecunda contribuição pluridisciplinar. A pesquisa pluridisciplinar adiciona um algo mais à disciplina em questão (a filosofia, no exemplo citado), mas esse “algo mais” está a serviço exclusivamente daquela própria disciplina. Em outras palavras, o procedimento pluridisciplinar ultrapassa os limites de uma disciplina, mas sua finalidade permanece restrita ao quadro da pesquisa disciplinar em questão.

    A interdisciplinaridade tem um ambição diferente daquela da pluridisciplinaridade. Ela diz respeito à transferência dos métodos de uma disciplina para outra. Podemos distinguir três graus de interdisciplinaridade: a) um grau de aplicação: a transferência dos métodos da física nuclear para a medicina, por exemplo, leva à descoberta de novas formas de tratamento do câncer; b) um grau epistemológico: a transferência dos métodos da lógica formal para o domínio do direito, por exemplo, dá origem a interessantes análises na epistemologia do direito; c) um grau de criação de novas disciplinas: a transferência dos métodos da matemática para o estudo dos fenômenos meteorológicos ou da bolsa, por exemplo, gerou a teoria do caos. Assim como a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade ultrapassa igualmente os limites das disciplinas, porém sua finalidade também continua inscrita na pesquisa disciplinar. No seu terceiro grau, a interdisciplinaridade contribui até mesmo para o big bang disciplinar.

    Já a transdisciplinaridade, conforme indica o prefixo “trans”, envolve aquilo que está ao mesmo tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de toda e qualquer disciplina. Sua finalidade é a compreensão do mundo atual, para a qual um dos imperativos é a unidade do conhecimento.

    Existe alguma coisa entre e através das disciplinas e além de toda e qualquer disciplina? Do ponto de vista do pensamento clássico não existe nada, absolutamente nada. O espaço em questão é vazio, completamente vazio, como o vácuo da física clássica.

    Diante de vários níveis de Realidade, o espaço entre as disciplinas e além das disciplinas está cheio, como o vácuo quântico está cheio de todas as potencialidades: da partícula quântica às galáxias, do quark aos elementos pesados que condicionam o aparecimento da vida no Universo.

    A estrutura descontínua dos níveis de Realidade determina a estrutura descontínua do espaço transdisciplinar, a qual, por sua vez, explica porque a pesquisa transdisciplinar é radicalmente distinta da pesquisa disciplinar, da qual é complementar. A pesquisa disciplinar envolve, no máximo, um único e mesmo nível de Realidade; na maioria dos casos, aliás, ela não envolve senão fragmentos de um único e mesmo nível de Realidade. Em contrapartida, a transdisciplinaridade interessa-se pela dinâmica decorrente da ação simultânea de diversos níveis de Realidade. A descoberta dessa dinâmica passa necessariamente pelo conhecimento disciplinar.

    Os três pilares da transdisciplinaridade – os níveis de Realidade, a lógica do terceiro incluído e a complexidade – determinam a metodologia da pesquisa transdisciplinar.

    A disciplinaridade, a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a transdisciplinari­dade são as quatro flechas de um único e mesmo arco: o do conhecimento.

     

    2. O terceiro incluído

    O desenvolvimento da física quântica, bem como a coexistência entre o mundo quântico e o mundo macrofísico, conduziram – no plano da teoria e da experiência científica – ao surgimento de pares de contraditórios mutuamente exclusivos (A e não-A): onda e corpúsculo, continuidade e descontinuidade, separabilidade e não-separabilidade, causalidade local e causalidade global, simetria e quebra de simetria, reversibilidade e irreversibilidade do tempo etc.

    O escândalo intelectual provocado pela mecânica quântica consiste no fato de que os pares de contraditórios que ela pôs em evidência são de fato mutuamente contraditórios quando analisados através da grade de leitura da lógica clássica. Essa lógica baseia-se em três axiomas:

    1. O axioma de identidade:

    A é A.

    2. O axioma de não-contradição:

    A não é não-A.

    3. O axioma do terceiro excluído:

    não existe um terceiro termo T (T de “terceiro incluído”) que seja ao mesmo tempo A e não-A.

    Na hipótese da existência de um único nível de Realidade, o segundo e o terceiro axiomas são evidentemente equivalentes.

    Se aceitarmos esta lógica que reinou durante dois milênios e que continua a dominar o pensamento de hoje, particularmente no terreno político, social e econômico, chegaremos imediatamente à conclusão de que os pares de contraditórios postos em evidência pela física quântica são mutuamente exclusivos, porque não se pode afirmar ao mesmo tempo a validade de uma coisa e a do contrário dela: A e não-A. A perplexidade provocada por esta situação é bastante compreensível: podemos afirmar, em sã consciência, que a noite é o dia, o preto é o branco, o homem é a mulher, a vida é a morte?

    Depois da constituição definitiva da mecânica quântica, por volta dos anos trinta, os fundadores da nova ciência encararam com acuidade o problema de uma nova lógica, dita “quântica”. Em conseqüência dos trabalhos de Birkhoff e de von Neumann, uma grande floração de lógicas quânticas não tardou a manifestar-se. A ambição dessas novas lógicas era a de resolver os paradoxos criados pela mecânica quântica e, na medida do possível, tentar alcançar um poder preditivo superior ao proporcionado pela lógica clássica.

    Na sua maioria, as lógicas quânticas modificaram o segundo axioma da lógica clássica – o de não-contradição – mediante a introdução da não-contradição com vários valores de verdade, em substituição à do par binário (A, não-A). Estas lógicas multivalentes, cujo status é ainda controvertido no tocante ao poder preditivo, não consideraram uma outra possibilidade: a da modificação do terceiro axioma – o axioma do terceiro excluído.

    Coube ao filósofo francês Stéphane Lupasco o mérito histórico de haver mostrado que a lógica do terceiro incluído é uma verdadeira lógica, formalizável e formalizada, multivalente (com três valores: A, não-A e T) e não contraditória. Sua filosofia, que adota como ponto de partida a física quântica, foi marginalizada pelos físicos e pelos filósofos. Surpreendentemente, ela teve em contrapartida um poderoso impacto, embora subterrâneo, entre os psicólogos, os sociólogos, os artistas e os historiadores das religiões. Lupasco tivera razão cedo demais. É possível que a ausência da noção de “níveis de Realidade” em sua filosofia tivesse obscurecido o seu conteúdo.

    A compreensão do axioma do terceiro incluído – existe um terceiro termo T que é ao mesmo tempo A e não-A – torna-se completamente clara com a introdução da noção de “níveis de Realidade”.

    Para conseguir uma imagem clara do significado do terceiro incluído, representemos os três termos da nova lógica – A, não-A e T – e seus dinamismos associados por meio de um triângulo do qual um dos vértices está situado em um nível de Realidade e os outros dois em um outro nível de Realidade. Se permanecermos em um único nível de Realidade, toda manisfestação surge como uma luta entre dois elementos contraditórios (por exemplo: onda A e corpúsculo não-A). O terceiro dinamismo, aquele do estado T, se efetua em um outro nível de Realidade, no qual aquilo que aparenta ser desunido (onda ou corpúsculo) é de fato unido (quanton), e o que parece contraditório é percebido como não-contraditório.

    É a projeção de T sobre um único e mesmo nível de Realidade que produz a aparência dos pares antagônicos, mutuamente exclusivos (A e não-A). Um único e mesmo nível de Realidade não pode gerar senão oposições antagônicas. Ele é auto-destruidor, por sua própria natureza, quando completamente isolado de todos os outros níveis de Realidade. Um terceiro termo, digamos T’, que se situe no mesmo nível de Realidade que os opostos A e não-A, não pode efetuar sua conciliação. Toda a diferença entre uma tríade de terceiro incluído e uma tríade hegeliana se esclarece mediante a consideração do papel do tempo. Numa tríade de terceiro incluído os três termos coexistem num mesmo instante do tempo. Os três termos de uma tríade hegeliana, ao contrário, se sucedem no tempo. É por essa razão que a tríade hegeliana é incapaz de efetuar a conciliação dos opostos, enquanto a tríade de terceiro incluído consegue realizar essa conciliação. Na lógica do terceiro incluído os opostos são mais propriamente contraditó­rios: a tensão entre os contraditórios constrói uma unidade maior que os inclui.

    Vemos assim os grandes perigos de malentendidos gerados pela confusão, assaz freqüente, entre o axioma do terceiro excluído e o axioma de não-contradição. A lógica do terceiro incluído é não contraditória, no que tange ao fato de que o axioma de não-contradição é perfeitamente respeitado, desde que as noções de “verdadeiro” e “falso” sejam ampliadas de tal maneira que as regras de implicação lógica passem a envolver não mais apenas dois termos (A e não-A), mas três termos (a, não-A e T), coexistindo num mesmo instante do tempo. É uma lógica formal, tanto quanto qualquer outra lógica formal: suas regras se traduzem por um formalismo matemático relativamente simples.

    Vemos porque a lógica do terceiro incluído não constitui simplesmente uma metáfora para servir de ornamento arbitrário da lógica clássica, de modo a permitir algumas incursões aventurosas e efêmeras no domínio da complexidade. A lógica do terceiro incluído é uma lógica da complexidade e talvez até mesmo sua lógica privilegiada, na medida em que permite atravessar, de maneira coerente, os diferentes domínios do conhecimento.

    A lógica do terceiro incluído não abole a lógica do terceiro excluído: apenas restringe seu campo de validade. A lógica do terceiro excluído é certamente válida no tocante a situações relativamente simples, como por exemplo a circulação de veículos numa auto-estrada: ninguém pensaria em introduzir ali um terceiro sentido, em relação ao sentido permitido e ao sentido proibido. Por outro lado, a lógica do terceiro excluído é nociva nos casos complexos, como, por exemplo, no domínio social ou político, Ela atua, em tais casos, como uma verdadeira lógica de exclusão: o bem ou o mal, as mulheres ou os homens, os ricos ou os pobres, os brancos ou os negros. Seria revelador empreender uma análise da xenofobia, do racismo, do anti-semitismo ou do nacionalismo à luz da lógica do terceiro excluído.

     

    3. Estrutura gödeliana da Natureza e do conhecimento

    A visão transdisciplinar nos propõe a consideração de uma Realidade multidimensional, estruturada em múltiplos níveis, que substitui a Realidade unidimensional, de um único nível, do pensamento clássico.

    De acordo com a abordagem transdisciplinar, a Realidade comporta um certo número de níveis. As considerações a seguir não dependem do fato de que esse número seja ou não finito. A bem da clareza verbal da exposição, suporemos que esse número é infinito.

    Dois níveis adjacentes estão ligados pela lógica do terceiro excluído, no sentido de que o estado T, presente num certo nível, está ligado a um par de contraditórios (A, não-A) do nível imediatamente vizinho. O estado T realiza a unificação dos contraditórios A e não-A, mas tal unificação se opera em um nível diferente daquele em que se situam A e não-A. O axioma de não-contradição é respeitado nesse processo. Isto significa então que desta forma vamos conseguir uma teoria completa, capaz de dar conta de todos os resultados conhecidos e futuros?

    Existe certamente uma coerência entre os diferentes níveis de Realidade, pelo menos no mundo natural. De fato, uma imensa autoconsistência parece reger a evolução do universo, desde o infinitamente pequeno até o infinitamente grande, do infinitamente breve ao infinita­mente longo.

    A lógica do terceiro incluído é capaz de descrever a coerência entre os níveis de Realidade pelo processo iterativo que compreende as seguintes etapas: 1. Um par de contraditórios (A, não-A) situado num certo nível de Realidade é unificado por um estado T situado num nível de Realidade imediatamente vizinho; 2. Esse estado T, por sua vez, está ligado a um par de contraditórios (A’, não-A’), situado em seu próprio nível de Realidade;  3. O par de contraditórios (A’, não-A’) é por sua vez unificado por um estado T’ situado em outro nível de Realidade, imediatamente vizinho daquele em que se encontra o terno (A’, não-A’, T). O processo iterativo prossegue indefinidamente até esgotar todos os níveis de Realidade conhecidos ou concebíveis.

    Em outras palavras, a ação da lógica do terceiro incluído sobre os diferentes níveis de Realidade induz uma estrutura aberta, gödeliana, do conjunto dos níveis de Realidade. Esta estrutura exerce uma influência considerável sobre a teoria do conhecimento, porque implica a impossibilidade de uma teoria completa, fechada sobre si mesma.

    Com efeito, o estado T efetua, de acordo com o axioma de não-contradição, a unificação do par de contraditórios (A, não-A), mas ao mesmo tempo ele está associado a um outro par de contraditórios (A’, não-A’). Isto significa que, a partir de um certo número de pares mutuamente exclusivos, podemos construir uma nova teoria, que elimina as contradições num certo nível de Realidade, mas esta teoria será apenas temporária, porque, sob a pressão conjunta da teoria e da experiência ela conduzirá inevitavelmente à descoberta de novos pares de contraditórios, situados em um novo nível de Realidade. Portanto, essa teoria será por sua vez substituída por teorias ainda mais unificadas, à medida que novos níveis de Realidade forem sendo descobertos. Esse processo continuará indefinidamente, sem poder jamais chegar a uma teoria completamente unificada. O axioma de não-contradição sai cada vez mais fortalecido desse processo. Nesse sentido, podemos falar de uma evolução do conhecimento, que não chegará jamais a uma não-contradição absoluta, abarcando todos os níveis de Realidade: o conhecimento é eternamente aberto.

    A estrutura aberta do conjunto dos níveis de Realidade está de acordo com um dos resultados científicos mais importantes do século 20: o teorema de Gödel, na aritmética, segundo o qual um sistema de axiomas suficientemente rico conduz inevitavelmente a resultados quer de consistência não demonstrável quer contraditórios.

    As implicações do teorema de Gödel têm uma importância considerável para toda teoria moderna do conhecimento. Antes de mais nada, ele não compreende unicamente o domínio da aritmética, mas também toda matemática que inclua a aritmética. Ora, a matemática que constitui a ferramenta básica da física teórica contém, evidentemente, a aritmética. Isso significa que toda a busca de uma teoria física completa é ilusória. Se esta afirmação é verdadeira em relação aos domínios mais rigorosos do estudo dos sistemas naturais, como poderíamos sonhar com uma teoria completa em um domínio infinitamente mais complexo, como o das ciências humanas?

    De fato, a procura de uma axiomática que conduza a uma teoria completa (sem resultados de consistência não demonstrável nem contraditórios) marca simultaneamente o apogeu e o ponto em que se inicia o declínio do pensamento clássico. O sonho axiomático desvaneceu-se ante o veredicto do papa do pensamento clássico: o rigor matemático.

    A estrutura gödeliana do conjunto dos níveis de Realidade, associada à lógica do terceiro incluído, implica a impossibilidade de construir uma teoria completa para descrever a passagem de um nível a outro e, a fortiori, para descrever o conjunto dos níveis de Realidade.

    A unidade que reúne todos os níveis de Realidade, caso exista, deve ser necessariamente uma unidade aberta.

    Existe, certamente, uma coerência do conjunto dos níveis de Realidade, mas tal coerência é orientada: uma flecha é associada a toda transmissão de informação de um nível para outro. Conseqüentemente, se for limitada aos próprios níveis de Realidade, a coerência se detém no nível mais “alto” e no nível mais “baixo”. Para que a coerência se estenda para além desses dois níveis limites, para que exista aí uma unidade aberta, é preciso considerar que o conjunto dos níveis de Realidade se prolongue por uma zona de não-resistência a nossas experiências, representações, descrições, imagens ou formalizações matemáticas. O nível mais “alto” e o nível mais “baixo” do conjunto dos níveis de Realidade se unem através de uma zona de transparência absoluta.

    A não-resistência desta zona de transparência absoluta é devida apenas às limitações do nosso corpo e de nossos órgãos sensoriais, quaisquer que sejam os instrumentos de medição que os prolonguem. A zona de não resistência corresponde ao sagrado, ou seja, àquilo que não se submete a nenhuma racionalização. A proclamação da existência de um único nível de Realidade elimina o sagrado, ao preço da autodestruição desse mesmo nível.

    O conjunto dos níveis de Realidade e sua zona complementar de não-resistência constituem o Objeto transdisciplinar.

    Na visão transdisciplinar, a pluralidade complexa e a unidade aberta são duas facetas de uma única e mesma Realidade.

    Um novo Princípio de Relatividade emerge da coexistência entre a pluralidade complexa e a unidade aberta: nenhum nível de Realidade constitui um local privilegiado de onde seja possível compreender todos os outros níveis de Realidade. Um nível de Realidade é o que ele é porque todos os outros níveis existem ao mesmo tempo. Este Princípio de Relatividade é fundador de uma nova maneira de encarar a religião, a política, a arte, a educação e a vida social. E quando muda a nossa maneira de encará-lo, o mundo muda. Na visão transdisciplinar, a Realidade não é somente multidimensional – ele é também multirreferenciada.

    Os diferentes níveis de Realidade são acessíveis ao conhecimento humano graças à existência de diferentes níveis de percepção, que se encontram em correspondência biunívoca com os níveis de Realidade. Estes níveis de percepção permitem uma visão cada vez mais geral, unificadora e globalizante da Realidade, sem jamais esgotá-la inteiramente.

    A coerência dos níveis de percepção pressupõe, como no caso dos níveis de Realidade,  a existência de uma zona de não resitência à percepção.

