Um coveiro para Deus

– Tratado de Ateologia ou fé atéia engajada

Osvaldo Luiz Ribeiro

11/07/2007

(em processo)  

 

 

Michel ONFRAY, Tratado de Ateologia – física da metafísica. Trad. de Mônica Stahel. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007. 214 p.

 

      

 

Michel Onfray

 

Primeiras impressões ainda impactadas

 

 

Acabo de ler Tratado de Ateologia, de Michel Onfray. Foi ser informado de sua publicação, e corri a encomendá-lo. Interrompi a redação final de minha Tese – faço Doutorado em Teologia na PUC-Rio – para o ler. Estava muito interessado nas argumentações epistemológicas, nos caminhos postulados, no enfrentamento da epistemologia cristã engajada, na “solução” atéia para a “teologia” – e eis que me deparo com uma obra que corresponderia mais a um enfrentamento pragmático-político às teologias monoteístas. Saio da leitura profundamente frustrado, perguntando-me se, de fato, haveria eu de ter razão em esperar de um Tratado de Ateologia alguma coisa para além do oposto apologético dos teísmos e deísmos institucionais.

 

Ah, eu gostaria de ler um tratado de epistemologia pós-cristã, quero dizer, não comprometida com a linha de chegada já desde Nicéia pré-determinada. Oh, sim, eu gostaria de ver os séculos XVIII e XIX serem, finalmente, levados a sério, epistemologicamente falando. Queria ver o que se pode fazer, seriamente, com Kant, Schopenhauer, Feuerbach, Nietzsche e Freud, de um lado, e as repercussões epistemológicas graves que decorrem de suas intuições, de seus postulados, de suas denúncias, de suas proposições.

 

Eu raciocinava assim: se a teologia, até hoje, recusa-se a admitir o óbvio, ou seja, a inexorabilidade da solidão humana dentro de seu próprio mundo, e ainda teima em ressuscitar velhos fantasmas míticos e velhas dogmáticas dissimuladas, mas ainda potencialmente coercitivas, talvez um tratado qualquer de ateologia levasse-nos aos ciúmes, como aos ciúmes levaram-me um Nietzsche, um Schopenhauer, um Feuerbach.

 

Que nada. O que encontrei, no frigir dos ovos, não passou de um denuncismo velho das atrocidades e bestialidades dos monoteísmos, uma indignação, compreensível, com a manutenção dissimulada da retórica sacerdotal na sociedade contemporânea, uma raiva não dissimulada da teocracia, um desgosto assumido pela incapacidade de o planeta levar a sério a morte de Deus. Não vi nada além de confronto com o teísmo, como se fosse possível enfrentar os monoteísmos com a denúncia de suas incoerências, suas aberrações, sua falácia epistemológica, seus enganos lógicos, suas manipulações políticas, seus embebedamentos místico-carismáticos.

 

As denúncias, todas corretas, é verdade, já foram apresentadas por José Saramago - e num Evangelho!, e à exaustão. Não são mais necessárias, pelo menos não em um Tratado de Ateologia, ainda que sempre é conveniente mantê-las à altura dos olhos – o que se pode fazer sem tanta pompa. A crítica feroz aos monoteísmos e à religião, de modo geral, apenas re-encenam as críticas – seculares, já – de um Marx, de um Freud, de um Feuerbach, de um Nietzsche. E, se a deles – definitivas, em seus respectivos campos – não foi suficiente, por que Michel Onfray pensa que a sua re-edição o seria? E, sim, a retórica de Tratado de Ateologia deixa entrever, sem muito esforço de interpretação, que se trata de uma “cruzada” contra as desgraças dos monoteísmos, “cruzada” essa que os cavalheiros citados já empreenderam, e não deu em nada – pelo menos se o próprio Onfray está correto, e a história de que Deus teria morrido não passa de um boato infundado.

