Três pronunciamentos acerca do estatuto epistemológico da teologia - II

 

Por uma teologia científica, sim!

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

Júlio Paulo Tavares Zabatiero, Do Estatuto Acadêmico da Teologia: pistas para a solução de um problema complexo, Estudos Teológicos, v. 47, n. 2, 2007, p. 67-87 (Texto completo). Segundo o site, o autor é professor na Faculdades EST, em São Leopoldo, RS. Resumo: o ensaio descreve a teologia como um saber racional público e não como um saber científico. Discute os conceitos de cientificidade, racionalidade e publicidade, do ponto de vista da teologia cristã pós-metafísica, em diálogo com autores como Rorty, Habermas e Vattimo. Defende a necessidade da teologia manter o vínculo indissolúvel com a fé vivida pela comunidade crente e, a partir desse vínculo, assumir o papel de intérprete entre saberes sobre a vida humana no planeta, com vistas a apoiar o desenvolvimento de sociedades caracterizadas por uma rica e justa participação de seus cidadãos e suas cidadãs na esfera pública, que deverá incluir também a natureza não-humana em suas deliberações morais.

 

O diálogo – também crítico – com a proposta de Zabatiero para o estatuto epistemológico da teologia deve ser levado a cabo de forma um pouco diferente daquela com que levei a termo a crítica à proposta de von Sinner. Penso ser apropriado um escaneamento (quase) parágrafo a parágrafo de sua proposta, e, então, além daquelas que certamente não obterei sucesso em sufocar já aí, apresentar, em bloco, minha crítica negativa quanto ao aspecto geral da proposta. Sim, não concordarei com a sugestão de Zabatiero. Não posso.

 

O artigo distribui-se pelas páginas 67 a 87 da Estudos Bíblicos. Encontro a abertura padrão da revista (resumos, p. 67-68), e, desde então, seguem-se as seções do artigo: Introdução (p. 69-70), Cientificidade: uma identidade em mutação (p. 70-75), Da racionalidade da teologia enquanto não-ciência (p. 75-80), Publicidade: teologia como discurso público da fé (p. 80-85) e Se concluir é preciso... (p. 85-86). Fecha-se o artigo com uma bibliografia (p. 86-87).

 

Zabatiero resume assim sua tese: “o ensaio descreve a teologia como um saber racional público e não como um saber científico” (p. 67). De imediato, então, pergunto-me o que, então, ela está fazendo, seja agora, no MEC (graduação), seja, há anos, na CAPES (pós-graduação)? Eu confesso que não estou interessado em tomar a “teologia” – isso que as igrejas e os cristãos vêm fazendo há dois mil anos – e perguntar-me, acariciando-a, o que ela é. Ora – é óbvio que isso que fizemos esses milênios não tem absolutamente nada a ver com ciência – foi, em todos esses anos, séculos, política, racionalização, crença articulada em torno de si mesma, por si mesma, para si mesma. Quase morre no século XIX, mas a Trindade (Barth, Vaticano I e The Fundamentals) interveio, e ela ganhou sobrevida no século XX, recusando-se, aí, a fazer-se ciência. Quando Zabatiero afirma, no resumo-tese de seu artigo, que, sim, a teologia não é mesmo ciência, não, ainda que por outras razões, o que ele está fazendo é justamente deixar a teologia ser como sempre foi, e reconhecer – nesse caso, como não? – que ela, a teologia ([Platão] – Paulo – Agostinho – Anselmo – Lutero – Barth [até teólogos católicos citam Barth!]) não é mesmo ciência, não.

 

Mas eu julgava que, uma vez que enfiamo-nos, nós, teólogos, e à teologia, MEC adentro, havíamos assumido o compromisso de não manejar “aquela” aquela teologia “de igreja(s)” – e é tudo que aquela teologia é, para o bem, para o mal. Nossa única alternativa, agora, seria transformar a teologia em ciência. Discutir as suas condições de manutenção no espaço universitário. “Inventar” uma nova teologia – científica, sim. E não olharmos, enamorados, para a teologia que inventamos há dois mil e quinhentos anos – antes do Empirismo, do Iluminismo, do Romantismo (postulados universitários, a meu ver, indiscutíveis), e dizermos o que essa teologia é. Está bem, se é essa teologia de dizer coisas, de saber coisas, política, que queremos, que seja, mas, nesse caso, por favor, vamos sair do MEC – da graduação e da pós, que, aí, não é nosso lugar. Nosso lugar voltará a ser os templos, os cultos, as devoções, o enrolar de nossos corpos em torno de nós mesmos. Quero isso, não. Quero o MEC, sim. Quero uma teologia científica, sim. Que se desnude. Que abandone todos os conteúdos “de fé” a priori, e que se converta em método. Não há disciplinas universitárias que se constituam por conteúdos – são métodos. Discurso – público (?) – não é, mesmo, ciência – eventualmente é mesmo arregimentação ideológica.

 

Marcada minha posição – de modo que os leitores não se enganarão quanto a minha leitura crítica do artigo – passo a analisar parágrafo a parágrafo o projeto de Zabatiero.

 

 

Da “Introdução” (p. 69-70)

 

 

Abre-se o artigo situando-se o problema do “estatuto teórico (acadêmico) da Teologia”. De um lado, postulados bi-milenares tradicionais relativos à revelação/fé/autoridade eclesiástica, e, de outro, a revolução, recentíssima, razão/experiência/autonomia do sujeito. Não se trataria de uma questão apenas epistemológica, mas, Zabatiero reconhece, também política e institucional. A teologia ter-se-ia deixado enredar – termos do autor – “pelo projeto moderno de racionalidade, submetendo-se aos critérios de validade de diferentes sistemas filosóficos de então” (p. 69). O que ela deve fazer, então? “Rever suas características, afastando-se do modo conflitivo-metafísico em que se deu a discussão moderna”. E é já aqui que o projeto de Zabatiero e o meu desencontram-se, quiçá, irremediavelmente (talvez fosse politicamente correto deixar uma nesga de porta aberta, mas, a rigor, não vejo como – se alguém a vislumbrar, avise-me, por favor). O caminho que me encanta não é essa fuga – até porque já tomamos o rumo! O meu desafio, li-o na seguinte declaração, admirável, de Barkow: “eu coloco como exigência que roda explicação sociológica da ética seja compatível com as teses psicológicas da ética, e que estas sejam compatíveis ao mesmo tempo com as neurociências e com a biologia da evolução”[1]. Segundo François Dosse, “ele prega (...) a existência de uma compatibilidade das hipóteses sociológicas com aquilo que se sabe por outro lado do funcionamento das outras ciências: ‘a maneira pela qual as ciências sociais se isolam é indefensável. Isso não quer dizer que seja preciso ser reducionista. É preciso ser compatível[2] (grifo meu).

 

Ora – é esse o caminho, não apenas para as ciências entre si, mas, sem ressalvas, também, agora, entre elas e a “irmã” mais nova, a teologia. Uma teologia compatível – e com o quê? Com as ciências outras, duras e moles. Com a plataforma operacional epistemológico-metodológica das ciências universitárias – científico-humanistas, empiristas, românticas, iluministas. A “heurística” – pragmática exclusiva do “conhecimento”, não está necessariamente dentro das salas de aula das Universidades, dentro dos laboratórios universitários, nas cátedras do conjunto das faculdades – também aí –, mas onde quer que esse jogo seja jogado. Batemos à porta do MEC – e não foi com diálogo, certamente, que não houve audiências públicas onde o conjunto dos “cientistas” pudesse discutir o ingresso da família teologia no congresso das “ciências” –, duas vezes, e isso tem de significar – não há liberdade quanto a isso – que queremos jogar o jogo que aí se joga, e não subvertê-lo, seja por meio de qual estratégia for. Ou teologia é heurística, e joga o jogo universitário, ou não é ciência mesmo, muito menos heurística, e não tem o que fazer ali. Zabatiero, então, está certo – quanto a isso. Mas – alto lá – quem falou que “teologia” é o que Zabatiero pensa que é? Essa que Zabatiero nomeia como “pública” é a, ainda, desnuda que alguns atavios, a teologia de confissão e tradição, que Vattimo quer tornar “cultura” – ser ocidental é ser cristão (cf. “O Ocidente ou a Cristandade”, em Vattimo, Depois da Cristandade, p. 89-104). Há, sim, “uma” teologia assim, de milenares cãs – mas, quem disse?, ela tem de ser assim e para sempre?