    O conjunto dos níveis de percepção e sua zona de não-resistência constituem o Sujeito transdisciplinar.

    As duas zonas de não-resistência, a do Objeto e a do Sujeito transdisciplinares, devem ser idênticas para que o Sujeito transdisciplinar possa comunicar-se com o Objeto transdisciplinar. Ao fluxo de informação que atravessa de maneira coerente os diferentes níveis de Realidade corresponde um fluxo de consciência que atravessa de maneira coerente os diferentes níveis de percepção. Os dois fluxos estão em uma relação de isomorfismo, graças à existência de uma única e mesma zona de não-resistência. O conhecimento não é nem exterior nem interior: ele é ao mesmo tempo exterior e interior. O estudo do Universo e o estudo do ser humano sustentam-se mutuamente.

    A transdisciplinaridade é a transgressão da dualidade que opõe os pares binários: sujeito - objeto, subjetividade - objetividade, matéria - consciência, natureza - divino, simplicidade - complexidade, reducionismo - holismo, diversidade - unidade. Esta dualidade é transgredida pela unidade aberta que abarca tanto o Universo quanto o ser humano.

     

    4. O transcultural

    A contemplação da cultura de nosso século que se acaba é ao mesmo tempo perturbadora, paradoxal e fascinante.

    O avanço fulminante da tecnociência não fez senão aprofundar o abismo entre as culturas. A esperança do século 19, de uma cultura única de uma sociedade mundial, alicerçada na felicidade proporcionada pela ciência, desmoronou há muito tempo. Em lugar disso, assistimos, de um lado, à separação total entre ciência e cultura e, de outro, a um desmembramento cultural no interior de uma única e mesma cultura.

    A separação entre ciência e cultura gerou o mito da separação entre Ocidente e Oriente: o Ocidente, depositário da ciência enquanto conhecimento da Natureza, e o Oriente, depositário da sabedoria enquanto conhecimento do ser humano. Esta separação, ao mesmo tempo geográfica e espiritual, é artificial, porque, como bem observou Henry Corbin, existe Oriente no Ocidente e Ocidente no Oriente. Em cada ser humano encontram-se potencialmente reunidos o Oriente da sabedoria e o Ocidente da ciência, o Oriente da afetividade e o Ocidente da efetividade.

    Apesar de sua aparência caótica, a modernidade conduz a uma reaproximação entre as culturas.

    O pluricultural mostra que o diálogo entre as diferentes culturas é enriquecedor, mesmo que não vise a uma efetiva comunicação entre as culturas. O estudo da civilização chinesa foi sem dúvida fecundo para o aprofundamento da compreensão da cultura européia. O pluricultural nos faz descobrir melhor a fisionomia de nossa própria cultura no espelho de uma outra cultura.

    O intercultural é nitidamente favorecido pelo desenvolvimento dos meios de transporte e de comunicação e pela globalização econômica. A descoberta aprofundada das culturas outrora mal conhecidas ou desconhecidas faz com que se desenvolvam as potencialidades insuspeitadas de nossa própria cultura. O surgimento do cubismo, sob a influência da arte africana é um eloqüente exemplo disso.

    Com toda a evidência, o pluricultural e o intercultural não asseguram, por si mesmos, a comunicação entre todas as culturas, que pressupõe uma linguagem universal, erigida sobre uma base de valores partilhados. Mas eles constituem passos importantes rumo ao advento de uma tal comunicação transcultural.

    O transcultural designa a abertura de todas as culturas a tudo aquilo que as atravessa e as ultrapassa.

    Esta percepção daquilo que atravessa e ultrapassa as culturas é, antes de tudo, uma experiência irredutível a toda e qualquer teorização. Ela nos indica que nenhuma cultura constitui o lugar privilegiado de onde seja possível julgar as outras culturas. Cada cultura é a atualização de uma potencialidade do ser humano, em um lugar preciso da Terra e num momento preciso da História. Os diferentes lugares da Terra e os diferentes momentos da História atualizam as diferentes potencialidades do ser humano, as diferentes culturas. É o ser humano, em sua totalidade aberta, que constitui o lugar sem lugar daquilo que atravessa e ultrapassa as culturas.

     

    5. A evolução transdisciplinar da educação

    O advento de uma cultura transdisciplinar, capaz de contribuir para eliminar tensões que ameaçam a vida em nosso planeta, é impossível sem um novo tipo de educação, que leve em conta todas as dimensões do ser humano.

    As diferentes tensões – econômicas, culturais, espirituais – são inevitavelmente perpetua­das e agravadas por um sistema de educação baseado em valores cuja defasagem em relação às mutações contemporâneas se acentua de forma acelerada. A guerra mais ou menos embrionária das economias, das culturas e das civilizações não deixa de provocar conflitos reais em alguns pontos do planeta. No fundo, toda a nossa vida individual e social é estruturada pela educação. A educação está no âmago de nosso devir.

    A despeito da enorme diversidade que se verifica entre os países no tocante aos sistemas de educação, a globalização dos desafios de nossa época acarreta a globalização dos problemas da educação. As perturbações que ocorrem no campo da educação em alguns países são apenas sintomas de uma única e mesma lacuna entre os valores e as realidades de uma vida mundial em mutação. Se não existe, por certo, uma receita miraculosa para sanar tais problemas, existe contudo um centro comum de interrogação.

    A tomada de consciência do fato de que o sistema educacional se encontra defasado em relação às mudanças do mundo moderno traduziu-se na realização de numerosos colóquios, relatórios e estudos.

    Um relatório recente e exaustivo foi elaborado pela comissão internacional para a educação no século 21, vinculada à UNESCO e presidida por Jacques Delors. O Relatório Delors põe em grande destaque os quatro pilares de um novo tipo de educação: Aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser.

    A abordagem transdisciplinar pode contribuir valiosamente para o advento desse novo tipo de educação. Nesse contexto, os recentes trabalhos de Edgar Morin são bastante esclarecedores.

    Aprender a conhecer significa antes de mais nada a aprendizagem dos métodos que nos ajudem a distinguir o que é real do que é ilusório, e a ter assim um acesso inteligente aos saberes da nossa época. Nesse contexto, o espírito científico, uma das mais altas conquistas da aventura humana, é indispensável. A iniciação precoce nos domínios da ciência é salutar, porque faculta – desde a infância – o acesso à inesgotável riqueza do espírito científico, fundado no questionamento, na recusa de toda resposta pré-fabricada e de toda certeza em contradição com os fatos. O que permite o acesso ao espírito científico não é a assimilação de uma enorme massa de conhecimentos científicos, mas a qualidade daquilo que é ensinado. E “qualidade” aqui significa fazer com que a criança, o adolescente ou o adulto penetre no próprio cerne da conduta científica, que consiste no permanente questionamento relativo à resistência dos fatos, das imagens, das representações e das formalizações.

    Aprender a conhecer quer dizer também ser capaz de estabelecer pontes – pontes entre os diferentes saberes, entre tais saberes e sua significação para nossa vida cotidiana e ainda entre tais saberes e significações e nossas capacidades interiores. Este procedimento transdisciplinar constitui complemento indispensável do procedimento disciplinar, porque conduzirá à formação de um ser constantemente atento, capaz de adaptar-se às mutáveis exigências da vida profissional e dotado de uma flexibilidade permanentemente orientada para a atualização de suas potencialidades interiores.

    Aprender a fazer significa, é claro, escolher uma profissão e adquirir os conhecimentos e técnicas a ela associados. A escolha de uma profissão inclui necessariamente uma especialização. Ninguém será capaz de realizar uma operação cirúrgica sem ter estudado a cirurgia.

    Porém, neste nosso mundo em ebulição, no qual o sismo da informática anuncia que outros sismos virão, fixar-se por toda a vida num único e mesmo ofício pode ser perigoso, pelo risco de levar ao desemprego, à exclusão, ao sofrimento que desintegra o indivíduo. A especialização excessiva e precoce deve ser banida num mundo em rápida mudança. Se quisermos realmente conciliar a exigência da competição e a preocupação da igualdade de oportunidades para todos os seres humanos, toda profissão deverá ser, no futuro, uma verdadeira profissão a ser tecida, uma profissão que estará ligada, no interior do ser humano, às linhas que conduzem a outras profissões. É claro que não se trata de adquirir várias qualificações profissionais ao mesmo tempo, mas de construir um núcleo interior flexível, capaz de permitir o rápido acesso a uma outra profissão.

    Dentro do espírito transdisciplinar, o “aprender a fazer” é um aprendizado da criatividade. “Fazer” significa também fazer coisas novas, criar, pôr em dia suas potencialidades criativas. É este aspecto do “fazer” que constitui o contrário do tédio de que padecem tantos seres humanos que, para prover suas necessidades, são obrigados a exercer uma profissão em desacordo com suas predisposições interiores. A igualdade de oportunidades quer dizer também a realização de potencialidades criativas que diferem de uma pessoa a outra. A “competição” pode significar também a harmonia das atividades criativas no seio de uma única e mesma coletividade. O tédio, fonte de violência, de conflito, de loucura, de renúncia moral e social, pode ser substituído pela alegria da realização pessoal, qualquer que seja o lugar em que essa realização se efetue, porque esse lugar será sempre único para cada pessoa num dado momento.

    A hierarquia social, tão freqüentemente arbitrária e artificial, poderia assim ser substituída pela cooperação entre níveis estruturados de acordo com a criatividade individual. Tais níveis seriam níveis de ser, ao contrário de níveis impostos por uma competição que absolutamente não leva em conta o homem interior. A abordagem transdisciplinar funda-se no equilíbrio entre o homem exterior e o homem interior. À falta desse equilíbrio, “fazer” não significa mais do que “sujeitar-se”.

    Aprender a conviver certamente significa, antes de mais nada, acatar as normas que regem as relações entre os membros de uma coletividade. Mas tais normas devem ser verdadeiramente compreendidas e intimamente aceitas pelas pessoas, e não apenas obedecidas como uma lei imposta exteriormente. “Conviver” não quer dizer simplesmente

    ·    tolerar o outro em suas diferenças de opinião, raça e crença;

    ·    curvar-se às exigências dos poderosos;

    ·    navegar entre os meandros de inúmeros conflitos;

    ·    separar definitivamente sua vida interior de sua vida exterior;

    ·    fingir dar atenção ao outro, sem contudo abrir mão da convicção quanto à absoluta justeza de suas próprias posições.

    Porque isso transformaria a convivência no seu contrário: uma luta de todos contra todos.

    A atitude transcultural, transreligiosa, transpolítica e transnacional pode ser aprendida. Ela é inata, na medida em que existe em cada ser um núcleo sagrado intangível. Mas se essa atitude inata for apenas potencial, ela pode permanecer para sempre nesse estado, ausente da vida e da ação. Para que as normas de uma coletividade sejam respeitadas, elas devem ser validadas pela experiência interior de cada um.

     Um aspecto primordial da evolução transdisciplinar da educação diz respeito à capaci­dade de reconhecer-se a si próprio na imagem do outro. Trata-se de um aprendizado perma­nente, que deve começar na mais tenra infância e prosseguir ao longo de toda a vida.

    Aprender a ser surge, à primeira vista, como um enigma insondável. Nós sabemos existir, mas como aprender a ser? Podemos começar por aprender o que significa, para nós, a palavra “existir”: descobrir nossos condicionamentos, descobrir a harmonia ou a desarmonia entre nossa vida interior e a social, sondar os fundamentos de nossas convicções, para descobrir o que existe de subjacente. Na construção, o estado da escavação precede o das fundações. Para alicerçar o ser é necessário proceder de início à escavação de nossas certezas, de nossas crenças e de nossos condicionamentos. Questionar, questionar sempre: aqui também, o espírito científico nos serve de precioso guia. Esta é uma lição que é aprendida tanto pelos que ensinam quanto pelos que são ensinados.

    A construção de uma pessoa exige inevitavelmente uma dimensão transpessoal. A inobservância deste acordo imprescindível é em grande parte responsável por uma das tensões fundamentais de nossa época, a tensão entre o material e o espiritual. A sobrevivência de nossa espécie depende em muito da eliminação dessa tensão, mediante uma conciliação entre esses dois contraditórios aparentemente antagônicos. Essa conciliação deve operar-se em um outro nível de experiência, diferente daquele do nosso dia-a-dia.

    Existe uma inter-relação bastante evidente entre os quatro pilares do novo sistema de educação: como aprender a fazer aprendendo a conhecer, e como aprender a ser aprendendo a conviver?

    Na visão transdisciplinar, existe também uma transrelação, que liga os quatro pilares do novo sistema de educação e que tem sua origem em nossa própria constituição de seres humanos. Essa transrelação é como o teto que se apóia sobre os quatro pilares da construção. Se um único dos quatro pilares ceder, todo o edifício desmorona, inclusive o teto. Se não houver o teto os pilares não terão amarração entre si.

    Uma educação viável deve ser obrigatoriamente uma educação integral do homem, de acordo com a precisa formulação do poeta René Daumal. Uma educação dirigida à totalidade aberta do ser humano e não apenas a um único de seus componentes.

    Podemos observar aqui toda a diferença entre o modelo transdisciplinar de educação e os trabalhos de Howard Gardner, nos quais se inspira atualmente o modelo educacional norte-americano. A teoria de inteligências múltiplas não deve ser transformada em slogan demagógico a serviço exclusivamente da eficácia econômica. Em seu último livro, The Disciplined Mind, Gardner não hesita em afirmar que tudo o que está além do conhecimento disciplinar provém da barbárie!

    A educação atual privilegia o conhecimento disciplinar, o que foi sem dúvida necessário, em determinada época, para permitir a explosão do saber. Mas, se for perpetuada, essa preferência nos arrastará na lógica irracional da eficácia pela eficácia, que tenderá unicamente a levar-nos à autodestruição.

    A educação transdisciplinar lança uma luz nova sobre uma necessidade que se faz sentir cada vez mais intensamente em nossos dias: a necessidade de uma educação permanente. Com efeito, a educação transdisciplinar, por sua própria natureza, deve efetuar-se não apenas nas instituições de ensino, da escola maternal à Universidade, mas também ao longo de toda a vida e em todos os lugares em que vivemos.

    Nas instituições de ensino, não há nenhuma necessidade de se criarem novos departamentos nem novas cadeiras, o que seria contrário ao espírito transdisciplinar: a transdisciplinaridade não é uma nova disciplina e os pesquisadores transdisciplinares não são novos especialistas. A solução consiste em gerar, dentro de cada instituição de ensino, uma oficina de pesquisa transdisciplinar, cuja constituição deverá variar ao longo do tempo, reagrupando docentes e discentes da instituição. A mesma solução poderá ser tentada nas empresas e em qualquer outra coletividade, nas instituições nacionais e internacionais. Numerosas outras propostas concretas foram feitas no quadro do projeto CIRET-UNESCO Evolução transdisciplinar da Universida­de, que esteve sob o foco central dos trabalhos do Congresso de Lucarno de 1997. A declaração e as recomendações adotadas pelos participantes desse congresso foram apresentadas ao Congresso Mundial do Ensino Superior, realizado em Paris, na sede da UNESCO, em outubro de 1998.

    Na perspectiva transdisciplinar, existe uma relação direta e incontornável entre paz e transdisciplinaridade. O pensamento fragmentado é incompatível com a busca de paz sobre a Terra. A emergência de uma cultura e de uma educação para a paz exige uma evolução transdisciplinar da educação e, muito particularmente, da Universidade.

    A penetração do pensamento complexo e transdisciplinar nas estruturas, nos programas e na área de irradiação da influência da Universidade permitirá sua evolução rumo a sua missão, hoje um pouco esquecida: o estudo do universal. A Universidade poderá assim vir a ser um local de aprendizagem da atitude transcultural e transreligiosa, e do diálogo entre a arte e a ciência, eixo da reunificação entre a cultura científica e a cultura artística. A Universidade remodelada será o lar de um novo tipo de humanismo.

     

     Bibliografia

     

    [1] Basarab Nicolescu, O Manifesto da Transdisciplinaridade. Tradução de Lúcia Pereira de Souza. Triom, São Paulo, 1999.

    [2] Edgar Morin, La tête bien faite - Repenser la réforme, réformer la pensée, Éditions du Seuil, Paris, 1999.

    [3] Howard Gardner, The disciplined mind, Simon & Schuster, New York, 1999.

    [4] Centre International de Recherches et Études Transdisciplinaires (CIRET)

    http://perso.club-internet.fr/nicol/ciret/

    [5] Centro de Educação Transdisciplinar (CETRANS) - Escola do Futuro (Universidade de São Paulo) http://www.cetrans.futuro.usp.br/

       

    Acesso ao artigo pela Rede Brasileira de Transdisciplinaridade    



    * Físico Teórico do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Presidente do Centre  International de Recherches et Études Transdisciplinaires (CIRET), Paris, França.

