Carta Amiga (e crítica) a Augustus Nicodemos Lopes.

Sobre seu livro “A Bíblia e seus Intérpretes”

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e seus Intérpretes. Uma breve história da interpretação. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. 284 p.

 

 

Caro Dr. Augustus Nicodemus Lopes

 

Toda a paz cristã repouse sobre seu coração, fundamentada na graça inabalável que reputamos a Deus, na qual imergimos pela fé, da qual dependemos como do ar, e pela qual, unicamente pela qual, creio, podemos esperar o perdão de nossos pecados, todos sempre muitos e muito grandes, mas não maiores do que ela. Deus seja por nós!

 

Recebi seu livro de presente do amigo em comum, Franklin Ferreira. Decidi imediatamente iniciar a leitura. O que escrevo, agora, transparece minhas observações sobre seu livro. Gostaria, sempre, de merecer o mesmo tratamento de quantos lerem qualquer dos meus rabiscos, porque acredito que escrevemos tanto para sermos lidos quanto para sabermos se temos bom senso. Em relação ao seu livro, portanto, faço o que gostaria fosse sempre feito comigo.

 

Apresentar-me-ei a você como um, primeiro, biblista, e, depois, teólogo. Como biblista, minha abordagem é histórico-social, e as ferramentas técnicas de acesso ao texto constam das proposições do instrumental histórico-crítico. Enquanto teólogo, minha reflexão é mediada pela Fenomenologia da Religião, inicialmente construída pela leitura de Mircea Eliade (Tratado de História das Religiões e seus demais “clássicos”). Minha formação é toda ela em Teologia: Graduação e Mestrado concluídos pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, e Doutorados em curso – um, livre, pelo mesmo Seminário, sob a orientação do Dr. Haroldo Reimer, e outro, pela CAPES, na PUC-Rio, sob a orientação do Dr. Emanuel Bouzon. Minha área é Antigo Testamento, mas me dedico, além disso, à Hermenêutica (“disciplina” que, penso, deve logo mudar de nome). Isso posto, acrescento que todas as agulhadas que seu livro dá no que você chama de “método histórico-crítico” foram sentidas na minha pele, quanto ao que não há absolutamente nenhum problema, porque eu mesmo dou agulhadas no método histórico-gramatical, que você chama de gramatical-histórico.

 

Antes de tudo, afirmo que a Bíblia e a Teologia têm uma coisa em comum: se usadas sem pretensão de privilégios em relação ao acesso ao Sagrado por parte do biblista ou do teólogo, só podem ser manuseadas nos espaços do diálogo e da fraternidade. Chamo a isso de “brincar”. Gosto de “brincar” com a leitura da Bíblia, apaixonadamente, ludicamente, sempre como um menino, e também com a Teologia. Por outro lado, se a Bíblia e a Teologia são usadas a partir da pretensão de privilégios em relação ao acesso ao Sagrado, logo não há mais diálogo possível, senão no sentido utópico de ser verificado quem sabe mais sobre o que Deus teria dito – para o bem provido de bom par de olhos, o círculo vicioso não terá fim jamais. Chamo a isso de “guerrear”. É em nome dessa faculdade de acesso privilegiado ao Sagrado, e por conta dessa estratégia de decidir o que Deus disse pelo recurso de já se saber desde sempre tudo quanto Deus dissera – mesmo antes da análise do que supostamente teria sido o texto-registro daquele discurso – é que nossa História, a História da Igreja Cristã, seja a de Jerusalém, sejam as primitivas, sejam as patrísticas, seja a romana, sejam as orientais, seja a ocidental, seja a Católica Apostólica Romana, sejam as reformadas, sejam quais forem, ostentam manchas vermelhas cuja cor deriva do sangue que derramamos – incluo-me, porque, cada vez que repetimos os mesmos gestos estruturais que estão por trás daqueles crimes, inscrevemos também nossos nomes no livro da morte –, e tornaremos a derramar, é só as conjunturas mostrarem-se favoráveis, e a corrupção do gênero humano, ou o descuido do depósito da fé, indicarem serem necessárias medidas sempre mui santíssimas e bem-intencionadas, nascidas, todas, sempre, no próprio coração de Deus, que cá entre nós tem aqueles a quem são reveladas, e mãos a operarem seus propósitos, e se Deus decidiu-se a não mandar mais o dilúvio, não disse nada quanto à Igreja não poder produzi-lo, rubro... Não nos esqueçamos que é mercê justamente do advento da mão da crítica secular no seio da Igreja que os dois últimos séculos não têm assistido aos altos de fé, que, contudo, andam sempre loucos para prover o tema das conversas pias da semana. E se houve e há religiosos da igreja – crentes e cristãos – que contribuíram para a sanidade administrada contemporânea (veja que a insanidade migra para outras esferas, sempre à busca das verdades e das carnes), não foi sem, contudo, a inexorável intervenção humanista que a decência, a tolerância (administrada), o respeito (administrado) armaram suas tendas entre os cristãos do Ocidente, tanto quanto não foi sem os príncipes germânicos que a Reforma obteve o que João Hus tentara cem anos antes: deu-se-lhe uma estátua lá na praça de Praga, que ele trocaria, não a praça, mas a estátua, por três ou quatro príncipes que o apoiassem, e à reforma dele...

 

Esse tom não o pretendo manter em minha Carta Amiga. Você, Nicodemus, deve entender que faço essa introdução logo depois de ler sua afirmação de que o método histórico-crítico é pernicioso à Igreja, e você há de convir que me subiu cá aos gorgomilos uma sensação muito desagradável, e o tom e o conteúdo com que abro essa Carta Amiga deve ser creditado aos efeitos dessa constrangedora sensação que você provocou.

 

Permita-me, pois, dizer minhas opiniões sobre seu livro. Já confessei minha plataforma de trabalho, e penso que, assim o fazendo, deixo claro que não parto do pressuposto de que qualquer das minhas opiniões tenha a confirmação objetiva do coração de Deus, tão pouco que sejam a expressão inquestionável da verdade pressuposta das Escrituras – sem, contudo, descartar a possibilidade de que, por um descuido da verdade, tenha ela decido pousar a cabeça nessas palavras loucas que cá começo a esboçar. Submeti-me a seu texto. Aceite agora minha oferta de chá... Crítico é, mas se pretende, também, amigo...

 

Trata-lo-ei por “você”, com o que não manifesto qualquer sentimento de desrespeito à sua formação ou aos seus cargos. Falo aqui como um crente a outro.

 

I. Sobre a Parte I: A Necessidade de Interpretação da Bíblia (p. 7-29)

 

Seus 16 capítulos estão divididos em três partes. Escolhi a metodologia de comentar seu texto pedaço a pedaço: pego o biscoito, molho no café com leite, como-o, e escrevo o que penso do gosto que me proporciona ao paladar. Peço, desde já, desculpas pelo tamanho do texto que produzi.

 

Sua Parte I é uma Introdução que lembra o livro de Roy B. Zuck, também um livro sobre Hermenêutica, de também um autor confessional (mas o livro não está nas suas referências bibliográficas, então deve ser um jeito histórico-gramatical de ser). Fala-se da Bíblia como um livro humano e como um livro divino.

 

Começo programaticamente dizendo que concordo com você quando afirma que a intenção dos autores dos textos bíblicos permanece nos textos deles, mesmo depois de sua morte, a despeito da opinião contrária de estudiosos (p. 25), com cuja afirmação acho que compramos os dois briga com uma série de outras aproximações aos textos (também bíblicos), metodologicamente assumidas sob a perspectiva da impropriedade dessa assertiva. Adiante aprofundamos a questão. Adianto, contudo, desde logo, que, segundo acredito, não estejamos nunca em condições de afiançar que a interpretação que fazemos é necessária e ineludivelmente unívoca em relação à intenção do autor registrada no texto. A exegese sofre de uma essencial crise de verificação, o que faz de uma Teologia “exegética” (Hans Küng) um conjunto de proposições “possíveis” – e só. Destarte, se eu estiver correto, uma Teologia que se apresente como portadora de (certa) dose de verdade “revelada” não pode ser nem se apresentar como “exegética”, nem se basear na “intenção dos autores bíblicos”, salvo se tomar a Tradição como expressão fideísta dela. Na prática, é o que todas as expressões denominacionais fazem, sendo que apenas uma (ou duas) o assumem.

 

Discordo da afirmação de que o fato de que a Igreja venha “se mantendo viva e ativa ao longo dos séculos” seja “prova” (é o termo que consta do texto) de que “o ponto central da Bíblia é tão claro que pode ser entendido por todos” (p. 25). Discordo, primeiro, porque a História da Igreja não é fruto da leitura da Bíblia pelos crentes, mas da orientação hierárquica do clero, isso desde sua origem, e mesmo depois da Reforma, e até hoje. O advento da imprensa, e o desenvolvimento da(s) igreja(s) reformada(s), não conseguiram – se tentaram – que a História da Igreja passasse a ser diferente. Ainda que o acesso ao texto bíblico fosse cada vez mais franqueado ao público, a conseqüência dessa abertura foi a fragmentação do tecido eclesiástico em tantos ambientes clericais quanto as igrejas criadas, porque, a rigor, cada igreja-fragmento tornou-se um (outro) clero, fomentador ele (e também só ele) de uma particular Teologia, a qual, e só ela, determinará, doravante, a leitura das Escrituras naquele círculo-fragmento. Não, não há isso de “claro” a tal ponto que... O que há são clarificações teológico-doutrinárias fundantes, as quais, depois de erigidas, tornam-se norteadoras do trato bíblico. Discordo, ainda, pelo fato de que o que agora se chama de “claro” consiste num consenso teológico-doutrinário traumático obtido às duras penas em Nicéia, Capadócia, Calcedônia e outros ambientes clérico-eclesiásticos, depois dos quais tanto mais esforço teve de, sempre, ser feito para a manutenção do “consenso”. É tão somente a catequese que estabelece a aparência de “unanimidade” aparentemente óbvia. O fato de que a Reforma e os fragmentos eclesiásticos decorrentes dela acataram alguns concílios universais em suas proposições teológico-doutrinárias, e não outros, mais uma vez deve indicar que não se trata, absolutamente, de que a leitura da Bíblia seja, em seu ponto central, “clara” – tão somente me parece uma questão de reflexos do “consenso” nicênico na história dos seus efeitos administrados.

 

Discordo de você, tanto de sua avaliação do método histórico-crítico, quanto da afirmação que faz de que “tal abordagem às Escrituras já se demonstra inadequada e perniciosa para a Igreja” (p. 26). Não me parece que se possa atribuir ao método histórico-crítico qualquer prejuízo à Igreja, senão, e se tanto, a uma determinada forma de se tratar e ler a Bíblia que, ela sim, é responsável pelos crimes religiosos mais bárbaros que se tem notícia desde a crucificação de Cristo, crimes usados por José Saramago como argumentos que põe na boca de Jesus, tentando convencer a Deus serem razão mais do que suficiente para que não houvesse cruz, conforme se lê em seu Evangelho Segundo Jesus Cristo, cujo sentido, todos devem saber, traduz uma leitura de um Nobel que se auto-apresenta como “ateu”, e que lê a História da Igreja a partir justamente desses crimes, todos eles cometidos como fundamentados pela cruz e pelo Filho, mercê de uma interpretação que os toma sempre a partir de um determinado prisma. O método histórico-crítico tem 150 anos, e se depender dele não haverá mais guerras de religião, porque são todas absurdas, indesculpáveis, intoleráveis, mas todas começam, sempre, no mesmo ponto: os fiéis têm acesso privilegiado ao Sagrado, e são seus “cavaleiros de capa e espada”, de sacrossantíssima justiça e zelo. E o ponto é: qualquer afirmação que se pretenda privilegiada em relação ao “Sagrado” tende a apresentar-se fundamentada no absoluto: dê-se poder a ela e se verá do que é capaz... em nome de Deus. O método histórico-crítico abaixa os olhos, e bater no peito não pode. Se alguém os há de levantar, não será a pretensão humana de “saber” Deus e de apresentá-lo teológico-doutrinário-dogmaticamente, sempre escrito em bulas e credos, mas a própria História, silêncio de Deus. Naturalmente insuficiente para esclarecer as questões mais relevantes da Bíblia Hebraica, e mesmo do Novo Testamento, o método histórico-crítico é, contudo, incontornável, segundo já o dissera Julio Trebolle Barrera – que você não cita –, Odete Mainville – que você não cita – Simian-Yofre – que você não cita... E, se me for permitido, também eu.