 

Zabatiero quer uma teologia fora da “roda” das ciências. E, confessa, opta “pela via do chamado pensamento pós-metafisico (Habermas), ou pós-fundacional (Rorty), ou pós-estruturalista (Foucault), ou pensamento fraco (Vattimo) – diferentes descrições da apropriação filosófica da virada lingüístico-pragmática na cosmovisão acadêmica do séc. XX e início do XXI” (p. 69). Na seqüência, Zabatiero comenta que essa “via” postula a superação da “metafísica” e do “objetivismo” da epistemologia científica moderna, que teria constituído-se às expensas da disjunção radical entre sujeito, de um lado, e objeto, de outro.

 

Foi sua opção. Mas – estarei certo? – ela carrega problemas graves. Primeiro, uma “teologia” dita baseada em Habermas-Rorty-Foucault-Vattimo não é “ciência”? Em que sentido? Porque ela recusa-se a admitir uma discussão epistemológica de si mesma? Não serei tão categórico quanto a Habermas e Foucault, que não domino, mas Rorty e Vattimo recusam-se a discutir o “real”, porque, segundo eles, “interpretação” é idiossincrasia subjetivo-tradicional. Tem-se aí o supra-sumo do idealismo platônico, mitigado pela secularização – bem ao estilo Vattimo. E, contudo, é meu juízo e risco dizê-lo, não resiste a uma leitura – bastaria uma – de O Método, de Edgar Morin. Além disso, o termo “pragmática”, empregado na expressão “lingüístico-pragmática” constitui um abuso do termo “pragmática”, discutido por Kant e Peirce. Aliás, porque indignou-se tanto de que o termo “pragmática” – que ele empregava muito – estivesse sendo usado, a partir de seus textos, de forma tão incoerente e equivocada, Peirce até cunhou o termo “pragmaticismo”, para manter-se fiel à perspectiva original da abordagem, também kantiana, das “ações humanas livres” e “situadas”. Rorty transformou o termo numa ética não-fundacional – quer-se dizer, aleatória. E fez escola. Mas a “pragmática” nada tem a ver com a ausência de critérios para as ações – pelo contrário! Tem a ver com a pesquisa pelos critérios que as norteiam. Gozar, saber, fazer – eis as três pragmáticas. Todo gozar é um gozar igual a todos os outros – embevecer-se com o corpo amado, ou com a flor, ou com a devoção pessoal a um sagrado “qualquer”. Todo saber é um saber igual a todos os outros, se é um saber – “saber” é um processo, não um conteúdo. Nem linguagem é saber, mas condição para o saber. Conteúdos são resultado de pragmáticas. O jogo do saber – o jogo  heurístico – é um só. Ou se joga esse jogo, ou não se joga o jogo do saber. Igualmente, o jogo do fazer é sempre um – a política, em sentido amplo. Estou falando da relação saber/heurística, gozar/estética, fazer/política, câmaras pragmáticas dentro das quais – e só há elas – se operam todas as ações humanas livres (Kant, Peirce). Decidir que não haja fundamentos não constitui saber – constitui um ato político de elaboração de uma cosmovisão a partir da qual se vive, porque se quer. Mas não é assim, também, que as “ciências”, vá lá, fundacionais, se comportam? Sim – com uma diferença – não preconizam solipsismos cosmogônicos. Não inventam seu mundo – negociam-no na ágora teórico-metodológica. As teorias não-fundacionais, não-metafísicas – no sentido apenas de não-epistemológicas – entregam à política as funções heurísticas. Vattimo é bom político. O que é bom. Mas não é um bom epistemólogo. O que é ruim. Porque também a política deve ser – compatível.

 

Logo, cuido que Zabatiero chegue a um termo interessante: negar à teologia seu caráter necessário de ciência – e não há, ainda, que eu saiba, nenhuma teologia científica, e não haverá enquanto o jogo teológico-científico não for discutido (há, decerto, esboços e práticas dessa teologia aqui e ali, mas sem estrutura formal: esforços pessoais isolados). Negar o caráter de ciência à teologia por meio de proposições acadêmicas que neguem o fundamento do “saber”. Não se trata de transformar a teologia, mas de obter para ela cidadania pública, tal qual ela se apresenta na ágora. Afinal, se nada tem “fundamento”, para que a teologia vai querer discutir os seus – que apresente-se, assim, vattimonianamente na ágora, rortyanamente em praça pública. Que seja – mas, advirto: essa teologia não é saber, não é heurística, porque ela é práxis, é política. Quanto às ciências, “é mais adequado para a teologia não submeter-se aos seus critérios de validação” (p. 69-70). Ela mesma, a teologia, determinará seus próprios critérios – quer dizer, vai fazer que os busca na própria academia, entrando em acordo com aqueles “não, não, não, não”. Ah, mas, que coisa, se essa teologia dita “pública” recusa-se a submeter-se aos “critérios de validação” das ciências, como se pode falar de uma “racionalidade (?) do discurso teológico” (p. 70)? Essa teologia, dita pública, vai inventar para si uma razão teológica, outra vez? Racionalização – discursos pseudo-racionais fechados em torno de “doutrinas” fechadas e projetos político-ideológico também fechados (Edgar Morin) – não é racionalidade. Não quer ser ciência? Abandone a pretensão de racionalidade. “Discurso público-racional da fé” (p. 70) é um rótulo não-fundacional (mas com pretensões de fundamento!). Se “da fé”, não é racional – é racionalizado.

 

Todo saber é marcado pela política (Habermas), mas ou é saber, ou é política. Todo saber é marcado pelo poder (Foucault), mas ou é saber, ou é poder. Dar de ombros e fazer do discurso público uma arbitrariedade consensual descolada do real (Rorty) ou a expressão da tradição majoritária (Vattimo) é um jogo – uma política – não um saber. O saber também é um jogo – mas tem suas próprias regras. Não se pode votar sobre quantos quilômetros nos separam da Lua. Muito menos “decidir” se a teologia faz sentido. Tem-se que ir lá, e medir. Tem-se que fazê-la ter sentido. Quer dizer, se ela quer estar na Universidade. Se ela quer fazer-se “saber”. Eu não estou dizendo que a teologia não pode deixar de ser racional, e manter-se o que é – discurso fideísta racionalizado. O que estou dizendo é que, ou a teologia aceita entrar na racionalidade – e ela adiou esse passo desde Barth, que lástima! – ou aceita, sem adornos retóricos, que quer manter-se como expressão discursivo-racionalizada de um conjunto de doutrinas tradicionais, uma pulsão profético-evangelizadora (p. 81), jogo de “deus”. Eventuais palavras bonitas e elaboradas sintaxes que usemos não farão da teologia uma racionalidade – porque a teologia não é compatível. E quer ser? Eu quero que ela seja.

 

 

Da “Cientificidade: uma identidade em mutação” (p. 70-75).

 

 

Suspeito que Zabatiero incorra em um equívoco epistemológico grave já na assertiva de abertura da seção “Cientificidade: uma identificação em mutação”. Eis o que ele escreveu: “no pensamento moderno de corte fundacional (metafísico), acredita-se que há um conhecimento que sirva de fundamento para todos os demais” (p. 70). Bem, isso não é fato. Talvez haja algum “cientista” – herdeiro do múnus teológico, mas secularizado (o Estruturalismo não fora, afinal, um Calvinismo sem Calvino?) – que se faça profeta metafísico-ontológico de uma Razão. Assim como há teólogos que querem a cura dessa teologia. São exceções. Anacronismos. Um, porque está fora de moda, pensa com a cabeça de há várias décadas passadas. Outro, porque pensa com a utopia de amanhã – uma teologia “científica” (e rápido: que será “outra” teologia, completamente diferente da anterior, porque, à anterior, é impossível tornar-se “científica”). O conjunto da ciência, contudo, passa longe disso. Não precisaria recomendar apenas Edgar Morin, gênio vivo, e seu inadjetivável O Método – ali já se sabe o lugar da teologia no concerto das “ciências”, inclusive. Pode-se consultar, no campo das “ciências moles”, Karl-Otto Apel e seus dois volumes de A Transformação da Filosofia (Apel sabe que o “acordo”, hum, “lingüístico-pragmático” [que termo!] não passa de arbitrariedade reducionista, idealismo voluntarista, uma vez que desconsidera a instalação biológica humana na vida eco-situada. Opera-se, ainda aí, a disjunção platônico-cartesiana entre matéria e pensamento), e, no campo das “ciências duras”, um Ilya Prigogine e seus O Fim das Certezas e As Leis do Caos. Pergunte-se a um cientista cognitivista se ele pensa que há “um” fundamento metafísico para “uma” verdade fundacional heperônima – ouvir-se-á um sonoro “não!”. Pergunte-se, então, a ele, se ele postula um “relativismo” – um oba-oba, para resgatar uma expressão de Pondé – em que cada um “decida” o que nos liga ao “real”, e o mesmo e sonoro “não!” reverberará. Passamos da era do pensamento disjuntivo, Zabatiero. Se estou bem informado, é questão de verificar-se – se existe isso de “verificar” postulados, claro –, estamos na época da complexidade – Pensamento Complexo –, na qual a idéia de “um” fundamento absoluto não foi substituída pela idéia de nenhum fundamento absoluto, mas pela idéia de múltiplos e sistêmicos, recursivos e inter-comunicantes fundamentos. Em termos científicos, Zabatiero, não estamos mais nem na era do pensamento versus matéria! As ciências cognitivas “sabem” que o pensamento é, inclusive, “material”. Computar (biologicamente, geneticamente, mecanicamente) transformou-se, em nós, em cogitar (por meio da consciência e da linguagem, lógico-analogicamente). Apenas a mente ensimesmada cuidou ser “de fora” – mas ela mesma, a “mente”, o pensamento, o “espírito”, são (também) orgânicos – o que já sabia aquele que Vattimo adora citar, mas não nesse ponto: “a consciência é a última fase da evolução do sistema orgânico, por conseqüência também aquilo que há de menos acabado e de menos forte neste sistema” (Nietzsche, A Gaia Ciência, aforismo 11). Quando, então, acrescenta que “esse conhecimento [fundacional] é uno (...), verdadeiro (...) [e] irrefutável” (p. 70), Zabatiero não pode estar, então, falando da situação atual da autoconsciência científica. Não encontrará isso, por exemplo, em O Império do Sentido, de François Dosse. Seria recomendável acompanhar as discussões promovidas pela UNESCO em torno da epistemologia das ciências, a começar pela Carta da Transdisciplinaridade. Dei-me ao trabalho de levantar essa breve – mas significativa – “história” da ciência contemporânea, e ela pode ser consultada em seção específica da ouviroevento.

