Teólogos, é disso que estais falando?

Osvaldo Luiz Ribeiro

29/08/2008

James A. Marcum, Explorando as Fronteiras Racionais entre as Ciências Naturais e a Teologia Cristã, Rever, n. março, ano 7, 2007, p. 34-58.

 

Achei um prato cheio para análise/crítica da “epistemologia” teológica com que a própria Teologia se vê: os números de março e junho da Rever, Revista de Estudos da Religião, do Departamento de Pós-Graduação em Religião da PUC-São Paulo. Dedicarei algum tempo à leitura de alguns dos artigos de ambos números, e comentarei a autocompreensão que a Teologia, que ali fala, tem de si.

 

Começo com o artigo em epígrafe. Dele, leia-se:

 

Enquanto o objetivo geral da ciência é conhecer a natureza do mundo, o objetivo geral da teologia cristã tradicional é conhecer a natureza trina de Deus, especialmente a encarnação e a ressurreição de Jesus e a nossa relação com Deus através de Cristo. Os objetivos da ciência geralmente são afirmações epistêmicas sobre os fenômenos naturais expressas em leis ou teorias científicas. Já os objetivos teológicos, em geral, são afirmações epistêmicas sobre o Deus trino expressas em dogmas ou doutrinas teológicas. Para alguns, os objetivos da teologia também incluem a compreensão da Igreja, de sua missão e da “transformação da pessoa” (...). Para outros, no entanto, os objetivos teológicos podem ser expressos independentemente da existência de Deus, como na teologia da morte de Deus (p. 39).

 

Explorando as Fronteiras Racionais” – é assim que o artigo é intitulado. Agora, alguém me responda: em que sentido se pode dizer “racional” “conhecer a natureza trina de Deus, especialmente a encarnação e a ressurreição de Jesus e a nossa relação com Deus através de Cristo”? Quem estiver interessado na resposta possível, poderia ler O Método, de Edgar Morin – portal incontornável para uma Teologia que – de fato, sem subterfúgios – pretenda constituir-se como uma das Ciências da Religião – e, de fato, o ser. O que Marcum chama de “fronteira racional”, aí, não vai além de uma “racionalização” com base em mitos e doutrinas metafísicas, histórico-condicionadas, plasmadas a partir da história da recepção da tradição israelita/judaíta em solo helênico ocidental.

 

Não se pode levar essa Teologia, mais, a sério. Mesmo nas Igrejas, ela só é levada a sério à custa da absoluta interdição da crítica. Não digo que se o processo educacional eclesiástico adotasse um modelo humanista e libertário, todos, lá, migrariam para a compreensão da Teologia Sistemática, da Doutrina, da Fé, como mito racionalizado. Pareto nos adverte quanto às constantes sociológicas invariáveis. Mas tenderia a ocorrer dentro das igrejas o mesmo fenômeno que ocorreu – e ocorre, ainda – no Ocidente: a crítica da metafísica, da ontologia, da tradição, a emergência de uma postura epistemológica autônoma e crítico-heurístico-indiciária.

 

Mas essa Teologia de Marcum, essa tem os pés, os dois, na Metafísica – e, nesse caso, sem a distração (retórica) da Metáfora. Marcum pretende fazer-me acreditar que a Teologia tem algo a dizer sobre o que ele diz ter ela a dizer alguma coisa. Feuerbach já deixou muito claro do que se trata esse “algo a dizer”, e a surdez teórico-metodológica de Marcum não abafa o oráculo da quenosis antropológica.

 

Nem mesmo quando Marcum tenta “epistemologizar” a Teologia metafísica, numa tentativa provinciana de estabelecer algum tipo de equivalência entre essa Teologia e as Ciências (quase chego a pensar que Marcum esteja pregando uma peça nos teólogos, e que seu artigo tenha sido uma zombaria disfarçada): “Os objetivos da ciência geralmente são afirmações epistêmicas sobre os fenômenos naturais expressas em leis ou teorias científicas. Já os objetivos teológicos, em geral, são afirmações epistêmicas sobre o Deus trino expressas em dogmas ou doutrinas teológicas”. O que seriam “afirmações epistêmicas sobre o Deus trino”? Puras racionalizações – fideístas voluntaristas, de caráter ontológico-metafísico-normativo.