 

Discordo da plataforma teológica de trabalho que você constrói na página 26-27, nos itens “Distanciamento Natural” e “Distanciamento Espiritual”. Não são novidade nem a sua nem a minha opinião. A sua é que, ou se é crente, ou não se entende a Bíblia, afirmação que, por sua vez, tem por arrimo a afirmação de que “muitos (...) intérpretes reconhecem a necessidade de transpor essa distância [natural] pela iluminação do Espírito”. Deixe-me dizer que já pensei assim. Não mais. Por quê? Porque é uma afirmação que nem mesmo na(s) igreja(s) tem respaldo. Milhares e milhares de igrejas hoje falam tudo quanto querem da Bíblia, e todas, absolutamente todas, afirmam que o que dizem, dizem justamente porque são “crentes” e porque são “iluminadas pelo Espírito”. Além disso, outros crentes há que falam alegadamente (como que) pelo Espírito, e tantas e quantas igrejas recusam essa fala, porque seu conteúdo não é, como julgam, “adequada” à tradição, ao credo, ao dogma. Você conhece a já recontada história da celeuma entre Erasmo, humanista e católico, e Lutero, [humanista] e reformado. Hans Küng tem a dizer algo sobre isso em seu livro Teologia em Diálogo, mas quero me referir a outro texto, de Richard Popkin, História do Ceticismo de Erasmo a Spinoza. Mas resumirei: Erasmo afirma que uma Instituição não sobrevive ao princípio do livre-exame, porque vai fragmentar-se – profético! Lutero contra-argumenta dizendo que não (estava errado), que os crentes seriam (todos) iluminados pelo Espírito, com o que chegariam – como “ele” – à verdade verdadeira das Escrituras. Erasmo contra-contra-argumenta: cada um, lendo como quer, e dizendo o que quer, alegará estar sob a iluminação do Espírito. Lutero estabelece a práxis reformada e evangélica que nos caracteriza até hoje – o verdadeiro crente, esse, sim, ouvirá a voz do Espírito. Ora, Nicodemus, sabemos que, logo depois dessas coisas, Lutero vai brigar, por conta da interpretação da Bíblia, com x e com y, e que, por conta disso, surgirão as igrejas a e b. O que está em jogo o tempo todo é quem vai interpretar a Bíblia da mesma forma que o “líder” da Instituição interpreta. O líder da Instituição dá a saber aos liderados a voz do Espírito. O que ele interpreta é a voz do Espírito. Se for um líder integrado à denominação, a voz do Espírito, a “sua” própria voz, será alinhada com a doutrina padrão. Se tomar ares renovados, o Espírito saberá corrigir a Tradição, e, ele, abrir uma nova “comunidade”. Não foi por outra razão que Lutero, Zwinglio, Calvino – e quantos houvesse – não podiam sentar no mesmo banco, porque faziam – como fazemos – o Espírito dizer coisas diferentes sobre o mesmo texto, o que deixaria pressuposto que, assim como algumas deusas hindus têm muitos braços a fazer coisas diferentes ao mesmo tempo, o Espírito Santo teria muitas bocas a dizer coisas diferentes ao mesmo tempo. Mas como não é definitivamente a partir do que ineludivelmente diz o Espírito, mas, antes, a partir do que ostensivamente proclama o “clero”, que as igrejas caminham, eis tantas igrejas quantas cabeças ordenadas. Para mim, eis no que se resume o apelo para Iluminação e Regeneração: se pensarem como eu, são iluminados e regenerados; se não, empedernidas criaturas do erro e da sombra... Não, não posso concordar com sua plataforma de trabalho. Ela só funciona dentro da igreja, e, ainda assim, sob rigoroso controle catequético e administrativo, digamos assim, de jardinagem, como a arrancar ervas daninhas que despontam do útero da terra...

 

Se você me perguntar se então não creio que o Espírito Santo ilumine a leitura da Bíblia, o que é, no fundo, uma pergunta inquisitorial, já assim para preparar a sentença, responderei que, sim, creio, mas que nunca, em tempo algum, nenhum homem, nenhuma mulher, criança ou anjo, velho, bom da cabeça ou ruim dela, teólogo ou não, analfabeto ou doutor em Teologia – ninguém, absolutamente ninguém pode dizer, em sã consciência, como que diante do espelho, sozinho, que o que entendeu da Bíblia foi o Espírito que lho “iluminou”, salvo por um ato voluntarista, que a mim não diz respeito, e do qual me pelo de medo cair no seu canto. Respiro como se Deus me carregasse a cada instante, mas nunca posso apontar onde está sua mão. Leio como que se meus olhos dependessem do Espírito, mas jamais identificarei a leitura e o resultado dela, pessoais elas, ou dogmáticas e conciliares, com a “iluminação”. Nem apresentarei em púlpitos ou palestras, livros ou lições, esse ensinamento, porque, mesmo que eu faça a restrição, subliminarmente, convoco a passividade espiritualíssima do rebanho para calar-se, e ouvir, só ouvir, e calar-se. Não: ler, interpretar e criticar, eis o que resta a fazer. O restante disso fazem-nos melhor do que nós os católicos romanos, cujo Magistério da Igreja, cujo endereço é www.vaticano.va, lá funciona como cá a boca de pastores, bispos, reverendos e que tais, com a diferença de que lá se assume ser o Magistério da Igreja que o diz, principalmente, desde o Vaticano I.

 

Discordo da abordagem da Bíblia sob a perspectiva da pergunta por sua pertinência à verdade ou ao erro, conforme você expõe na página 28. Você mesmo recusou-se a destrinchar o frango, e nos serviu apenas as asas, sempre mais fáceis de extrair, quando, se sabe, o mais gostoso é o peito... Por exemplo, quando você diz que aceita erros de copistas, mas não que os “autógrafos” os podiam conter, o que é que você acaba fazendo? Primeiro, começa a usar a palavra “erro” sem a definir, de modo que cada um entenderá da palavra “erro” o que puder – e quiser. Segundo, quando você diz que “embora não tenhamos mais os autógrafos, pela providência divina podemos recuperá-los quase que em sua totalidade”, além de essa ser uma afirmação historicamente carente de fundamentação, e metodologicamente inverificável, não sendo ainda, essencialmente, assunto de “fé”, mas de História (eu particularmente estou disposto a concordar com ela, mas só porque sou exegeta e me interessa concordar, mas a rigor não há garantias de que o texto da BHS consista em 1% ou em 99% dos autógrafos; há, quando muito, e com boa-vontade, grandes chances). Mas o mais curioso é que sua afirmação estabelece a estranha sensação de que Deus faça um esforço para produzir um texto sem erros, fazendo mesmo de homens, que tanto respeitaria, de “canetas ambulantes”, mas nenhum para resguardá-lo da falsificação de tantas outras “canetas autônomas e livres”... Não é por outra razão que, desde os fariseus, nossos antepassados teórico-metodológicos em quase tudo, sabe-se que Yahweh havia revelado no Sinai não só a Lei Escrita, mas principalmente a Lei Oral – afinal de conta, o que acaba valendo mesmo é sempre a afirmação de que a interpretação oficial seja aquela que é idêntica à proferida pelos fundadores. Também acho que é por isso, porque percebem isso, que li outro dia na Internet, no site de uma Igreja *** Fundamentalista, que o autógrafo inspirado era a King James original...

 

Concordo com você quando você afirma que não sabemos tudo (p. 28-29). Mas aí mesmo considero que você estragou também tudo, quando disse que “no entanto, não podemos aceitar soluções que impliquem numa diminuição da autoridade das Escrituras, sugerindo contradições ou erros”. Logo depois você diz assim: “é preferível aguardar até que mais informações nos ajudem a achar soluções compatíveis com a natureza das Escrituras e sua divina origem” (p. 29). Suspeito de que o ponto não tenha sido focalizado, e, se foi, foi escamoteado. Digo isso, porque, quando você diz “aguardar”, não está pressuposto que a gente fique de braços cruzados. Claro! Está pressuposta a manutenção do status quo construído e mantido à luz das pressuposições que você defende – que são legitimamente históricas, confesso. No fundo, o que parece estar em jogo é um determinado sistema teológico e doutrinário supostamente sustentado pela Bíblia – a rigor, sustentado pela história dos seus efeitos, por uma determinada interpretação tradicional. Se a Bíblia contém erros, é seu raciocínio, logo a Teologia e o sistema doutrinário da(s) igreja(s) pregados como interpretação autorizada da Palavra de Deus estariam contaminados pelo vírus da dúvida, do ceticismo. Não pode. Para que não haja a mínima possibilidade de crise de veracidade na doutrina, na catequese, na Teologia, na fé, no dogma – todos sinônimos – então a Bíblia tem de ser afirmada como isenta de erros, ainda que alguns elementos dela me digam que minha afirmação não está de todo de acordo com as evidências, ao que eu me proponho a deixar “essas” evidências de lado – mas só essas – até que... Eu diria que o que está em jogo não é o “até que”, mas o “enquanto isso”, porque você não deixa escapar a mínima possibilidade de que tais evidências possam efetivamente mostrar que uma certa forma de ler e lidar com a Bíblia seja, ao fim e ao cabo, uma forma derivada da tradição, mas, antes, se recusa a admitir, porque então será a mesma coisa que dizer que Lutero fundou uma filial de Roma, mas com letreiro disfarçado, e isso, quem assumirá?

 

Discordo da maneira como você se refere à possibilidade de acesso ao Sagrado – não são termos seus, são meus – implícita nos seus argumentos em “As Duas Naturezas da Bíblia” (p. 23-29). E sugiro uma saída, se você puder concordar com minha análise de seu discurso. Como alguém que faz Teologia a partir dos pressupostos da Fenomenologia da Religião, digo-o de mim, fica perceptível, no seu discurso, um pressuposto de acesso ontológico a Deus. A doutrina é uma forma de dizer algo sobre Deus. Conseqüentemente, a Bíblia é um lugar onde se encontram depositadas “informações” sobre Deus. Penso que seja essa já uma herança da tradição. Você não aceita a possibilidade de que se possa, sinceramente, tomar a Bíblia como livro divino-humano, mas sem tratar a dimensão divina como depósito de informações ontológico-objetivas sobre “Deus”? Você não considera a possibilidade de que se possa, sinceramente, tratar-se a Bíblia como livro divino-humano enquanto discurso humano sobre Deus? Por que, afinal, a necessidade incontornável, no seu discurso, de que se tenha que ter uma informação inquestionável, indiscutível, incontornável, iniludível, insofismável sobre “Deus”? Será essa uma necessidade inerente à leitura da Bíblia, ou a uma necessidade do trato “pastoral”, herdeiro de uma herança tradicional? Tillich já disse em A Dinâmica da Fé, e eu concordo, que “Deus” é símbolo para “Deus”, e você decerto entende o que isso significa, e significa que em nenhum discurso sobre Deus – Teologia/doutrina/catequese/dogma – Deus mesmo esteja, senão a sua representação histórico-condicionada, construída pela tradição e regimentada pela catequese – servindo-nos de Mircea Eliade, com base em nossas experiências e nos vestígios materiais da hierofania. Deus mesmo está acima de tudo isso. Quando, pois, percebo que todo o seu raciocínio se baseia na afirmação de que: a) temos um acesso imediato e não-simbólico a Deus; b) Deus está imediatamente e não-simbolicamente, não-culturalmente, não-historicamente, não-hermeneuticamente disponível na Bíblia; c) é relativamente fácil e possível entender a Bíblia (com o que se está a dizer, é o que penso, Nicodemus, que seja relativamente fácil ver como o que nós dizemos que está na Bíblia realmente esteja lá); quando percebo essa fundamentação, logo compreendo que se trata de partir já com o leite antes de ordenhá-lo, e tenho de repetir que considero esse o princípio do Vaticano, válido, funciona há dois mil anos, mas nem por isso compatível com o primado reformado do livre-exame das Escrituras, que teria como pressuposto, antes, ir à vaca com o balde vazio. Pelo menos antes da Reforma virar Reforma, porque enquanto era um clérigo em lutas contra a hierarquia, cuidava assim, mas depois que se tornou ele mesmo hierarquia, como (quase) todas, cuidou de dar nova demão às paredes...

 

Deixe-me dizê-lo que não é necessariamente incontornável o pressuposto de que ou se lê a Bíblia assim, como um depósito de informações sobre Deus, com as quais se pode construir um castelo teológico e colocar dentro dele gentes a considerar aquele o único castelo possível. Penso que seja plenamente possível tratar a Bíblia como Palavra de Deus e, ao mesmo tempo, considerar todas as suas afirmações como culturalmente determinadas – com todas as implicações teórico-metodológicas (teológicas, eclesiásticas, éticas) advindas dessa afirmação. Naturalmente teremos de re-aprender a viver enquanto crentes e cristãos que somos; re-aprender a nos aproximar dos homens e das mulheres que têm do Sagrado percepções diferentes da nossa tradição; re-aprender a pensar sobre Deus, a falar sobre Deus. Deus, como eu o concebo, não cabe em nenhuma formulação teológica, nem a minha, nem a sua, nem a da Igreja. Devíamos assumir isso todas as vezes que ousássemos usar o nome “Deus”. Em vez disso, esforçamo-nos para estabelecer metodologias que garantam nossos discursos sobre Deus, que o superdeterminem, que o sobredeterminem, que o legitimem – e, fazendo a ele, igualmente à nossa própria posição de poder. Chame a isso do que quiser, mas a despeito da forma como considerar isso que digo, minha confissão é a de que considero possível, sim, e legítimo, tratar a Bíblia como um livro de Deus, e por isso mesmo humano, na forma, na alma, no conteúdo; um livro que, mesmo quando fala de Deus, é do Deus conforme o concebem os homens que fala, porque do Deus verdadeiro não há boca humana capaz de falar...

 

... salvo a do Cristo, mas você sabe que para essa boca divina falar no nosso nível, cremos, desceu até nosso nível, e foi como homem que falou...

 

Penso que procurar qualquer apoio fundamental para declarar suficientemente seguras nossas interpretações, nossas teologias, nossas doutrinas, através da formulação de teorias e de sistemas de crenças supostamente baseados na segurança do acesso a Deus, na objetividade ontológico-teológica da Bíblia é, na verdade, transferir para os ouvintes, logo, para aqueles que estão sob meu “poder”, o meu próprio horror ao vazio, à incerteza, ao amanhã, ao acaso e ao ocaso. Construir segurança disfarçando a insegurança pode até funcionar, desde que eliminadas todas as fissuras da parede, umas vezes com palavras, outras, com sangue...

 

É no silêncio, e só no silêncio, que Deus está. Quando qualquer um de nós abre a boca, escuto um farfalhar de asas ligeiras, e pressinto Deus afastando-se, deixando atrás de si o vento e o vazio tumultuoso das fundamentações político-sociais das igrejas. Se não há como fugir disso, o mínimo que devíamos fazer é aprender a lidar com isso, antes de construir um castelo sobre o vazio barulhento das doutrinas. Um dia – vem ligeiro – estará claro do que são feitas, e, como elas, aqueles que nelas se asseguram além do silêncio, para horror daqueles que lhes ensinaram que, assim, estariam seguras...

 

II. Sobre a Parte 2: Os Primeiros Intérpretes do Antigo Testamento (p. 31-123)

 

Aqui você pretende descrever em linhas gerais episódios e personagens relevantes da História da Interpretação do Antigo Testamento: “ele” por “ele” mesmo, pelos rabinos, por Qumran, por Filo, por Flávio Josefo e pelos autores do Novo Testamento.