 

Com efeito, Zabatiero reporta-se a uma “batalha” – do século XIX – entre as “ciências” duras e moles – “ciência” versus filosofia – e a teologia, a respeito de qual das três, nos termos de Zabatiero, “ciência”, “filosofia” e “teologia”, detinha a propriedade do “fundamento” da “verdade fundacional”. Segundo Zabatiero, “a cientificidade tornou-se o fundamento” (p. 70). É verdade. Não nos termos em que Zabatiero os coloca – um conhecimento uno, verdadeiro e irrefutável, termos que, a rigor, Zabatiero, prestam-se apenas para designar os postulados da teologia de Agostinho, Anselmo & Co. Porque nunca a “ciência” postulou-se em conteúdo. Ciência é método – e toda a discussão que, desde o século XIX e XX – o XXI não aconteceu ainda –, desdobra-se em torno das relações entre “ciências” e “filosofia”, entre “ciências duras” e “ciências moles”, entre Empirismo/Iluminismo e Romantismo, traduz-se não em discussão acerca de conteúdos unos, verdadeiros e irrefutáveis, mas em termos der meios, modos, métodos, adequados ao “real” e à situação humana. A metafísica morreu enquanto ontologia revelada, mas nãp, absolutamente, enquanto reflexão das condições de verdade e de discurso, em sentido kantiano (cf. Karl-Otto Apel). Seja como for, essa batalha acabou. E a “teologia” não aderiu aos vencedores, não, Zabatiero, porque ela nunca deixou – até hoje não deixou – de ser o que sempre foi: querigma. Seja com Barth, seja com Tillich, seja com Bultmann. Mesmo um Hans Küng que, com uma mão defende – como eu defendo – uma teologia exclusivamente histórico-crítica na Universidade (Teologia a Caminho), com a outra defende um vínculo a Jesus – adesão fideísta voluntarista por meio do método histórico-crítico (Por que ainda ser Cristão Hoje?). O que a teologia fez, Zabatiero – não? – foi, de um lado, ratificar seu caráter “revelado” (Barth) e “fideísta–(Tillich) –voluntarista(Bultmann), e isso na “cátedra” – que ela mantém a seu tempo e modo, sem que haja, aí, a mínima compatibilidade científico-humanista. A teologia não apenas manteve-se eclesiástica, Zabatiero, como levou a(s) Igreja(s) (embaladas em retórica pseudo-acadêmica, mas cripto-fideísta [cripto?[3]]) para dentro das Universidades. No Brasil, agora, é oficial – mas há “efeitos colaterais” que nos proporcionarão cenas engraçadíssimas – também aí vêm as crenças umbandistas!, que, contudo, von Sinner, no artigo anterior, extirpa da “teologia” (que ele postula). Talvez seu artigo, afinal, ao menos chegue a essa vantagem comparativa – discurso “racional” (?) público por discurso “racional” (?) público, tanto faz ser de conteúdo cristão ou umbandista, tudo é “brinquedo”. Tudo é jogo, Zabatiero, mas há jogos que são “à vera”. Outros satisfazem-se com jogar “à brinca”.

 

Você, então, Zabatiero, chega à virada que, aqui, você chama de “lingüística”. O que se descreve é “romântico” – em sentido histórico: todo conhecimento humano é histórico e cultural (p. 71). Verdade. Onde você quer chegar com isso? Dizer que ser um conhecimento – todo ele, todos eles – histórico e cultural é dizê-lo “idealista”, logo, não (em nenhum sentido) material, físico, biológico? Que o conhecimento humano – todo ele, todos eles –, é um arbitrário conjunto de arbitrariedades “lingüísticas”? Nem “nominalismo”, Zabatiero, nem esse caldo imaterial rortyano-vattimoniano. Ambos desconhecem Peirce e a semiótica situada: primeiridade, secundidade, terceiridade. Ambos desconhecem Schopenhauer: Vontade e Representação. Ambos olvidam Freud – princípio de realidade. Morin nem nasceu, ainda, para ambos. Apel nunca foi lido. Ginzburg é uma quimera.

 

E não se trata, Zabatiero, de optar – via “gosto” – por isso ou aquilo, mas de admitir que “conhecimento” é uma condicionante imposta desde a emergência da vida, que computa e que se transforma, criticamente, em consciência que computa-cogita, ainda, o “real”. Ah, depois de dois mil anos de “almas” fantasmagóricas dentro do corpo inútil, uma teologia fantasmagórica, mariposa sem pouso, corvo etéreo a grasnar fonemas volantes. Não, Zabatiero – recalcar o “real” é, desde Freud, diagnosticado como patológico. Essa teologia que rápido corre para o colo da “turma do tudo é relativo” e do “nada tem fundamento” carece, urgente, de análise psicanalítica. Do que ela tem medo? Do que ela não quer abrir mão? A que ela não quer ceder? Relações de Força, de Ginzburg ensaia algumas hipóteses no campo do tema da dissolvição heurística da História, que, durante o século XX, muito se quis dizer ter morrido. Ah, ironia, ela renasceu dentro da Química, da Física (Newton acabara com o “tempo”, na Física, porque, cristão, a Verdade [=Deus] é parmenideana, logo, atemporal, como a “verdade física” deve ser [Prigogine]), da Astrofísica – ah, lá, o dedo de Prigogine, apontando. O Universo é História. E isso não é, Zabatiero, “questão de gosto” – há fundamento nisso, que o estudo dos sistemas dissipativos abertos “revelam”. Não é por outra razão que, olhando para muito, muito longe, para além do “Big Bang”, Morin se pergunte sobre o que “havia” antes daquela singularidade.

 

A citação que se faz de Rorty fala por si mesma, e denuncia o problema da abordagem. Zabatiero “pega” Rorty no momento em que ele se posiciona a favor de uma posição didática da parte dos “formadores de opinião” (Rorty entre eles: “nosso principal trabalho”) em “convencer” – palavras de Rorty – “os cidadãos das comunidades democráticas de que eles não conseguirão obter melhor orientação política de cientistas e tecnólogos do que a que, no passado, obtiveram de sacerdotes e filósofos” (p. 71). Rorty tem pulsões de “dizer” a tais comunidades que elas, as mesmas, “não podem ser fixadas nem pela ‘realidade’, nem pelos pretensos experts em realidade (...). Devemos dizer-lhes, no espírito da ‘razão comunicativa’ de Habermas, que não necessitam respeitar outra autoridade além da dos acordos que eles mesmos construam livremente” (p. 71). Ou seja, as comunidades são bolhas de sabão, mônadas, radicalmente deslocadas de tudo, do “real” e dos especialistas. É mesmo uma imbecilidade humana que anos sejam gastos para a formação de um cirurgião, e que instrumentistas sejam tão recomendados – pode-se abrir caixas torácicas, livremente, com picaretas, caso a comunidade o queira! Ah, Rorty, beira a irresponsabilidade esse seu discurso. Para não dizer que não há nenhum jogo republicano ou democrático no planeta em que a “ciências” seja fundamento. Rorty não está falando ao “jogo” democrático. Está esperneando contra o argumento científico de objetividade, e da sua reivindicação – legítima – de que há que se submeter ao real, sim.