 

A solução que Michel Onfray apresenta é mesmo contraditória, porque ele diz abominar os totalitarismos, e entrevê-se em sua proposta um desejo de que a religião seja suprimida da face da terra - se ele pudesse, ele o faria -, que os deuses sejam, todos, esquecidos, e que os monoteísmos, acabem. Ou Onfray é muito ingênuo, e se mete a escrever sobre assuntos muito pouco analisados, ou está à espreita, aguardando ocasião para que a supressão desses entraves para a sociedade humana livre possam ser, digamos, suprimidos, pelo desejo e poder de mentalidades lúcidas – como a sua. Está bem – que os monoteísmos são assassinos, todos, desde os livros sagrados que – supostamente – os legitimam, isso é fato, e apenas os confessionalmente comprometidos, os ideologicamente engajados, os politicamente impedidos, não admitirão. Ora, o que o cristianismo fez, o que, em muito menor grau, mas está bem, se Onfray o quer, vá lá, o judaísmo fez, o que o islamismo fez, o que os três monoteísmos fizeram com essa intuição religiosa de fundo é – mesmo – inexprimível, indecente, imoral, abjeto, horroroso, indecoroso, criminoso. Não se pode, entretanto, reduzir a religião a isso. Não se pode reduzir a experiência religiosa de fundo à religião.

 

Não é a religião, não são os deuses, o que se deve combater. É a auto-ignorância humana. E, ao contrário do que se pode imaginar, a lucidez humana não descobrirá, eureka, que a religião é uma ilusão – como o quer Freud, uma alienação, como o querem Feuerbach e Marx, um política de besta-de-carga, como o quer Nietzsche. Sim, sim – ela é isso, sim, ou seja, ela tem sido usada para isso, sim, desde há séculos, e não apenas nos monoteísmos – porque também é a mesma patifaria na África, na Ásia, hoje, era assim, também, na América ameríndia, desde que a política descobriu que a religião é ótima parceira. Os olhos de Onfray miram um inimigo entrincheirado – os monoteísmos que invadem a Europa, a que se resume a Europa –, e acaba perdendo de vista o fenômeno mais interno, mais constitutivo, qual seja, a política humana, a sua constituição aviltada e aviltante, carente de uma educação planetária, eventualmente utópica, do que o ateísmo eventualmente também se ressente.

 

Sim, a religião e os deuses são, sim, ilusão (Freud), alienação (Marx), projeção (Feuerbach), coerção (Nietzsche) – mas não são apenas isso. A experiência religiosa de fundo é constitutivamente anterior à esperteza dos sacerdotes de carreira, que ainda hão de se beneficiar por séculos do fato de que a política de manipulação da religião é possível porque posterior ao fenômeno religioso. O ódio à religião ou aos religiosos, o ódio aos deuses, é uma enorme perda de energia e de tempo, e dispensar esforços em favor desses ódios apenas atesta que esse tipo de ateísmo engajado nutre-se da inveja do teísmo. É mesmo o seu oposto, um oposto que está tão sedento de vingança, que decide tomar o caminho mais fácil, a negação absoluta do objeto de ódio, e a redução do fenômeno religioso àquilo que nele o ódio vê.

 

Não estou defendendo os monoteísmos. Não mesmo. Tenho escrito a respeito da necessidade de tratar a teologia como mito, o tempo todo, e de criticar a própria experiência religiosa, circunscrevendo-a ao espaço do mito pessoal. Outro dia mesmo surpreendi-me de Saramago, um ateu confesso, afirmar que, se há “Deus”, então há só um “Deus” – justamente porque esse tipo de afirmação denuncia a absoluta falta de profundidade epistemológica no front. Cristãos e ateus, engajados ambos, são risíveis, quando se colocam como Dons Quixotes, um a caçar os gigantes mortíferos que os outros criam no quintal de casa. Não sei se as empreitadas são mais ridículas do que perigosas, ou mais perigosas do que ridículas – mas são as duas coisas.