     

     

     

     

    COMPLEXIDADE E TRANSDISCIPLINARIDADE

    - histórico de um olhar renovado sobre o passado, o presente e o futuro -

     

     

    A inter e a transdisciplinaridade

    Américo Sommerman*

     

    Apresentação no

    X Seminário Internacional de Educação

    “Interdisciplinaridade como forma de inclusão numa educação mundial”

    08, 09 e 10 de junho de 2005 – Cachoeira do Sul – RS - Brasil

       

    A fragmentação cada vez maior do saber

     

     

    No século XII começou a ocorrer uma grande ruptura na visão cosmológica, antropológica e epistemológica da elite intelectual européia. Ela foi migrando, nos séculos seguintes, de uma perspectiva multidimensional (que chamarei de tradicional) do cosmo e do ser humano, apoiada no mito judaico-cristão e na filosofia platônica, para uma perspectiva e uma teoria do conhecimento cada vez mais racionais e empíricas, o que levou a estrutura circular das disciplinas ¾ que se realimentavam mutuamente para permitir a compreensão do todo ¾ a uma redução e fragmentação cada vez maior do saber.

     

    Como resultado dessas rupturas, passa a haver uma separação crescente entre a tradição, a religião, a filosofia e a ciência nos séculos seguintes e, ao longo dos séculos XV, XVI e XVII, alguns pensadores (Copérnico, Bacon, Galileu, Newton), baseando-se em epistemologias racionalistas ou empiristas, estabelecem os fundamentos da ciência moderna, “ao mesmo tempo quantitativa e experimental” (Galliano, 1979, p. 10).

     

    Além dessa separação entre a tradição,[1] a religião,[2] a filosofia e a ciência, as mudanças nas respostas à pergunta sobre como se chega a um conhecimento verdadeiro, a um conhecimento em que a percepção do sujeito corresponda à realidade do objeto, questão epistemológica central, levou a uma fragmentação e depois separação crescente das disciplinas.

     

     

    A epistemologia tradicional no século XII, a racionalista no século XVII e a empirista no século XIX

     

     

    Se até o século XIII, as faculdades cognitivas consideradas mais altas ¾ mais capazes de permitir o acesso ao conhecimento verdadeiro ¾ eram a contemplação[3], o êxtase (a saída transracional da consciência e a contemplação do primeiro Princípio e dos primeiros princípios) e a revelação (a ciência ou conhecimento vertido na alma pelo Espírito divino), passou a ser a razão discursiva no século XVII. Esta grande mudança na resposta à questão “O que é o conhecimento verdadeiro?”, que chamarei, seguindo Bachelard[4] e outros, de ruptura epistemológica, apoiou-se, como vimos, numa grande ruptura cosmológica e antropológica.

     

    Sofrendo uma influência forte da corrente Nominalista da Escolástica, o racionalismo cartesiano inverteu a ordem tradicional do saber filosófico. Se esta propunha uma progressão da física à metafísica, subindo dos sentidos à razão (logos) e desta à inteligência (nous) ¾ e, nas culturas tradicionais e em alguns filósofos (Platão, Plotino, Proclo etc.), da inteligência se subia ainda ao êxtase unitivo e à revelação ¾, com o que se passava do terreno da física ao da metafísica e ao da mística[5] ¾ e, nas culturas tradicionais e nos filósofos citados, se passava ainda deste terreno ao da teologia, da teosofia[6] ou da mística, o método de Descartes parte do fundamento metafísico, da certeza, do qual deduzirá a física (cf. Lima Vaz, 1991, p. 82).

     

    A segunda grande ruptura epistemológica ocorreu no século XIX, como uma conseqüência inevitável da ruptura anterior. Se, conforme passou a ser afirmado, não era possível experimentar a transcendência em vida, nem experimentá-la como indivíduo após a morte, achou-se melhor descartá-la completamente e concentrar-se apenas no que era sensível. Começou a tornar-se hegemônico então o pensamento reducionista, ou o monismo materialista, que descartou do sujeito o espírito e ficou apenas com o corpo. O ser humano passou a ser visto como um corpo máquina, análogo ao universo máquina postulado pelo cientificismo e pelo mecanicismo então triunfantes. O universo passou a ser visto como fruto do mero acaso da interação das partículas e o ser humano como fruto da simples “evolução natural”.

     

    Se as posições reducionistas contribuíram muito para o grande desenvolvimento tecnológico, cooperaram também para a fragmentação crescente da realidade e das disciplinas e para a redução do sentido da vida humana. Se todos os outros níveis da realidade foram descartados, sob o pretexto de que não podiam ser apreendidos pela razão e pelos sentidos ¾ que passaram a ser consideradas as únicas faculdades cognitivas capazes de permitir o acesso a um conhecimento verdadeiro ¾, toda ou quase toda a atenção da pesquisa humana passou a ser dirigida para um único nível de realidade, o nível sensível, que, evidentemente, foi imensamente enriquecido. Empregando apenas a sua faculdade discursiva, analítica, o homem fragmentou cada vez mais esse nível do real, pensando com isso poder compreender o todo a partir da decomposição das partes. Além disso, criou ferramentas que conseguiam prolongar cada vez mais os cinco sentidos (telescópios, microscópios, aceleradores de partículas etc.).

     

    Veremos que, assim como o pensamento transdisciplinar propõe a “dança de prefixos” nos processos da formação (auto, hetero, co e ecoformação) e da pesquisa (multi, pluri, inter e transdisciplinaridade), possibilita também uma dança entre as diferentes posições epistemológicas. É uma dança que não se dá sem atrito. Ao contrário, faz com que as contradições apareçam a todo momento, mas, ao invés de descartá-las, busca tratá-las com uma metodologia que se apóia em três pilares que respeitam os contraditórios e, ao mesmo tempo, permite o surgimento de um novo olhar que integre as contradições num nível superior da percepção.

     

     

    O porquê da pluri, da inter e da transdisciplinaridade

     

     

    Apesar de o método de recortar cada problema em partes para compreendê-lo melhor e de as epistemologias racionalista e empirista fragmentarem cada vez mais o saber e fomentarem um número cada vez maior de ciências e disciplinas, sempre houve, em algum nível, uma certa aspiração à unidade do saber (cf. Santomé, 1998, p. 46).

     

    Platão e Aristóteles definiram hierarquias entre os saberes, todos eles unificados pela filosofia. Pois, no âmbito do paradigma filosófico, a “filosofia é a ciência dos objetos do ponto de vista da totalidade, enquanto as ciências particulares são os setores parciais do ser, províncias recortadas dentro do continente total do ser” (Morente, 1980, p. 31). Para o primeiro, a busca do conhecimento do todo pode ser dividia em Dialética, Física e Ética, que se retroalimentam, e a educação “deve proporcionar ao corpo e à alma toda a perfeição e beleza de que são suscetíveis” (Leis, Livro VI), converter o olhar da alma do mundo sensível para o mundo inteligível e, por fim, levá-lo à contemplação do Bem supremo. Para o segundo, a divisão da ciência em teóricas (física, matemática, filosofia), prática (lógica, ética, política) e poética (artes) tem como finalidade o bem moral, a virtude, na qual consiste a felicidade. A paidéia dos sofistas se apoiava num ensino circular (enkyklospaideia - enciclopédia) que “devia levar o aluno a percorrer as disciplinas constitutivas da ordem intelectual e centradas em um desenvolvimento humano entendido como um todo” (Zabala, 2002, p. 17). O trivium (gramática, retórica e dialética) e o quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e gramática), forma pela qual a ciência grega adentra a Europa, também dialogavam circular e hierarquicamente e eram os prolegômenos da teologia. Mesmo os pais da ciência moderna, Bacon, Galileu, Newton, Descartes e, depois deles, Kant e o próprio Auguste Comte, embora se apoiando em epistemologias racionalistas e empiristas e em antropologias e cosmologias bi ou unidimensionais, sempre buscaram, cada um à sua maneira, uma unidade do conhecimento.

     

    Com isso, a divisão do saber em áreas, que até o século XIX era ou uma metodologia para proceder os dois processos de análise e síntese, em busca de um saber global, ou uma organização didática para a retransmissão do saber, a partir de então gerou especialidades disciplinares cada vez mais estanques, cada uma delas muito zelosa de manter “sua identidade e independência” (Zabala, 2002, p. 18).

     

    Isso fez com que, na área da pesquisa acadêmica, “‘ilhas’ epistemológicas, dogmática e acriticamente ensinadas, sem portas nem janelas, sejam mantidas pelas instituições, ainda às voltas com o problema da distribuição de suas ‘fatias’ do saber” (Japiassu, 1981, p. 80) e também fez com que, nos três níveis do ensino formal, tenha se tornado hegemônico um ensino puramente disciplinar. Uma divisão e uma organização de conteúdos, que haviam nascido sob um pressuposto estritamente didático, diluíram-se sob a pressão de algumas necessidades ou, melhor dito, interesses, em um corpo cada vez mais fechado de ‘especialidades’ disciplinares (cf. Zabala, 2002, p. 18).

     

    No que diz respeito à pesquisa acadêmica, começaram a reaparecer na metade do século XX  propostas que buscavam compensar a hiperespecialização disciplinar e propunham diferentes níveis de cooperação entre as disciplinas, com a finalidade de ajudar a resolver os problemas causados pelo desenvolvimento tecnológico e pela falta de diálogo entre os saberes decorrentes dessa hiperespecialização. Essas propostas foram chamadas, primeiro, de multidisciplinares e de pluridisciplinares, depois de interdisciplinares e de transdisciplinares, e elas só começaram a ter algum espaço nas universidades com a criação de alguns institutos ou núcleos de pesquisa interdisciplinares, a partir da década de 70, e o estabelecimento de alguns institutos e núcleos transdisciplinares, a partir das décadas de 80 e 90. Surgiram também, nessa mesma época e nos primeiros anos da década seguinte vários núcleos e centros transdisciplinares e voltados para o pensamento complexo tanto nas universidades como fora das universidades, mas com uma interação forte com o ambiente acadêmico.

     

    Cada um desses termos vizinhos encontra muitas definições, e citarei várias delas aqui para facilitar uma percepção clara das semelhanças e divergências entre os autores. No que diz respeito aos conceitos de multidisciplinaridade e de pluridisciplinaridade, há quase um consenso:

     

    “O multidisciplinar evoca basicamente um aspecto quantitativo, numérico, sem que haja um nexo necessário entre as abordagens, assim como entre os diferentes profissionais.” (Coimbra, 2000, p. 57)

     

    “A multidisciplinaridade é a organização de conteúdos mais tradicional. Os conteúdos escolares apresentam-se por matérias independentes umas das outras. As cadeiras ou disciplinas são propostas simultaneamente sem que se manifestem explicitamente as relações que possam existir entre elas.” (Zabala, 2002, p. 33)

     

    “Multidisciplinaridade: Sistema de um só nível e de objetivos múltiplos; nenhuma cooperação.” (Silva, 2002, p. 74)

     

    “A pluridisciplinaridade é a existência de relações complementares entre disciplinas mais ou menos afins. É o caso das contribuições mútuas das diferentes histórias (da ciência, da arte, da literatura, etc.) ou das relações entre diferentes disciplinas das ciências experimentais.” (Zabala, 2002, p. 33)

     

    “A pluridisciplinaridade é a justaposição de disciplinas mais ou menos próximas, dentro de um mesmo setor de conhecimentos. Por exemplo: física e química; biologia e matemática; sociologia e história... É uma forma de cooperação que visa melhorar as relações entre essas disciplinas. Vem a ser uma relação de mera troca de informações, uma simples acumulação de conhecimentos. Um elemento positivo desta intercomunicação é que se produz um (sic.) plano de igual para igual, sem que uma não (sic.) imponha à outra, baseando-se, por exemplo, em que em um determinado momento goza de uma situação privilegiada ou de maior prestígio que a outra. Mas na verdade não se contribui para uma profunda modificação da base teórica, problemática e metodológica dessas ciências em sua individualidade. É uma comunicação que não as modifica internamente. Neste nível ainda não existe uma profunda interação e coordenação (Documento-base do Simpósio sobre educação organizado pela UNESCO em Bucareste, em 1983, citado por Santomé, 1998, pp. 71-72).

     

    “Pluridisciplinaridade: Sistema de um só nível e de objetivos múltiplos; cooperação mas sem coordenação.” (Silva, 2002, p. 74)

     

    No que diz respeito aos termos interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, a polissemia é maior:

     

    “A interdisciplinaridade é a interação de duas ou mais disciplinas. Essas interações podem implicar transferência de leis de uma disciplina a outra, originando, em alguns casos, um novo corpo disciplinar, como, por exemplo, a bioquímica ou a psicolingüística.” (Zabala, 2002, p. 33)

     

    “A interdisciplinaridade é um método de pesquisa e de ensino suscetível de fazer com que duas ou mais disciplinas interajam entre si, esta interação podendo ir da simples comunicação das idéias até a integração mútua dos conceitos, da epistemologia, da terminologia, da metodologia, dos procedimentos, dos dados e da organização da pesquisa.” (Japiassu, 1991, p. 136)

     

    “O interdisciplinar consiste num tema, objeto ou abordagem em que duas ou mais disciplinas intencionalmente estabelecem nexos e vínculos entre si para alcançar um conhecimento mais abrangente, ao mesmo tempo diversificado e unificado. Verifica-se nesses casos, a busca de um entendimento comum (ou simplesmente partilhado) e o envolvimento direto dos interlocutores.” (Coimbra, 2000, p. 58)

     

    “Interdisciplinaridade: Sistema de dois níveis e de objetivos múltiplos; cooperação procedendo de nível superior.” (Silva, 2000, p. 74)

     

    “(...) o termo interdisciplinaridade vem sendo usado como sinônimo e metáfora de toda interconexão e ‘colaboração’ entre diversos campos do conhecimento e do saber dentro de projetos que envolvem tanto as diferentes disciplinas acadêmicas, como práticas não científicas que incluem as instituições e atores sociais diversos.” (Leff, 2000, p. 22)

     

    “A interdisciplinaridade é uma chamada para a complexidade, a restabelecer as interdependências e inter-relações entre processos de diferentes ordens de materialidade e racionalidade, a internalizar as externalidades (condicionamentos, determinações) dos processos excluídos dos núcleos de racionalidade que organizam os objetos de conhecimento das ciências (de certos processos ônticos e objetivos). Nesse sentido, a interdisciplinaridade é uma busca de ‘retotalização’ do conhecimento, de ‘completude’ não alcançada por um projeto de cientificidade que, na busca de unidade do conhecimento, da objetividade e do controle da natureza, terminou fraturando o corpo do saber e submetendo a natureza a seus desígnios dominantes; exterminando a complexidade e subjugando os saberes ‘não científicos’, saberes não ajustáveis às normas paradigmáticas da ciência moderna.” (Ibid.)

     

    “Estudos interdisciplinares autênticos supõem uma pesquisa comum e a vontade, em cada participante, de escapar ao regime de confinamento que lhe é imposto pela divisão do trabalho intelectual. Cada especialista não procuraria somente instruir os outros, mas também receber instrução. Em vez de uma série de monólogos justapostos, como acontece geralmente, ter-se-ia um verdadeiro diálogo, um debate por meio do qual, assim se espera, se consolidaria o sentido da unidade humana. (...) A determinação de uma língua comum é a condição do surgimento de um saber novo.” (Gunsdorf, citado por Machado, 2000, p. 195)

     

    Esses mesmos autores também definem o que entendem por transdisciplinaridade e há uma convergência. (Coimbra, 2000, p. 58) e “(...) é o grau máximo de relações entre disciplinas” (Zabala, 2002, pp. 33-34), sem ser “a constituição de uma super-disciplina (...) que transbordaria o campo das possíveis conexões entre disciplinas” (Leff, 2000, p. 33).

     

    Leff vai além e diz que a “transdisciplinaridade é o questionamento do logocentrismo e da configuração paradigmática do conhecimento, o qual erradicou da ciência normal todo saber não científico como externo e estranho, como patológico, como ‘não conhecimento’; é a transgressão da disciplinaridade, do saber codificado para apreender, ‘coisificar’, objetivar o real” (ibid.). Com isso, aproxima-se da definição deste conceito que temos adotado no CETRANS, seguindo os documentos do congressos transdisciplinares internacionais, que citarei em seguida.

     

    Dois autores propuseram ainda diferentes modalidades de interdisciplinaridade: H. Heckhausen e Marcel Boisot. O primeiro propôs seis modalidades,[7] e o segundo propôs três[8]. No entanto, como bem observou Guy Palmade (1977, pp. 24-35), tanto a interdisciplinaridade heterogênea, como a composta de Heckhausen nada mais são, na verdade, do que pluridisciplinaridade; a pseudo-interdisciplinaridade do mesmo autor nada mais é do que a abordagem transversal das disciplinas; a interdisciplinaridade restritiva de Boisot também se enquadra nas definições de pluridisciplinaridade. As outras se enquadram num dos três diferentes níveis de interdisciplinaridade definidos pelo Congresso de Locarno e que apresentarei a seguir. Portanto, as definições desses autores não se mostram nada heurísticas. Não contribuem para um esclarecimento dessa “valsa de prefixos” (Pineau, 2003); ao contrário, complicam-na, fazem com que uns pisem nos pés dos outros. Transformam uma polissemia complexa, uma polifonia harmônica, onde cada termo dá um tom complementar ao outro, numa ruído onde todos os termos se misturam desarmonicamente.