 

Seu livro não me parece um livro sobre a Bíblia, efetivamente, mas um livro de como fazer a Bíblia assumir uma posição de fundamento para a concepção histórico-teológica da “historia da salvação” (p. 36). E, Nicodemos, sinceramente não sei por que você chamou seu esforço de “investigação” (p. 33), se o resultado dela todos já sabemos de antemão desde, pelo menos, a Patrística? Não é uma investigação, e você sabe disso – é antes o esforço de defender a posição teológica permitida pelo método que você insiste em chamar de gramatical-histórico diante das conseqüências para a Teologia advindas das pesquisas com base nos instrumentais histórico-críticos. Além disso, quando você classificar um teólogo como “liberal”, como Gerhard Von Rad, deveria fazê-lo definindo o termo – aliás, você tem problemas com definições... Você sabe que a maioria dos leitores não tem a mínima idéia do que seja a escola liberal, e para muitos que conhecem o termo, ele é um simples título honorífico pejorativo. Sua forma de empregá-lo corrobora esse estado de coisas, corroborando-se também nele. Não é politicamente correto.

 

Na página 36 você classifica como “posição histórica, e ainda perfeitamente defensável” a afirmação de que “os primeiros escritos canônicos de Israel foram os cinco livros de Moisés, seguidos pelos escritos dos profetas, dos livros históricos e poéticos”. Essa afirmação é uma confusão só, Nicodemus. Você está falando de quê? Da ordem em que foram escritos: Moisés – profetas – históricos – poéticos? Ou você está falando do processo de canonização? Se fala disto, não há grandes crises, mas aí então você introduziu o assunto enviesado; se daquilo, não posso concordar. Você disse que essa posição é histórica: devia ter explicado que é histórica não no sentido de que foi assim, mas de que foi assumido por séculos que teria sido assim; e disse que é defensável, mas devia ter dito que o é apenas dentro de um grupo que já parta dessa certeza – malgrado toda a pesquisa veterotestamentária desde Spinoza (Bouzon o considera “o pai da exegese moderna”), ou, em todo caso, Richard Simon (considerado “pai da exegese moderna” e “pai da história moderna”). Na academia, onde se pretende estudar o Tanak historicamente, nada mais assentado do que o fato de que não existiu jamais uma grandeza chamada “cinco livros de Moisés” antes do século V a.C. – o mais tardar. Seus leitores devem ser informados quanto a isso. Se eu fosse seu leitor, e não tivesse eu mesmo as informações – e sou um exegeta da Bíblia Hebraica – me sentiria desrespeitado com sua afirmação incompleta e tendenciosa. Você até pode crer nela, mas devia dizer que se trata de uma opinião sua, contradita não apenas pelos que você chama de “liberais”, mas por toda a pesquisa acadêmica da Bíblia Hebraica que não se faça a partir do pressuposto da tradição como ponto de chegada, de cristãos a judeus, tanto quanto pela “academia secular”.

 

Nicodemus, Nicodemus, suas afirmações constantes das páginas 36-37, entre o título “Escrituras como Edifício Hermenêutico” e o Quadro 2, inclusive ele, não têm lá muita sustentação exegética. Primeiro porque o conceito de Escritura, como você o usa, dificilmente havia no período judaico pós-exílico, muito menos antes disso. O conceito de “cânon” conforme você o cita é um sublimado do século I d.C., tradicionalmente ligado a Jâmnia, em todo caso, não anterior a 70 d.C. Que eventualmente haja intertextualidade no próprio Tanak é evidente, mas não no sentido de “citação” de Escritura, e muito menos no sentido de “confirmação”. Há mesmo casos de textos que se desautorizam mutuamente. Mas a pérola dessas duas páginas é o seu Quadro 2 – que nenhum pesquisador do Tanak aceitaria, e que, mesmo para um pesquisador do Novo Testamento, não tem sustentação – não é historicamente apropriada, nem pode ser resolvida pela “fé”.

 

Explico: o Tanak é uma literatura autônoma. Não depende do Novo Testamento – o que não pode ser dito do Novo Testamento, que não só depende do Tanak, mas também dos deuterocanônicos e dos apócrifos (isso se o queremos estudar, antes que revisitar temas da tradição). O que o Primeiro Testamento tem a dizer, o diz e até a última gota, já o disse por si mesmo, e deve ser ouvido mediante as técnicas da exegese. O seu cabal entendimento, se possível, independe de qualquer outra literatura futura, mesmo no caso de se tratar essa literatura de o Novo Testamento. Nenhum exegeta do Antigo Testamento comprometido com exegese, e interessado em investigação, aí sim, histórica, de seu sentido, aceitará um centímetro da posição que você reserva para a Bíblia Hebraica. Lamento. E também o Tanak...

 

Além disso, você sabe que não há um Novo Testamento, como aquele que você colocou no topo de sua compreensiva pirâmide. O Novo Testamento não constitui uma unidade, nem suas concepções teológicas a pressupõem. Mesmo no campo relevante da Cristologia, os exegetas indicam para a construção teológica de várias cristologias diferentes nas proposições textuais. Nunca houve um “fechamento” natural disso que você chama “A Pirâmide Hermenêutica das Escrituras”, que considero uma abstração criativa sua, herdada de uma perspectiva uniformizante da Teologia dogmática.

 

A saída? Mude NT naquele triângulo superior da sua pirâmide para “Nicéia – 325 ano domini”, e aí estaremos de acordo – desde claro, que você esteja de acordo em afirmar que a fé cristã é nicênica, senão será outro livro, e outra Carta Amiga...

 

Não tenho espaço para analisar aqui seus modelos-provas de que a tradição esteja certa em suas afirmações quanto ao Antigo Testamento (p. 38-46). Vou direto às suas afirmações categóricas das páginas 46-47. “Atitude para com as Escrituras”: não, não havia conceito de Escritura no Antigo Testamento, e mesmo o conceito de Lei Divina relacionada aos livros de direito israelitas supostamente existentes a partir do século VIII é um conceito tardio, posterior ao século VII, talvez desenvolvido durante os séculos VI-V (Frank Crüsemann). “Propósito Aplicativo”: não, não eram considerados eternamente válidos os escritos; a escrita, enquanto fenômeno, é que era sempre considerada, mas rotineiramente superada dentro dela mesma, por ininterruptas revisões, glosas, retificações. Felizmente eram israelitas (judeus) e não teólogos confessionais, que não viam problema na disjunção – não eram aristotélicos, ainda – e podiam conviver numa mesma narrativa com afirmações contraditórias, e não vou enumerá-las aqui porque você as conhece a todas, eu creio, e terá um tratamento diferente para elas. É a sua opinião contra a minha – o que reduz tudo a um fator de consonância histórica e à disponibilidade de instrumental de verificação (Darci Dusilek), ou é a verdade de Deus contra a opinião de um homem? “Consciência de Autoridade”: superficial ao extremo, beirando o indesculpável, sua análise nesse ponto. A profecia sequer é um fenômeno minimamente compreendido, mas, para você, é (tratada como) ponto pacífico. Pelo menos você deveria levar em conta o pressuposto restritivo do Deuteronômio de que só deveria ser considerado pronunciamento de Yahweh aquilo que se cumprisse – com o que, na prática, está se dizendo para não se dar a mínima bola para qualquer fala que se apresente em nome de Yahweh, já que ela só se “cumpriria” séculos depois –, e também o fato de que daí decorre que quem decide o que é e o que não é de Yahweh não é mais quem fala, mas quem ouve, porque quem fala será julgado pelo cumprimento do que falou, e um camponês não teria, sob esse raciocínio – pelo menos sob a restrição da profecia levada a termo pelo Templo – nenhuma obrigação de dar ouvidos à profecia. “Leitura Natural do Texto”: outra simplificação difícil de ser superada, Nicodemus, porque nem mesmo se lia o Antigo Testamento naquela época – ele era lido por uma minoria, a liderança do Templo, um punhado de sábios, para uma massa de gente iletrada, que o quanto podia fazer era dar crédito a quanto se lhe dizia e dava, a crer nas observações de Paul Veyne em “Acreditavam os Gregos em seus Mitos?”. “Base para Desenvolvimento da Teologia Bíblica”: inverta sua fala, e conversaremos melhor. Não é o Antigo Testamento quem dá base para o que você está chamando de Teologia Bíblica: foi a tradição criada sobre as tradições judaicas como um todo, Torá, Tanak, literatura judaica (apócrifos e deuterocanônicos), tudo junto, numa amálgama cultural nem um pouco homogênea, mas com concentrações aqui e ali, distâncias, aproximações, sublimados. O fato é que essas tradições constituíam, elas, sim, a ótica cotidiana. O evento fundamental, contudo, nem foram as Escrituras, mas o fato de que um grupo de judeus mergulhados nas tradições judaicas apontou para Jesus de Nazaré como o Cristo, enquanto outro grupo de judeus, bem maior, não o fez. O grupo que o fez, imediata e automaticamente, atualizou as suas tradições na pessoa e na vida de Jesus, redundantemente, teologicamente, apologeticamente, argumentativamente, polemicamente, chegando mesmo a construir uma cadeira de argumentos-prova escriturísticos por conta de seu embate com os irmãos judeus-não-cristãos. Não, Nicodemus, não foi o Tanak quem determinou o Cristo, mas a fé cristã primitiva que re-interpretou todo o Tanak à luz de sua maior experiência vital – a fé no messias. Com isso, contudo, o Tanak não deixa de ser o Tanak, conquanto possa ter servido e servir de base para re-interpretações de toda sorte, cristãs, judaicas e esotéricas. “Midrash” não me parece anacronismo, não. Desde a literatura profética até a Torah, já lá estão perceptivelmente os traços distintivos desse tratamento metodológico a textos escritos. E foi sim, concordo com você, mas nesse sentido, que, utilizando-se não só de midrash, mas principalmente da alegoria, todos, judeus-cristãos responsáveis pela redação do Novo Testamento, e cristãos apologetas posteriores – refiro-me a Justino, Ireneu e Tertuliano – atualizaram o “Antigo (?) Testamento”, sendo que Justino não tinha nenhuma vergonha em assumir (não era moderno!) que o fazia, chegando mesmo a dizer, segundo o teólogo confessional Roy B. Zuck que, se o Antigo (?) Testamento não for alegorizado, não tem nada a dizer aos cristãos – e ele só disse isso porque achava que estava falando do telhado dos outros, porque quando chegar em Lutero, vai dizer que agora é outra história (e não é).

 

III. Sobre o Capítulo 6 (p. 108-123)

 

Dou um longo salto em nosso diálogo, Nicodemus, porque tudo quanto eu teria a divergir de sua opinião quanto à interpretação rabínica, de “Qumran” – que segundo Norman Golb não é sequer uma “seita”, mas a biblioteca de Jerusalém, preservada antes de 70 d.C. –, de Filo e de Josefo constitui-se em picuinha irrelevante diante da questão maior que tenho percebido em seu livro: sua metralhadora voltada para a face da crítica. Veja, por exemplo, essa sua fala: “a incredulidade impaciente de muitos estudiosos críticos acaba por levá-los a rejeitar a autoridade do Novo Testamento, propondo explicações que tornam seus autores em redatores desajeitados ou teólogos incoerentes e manipuladores irresponsáveis das Escrituras do Antigo Testamento” (p. 108). Eu acho que você não devia dizer uma coisa assim, porque não serve para nada – de bom. Primeiro, porque você coloca toda a crítica num só balaio de víboras, e as pisa a todas com sua bota de ferro – ou você acha que seu leitor vai fazer a separação piedosa, se nem você a fez? Seu texto classifica o mundo entre dois grupos – típica abordagem apocalíptica: os bons e os maus, os confessionais-que-crêem-na-Bíblia e os críticos-que-cheiram-a-enxofre. Paciência, amigo! Se a Igreja esfolou, empalou, afogou, queimou, você é responsável? Acho que não. Se há um ou outro crítico que eventualmente se enquadre no que você descreve, tem a crítica culpa disso? Acho que não. Então escreva sempre de um jeito que isso fique claro, senão terei direito de achar que você não está interessado em informar, mas em formatar... Além disso, que história é essa de “incredulidade impaciente”? O contrário do que você louva como a paciência da confissão em, mesmo diante das evidências, continuar a ladainha? Além do mais, se você estivesse com a razão – e não está, segundo creio – deveria ser mais humano com os críticos, do que os críticos com você. Dê o exemplo! E o exemplo que dá é de sempre confrontar os críticos com Deus – pobre do leitor que tomar o partido da crítica!

 

Digo mais, acho que você deveria escolher o que quer fazer: se interpretar a Bíblia, ou catequisar, porque você nem ninguém precisam da Bíblia para catequisar. Mas se o interesse é em estudar a Bíblia, deveríamos antes de tudo admitir, honestamente, que a primeira coisa que temos de fazer é partir do pressuposto de que podemos estar errados. Sei o quanto é difícil, mas sem isso, qualquer tentativa de transparência é ilusória, a pesquisa, desnecessária – menos para a apologia. Por que não chamou seu livro de Apologia Hermenêutica da Tradição? Gostaria mais dele assim, porque mais honesto, eu acho.

 

Quanto aos “Princípios Controladores da Hermenêutica Neotestamentária” (p. 115-122), há coisas interessantes ali, debaixo da perspectiva macro-estrutural com que você aborda a questão. Sim, Cristo é a chave, mas não, não há “uma” chave cristológica, mas várias, com o que retornamos à necessidade, sim, incontornável, sim, se queremos efetivamente conhecer o que o conjunto traditivo do Novo Testamento tem a dizer, de ler os vários textos neotestamentários a partir de si mesmos, e não da consubstancialmente teológico-doutrinária nicênica posterior. Deixemos os textos falarem a partir de sua posição histórica, e teremos de dar conta de novas complicações, muito além daquelas para as quais você tem se disposto a dar tempo ao tempo para que sejam harmonizadas. Suspeito que você suspeite disso, e lute contra isso... É o mínimo que esperaria de um teólogo confessional que se dá ao trabalho de escrever sobre o tema: conhece a questão, mas quer contorná-la. É assumir isso, e pronto.

 

Em “Os últimos Dias já Raiaram” (p. 117) está uma questão interessante. É preciso uma consolidação de tempo relativamente longa para se poder fazer a afirmação que você faz ali os cristãos fazerem lá: os judeus recusaram o messias. Efetivamente, só é possível uma tal afirmação depois da catástrofe de 70 d.C., depois que fariseus sobreviventes e cristãos sobreviventes decidem disputar quem é o verdadeiro “resto”, e cada qual vai dizer até hoje que o é. Contudo, o acontecimento histórico deixa latente a questão de que a Teologia se constrói como reflexo da própria história – fosse outra a história, a história seria outra, assim como, fosse Paulo pregar na Índia, ou na África, e não na Ásia Menor e na Europa, como o fez, o Cristianismo seria outro, outros os cânticos, outra a Teologia, outra a apologia...