 

 

Estrutura do Tratado de Ateologia

 

 

O Tratado de Ateologia – física da metafísica tem dois anos. Foi publicado originalmente em francês, pelo autor, com o título Traité d’Athéologie. Logo se vê que o subtítulo – física da metafísica – nem está no original nem faz jus ao conteúdo da obra, ainda, contudo, que Onfray use a expressão no período de encerramento da Introdução: “uma física da metafísica, portanto, uma real teoria da imanência, uma ontologia materialista”. Nada disso, entretanto, se encontrará no Tratado. Não há qualquer possibilidade de ser classificado o presente trabalho de Michel Onfray como “física da metafísica”. Uma classificação desse tipo exigiria que o livro passasse, pelo menos, pela porta de O Método, de Edgar Morin – ali, sim, uma lúcida e incontornável “física da metafísica”. A obra de Onfray é, no máximo, uma descrição engajadamente raivosa do fenômeno monoteísta na história do Ocidente. No que Onfray está coberto de razão, apenas os sais de fruta apologéticos mantém a azia e a má digestão dos monoteísmos históricos sob controle – hipnótico, até, quando, não, por ignorância crassa. Mas o livro está longe de ser uma análise – uma “física” – da noologia monoteísta – “da metafísica”. Reduz-se a uma denúncia – de resto algo entre sempre necessária e sempre desnecessária.

 

Divide-se em quatro partes: Ateologia, Monoteísmos, Cristianismo e Teocracia, cada uma, por sua vez, está dividida em três capítulos. A primeira parte – Ateologia (p. 1-48) – divide-se em: I. A odisséia dos espíritos fortes, II. Ateísmo e saída do niilismo, e III. A caminho de uma Ateologia. A segunda parte – Monoteísmos (p. 49-93) –, em: I. Tiranias e servidões dos além-mundos, II. Autos de fé da inteligência, e III. Desejar o inverso do real. A terceira parte – Cristianismo (p. 95-128) –, constitui-se de: I. A construção de Jesus, II. A contaminação paulina, e III. O Estado totalitário cristão. Finalmente, a quarta parte – Teocracia (p. 129-189): I. Pequena teoria dos excertos, II. A serviço da pulsão de morte, e III. Por uma laicidade pós-cristã. Às partes constitutivas do livro, correspondem um Prefácio (p. xiii-xviii) e uma Introdução (p. xix-xxv), e seguem-lhes, a título de “bibliografia” (p. 191-214), uma série de entradas temáticas, comentadas. Curiosamente, não há uma “conclusão”.

 

Michel Onfray é um filósofo. Um filósofo ateu. As informações pessoais a seu respeito – vida, formação, obras, podem ser encontradas em seu site oficial. Michel Onfray ali é apresentado como tendo nascido em 1959, doutor em filosofia e fundador da Universidade Popular de Caen. É autor de uma série de livros: sobre Pierre Bourdieu, Nietzsche e Georges Palante, bem como sobre o movimento cínico pré-cristão, todos no campo da filosofia. Publicou um Antimanuel de philosophie (2001), quatro volumes de Contre histoire de la philosophie, os dois primeiros em 2006, os dois últimos em 2007, estando em preparação quatro novos volumes, e, de 1991 a 2006, oito obras sobre hedonismo, bem como algumas obras de assuntos “atuais”. Suas obras estão traduzidas para o alemão, o inglês, o espanhol, o catalão, o chinês, o coreano, o italiano, o finlandês, o grego, o turco, o sueco, o romeno, o polonês, o norueguês, o holandês, o japonês, o português. No Brasil, suas obras - boa parte de sua bibliografia - têm sido publicadas pelas editoras Rocco e Martins Fontes, bem como pelo Instituto Piaget. Após ter contato com sua bibliografia – que não li, contudo – tive razões para justificar ter esperado mais do Tratado. E a frustração que me toma, depois de lê-lo, parece ter tomado o espírito, também de ateus, como se pode ver na crítica do Diário Ateísta, publicada ainda em 2006, quando o Tratado estava disponível, então, apenas em francês e espanhol.