 

Essa é a “teologia pública” que Zabatiero quer? Às favas o “real”! Às favas os “especialistas”! Viva a “liberdade” – ou melhor – o delírio. Não me espanta que Freud chame a isso “neurose”, e, Marx, “alienação”. Como, santo Deus, recalcar o “real”? Nem mesmo um fideísmo voluntarista rortyano, supostamente “fundamento” na “não-fundamentação”, um alicerce filosófico não fundacional como fundamento!, pode lograr êxito nessa empreitada, porque o “real” cobra caro pelo desprezo que chega a sofrer das “consciências” humanas. Rorty já ouviu falar de “ecologia”, por exemplo? Ah, sim, é verdade que as práticas políticas “situadas” de comunidades igualmente “situadas” possam, eventualmente, prescindir de uma “adequada” concepção do “real”. Uma política “local” poderia, eventualmente, constituir-se “democraticamente”, por assim dizer, a partir de voluntarismos descolados da “realidade”. Política não é heurística! Postular, contudo, que a prática política, no todo, possa fazer-se como que se a base sociológica a partir da qual ela é encenada não deva situar-se adequadamente no nicho ecológico em que se situa, é, para dizer o mínimo, equivocado.

 

O postulado do deslocamento político-social do “saber” heurístico científico-humanista é o que é: um postulado. Uma arbitrariedade discursiva. Na melhor das hipóteses, numa tentativa de “aproveitar” algo de eventualmente aproveitável aí, restringir a sua validade para áreas muito secundárias do jogo político. Nisso, Rorty não está sozinho. Vattimo postula o mesmo descolamento: “a vontade de domínio dessa ou daquela corporação de ‘técnicos’, de especialistas, de pessoas que se sentem autorizadas a decidir por nós. Em geral, um regime democrático tem necessidade de uma concepção não metafísico-objetivista da verdade; do contrário, transforma-se imediatamente em regime autoritário” (Vattimo, “A Idade da Interpretação”, em Vattimo e Rorty, O Futuro da Religião, p. 71-72). Aí está – “solução” política por meio do postulado de um deslocamento democrático da ecosfera. Mas de que modo pode essa “democracia” decidir a respeito de desmatamento ou não desmatamento? Pelo uso ou não de células-tronco embrionárias? Pelo manejo genético de espécies vegetais? O “gosto” democrático da comunidade – ou seja: um pé de soja geneticamente modificado em nada difere, democraticamente falando (são iguaizinhos – por fora!), do que um pé não geneticamente modificado. A comunidade vai “votar” com base em quê? Não será com base nas conseqüências – cientificamente analisadas! –? As leis anti-tabagismo podem ser classificadas como “capricho” de uma parte não-democrática da população, que não enxerga – absurdo! – o “direito” – democrático! – de uma outra parcela da mesma comunidade fumar em público? Qui prodest? A que – a quem – interessa um postulado de descolamento entre política e ciência? Não, certamente, à sociedade. Não, certamente, a uma “teologia científica”.

 

Na seqüência, Zabatiero passa para uma análise do critério de “cientificidade”. Na esteira de A Filosofia da Ciência, de Rubem Alves, defende que “no pensamento pós-fundacional, as ciências devem ser vistas como uma especialização do senso comum, via argumentação e consolidação provisória dos seus saberes, de modo tal que a cientificidade passa a ser concebida como uma espécie de ‘acordo comunicativo na comunidade científica’, baseado em um conjunto específico de critérios de validação dos enunciados científicos” (p. 71). Se um tal enunciado não “brinca” com os próprios enunciados, como as crianças, com bolhas de sabão, ao sabor do vento, mas considera que “o critério de validação” desses enunciados, aqui mais, ali menos, mas, em todos os casos, necessariamente, sempre, “negociam” com o “real” por meio de também negociados métodos de aproximação e verificação, então desmonta-se todo o arrazoado “pós-fundacional”. Por outro lado, se os “enunciados” são, aí, tratados como “meros” enunciados arbitrários e voluntariosos, de imediato resulta-me impossível levá-los a sério. Não se pode fazer enunciados sobre vírus e suas conseqüências no organismo. Senhor Vírus, vou fingir que lhe aplico uma vacina, e o Senhor finge que pára de funcionar, está bem? Podemos “votar”? E mais – o “vírus” respeitará nossa votação? Reconhecer – e isso já se fez – que esse “conhecimento” humano, científico, sim, imensamente “superior”, sim, ao senso-comum – ainda que, já chegaremos aí, originado dele –, não é “divino” – não subsume-se à “primeiridade” peirceana, mas à secundidade e à terceiridade semióticas (Peirce), à representação (Schopenhauer) lógica/analógica (Morin) – não significa dizer que é mera “construção” imaginativo-discursiva. Se há a dimensão imaginativo-discursiva noológica da “reconstrução”, sua validade operacional é justamente a sua adequação ao “real”. Se O Método, de Morin, ultrapassa eficiente e eficazmente os postulados idealistas de Platão e Descartes, é de admirar-se que ainda insistamos em postulados voluntariosos como os de Rorty e Vattimo. Nada se ganha desprezando-se o “real”. No fundo, é o “reflexo” positivista – reagir ao positivismo com um contra-positivismo, assim como o ateu reage ao teísmo com um contra-teísmo. No fundo, os mesmos equívocos: há Deus, eu vi! Não há Deus, eu “vi”. Há leis determinantes das relações humanas, eu as medi! Não há leis algumas, eu garanto! Quanto a mim, quero distância desses antagonismos disjuntivos. A complexidade e a transdisciplinaridade não se constituem por meio de voluntarismos. “Avançam”, por meio de muitos recuos, desvios, contornos, enfrentamentos, diálogos, negociações, investigações, perquirições, testes, hipóteses, deduções, circunlocuções, recursos, verificações. Rorty e Vattimo – e também tu, Zabatiero – olham tudo por meio da “voluntariedade”. É simples. Mas será “verdadeiro”?

 

Antes de prosseguir, uma recomendação – seria conveniente que Zabatiero, servindo-se da observação, até certo ponto pertinente, de que a “ciência” reflete, em nível sofisticado, os traços já presentes e a-sistemáticos do senso comum (p. 71), considerasse necessário continuar nessa toada, e concluir que, afinal, o conhecimento não é uma mariposa da mente, uma ação da “alma” platônica, desligada da matéria, mas, nas esteira das ciências cognitivas, assumir que, assim como, a seu modo, a energia, também o “espírito”, a seu tempo, emerge da matéria, é nesse sentido, “material” – se não constituído de carbono, também não sem consumo de calorias, de oxigênio, nas mitocôndrias. O cogito ergo sum tem validade apenas aproximadamente, porque, sim, é verdade que o cogito surge com a emergência da consciência e da linguagem – mas ele não é fundamento de coisa alguma, uma vez que é o aparelho psíquico e orgânico, constituído pelo sistema cerebral, que permite a emergência crítica do sistema noológico propriamente humano. O mundo voluntarista de Rorty é uma “brincadeira” filosófica – não existe. O que de fato existe, a despeito de nossa atitude de recalque, é a emergência humana desde o mundo vivo e animal da computação biológica – onde encontra-se o fundamento do “conhecimento” em seu sentido mais profundo – adequação ecológica ao “real”, condição sine qua non para a “vida” e a “sobrevida” – a “verdade” é “meramente” comunicativa, mas o trigo está na dispensa mesmo. A “hermenêutica” de Vattimo e o “pragmatismo” de Rorty pretendem que nós, humanos, criemos um mundo só nosso. É como aquela anedota a respeito de Garrincha e das instruções que o técnico lhe dá para driblar todo o time adversário e fazer o gol e ganhar a partida: “quanto a mim está tudo certo, ‘professor’. Falta só combinar com os zagueiros”. Computação biológico-ecológica – senso comum – ciência. Aí, sim. Essa teologia, sim.