 

O conceito de tipologia (p. 118) mais faz mal do que bem, porque reduz o Antigo Testamento a um baú de representações, de ainda-não, de vir a ser. Não gosto disso. É uma metodologia apologética, legitimadora, mas não uma tentativa consciente – como você diz deve ser a leitura da Bíblia – de ouvir o Antigo Testamento. Se os cristãos primitivos entendiam que tinham que usar dessa forma o Antigo Testamento, tudo bem, mas nós hoje já estamos razoavelmente grandinhos para saber dar nomes às coisas, e se se quer ganhar o mundo para Cristo, deve-se começar a ganhar o seu respeito – como, aliás, era o propósito dos apologetas patrísticos! –, e não será com esse tipo de ferramenta que o Cristianismo se fará ouvir por quem tem ouvidos para tanto...

 

IV. Sobre a Parte III: Os Intérpretes da Bíblia na História da Igreja Cristã (p. 125-253)

 

A Parte III consiste no restante do percurso – tomada a Bíblia como um conjunto, como teria sido – sob a sua ótica, claro – a sua leitura durante a história? Você começa o assunto pelas “escolas” de Alexandria e Antioquia (capítulo 7), segue pelos pais latinos (8), pelos intérpretes medievais (9), pelos reformados (10), pelos escolásticos e puritanos (11), caminha pela “Interpretação das Escrituras na Modernidade” (12), descreve um como que advento da Pós-Modernidade no campo bíblico-hermenêutico (13), arrisca afirmações sobre as “Vertentes Formadoras dos Intérpretes Pós-Modernos” (14), trata deles (15), e arremata apresentando desafios que entrevê para o intérprete da Bíblia (16). Estamos no coração do seu livro.

 

Você conclui a sua apresentação sobre a escola de Alexandria (p. 129-134) com duas afirmações: o método desconsiderava o caráter histórico de determinadas passagens, e não dispunha de controles adequados (p. 134). Concordo com essa última afirmação, mas em termos. A rigor, o controle do método alegórico é a interpretação que já existe antes da aplicação do método. O método alegórico baseia-se na intentio lectoris, logo, a “verdade” já está de posse do leitor antes da leitura, e, a rigor, o leitor controla, sim, a leitura, logo, o método. A crítica que você fez à “alegoria” deve ser aplicada também à interpretação reformada, com o que designo aqui a tradição oficial de interpretação da Bíblia a partir da Ortodoxia Protestante. Trata-se, ainda aí, de alegoria – mas uma alegoria de chave-única, que poderíamos chamar de chave cristológica: logo, uma alegoria cristológica, ou uma interpretação alegórico-cristológica. Nesse tipo de metodologia, o controle é o resultado pretendido – e que há efetivo controle do método a história das comunidades desde então o demonstra, mais do que mil fórmulas...

 

No que diz respeito à distinção que você faz entre as escolas alexandrina e antioqueana (p. 134-139), a rigor deveríamos considerar esse assunto como uma questão de “grau”, tanto quanto é apenas uma questão de “grau” o critério hermenêutico medieval e o da Reforma. Antioquia não defendia o sentido literal, como você chega a tentar dizer – e o diz. Pode-se até dizer que ela reconhecia o sentido literal, mas como uma espécie de sentido que lá estava, como as folhas de uma árvore, mas que o importante não era esse sentido literal, mas a garantia daquele “sentido profundo” de que os cristãos (agora) podiam se servir, como da “sombra” da árvore. Esta metáfora é boa, porque se imagina que a sombra seja uma projeção da árvore, uma projeção de sombra. O sentido “profundo”, o sentido “teológico”, aquilo que se convencionou chamar de sensus plenior, a dizer que a um sensus que não é plenior, e se não é plenior, coitado, até vá lá que exista, que esteja lá, mas serve para quê? para nada, porque o que interessa é o sensus plenior...

 

Não, Nicodemus, não estou ainda em situação de acreditar na possibilidade de que no século IV houvesse consciência histórica no nível que somente os desdobramentos da Renascença à Reforma à Iluminismo concederão à humanidade. Antioquia era ainda tão fomentadora de sentidos últimos, místicos, mágicos, teológicos, vá lá, quanto Alexandria, e mesmo Lutero e toda a sua enormíssima tradição protestante-evangélica (na qual me incluo) desde lá até cá. Apenas nos ambientes acadêmicos que se tomam como tal está-se, aí sim, interessado no sentido histórico (sem, contudo, mágicas que o ponham em nossas mãos, malgrado arrogâncias e narizes que o pressuponham), porque ali não se trabalha com a hipótese, histórica, de um sentido “profundo”...

 

...nem se poderia, porque o sentido profundo não “está” no texto, mas é colocado lá mercê de dois fatores: coisas que acontecem depois do texto, e pessoas que interpretam essas coisas que acontecem depois do texto, ligando-as ao texto, retroagindo uma à outra, projetando uma na outra, passado no futuro, futuro no passado. Tirem-se a coisa acontecida e a pessoa que interpreta a coisa, e o “sentido profundo” deixa de existir, puf!, como uma bola de sabão se vai.

 

É por isso que a tradição católica não abre mão de seu discurso relacionado à Tradição e ao Magistério, porque ela sabe que a fundamentação para o “sentido” cristão da própria tradição está nela mesma. É difícil ouvir um discurso desses? Eu sei. Mas fomos nós, protestantes, reformados, como alguns se gostam de chamar, que dissemos – Bíblia! Agora nos cocemos com a coceira. O que não se pode é dizer “Bíblia!”, apontando para a tradição – e pior, dizer “Bíblia!”, apontar a tradição, e dizer que se está apontando para a Bíblia, ainda que num “sentido profundo”. Está mais do que na hora – já passou o tempo – de os “reformados” levarem Lutero (o primeiro) a sério, e assumirem Lutero (o segundo), como um destilado institucional desandado. Essa distinção entre Alexandria e Antioquia está longe disso.

 

A forma como você menciona Tertuliano (p. 142) me causou verdadeira estranheza, e penso que um de nós dois – talvez eu – devamos reconsiderar aquilo que julgamos “saber” de Tertuliano. Você o descreve como alguém que não seguiu a “alegoria” – mencionando, ainda, que ele havia considerado Gn 1 e 2 “históricos”. Deixando essa questão da historicidade de Gn 1 e 2 de lado, convém lembrar que Tertuliano foi o sistematizador do conceito jurídico da tradição na Igreja. Entendo que são três os pilares da História da Interpretação da Igreja, sem nenhuma necessidade fundamental de se distinguir entre “Alexandria” e “Antioquia”, já que, a rigor, e no geral, no que “conta”, o pressuposto hermenêutico é o mesmo – fundamentar a tradição cristã na leitura das Escrituras. Justino defendeu a alegoria, e a estabeleceu como método de interpretação (A, de alegoria). Ireneu estabeleceu o papel central da tradição como critério de verificação da ortodoxia da leitura e da interpretação das Escrituras (T, de tradição). Tertuliano estabeleceu o critério do controle eclesiástico – lembre-se de sua formação jurídica, por conta de que seus pais intentavam para ele uma carreira diplomática (A, de autoridade). Roy B. Zuck deu-me a ponta do fio, e eu o puxei, e cheguei a tricotar um suéter em que estão escritas as letras “A – T – A”: alegoria, tradição, autoridade, como o tripé sobre o qual se ergueu a belíssima catedral teológica neoplatônica em que consiste Nicéia e seus desdobramentos, mesmo a Reforma. Sim, de fato Tertuliano começou uma “nova tradição” na Igreja, mas penso que essa tradição foi a tradição “jurídica”, bom filho foi nosso moço.

 

Então, na página 143, num tópico que você chama de “Alegorias Ocasionais”, você escreve: “algumas vezes os intérpretes alegorizavam o Antigo Testamento”. Eu quero insistir, Nicodemus, que fazer uma separação entre “alegoria” como uma técnica metodológica, de um lado, e a interpretação preferencial pelo histórico, “muito embora conscientes dos diversos sentidos que se poderia atribuir a um único texto” (p. 143), é fazer separação entre queijo prato e queijo minas. Tudo é queijo, vêm do mesmo leite, são da mesma vaca. O simples fato de se estabelecer a saída pela via do sentido “profundo” das Escrituras que é senão a manutenção, pretensamente modernamente controlada, da teoria dos quatro sentidos medievais? Penso que o espírito moderno do cristianismo “reformado” não tem como abrir mão da consciência histórica – somos, afinal, os criadores da História, nós, protestantes, e disso gosto muito, até a última gota –, e, ao mesmo tempo, não tem como abrir mão da tradição teológica herdada, chame-se essa tradição de doutrina, dogma, fé (como a chama já Judas, desde muito cedo), querigma, são muitos nomes para a mesma fortaleza. E, porque o cristianismo reformado é reformado, e não católico, não pode resolver isso pela assunção da tradição como critério, resultando o recurso ao apelo a esse resquício medieval – disse medieval? – patrístico, de “sentidos” profundos...

 

Como disse, está ainda por ser montada a igreja reformada...

 

Ah, sim, deixe-me ainda registrar o que penso sobre sua afirmação quanto a Agostinho, que “desejava ardentemente ser fiel à intenção original das Escrituras, que ele entendia ser aquele único sentido inspirado por Deus” (p. 143). Se nos ativermos à literalidade da afirmação, eu a posso usar para mim mesmo. Contudo, de que modo poderia eu, assim o fazendo, tomar os textos de Gênesis como os toma Agostinho? Se eu tiver que conciliar o desejo dele com a prática exegético-teológica dele, terei de admitir que era cedo demais para a época, e que o querer estava longe do efetuar. Talvez somente com o advento da consciência histórica e dos princípios de relatividade cultural e circunstancial, de condicionalidade discursiva, essas questões fundamentais que as Ciências Humanas plasmaram em nossas retinas, estivéssemos os homens e as mulheres prontos para iniciar a tarefa. E acho mesmo que ainda hoje estamos sem todas as condições que, também acredito, acabarão advindo. Penso que a História ainda é um bebê, e que logo chegará à adolescência. O mesmo se diga da arqueologia, que, aliás, acaba de sair da casa paterna, e caminha agora com as próprias pernas – tenta – pela Palestina. Quando as Ciências Humanas progredirem um pouco mais além das próprias lutas intestinas em torno de qual delas deve mandar nas outras, resolvida essa questão, que a Teologia ainda hoje não resolveu, então penso que estaremos ainda em melhores condições do que Agostinho para expressar também nosso desejo. Deram-se dois mil anos à dogmática! Dê-se o dízimo disso à novel arqueologia, e também às pazes entre a metodologia histórico-social e a exegese (isso se não for mesmo uma moda, como ouvi dizer esses dias!) e acho que compreenderemos mais profundamente porque Bultmann tratou de tentar resolver logo, e a seu jeito, as coisas – pena que à custa da História (no que, na prática, não há muita diferença entre ele e Agostinho, malgrado tanto desejo...).

 

Você, por exemplo, Nicodemus, fala de “alegorias ocasionais” (p. 143-146). Não sei, não, Nicodemus, mas acho que algumas das suas afirmações são feitas através da transmutação dos conceitos. A meu ver, alegoria é todo procedimento de substituição de referente. Dado um texto x, que, numa época y, tinha por referente uma grandeza w, se agora eu tomo esse mesmo texto x (a rigor, a narrativa contida nele), mas substituo o seu referente (independentemente de ter consciência ou não de tal operação, e mesmo de ter condições de determinar o referente original), isso que eu fiz é um exemplo de alegoria. Naturalmente num sentido amplo, mas qualquer outro nome que se dê a tal procedimento não poderá apagar o fato de que o referente não é mais o mesmo, lá era w, aqui é quem ou o que se queira. Quando você descreve a chateação de Jerônimo com a suposta escamoteação dos textos “que claramente se referiam à vinda de Jesus Cristo” por parte dos tradutores da Septuaginta (p. 144), está pressuposta a afirmação de que o referente dos textos do Tanak, quero dizer, os referentes históricos, genéticos, intencionais, são irrelevantes – até vá lá que existam, que haja algo como isso de sentido histórico, como o método histórico-gramatical ou gramatical-histórico concede benevolamente, mas e daí? não acabam se tornando uma indulgência, quando pouco, e uma declaração de “modernidade” por parte do método (como contornar a História!?), logo, uma escamoteação também, já que o sentido, o verdadeiro, o que importa, está aqui, comigo, e não lá, com eles, está na história dos efeitos da tradição, antes que no conjunto narrativa-intenção-referente? No fundo, Nicodemus, a sensação que tenho é a de que seu texto está escrito para convencer quem quer ser convencido, e desde que quem o queira não precise mais de argumentos...

 

O apelo subentendido é à “fé”. Isso está pressuposto no caminho que você traça, nas retas e nas curvas. Ocorre que um tipo de argumento-sombra como esse deve, necessariamente, tratar a “fé” como “depósito de doutrina”. Eu sei, há precedente neotestamentário, porque esse é rigorosamente o sentido de “fé” naquela deliciosa carta de Judas (cf. v. 3.5.17 = “fé” dada definitivamente como memória das palavras ditas anteriormente). Quero crer, contudo, Nicodemus, que você entende perfeitamente que há sérios problemas em se tomar esse conceito de “fé” como a fé “salvífica”, salvo se a doutrina for “sacramento”, e isso num momento em que a própria Igreja Católica vê discutida a questão dos sacramentos (cf. Hans Küng em “Teologia a Caminho”). A História e as ferramentas histórico-críticas não ferem em nenhum grau a fé “salvífica”, Nicodemus – é o que penso –, mas deverão, necessariamente, fincar o pé no meio do acampamento da fé-enquanto-doutrina, da fé-enquanto-memória-das-palavras-ditas-anteriormente, a fé das catequeses (de todas elas, desde as católico-romanas até as evangélico-neopentecostais, passando decididamente pelas evangélico-tradicionais e protestantes reformadas: são todos nomes, caixas, onde colocamos gentes diferentes e coisas iguais...), e, honesta e corajosamente, perscrutar as fontes, o olho d’água, a nascente, porque as águas nas quais nos banhamos é a água da história dos efeitos da tradição, malgrado a birra protestante. É o preço que deveremos pagar, um dia, humildemente, pela arrogância diante dos católicos, também eles, igualmente, mas assumidamente, tradicionais, nadando alecremente na praia de Nicéia. Banhamos-nos também, com eles, mas como que invisíveis águas-vivas, nessas mesmas águas – ocorre, contudo, que mudamos a placa que dá nome à enseada: “Bíblia”. Ah, e nem vimos que um danado foi lá e acrescentou “Bíblia”(as), esses moleques!