     

    Uma divisão mais simples e significativa me parece ser a de Jean Louis Le Moigne (2002, p. 29): interdisciplinaridade de tipo pluridisciplinar e interdisciplinaridade de tipo transdisciplinar. A primeira seria o empréstimo de métodos, conceitos e informações de uma disciplina por outra, a segunda seria muito mais uma modelização epistemológica nova para a compreensão de fenômenos. Esta divisão me parece mais rica, pois indica a não existência de fronteiras estanques entre as definições dos conceitos de pluri, inter e transdisciplinaridade, pois os diferentes graus de cada uma delas as aproxima ou as afasta das outras. Isso é bem ilustrado por Palmade quando ele diz que “o multidisciplinar se orienta para o interdisciplinar quando relações de interdependência emergem entre as disciplinas. Nesse caso, passa-se de uma simples ‘troca de idéias’ para uma cooperação e para uma certa compenetração das disciplinas” (1997, p. 26). (Simplesmente, o que Palmade chama de multidisciplinar é, na verdade, o que os diferentes autores chamam de pluridisciplinaridade.) Na descrição de Le Moigne, a interdisciplinaridade de tipo trans se aproximaria de uma transdisciplinaridade forte quando a modelização epistemológica se apoiar nos três pilares metodológicos da pesquisa transdisciplinar, conforme definidos em congressos internacionais (que abordarei em seguida), e quando se abrir para os saberes que Leff chamou de não-científicos: a arte, a filosofia, as tradições de sabedoria.

     

    Jurjo Torres Santomé (1998, p. 70) apresenta a hierarquização dos níveis de colaboração e integração entre as disciplinas proposta por Piaget:

     

    “1. Multidisciplinaridade. O nível inferior de integração. Ocorre quando, para solucionar um problema, busca-se informação e ajuda em várias disciplinas, sem que tal interação contribua para modificá-las ou enriquecê-las. Esta costuma ser a primeira fase da constituição de equipes de trabalho interdisciplinar, porém não implica em que necessariamente seja preciso passar a níveis de maior cooperação.

     

    “2. Interdisciplinaridade. Segundo nível de associação entre disciplinas, em que a cooperação entre várias disciplinas provoca intercâmbios reais; isto é, existe verdadeira reciprocidade nos intercâmbios e, conseqüentemente, enriquecimentos mútuos.

     

    “3. Transdisciplinaridade. É a etapa superior de integração. Trata-se da construção de um sistema total, sem fronteiras sólidas entre as disciplinas, ou seja, de ‘uma teoria geral de sistemas ou de estruturas, que inclua estruturas operacionais, estruturas de regulamentação e sistemas probabilísticos, e que una estas diversas possibilidades por meio de transformações reguladas e definidas’.”.

     

    Conforme Santomé, a hierarquização proposta por Erich Jantsch no Seminário da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) de 1979 “talvez seja a mais conhecida e divulgada” (1998, p. 70): multidisciplinaridade, pluridisciplinaridade, disciplinaridade cruzada, interdisciplinaridade, transdisciplinaridade. O mesmo autor diz ainda que na “maioria dos colóquios e simpósios sobre a temática, reaparece com muita freqüência esta mesma hierarquização, especialmente naqueles promovidos por organismos internacionais” (ibid., p. 71), entre os quais cita a UNESCO.

     

     

    O conceito de interdisciplinaridade

     

    Vemos que o conceito de interdisciplinaridade é mais complexo em suas definições do que os dois primeiros, multi e pluridisciplinaridade: “Algo que pode ser facilmente observado nos trabalhos e discursos sobre a interdisciplinaridade é a pouca clareza deste conceito” (Santomé, 1998, p. 45).

     

    O Webster’s Ninth New Collegiate Dictionary e o Supplement to the Oxford English Dictionary indicam que o termo interdisciplinaridade é encontrado pela primeira vez na edição de dezembro de 1937 do Journal of Educational Sociology e, logo em seguida, “num boletim da associação pos-doutoral da Social Science Research Concil” (Klein, 1996, p. 9). Klein observa que, embora seja comum dizer-se que a interdisciplinaridade tem origens muito antigas, remontando a Platão e chegando a William James (1842-1910), como a disciplinaridade “na sua forma presente é o resultado de um desenvolvimento relativamente recente, datando de pouco mais de um século” (ibid., p. 6), não seria apropriado chamar de interdisciplinares as interações anteriores entre os saberes, mas de pré-disciplinares.

     

     

    Se, durante o século XX, a tendência para a hiperespecialização crescente gerou seu pólo antagônico e complementar de busca da unificação do saber, esses dois pólos cooperaram para o desenvolvimento da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade. (Abordarei aqui apenas a primeira, pois tratarei da transdisciplinaridade logo em seguida). A hiperespecialização fez com que o aprofundamento de cada disciplina as conduzisse às fronteiras de outras disciplinas, suscitando uma interdisciplinaridade que ou criou novas disciplinas ou transferiu métodos de uma disciplina para outra, ou abriu corredores para o diálogo entre elas e para a resolução de problemas. Esse diálogo possibilitou a troca de conteúdos disciplinares que, como observou Ivani Fazenda (2003), é tanto mais facilitada quanto mais o ambiente (núcleo, centro, instituto, projeto) favorecer as trocas intersubjetivas dos diferentes especialistas disciplinares envolvidos. Além disso, o aprofundamento de cada disciplina e a aproximação pela hiperespecialização também cooperou para a percepção dos limites de cada disciplina, dos espaço de fronteira entre as disciplinas e da percepção de que qualquer fenômeno humano, social ou natural é composto por diferentes dimensões ou por diferentes níveis.

     

    A complexidade do mundo e da cultura atual reforçaram, por outro lado, a busca da unificação (ou reunificação) do saber e, apoiadas nas novas teorias pedagógicas (Claparède, Dewey, Decroly, Montessori, Freire, Piaget, Vigotsky), psicológicas (Gestalt, psicologia piagetiana, psicologia vigotskyana,), científicas (teoria geral de sistemas, teoria da complexidade), cooperaram tanto para o desenvolvimento das pedagogias ativas e globalizadoras, quanto para as abordagens inter e transdisciplinares como abertura do diálogo entre os saberes das diferentes disciplinas e entre os sujeitos das diferentes disciplinas.

     

    O primeiro levantamento das atividade interdisciplinares foi realizado no início da década de 60 pelo Centro de Pesquisa e Inovação Educacional da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e “ele encontrou cinco origens principais: o desenvolvimento da ciência, a necessidade dos estudantes, demandas para capacitação profissional, necessidades básicas da sociedade e problemas no funcionamento e administração da universidade” (Klein, 1996, p. 20). Em 1982, essa mesma instituição declarou que as atividades interdisciplinares exógenas à universidade deveriam ter prioridade em relação às atividades endógenas (baseadas na produção de um novo conhecimento com o objetivo de realizar a unidade da ciência), pois os problemas “reais” da sociedade demandavam cada vez mais que a universidade desempenhasse sua missão social. Segundo Klein, esse foi um dos fatores que fizeram com que a interdisciplinaridade tivesse se voltado prioritariamente para a resolução de problemas, em detrimento da reflexão teórica (cf. ibid., p. 12).

     

    Alguns autores citam iniciativas de pesquisas interdisciplinares já antes da primeira metade do século passado.

     

    Santomé faz referência, na década de 20, aos filósofos cientificistas, fisicalistas e neopositivistas do Círculo de Viena (Otto Neurath, Rudolf Carnap, Charles Morris), com seu projeto de uma Enciclopédia de Ciência Unificada, mas eles queriam basear essa “unidade da ciência” num reducionismo fisicalista, reduzindo tudo à física e à realidade física (1998, p. 49). Pouco depois, nas universidades americanas, teria havido um aporte orçamentário de diversos departamentos para o fomento de pesquisas interdisciplinares, mas que quase nada gerou de efetivamente interdisciplinar (ibid., 52) O mesmo autor faz referência a alguns momentos históricos que mostraram a força ou a necessidade da participação de especialistas de várias disciplinas para a resolução de problemas práticos complexos, entre os quais, a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, que estimularam a criação de equipes multi ou pluridisciplinares para tratar as situações militares (ganhar batalhas, produzir artefatos, etc.). Segundo ele, essas iniciativas teriam “criado escola”, pois, após a guerra, grupos de cientistas de formações heterogêneas começaram se instituir para dar subsídios às decisões políticas (cf. ibid., p. 53). Cita também a NASA, a Agência Aeroespacial Russa e a OTAM como exemplos de grandes organizações que abrigam especialistas de inúmeras disciplinas.

     

    Parece-me, no entanto, que todos esses exemplos, excetuando o primeiro (do Círculo de Viena), correspondem a experiências pluridisciplinares. No caso das propostas do Círculo de Viena, parece-me que elas se encaixam no que Le Moigne chamou de interdisciplinaridade de tipo transdisciplinar: “uma modelização epistemológica nova para a compreensão de fenômenos”. No entanto, por se apoiar numa posição epistemológica fisicalista, reducionista, corresponderia a um grau baixo de transdisciplinaridade, devido à sua baixa “satisfação dos três pilares metodológicos da pesquisa transdisciplinar” (Nicolescu, 2001, p. 53). Voltarei adiante a essa questão dos diferentes graus de transdisciplinaridade.

     

    Duas teorias teriam cooperado muito para fomentar a pesquisa interdisciplinar: o estruturalismo e a Teoria Geral dos Sistemas (cf. Santomé, 1998, p. 50). O estruturalismo,[9] embora criado pelo lingüista Saussure (1857-1930) visando descobrir as estrutura abstratas por trás das línguas, expandiu-se para muitas outras áreas, especialmente com os trabalhos do antropólogo Claude Lévi Strauss (1908- ) na década de 50, nos quais este procurou mostrar que por trás das culturas mais diversas há estruturas profundas comuns, que aparecem como que em camadas: Structures élémentaires de la parenté (1949), Anthropologie structurale (1958).

     

    A Teoria Geral dos Sistemas foi formulada pelo filósofo e biólogo Ludwig von Bertalanffy (1901-1972) na década de 60 e apresentada em seu livro General System Theory (1968). Tendo estudado os fenômenos biológicos e suas diferenças em relação aos fenômenos físicos, buscou identificar as uniformidades estruturais entre os diferentes níveis, a fim de tornar possível aplicar os mesmos modelos conceituais a fenômenos diferentes, constituindo assim uma teoria interdisciplinar. “Sua teoria geral dos sistemas seria uma disciplina formal, aplicável às várias ciências empíricas, transcendendo fronteiras disciplinares” (Vasconcelos, 2003, p. 27) e seus conceitos e modelos seriam “aplicáveis tanto a fenômenos materiais, como a fenômenos não-materiais” (ibid., p. 196). O próprio Bertalanffy chamou a atenção para a existência, naquela época, de duas vertentes básicas nas ciências dos sistemas, uma, mecanicista; outra, organicista. A primeira correspondia à sua Teoria Geral dos Sistemas e a segunda, à Teoria Cibernética.

     

    A meu ver, embora não tenham sido apontadas por Santomé, a Teoria Cibernética de Segunda Ordem e a Teoria da Complexidade cooperaram tanto quanto as duas por ele citadas para o fomento de pesquisas verdadeiramente interdisciplinares.

     

    A Teoria Cibernética foi criada pelo matemático Norbert Wiener na década de 50, com a finalidade de construir “sistemas que reproduzissem os mecanismos de funcionamento dos sistemas vivos, ou seja, com a proposta de construção dos chamados autômatos simuladores de vida ou máquinas cibernéticas” (ibid., p. 186). Embora tenha ultrapassado as fronteiras disciplinares, pois para projetar os sistemas artificiais era necessário compreender os sistemas naturais ¾ biológicos, humanos e sociais ¾ , essa teoria, devido à sua perspectiva mecanicista e reducionista, fomentou uma interdisciplinaridade fraca, mais próxima da pluridisciplinaridade, e não uma interdisciplinaridade forte, como a Teoria Geral dos Sistemas, epistemologicamente mais ampla. Esta abrange sistemas que contêm características que não podem ser reduzidas ao conceito de máquina proposto pelo modelo cibernético daquela.

     

    A Teoria Cibernética de Segunda Ordem foi elaborada pelo físico Heinz von Foerster (1911- ), cujo interesse pela filosofia, pela lógica, pela matemática e pela linguagem o levou a desenvolver pesquisas sobre a “cognição”. Ao tomar conhecimento da Teoria Cibernética, na década de 50, apropriou-se da sua linguagem e passou a contribuir para o seu desenvolvimento, mas ao encontrar-se com o biólogo chileno Humberto Maturana, no fim da década de 60, com seu conceito de auto-organização (autopoiésis) do sistema nervoso e de todos os sistemas vivos, passa a estabelecer uma distinção entre sistemas triviais (máquinas) e sistemas não-triviais (todos os sistemas naturais). Os primeiros são previsíveis, enquanto os segundos são imprevisíveis, pois “são sensíveis a modificações de seus próprios estados internos, os quais vão se tornando diferentes à medida que eles funcionam” (ibid., p 243), estabelecendo uma relação forte entre o seu comportamento e o seu passado. Isso fez com que concluísse que a observação do cientista dependia das características da sua estrutura e, portanto, que era necessário incluir no sistema o observador do mesmo. Esse giro sobre o próprio observador gerou a Cibernética da Cibernética, em 1974, também chamada de Cibernética de Segunda Ordem. Entre 1958 e 1976, Foerster dirigiu o Laboratório de Computação Biológica, na Universidade de Illinois, referência mundial das pesquisas cibernéticas, onde desenvolveu o primeiro “megacomputador” e onde eram realizadas “pesquisas interdisciplinares sobre sistemas auto-organizadores” (ibid., p. 242) e experiências inovadoras no campo do ensino e da aprendizagem.

     

    Quanto à Teoria da Complexidade, que citei como tendo contribuído para o desenvolvimento da interdisciplinaridade, será apresentada logo adiante, quando tratarei da transdisciplinaridade, pois, se esta teoria deu subsídios importantes para a pesquisa e a prática interdisciplinares, a complexidade, que começou a ser constatada por todos os lados na ciências chamadas duras, foi fundamental para a emergência da metodologia transdisciplinar, de tal modo que foi definida em alguns congressos internacionais como um dos pilares metodológicos da pesquisa transdisciplinar.

     

    O impulso dado por essas teorias suscitou, segundo Santomé, alguns momentos marcantes no histórico da reflexão sobre a interdisciplinaridade, entre os quais destaca o I Seminário Internacional sobre a Pluridisciplinaridade e a Interdisciplinaridade, realizado na Universidade de Nice (França), de 7 a 12 de setembro de 1970, organizado pelo Centro para a Pesquisa e a Inovação do Ensino (CERI), e patrocinado pelo Ministério da Educação Francês e pela OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico).

     

    O objetivo do seminário era aprofundar esses conceitos, analisar sua utilidade no ensino e na pesquisa e sua adequação no desenvolvimento do conhecimento e da sociedade naquele momento (cf. Santomé 1998, p. 52). Participaram representantes de 21 países e grande parte dos participantes tinha perspectivas sistêmicas e estruturalistas.

     

    No que diz respeito à definição dos conceitos, não havia e nem houve consenso na conceitualização da interdisciplinaridade (cf. ibid.). Inclusive, em fevereiro de 1970, numa reunião preparatória para o seminário de setembro, que contou com a presença de especialistas de grande renome, alguns destes propuseram que o seminário fosse chamado “seminário sobre a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade”.

     

    O maior grau de consenso entre os participantes do Seminário de Nice foi que “a crescente complexidade dos problemas enfrentados pelas sociedades modernas” e a grande velocidade das mudanças “exigem políticas científicas que fomentem o trabalho e a pesquisa interdisciplinar” (ibid.).

     

    Isso fez com que, a partir de então, apesar da falta de consenso quanto à definição do conceito de interdisciplinaridade, a UNESCO e a OCDE passassem a apoiar e a promover debates, seminários e colóquios de caráter internacional para promover a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade.

     

    Esses eventos internacionais, a maioria promovida pela UNESCO, foram dando uma definição cada vez mais clara ao conceito de transdisciplinaridade.

     

    Marcantes nesse sentido foram o colóquio A Ciência Diante das Fronteiras do Conhecimento (1986), o congresso Ciência e Tradição: Perspectivas Transdisciplinares para o século XXI (1991), o I Congresso Mundial da Transdisciplinaridade (1994) e o Congresso Internacional de Transdisciplinaridade “Que Universidade para o amanhã? Em busca de uma evolução transdisciplinar da Universidade” (1997), todos eles organizados pela UNESCO ou apoiados por essa instituição.

     

    Como o documento final do Congresso Internacional de Transdisciplinaridade, realizado em Locarno (Suíça), propôs uma definição para esses diferentes níveis de relações disciplinares (pluri, inter e transdisciplinaridade), e o fez de uma maneira que, de algum modo, sintetiza as diferentes acepções dadas pelos diversos autores para cada um deles ¾ com a exceção do conceito de interdisciplinaridade que, como vimos, ainda é demasiadamente plural ¾, eu as apresentarei aqui para concluir este item e preparar o próximo.

     

    “O crescimento sem precedentes dos saberes em nossa época torna legítima a questão da adaptação das mentalidades a esses saberes. O desafio é de grande porte, pois a contínua expansão da civilização de tipo ocidental para todo o planeta tornaria sua queda equivalente a uma catástrofe planetária de proporções muito maiores do que as das duas primeiras guerras mundiais. (...) A necessidade indispensável de vínculos entre as diferentes disciplinas se traduz pelo surgimento, na metade do século XX, da pluridisciplinaridade e da interdisciplinaridade.