 

Não acho que deva, aqui, aprofundar o debate em torno dos critérios de cientificidade que Zabatiero levanta – exigiria dezenas de parágrafos, e nem sei se me encontro pronto para a tarefa – cuido que não. Seja como for, não é sem propósito que Zabatiero levante a questão. A questão está dada. Ela não é recalcada pelos jogadores das ciências, sejam aqueles de “laboratório”, sejam aqueles ligados às Humanidades. As indicações de “superação” do conflito que Zabatiero considera, isso é que não estou disposto a aceitar. As condições do “conhecimento” humano e os critérios de verificação desse conhecimento têm me levado a leituras, na tentativa de construir uma “saída” pessoal para a questão – para mim, “a” questão. Rorty e Vattimo apontam uma saída – mas ao preço de eu fingir que o mundo é uma bobagem, que a matéria, desprezível, que a “situação” ecológica da espécie, um sofisma. Não gastarei um centavo com esse “bem” de consumo. Prefiro “apostar” no trabalho duro de caminhar muito lentamente, sem que o bonde precise parar para que eu entre nele. São aqueles caminhos já trilhados por pesquisadores como Edgar Morin (e toda a plêiade de signatários da Carta da Transdisciplinaridade – ali há desde filósofos até físicos “quânticos”), Ilya Prigogine, Karl-Otto Apel e Carlo Ginzburg (“paradigma indiciário”).

 

Não se trata de “escolher” entre cientistas, filósofos ou “sacerdotes”. Zabatiero põe as coisas como se uma tal coisa resolvesse a questão. Trata-se de reconhecer que a regra do jogo heurístico foi transformada inexoravelmente pelo século XIX (Romantismo), que não subverteu os séculos XVII e XVIII (Empirismo e Iluminismo), mas estabeleceu bases antropológico-noológicas que aqueles séculos haviam desconsiderado. O século XX tinha de ser – como foi – um século de discussões graves, porque, aparentemente, os dois “blocos” – com suas respectivas cosmovisões – seriam incongruentes. Bem, depois de setenta longos anos de discussão, desde a década de 70 do século XX que emerge uma consciência transdisciplinar e complexa que põe em diálogo – sem fundi-las – as duas plataformas. Doravante, não se apostará no “reino” da idéia – idealismo – nem no “reino” da matéria – materialismo –, no “reino” da Natureza, ou no “reino” do Homem: doravante, Homem e Natureza estarão “ligados” complexamente – e o “conhecimento”, se “conhecimento” quiser ser, deverá levar em conta os dois pólos. A participação humana no conhecimento não é a subjetivação da verdade, mas a condição perspectivista de toda intervenção humana.

 

Pois bem – depois de esse longo “diálogo”, chega a hora de pôr o dedo na ferida. Sim – não cheguei a pôr, ainda. Refiro-me à conseqüência – não me admiro – que Zabatiero “extrai” de seu recurso à condição política da cientificidade. Cito-o:

 

Uma conseqüência da discussão acima é o reconhecimento de que, se as ciências humanas, em relação às naturais, padecem de um déficit de cientificidade, a teologia, em especial, por causa de seu objeto – deus – padece de um elevado déficit de cientificidade – ou seja, ao estudar deus e suas relações com a sua criação, a teologia cristã inevitavelmente se distancia dos critérios de cientificidade das ciências ‘naturais’” (p. 73).

 

Não sei se Zabatiero me lê – muito menos se “até aqui”. Mas é justamente nessa sua citação, Zabatiero, que, a meu ver, reside seu equívoco – e daí decorre sua estratégia e tática de “legitimação” do que, então, seria – discordo, claro – uma “teologia racional (?) pública”. Digo-o de modo direto e franco: não está em jogo, Zabatiero, perguntar se a “teologia” crente tem lugar na academia. Quanto a isso, a resposta é “não!”. Não há lugar para uma teologia confessional na Universidade. Ela não precisa, a teologia, ser atéia, mas tem, obrigatoriamente, de ser cética. Assim, seu artigo poderia ser reduzido a isso: “Senhores teólogos. Erramos. Não poderíamos estar no MEC. Somos crentes. E crentes cristãos. Depois, teólogos. Nossa teologia é racionalização secundária de nossa fé primária. Debandar”. O que me interessa, contudo, Zabatiero, como teólogo, é justamente o contrário: “Senhores da Universidade. Sou teólogo. Gostaria de poder trabalhar junto com os senhores. Aceito as regras do jogo. E quero, antes de tudo, conceber uma teologia não-crente, não-confessional, não-voluntarista, que pudesse ter lugar na Universidade. Aceito ajuda”. Ou seja, seu artigo não nos ajuda – e ele se transformará num marco profético caso seja verdadeiro – mas não aposto que seja – que “teologia” tem por objeto “deus”.

 

Tem? Se tem, não apenas essa teologia tem que sair rapidinho da Universidade, quanto confessar que apagou da lousa todo o século XIX. Dizer que o objeto da teologia é “deus” – mesmo à luz da nota 11, em que você postula que “deus” seja alcançado não em si mesmo, mas por meio de sua relação com a criação (argumento igual encontrei no artigo de von Sinner) – é pronunciar-se como se Kant não fora Kant, Schopenhauer não fora Schopenhauer, Feuerbach não fora Feuerbach, Marx não fora Marx, Freud não Fora Freud, Nietzsche não fora Nietzsche – e nenhum deles nos tivessem dito e ensinado tudo quanto disseram e ensinaram. Sem lês, Zabatiero, nem Deus nem Jesus fazem qualquer sentido para o homem e a mulher modernos. Segundo meu juízo, nem mesmo nas igrejas deveríamos ousar dizer uma coisa daquelas, Zabatiero, conquanto não vá me meter nesse vespeiro. Mas, ouvi-lo, na Universidade – não posso. E concordaria – uma teologia desse tipo, que tem em “deus”, em “Deus”, ou nos “deuses”, seu objeto, tem mesmo é de bater em retirada, e eu ajudo com prazer a fazer a mudança. Para manter a estrutura de sua definição, seria admissível apenas uma teologia cujo objeto fosse “o pensamento humano sobre ‘deus’ (melhor, “o sagrado”)”. Já leu  O Método 3, o Método 4, de Edgar Morin? Lá já está a base universitária para uma teologia universitária. O que passar daquilo é “crença”. Não, Zabatiero, “crença” não é “saber”. Até Pascal sabia disso.

 

“‘Teologia não é ciência’” (p. 75), você diz. Logo, não é “conhecimento”, digo eu. E você está – em parte – certo. Em parte só, porque diz que essa teologia, não-científica, pública, é “racional”. Não, não é. Mas está certo, no sentido em que assume que uma dada forma de “fazer” teologia não é, mesmo, “ciência”. Reduz-se a repetir querigmas inventados na história, mas tomando-os como que oriundos do além, sabendo que eles são históricos, mas não levando isso muito a sério – e Marx não estava, então, certo? Ora, Zabatiero – desde que eu sei que os querigmas, todos, e não apenas cristãos, são “históricos”, de imediato uma teologia feita antes dessa consciência torna-se, inapelavelmente, “mito”. Quando Bultmann vai ao Novo Testamento, supostamente com a tarefa hercúlea de desmitologizá-lo – no que eu o acompanho – mas volta de lá com  um querigma, qual?, o mesmo, aquele sempre paulino, agostiniano, anselmoniano, luterano, barthiano, eu me pergunto: “Ei, Bultmann, mas, espera aí, não íamos ‘desmitologizar’? E por meio de que prestidigitação ‘sobrou” esse querigma?”, então o existencialista Bultmann, de pronto, responderia: “porque eu quero, Osvaldo, porque eu quero”.

 

Ora, Zabatiero, o que fazemos de e com nossa “consciência histórica”? Sua proposta exige um homem e uma mulher medievais. Ser cristão – tornar-me pré-histórico. Não posso, Zabatiero, fingir que não sei como “deus” foi e é construído – particularmente o “nosso”, Zabatiero. Desse, não posso falar como “deus”, mas como idéia cultural humana. De um outro eventualmente Outro não posso falar, porque sou um homem de consciência histórica grave. Posso, eventualmente, elaborar – e elaboro: sou místico – meu mito pessoal, minhas conversas com minha Idéia, e, eventualmente, emocionar-me, durante esse “encontro”. Mas não posso transformar isso em “saber” – isso sequer é “teologia” – é pura experiência estética. Tornar isso instrumento “público” somente à custa da ignorância das massas – as “ovelhas” sabem disso, Zabatiero? Não, não sabem – e/ou da alienação humana, não posso (não há mais uma ética ontológica em mim, mas restou-me uma consciência ética). Ri-se Marx, e Freud põe mais anotações em seu caderninho. Ah, sim, não é necessário que a consciência histórica moderna transforme a “ciência” em fundamento. Basta que ela reconheça, Zabatiero, que se o jogo é a Heurística – a “ciência”, de modo geral – física, biologia, química, antropologia, psicologia etc., duras e moles, inclusive a filosofia e, eventualmente, uma teologia que aceite a quenosis –, é não apenas a porta de entrada, mas a única porta de entrada. A Estética é subjetiva e cultural. A Política, inter-subjetiva, democrática e ecológica. A Heurística, científica. Onde você põe, aí, a religião, Zabatiero – e a “sua” teologia? Porque não existe outra atualização teleológica humana além dessas três. Se a teologia não é ciência, resta-lhe ser política ou estética. Como estética é pragmática solitária, resta admitir que uma teologia não científica constitui-se fenômeno político. “Bento que bento é o frade. Frade. Na boca do forno. Forno. Tudo que seu mestre mandar? Faremos todos. E se não fizer? Levaremos um bolo[4]”.