 

Na sua conclusão, você lamenta que se tenha dado (mais) atenção apenas à afirmação de Agostinho de que “havia um sentido além do literal” na Bíblia, e que, daí para o sentido quádruplo medieval foi juntar fogo à palha. Mas lamentar por que, Nicodemus? O sentido-além-do-literal é, a rigor, o único que interessa. Num ambiente que precisa dessa espécie de afirmação, não há qualquer serventia para o sentido literal – é mesmo um calo no sapato. Contorna-se o calo com uma sandália aberta; contornou-se aquele com o sentido “profundo”. Ora, Nicodemus, onde cabe um cabem vários, porque esse texto assumidamente grávido de sentidos, por que cargas d’água tem um só além do primeiro? Não, Nicodemus, se o texto vai ser lido a partir da sua polissemia facultadora de mundos hermenêuticos, a cuja metodologia Croatto dá o nome de eisegese, então quem faz acintosamente eisegese deve dizer por que só um sentido “extra”, e não tantos outros. Por isso Ireneu e Tertuliano são importantes: porque eles perceberam que Justino abrira a porteira – e reconheciam que, se Justino não tivesse

aberto a porteira, isto é, se não houvesse defendido, praticado e justificado o método alegórico de acesso ao Antigo Testamento, como bem viu seu colega Roy B. Zuck, não haveria como defender – opinião dele(s), não minha – a pertinência “cristã” da Bíblia Hebraica (= Antigo (?) Testamento). Contudo, abrir a porteira não deve ser, entendiam, deixar todos os bois passarem. Ireneu, portanto, quer que passem apenas os seus bois – Tradição. E se alguém achar que tem força suficiente para forçar a porteira, Tertuliano já já vai mostrar para que serve o direito...

 

Justino, Ireneu e Tertuliano propugnaram um método que, em si mesmo, gera incontáveis sentidos, a Alegoria, que gera tantos sentidos porque substitui o referente histórico do texto, colocando nele quantos e quais queira. Mas acontece que nenhum deles é exegeta – eles são apologetas: o que querem é defender a ortodoxia da tradição – a qualquer custo. Logo, têm de dar um jeito de usar um método geneticamente e programaticamente polissêmico para justificar uma “regra de fé” tomada como pronta e acabada: Tradição. Só mesmo, Nicodemus, pela força da Autoridade. Uma consciência crítica logo vê do que se trata...

 

Então eu digo o seguinte: defender um sentido profundo nas Escrituras é possível? É. A que preço? Reconhecendo o fato de que a metodologia que produz um sentido profundo produz quantos outros de que necessite; o fato de que, se a “regra de fé”, justificada pela metodologia de fundamentação alegórica aplicada à tradição veterotestamentária, apresenta-se como única, una, universal, não advém a sua justificativa da metodologia que adota, e que outro pode usar para dizer o inverso, mas de si mesma, de sua carga de autoridade auto-aplicada (ainda que apele ao Cristo); que a teoria do sentido profundo só é mantida denodadamente no protestantismo porque este não pode admitir para si mesmo que os católicos, afinal, têm a melhor solução para quem quer viver no século XX e XXI como se no I – dar à Tradição o peso que ela tem de ter para manter-se viva, se o que se quer é que ela se mantenha viva. Viva, não, superviva, sobreviva, porque esse tipo de Tradição se nutre da paralisia e do controle de seus próprios órgãos. 500 anos de protestantismo até agora só produziram uma paródia escamoteada de catolicismo – e minha opinião sincera, honesta (quem sabe errada) é que seu livro não ajuda em nada a resolver essa crise histórico-antropológica doméstica.

 

Queremos a Tradição, mas queremos o discurso histórico. Para dizer de uma vez, penso que os católicos ficaram com a Tradição. Quem ficou com a História? Nós? Os protestantes (evangélicos e toda a cornucópia poliédrica no interior da qual se debatem todas as ortodoxias iluminadas)? Não, Nicodemus. Nem nós nem os católicos a quisemos. O que resulta em dizer que, se os católicos ficaram com a Tradição, e nenhum dos dois com a História, com que foi que ficamos? Posso dizer? Você não vai brigar comigo? Ficamos com a mesma coisa com que Bultmann decidiu ficar, sem, contudo, assumir dele sua loucura consciente de abnegar metodologicamente da terra, grão de nada a flutuar no nada mais profundo – mas não é a terra a raiz do mito? E nosso estado é tal que não enxergamos nele nossa própria imagem... E tal é esse estado de coisas que ainda há entre nós alguns que pensam poder contraditá-lo com a mesma teologia querigmática, mas como se fundamentados na história!

 

Quanto a mim, quero a História. E se ainda não a podemos ter, assumo a condicionalidade incontornável da minha Tradição – com todos os riscos que isso significa. E, assim, me restam duas atitudes, que chamem românticas, se quiserem: a) saltar no escuro insondável do Sagrado, silêncio puro, e em silêncio [o único fenômeno humano que afasta Deus é a palavra]; b) aproximar-me de tudo e de todos como estruturalmente semelhantes a mim mesmo: por mais sedentos, por mais “crentes”, por mais vaidosos de nossa espiritualidade, seres humanos nadando em símbolos de símbolos, dos quais não há a mínima necessidade de se abrir mão, porque fora dos símbolos não há outra forma de ter sede do insondável. Mesmo a tradição, que é senão um mar de símbolos, que se assim tomados, marulham felizes nas praias das nossas vidas? Boa tradição essa. Partamos dela. Se ela porto é, é de partida – não de chegada...

 

Seu livro avança, e de repente já estamos na Idade Média, com os vitorinos e com Rashi. Gosto desses nomes, ainda que, também eles (e nós) sejam filhos do seu tempo. Mas há um quê na atitude, entende?, que me faz crer na possibilidade de que, fossem filhos deste tempo, teriam muito a ensinar – a nós dois. Foram homens além de seu tempo, como Spinoza. É claro que teremos de reconhecer que o brotamento de homens assim, e das mulheres, sobre as quais a gente nem fez questão de lembrar, deve-se ao fato do andamento das coisas – não de um evolucionismo (também [e por isso] contido em algumas Teologias de “revelação progressiva”, que tão perfeitamente juntam a minimalização do sentido histórico do Primeiro Testamento à maximalização da interpretação nicênica da mensagem do Segundo [Darwin pôs ovos onde a gente menos espera!]), mas das pressões internas do sistema fechado. Desde que Deus escolheu escrever suas palavras, que ele sabia chegaria um dia em que os leitores dela intuiriam o tempo, o devir, o condicionamento histórico incontornável, a determinação, o conceito de cosmovisão, as operações da ideologia, essas coisas todas muito modernas, e que parece já começavam a germinar lá pelos idos dos séculos XI e XII. Poderia eu mesmo dizer – usando sua metodologia – que para esse tempo a Bíblia foi escrita. Mas quê? Ela foi escrita para todos os tempos – inclusive o nosso, que, pede, seja lida como a partir dele.

 

É um capítulo nostálgico, esse seu, o nono. E meu estado de espírito é tão que mal posso esperar para virar a página, porque, na “Conclusão”, você escreve: “o ressurgimento do interesse no final da Idade Média pela interpretação gramático-histórica preparou, em certo sentido, a grande revolução hermenêutica que foi a Reforma protestante. É o que vamos ver em seguida” (p. 157). Estou “doido” para ver o que você tem a dizer sobre ela, e torço honestamente para que não seja o mesmo que sobre ela o disse Roy B. Zuck, que, por conta do que diria da Reforma, e do que teria significado o “agora sim, a coisa vai” daquele momento, baixou o porrete em Justino, Ireneu e Tertuliano, denunciando a sua alegoria, porque, para ele, agora aquilo era coisa do passado...

 

... e não é exatamente o que você diz, logo no começo, e eu quase desfaleço!? “O domínio de séculos de interpretação alegórica é finalmente quebrado” (p. 159): ouço até os sinos tocarem – será dor de cabeça?

 

Vamos lá. Você afirma: “resgate da posição central da Bíblia na fé e na prática da Igreja” (p. 158). Você judia muito de mim, Nicodemus. Mas já disse o que penso sobre essa afirmação sua, para a qual eu já estava preparado, e se fiz aquelas pantomimas acima foi só para quebrar o gelo (ou para ser irônico mesmo?). Se você me disser que fala do discurso reformado (extensivo a todos os familiares), aceito; se da prática concreta, não. Dela já disse que a classifico como igualmente católica, e o diálogo entre Erasmo e Lutero a que me referi dá conta disso. A Reforma só substituiu a autoridade do clero que se fundamentava em si mesmo (apelando para a Tradição) pela autoridade do clero que se diz fundamentada na Bíblia, quer dizer, na iluminação do Espírito, quer dizer, na Teologia oficial, mesmo, respaldada, sempre, como que pela Bíblia e pelo Espírito. Lutero devia estar tomado quando disse aquelas coisas sobre livre-exame das Escrituras...

 

Deixe-me dizer com todas as letras, Nicodemus, que não sou contra a Tradição. Para mim, sem tradição não há vida, caminho, estrada. Penso, contudo, que a Tradição não seja uma múmia divina, seca e mofada, exposta à visitação pública. É antes o próprio mar onde nadamos, cujas águas banharam, desde “Adão” até nós, todos os seres humanos da História; águas antiqüíssimas, honradas, de cãs e cajado. Gosto dela, nado nela, mas há mais rios desaguando águas nela do que pode dar conta minha opção pelo ribeiro... Conto, pois, com a tradição. O que não posso (quem sabe ainda?) aceitar é ver essa mesma Tradição ser transformada em norma, e tal transformação ser escamoteada em nome de um suposto procedimento metodológico hermenêutico, que apela a uma também suposta fundamentação bíblica, a partir de um, aí, sim, explícito pressuposto de um sentido profundo nelas, que somente quem toma, como tudo começou, essa mesma Tradição dessa mesma forma, pode enxergar. É ou não é um círculo vicioso? Trata-se ou não se trata de uma evidência evidente apenas para quem já comprou os óculos 3D? É por isso que tão sublimemente funciona o argumento de quem é carente de “fé” (traduzindo: quem não comprou os óculos 3d, quem não puxou o fio da meada, quem não se acomodou no cavalinho azul do carrossel) não pode entender essas coisas. Pelo menos nisso se tem razão – mas só na afirmação, e não no juízo de valor decorrente dela...

 

Eu não quero mal a Lutero. Pelo contrário, sou grato a ele. Alguém tinha de fazer o serviço, e só não foi Erasmo, segundo Hans Küng, porque teria fugido à luta, e, na minha opinião, já disse, não foi um João Hus, porque não tinha lá seus príncipes – mas também não, seus camponeses... Quero tomar tim-tim por tim-tim tudo quanto Lutero estabeleceu como princípio da Reforma – o Lutero antes da igreja luterana e a Reforma antes da Reforma. No que nos interessa aqui, nada melhor do que o princípio do livre-exame das Escrituras. Quero agarrar-me a esse princípio com a alma “protestante” que cuido ter, e quero agradecer a Lutero por ter dado a sorte de ver-se em torno das reunidas condições para gritar para além do muro (ainda que rapidamente tenha ele mesmo feito seu próprio curso de construção civil). Mas não quero senões tradicionais, como a cristologia nicênica a título de chave-hermenêutica. A(s) Cristologia(s) que posso assumir está(ão) no Segundo Testamento (não no Primeiro, muito menos, a rigor, nos concílios, bons, mas para refletir a partir deles, e, até, contra eles).

 

Vou devagar aqui, porque é terreno escorregadio e quente. Quanto você cita Lutero a afirmar algo como “pregar a Escritura em seu sentido único” (p. 161), com uma gota de bom-senso, talvez duas, que seja um copo, podemos ver logo que Lutero fala de interpretação. O caminho é: opção doutrinária à narrativa bíblica à púlpito. Lutero já sabe qual é a interpretação correta, e por isso pode pregar o “sentido único da Escritura”. Mas é “único” no sentido de diferente do das “cobras”, para me remeter à sua citação dele. Veja que, já aí, Lutero engole o mel que vomitara – princípio de livre-exame, para que todos sejam livres para chegar ao “sentido único”? Sim, eu postulo, também um único sentido para a Escritura – e esse único sentido só pode estar em dois lugares, e em um único momento. O único momento é a fala, não a escrita, porque a fala é fechamento e clausura de sentido, e a escrita, abertura e polissemia; os dois únicos lugares são, ou o escritor enquanto fala, ou eu mesmo, enquanto falo eu mesmo a partir da minha leitura do texto (= tradição). Minha opção é pela fala do escritor sagrado; o preço que pago é seu silêncio tumular; o método que uso é a desesperante tentativa histórico-social de recuperar essa fala, de reconstruí-la, mercê de metodologias inventadas mesmo para tentar isso. Consigo lá meus resultados, publico-os aqui e ali, mas nunca poderia, em sã consciência, malgrado partir do pressuposto de que só haja um único sentido nas Escrituras – o do autor sagrado, enquanto “fala” – que a minha interpretação, que a minha publicação tenha, necessariamente, alcançado esse sentido único. É uma questão de honestidade metodológica. Fosse, contudo, o lugar escolhido o meu próprio pronunciamento hermenêutico, então eu poderia dizer mesmo, com presunção, que esse é o único sentido, porque o sentido quem o cria sou eu, é meu, e, depois da trindade patrística, é meu, só tem ele, e o de todos os demais é erro e sombra.

 

Assumir a História é assumir o silêncio absoluto e a fala relativa. Aceito os dois. E pressinto que seja assim que Deus lida comigo...