    A pluridisciplinaridade diz respeito ao estudo de um objeto de uma única disciplina por diversas disciplinas ao mesmo tempo. Por exemplo, um quadro de Giotto pode ser estudado pelo enfoque da história da arte cruzado com o da física, da química, da história das religiões, da história da Europa e da geometria. Ou a filosofia marxista pode ser estudada pelo enfoque da filosofia entrecruzada com a física, a economia, a psicanálise ou a literatura. O objeto em questão sairá, assim, enriquecido pelo cruzamento de várias disciplinas. O conhecimento do objeto em sua própria disciplina é aprofundado por um fecundo aporte pluridisciplinar. A pesquisa pluridisciplinar enriquece a disciplina em questão (a história da arte ou a filosofia, em nossos exemplos), porém esse enriquecimento está a serviço apenas dessa disciplina. Em outras palavras, a abordagem pluridisciplinar ultrapassa as disciplinas, mas sua finalidade permanece inscrita no quadro da pesquisa disciplinar.

    A interdisciplinaridade tem uma ambição diferente daquela da pluridisciplinaridade. Ela diz respeito à transferência dos métodos de uma disciplina à outra. É possível distinguir três graus de interdisciplinaridade:

           a) um grau de aplicação. Por exemplo, os métodos da física nuclear transferidos à medicina conduzem à aparição de novos tratamentos de câncer;

           b) um grau epistemológico. Por exemplo, a transferência dos métodos da lógica formal ao campo do direito gera análises interessantes na epistemologia do direito;

           c) um grau de geração de novas disciplinas. Por exemplo, a transferência dos métodos da matemática ao campo da física gerou a física-matemática; da física de partículas à astrofísica, a cosmologia-quântica; da matématica aos fenômenos meteorológicos ou aos da bolsa, a teoria do caos; da informática à arte, a arte-informática. Como a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade ultrapassa as disciplinas, mas sua finalidade também permanece inscrita na pesquisa disciplinar. Seu terceiro grau inclusive contribui para o big-bang disciplinar.

    “A transdisciplinaridade, como o prefixo ‘trans’ o indica, diz respeito ao que está ao mesmo tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de toda disciplina. Sua finalidade é a compreensão do mundo atual, e um dos imperativos para isso é a unidade do conhecimento.”

     

    No próprio Congresso de Locarno (1997), a definição do conceito de transdisciplinaridade foi ainda mais longe, pois foram estabelecidos os três pilares metodológicos da transdisciplinaridade e os sete eixos básicos da evolução transdisciplinar da Universidade. No I Congresso Mundial de Transdisciplinaridade, realizado em outubro de 1994, em Arrábida (Portugal), foi elaborado um documento da transdisciplinaridade, intitulado Carta da Transdisciplinaridade, que contém 14 artigos e que foi assinado por todos os participantes.

     

     

    O surgimento do termo transdisciplinaridade

     

    O Dicionário Oxford e muitos pesquisadores indicam que o termo apareceu pela primeira vez no Seminário de Nice indicado no item anterior, o I Seminário Internacional sobre a Pluridisciplinaridade e a Interdisciplinaridade, realizado na Universidade de Nice (França), de 7 a 12 de setembro de 1970, organizado pelo Centro para a Pesquisa e a Inovação do Ensino (CERI), e patrocinado pelo Ministério da Educação Francês e pela OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) (cf. Klein 2002).

     

    Basarab Nicolescu relata que, embora vários participantes tenham empregado a palavra “transdisciplinaridade” em suas comunicações, “Guy Michaud, um dos organizadores do encontro, e também André Lichnerowicz confirmaram verbalmente a mim que foi Piaget quem inventou a palavra e pediu aos outros para pensarem sobre o significado dela” (Nicolescu, 2003, p. 1).

     

    Além disso, a primeira definição conhecida de transdisciplinaridade foi dada por Piaget em sua comunicação nessa Conferência: “...à etapa das relações interdisciplinares, podemos esperar ver sucedê-la uma etapa superior que seria ‘transdisciplinar’, que não se contentaria em encontrar interações ou reciprocidades entre pesquisas especializadas, mas situaria essas ligações no interior de um sistema total, sem fronteira estável entre essas disciplinas”[10]. E essa definição serviu de base para a que foi adotada pela Conferência.

     

    Conforme Klein:

     

    “Alguns participantes quiseram que ‘transdisciplinaridade’ estivesse no título da Conferência. Os organizadores foram da opinião de que ‘pluridisciplinaridade’, conotando justaposição de disciplinas, e ‘interdisciplinaridade’, conotando integração de conceitos e métodos, acomodavam a diversidade de sistemas educacionais existentes no mundo. No entanto, a Conferência adotou uma definição básica de transdisciplinaridade: ‘estabelecendo um sistema comum de axiomas para um conjunto de teorias’. (...) Três participantes [dessa conferência] desenvolveram o conceito primeiro, revelando dois maiores focos de interesse. Jean Piaget e Andre Lichnerowicz colocaram o foco nas dinâmicas internas da ciência, enquanto Erich Jantsch enfatizou objetivos externos”. (2003)

     

    Nicolescu relata que também foi Piaget quem sugeriu que a palavra “transdisciplinaridade” aparecesse no título do evento, mas que isso não foi aceito pelos organizadores (cf. 2003, p. 1).

     

    Conforme Klein, os dois primeiros, Piaget e Lichnerowicz, consideraram que a transdisciplinaridade poderia fornecer um quadro conceitual que atravessaria as disciplinas. Como psicólogo, Piaget estava interessado nas interações e acreditava que o amadurecimento da compreensão das estruturas gerais e dos padrões do pensamento conduziria a uma teoria geral das estruturas e dos sistemas. Previu que, quando a física do inanimado pudesse entender o sistema do animado, como no caso, por exemplo, do sistema nervoso em atividade, se aproximaria da biologia e da psicologia e “poderia se tornar uma verdadeira ciência ‘geral’” (2003). Com isso, uma “transdisciplinaridade plena” seria alcançada.

     

    Se Piaget e Lichnerowicz colocaram o foco de suas reflexões transdisciplinares nas interações entre as ciências, Erich Jantsch o colocou nas interações com o humano e o social. Jantsch, do mesmo modo que Piaget, considerou a inter e a transdisciplinaridade “como princípios organizacionais”, porém, seu modelo incluía não só o sistema da ciência (de todas as disciplinas e interdisciplinas), mas também o “da educação e o da inovação”, e alcançava não só o “nível empírico, pragmático e normativo”, como também os níveis propositivos. “O último grau de coordenação requereria uma intensificação mútua das epistemologias (...). Jantsch concordava que a coordenação transdisciplinar de um sistema multidimensional e multifinalístico era um ideal que estava além do alcance completo da ciência.” (Ibid.) No entanto, “frisava que o conceito de transdisciplinaridade poderia guiar a ciência em seus desenvolvimentos”. Segundo Klein, dentre os três, o modelo mais amplo de Jantsch tornou-se o mais influente.

     

     

    A definição do conceito de transdisciplinaridade e os congressos internacionais

     

    Foram esses diferentes históricos que geraram os eventos internacionais que citei há pouco e que foram clarificando a definição do conceito de transdisciplinaridade. Parece-me importante citar as contribuições que cada um desses eventos deu para a promoção da transdisciplinaridade e para seu esclarecimento conceitual.

     

    O colóquio A Ciência Diante das Fronteiras do Conhecimento, organizado pela UNESCO em Veneza, com apoio da Fundação Giorgio Cini, de 3 a 7 de março de 1986, deu origem a um documento final intitulado Declaração de Veneza, assinado por 19 personalidades no campo da ciência e da arte de diversos países, inclusive dois ganhadores do Prêmio Nobel. Eis a passagem desse documento que promove explicitamente a transdisciplinaridade: “Em nossa opinião, a amplidão dos desafios contemporâneos exige, por um lado, a informação rigorosa e permanente da opinião pública e, por outro, a criação de organismos de orientação e até de decisão de natureza pluri e transdisciplinar [trecho final do item 5]. 6. Expressamos a esperança de que a UNESCO dê prosseguimento a esta iniciativa, estimulando uma reflexão dirigida para a universalidade e a transdisciplinaridade.” Portanto, este pode ser considerado o primeiro documento da transdisciplinaridade em congressos internacionais.

     

    O congresso Ciência e Tradição: Perspectivas Transdisciplinares para o século XXI, organizado pela UNESCO, em Paris, de 2 a 6 de dezembro de 1991, gerou um documento intitulado Ciência e Tradição, com o qual todos os participantes estiveram de acordo. Como várias passagens desse documento dão subsídios para as reflexões dos outros eventos transdisciplinares internacionais, para a elaboração dos outros documentos transdisciplinares e para a definição desse conceito e da sua metodologia, apresentarei essas passagens aqui por extenso:

     

    “3. Uma das revoluções conceituais deste século veio, paradoxalmente, da ciência, mais particularmente da física quântica, que fez com que a antiga visão da realidade, com seus conceitos clássicos de determinismo, que ainda predominam no pensamento político e econômico, fosse explodida. Ela deu à luz a uma nova lógica, correspondente, em muitos aspectos, a antigas lógicas esquecidas. Um diálogo capital, cada vez mais rigoroso e profundo, entre a ciência e a tradição pode então ser estabelecido a fim de construir uma nova abordagem científica e cultural: a transdisciplinaridade. 4. A transdisciplinaridade não procura construir sincretismo algum entre a ciência e a tradição: a metodologia da ciência moderna é radicalmente diferente das práticas da tradição. A transdisciplinaridade procura pontos de vista a partir dos quais seja possível torná-las interativas, procura espaços de pensamento que as façam sair de sua unidade, respeitando as diferenças, apoiando-se especialmente numa nova concepção da natureza. 5. Uma especialização sempre crescente levou a uma separação entre a ciência e a cultura, separação que é a própria característica do que podemos chamar de “modernidade” e que só fez concretizar a separação sujeito-objeto que se encontra na origem da ciência moderna. Reconhecendo o valor da especialização, a transdisciplinaridade procura ultrapassá-la recompondo a unidade da cultura e encontrando o sentido inerente à vida. 6. Por definição, não pode haver especialistas transdisciplinares, mas apenas pesquisadores animados por uma atitude transdisciplinar. Os pesquisadores transdisciplinares imbuídos desse espírito só podem se apoiar nas diversas atividades da arte, da poesia, da filosofia, do pensamento simbólico, da ciência e da tradição, elas próprias inseridas em sua própria multiplicidade e diversidade. Eles podem desaguar em novas liberdades do espírito graças a estudos trans-históricos ou transreligiosos, graças a novos conceitos como transnacionalidade ou novas práticas transpolíticas, inaugurando uma educação e uma ecologia transdisciplinares. 7. O desafio da transdisciplinaridade é gerar uma civilização, em escala planetária, que, por força do diálogo intercultural, se abra para a singularidade de cada um e para a inteireza do ser.”

     

    Esse documento, que pode ser considerado o segundo documento da transdisciplinaridade em congressos internacionais, começa a dar as definições amplas do conceito. Como vemos, ele vai além de várias das definições dadas ao conceito de interdisciplinaridade, pois, a partir dos novos dados das ciências, abre claramente o campo do diálogo da ciência com diferentes lógicas, epistemologias, culturas, tradições.

     

    O I Congresso Mundial da Transdisciplinaridade, organizado pelo CIRET (Centro Internacional de Pesquisas e Estudos Transdisciplinares, sediado em Paris) com a parceria da UNESCO, em Arrábida (Portugal), de 2 a 6 de novembro de 1994, produz um documento chamado Carta da Transdisciplinaridade, que foi assinado por 62 participantes, de 14 países. Citarei algumas passagens dos 14 artigos desse documento que avançam ainda mais a definição do conceito e da metodologia transdisciplinares.

     

    No que diz respeito à questão da definição da metodologia, o artigo 2 é fundamental: “O reconhecimento da existência de diferentes níveis de realidade, regidos por lógicas e leis diferentes, é inerente à atitude transdisciplinar”. Vemos aqui emergirem dois dos três pilares metodológicos da pesquisa transdisciplinar (os diferentes níveis de realidade e as diferentes lógicas), que serão explicitados noutro documento (Locarno, 1997) e que aprofundarei adiante.

     

    Quanto à definição do conceito, os artigos 3, 5, 6 e 7 da Carta devem ser destacados:  

    “Artigo 3: (...) A transdisciplinaridade não procura o domínio sobre as várias outras disciplinas, mas a abertura de todas elas àquilo que as atravessa e as ultrapassa. (...) Artigo 5: A visão transdisciplinar é resolutamente aberta na medida em que ela ultrapassa o campo das ciências exatas devido ao seu diálogo e sua reconciliação não somente com as ciências humanas, mas também com a arte, a literatura, a poesia e a experiência espiritual. Artigo 6: Com relação à interdisciplinaridade e à multidisciplinaridade, a transdisciplinaridade é multirreferencial e multidimensional. Embora levando em conta os conceitos de tempo e de história, a transdisciplinaridade não exclui a existência de um horizonte transhistórico. Artigo 7: A transdisciplinaridade não constitui nem uma nova religião, nem uma nova filosofia, nem uma nova metafísica, nem uma ciência das ciências.”

     

    A atitude do pesquisador e do ator transdisciplinar também é definida amplamente em vários dos artigos da Carta:

    “Artigo 9: A transdisciplinaridade conduz a uma atitude aberta em relação aos mitos, às religiões e àqueles que os respeitam num espírito transdisciplinar. Artigo 10: Não existe um lugar cultural privilegiado de onde se possam julgar as outras culturas. A abordagem transdisciplinar é ela própria transcultural. Artigo 11: Rigor, abertura e tolerância são características fundamentais da atitude e da visão transdisciplinar. O rigor na argumentação, que leva em conta todos os dados, é a melhor barreira contra possíveis desvios. A abertura comporta a aceitação do desconhecido, do inesperado e do imprevisível. A tolerância é o reconhecimento do direito às idéias e verdades contrárias às nossas.”

     

    O Congresso Internacional da Transdisciplinaridade, organizado pelo CIRET, com a parceria da UNESCO, em Locarno (Suíça), de 30 de abril a 02 maio de 1997, gerou o documento A Síntese do Congresso de Locarno, que definiu três pilares metodológicos da pesquisa transdisciplinar e sete eixos básicos da evolução transdisciplinar na Educação. Os três pilares definidos nesse documento foram: 1) a Complexidade, 2) a Lógica do Terceiro Incluído e 3) os Diferentes Níveis de Realidade. Os sete eixos básicos da evolução transdisciplinar na Educação foram: 1) a educação intercultural e transcultural, 2) o diálogo entre arte e ciência, 3) a educação inter-religiosa e transreligiosa, 4) a integração da revolução informática na educação, 5) a educação transpolítica, 6) a educação transdisciplinar, 7) a relação transdisciplinar: os educadores, os educandos e as instituições e a sua metodologia subjacente.

     

     

    Os três pilares metodológicos da pesquisa transdisciplinar

     

    É importante definir de maneira sucinta esses três pilares, pois com eles emergem a epistemologia e a metodologia da pesquisa transdisciplinares.

     

    Pelo que temos vivido desde o início do CETRANS até hoje (de abril de 1998 a maio de 2005), podemos afirmar que eles são, de fato, instrumentos poderosos para o diálogo entre as disciplinas, entre os olhares disciplinares, entre as diferentes culturas, entre as diversas epistemologias, entre as mais variadas visões de mundo, entre a realidade interior do ser humano e a realidade exterior.

     

    Nossa experiência nos permite dizer que os três pilares da metodologia transdisciplinar ¾ mediados por duas ou mais pessoas portadoras de uma atitude transdisciplinar (rigor, abertura e tolerância) ¾ permitem que, em processos de formação de formadores nos quais a co-formação[11] é o pólo mais forte ¾ como foi o caso do processo formativo vivido pelos 40 membros fundadores do CETRANS ¾ , eles se tornem uma metalinguagem (uma linguagem comum além das linguagens individuais) operativa para fomentar o diálogo entre os diferentes olhares, culturas, crenças e visões de mundo. Em nossa experiência, no caso de grupos predominantemente co-formativos como este, dois anos são necessários para que os três pilares permitam a consolidação dessa metalinguagem capaz de atravessar as barreiras da linguagem de cada disciplina, de cada cultura, de cada olhar, de cada visão de mundo. As contradições continuam emergindo após esses dois anos iniciais, mas começam a ser tratadas com muito mais facilidade, pois grande parte dos sujeitos dessa formação já se conscientizaram do suporte dessa metodologia.

     

    E um dos dados que se destacam na emergência desses três pilares, que favorecem níveis de diálogo tão amplos, é eles terem provindo das ciências mais duras: “Somos testemunhas de uma revolução muito importante no campo da ciência, provocada pela ciência fundamental (em particular a física e a biologia), devido a transformação que ela traz à lógica, à epistemologia” (Declaração de Veneza, item 1), “(...) que fez com que a antiga visão da realidade, com seus conceitos clássicos de determinismo, (...) fosse explodida” (Congresso Ciência e Tradição, Comunicado Final, Artigo 4).