 

 

Da “Da racionalidade da teologia enquanto não-ciência (p. 75-80)

 

 

O parágrafo de abertura da seção é importante. É preciso analisá-lo. Talvez não devesse. Não domino Habermas. Mas posso dialogar com o “parágrafo”, e a validade de minha crítica dependerá, de um lado, da fidelidade de Zabatiero a Habermas, e, de outro, de minha capacidade de, por um lado, “ler”, e, de outro, “refletir” criticamente sobre o que li. Sincronicamente, eis o postulado constante do parágrafo. A razão é plural, o que seria conseqüência do não-fundacionalismo (próprio da “virada” lingüística – a rigor, isso constitui um fundamento não-fundacionista!). Trata-se, contudo, de uma pluralidade na unidade. A sua unidade seria constituída pelo fato de que todas as racionalidades – “todo saber humanamente produzido” – são produzidos lingüisticamente. Em decorrência disso, “conhecimentos verdadeiros são todos aqueles conhecimentos validados argumentativamente por uma comunidade real de comunicação” (p. 75). Logo, “há conhecimento verdadeiro que não é científico”. Mas “só é verdadeiro, porém, o conhecimento que seja racional (ou seja, validado argumentativamente, ou, na terminologia de Habermas, discursivamente validado).

 

Assumo o risco de precipitação – mas não posso concordar com esse parágrafo. Nem com o pressuposto de entrada, nem com as conclusões. Concordo que a “razão” humana é múltipla. Mais do que isso, a razão humana sequer é, de fato, o fundamento, para o “conhecimento”. Em sua dimensão lógica, ela funciona muito mais como critério crítico de validação do conhecimento do que, propriamente, com função “criadora” – pelo menos não exclusivamente. Ao lado da lógica, a analogia – muitas vezes sub-racional. Ponto. Tomando, contudo, a pluralidade das racionalidades (pressuposto fundamental do Romantismo em seu confronto com o Iluminismo), em que sentido se pode dizer que a sua unidade reside na formulação lingüística? Pode-se validar lingüisticamente a quantidade de ossos do corpo humano? Ou teremos de contar quantos ossos há no corpo? Chineses, esquimós e brasileiros podem “decidir” validar discursivamente que, digamos, o esqueleto humano tenha, respectivamente, um, dezessete, e setenta e dois ossos? Ah, sim, sem a linguagem não há cultura, sem cultura, não há “verdade”. Mas a verdade não é uma questão de “discurso” e de “validação discursiva”. Não exclusivamente. Quando a validação discursiva da Igreja confrontou a luneta e o empirismo de Galileu, venceu que verdade? Essa “virada” lingüística que mais é se não o mesmo platonismo dicotômico, dualista, disjuntivo – espírito e matéria, linguagem e mundo? Deixemos a linguagem, porque, sem ela, não há como emergir a cogitação cerebral humana – consciência, linguagem e pensamento são, nesse sentido, intercambiáveis, sem tornarem-se sinônimos, nem fundirem-se, contudo. Mas tragamos para o cenário também o “real” – que, mais uma vez, recalca-se, como se a democracia, o voto, o consenso, fosse um simulacro de “conhecimento”. Uma coisa não é verdadeira porque um grupo de pessoas decide que é. Ela é verdadeira em sentido complexo, quando há adequação entre essa dimensão discursiva da comunidade real de comunicação e o real (Karl-Otto Apel, que, nesse sentido, recorre sensivelmente a Peirce). Recorrer ao Teorema de Gödel – nenhum sistema possui em si mesmo os critérios de verificação de sua própria validade – levaríamos a perceber que o sistema lingüístico em si mesmo não pode – em nenhuma circunstância –, sozinho, decidir nem validar coisa alguma (salvo injunções pragmáticas políticas, “acordos democráticos”, nesse caso, legítimos – desde que não descolados, também eles, da base ecológica da ação da sociedade política [além disso, o não-fundacionismo postulante não pode demonstrar o não-fundacionismo – pode, apenas, postular, e torcer para que a proposta seja aceita]). Nenhuma das disciplinas das “ciências” pode validar-se sozinha, nem por meio de seus próprios recursos, nem por meio de uma decisão lingüístico-discursiva de seus jogadores. Uma disciplina científica precisará necessariamente de meta-sistemas de verificação, que, por sua vez, precisarão de outros meta-sistemas, que, eventualmente, poderão constituir-se, inclusive, por aquela primeira disciplina. A complexidade se dá na interface ininterrupta, inacabada, incontornável, entre linguagem e real, um “coito” fertilizador espiralado, complexificador, recursivo, manejado pela comunidade real de comunicação. Quando esta, cansada, ou por quaisquer outras razões mais ou menos nobres, fecha-se platonicamente na idéia, ou “wittgenstein” e “rortyanamente” na “linguagem” – pressenti um risco habermasiano também, mas talvez seja fruto da leitura de um parágrafo isolado. Não me consta que Habermas tenha caído no solipsismo lingüístico-comunitário – e, se caiu, está equivocado, porque simplifica e reduz o real à linguagem, perde a capacidade ecológica de interagir com a base material de sua emergência histórico-biológica. Não é apenas da ecosfera que o Homo sapiens se nutre biologicamente – também a ecosfera nutre-se de suas carnes! É, também, da ecosfera que o Homo sapiens extrai os “dados” com os quais, na história, na cultura, na consciência, na linguagem, no discurso, constrói seu mundo. Há um princípio de simplificação no argumento de Zabatiero que torna muito pobre o raciocínio. Não se pode afirmar, inequivocamente, que a “ciência” entende perfeitamente bem a relação entre linguagem e real, muito menos que tenhamos, já, elaborado um conjunto igualmente inequívoco de ferramentas para resolver o problema da crise de verificação do conhecimento humano. Mas pode-se dizer, sem medo, que não está na linguagem, isoladamente, a solução. O recalque, sim. Também na linguagem, mas, não, apenas nela.

 

Na seqüência, Zabatiero expõe o conceito habermasiano de racionalidade. E aqui encontro o problema-chave da retórica do artigo. O que em Kant constitui-se pragmática – saber, sentir, fazer, ou, dito de outro modo, heurística, estética, política, o que corresponderia às dimensões cognitiva, afetiva e volitiva da consciência humana –, Zabatiero afirma que Habermas transformou em racionalidades – três racionalidades: a) técnico-instumental, b) expressiva e c) normativa. Salvo melhor juízo, não considero adequado converter estética em racionalidade, muito menos política em racionalidade. Racionalidade constitui elemento da pragmática heurística, que é independente, teleologicamente, das pragmáticas estética e política. O que Habermas quer chamar – e deverei aprofundar minhas pesquisas em Habermas, para, eventualmente, ratificar ou retificar esse meu juízo, que o pronuncio à luz do testemunho de Zabatiero – o que Habermas quer chamar de racionalidade normativa deveria melhor ser reconhecido como expressão da atualização teleológica humana da pragmática política. O que Habermas chama de racionalidade expressiva é, na verdade, a estética, que nada tem de necessariamente “racional”. Se Zabatiero está correndo em descrever o pensamento de Habermas, e se eu leio corretamente Zabatiero, e se Habermas não disse outra coisa alhures, receio que o jogo de Habermas é encerrar a prática política de recorte discursivo, retórico – político – no registro retórico da “racionalidade” (científica!) para, negando à ciência seu caráter distintivo, fazer de tudo “racionalidade”. Agora talvez eu possa entender porque há quem fale em coisas do tipo “a arte também é uma forma de conhecimento” – porque, se a “expressão”, isto é, não se descuide disso, a “estética”, é uma “racionalidade”, logo resulta correto dizer que admirar O Abapuru constitua uma experiência de “conhecimento” – e não é. Nem o pintá-lo o foi, posto que a expressão estética não é conhecimento, mas a discursivização – política – do conhecimento, nem o gozo estético do quadro pintado é “conhecimento”. Mas se Habermas faz, de tudo o que o homem e a mulher fazem e podem fazer, expressão de “racionalidades” – logo, ah, macacos me mordam se isso não é uma ação política consciente!, de “conhecimento” racional –, então “vale”, na ágora política, que eu me expresse retoricamente tanto com base no que eu sinto, quando passo meia hora olhando o pôr-do-sol, quanto com base nos registros heurísticos da detecção de neutrinos na “caverna de sal” japonesa. Tudo é conhecimento. Tudo – não passa de – linguagem. Aliás, essa sobredeterminação do termo “racionalidade” como hiperonomia de todas as ações humanas que, de outra forma, em lugar de serem todas hiponimamente “racionais”, seriam, ora heurística, ora estética, ora política, parece constituir procedimento retórico semelhante àquele outro de estabelecerem-se “inteligências” variadas – inteligência musical, inteligência emocional, inteligência motora etc. Tudo é inteligência. Tudo é racionalidade. A teologia – aquela mesma, platônico-agostiniana, é – agora entendi! – “racional”.