 

Vemos, você e eu, a Reforma com olhos diferentes. E eu vou arriscar um palpite. Você considera a Reforma uma pousada para a teologia que confessa, antes de parar definitivamente na Escritura. Você, contudo, sabe que a Teologia é o que o método é: “diga-me que método usas e eu direi qual a tua Teologia”. Você defende o método histórico-gramatical, que, aceito, seja gramatical, mas, não aceito, não é histórico. É no máximo um método que adotou palavras como “história”, “intenção autoral”, “sentido histórico do texto”, mas só porque não tem escapatória, porque “história” mesmo ele não quer, mas só o sentido profundo, o mesmo que Lutero já adotou, plasmando em método sua experiência pessoal – no fim não é sempre assim, e também aqui? Você é um pastor escrevendo, Nicodemus, mas um pastor comprometido com uma escola teológica e com uma tradição doutrinária, com um sistema eclesiástico e com uma cultura espiritual, e que acaba confundindo sua vocação para o pastoreio das ovelhas com uma vocação para a apologia das idéias, porque enfiou na cabeça que se pastoreia essa gente com a apologia das idéias. Você não tem desculpa! Quem se mete a escrever sobre História da Interpretação (da Bíblia) sabe que a mania de achar que ser crente é saber doutrina, nasceu na Ortodoxia Protestante, quando os reformados, e quantos! cada um mais do que o outro, resolveram a questão de afinal quem era mais reformado do que o outro, concluindo que o era quem tivesse a doutrina mais lapidada, mais lustrosa, mais redonda, sempre sabendo, nós (e eles?) que cada qual sempre dirá: “é a minha!”.

 

Não, para mim a Reforma não fez revolução, fez divisão e fragmentação, e, ainda assim, de “poder”: povo católico, povo protestante, tire-se-lhe uma abreugrafia e não saberemos identificar um do outro, salvo se um entrar com sua imagem de São Jorge e, o outro, com seu livro. Tantas quantas sejam as igrejas protestantes, ainda vivemos, todos nós, exatamente com a mesma estrutura católica, somada, algumas vezes, mais ou menos acentuadamente, a arrogância individual, que lá, é só eclesiástica. Mas como não podemos transbordar-nos de nós mesmos, nós, em cuja boca mínima fala a única Teologia, a única doutrina, a única... a única...? Indiscutivelmente! Como não nos damos conta?

 

Por que não queremos. Temos a doutrina pronta. Temos Deus nos púlpitos. Temos as massas sob controle [?] (e é trágico-cômico ver que, quando um novo Amós se levanta, logo funda outro Templo!). Temos o Espírito. Temos tudo. Que mais queremos? Colocar, metodologicamente, tudo isso em suspeição? Permitir ao outro perguntar, afinal, se não é minha vontade de crer e de poder que me faz manter tudo isso inquestionavelmente imaculado, desde que não haja questionamento? Dar o braço a torcer, e confessar que somos tão católicos quanto os católicos, cuja Tradição fala mais alto? E já não arranjamos um jeito de demonstrar que tudo isso nasce, divinamente dirigido, da fonte – não é o que você diz na página 167, no segundo parágrafo de sua “Conclusão”?

 

Se o que você queria era uma apologia, Nicodemus, tem-na bem redigida. Mas não precisava, porque o serviço já foi feito, e posso comprar Diálogo com Trifão ali mesmo, na livraria, ou lê-lo na Internet. (e não me venha dizer que o que ele faz é alegoria, e o que você faz, não...). Mas se você queria convencer a quem não concorda com seus argumentos, de que eles têm, afinal, validade, aí acho que não precisava ter escrito. Não convence. E, se além de se fazer convencer, de defender o método histórico-gramatical (que seria um excelente método, se abrisse mão do controle teológico – mas aí viraria, ora vejam! o método histórico-crítico, que você condena), você queria demonstrar a invalidade, a desnecessidade, a perniciosidade, do método histórico-crítico, salvo para seus ouvidos, fez ainda menos melhor serviço. Saio de seu livro mais convencido de que meu maior inimigo sou eu mesmo, e minha gana de me agarrar a meu próprio braço para salvar-me das ondas.

 

Sinto, às vezes, que tão pequenos somos, mínimos mesmo, meninos e meninas de Jesus, bebês a dar os primeiros passos, o Pai se nos coloca ali, a dois passos de distância, e tem ele os braços abertos, e diz “vem”. Damos até um primeiro passo, “vamos”, mas ele dá um pra traz, e então, num movimento que para nós quantas vezes está imperceptível, agarramo-nos ao sofá aqui do lado, ao pé da mesa, à mesinha de centro... A diferença entre nós, essas crianças, e as crianças reais, é que elas são marotas: fazem isso, olham pro Pai e sorriem. Nós, não, nós nos agarramos ao pé da mesa e o chamamos de “papai”. A Teologia é o pé da mesa, Nicodemus, é só um pé de mesa. O Pai deu um passo atrás, não vês?

 

Temos ainda tempo? Para os puritanos? Quero dizer, para um comentário seu? Ei-lo: “um problema que aparecia às vezes na interpretação de alguns puritanos era o permitir que sua exegese fosse controlada por um aspecto teológico dominante” (p. 178). Sim, mas diga-me que instância eclesiástica, que denominação, desde as primeiras até as atuais, que não tenham caminhado por esse caminho? Pelo fato de sermos “protestantes” já estamos culturalmente determinados por uma obrigação teológica que nos vem de cima, como uma verdade incontrolável, que, contudo, alguns controlam... Pelo fato, depois, de sermos batistas uns, presbiterianos, outros, metodistas, aqueles, anglicanos esses, pentecostais uns, neo, outros, por essas simples sobredeterminações de “fé”, onde é que a exegese é livre, meu amigo Nicodemus? Se em 1962, Hans Küng podia dizer que a dogmática ainda nem sequer levara a sério a exegese (e basta ler algumas dogmáticas para ver que até as assassinaram), não parece que 40 anos mudaram a história, pelo contrário, acirram-se as posições radicais da “fé”. A exegese ainda chegará a dizer à dogmática que não precisa temer, desde que ela de fato ame a verdade... Não que a exegese a tenha, mas é justamente porque ela sabe que não...

 

Deixo o capítulo frustrado. Queria ver a “revolução”, crer nela, mas só se à custa dos próprios olhos. Ainda mais quando você considera que a “Igreja evangélica deve retornar à doutrina fundamental da Reforma, Sola Scriptura” (p. 181), porque, para melhor pensar sobre você, terei de admitir que não se deu conta de que a Reforma apenas trocou a basílica pelo livro, mas que quem se senta em cada trono ainda são os mesmos, e as aparências não enganam não...

 

Para deixar o capítulo, apenas dizer que aquela sua estratégia de reservar a “iluminação” do Espírito para o(s) ponto(s) fundamental(is) da fé, deixando de lado a compreensão das “matérias secundárias” (p. 181) foi genial. Digna dos melhores profissionais de marketing da atualidade. É sua? Claro que, como sabemos, trabalhos de marketing podem funcionar de duas maneiras: para vender tudo quanto se possa imaginar, ou para análises críticas e premiações nos festivais. Não vou “comprar” o produto que você vende – e que o IBOPE não me entreviste a respeito... Daria, contudo, um troféu para essa sua peça.

 

Adentramos a modernidade: virá ar fresco daí? Passo bem pelas páginas 183 e 184, ainda que não tenha deixado de notar que, ao lado dos nomes, você analisa as atitudes: “alguns (...) não eram ateus” (p. 183), “não eram necessariamente agnósticos” (p. 184). Colher de sopa ou de chá? Sigo sua estrutura: “rejeição de relatos miraculosos” (p. 184), “distinção entre Fé e História” (p. 185), “erros nas Escrituras” [não fui capaz de achar a referência bibliográfica de Semler e Hase] (p. 186), “exegese controlada pela razão” (p. 187), “mito” (p. 188), “separação dos Dois Testamentos” (p. 188s) e “a influência dialética de Hegel” (p. 189). O seu “leitor ideal” finalmente constatará que o método histórico-gramatical está certo, e o histórico-crítico, posto que “liberal”, errado. Bom trabalho. Mas o leitor crítico não se deixará desanimar, e continuará em dúvida...

 

Aí você entra na minha praia, com o que eu quero, de um lado, indicar para a metodologia histórico-crítica, e de outro, dizer “do que eu gosto”. Quanto à crítica das fontes, você ajuizou: “por causa de seu caráter altamente especulativo e pela falta de unanimidade entre seus proponentes, a crítica das fontes está hoje largamente desacreditada” (p. 192). Alto lá, Nicodemus! Você está fazendo o leitor confundir “crítica das fontes” – metodologia – com “Hipótese Documentária” – resultado dela. Wellhausen construiu um significativo castelo, que está ruindo justamente porque não é dogma, e pode cair, sem medo nem culpa. E tudo quanto cai é melhor do que o que não cai, na pesquisa, porque, do que cai, temos, então, a certeza de que não estava bem de pé, mas do que está de pé, só sabemos que não sabemos se está errado, e nada mais. Mas a crítica das fontes vai muito bem obrigado, e a exegese histórico-crítica ainda se serve dela – abdicar dela é partir do pressuposto de que não há fontes, o que só se saberá depois de se descobrir.

 

Você fala sobre a “Crítica da Forma” (p. 192s), mas não é desrespeitoso aí, como foi, anteriormente, quando disse tratar-se de “esquartejamento” o que a pesquisa apresentou sobre a composição de Isaías (p. 192). Então fala sobre a “Crítica da Redação” (p. 193s) e, ué?! Acabou!? Já?! Puxa vida, eu que esperei tanto... Do jeito que você apresentou o método no início da obra, advertindo sobre o seu caráter pernicioso, preparei-me com couraça e capacete, massa e cavalo, para me defender: esperava um dragão, uma besta horrível, daquelas que se podem ver nos jogos de computador, mas qual?! Os montes entraram em trabalho de parto, e pariram um rato! E feio! Mas fraco... Tirando aquele “esquartejamento” e aquela crítica enviesada e escamoteada, e o ar de superioridade cristã com que o método foi analisado, nada além do que se podia esperar. Mas tão pouca coisa dita. Nenhum esclarecimento sério. Um punhado de parágrafos, e eis reduzida a maior construção hermenêutica desde a Reforma, e a maior caixa de ferramenta histórico-metodológica já desenvolvida, a uma pseudo-avaliação de quantas páginas? 12: 183-194. Pena.

 

Quanto a sua síntese a respeito do “Cristianismo Liberal” (p. 194), melhor entrevistar um cristão liberal e saber dele mesmo suas pressuposições, porque numa lauda só deve ser muito difícil dar todos os detalhes sobre uma expressão teológica de envergadura tão ampla quanto a Teologia Liberal. Não desmereço seu esforço de síntese, mas considero uma tarefa arriscada demais.

 

Quanto à conclusão das 12 páginas, fica por sua conta a afirmação de que não se produziu um resultado satisfatório na tentativa de unir o racionalismo com a exegese bíblica (p. 194). Minha opinião é justamente contrária à sua – penso que nesses últimos 100 anos se caminhou mais do que nos 1900 anteriores, se com “caminhar” queremos dizer produzir conhecimento histórico seguro sobre as Escrituras. Mas é só o começo, e pode esperar que mal se começou a levantar as pedras, a ver o que têm debaixo, e, aposte, elas serão levantadas, quer se goste disso ou não. Eu gosto. E, se você não considerar absurdo de o dizer, digo-o: acho que Deus também, porque penso que Deus não teria medo disso. Afinal, sejam as pedras, sejam as mãos que as levantam, seja a curiosidade desses nervos, a tudo os fez Deus – eu creio. Vamos levantar pedras, porque agora podemos...

 

Você acha também ruim o afastamento metodológico do “sobrenatural” do estudo bíblico. Eu acho necessário, imprescindível, que assim seja. Pode-se orar para estudar a Bíblia? Sim, e até é bom. Pode-se crer em Deus, para se ler a Bíblia? Sim, e até é bom. Mas deve-se ler a Bíblia com a cartilha do catecismo do lado? Não, não se pode – não se deve. Quer dizer, pelo menos não se o que você quer é estudar “a Bíblia”. Você sabia, Nicodemus, que ali na UERJ, na Faculdade de Física, é, lá onde se estuda física quântica e astronomia, essas coisas que, desde Einstein deixaram o mundo de cabeça para baixo, uma monografia de bacharelato defendida versava sobre o conceito de Deus em filósofos europeus dos séculos XVIII e XIX? Sabe por quê? Porque a física descobriu que até os pensamentos cosmológicos mais avançados, as teorias mais avançadas, todas elas refletem o conceito sobre o sagrado de uma época, de uma pessoa. Não, Nicodemus, não se quer afastar o Sagrado da Bíblia, mas sim, e, tomara, logo, a sua leitura a partir de uma determinada Teologia, uma determinada Cristologia, uma determinada doutrina, tomada como “a” própria Bíblia, “a” própria Palavra – numa palavra, o que não se quer é que, disfarçado de Deus, e usando tiques de espiritualidade afetada, a dogmática volte a controlar a pesquisa bíblica, não depois de às duras penas a exegese ter se emancipado. Dias chegam, contudo, em que, em paz, a dogmática e a exegese vão sentar, as duas, juntas, à mesa, para dialogar. É o que está tentando? Ou quer pôr a exegese a serviço da Teologia de novo, para servir à mesa, que sentada a ela não lhe cairia bem a posição?

 

Voltemos ao seu texto: lá vem você a dizer que a exegese ataca a autoridade das Escrituras. Não! O que fica sob suspeição é a autoridade da(s) “igreja(s)” – a sua, por exemplo – de querer dizer que só uns e outros têm capacidade de interpretar a Bíblia, com o que se quer dizer “chegar à mesma compreensão que você”. Não, isso não. A exegese não tem compromisso com a dogmática, porque a dogmática é “pré-histórica” (louváveis e parcos esforços se começam a fazer), e ainda não se converteu. Mas eu lhe afianço, Nicodemus, que um exegeta gasta mais tempo sobre a sua Bíblia do que qualquer dogmático. E isso ele faz por puro amor, pura paixão, e eu esperava que você entendesse, mas suas palavras denunciam que não.