 

Não é o caso, claro, mas, se eu tomasse por base o Tratado, não me entusiasmaria em ler o restante de sua obra. Confesso que não me sinto interessado em suas teses sobre o hedonismo, mas talvez me agradasse ler sua Contra-história da Filosofia.

 

 

Crítica ao Tratado de Ateologia

 

 

Agradam-me as críticas que mergulham até o fundo do poço. Talvez seja meu vício de exegeta. Talvez seja a sensação de que as críticas se parecem, às vezes, com rasantes de morcegos, guiando-se pelo radar. Não me agradam. Agrada-me, à custa de espaços e tempos maiores, é certo, é o preço que se paga, dizer e mostrar sobre o que digo. Se o leitor considerar maçante, sempre tem a alternativa de não ler. De outro lado, apresentar críticas fulminantes, no estilo miojo, que em três minutos se prepara e come, é, no mínimo, imprudente. Mesmo quem nos frustra merece atenção – e, caso não mereça, então sequer um instantâneo, mas a indiferença, e mais nada.

 

Sendo assim, apresentarei uma crítica distribuída à medida que o livro avança. Paro aqui e ali, e aprofundo minhas observações. Aproveito para inserir na crítica as minhas próprias idéias sobre o tema, minhas soluções pessoais, meus mitos de cabeceira.

 

 

Do Prefácio

 

 

No Prefácio, Onfray arranca-me uma concordância (Acabei de utilizar o mesmo argumento para a obra de Vattimo e Rorty. A propósito, para Onfray, Vattimo é um “ateu cristão”, e sua crítica está muito próxima da minha: “como mergulhar a Bíblia na água lustral de Être et temps para obter uma solução – no sentido químico... – milagrosa” (p. 197)): “em toda parte constatei quanto os homens fabulam para evitar olhar o real de frente” (p. xviii). É verdade. Quer dizer – é, e não é. Porque, a rigor, quem olha o real de frente? O ateu? Onfray parece crer que sim: “enquanto a crença indispõe com a imanência, portanto com o eu, o ateísmo reconcilia com a terra, outro nome da vida” (p. xviii). Onfray pode dizê-lo, mas à custa de não assinalar que o ateísmo não é o oposto da “crença”, mas o seu negativo. O ateísmo é uma crença. Uma crença na não crença. Um desejo de não crer. Uma aposta em não crer. Os ganhos das Luzes – que Onfray tanto exalta – não concedem a mínima possibilidade de transformar a “crença” – seja a crença em deus, seja a crença em não-deus – em “saber”. Ninguém sabe nada de deus, se “ele” existe ou não, de deuses, se “eles” existem ou não. Sabemos – esse é o ganho das Luzes – que o que pensamos de deus ou dos deuses (monoteísmo(s), politeísmo, teísmo, deísmo, panteísmo, ateísmo etc.) não passa de noologia, de especulação metafísica, sem fundamento que não a própria especulação metafísica, que, quando se transforma em dogma, torna-se performativa: dizer é fazer ser, e é sustentada pela conjunção da coerção e do fideísmo voluntarista. Honestamente, contudo, de uma forma epistemologicamente conseqüente, não se pode dizer que, porque sabemos que o que dizemos saber e dizemos sobre eles – os deuses – nós inventamos, que “alguma” coisa, seja lá o que for, não esteja “lá”. Naturalmente, a apologia rasa dos cristianismos engajados utilizam-se desse “argumento” para agarrarem-se às suas mitologias, como se o argumento as legitimasse. Contudo, o uso negligente que os apologetas fazem dos argumentos não pode interditar a sua validade epistemológica. Não se pode falar nada dos deuses em si. Pode-se, sim, falar dos deuses que povoam nossas teologias – esses, sim, todos, sem exceção, mesmo doméstica, são invenções culturais, que, contudo, ganharam vida própria.