 

Não, não é, não, Zabatiero. Insisto, essa teologia não-científica, abre mão de ser heurística – de verificar se pode tornar-se ciência. Você decide – não, não é. Logo, resta a ela não a “racionalidade expressiva” ou a “racionalidade normativa” eventualmente habermasianas, mas a sua condição alguma coisa entre estética, então, não saber, e política, e igualmente, então, não saber. Mas você pensa categoricamente que a teologia é um tipo de saber que se articula com as dimensões social e pessoal do mundo – e, então, escreve o aposto: “dimensões normativa e expressiva da racionalidade” (p. 77). Se o jogo for puramente lingüístico, digo que não jogo esse jogo, e não aceito essa jogada. Se o jogo for complexo, ou seja, deve haver inter-fertilização entre a linguagem e o real, game over. Por que game over? Ora, porque não há uma racionalidade política e uma racionalidade estética, Zabatiero, por mais que, eventualmente, Habermas queira que haja. O que há são três câmaras teleológicas em que as ações humanas se desdobram – heurística (campo da racionalidade instrumental), estética e política.

 

Ao contrário do que você diz, não é “antiquada” a “querela ‘fé versus razão’” (p. 77). Fé não é razão. Fé é tão-somente racionalização. E mesmo com o jogo retórico de fazer a voluntariedade política assumir ares de “conhecimento racional (?) público” não se consegue disfarçar o fato de que se trata, afinal, de “racionalização” – essa teologia não pousa nunca sobre a terra, ela é aquele corvo sem pernas, a grasnar sobre os telhados. Como lhe fecharam o céu – agora ele é de chumbo – pobre infeliz, vai ficar voando entre palavras, párea na terra, anjo caído do céu. É compreensível a “saída”. Mas não me parece nada honrosa. E, se me permitir – é como se eu tentasse andar com o cavalo em K, e não em L.

 

Para terminar a seção, apenas mencionar que você avança para tratar a “racionalidade” – que eu nego a esse recorte – da teologia (trata-se de racionalização, não de racionalidade) como relacionada não apenas à coerência interna da linguagem teológica – campo proposicional do discurso. Você dirá que a teologia tem um vínculo com a “práxis da fé” (p. 78-79). Nesse sentido, ela se constituiria como “uma teoria crítica da fé vivida”. Aqui haveria caminhos férteis – como suspeito os haja na proposta de Enio Mueller, se também ele não me “esconde” conceitos cristãos dentro da “esperança” – o que poria a perder sua tentativa de um postulado epistemológico para a teologia que possa ser manejado no MEC. Mas quando você faz isso, Zabatiero, quando você quebra a casca do ovo onde colocara a teologia – a linguagem, o discurso –, salta no meio da arena a questão pelo critério crítico. Já aqui me parece que aquela tensão superficial da bolha lingüístico-pragmática (ai, que termo!) em que você enclausurara a teologia não suporta a pressão, e a bolha estoura. Você diz que “teólogas e teólogos não podem aceitar (ah, não, é? Por que não? Com base em que não podem aceitar o que quer que seja?) e compactuar com formas de vida cristã que reduzam a fé aos interesses institucionais que regulamentam a vida de seus fiéis” (p. 79). Ora, e se “os fiéis” o quiserem, Zabatiero? A validação não se dá no discurso? Não é na arena da linguagem e do discurso que a “verdade” se decide? Ora, e porque, então, resistir contra a maioria? E porque, então, insurgir-se contra a “voz” da maioria? Ou o meu sentimento de que meu discurso é mais verdadeiro do que o discurso pretensamente verdadeiro do outro é suficiente para eu estabelecer um regime de exceção à regra da validação do “verdadeiro” por meio da comunidade real de comunicação, promovendo revolução aí até que essa comunidade real de comunicação “entre”, “caiba”, “aceite” meu discurso, “articule-o”, para, então, voltar a valer a regra segundo a qual é a comunidade real de comunicação que valida o “verdadeiro”? Gramsci não sabe que se alguém não meter a mão na massa, a massa fica “quarando ao sol”, porque, por si mesma, a massa não vai fermentar? Gramsci está escondido nessa definição da teologia como teoria crítica da fé vivida?, como de resto em muita “leitura popular da Bíblia”? Ou essa “democracia” teológica é como aquela outra, em que, ao lado de “delegados”, hum, digamos, “normais”, há os “super-delegados”? Quem dirá aos “super-delegados” o que é ético, Zabatiero? O “discurso”?

 

Decida-se, Zabatiero – ou a validação é discursiva, sem critérios extra-discursivos (a verdade é cínica), ou há critérios extra-lingüísticos (praxiológicos, por exemplo, mas, e agora, quais os critérios para a crítica da práxis? Lingüístico-pragmáticos, também?) no conjunto dos procedimentos de validação do “verdadeiro”. Toda a estrutura de circunscrição da teologia como racionalidade discursiva rui. Não tem base. Não tem fundamento. O que é constrangedor, quando, de discurso, ela, a teologia, quer transformar-se em ação profética, crítica, o que envolve, sempre, inapelavelmente, verdades mais verdadeiras do que verdades menos verdadeiras. Está certo – para uma teologia não-científica, teólogos-profetas. Ah, Marx, quem educará os educadores?

 

Encerro a seção. Você conclui assim: “teologia não é ciência (...). Teologia é saber racional, pode e deve ser validado argumentativamente, na comunidade acadêmica teológica, em resposta a fé vivida e em diálogo com a comunidade acadêmica em geral” (p. 80). Pois bem. Você está certo – a teologia, tal qual ela é e tem sido desde que Platão escreveu o termo – não é nem nunca vai ser ciência. Para o ser, teríamos que transformá-la, fazê-la experimentar a quenosis romântica. Mas você não quer. Assim, faz bem em deixá-la fora do concerto das ciências. Mas, então, lamento, não é correto dizê-la “racional”. Essa teologia constitui uma cosmovisão racionalizada, que pretende substituir o “real”, que se basta, sem ele. Racionalização de alto teor especulativo! Sim, pode ser legitimado pela comunidade – apologia que é? Numa comunidade teológica “acadêmica”? Apenas como apologia e racionalização dogmática. Não vejo como haver diálogo entre essa teologia e a “comunidade acadêmica em geral”. Poderia ser, antes, pesquisada por ela, como um fenômeno interessante de resistência política e recalque do real – eu, eventualmente, me interessaria em estudar a mútua condição opiácea e excitante da “teologia”. É verdade que há “acadêmicos” perdendo a vergonha que tinham de manifestarem sua religiosidade, e mesmo seu vínculo formal a religiões, no espaço acadêmico – e falo aqui também de kardecistas, umbandistas, budistas, que, ao mesmo tempo, são pesquisadores universitários. Mas, convenhamos, Zabatiero, isso fez das respectivas religiões, também da nossa, saber racional? Não é preciso ser “racional” para ter valor social e cultural – futebol é racional? Cinema é racional? É necessário, contudo, que as expressões da cultura que devem ser racionais – expressões teleológicas de pragmática heurística –, essas, sim, sejam verdadeiramente (complexidade real versus linguagem e linguagem versus real) racionais. Quero uma teologia assim. Cansei daquela.

 

 

Da “Publicidade: teologia como discurso público da fé (p. 80-85).

 

 

Finalmente descubro o que se trata, para Zabatiero, de dever ser a teologia, “pública”. O termo é articulado em oposição a “privado” e a “estatal”: “todo o trabalho para a elaboração rigorosa de saberes teológicos [entretanto, sob meu juízo, não há saberes teológicos, contudo, se a teologia é não-científica, senão “estéticas” ou “políticas” teológicas] deve estar a serviço da esfera pública. A teologia não pode ser praticada em defesa de interesses privados, nem de interesses do setor estatal” (p. 80).