 

Você ainda entra na via de Agostinho para cercear que a exegese vá a Gênesis: ela não pode, porque, segundo “Gênesis”... Ora, mas se ainda resta dizer do que Gênesis está falando, como se pode dizer que a exegese não pode ir lá? Só fazendo o que você faz. Não entendo. Quer dizer, entendo, mas não gosto disso que entendo. Teologia na frente da exegese é nisso que dá. Se a Teologia estivesse mesmo interessada em escavar a história, ela teria como perguntar a 1 Co 2,14 e 2 Co 10,5 (que você cita na página 195, para sentenciar a crítica) do que é que, e como é que tais narrativas estão falando? A Teologia que você usa converte-se em Deus, e você a lê no termo “Deus” dessas passagens. A narrativa é um portal tridimensional para o céu. Paulo é pretexto. Meu ouvido, acéfalo!

 

Ia você já ficando feliz na página 195: colocando escorpiões a brigar com escorpiões. Pelo discurso, percebo que trará à cena o estruturalismo e a chamada “hermenêutica filosófica”. Talvez tenha melhor jeito com elas do que com a exegese. Pago pra ver.

 

Pulo seus conceitos de pós-modernidade (p. 198s), porque aqui não há dois que se entendem, mas fico com idéias que você usa, ainda que muito superficialmente trabalhadas, como a “morte da razão” – não é morte, é reconhecimento da condição integral humana não-disjuntiva (Edgar Morin); o “abandono da neutralidade” – estamos no meio da crise, Nicodemus, mas já leste Relações de Força, de Carlo Ginzburg? “A defesa do inclusivismo” – um calo no sapato, não? Você acredita que o Microsoft Word não reconhece os termos “teóloga” e “inclusivismo”, mas reconhece os termos “teólogo” e “exclusivismo”? Será um cristão ortodoxo, o Word? “Conceito de politicamente correto” – e de novo a questão dos absolutos...

 

Você fala da “hermenêutica” moderna como se ela fosse uma unidade. Não é. Você quer considerar a hermenêutica da pós-modernidade – não reconheço a terminologia, só a uso – como a ressurreição da alegorese que atribui a Filo (p. 200). Mas você sabe que há correntes diferentes dentro da tradição hermenêutica do século XX! Até sabe que existe a Teoria Literária e suas proposições irreconciliáveis – intentio auctoris, operis, lectoris (p. 201). Você fala, aí, de “deslocamento de sentido”, mas não é, são proposições díspares, cada qual afirmando-se como viável, e cada qual, enquanto viável, suprimindo a outra. Não houve “deslocamento” da intentio auctoris para a intentio lectoris, como você diz; o que houve foi uma variedade de tomadas de posição – exegese (auctoris), estruturalismo (operis), eisegese (lectoris).

 

Seu esquema constante da página 201 me parece equivocado. Dizer que a Reforma se baseia na intentio auctoris é um pouco demais, e só perde em extravagância diante da afirmação de que a metodologia (prefiro “o instrumental”) histórico-crítico tem pacto com a intentio operis. Onde você parece ter razão, a meu ver, é quando coloca o que você chama de Novas Hermenêuticas relacionando-se com a intentio lectoris. A Reforma é, antes de tudo, e desde sempre, um acordo com a intentio lectoris, a intenção do leitor. É a experiência cristã pessoal e mística, mediada pela Teologia cristológica de Nicéia que se torna olho e boca da leitura reformada – ela e só ela, que outra não há, e se há, é sombra e erro. O instrumental histórico-crítico não tem nenhuma ligação teórica com a teoria da intenção do texto – essa nem Croatto admitiria, porque, para ele, o máximo possível seria denunciar a exegese como eisegese (= intentio lectoris). Você deveria ter colocado ali as correntes estruturalistas da metade do século XX – não o método histórico-crítico. Finalmente, concordamos – as hermenêuticas contemporâneas, se com esse termo vamo-nos referir a uma série fragmentária de proposições que se sustentam na afirmação teórico-filosófica dos corolários do princípio da incerteza, então, sim, metodologicamente elas mesmas se apresentam como – e nisso merecem todo o nosso apreço – comprometidas com a intentio lectoris, são honestas em o declarar, e nenhuma delas assume um suposto discurso de base divina, nem sequer histórica, mas são todas, antes, expressões conscientes de vontade de poder, e se apresentam como tais, e têm direito, porque a algumas dessas expressões se coibiu a palavra durante muito tempo.

 

Você tem razão quando denuncia que há uma certa confusão no meio da pesquisa no que concerne à questão de se decidir pela possibilidade ou não de se chegar ao conhecimento histórico. Eu mesmo tenho lido artigos em que não se sabe exatamente em que pé se firma o articulista. Diria que há um medo de positivismo rondando o cenário – e num Brasil universitário positivista desde o ventre isso é compreensível. Lá fora, contudo, também se dança ora num pé, ora no outro – e se são dois dançarinos, um a dançar samba, o outro, bolero, tudo bem, porque cada um deve adotar os pressupostos que lhe parecem adequados – o que não parece conveniente é o mesmo dançarino, na mesma dança, dançar com um pé, tango, e com o outro, samba. Resta, contudo, considerar que não se trata de a pesquisa não saber em que pé estão as coisas, mas de discernir, na pesquisa, espaços que trabalham com a hipótese da possibilidade de reconstituição histórica minimamente controlada, e espaços que deixaram de lado a tentativa.

 

Sua avaliação do trabalho de Brevard Childs merece nossa atenção (p. 201s). Você o pega para boi de piranha, mas ainda assim pode haver luz aqui. É de fato um recuo da crítica diante da confusão em torno das “fontes”, querer agarrar-se, agora, ao “produto final”. Mas essa é a posição de um pequeno grupo, importante, é verdade, e mesmo na Alemanha já se vão perfilando adeptos da recuada estratégica. Contam-se como múltiplos desse, contudo, os outros grupos que continuam tentando avançar no front, e tantos que se torna cada vez mais difícil tentar acompanhar a produção exegética internacional. Você coloca a questão, válida para a estratégia do recuo de Childs & Cia., como se fosse sintomática da exegese contemporânea – mas não é. A pesquisa veterotestamentária alemã, canadense, inglesa, norte-européia, de Chicago, e daqui e dali, onde nasceram espíritos independentes e fora do eixo central, continua denodadamente a cumprir o papel que cabe aos desbravadores – de se cansar à exaustão.

 

Também há certa perspicácia sua na análise do trabalho de Severino Croatto e de Boff (p. 202). Contudo, há um velho Croatto (o de 1984, o de Hermenêutica Bíblica), e o dos últimos trabalhos na RIBLA, aqui desde seu trabalho sobre releitura nos profetas, até suas investigações sobre as inscrições de Kuntillet 'Ajrud, sem deixar de lado suas contribuições indispensáveis à Fenomenologia da Religião. Eu mesmo guardei minhas críticas ao Hermenêutica Bíblia, mas me desdobrei em elogios ao As Linguagens da Experiência Religiosa. Sua morte em 26 de maio próximo foi um dia triste para a América Latina e para a pesquisa bíblica internacional. Eu particularmente tive um dia muito triste, na quarta-feira, quando fui informado. Quanto a Boff, não é um biblista, mas um teólogo, e deixo para os teólogos defenderem-no – se há defesa. Apenas poderia dizer que a década de 80 foi a década Boff, e a de 90 ainda teve de aturar por um bocado de tempo.

 

Você conclui o capítulo, novamente, advertindo da ameaça – és mesmo um pastor zeloso, resta saber de que. Suas palavras dizem que “existem sérios perigos (...) para a vida das igrejas cristãs” (p. 203) advindas do avanço da hermenêutica da pós-modernidade, porque elas tornam a “mensagem das Escrituras inacessível à Igreja” (p. 203). Não são as Escrituras, contudo, que devem se preocupar, mas a dogmática – e não a católica, a protestante. Mas disso já falei mais do que devia...

 

E não é que você se confessa um pregador? E afirma: “o pregador pode, no máximo, pregar apenas uma interpretação sua do texto, mas jamais a verdade divina” (p. 203), como se isso fosse uma catástrofe, o day after, quando, para mim, nenhum pregador jamais subiu a qualquer púlpito e jamais pregou qualquer outra coisa que não a sua própria interpretação. O que somos, Nicodemus? Oráculos? O que são os templos, Nicodemus? Delfos? Não, amigo, oráculo, só a Bíblia – e só se fechada: depois de aberta, é hermenêutica mesmo. Delfos, só o Espírito, e em silêncio, porque, depois de aberta a boca humana pela qual ele falaria, é só ruído. Saiamos da caverna, sim, como Elias, mas como ele, cubramos a cabeça, antes que, como com Moisés, Deus mesmo meta a mão no buraco e nos bote a olhar suas para as costas dele...

 

Você quer base objetiva (p. 203)! E tem-na: a Tradição! Faça como os católicos, mas mesmo eles já têm seu Vaticano II, e o tempo urge... Logo logo o trem apita na curva, Nicodemus, meu amigo, porque o tempo não pára. Atrasa. Tem já 500 anos de atraso, mas azarões vêm correndo por fora. A fita azul, de quem será?

 

E para concluir e sair dessa página, porque não fazemos de conta que todos os crentes são seus próprios sacerdotes, e não lhes deixamos escolher? Hum? Quando converso com velhinhas repletas de cãs na cabeça em curso bíblicos, tem de ver seus olhinhos... No fim da vida, livres (algumas) das condicionalidades institucionais-de-CPF, sabendo-se já cúmplices de suas vidas, a caminho do lar, que fazem senão morrer de rir de tudo isso, divertindo-se? Uma me disse uma vez: “Ih, meu filho... Li tudo errado a vida toda”. E eu pensei – tivesse lido errado, como podia ter tanta lucidez a essa altura?

 

Abre-se o capítulo 14 na página 206. Daí até o fim são mais dois capítulos: 70 páginas. Serão minha Babilônia? Mas vou caminhar por elas. Você pretende estabelecer alguns pontos de fundamentação para explicar a situação atual da hermenêutica, as vertentes, as exegeses – tudo isso (p. 206). Brincando com você, eu chamaria seu capítulo de “Vamos aos culpados!”.

 

O primeiro deles você diz ser Schleiermacher (205-205). Não estou à altura de fazer retoques em sua apresentação, senão sugerir que, na página 207, quando você afirma que “Schleiermacher abriu caminho para a concepção liberal posterior de Jesus como um homem divinamente inspirado”, talvez devesse ter informado, além disso, que se trataria, na verdade, a estar você certo, da recuperação de uma das cristologias presentes em o Novo Testamento, conforme se pode depreender da excelente apresentação que Roque Frangiotti faz das cristologias das igrejas primitivas depreensíveis do texto do Novo Testamento, bem como que essa questão era das mais quentes em Nicéia, tendo levado à necessidade de Capadócia e Calcedônia, dada a ausência absoluta de unanimidade espontânea na cristandade de então sobre o tema. Se Schleiermacher retorna ao tema, não o cria, apenas o recupera da Tradição.

 

De Schleiermacher você salta para Bultmann (e gasta mais com ele do que com aquele: p. 207-211), e eu não entendo o salto. Bultmann é antes fruto, do que raiz, eu penso, e um fruto dos mais conscientes do seu próprio amor pelo kerygma, a ponto de sacrificar a História por ele – como faz a Teologia “confessional”, eu penso, sendo que ele confessa. Sua análise na página 211 não é original, e já teve quem a respondesse. De minha parte, penso que a única crítica que me cabe fazer a Bultmann é que ele não resolveu o problema central – o problema histórico. Ele o contornou. Mas ele o contorna, para ao contrário do que você diz, ficar exatamente com o que você afirma que ele despreza – a mensagem, e é só na mensagem proclamada que ele entende seja possível falar seriamente sobre o conteúdo do kerygma, em se tratando do homem/mulher modernos. Ele afirma que inúmeros pontos que você menciona na crítica são míticos, e pretende que se possa acatá-los no kerygma, mas não na História. Sua avaliação é a de que é na História que se tem de acatá-los, ou se apostata. O problema é que você vai dizer, e pronto, vai ouvir você quem já desde sempre o ouviu – mas se se sentar à mesa com quem está inteirado existencialmente dos problemas levantados também por Bultmann, o máximo que você terá para falar é que não “crêem”, e sairá encomendando suas almas. Seus argumentos, contudo, não demoverão um centímetro da posição em que estão, porque você simplesmente não tem argumentos além daqueles que tem uma criança cujo colega grandalhão da escola quebrou a sua pipa: acusar de que quebraram sua pipa. Gostaria sinceramente de saber como Jesus lidaria com Bultmann. A cena que mais me parece adequada para incluí-lo, como paradigma, é a da mulher siro-fenícia, diante dos argumentos da qual Jesus faz exatamente o que a Teologia confessional não está preparada para fazer, mas só porque desde sempre não o quer – se quiser, arranja um jeito.

 

Você agradece ao meu colega, o Franklin Ferreira, pela colaboração no capítulo sobre Barth. Não estou à altura de comentar seu texto, depois dessa mãozinha. Franklin está fazendo uma resenha de seu livro para a Fides Reformata. Esperemos. Esta nem sei se sai, muito menos onde. Mas certamente nossas opiniões a respeito de seu livro serão diferentes, contrárias mesmo, porque Franklin responde pelo método histórico-gramatical, e, eu, afeiçoei-me pelo método histórico-social, com o recurso das ferramentas do método histórico-crítico. Somos amigos, os dois. Não nos mordemos, ainda. Talvez consigamos provar um ao outro, e quem sabe aos alunos, que é possível a convivência e a paz. Se ele e eu falharmos nessa tentativa, nossos sonhos de uma fraternidade cristã estarão em palpos de aranha, e não teremos nada mais a dizer a qualquer aluno que nos dê o prazer de nos ouvir.

 

Mas não me sossego. Seu texto diz que a revelação grita pela História – pela historicidade (p. 215). Eu tenho de concordar, se é que você fala da mesma coisa que eu. Mas eu não acredito que seja necessária uma revelação proposicional, salvo, claro, para a sustentação de uma Teologia ontológica. Como minha Teologia é fenomenológica, não careço de defender uma revelação proposicional, ainda que me tenha custado elaborar a hipótese de uma revelação não-proposicional, cósmico-histórica, que, trocando em miúdos, significaria o processo através do qual Deus escolheu determinadas interpretações humanas para compor sua revelação. Uma revelação humana (a Palavra) e uma revelação humana (o Filho) seriam um belo par, não acha? Mas entendo que a Teologia ortodoxa (não a da Igreja Ortodoxa [talvez], mas a da Teologia confessional evangélico-protestante que percebo na sua fala) não esteja preparada para tanto, e só tenho a desejar que não seja julgado por isso.