 

É possível retroagir um discurso “epistemológico” desse tipo até Platão. A epistemologia platônica permite uma proposição dessa natureza – afinal, tratava-se de puro mito, rigorosamente como, anacronicamente, contudo, o dessa “epistemologia”. A verdade platônica vem de fora, da Providência – naturalmente que, A República não nos deixa mentir – instrumentalizada pelo Estado e seus mitólogos/mitoplastas. Os homens, cabe-lhes receber, sempre passivamente – aos poetas, pontapés nos traseiros! – os mitoplasmas, nos quais se esboçam reverberações mnemônicas da verdade providencial. Ora – a “revelação” constitui, ainda, a base da Teologia metafísica. Daí que Marcum sente-se muito em casa ao considerar uma “epistemologia” peculiar à Teologia. Nesse caso, é providencial, para a Teologia, que os livros escolares escondam a condição de mitólogo de Platão, apresentando-o positivamente como “filósofo” – para a Teologia, é uma boa maneira de emprestar ares “filosóficos”, “epistemológicos”, às suas racionalizações mitológicas.

 

O artigo de Marcum constitui-se de partes: 1. Introdução, 2. As Fronteiras entre os Objetivos Científicos e Teológicos, 3. As Fronteiras entre os Métodos Científicos e Teológicos, 4. As Fronteiras Metafísicas entre Ciência e Teologia, 5. Valores Epistêmicos e não Epistêmicos e 6. Discussão.

 

A Introdução abre-se com a querela entre as Ciências da Natureza e as Ciências Humanas, que, de fato, marcaram – e ainda marcam – o século XX e esse início do XXI. A partir daí, Marcum diz pretender tratar das fronteiras entre “as ciências naturais e a teologia cristã” (p. 35). Para relacionar as duas plataformas – a meu ver, ainda irreconciliáveis, e, nos termos em que Marcum pretende, inexoravelmente irreconciliáveis –, apela-se para o “modelo reticulado de racionalidade científica de Larry Laudan” (p. 36). Segundo a leitura de Marcum, trata-se de estabelecer uma posição epistemológica para as ciências, com base na demarcação teórico-metodológica de “uma “rede triádica”: os objetivos ou metas da ciência; os métodos utilizados pelos cientistas para alcançar esses objetivos ou metas, e as teorias ou afirmações factuais que resultam da aplicação dos métodos” (p. 36).

 

Marcum afirma que o modelo permite uma aproximação entre as ciências, de um lado, e a Teologia. Mas como opera sua estratégia retórica? Primeiro, assinalando que o “modelo reticulado” de Laudan defendia a “racionalidade” das ciências naturais em face das críticas (“românticas”) das ciências humanas: “é com esse propósito que me aproprio do modelo reticulado de racionalidade científica de Larry Laudan, proposto para salvar a racionalidade científica da morte durante a revolução historiográfica dos anos 1960” (p. 36). No passo seguinte, Marcum acrescenta, programaticamente, a “metafísica” ao conjunto dos “valores” e “teorias” pressupostos na proposta de Laudan: “Amplio o escopo desse último componente da racionalidade para a análise da metafísica tanto da ciência quanto da teologia, o que inclui não apenas os valores epistêmicos e cognitivos que justificam as afirmações epistêmicas, como também as lealdades e pressuposições básicas empregados para formular tais afirmações” (p. 36). Não se trata, naturalmente, de um passo “inocente”. É aí que reside o coração da retórica do artigo: “Essa noção ampliada de racionalidade serve não apenas para avaliar as afirmações epistêmicas da ciência e da teologia, mas também para entender as origens dessas afirmações. Afinal, as hipóteses e compromissos metafísicos fundamentais da ciência e da teologia são delimitações importantes que guiam a formulação das teorias científicas e das doutrinas teológicas” (p. 36). A partir do que, então, pode-se compreender os objetivos de Marcum: “Minha tese é a de que, para uma interação proveitosa entre cientistas e teólogos, é necessário analisar as estruturas de racionalidade das ciências naturais e da teologia cristã no que diz respeito às fronteiras entre seus objetivos, métodos e metafísica” (p. 36).

