OUVE, ISRAEL

Uma visão judaica da eleição de Israel

Osvaldo Luiz Ribeiro

(resenha)

 

BEN-CHORIN, Schalom. A Eleição de Israel – um tratado teológico-político. Trad. de    Carlos Almeida Pereira. Petrópolis: Vozes, 1999. 156p.

 

 

Quem tem as condições mais adequadas para falar da experiência da eleição de Israel nos termos em que a propõe a Tanak ou Antigo Testamento? A Igreja? Ou Israel? A resposta a Igreja remete-nos à consideração de que a Igreja constitua o verdadeiro Israel, isto é, representa o prosseguimento de sua história, segundo vicissitudes específicas de caráter político-teológico, de forma que o Israel moderno, para corresponder ao Israel eleito, deve tornar-se Igreja. A resposta Israel sugere que o tema esteja em aberto, carecendo de uma resposta histórica desde sua própria fonte – resposta sobre a qual a Igreja também deve refletir.

 

 

Por outro lado, qual é a pergunta, afinal? O que é a eleição ou para que é a eleição? Segundo Ben-Chorin, não são tanto os conceitos de eleição, sua história, suas relações sociais, suas impressões poéticas e filosóficas, os conflitos políticos que têm gerado e toda sorte de abstração teológica e concretização política em torno do tema que devem ser indagados. A questão do para quê? assume importância capital, principalmente a partir do ponto de vista de que, após a ressurreição de Israel enquanto Nação, a posição da Igreja enquanto o Novo Israel e, portanto, herdeira da eleição, ganha, no mínimo, um rival de respeito. Não que nasça um rival – ele ressuscita. Ressuscita das cinzas e sobre a terra a partir da qual a voz da eleição e da promessa foi pronunciada e ouvida. Schalom Ben-Chorin interessa-se sobretudo pela razão dessa eleição. Para que Israel foi eleito? Essa eleição, em que consiste? Qual sua abrangência? Qual sua fundamentação? Sua validade? Sua condição? Seu tempo e lugar?

 

 

Ben-Chorin nasceu em Munique, em 1913. Estudou Germanística, Filosofia e Religião Comparada. Consta viver desde 1935 em Jerusalém, como escritor independente, jornalista e publicista, de onde sai para apresentar palestras na Europa e na América. Em 1975 recebeu o prêmio Leopold-Lucas da Universidade de Tubinga e em 1982 a Medalha Buber-Rosenzweig; ganhou em 1983 a Cruz do Mérito da República Federal da Alemanha.

 

 

Sua tese é a de que Israel deve readquirir a capacidade de ouvir: “ouvir e obedecer constituem uma unidade orgânica. Onde já não se houve, aí também já não se pode mais esperar nenhuma obediência. E onde falta a obediência, a eleição e a promissão perdem sua força” (p.156). A eleição de Israel está indissoluvelmente ligada à sua capacidade de responder à sua vocação intrínseca diante dos povos. Sua missão é a paz e o Reino de Deus – que virão.

 

 

Ben-Chorin fala da necessidade de Israel ouvir o apelo de Deus para ser luz para as nações. Israel esqueceu-se de seu destino. Soterrado pelos séculos, reergue-se agora numa ressurreição que faz com que agnósticos manifestem a crença paradoxal na eleição de Israel (p. 59) e que já fez se afirmar que em Israel, quem não acredita em milagres não é realista. No entanto, mesmo na sua ressurreição, Israel fecha-se, recolhendo seus pedaços espalhados pelo mundo, levando-os nos braços até sua terra, esquecendo-se de sua tarefa dirigida aos povos do mundo (p. 150).

 

 

Nesse sentido, Ben-Chorin aponta por um lado para a “culpa de um nacionalismo judeu que só se interessa pela restauração do povo judeu na terra de Israel, e por outro da ortodoxia judaica, que, mesmo desejando despertar interiormente a consciência da aliança, esquece a tarefa dirigida aos povos do mundo” (p. 150). Sua missão é ser luz do mundo. Deveria levar a salvação até os confins da terra. Mas fecha-se, mais uma vez, em torno de si mesmo.

 

 

É nesse contexto que Ben-Chorin apela a que Israel recupere seu poder de escuta: a eleição de Israel depende de que ele ouça a voz de Deus chamando-o a assumir seu destino diante dos povos. “Não existe eleição sem promessa, como não existe promessa sem compromisso. Só um Israel que preserva fidelidade à aliança é que possui um legítimo direito à eleição e à promissão, que devem se comprovar na realidade do dia a dia” (p.153-154).