     

    Segundo esses documentos, foi essa transformação na ciência que permitiu a abertura desta a diálogos com áreas do conhecimento consideradas não-científicas, para as quais ela tinha se fechado: “Ela deu à luz a uma nova lógica, correspondente, em muitos aspectos, a antigas lógicas esquecidas. Um diálogo capital, cada vez mais rigoroso e profundo, entre a ciência e a tradição pode então ser estabelecido a fim de construir uma nova abordagem científica e cultural: a transdisciplinaridade” (ibid.). Eis, portanto, a novidade da transdisciplinaridade em relação à interdisciplinaridade, além da proposição explícita de uma metodologia de pesquisa baseada nos três pilares que descreverei em seguida. Se em seu grau mais alto a interdisciplinaridade se abre para o aprofundamento da intersubjetividade[12] na produção das pesquisas e das práticas das equipes de pesquisadores provenientes de campos disciplinares diversos, a transdisciplinaridade, como definida nos documentos desses congressos internacionais, não só se abre para o diálogo entre as diferentes disciplinas e para a intersubjetividade, mas também para o diálogo com o que está além das disciplinas, os conhecimentos não disciplinares dos atores sociais (o que a interdisciplinaridade já faz), das outras culturas, das artes, das tradições, respeitando plenamente esses outros saberes.

     

    Os participantes dos congressos seguintes (1994 e 1997) perceberam que para permitir a pesquisa entre saberes tão amplos (inter e transdisciplinares) e permitir o diálogo entre atores provenientes de campos disciplinares e não disciplinares era necessária uma metodologia, e que essa metodologia podia ser extraída justamente da revolução lógica e epistemológica da ciência, proveniente dos dados encontrados pelas ciências naturais no início do século XX.

     

    Mas quais foram os dados que causaram essa revolução, essa ruptura na lógica e na epistemologia da ciência? O que fez com que “(...) a antiga visão da realidade, com seus conceitos clássicos de determinismo, (...) fosse explodida”?

     

    Vimos que a ciência moderna (século XVII ao século XIX) nasceu de rupturas profundas (cosmológicas, antropológicas e epsitemológicas) em relação à visão de mundo tradicional. Ela se fundamentou na idéia de “uma separação total entre o indivíduo conhecedor e a Realidade, tida como completamente independente do indivíduo que a observa” (Nicolescu, 2001, p. 17) e estabeleceu três postulados fundamentais: 1. a existência de leis universais, de caráter matemático; 2. a descoberta destas leis pela experiência científica; 3. a reprodutibilidade perfeita dos dados experimentais. Galileu, Kepler e Newton “confirmaram a justeza destes três postulados” (ibid., p. 18); a matemática tornou-se a linguagem dessa nova ciência empírico-racional, que instaurou o paradigma da simplicidade; e o modelo da ciência moderna passou a ser a física constituída por esses fundadores, atualmente chamada de física clássica. Essa física clássica está fundamentada em duas idéias gerais: (1) a de continuidade: pois de acordo com os órgãos dos sentidos “não se pode passar de um ponto a outro do espaço e do tempo sem passar por todos os pontos intermediários” (ibid.); (2) a de causalidade local: “qualquer fenômeno físico poderia ser compreendido por um encadeamento contínuo de causas e efeitos”, sendo que cada causa gera um efeito próximo e cada efeito advém de uma causa próxima. Ambas geram um terceiro conceito, (3) o de determinismo: pois “se soubermos as posições e velocidades dos objetos físicos num dado instante, podemos prever suas posições e velocidades em qualquer outro momento do tempo” (ibid., 19).

     

    Nicolescu destaca que a simplicidade e a beleza desses três conceitos fascinaram grande parte dos cientistas e intelectuais dos últimos séculos, que proclamaram a física a rainha da ciência e reduziram toda a realidade ao físico e ao biológico, gerando a ideologia cientificista, que se tornou hegemônica na elite intelectual do século XIX. A conseqüente redução do funcionamento do Universo ao de uma máquina perfeitamente regulada e previsível fez com que todos os outros níveis de realidade e de percepção fossem descartados e o Universo fosse dessacralizado para ser conquistado. Todos os outros níveis da Natureza e do ser humano foram lançados “nas trevas do irracional e da superstição” (ibid., 20) e o sujeito foi transformado em objeto. Essa simplicidade aparente das leis da Natureza gerou uma euforia cientificista que contagiou muitas mentes, que postularam a existência de correspondências entre essas leis e as leis econômicas, sociais e históricas, gerando várias teorias e ideologias mecanicistas e materialistas ¾ como, por exemplo, o marxismo e capitalismo. Essas teorias e ideologias tornaram a idéia “da existência de um único nível de realidade” hegemônica nos ambientes científicos e acadêmicos.

     

    No entanto, no início do século XX, Max Planck fez uma descoberta que começou a demolir o paradigma científico da simplicidade, estabelecido pela física clássica. Ele descobriu que a energia tem uma estrutura descontínua: ela se move por saltos, “sem passar por nenhum ponto intermediário” (Nicolescu, 2001, p. 18). Essa descoberta, que derrubou um dos pilares da física clássica, a idéia de continuidade, colocou em questão outro dos seus pilares, a causalidade local. Mas foi apenas na década de 70 que o tipo de causalidade do mundo quântico foi esclarecido e verificado: a causalidade global. No mundo subatômico “as entidades físicas continuam a interagir qualquer que seja o seu afastamento” (ibid., p. 25). Essa comprovação da causalidade global derrogou um dos pilares metodológicos da ciência moderna, a separabilidade (por exemplo, entre sujeito e objeto), e um novo conceito emergiu na física, a não-separabilidade. No entanto, isso não colocou em dúvida a causalidade como um todo, mas mostrou a existência de outro tipo de causalidade, além da local, que não nega a objetividade científica, mas apenas “uma de suas formas: a objetividade clássica, baseada na crença de ausência de qualquer conexão não-local” (ibid., p. 26). Algumas décadas mais depois da descoberta de Planck, outro dos pais da física quântica, Werner Heisenberg, derrubará o terceiro pilar da física clássica, a idéia de determinismo, pois suas equações mostraram que as entidades quânticas encontradas por Planck (os quanta: os pacotes de energia que se movem por saltos) não podem ser localizados num ponto preciso do espaço e num ponto preciso do tempo. Essas entidades quânticas, muito diferentes dos dois tipos de objetos bem distintos que eram estudados pela física clássica, os corpúsculos e as ondas ¾ pois são as duas coisas ao mesmo tempo ¾, não podem ter sua trajetória prevista. Portanto, na escala subatômica (o interior do átomo) reina um indeterminismo. No entanto, este não significa acaso ou imprecisão, pois, por um lado, as entidades quânticas não respeitam, como vimos, as idéias fundamentais da física clássica, a continuidade e a causalidade local, e, por outro, as previsões probabilísticas da mecânica quântica são muito precisas no que diz respeito a essas entidades.

     

    Vemos, com isso, que o paradigma da simplicidade da física clássica, que se apoiava na idéia de continuidade, causalidade local e determinismo perdeu seu estatuto ontológico[13] com a verificação da descontinuidade, da causalidade global e do indeterminismo nas escalas muito pequenas do interior do átomo. Como vimos acima, a física clássica tinha se tornado o paradigma da ciência moderna, que, com isso, viu seu modelo de ciência se transformar.

     

    Além disso, a descoberta de que, no nível das escalas muito pequenas (subatômicas), as leis físicas são diferentes daquelas do nível das escalas macroscópicas invalidou todas as epistemologias reducionistas (mecanicismo, positivismo, fisicalismo) e seu dogma “da existência de um único nível de Realidade” (ibid., p. 28), hegemônico nas elites intelectuais dos séculos XIX e XX, pois foi comprovada a existência de pelo menos dois níveis de realidade.

     

    E a descoberta desses dois níveis ¾ microfísico (escalas subatomicas) e macrofísico (escalas supra-atômicas) ¾, regidos por leis diferentes, e de sua coexistência, levou, “no plano da teoria e da experiência científica, ao aparecimento de pares de contraditórios mutuamente exclusivos (A e não-A)” (ibid., p. 31): continuidade e descontinuidade, causalidade local e causalidade global, separabilidade e não-separabilidade, onda e corpúsculo, etc. Essa coexistência, nos sistemas naturais, de pares de contraditórios levou a uma ruptura em relação à lógica clássica, que se apoiava em três axiomas: o axioma da identidade (A é A), o axioma da não-contradição (A não é não-A), e o axioma do terceiro excluído (não existe um terceiro termo que é ao mesmo tempo A e não A).

     

    Com isso, o paradigma da simplicidade da física clássica também encontrou seu contraditório, a complexidade, coexistindo simultaneamente. E a complexidade começou a se revelar não apenas na física, mas por toda parte, nas ciências exatas, nas ciências humanas, nas artes, na sociedade. Porém, como veremos em seguida, o conceito de complexidade, que emergiu nas ciências, não é sinônimo de complicação, pois, como diz Nicolescu, mesmo com toda a complexidade que aparece nos sistemas naturais uma “coerência atordoante reina na relação entre o infinitamente pequeno e o infinitamente grande” (ibid., p. 46).

     

    Foram esses alguns dos dados que geraram a ruptura na lógica e na epistemologia da ciência e fizeram com que o modelo anterior de ciência, “(...) com seus conceitos clássicos de determinismo”, fosse explodido. Também foram esses dados que serviram de fundamento para que os participantes dos congressos transdisciplinares de 1994 e 1997 propusessem, como pilares metodológicos da pesquisa transdisciplinar, os diferentes níveis de realidade, a lógica do terceiro incluído e a complexidade. Se os sistemas naturais eram constituídos por ao menos dois níveis de realidade, por pares de contraditórios coexistindo simultaneamente e por uma enorme complexidade, para poder tratar os dados deles provenientes era necessário incluir esses conceitos e, inclusive, transformá-los em pilares metodológicos.

       

     

    Entre a inter e a transdisciplinaridade

     

    E, se teorias como o estruturalismo na lingüistica, na antropologia e na psicologia, a Teoria Geral dos Sistemas, a Teoria Cibernética de Primeira e Segunda Ordem, e a Teoria da Complexidade favoreciam e requeriam pesquisas e métodos interdisciplinares, as rupturas lógicas e epistemológicas geradas pelos dados provenientes especialmente da física atômica permitiram uma abertura que ia além dos campos disciplinares. Isso permitia não só integrar as expectativas de diálogo entre todas as disciplinas, como imaginado por Heinz von Foerster e Jean Piaget, e destas com a sociedade e o ser humano, como proposto por Erich Jantsch, mas também restabelecer diálogos semelhantes aos que tinham sido empreendidos, por exemplo, no século XII, no início do Renascimento e no Romantismo, mas, dessa vez, a partir de um novo fundamento.

     

    A meu ver, é interessante notar que a redução epistemológica crescente desde o século XIII, que destronou a teologia e a filosofia primeira ou metafísica como as rainhas das ciências e colocou no lugar delas a física, e que acabou por reduzir a realidade a um único nível (o nível sensível, macrofísico), fez com que essa própria física avançasse tanto que ela mesma rompeu o reducionismo.

     

    Foi no âmbito da ciência que se tornou a mais fundamental: o paradigma (modelo) das outras ciências, que emergiram os dados que causaram a ruptura epistemológica da ciência no sentido inverso do reducionismo, fazendo com que no nível “mais baixo”, na ciência física, e na ciência física das dimensões muito pequenas, se revelasse uma abertura, uma passagem reconduzindo o diálogo da ciência com as áreas do conhecimento humano que tinham sido progressivamente descartados pela elite intelectual do Ocidente nos últimos séculos, como a metafísica, a teologia e as tradições sapienciais.

     

    Nesse mesmo sentido, também é interessante notar que se as ciências que serviram de base para a formulação das teorias que favoreceram a pesquisa e os métodos interdisciplinares, foram a filosofia (fenomenologia), a lingüistica (estruturalismo) e a biologia (Teoria Geral dos Sistemas e Teoria Cibernética de Primeira e Segunda Ordem), foi a física, considerada a ciência mais fundamental dentre todas as ciências, que trouxe os dados que permitiram a emergência de um novo diálogo não só entre todas as disciplinas científicas, mas entre estas e os conhecimentos não disciplinares das culturas do passado, da arte e das tradições, ou seja, que permitiu a emergência da transdisciplinaridade.

     

    O desenvolvimento e a superespecialização cada vez maior das várias disciplinas as foi conduzindo para as fronteiras que as impeliam a um diálogo com o que está entre as disciplinas: interdisciplinaridade. O desenvolvimento e a superespecialização da disciplina mais básica, que trata do fundamento “físico” da realidade, amplificado pelo enorme desenvolvimento tecnológico, fez com que a ciência encontrasse as fronteiras que a impeliam a um novo diálogo, não só com as outras disciplinas e com o que está entre elas, mas com o que está entre, através e além das disciplinas: transdisciplinaridade.

     

     

    Conclusão

     

     

    Portanto, ali onde a interdisciplinaridade avança para além das disciplinas ela se tornaria uma interdisciplinaridade de tipo transdisciplinar.

     

    De modo que, se há diferentes graus de transdisciplinaridade, conforme o nível de satisfação dos três pilares metodológicos da pesquisa transdisciplinar (Nicolescu, 2001, p. 53), que a fará se aproximar mais da pluri ou da interdisciplinaridade, podemos constatar também que há diferentes tipos ou modalidades e graus de interdisciplinaridade.

     

    Podemos pensar, nos apoiando tanto na classificação de Le Moigne (interdisciplinaridade de tipo pluridisciplinar e de tipo transdisciplinar) como nas definições de Piaget[14] e Gusdorff[15], em três tipos ou graus de interdisciplinaridade: interdisciplinaridade de tipo pluridisciplinar, interdisciplinaridade forte e interdisciplinaridade de tipo transdisciplinar.

     

    A interdisciplinaridade de tipo pluridisciplinar (que também poderia ser chamada de interdisciplinaridade fraca) aparecerá quando o predominante nas equipes multidisciplinares for a transferência de métodos de uma disciplina para a outra ou “uma série de monólogos justapostos” (Gunsdorf, citado por Machado, 2000, p. 195).

     

    A interdisciplinaridade forte aparecerá quando o predominante não for a transferência de métodos, mas sim de conceitos, e quando cada especialista não procurar apenas “instruir os outros, mas também receber instrução” e “em vez de uma série de monólogos justapostos”, como acontece no caso da interdisciplinaridade de tipo pluridisciplinar, houver “um verdadeiro diálogo” (ibid.), o que requer o favorecimento das trocas intersubjetivas dos diferentes especialistas.

     

    A interdisciplinaridade de tipo transdisciplinar aparecerá quando também estiverem presentes nas equipes multidisciplinares, a partir de uma posição epistemológica e de metodologias definidas: 1) o diálogo com os conhecimentos considerados não científicos (das artes, da filosofia, dos atores sociais, das tradições de sabedoria, etc.), e 2) diferentes níveis do sujeito e da realidade.

     

    Assim, vemos que entre esses diferentes tipos ou graus de interdisciplinaridade não há fronteiras estanques, pois em cada um deles sempre há algo do outro, do mesmo modo que entre eles e os diferentes graus de transdisciplinaridade: transdisciplinaridade de tipo pluridisciplinar, transdisciplinaridade de tipo interdisciplinar e transdisciplinaridade forte, onde a primeira se aproxima da interdisciplinaridade de tipo pluridisciplinar; a segunda, da interdisciplinaridade forte; e a terceira, se aproxima da interdisciplinaridade de tipo transdisciplinar e se apoia explicitamente nos três pilares metodológicos descritos acima (complexidade, níveis de realidade e lógica do terceiro incluído).

     

    Essa categorização, com observei acima, é a que me parece mais heurística, pois, com ela, podemos manter em movimento a “valsa desses prefixos”: o diálogo vivo entre a disciplinaridade, a multidisciplinaridade, a pluridisciplinaridade, e entre os diferentes tipos ou graus de interdisciplinaridade e de transdisciplinaridade.

     

    Sem isso, voltaremos a criar barreiras, feudos, estruturas fechadas, bloqueios no corpo do saber, reduções do olhar, fragmentações do ser e cairemos em impasses semelhantes àqueles disciplinares dos quais temos buscado sair.  

    ____________________  

     

    Referências bibliográficas  

     

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    * Mestre em Ciências da Educação pela Universidade Nova de Lisboa. Fundador do Centro de Educação Transdisciplinar – CETRANS. Editor e tradutor de Plotino (205-270 d.C.), de Jacob Boehme (1575-1624) e de vários autores transdisciplinares contemporâneos.

    [1] Da tradição enquanto teologia mística, teosofia, gnose (conhecimento direto), normalmente transmitida de maneira oral.

    [2] Da religião enquanto corpo de textos, mitos, ritos e símbolos destinados a todos.

    [3] “Concentração do espírito nas coisas divinas.” (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 2001).

    [4] “O termo ‘ruptura epistemológica’ deve-se a Gaston Bachelard.” (Stengers, 2002, p. 35)

    [5] O ato supra-racional da Inteligência (o nous, o apex mentis) ao intuir o Ser, Deus, o Bem supremo ou o Uno e afirmar sua existência é a característica da contemplação metafísica. O ato supra-racional da alma ao unir-se a Deus ou ao Bem supremo e de frui-lo é a característica da contemplação mística e do êxtase. (Ver Lima Vaz, Experiência mística e filosófica na tradição ocidental, São Paulo, Loyola, 2000).