 

Portanto, é verdade que a religião torna-se “alienação”. E, com isso, Michel Onfray apenas revisita velhos topoi filosóficos. Seja como for, também o “ateísmo” recusa-se a olhar o real de frente, pelo menos esse suposto ateísmo de Onfray, porque o fenômeno religioso faz parte do real, e sua redução antropológica, sociológica, política etc., não dá conta de sua explicação. Salva-se, Onfray, quando registra que o risco enfrentado é o esquecimento do real, e perde-se, contudo, quando afirma que esquecer o real é o “único mundo que existe”, porque, para ele, o mundo real é ateu. É preciso uma fé enorme ara o dizer. Tão grande quanto a dos crentes.

 

Há alguma coisa – ou alguma coisa acontece. O fenômeno religioso é um fenômeno primário. É antropológico, mas não se reduz à antropologia. É sociológico, mas não se reduz à sociologia. É filosófico, mas não se reduz à filosofia. É mitológico, mas não se reduz à mitologia. É político, mas não se reduz à política. O ato constitutivo do mundo teísta – ou equivalente positivo – é tomar o discurso circunstancial e cultural particular do grupo como expressão da coisa que há ou acontece na religião. O ato constitutivo do mundo ateísta é negar que alguma coisa para além das aproximações de fé atéias explique o mundo. Ateus e teístas são gêmeos, um constituído pela implicância do outro, um construindo-se pela negação do outro. E – cá entre nós – como saber?

 

Não digo isso, não ponho-me – e ao leitor – nessa encruzilhada cética para sugerir que um e outro, ateu e teísta, dêem de ombro, e que cada um, afinal, carregue seu balaio. Assim como não acredito em “diálogo” inter-religioso – sempre dissimulados -, tão pouco acredito em diálogo entre ateus e teístas, deístas ou algo que o valha. Pelejaria – mas não vou levantar meia bandeira quanto a isso – em favor da crítica pessoal, do rigor epistemológico inegociável, por levar a sério as conseqüências céticas – seu limite razoável – das Luzes. É apenas quando as Luzes se tornam Dogma, que Onfray pode escreveu seu libelo ao bom e velho estilo “abaixo com eles”.

 

Chorar as desgraças monoteístas? Claro – é lícito e legítimo. Transformá-las em argumento filosófico? Fideísmo voluntarista ateu – não é por outra razão que, na Introdução, Onfray apresente a “ateologia” como “a via lateral da teologia” (p. xxiv). Ele não percebe? Não percebe que se perceberá? Não, a lucidez não é nem teísta nem atéia a lucidez é, simplesmente, crítica – e, sobretudo, autocrítica. A lucidez é saber em que consistem essas duas fés religiosas. Hoje, eu diria que a lucidez passa, incontornavelmente, por Edgar Morin, conforme ele se expressa em O Método. Se O Método ainda não é a lucidez, ela, certamente, está depois dele, e passa necessariamente por ali.

 

Da Introdução

 

É mais ou menos o que Rorty confessou em O Futuro da Religião, que deveria ter manejado o termo “ateísmo” como se fosse sinônimo de “anti-clericalismo”. Onfray talvez seja mais do que isso – já que não é “pragmático”, como Rorty, e acredita no “real”, bem como no acesso a ele, na “evidência trágica do mundo” (p. xx). É que Onfray até toleraria a religião privada, os crentes, mas não os “aproveitadores emboscados”. “Enquanto a religião se mantêm como assunto entre o indivíduo e si mesmo, trata-se afinal apenas de neuroses, psicoses e outros assuntos privados” (p. xxi), “perversões” toleráveis, se privadas, e inofensivas socialmente. Mas, se a religião se torna assunto público, manifestações na praça – aí não. O remédio: “um trabalho filosófico consigo mesmo”, que teria por resultado, sendo bem feito, “o recuo dos sonhos e dos delírios de que os deuses se nutrem” (p. xxi). E declara: “o ateísmo não é uma terapia mas uma saúde mental recuperada” (p. xxi).