 

O que se consegue com esse programa, pode-se observar, constrangedoramente, eu diria, no parágrafo de encerramento da seção 2. As Fronteiras entre os Objetivos Científicos e Teológicos:

 

As diferenças nas fronteiras entre os objetivos científicos e teológicos são consideráveis. A primeira diz respeito aos objetos da pesquisa. Para os cientistas naturais, os objetos de pesquisa são os fenômenos naturais; para os teólogos cristãos, são a natureza trina de Deus e a relação humano-divino. Apesar de diferentes, os objetos das pesquisas científica e teológica estão relacionados, sendo que Deus criou a natureza e a natureza testemunha – embora silenciosamente – sua origem divina (Salmo 19). Além dos próprios objetos de investigação, as explicações atribuídas aos objetos científicos e teológicos também se mostram divergentes. Para a ciência, trata-se do conhecimento mecânico das redes causais e explicáveis de fenômenos naturais (expressas em teorias e leis); para a teologia, trata-se do conhecimento das relações do Deus trino que se faz conhecer pela revelação divina (expressa em doutrinas e dogmas). Embora existam diferenças entre as explicações da ciência e da teologia, elas também compartilham algo. Esse algo é a análise causal: para os cientistas, os eventos naturais são causas próximas, enquanto que, para os teólogos, Deus é a causa última. Por fim, enquanto as afirmações científicas são, em parte, justificadas por meios empíricos, a aceitação da auto-revelação de Deus vem através da experiência pessoal da fé. Nesse caso, o objetivo da ciência é explicar os fenômenos naturais em termos naturalistas, e o objetivo da teologia é acreditar em Deus por meio da fé religiosa. Deve-se notar, entretanto, que os cientistas também exercitam a fé, uma fé secular de acordo com Michael Polanyi, nos seus colegas e na regularidade dos eventos naturais (p. 40-41).

 

 

Um teólogo tradicional – metafísico-ontológico – sentir-se-ia animado com as afirmações de Marcum. Um “cientista” – articulando-se a partir da plataforma epistemológica das “ciências” – experimentaria um conter-se de riso, se, não, um aborrecimento. Um teólogo que aceitasse a regra do jogo científico-humanista simplesmente consideraria essa citação um exemplo notório do anacronismo epistemológico dessa Teologia, julgando seu conteúdo impróprio para a Constituição epistemológica da Teologia acadêmica. É o meu caso.

 

Marcum não apenas quer que eu aceite – impossível – que o objeto da Teologia seja “a natureza do Deus trino” (é o próprio Karl Barth falando), mas que haja alguma relação entre isso como objeto e os objetos das “ciências”. Ora, mesmo para as Ciências Humanas, cujos objetos são “imateriais” em amplo aspecto, quantas vezes seres de espírito e de organização, antes que serem físicos, seus objetos são histórico-condicionados. Já esse objeto da Teologia, conforme o quer Marcum, é pura imaginação humana – mito milenar. Conquanto a possa lidar com ele, não uma Teologia acadêmica: salvo na academia da Idade Média. Uma Teologia acadêmica poderia lidar com as objetivações da fé nesse objeto, na História – mas não, sob nenhuma hipótese, com o “próprio” objeto, como se objeto o fosse.

 

Marcum não consegue admitir que seu objeto é uma invenção antropológica. Sim, em grande parte, as teorias e os métodos, mesmo, em certo sentido, o “objeto” das “ciências” – sejam as “duras”, sejam as “moles” – são “invenções” teórico-metodológicas. Mas as ciências debruçam-se sobre grandezas universalmente objetiváveis – seres de matéria, de espírito e de organização – como elementos do “mundo”. Uma ciência poderia, eventualmente, estudar a em duendes e em Deus – mas não “duendes” e “Deus”. Sim, até poderia estudar a modalidade de dispersão e de manutenção formal/material do estereótipo “duende” e “Deus” nas tradições humanas (é impressionante como os mitos, e, mais recentemente, os MMORPG, resguardam a “forma” traditiva dos seres de espírito e organização com  que lidam), mas, jamais, “duendes” e “Deus” como objetos extra fidei. Uma Teologia como a que Marcum me oferece exigiria de mim um regressão ao obscurantismo mitológico. Não posso sair de dentro dos mitos – jamais (Morin). Mas tenho de viver neles, tendo consciência de que são o que são – mitos.