    [6] “O termo foi usado já pelos neoplatônicos que o aplicavam ao conhecimento das coisas divinas, devido a uma inspiração direta de Deus (Porfírio, De Abst., IV, 17; Jâmblico, De Myst., VII, 1; Proclo, Theol. Plat., V, 35). Reapareceu, com o mesmo sentido, em Jacob Böhme (Sex Puncta Theosophica, 1620; Quaestiones Theosophicae, 1623) e em outros místicos da reforma.” (Abbagnano, 1997, p. 1129).

    [7] Iinterdisciplinaridade heterogênea, pseudo interdisciplinaridade, interdisciplinaridade auxiliar, interdisciplinaridade composta, interdisciplinaridade complementar e interdisciplinaridade unificadora.

    [8] Interdisciplinaridade linear, interdisciplinaridade estrutural e interdisciplinaridade restritiva.

    [9] “Doutrina filosófica que considera a noção de estrutura fundamental como conceito teórico e metodológico. Concepção metodológica em diversas ciências (lingüística, antropologia, psicologia, etc.) que tem como procedimento a determinação e a análise de estruturas.” (Japiassu, 1991, p. 90)

    [10] "Enfin, à l'étape des relations interdisciplinaires, on peut espérer voir succéder une étape supérieure, qui serait ‘transdisciplinaire’, qui ne se contenterait pas d'atteindre des interactions ou réciprocités entre recherches spécialisées, mais situerait ces liaisons à l'intérieur d'un système total sans frontières stables entre les disciplines" (cf. Nicolescu, 2003, p. 1).

    [11] A formação na interação com os outros, sem uma presença formativa hierárquica.

    [12] “Interação entre diferentes sujeitos, que constitui o sentido cultural da experiência humana. O problema da intersubjetividade está relacionado à possibilidade de comunicação, ou seja, de que o sentido da experiência de um indivíduo, enquanto sujeito, seja compartilhado por outros indivíduos.” (Japiassu, 1991, p. 136)

    [13] Deixou de ser respaldado na realidade dos seres ou entes (ón, ontos) existentes na natureza e estudados pela ciência.

    [14] “1. Multidisciplinaridade. O nível inferior de integração. Ocorre quando, para solucionar um problema, busca-se informação e ajuda em várias disciplinas, sem que tal interação contribua para modificá-las ou enriquecê-las. Esta costuma ser a primeira fase da constituição de equipes de trabalho interdisciplinar, porém não implica em que necessariamente seja preciso passar a níveis de maior cooperação. 2. Interdisciplinaridade. Segundo nível de associação entre disciplinas, em que a cooperação entre várias disciplinas provoca intercâmbios reais; isto é, existe verdadeira reciprocidade nos intercâmbios e, conseqüentemente, enriquecimentos mútuos. 3. Transdisciplinaridade. É a etapa superior de integração. Trata-se da construção de um sistema total, sem fronteiras sólidas entre as disciplinas, ou seja, de ‘uma teoria geral de sistemas ou de estruturas, que inclua estruturas operacionais, estruturas de regulamentação e sistemas probabilísticos, e que una estas diversas possibilidades por meio de transformações reguladas e definidas’.”. (Santomé, 1998, p. 70)

    [15] “Estudos interdisciplinares autênticos supõem uma pesquisa comum e a vontade, em cada participante, de escapar ao regime de confinamento que lhe é imposto pela divisão do trabalho intelectual. Cada especialista não procuraria somente instruir os outros, mas também receber instrução. Em vez de uma série de monólogos justapostos, como acontece geralmente, ter-se-ia um verdadeiro diálogo, um debate por meio do qual, assim se espera, se consolidaria o sentido da unidade humana. (...) A determinação de uma língua comum é a condição do surgimento de um saber novo.” (Gunsdorf, citado por Machado, 2000, p. 195)

     

     

     

     

    COMPLEXIDADE E TRANSDISCIPLINARIDADE

    - histórico de um olhar renovado sobre o passado, o presente e o futuro -

     

     

    Complexidade e Transdisciplinaridade

    Américo Sommerman

     

    Centro de Educação Transdisciplinar – CETRANS

     

    Apresentação no

    I Encontro Brasileiro de Estudos da Complexidade

    11 a 13 e julho de 2005, Curitiba

    Pontifícia Universidade Católica do Paraná

     

     

    No auge do reducionismo e da hiperespecialização dele decorrente nas primeiras décadas do século XX, o paradigma da simplicidade da física clássica e as idéias centrais postuladas pela ciência moderna: a da separação total entre o indivíduo observador e objeto observado, a do universo regido pela ordem e obedecendo a lógica aristotélica começam a ser derrogados com a constatação, pelas ciências naturais, da complexidade, da desordem, de lógicas dos sistemas que violavam os princípios da lógica clássica. Além disso, a própria premissa do reducionismo: a existência de um único nível de realidade, foi invalidada.

     

    O pensamento reducionista defendia a posição epistemológica de que era possível explicar todos os objetos, fenômenos e sistemas a partir da redução deles à suas partes mais simples e elementares e da compreensão dessas partes. Isso gerou uma hiperespecialização crescente que trouxe perdas, benefícios, transformações e, paradoxalmente, novas aberturas:

     

    1) A perda de uma visão da globalidade produziu desequilíbrios e destruições no âmbito do sujeito, no da natureza e empobreceu a relação entre ambos.

     

    2) O enorme desenvolvimento tecnológico do século XX produziu desequilíbrios e destruições, mas também trouxe vários benefícios para uma parte da população mundial.

     

    3) As ciências naturais se desenvolveram de maneira exponencial e encontram dados que derrogavam as idéias fundamentais da ciência moderna e da epistemologia reducionista, gerando novas idéias e conceitos contraditórios, concorrentes e complementares aos que norteavam a ciência.

     

    4) As disciplinas foram conduzidas às fronteiras com as outras disciplina, suscitando transferências de conceitos e de métodos e as abordagens e as metodologias pluri e interdisciplinares, e às fronteiras com o que está além das disciplinas, favorecendo a emergência de metodologias transdisciplinares.

     

    Nesse contexto, mostraram-se cada vez mais necessários uma razão complexa, que buscasse estabelecer relações entre esses pólos contraditórios, e, também, diálogos cada vez mais amplos entre as disciplinas e entre os saberes.

     

    Surgiram, então, o Pensamento Complexo, trabalhando com essa razão complexa, a partir da interseção de várias teorias (teoria da informação, teoria dos sistemas, teoria da auto-organização, teoria do caos) e as abordagens e as metodologias pluri, inter e transdisciplinares.

     

     

    O Pensamento Complexo

     

     

    Vimos que o desenvolvimento das ciências naturais derrogou as três idéias fortes que sustentavam o conhecimento da ciência moderna: “a partir do início do século [XX] ocorre algo realmente revolucionário no campo da ordem e da certeza: é o surgimento da desordem e da incerteza” (Morin, 2001, p. 23). A desordem começou a emergir na ciência quando Boltzman enunciou o segundo princípio da termodinâmica, demonstrando que a entropia tende a crescer no universo. Daí surge a tendência para a degradação, para a desordem nos sistemas, uma vez que “no tempo haveria perda da capacidade da energia transformar-se em trabalho” (ibid.). No entanto, isso não instaurou a desordem, pois “foram detectados quatro princípios de organização – o da gravitação, o das interações intracelulares fortes, o das interações fracas e o das interações eletromagnéticas” (ibid.). Instaurou-se a presença contínua da ordem e da desordem. Foi um grande golpe no paradigma da simplicidade.

     

    Lupasco, o formulador da lógica do terceiro incluído, lembra que, “se o Segundo Princípio da Termodinâmica estipula que um sistema que não puder receber mais energia do exterior” se degrada em energia térmica ou calor (cf. Lupasco, s/d, pp. 10-11), por outro lado, a energia “manifesta uma heterogeneidade crescente” que foi denominada neguentropia progressiva.

     

    Falando sobre essa idéia de ordem, Ilya Prigogine diz que  

    La idea de ‘leyes de la naturaleza’ es probablemente el concepto más original de la ciencia de Occidente. (...) Un rasgo básico de esta ley es su carácter determinista. Una vez conocidas las condiciones iniciales, podemos predecir cualquier posición pasada o futura de una trayectoria. Más aún, la ley de Newton es temporalmente reversible: si a un valor temporal positivo lo reemplazamos por outro negativo, la ley de Newton permanece invariante. (...) Siegue siendo válida esta suposición en nuestros dias? Ha tenido lugar un cambio drástico. Como testimonio de este cambio, citemos la solemne declaración efectuada en 1986 por sir James Lighthill, en ese momento presidente de la Unión Internacional de Mecánica Teórica y Aplicada: ‘Aqui debo formular una proposición, hablando nuevamente en nombre de la gran fraternidad mundial de quienes se dedican a la mecánica. Hoy tenemos plena conciencia de que el entusiasmo de nuestros antecesores por los maravillosos logros de la mecánica newtoniana los llevó a hacer ciertas generalizaciones en este área de predictibilidad, en las que en general tendíamos a creer antes de 1960, pero que ahora reconocemos como falsas. Deseamos pedir disculpas colectivas por no haber encaminado en la direción adecuada al público culto en general, difundiendo ideas sobre el determinismo de los sistemas que se atienen a las leyes del movimiento de Newton, ideas que después de 1960 demonstraran ser incorrectas (2002, p. 38).

     

    Segundo Prigogine, estas desculpas dizem respeito ao descobrimento “da instabilidade dinâmica ou o ‘caos’”, que fez com que o conceito de leis determinísticas da natureza tivesse de ser revisto para “incluir a probabilidade e a irreversibilidade”.

     

    A idéia do princípio de separação no conhecimento começou a ruir nos anos cinqüenta, com o surgimento do que pode ser chamado de ciências sistêmicas, sobretudo na ecologia, que, a partir da década de trinta, passou a se apoiar no conceito de ecossistema, isto é, “as interações entre os diferentes seres vivos, vegetais, animais, unicelulares” (Morin, 2001, p. 24), constituindo um fenômeno organizado que, no seu todo, tem “certo número de propriedades que não se encontram nos elementos concebidos isoladamente”. O mesmo passa a emergir em outras ciências, tais como as ciências da Terra, a cosmologia, e até mesmo a economia. O átomo, as moléculas, a sociedade, o homem são sistemas e sistemas de sistemas. Tudo depende de tudo. Mais uma vez, o paradigma da simplicidade se viu enfraquecido.

     

    A outra separação, entre o observador e o objeto da sua observação, também mostrou sua limitação. “Nenhum ser vivo pode viver sem seu ecossistema, sem seu meio ambiente. Isso quer dizer que não podemos compreender alguma coisa de modo autônomo, senão compreendendo aquilo de que ele é dependente.” (ibid., p. 25) Isso também significou uma revolução no pensamento, que, até então, postulava que o conhecimento ideal exigia que se fechasse inteiramente um objeto e, assim isolado, fosse estudado exaustivamente. A não-separabilidade entre observador e seu objeto emergiu não apenas na física do interior do átomo, mas também na sociologia e na antropologia. “Não passava de uma ilusão quando acreditávamos eliminar o observador nas ciências sociais. Não é só o sociólogo que está na sociedade; conforme a concepção hologramática, a sociedade também está nele: ele é possuído pela cultura que o possui. Como poderia julgar sua própria sociedade e as outras sociedades?”[1] (Morin, 2000, p 185). A fronteira entre a ciência e a filosofia também vai deixando de ser pertinente em muitas questões fundamentais da ciência de hoje: “quando a ciência física aborda os problemas das origens do universo, esbarramos em questões filosóficas” (Morin, 2001a, p. 26). “Tudo isso não é só uma volta à modéstia intelectual, também é voltar a uma aspiração autêntica da verdade” (Ibid., 2000, p. 185).

     

    A idéia da razão apoiada na lógica aristotélica – “a ciência clássica via no aparecimento de uma contradição o sinal de um erro de pensamento e supunha que o universo obedecia à lógica aristotélica” (Morin, 2000, p. 29) – começou a encontrar seus limites não só nas ciências físicas, com as descobertas dos paradoxos do universo subatômico, mas também com os paradoxos lógicos que emergiram na ciência mais rigorosa – a teoria matemática – com o teorema de Gödel. “O teorema de Gödel nos diz que um sistema de axioma suficientemente rico leva, inevitavelmente, a resultados quer indecidíveis, quer contraditórios.” (Nicolescu, 2001, p. 58).

     

    Diante desses pares de contraditórios que emergem nesses três pilares do conhecimento da ciência moderna, a ordem, a separabilidade e a razão, Morin sugere que se caminhe em direção a uma razão aberta, que não se restrinja aos princípios da lógica clássica. Não se trata, segundo ele, de substituir a ordem pela desordem, a separabilidade pela não-separabilidade, nem a lógica clássica por uma outra lógica ou por uma desrazão.

     

    Apoiando-se então numa razão aberta ou complexa (que busca uma articulação dialógica entre esses pares de contraditórios) e nessas várias teorias: Teoria da Informação (década de 40), Teoria dos Sistemas (também nos anos 40), teorias da auto-organização (década de 70) e a Teoria do Caos (décadas de 70 e 80), foi sendo elaborado o Pensamento Complexo.

     

    Além dessa derrogação das três idéias centrais da ciência moderna: a ordem, a separabilidade e a razão, a premissa do reducionismo: a existência de um único nível de realidade, aquele descrito pela física clássica e percebido pelos cinco sentidos, foi derrubada.

     

    Essa física clássica, que passou ser o modelo da ciência empírico-racional, está fundamentada em duas idéias gerais: (1) a de continuidade: pois de acordo com os órgãos dos sentidos “não se pode passar de um ponto a outro do espaço e do tempo sem passar por todos os pontos intermediários” (Nicolescu, 2001, p. 18); (2) a de causalidade local: “qualquer fenômeno físico poderia ser compreendido por um encadeamento contínuo de causas e efeitos”, sendo que cada causa gera um efeito próximo e cada efeito advém de uma causa próxima. Ambas geram um terceiro conceito, (3) o de determinismo: pois “se soubermos as posições e velocidades dos objetos físicos num dado instante, podemos prever suas posições e velocidades em qualquer outro momento do tempo” (ibid., 19).

     

    Nicolescu observa que a simplicidade e a beleza desses três conceitos fascinaram grande parte dos cientistas e intelectuais dos últimos séculos, que proclamaram a física a rainha da ciência e reduziram toda a realidade ao físico e ao biológico, gerando a ideologia cientificista, que se tornou hegemônica na elite intelectual do século XIX. A conseqüente redução do funcionamento do Universo ao de uma máquina perfeitamente regulada e previsível fez com que todos os outros níveis de realidade e de percepção fossem descartados e o Universo fosse dessacralizado para ser conquistado. Todos os outros níveis da Natureza e do ser humano foram lançados “nas trevas do irracional e da superstição” (ibid., 20) e o sujeito foi transformado em objeto. Essa simplicidade aparente das leis da Natureza gerou uma euforia cientificista que contagiou muitas mentes, que postularam a existência de correspondências entre essas leis e as leis econômicas, sociais e históricas, gerando várias teorias e ideologias mecanicistas e materialistas – como, por exemplo, o marxismo e capitalismo. Essas teorias e ideologias tornaram a idéia “da existência de um único nível de realidade” hegemônica nos ambientes científicos e acadêmicos.

     

    No entanto, no início do século XX, Max Planck fez uma descoberta que começou a demolir o paradigma científico vigente na época. Ele descobriu que a energia tem uma estrutura descontínua: ela se move por saltos, “sem passar por nenhum ponto intermediário” (ibid., p. 18). Essa descoberta, que derrubou um dos pilares da física clássica, a idéia de continuidade, colocou em questão outro dos seus pilares, a causalidade local. Mas foi apenas na década de 70 que o tipo de causalidade do mundo quântico foi esclarecido e verificado: a causalidade global. No mundo subatômico “as entidades físicas continuam a interagir qualquer que seja o seu afastamento” (ibid., p. 25). Essa comprovação da causalidade global derrogou um dos pilares metodológicos da ciência moderna, a separabilidade (por exemplo, entre sujeito e objeto), e um novo conceito emergiu na física, a não-separabilidade. No entanto, isso não colocou em dúvida a causalidade como um todo, mas mostrou a existência de outro tipo de causalidade, além da local, que não nega a objetividade científica, mas apenas “uma de suas formas: a objetividade clássica, baseada na crença de ausência de qualquer conexão não-local” (ibid., p. 26). Algumas décadas mais depois da descoberta de Planck, outro dos pais da física quântica, Werner Heisenberg, derrubará o terceiro pilar da física clássica, a idéia de determinismo, pois suas equações mostraram que as entidades quânticas encontradas por Planck (os quanta: os pacotes de energia que se movem por saltos) não podem ser localizados num ponto preciso do espaço e num ponto preciso do tempo. Essas entidades quânticas, muito diferentes dos dois tipos de objetos bem distintos que eram estudados pela física clássica, os corpúsculos e as ondas – pois são as duas coisas ao mesmo tempo –, não podem ter sua trajetória prevista. Portanto, na escala subatômica (o interior do átomo) reina um indeterminismo. No entanto, este não significa acaso ou imprecisão, pois, por um lado, as entidades quânticas não respeitam, como vimos, as idéias fundamentais da física clássica, a continuidade e a causalidade local, e, por outro, as previsões probabilísticas da mecânica quântica são muito precisas no que diz respeito a essas entidades.