 

Numa hipótese: de o doente ser, também, o psiquiatra. No máximo, Onfray poderia dizer que o ateísmo expulsa os fantasmas da casa. De que casa? Da casa dos deuses. Não é lá que os deuses habitam? O ateu os expulsa de lá. Como? Indo lá. Como faz isso? Ora, indo lá, e enxotando todos eles, e ordenando-os que não voltem mais, e colocando-se na porta, como vigia eterno. Ele não vê – contudo – que somente indo lá, e enxotando-os, é que o ateu pode fazer-se ateu. Sofre, assim, da mesma neurose, da mesma psicose, das mesmas psicopatologias que pretende diagnosticar para os crentes. Mas ele mesmo é um crente. Está certo – está “crente” – que foi lá, tomou à força o território, fez a lavagem asséptico-atéia, pôs brutamontes na porta, e que, por isso, os deuses de rabo entre as pernas não voltarão. E como não? Porque ele na vai deixar.

 

Ah, sim, meu dignóstico é diferente do que ele se prescreve. Disfunção psicótica – se os crentes são psicóticos mesmo. Se o são – ele o é duas vezes. Vejo-o entrar no consultório do psiquiatra – que é ele mesmo. Donde vens? De rodear os céus. E? Vazios. Expulsei todos os deuses. Sou ateu agora. Mas tomou seus remédios? Não. Ah, tá.

 

Quanto a mim, quando fecho os olhos, minha neurose pessoal, meu mito subjetivo, ainda não sei que nome dou a essa minha imaginação, me oferece um deus, que ainda me anima, e não há nada que minha racionalidade possa fazer, nem lendo duas vezes cada volume de Morin. Falo com esse deus – e ele me responde à moda dele. O tempo todo, sei que falo comigo mesmo, e que eu mesmo me respondo. Não dissimulo, não legitimo, não tergiverso – é um fenômeno psicológico. Mas posso reduzi-lo a isso? Bem – eu só posso olhar para esse fenômeno. Eu só posso dizer que esse fenômeno é psicológico. Para além dele, não posso olhar. Se me perguntam: crê em deus? Digo: é provável que sim, a meu modo, sim, creio. E ele – existe? Ah, não faço a mínima idéia. Como posso saber? Por que creio? Ora, então ele não existe, porque Onfray não crê. E o que eu e Onfray fazemos? Queda de braço? Não é melhor que nós dois nos concentremos – apenas – no fenômeno – e que deixemos deus-eventual e as coisas de deus-eventual, no singular ou no plural, no masculino ou no feminino, pessoal ou energético, inominados? Não se trata de, nesse campo, não haver como descer dele.

 

Michel Onfray apela para Kant, diz que dele saem os heróis, Freud, Feuerbach, Nietzsche. Que se deve primar pelo uso da razão pública – ou melhor, pelo “uso público e comunitário da razão em todas as esferas, sem exceção” (p. xxiii). E eu aceito, desde que não se amarre um tal projeto à máxima narcisista do Tratado de que o ateísmo é a razão encarnada. Onfray promete uma física da metafísica, uma real teoria da imanência, uma ontologia materialista (p. xxv) – e, acredite-me o leitor, se eu não tivesse comprado o Tratado com objetivo explícito de resenhá-lo para ouviroevento, para cujo objetivo não importam as minhas profundas frustrações com a obra, eu exigiria a devolução de meu dinheiro, porque fez-se, nele, e para o vender, propaganda enganosa.

 

 

Primeira parte – Ateologia

 

 

Deus não está morto – denuncia Onfray (p. 4). Nietzsche não o matou, e nem podia. Eu temo que Onfray entre na discussão por outro diapasão, que não o de Nietzsche mesmo. É contudo, tentar pegar o vento com a mão, porque é difícil determinar precisamente do que Nietzsche falava. Parece-me, contudo, que Nietzsche não elabora um ateísmo raso quando lida de dizer da morte de Deus – constataria apenas um dado da sociedade, que eventualmente o teria dispensado da condição de cláusula necessária.