 

Se não se trata de obscurantismo mitológico, que nome daríamos a uma descrição do método teológico como essa:

 

Na investigação dos fenômenos naturais, os cientistas empregam determinados protocolos experimentais. Tais protocolos permitem controlar e manipular diretamente o fenômeno de interesse, o qual pode ser percebido pelos sentidos ou com o auxílio de instrumentos. Não é assim para os teólogos, que dependem da auto-revelação de Deus ou de uma outra fonte de autoridade. Para eles, os objetos de investigação são o Deus trino, que não obrigatoriamente é acessível aos sentidos – com ou sem auxílio de instrumentos–, e a nossa relação com Ele. Deus pode servir como objeto de investigação para os teólogos, mas não pode ser diretamente manipulado ou controlado através de experimentos a exemplo do que fazem os cientistas ao investigar os fenômenos naturais. Embora os métodos de cada disciplina sejam diferentes, a ciência e a teologia compartilham uma abordagem crítica comum (...). Por fim, alguns teólogos têm se apropriado de métodos científicos para utilizá-los em sua disciplina (p. 43-44).

 

Lendo esse parágrafo, sinto-me como num templo cristão, durante uma missa ou um culto evangélico-protestante, diante de um pastor e sua homilia milenar. Em negrito, assinalei ali a retórica própria do evangélico-protestante – “Deus” – e católico-romana – “autoridade”. Ao fim e ao cabo, alhos e bugalhos. O curioso é que a “consciência” metodológica de Marcum admite que “Deus trino” constitua objeto de pesquisado teólogo, mas que, ao contrário dos objetos das ciências, não se deixe manipular. Ora, ora, ora – o único objeto possível de estudo da Teologia que eventualmente tivesse por nome o termo “Deus” é exatamente aquele mesmo que, manipulado retoricamente pela Teologia, constitui “mundo” – a Igreja – heterônomo. Definitivamente, não se pode levar a sério uma proposta desse tipo. Não se o que queremos é uma Teologia científico-humanista. Não é legítimo “colar”, justapor, a Teologia metafísico-ontológica às ciências. Não é tolerável uma conversão das ciências à catequese cristã. Deve-se esperar que a Teologia desça do Olimpo, e sente-se à mesa, à roda dos escarnecedores.

 

Pois bem, paro por aqui. O leitor deveria, naturalmente, ler todo o artigo de Marcum. Desdobrá-lo, seria, para mim, entedioso. Despeço-me, pois, com um último comentário, à luz da insofismável retórica teológica de Marcum:

 

O propósito de explorar as fronteiras racionais da ciência e da teologia é aumentar nosso conhecimento da complexidade e riqueza da natureza ou realidade, pois as visões de mundo científica e teológica, sozinhas, são quadros empobrecidos do mundo. A teologia cristã sem a contribuição das ciências naturais pode se tornar imaginária, enquanto as ciências naturais sem a contribuição da teologia cristã podem se tornar desprovidas de sentido (p. 54).

 

“Pode se tornar”? Não, Marcum, não, não. Sem a contribuição das “ciências”, não é que a Teologia “pode se tornar imaginária” – ela continuará a ser imaginação, mitologia, quimera, delírio, a ipssissima neurose que Freud diagnosticou, e transparece, febril, eu seu artigo. O que as ciências podem, eventualmente, é trazer um pouco de lucidez ao teólogo – e, nesse caso, permitir que ele tenha a coragem de proceder à necessária Transformação da Teologia – o que implica em começar tudo de novo. E, dessa vez, com os pés – e a cabeça – no chão.  

 

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

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