     

    Vemos, com isso, que o paradigma da simplicidade da física clássica, que se apoiava na idéia de continuidade, causalidade local e determinismo perdeu seu estatuto ontológico[2] com a verificação da descontinuidade, da causalidade global e do indeterminismo nas escalas muito pequenas do interior do átomo. Como vimos acima, a física clássica tinha se tornado o paradigma da ciência moderna, que, com isso, viu seu modelo de ciência se transformar.

     

    Além disso, a descoberta de que, no nível das escalas muito pequenas (subatômicas), as leis físicas são diferentes daquelas do nível das escalas macroscópicas invalidou todas as epistemologias reducionistas (mecanicismo, positivismo, fisicalismo) e seu dogma “da existência de um único nível de Realidade” (ibid., p. 28), hegemônico nas elites intelectuais dos séculos XIX e XX, pois foi comprovada a existência de pelo menos dois níveis de realidade.

     

    Além disso, também na física emergiram vários pares de contraditórios (A e não-A): continuidade e descontinuidade, causalidade local e causalidade global, separabilidade e não-separabilidade, onda e corpúsculo etc.

     

     

    Inter e transdisciplinaridade

     

     

    Vimos que, concomitante e paralelamente ao Pensamento Complexo, surgiram as abordagens e metodologias pluri, inter e transdisciplinares para tratar os problemas complexos, muitos deles problemas decorrentes do reducionismo e da hiperespecialização dele resultante.

     

    Encontramos, na definição dos conceitos de multi e de pluridisciplinaridade, uma convergência entre os autores.

     

    A multidisciplinaridade, na prática pedagógica, é a organização mais comum do conhecimento, onde as matérias e as disciplinas se apresentam de maneira independente, sem explicitar as relações entre elas, e, na pesquisa e na resolução de problemas, ela aparece quando se recorre a várias disciplinas, mas sem que isso contribua para modificá-las ou enriquecê-las.

     

    A pluridisciplinaridade é o estabelecimento de relações entre disciplinas mais ou menos afins, com transferência de métodos entre elas, com o enriquecimento do objeto pesquisado, podendo levar à criação de novas disciplinas, mas sem a existência de um verdadeiro diálogo entre os saberes ou entre os especialistas, sem modificá-las internamente de maneira profunda.

     

    Já os conceitos de inter e de transdisciplinaridade são bem mais polissêmicos, de modo que, a partir das definições dos diferentes autores[3] e de alguns documentos de congressos internacionais[4] proponho uma categorização que as abarque, as articule e contribua para a pesquisa e para a solução de problemas complexos. Se Nicolescu indicou a existência de diferentes graus de transdisciplinaridade, conforme o nível de satisfação dos três pilares metodológicos da pesquisa transdisciplinar (cf. 2001, p. 53), a consolidação das diferentes definições de inter e de transdisciplinaridade permitem que sejam propostos três tipos ou graus para ambos.

     

    Proponho, portanto, a seguinte categorização: interdisciplinaridade de tipo pluridisciplinar, interdisciplinaridade forte e interdisciplinaridade de tipo transdisciplinar; transdisciplinaridade de tipo pluridisciplinar, transdisciplinaridade de tipo interdisciplinar e transdisciplinaridade forte.

     

    A interdisciplinaridade de tipo pluridisciplinar (que também poderia ser chamada de interdisciplinaridade centrífuga ou interdisciplinaridade fraca) aparecerá quando o predominante nas equipes multidisciplinares for a transferência de métodos de uma disciplina para a outra ou “uma série de monólogos justapostos” (Gusdorf, citado por Machado, 2000, p. 195).

     

    A interdisciplinaridade forte (ou interdisciplinaridade centrípeta) aparecerá quando o predominante não for a transferência de métodos, mas sim de conceitos, e quando cada especialista não procurar apenas “instruir os outros, mas também receber instrução” e “em vez de uma série de monólogos justapostos”, como acontece no caso da interdisciplinaridade de tipo pluridisciplinar, houver “um verdadeiro diálogo” (ibid.), o que requer o favorecimento das trocas intersubjetivas dos diferentes especialistas, onde cada um reconheça em si mesmo e nos outros não só os saberes teóricos, mas os saberes práticos e os saberes existenciais.

     

    A interdisciplinaridade de tipo transdisciplinar aparecerá quando também estiverem presentes nas equipes multidisciplinares “uma modelização epistemológica nova para a compreensão de fenômenos” (Le Moigne, 2002, p. 29), e/ou o diálogo com os conhecimentos considerados não científicos (das artes, da filosofia, dos atores sociais, das tradições de sabedoria, etc.) e com os diferentes níveis do sujeito e da realidade.

     

    Poderíamos estabelecer aqui uma subcategoria: interdisciplinaridade fraca ou centrífuga de tipo transdisciplinar: “uma modelização epistemológica nova para a compreensão de fenômenos”; interdisciplinaridade forte ou centrípeta de tipo transdisciplinar: quando nas equipes multidisciplinares também estiverem presentes o diálogo com os conhecimentos considerados não científicos e com os diferentes níveis do sujeito e da realidade.

     

    É importante frisar que a interdisciplinaridade que qualifico de “forte” é forte quanto à ênfase que dá ao sujeito e às trocas intersubjetivas. E a interdisciplinaridade de tipo pluridisciplinar ou centrífuga é chamada aqui de “fraca” no que diz respeito à pouca ênfase que dá ao sujeito. Forte e fraca aqui não indicando nenhum aspecto valorativo.

     

    A transdisciplinaridade de tipo pluridisciplinar se aproxima da interdisciplinaridade de tipo pluridisciplinar, mas se abrindo explicitamente para um diálogo com os saberes não disciplinares dos diversos atores sociais (empresas, órgãos públicos, organizações não governamentais).

     

    A transdisciplinaridade de tipo interdisciplinar se aproxima da interdisciplinaridade forte, se abrindo não só para as trocas intersubjetivas dos diferentes especialistas, mas para o diálogo com os saberes dos diversos atores sociais e explicitando a pertinência dos saberes teóricos, dos saberes práticos e dos saberes existenciais ou vivenciais (cf. Galvani, 1999).

     

    A transdisciplinaridade forte se aproxima da interdisciplinaridade de tipo transdisciplinar, mas se apóia explicitamente nos três pilares da metodologia transdisciplinar (complexidade, níveis de realidade e lógica do terceiro incluído) (cf. A Carta da Transdisciplinaridade e A Síntese do Congresso de Locarno).

     

    Também é importante observar aqui que o qualificativo “forte” é apenas devido à explicitação forte dos três pilares metodológicos da pesquisa transdisciplinar, enquanto a de tipo pluri e a de tipo inter podem não se apoiar neles ou se apoiar apenas num ou dois deles, ou em metodologias e epistemologias menos heurísticas e fortes para o favorecimento de um diálogo ao mesmo tempo rigoroso e aberto entre as disciplinas, os saberes, as culturas, as tradições de sabedoria, etc.

     

    Assim, vemos que entre esses diferentes tipos ou graus de interdisciplinaridade, do mesmo modo que entre eles e os diferentes graus de transdisciplinaridade não há fronteiras estanques, pois em cada um deles sempre há algo do outro e o outro tipo ou grau sempre pode emergir. Dependerá do pólo ou prefixo que se enfatizar, da complexidade menor ou maior do problema que se quiser resolver e dos sujeitos que constituírem o grupo de pesquisa e de ação.

     

    Essa categorização, com observei acima, é a que me parece mais heurística, pois, com ela, podemos manter em movimento a “valsa desses prefixos”: o diálogo vivo entre a disciplinaridade, a multidisciplinaridade, a pluridisciplinaridade, e entre os diferentes tipos ou graus de interdisciplinaridade e de transdisciplinaridade.

     

    Sem isso, voltaremos a criar barreiras, feudos, estruturas fechadas, bloqueios no corpo do saber, reduções do olhar, fragmentações do ser e cairemos em impasses semelhantes àqueles disciplinares dos quais temos buscado sair.

     

     

    O Pensamento Complexo, a pluri, a inter e a transdisciplinaridade

     

     

    Se considerarmos a etimologia de complexus, “o que é tecido junto” (Morin, 2001, p. 33), e o Pensamento Complexo que, mediante a razão aberta, articula as polaridades e os elementos contraditórios, concorrentes e antagônicos desse “tecido”, uma pergunta se impõe: Qual é amplitude dessa articulação? A partir da categorização apresentada no item anterior, podemos localizá-la no âmbito da tessitura da pluridisciplinaridade, da interdisciplinaridade ou da transdisciplinariade?

     

    Dependendo das teorias e saberes que determinado pensamento e razão complexos pretendem articular, mais ampla será a “agulha” (pluri, inter ou transdisciplinar) que utilizará.

     

    Muitas vezes, o pensamento complexo se manifesta com uma transferências de modelos e conceitos da Teoria do Caos (Física de Líquidos) e da Teoria da Auto-organização (Biologia) para a Química, para a Medicina (Epidemologia, Imunologia), para a Economia, mostrando um comportamento complexo dos sistemas pesquisados e resultados aplicáveis no mundo real. Teremos então uma Complexidade de tipo pluridisciplinar ou interdisciplinar, pois se restringe à transferência de modelos e conceitos de uma disciplina para outras.

     

    Um Pensamento Complexo de tipo transdisciplinar forte, por outro lado, propõe uma modelização e uma metodologia muito mais ampla e aberta, que atravessa as disciplinas e vai além delas, incluindo não só os saberes não disciplinares, mas as diferentes culturas, os diferentes níveis do sujeito e os diferentes níveis da realidade.

     

    Dependendo, portanto, da amplitude dessa razão complexa, teremos um tipo ou grau de Pensamento Complexo e um tipo ou grau de transdisciplinaridade.

     

    Podemos, então, definir uma complexidade restrita, uma complexidade ampliada e uma complexidade plena.

     

    A complexidade restrita se manteria nos limites do disciplinar, tecendo as disciplinas científicas, mantendo-se, portanto, no âmbito da interdisciplinaridade de tipo pluridisciplinar ou centrífuga.

     

    A complexidade ampliada iria além das disciplinas, incluindo em sua tessitura não só todos os saberes disciplinares, mas “todas” as dimensões da subjetividade humana: a razão, a emoção, a pulsão; incluindo o lúdico, o irracional e a poesia, enquanto expressões das emoções, sentimentos e intuições humanas. A “agulha” de sua tessitura corresponde, portanto, à interdisciplinaridade forte, que propõe uma inclusão forte do sujeito, e à interdisciplinaridade de tipo transdisciplinar, na qual modelos multidimensionais começam a emergir.

     

    A complexidade plena, de uma natureza transdisciplinar plena, incluiria em sua tessitura não só as disciplinas cientificas, mas as artes, a filosofia, e os saberes e as ciências das tradições sapienciais[5], ou seja, todo o conhecimento produzido ao longo da história humana. Incluiria não só as diferentes dimensões do sujeito, mas a questão ontológica dos diferentes níveis de realidade e dos diferentes níveis do ser humano a eles correspondentes. A “agulha” de sua tessitura corresponderia, portanto, à transdisciplinaridade forte, conforme definida na categorização anterior.

     

    Por se apoiar no Pensamento Complexo e em seus dois princípios de emergência e de imposição[6], bem como nos três princípios da atitude transdisciplinar (rigor, abertura e tolerância)[7], este último grau da complexidade, a complexidade plena, nada perderia em rigor ao ser comparada aos dois outros graus, mas ganharia em abertura. Com uma razão complexa articulando as menores partes de cada sistema, os níveis de organização de cada sistema e, em objetos ainda mais complexos, os níveis de realidade do sistema.

     

    Para tanto, essa razão complexa desse Pensamento Complexo Pleno poderia se utilizar dos três pilares da metodologia da pesquisa transdisciplinar definidos acima: 1) níveis de realidade (complementando os níveis de organização da complexidade restrita e da ampliada), 2) lógica do terceiro incluído (complementando a lógica clássica e a dialógica) e 3) complexidade de cada nível de realidade (complementando a complexidade de um cosmo unidimensional do Pensamento Sistêmico e da Complexidade Restrita).

     

    Se, no que diz respeito ao sujeito, o Pensamento Complexo considerar um ser humano razoável e não-razoável (homo sapiens demens) e não só sua dimensão racional (como buscou fazer o reducionismo). Se considerar também a emoção, a pulsão, a intuição e a imaginação, teremos também uma Pensamento Complexo de tipo Transdisciplinar, pois ele poderá ir além das disciplinas. Porém, não chegará a ser uma complexidade plena se considerar no pólo demens o irracional e não abrir o diálogo deste para a possibilidade de um daimôn supra-racional e para o que as tradições sapienciais chamam de Homem Total Universal[8]. Será uma complexidade de uma natureza transdisciplinaridade mais restrita, pois não dialogará, de fato, com a quase totalidade das outras culturas: as que viam e vêem o ser humano e o cosmo como multidimensionais.

     

    Chamo essa antropologia e essa cosmologia multidimensionais de tradicional, pois constitui uma invariante cultural: aparece em quase todas as culturas ao longo da história humana. Uma antropologia e uma cosmologia desse tipo também foi o axis mundi, o eixo da cultura ocidental até o século XIII, até a entrada da razão aristotélica nas universidades.

     

    Precisamos, portanto, propor uma educação que inclua esses três níveis de Pensamento Complexo: complexidade restrita, complexidade ampliada e complexidade plena. Sem isso, não instauraremos um diálogo realmente novo e aberto, pois mesmo a complexidade ampliada não dialoga, de fato, com as outras culturas. Precisamos reencantar a educação e, para isso, a multidimensionalidade é indispensável, pois quanto mais estreita e mais plana é a realidade, menor e mais pobre é o sentido da vida humana.

     

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    Referências bibliográficas

     

    CARTA DA TRANSDISCIPLINARIDADE. In: Educação e transdisciplinaridade. Brasília: UNESCO/USP, 2000. In: O manifesto da transdisciplinaridade. São Paulo: Triom, 2001.  

    ELIADE, Mircea. Mefistófeles e o andrógino, São Paulo, Martins Fontes, 1991.  

    GALVANI, Pascal. Fertilization croisée des savoirs et ingenierie d’alternance socio-formative: le programe de recherche-formation-action quart monde/université, 1999. In: Transdisciplinarité et Formation. Paris: L’Harmattan, 2005.  

    LE MOIGNE, Jean-Louis. Legitimer les connaissances interdisciplinaires dans nos cultures, nos enseignements et nos pratiques. In: Ingénierie de l’interdisciplinarité: um nouvel esprit scientifique. Paris: L’Harmattan, 2002.  

    MACHADO, Nílson José. Educação: projetos e valores. São Paulo: Escrituras, 2000.  

    LUPASCO, Stéphane. O homem e as suas três éticas. Lisboa: Instituto Piaget, [s.d.].  

    MORIN, Edgar. Por uma reforma do pensamento. In: O pensar complexo: Edgar Morin e a crise da modernidade. Nascimento, Elimar Pinheiro do; Pena-Veja, Alfredo (orgs.). 3ª ed. Rio de Janeiro: Garamond, 2001.

     MORIN, Edgar. Ciência com consciência. 4a ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 2000.  

    NICOLESCU, Basarab. O manifesto da transdisciplinaridade. 2a ed. São Paulo: Triom, 2001.  

    PLOTINO. Tratados das Enéadas. São Paulo: Polar, 2002.



     

    [1] Mircea Eliade, falando sobre a maneira como os antropólogos e sociólogos estudavam os textos e as obras de outras culturas observa que esses “documentos humanos haviam sido estudados anteriormente com o desinteresse e a indiferença que os naturalistas do século XIX dedicavam ao estudo dos insetos. Agora começa-se a perceber que esses documentos exprimem situações humanas exemplares, que fazem parte integrante da história do espírito. Ora, o meio apropriado para se apreender o sentido de uma situação humana exemplar não é a ‘objetividade’ do naturalista, mas a simpatia inteligente do exegeta, do intérprete” (1991, p. 4).

    [2] Deixou de ser respaldado na realidade dos seres ou entes (ón, ontos) existentes na natureza e estudados pela ciência.

    [3] Le Moigne(2002, p. 29), Piaget, Gusdorf, Pineau.

    [4] Carta da Transdisciplinaridade (I Congresso Mundial de Transdisciplinaridade, Portugal, 1994) e Síntese do Congresso de Locarno (Congresso Internacional de Transdisciplinaridade, Suíça, 1997).

    [5] Os níveis sapienciais e iniciáticos das tradições grega, judaica, islâmica, cristã, budista, hindu, das tradições nativas das Américas, da África e da Oceania.

    [6] O princípio da emergência diz que o todo é superior à soma das partes e o princípio da imposição diz que o todo é inferior à soma das partes (exemplo: um coral de vozes).

    [7] Carta da Transdisciplinaridade, artigo 14.

    [8] O al-Insân al Kâmil (Homem Perfeito ou Universal) da tradição islâmica, o Adam Kadmon (Homem Arquetípico) da tradição judaica, o Anthrôpos Teleios (Homem Perfeito ou Divinisado) da tradição cristão, o Nandjejara (Senhor dos Três Mundos) da tradição tupi, o Cheun-jen (Homem Transcendente) da tradição taoísta.

     

     

     

    © Osvaldo Luiz Ribeiro

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    – página atualizada em 08/09/2007 21:06:02