 

Na prática, o que isso significaria? Para Zabatiero, que a teologia “ouve” as “comunidades eclesiais-em-missão” [imagine-se um conceito de missão “cristã” na universidade!] às quais pertence [logo, essa teologia é provinciana, normativa e fideísta-tradicionalista, mas isso Zabatiero já confessou] e lhes responde com seus saberes” (p. 80). Não me cansarei, contudo, de refutar – não há saberes aí, Zabatiero, apenas instruções políticas. Não importa se Habermas chame a isso “racionalidade normativa” – trata-se, ao fim e ao cabo, de injunção político-normativa, orientação ética, que seja. Mas ética não é saber – é práxis.

 

Não atino, contudo, como uma teologia não-científica possa, agora, tornar-se “saber hermenêutico e crítico a serviço da busca incessante de conhecimento válido e verdadeiro – científico e racional” (p. 80-81). Por meio de retórica homilética? De analogia evangélica? É essa racionalização querigmática que Zabatiero toma por “saberes”, seus saberes, da teologia, com os quais (?) ela responde à “academia”, depois de ouvir seus diferentes setores? Ora, nos termos da “academia”, não há que perguntar-se absolutamente nada à teologia, porque ela não é ciência, não quer ser – insiste em ser parceira de “deus” – e não aceita humilhar-se à condição quenósica do espírito romântico – o espírito dela é outro. Logo, não haverá “diálogo” entre ela e a academia, nos termos da academia. Por outro lado, nos termos do postulado do artigo – “verdade” é consenso discursivo comunitário, ela terá de satisfazer-se com sua “verdade” provinciana, válida intra muros, porque, a depender da anuência das “ciências”, falará sozinha. É surpreendente que a teologia afirme-se não-ciência e, ao mesmo tempo, pretenda-se parceira para a construção de critérios de validação do conhecimento acadêmico. O que foi que eu não entendi?

 

Para terminar a seção, convém observar por que a teologia não pode, segundo Zabatiero, abrir mão se seu caráter público. Eu discordo profundamente do que se diz em “defender a ética da dominação sistêmica” (p. 81-83), mas, segundo Zabatiero, que recorre a Libânio, enquanto as ciências fragmentam os saberem, “objetivam” os seres humanos, “‘a teologia, porém, mantém viva a pergunta pelo todo do ser humano, do mundo, da história [...] Colabora desde esse ponto de vista para a integração dos saberes’” (p. 81). Fácil dizer. Dizer. Resta demonstrar. Como uma racionalização doutrinária, até o mais profundo de sua expressão comprometida com formulações históricas anacrônicas, medievais, pré-científicas, doutrinas negociadas, sem qualquer fundamentação exegética que fosse, pura alegoria encantada, tradição legítima para tradicionalistas, sustentadas por meio da tradição, pode arvorar-se em colaboradora para a integração dos saberes? Salvo a quem sob seus pés. Quanto à questão de a ciência tender à fragmentação dos saberes, convenhamos, Zabatiero, falamos de um recorte que não tem duzentos anos bem pesados, e que, por si mesma, já descobriu isso, e já corrigiu isso. As ciências, disciplinares, evoluíram para abordagens multidisciplinares, insuficientes, interdisciplinares, ainda insuficientes, e, presentemente, transdisciplinares, paradigma que ainda precisa ser avaliado, porque ainda muito incipiente, eventualmente desconhecido na teologia, ou, se “conhecido”, ignorado. Tome-se o exemplo das ciências cognitivas, Zabatiero, e – aí sim – poder-se-á falar de “integração dos saberes”. Jamais na teologia, ainda mais quando ela quer manter-se não-científica.

 

Quanto à segunda tarefa, “contribuir positivamente para a participação de pessoas religiosas na democracia” (p. 83-85), para não constituir-se esse um nome novo para apologética – como pessoas religiosas podem ter voz na sociedade secularizada –, parece-me que o Estado Democrático de Direito já resolveu essa questão. Pessoas religiosas têm voz – são até governadores/as, senadores/as! Ou o que se quer é, de fato, que a sociedade secularizada aceite aquele “diálogo” profético-evangelizador que o “teólogo” e a “teóloga” acreditam ser missão divina, sua, promover?

 

Serei menos severo – está bem: se religiosos querem defender a vida, ótimo. Mas quando consideram que podem decidir quando ela começa – ora, mas teologia afinal é ou não é ciência?, raios! – ela está ou não está querendo que a sociedade civil, republicana, laica, aceite o discurso de fé da religião? Triste papel, não o das massas, coitadas, mas de eminentes teólogos a esgrimir credos, hum, não-fundacionais, mas baseados na maior das fundações – a racionalização dogmática e normativa –, a debater assuntos para os quais não têm a menor competência. Salvo, claro, se o teólogo é, ainda, biólogo. Não parece o caso, já que a teologia, além de não-científica, é, ainda, postulante de um não-fundacionalismo lingüístico-pragmático rorty-vattimo-habermas-foucaultiano. O “valor” da vida não é um saber, um  conhecimento. É uma posição política – ética é política, não é saber. Mas quando a vida começa?, essa é uma pergunta heurística, e são as ciências que deverão estabelecer a resposta.

 

Religiosos querem voz na esfera pública – já têm. Ocupam até nobres horários da TV – para justamente “ganhar” a praça. Mas, em termos republicanos, a sociedade tem o direito de ouvir, balançar a cabeça, e reconhecer que tempo é muito relativo: há quem viva dois mil anos, e não aprenda muita coisa.

 

Há duzentos anos quase redondos, a sociedade estabeleceu o lugar da religião, ali, ao lado do açougue, entre a padaria e o alfaiate. Assim como o açougueiro pode falar, também o padeiro, o alfaiate e o religioso. Não é necessária uma carteirinha de passe especial para religiosos – até porque já sabemos o que nós, religiosos, nós, teólogos, fomos e somos capazes de fazer. A sociedade que não se cuide de nós, não, para ver do que somos, de novo, capazes. A vantagem de uma teologia não-científica é poder arder de convicções proféticas. Para o bem, dir-se-á. Como se um dia a Igreja tivesse sido má.

 

 

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Notas

 

[1] Entrevista de Jérôme H. Barkow a François Dosse, em François DOSSE, Império do Sentido, Bauru: EDUSC, 2003, p. 265.

[2] Idem.

[3] Numa aula do Doutorado em Teologia – CAPES –, o professor discorria sobre Cliford Gertz, o valor das culturas locais e as rotinas “adequadas” de “inculturação da fé”. A rigor, uma admoestação acerca da necessidade de a evangelização, necessária, necessariamente “respeitar” os valores das culturas locais. Perguntei ao professor porque os evangelizandos eram considerados como portadores de cultura, ao passo que o “evangelho”, ele mesmo fruto de cultura, ele mesmo, cultura, era tratado como “querigma” extra-cultural, ao ponto, inclusive, de estarmos, ali, discutindo como introduzi-lo aqui e ali, como “missão”, mas, agora, uma “missão suave”. O professor entendeu onde eu queria chegar. E sua resposta não podia ser mais honesta – se o Cristianismo não tiver um núcleo proposicional revelado, não é Cristianismo. Talvez a resposta seja boa para a Igreja. Mas o será para a cátedra da CAPES?, para uma teologia pretensamente universitária? Tenho profundas e inquietantes dúvidas.

[4] Ana Maria Machado conhece a brincadeira infantil numa versão ligeiramente diferente: “Bento que bento é o frade! Frade! Na boca do forno! Forno! Cozinhando um bolo! Bolo! Fareis tudo que o seu mestre mandar? Fazeremos todos!”  ( http://www.anamariamachado.com/livros/livro_mes.php?codDestaque=2). Na minha infância, contudo, a versão com que brincávamos era essa, que cito. O “frade”, “seu mestre”, mandava que a garota fosse buscar algum coisa. Quem não a trouxesse, ou, trazendo, chegasse por último, levava um “bolo”, isto é, um tapa na mão estendida. Talvez a versão que chegou até mim fosse mais “política”, como aquela outra brincadeira de dizer que o último que chegar até lá é “mulher do padre”. À época, era divertido dizê-lo. Hoje, reflito sobre a “sabedoria” política insinuada no dito jocoso. Há jeitos e jeitos de dizer as coisas que não podem ser ditas. Mas mesmo as coisas que não podem ser ditas podem ser vistas. Para quem não postula, contudo, um descolamento do real, um faz-de-conta. Entendo que o real dói, às vezes, e que recalcá-lo, eventualmente, é um santo remédio – com efeitos colaterais graves, contudo. Mas teologia, pelo menos essa que discutimos, não é coisa para “crianças”. É coisa para gente grande, que sabe que a vida é dura, e cobra caro.

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

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– página atualizada em 15/06/2008 01:05:13