 

Suas duas últimas linhas nessa conclusão sobre Barth devem me fazer pensar, eu, que gosto da corça do Sl 42, ainda que tenha ouvido dizer que brasileiro não saiba nem que bicho é isso (toma-se o brasileiro por inepto?): “um encontro significativo com as realidades divinas das quais o texto dá testemunho” (p. 215) – esse seria o acordo entre Barth e Ricoeur. Mas elas, as linhas, ou serão Barth e Ricoeur?, nos levarão para muito longe. Apenas deixar-me pressentir da sensação de que, afinal, no fundo, não é ao Sagrado que todos buscamos? Se a única forma de o encontrar for a dogmática, malditos séculos todos eles desde o XVI (ou será desde o X/XII?) que nos meteram no sangue as plaquetas da História! Mas se, como penso, nem de longe a dogmática tem o mapa da mina, o Sagrado não cabe, já disse, em Nicéia, nem em Dort; e se, como gosto de crer, desde a Fenomenologia, desde Kant, Husserl, Otto e Eliade, nessa ordem, daqui para lá, o Sagrado manifesta-se, escondendo-se, toca-nos, mas como, entre si, os amantes, em Feitiço de Áquila, então, Nicodemus, abaixe as armas, acabaram-se os tempos da cavalaria, Dom Quixote cansou-se da manta, e o melhor a fazer é pôr O Queijo e os Vermes na cabeceira, ao lado da Bíblia...

 

Vou passar batido por Saussure (p. 215-217). Quanto ao estruturalismo, como exegeta histórico-social, respondo a ele pela boca de Simian-Yofre, que faz uma crítica ao estruturalismo em Metodologia do Antigo Testamento, que a Loyola publicou; enquanto alguém que está tentando pensar, respondo a ele com Edgar Morin, em O Método 4 (das obras mais impactantes que já li!); e penso nele a partir do diálogo entre Etienne Charpentier e três estruturalistas, coisa interessantíssima de ler, no apêndice de Introdução à Análise Estrutural, publicado pela Paulinas. Na área da linguagem, gosto mais da Análise do Discurso, mas daquela em que o sujeito ressurgiu do meio das estruturas determinantes da divindade-estrutura, e em que a História, como em Stephen Jay Gould (Vida Maravilhosa) e Edgar Morin (O Método), retorna ao mundo dos vivos, depois de um sono induzido... Uma Teologia confessional que desistisse de afirmar-se como “histórica” talvez pudesse se aliar ao estruturalismo...

 

Finalmente, você se dedica um pouco a Gadamer e Derrida (p. 217-222). Dois verdadeiros monstros da hermenêutica contemporânea, você os expõe com mais vagar do que a Saussure – talvez porque os “tema” mais, sei lá. Seja como for, Gadamer seria um bom companheiro seu, se tomassem o Expresso Oriental juntos, porque pode ser que a proposta de Gadamer seja, afinal, um dar de ombros e um abraçar, então, a tradição, já que o pronunciamento objetivo sobre um texto é incerto. Mas sua implicância com essa questão da história a que você teima em dizer estar vinculado, o que temo não ser procedente, impede você de tentar comer chucrute em boa companhia. Quanto a Derrida e a sua aventada ligação entre ele e a “morte do autor” – situação essa em que tornaria a própria produção bibliográfica de Derrida um delírio –, o biblista do Instituto Bíblico de Roma, Simian-Yofre, já deu seu parecer, e eu o sigo, por enquanto. Mas também essa teoria deveria ser melhor avaliada por você, porque a tradição nicênica pressuposta em seus argumentos – mas não confessada – estaria assim melhor instalada na poltrona.

 

Olha lá, não disse? Você acaba de achar seu ponto de apoio: “não podemos deixar de reconhecer o que existe de positivo na obra dos estudiosos mencionados acima, como por exemplo, o resgate do papel das pressuposições do leitor na interpretação de um texto, um ponto que já que era afirmado pelos Reformadores, quando insistiram que era preciso que alguém tivesse, primeiramente, fé em Jesus Cristo, para chegar ao conhecimento verdadeiro das Escrituras” (p. 222s). Olha aí, Nicodemus, ficaram todos felizes – você, Lutero e a hermenêutica da impossibilidade de recuperação da intenção histórica. E nem entendo porque logo depois você critica o que considera “subjetivismo radical” deles – que outra coisa é a “conversão” reformada? Quando já ia eu achando que você entrara no clima, lá vem você de novo com sua insistência literal-gramatical-teológica-ontológica: “para nós, é possível valorizar-se o papel das pressuposições corretas na leitura da Bíblia, sem perder de vista a objetividade do sentido e da verdade” (o grifo é seu [p. 223]). Sim, sim, Nicodemus, assumindo a intenção do leitor, tornando-se um católico – mas não, como você diz, sendo “protestante” (salvo uma paródia), nem defendendo a intentio auctoris. Inapelavelmente.

 

No capítulo 15, você traça algumas linhas sobre o estruturalismo (p. 226-228 – percebi que nem você nem eu gostamos muito dele). Morrer, como você diz, ele não morreu, mas arranjou um cantinho para si, como todos merecem ter, e não dá mais as cartas. Um tantinho de tempo também você concede à “Crítica Narrativa” (p. 228-230). O problema com sua crítica, que eu até endossaria em tese, é que você estraga tudo, quando afirma que essa metodologia não consegue entender que, nas narrativas, “Deus é o personagem principal (...), os homens são meros coadjuvantes” (p. 230). Não posso acatar sua crítica, a partir de sua afirmação, porque, nas narrativas, Deus é um construto teológico, logo, hermenêutico. Se você me disser aqui, cara a cara, que trata as descrições de Deus nas narrativas como prontuários ontológicos, então, Nicodemus, não há nenhuma possibilidade de a gente chegar a um acordo, porque, para mim, Deus não cabe ali. Que pelo menos a gente não se morda – acho que é um pacto possível. Não taco pedra em você, quando você passar, você não me amaldiçoa, e, quem sabe, quando estivermos juntos em algum lugar, até possamos pagar um o almoço do outro...

 

Você cospe lá uns rabiscos poucos sobre a teoria do Reader Response (p. 230s), e, então, faz uma crítica à hermenêutica da Teologia da Libertação. Você menciona revistas – e faz bem, porque elas têm sido o instrumento de divulgação dos biblistas ligados à Teologia da Libertação, mas não só deles. Não é verdade que a RIBLA seja produzida por (só) estudiosos católicos – um número grande de protestantes escrevem para ela, como o Dr. Haroldo Reimer, luterano, e a Dra. Ivone Richter Reimer, mas também quantos outros, como a Dra. Nancy Cardoso Pereira, metodista e, para minha alegria, até o batista, Dr. Ágabo Borges de Souza.

 

A Estudos Bíblicos também não é apenas católica ou luterana – eu mesmo já tive um artigo recentemente publicado nela (n. 80), e sou batista, e, se por um lado tenho profundo respeito pela Teologia da Libertação, profunda admiração pelo militantes cristãos, católicos e protestantes, que compõem a fileira do rol desses teólogos e dessas teólogas, por outro lado não me considero um Teólogo da Libertação, porque me falta sair da cadeira, deixar de ser um mero projeto de exegeta e tornar-me um pastor de gente, um defensor do pobre, mas qual? falta-me coragem! Acredite-me, Nicodemus, que se tu e eu formos perguntar aos milhões de pobres auxiliados pela Teologia da Libertação o que acham dela, sairei eu humilhado de minha inatividade pastoral.

 

A América Latina não produziu nada tão grande, tão expressivo, tão considerável, tão relevante, tão nobre, quanto a Teologia da Libertação. Você não deveria reduzir seu comentário a um sumário de revistas, como se a Teologia da Libertação fosse revistas! Devia ter orgulho, como brasileiro, como latino-americano, de fazer parte da Igreja que produziu esse fenômeno. Além do que, devia atualizar-se na área, porque desde há muito tempo a Teologia da Libertação, se ainda dedica-se metodologicamente aos pobres concretos, mesmo a despeito das doutrinas abstratas, também já ampliou o leque para abordagens tão amplas quanto ecologia, água, negros, índios, crianças, idosos, mulheres. Gosto de pensar que Jesus Cristo sentir-se-ia à vontade no meio desse povo, provavelmente mais do que na minha biblioteca...

 

E com isso fico por aqui, informando que li seus comentários sobre hermenêutica feminista (p. 232-234). Privo da amizade da Dra. Ivoni Richter Reimer, e achei feio você a ter esquecido, e, sendo aluno da Dra. Teresa Cavalcanti (você a conhece?), fiquei alegre em ler o nomezinho dela na sua página 234. Obrigado pelo carinho para com ela. Se bem que as feministas não precisam que eu as defenda, porque mesmo eu tenho que me redimir diante delas... Se eu representasse todos nós, cristãos machos, pediria perdão em nosso nome. Mas mal represento a mim mesmo, porque Bel é que dá a última palavra! O máximo que posso é dizer que têm elas um trabalho ainda longo pela frente.

 

Seu texto termina com o “Desconstrucionismo” (p. 234-236), que você diz ser incompatível com o conceito de divindade absoluta (p. 236) [divindade absoluta onde, Nicodemus, na Teologia?] e com a “Hermenêutica da Suspeita”, onde você coloca, de um lado, Ricoeur e, de outro, a trindade terrível – Marx, Nietzsche e Freud. Mas isso já seriam outras tantas páginas...

 

Seu capítulo 16 anuncia os desafios para a interpretação da Bíblia (241-253). Colocará confessionais, bons, diante de críticos, maus. Anunciará o fim (onde?) do método histórico-crítico, com o que eu não concordo. Defenderá a possibilidade de recuperação da intenção do autor – com o que eu concordo, apesar de que eu acho que você não leva a sério o programa da intentio auctoris, porque você é teólogo, e teólogo confessional-dogmático. Retornará ao tema da hermenêutica reformada, ainda com discurso desviante (p. 250ss). Uma discussão rápida demais, eu diria, mas você já antecipara suas conclusões quanto ao que tem a dizer aqui.

 

V. Sobre a Conclusão (p. 255-256)

 

Sua conclusão tem seis pontos (p. 255-256): 1) sempre se entendeu a Bíblia, virtude destinada a alguns iluminados (e eu diria que, sim, exegese de verdade, só depois da criação das ferramentas do método histórico-crítico; concluir que não, aqui, na página 256, exigiria a demonstração do contrário nas 255 anteriores – e você ficou devendo); 2) os intérpretes de todos os tempos estiveram sempre presos às mesmas dificuldades – alegoria ou história? 3) A mudança nas ciências acarreta mudanças na hermenêutica (se também, e por isso mesmo, na Teologia, quanto mais nela!); 4) o risco dos reducionismos das metodologias – e você até deixa espaço para elogios a todas; 5) risco de converter em muro o que é apenas uma porta, cuja chave não temos (aqui você defende, e eu apoio, a possibilidade de recuperação do sentido original de um texto [ainda que eu não acredite que se possa demonstrar que se chegou lá]), e você considere que ela já está na sua mão; 6) desde Antioquia se pratica o método histórico-gramatical, e, portanto, “esse é o método que recomendamos e defendemos”.

 

Minha conclusão sobre seu livro você já sabe: não gostei dele. Não traz nenhuma novidade – nem na sua perspectiva teológico-confessional, salvo uma burocrática inclusão das hermenêuticas filosóficas. Se tirarmos isso, não há diferença, nunca, entre nenhum dos autores confessionais, porque todos têm já a mesma moeda na mão, e todas a querem vender, sempre, pelo mesmo preço.

 

Lamentei muito que gastasse tempo falando mal da crítica, porque isso não ajuda em absolutamente nada o futuro das relações intestinas da igreja. O tempo todo é sempre luta, conflito, confronto, e você não melhora as coisas. Fazer o que você fez já teve dezenas que o fizessem, e você não precisava. Talvez pudesse gastar melhor seu tempo refletindo sobre a possibilidade de confessionais e críticos viverem em paz, sem precisarem um fazer do outro um reflexo de si mesmo. Ah, mas talvez você considerasse isso um exemplo do que você chama o espírito pós-moderno do “politicamente correto”.

 

Seu livro não fará a igreja dar um passo adiante – e, dependendo de quem o leia, e de como seja lido, pode até ser que se ande para trás em alguns ambientes onde a crítica vai sendo tolerada. É que, quando profetas se levantam, os escrúpulos de excitam, e o caldo entorna.

 

Seu livro não criou nada de novo – nada na Teologia, nada na Exegese, nada da Hermenêutica. E, o que me parece mais grave, faz uma leitura a meu ver equivocada dos principais momentos da História da Interpretação da Bíblia. Seria interessante alterar o nome da obra, e acrescentar em algum lugar: "apologia”.

 

Convido-o a refletir sobre todas as questões que levantei. Convido-o a pensar na paz entre todos nós. E, para isso, a principal coisa que teremos cada um de nós de fazer é esquecer definitivamente essa idéia maluca de ter o absoluto na mão. Somos criaturas de Deus, para seu louvor, não para sua diversão...  

 

 

 

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Caro Osvaldo

Recebi de fato a sua resenha. As críticas que você faz partem de pressupostos diferentes dos meus quanto à natureza da inspiração bíblica, de revelação, etc. Portanto, não há o que comentar. Vemos as coisas de forma diferente. Se fôssemos discutir, teríamos de discutir a nível de pressuposições. No meu livro digo claramente que o mesmo é escrito a partir do pressuposto da fé reformada. Como você não é reformado, é claro que discorda dos pressupostos e das conclusões. 

Sim, no Congresso da Vida Nova reiterei todas as posições do livro e minhas perspectivas sobre o método histórico-crítico.  

Obrigado por desejar sucesso na venda do livro. Na verdade, ele tem ido muito bem. Vários seminários já o adotaram como livro texto. 

Fique à vontade para postar sua resenha em seu site

Fraternalmente, 

Augustus