Historiador, eu?

 

Que nada! Para sê-lo, deveria ter concluído meu Curso de História, na Gama Filho/RJ, mas parei quando terminei o primeiro semestre, porque fui para o Doutorado em Teologia na PUC-Rio. Talvez eu volte, talvez eu faça "literatura", agora não sei mais...

 

Sou mesmo, pelo menos agora, um exegeta. E minha boca enche d'água quando falo que sou um exegeta.

Adoro exegese. De paixão.

 

Mas da minha...

 

Explico: amo de paixão o tipo de exegese que faço. Por aí vagam muitas práticas que se chamam pelo mesmo nome, e, seja como for, não é de outro tipo de exegese que me ocupo, senão de um tipo histórico-crítico, no método, histórico-social, na abordagem, e complexo, no paradigma.

Minha exegese, hoje, passa pelo texto - mas o texto como meio para, recuperando-o em seu Sitz im Leben (seu contexto original funcional-instrumental, isto é, o texto em seu tempo e lugar, e na forma como era usado). No que diz respeito ao texto-em-si (melhor seria dizer, "no que diz respeito à "narrativa"), meu olhar metodológico pode ser perfeitamente expresso através de uma afirmação de Edgar Morin:

 

“(...) todo discurso retroage sobre os elementos que o constituem. Assim, para que as palavras assumam um sentido na frase que elas formam, não basta que seus significados estejam enumerados entre outros no dicionário, não basta que elas estejam organizadas de acordo com a gramática e a sintaxe, é preciso ainda que haja retroação da frase sobre a palavra ao longo da sua formação até a cristalização definitiva das palavras pela frase e da frase pelas palavras”

(O Método 1 - a natureza da natureza, p. 160)

 

Mas a narrativa, eu dizia, é meio para que eu alcance meu fim - do "meio", saltar para a história, para o que está "por trás da narrativa", ou, para o dizer de outro modo, saltar da "narrativa" para o "texto". Essa história, você já sabe, é a que conta, a que produziu tudo e todos, e até essa narrativa. Vou à "história" por trás da narrativa, então, e, tendo chegado aí, agora posso voltar para a narrativa, para ouvi-la, porque, afinal, sou exegeta, não historiador.

 

A  h-i-s-t-ó-r-i-a, portanto, é minha paixão também, porque só me interessa a exegese se e enquanto histórica. Por isso vou passar a citar ou comentar aqui livros e textos que tratam de metodologia histórica - da forma como eu gosto. Gosto de uma metodologia histórica que leve a sério o "evento", o "acontecimento". Gosto de uma metodologia histórica que acredite, sim, que coisas acontecem, sim, e que, tendo acontecido, e porque aconteceram, determinam, sim, outros acontecimentos, de modo que a História, abstração que seja, consiste numa rede inextricável de acontecimentos irreversíveis, complexos em suas conseqüências. Acontecimento e Acaso são dois pequenos demiurgos.

 

Sugiro começar por uma obra formidável. Acabei de lê-la. A História em Migalhas - dos Annales à Nova História, de François Dosse (EDUSC, 2003. 393 p. L'Histoire en miettes: des Annales a la Nouvelle Histoire, 1987). Belíssimo livro - ele defende, que bom, o "acontecimento". Como eu ri, sozinho, como bobo, como criança, quando ele encerrou seu livro com uma citação de Edgar Morin - de novo os livros me buscam e me constroem...

O histórico apresenta-se, então, como uma dialética entre uma estrutura lógica abstrata e o real; movimento que vai da estrutura à conjuntura e inversamente para recuperar uma trama inteligível (...) Trata-se do pensamento da distância necessária, da passagem do abstrato ao concreto, ponto de chegada e não ponto de partida para se chegar à construção de uma rede hierárquica de determinação dos diferentes níveis do real (...) A hierarquia causal a ser construída deve ser feita evitando dois perigos: o da generalização teórica abstrata desvinculada do real e o da descrição de casos singulares. O historiador deve, ao contrário, realizar um constante movimento de vaivém do factual ao quadro conceitual e do quadro conceitual ao factual. Sua síntese não é a simples colagem das diferentes partes apresentadas no plano compartimentado, mas a pesquisa de sistemas de causalidades (p. 381). O renascimento do discurso histórico passa pela ressurreição d(...)o acontecimento (p. 382). Trata-se de fazer renascer o acontecimento significativo, ligado às estruturas que o tornaram possível, fonte de invocação. (e aí ele cita Morin) 'A verdadeira ciência moderna só poderá começar com o reconhecimento do fato' (p. 383. A citação de Morin é de Communications, n. 18, p. 14, 1972).

Que citar, também, Relações de Força. História, retórica, prova, de Carlo Ginzburg (Cia. das Letras,2002. 192 p. Rapporti di forza - Storia, retorica, prova, 2000), que, em seu O Queijo e os Vermos, faz, eu acho, o que François Dosse definiu acima como a arte de fazer "história". Eu o li no mesmo dia em que a PUC-Rio de aceitou para o Doutorado em Teologia - é o que escrevi na contra-capa.

Para 'escovar a história ao contrário' (...) é preciso aprender a ler os testemunhos às avessas, contra as intenções de quem os produziu (p. 43) As fontes não são nem janelas escancaradas, como acreditam os positivistas, nem muros que obstruem a visão, como pensam os cépticos: no máximo poderíamos compará-las a espelhos deformantes. A análise da distorção específica de qualquer fonte implica já um elemento construtivo. Mas a construção, como procuro mostrar nas páginas que se seguem, não é incompatível com a prova; a projeção do desejo, sem o qual não há pesquisa, não é incompatível com os desmentidos infligidos pelo princípio de realidade. O conhecimento (mesmo o conhecimento histórico) é possível (p. 44-45).

O interessado em histórica concreto-complexa não pode deixar de investigar Ilya Prigogine, que trouxe a química para ajudar a (minha) exegese, e trouxe de volta o tempo, o acontecimento irreversível, o acaso. Eu amo o acaso, porque faz da exegese algo relevante, já que o que quer que tenha acontecido, aconteceu ali, e não porque tinha que acontecer, mas porque forças, ali, trouxeram à luz aquele, e não outro, evento - ainda que mesmo ali ele, justamente ele, que ali veio, pudesse não ter vindo.

 

No momento, estou enfrentando uma pedreira - Karl-Otto Apel, Transformação da Filosofia II. O a priori da comunidade de comunicação (Loyola, 2000. p. 491. Transformation der Philosophie. Band 2: Das Apriori der Kommunikationsgemeinschaft, 1973). O livro não é nada fácil. Exige muito de mim. Mas eu sou determinado, quando percebo que tenho alguma coisa diante de mim - a aí vai alguma coisa. Quero deixar apenas uma citação brevíssima, mas que me interessa muito, a mim, exegeta: " as elucidações comportamentais apostas a objetos 'mudos' só podem ser verificadas por meio de observações; as 'hipóteses' hermenêuticas, ao contrário, são verificadas, primeiramente por meio de respostas dos interlocutores na comunicação - E também 'textos podem responder!" (p. 125, nota).

 

Por enquanto são esses os meus companheiros de viagem. Botei o olho neles, e vi que éramos co-irmãos - é bom não estar sozinho. Eu estou com eles. E você? Está comigo?