 

Deus, contudo – é um sopro, uma hipóstase dos mortais, e morrerá apenas quando o último deles morrer (p. 5). Tratar-se-ia, contudo, de um subterfúgio humano, sim, mas assassino, porque “mata tudo o que lhe resiste”. Aqui, contudo, em que pese o discurso de Onfray ser razoavelmente válido para a noologia, do que está, de fato, falando? Que os deuses, inventados pelos homens, são armas políticas. Certo. E o que isso tem a ver com o ateísmo em si? Que o ateísmo é a crença de que os deuses inventados pelos homens são invenções humanas? Quer dizer, se eu admitir que Yahweh, por exemplo, é uma invenção israelita, judaica, ou, de qualquer modo, de alguém, sendo Yahweh uma invenção, a verdade é atéia? Ínsita-se: o discurso humano sobre os deuses, se confundido com o eventual próprio ser dos deuses, perde a lucidez de saber que, aí, os deuses são como o são os duendes, as fadas e o boi-tatá – fabulações, imaginações. É, contudo, razoável, reduzir-se a experiência do sagrado às imaginações culturais domesticadas das culturas? O fato de as fabulações eventualmente servirem de roupagem cultural para as experiências primárias do sagrado diz alguma coisa sobre a experiência? Onfray não conhece o Tratado de História das Religiões, de Mircea Eliade?

De bom grado há de se tomar as construções humanas – os “documentos” da Fenomenologia da Religião – como “dizeres” culturalmente mediados. Mas apenas a má vontade há de reduzir todo o fenômeno às fabulações, tanto quanto a excessiva boa vontade vai tomá-las por discurso hierofânico. Se às experiências do sagrado correspondem realidades para além da física, não se pode saber. Quem o sabe – se sabe que, sim, correspondem, ou se sabe que não, não correspondem, não sabe é coisa alguma, e comporta-se apenas de forma performática: é o que se diz disso que se torna verdade. O crente, crê que sim, e diz sim, logo – existe. O incréu crê que não, e diz não, logo – não existe. Peça a ambos que mostrem o que têm nas mãos – os dois mostrarão o discurso humano. Desse discurso, como o crente infere o seu sim? Porque quer crer. Desse discurso, como o ateu infere seu não. Da mesma forma. Ele crê. E lhe basta. Depois de assumidas as respectivas expressões existenciais de fé, que contaminam o real, cada qual se dedicará às apologias do sim e do não. Onfray faz rigorosamente isso.

 

Valeria discutir as conseqüências sociais do monoteísmo – e isso Onfray fará, mais na forma de denúncia raivosa e indignada, do que de “palestra”. Mas essa denúncia absolutamente nada tem a ver com um necessário Tratado de Ateologia.

 

Onfray denuncia a “tagarelice” dos ministros de “deus” (p. 7). Mas Onfray mesmo faz-se um tagarela. Diz que, segundo os tagarelas de deus, quem não crê no deus deles, torna-se imediatamente ateu, “portanto o pior dos homens: o imoralista, o detestável, o imundo, a encarnação do mal” (p. 7). E em troca, o que Onfray diz: que o crente é um louco, um neurótico, um psicótico, para cuja cura serve o ateísmo. Sinto um cheiro de guerra no ar. E não é um cheiro agradável para quem fundou uma Universidade Popular.

 

A questão epistemológica passa a quilômetros de distância – lamentavelmente. Quando leciono, e deparo-me com resistências confessionais, a primeira coisa que faço é armar a esteira epistemológica, estabelecer os critérios, segundo os quais, o sentido das palavras emerge. O discurso teísta é doutrinário, está situado coercitivamente dentro do sistema, e não pode sair dele. O pensamento cético é sistemicamente situado, mas pode – deve, - sair do sistema, e olhar-se enquanto no sistema. A posição confessional impede uma tal atitude – e Gödel, se pudesse ser ouvido pelo confessional, mas não pode, diria que, assim, o confessional não pode saber, nunca, se está certo (claro que Gödel não sabe que o confessional sempre está certo). Onfray é um confessional. Um ateu confessional. Ele está certo.

 

(continua, quando a Tese deixar)