 

 

O autor reconhece uma origem mítica para o conceito de eleição de Israel, e assume o seu confronto com a realidade: mito e realidade, para ele, representam o conflito milenar entre a consciência de Israel de sua eleição divina e a sua sempre incapacidade de a concretizar nos termos da aliança. Por isso o seu apelo: “Ouve, Israel”, pois somente assim poderá esse povo experimentar a concretização histórica de sua experiência mítica de eleição – ouvindo a voz de Deus e assumindo seu destino face às nações.

 

 

Ser luz para as nações pode receber interpretações muito variadas. A própria Igreja, entendendo-se como beneficiária dessa eleição enquanto Novo Israel discute internamente qual o sentido dessa eleição: uma salvação espiritual nos termos de uma teologia tradicional neoplatônica, lá e depois? Uma salvação concreta, de pão, água e terra, nos termos de uma Teologia da Libertação, aqui e agora? De que eleição falamos? De que eleição fala Ben-Chorin?

 

 

Será da paz que fala? Citando Is 2,2-4, afirma: “com isso a eleição de Israel terá sido cumprida” (p. 146). Será que Ben-Chorin entende que a tarefa messiânica de Israel é a promoção da paz entre os povos, ser luz para as nações? Essa pretensão universalista de Israel enquanto centro mundial da paz é defendida logo abaixo (p. 147), como resposta às pretensões de exclusividade universalista da Igreja e no diálogo retórico com Martin Buber. Seja como for, essa pretensão deverá ser encarada dentro da perspectiva não nacionalista: “toda exaltação nacionalista recebe assim a correção profética, que nunca poderá ser esquecida se não quisermos que a idéia de eleição degenere no chauvinismo” (p. 146).

 

 

Outra pista relevante é a sua declaração de que “política e religião não podem ser separadas, sobretudo no judaísmo” (p. 133). Se a tarefa de Israel enquanto nação e povo eleitos consiste na promoção universal da paz de Deus, os caminhos da política e da religião não devem apenas ser compreendidos, mas transformados. Se por um lado a abordagem histórico-social da história de Israel demonstra que a religião foi tão cedo quanto possível cooptada pela política a fim de promover a inversão de valores autenticamente populares e libertários, em benefício da manutenção do status quo de uma política, não seria o caso de a religião, agora, utilizar-se da política para recolocar os valores nos seus devidos patamares? Mas para isso a religião terá de converter-se ao homem. Para tanto, Israel deverá converter-se ao homem. Também a Igreja! Ou o homem se torna a pedra de toque de toda a conversão necessária para que a eleição de Deus para Israel concretize-se (será possível ao mito realizar-se?) ou a eleição não serve para nada. Pelo menos para nada que interesse ao resto dos homens.

 

 

Nesse sentido, cabe a citação de uma frase curta e tremendamente significativa de José Porfírio de Miranda: “a próxima revolução será mundial ou não será uma verdadeira revolução” (O Ser e o Messias -  um estudo sobre o messianismo de Jesus. São Paulo: Paulinas, 1982. p. 22). Qualquer conceito de eleição que diga respeito aos homens do mundo deve passar pelo critério de sua dignidade, de sua inclusão, na paz, no pão e no pedaço de chão. Sob o conceito de eleição de Deus, mais especificamente, a eleição de Yahweh, o do êxodo, como eleição para a concretização da bênção humana, para a paz entre os povos e os homens, sinceramente, tanto faz ser Israel ou a Igreja quem a concretize, importa é que seja concretizada... e já! E também nesse sentido, todos nós e cada um é eleito para essa incontornável missão.

 

 

O livro de Ben-Chorin me parece um daqueles bate-papos de que o próprio autor fala e que converte em título de um de seus capítulos. Como a própria história de Israel, aparentemente fragmentária e dispersa, seus capítulos comportam-se independentemente, mas caminham lenta e inexoravelmente para seu alvo. Fala-se da consciência de eleição dos judeus nos bares, nos simpósios, na arte, na filosofia. Trata-se de uma conversa político-teológica. Mas é antes de tudo uma conversa. Sofrimento e glória; a relação com os “irmãos próximos”, os árabes; o vigor e a mística; a ortodoxia e a política; Israel e a Igreja.

 

 

Penso assim porque até a estrutura interna do livro o deixa transparecer. O livro possui duas partes principais, Eleição e Eleição e Promessa. Essa primeira parte possui nove capítulos e a segunda, dez, fora o epílogo, esse, sim, uma boa alinhavada teológico-política de Ben-Chorin. Mas o sumário não deixa isso claro. Não identifica esses dois títulos como constituintes de partes maiores na divisão do todo, e o leitor desatento, pensará tratar-se de uma coleção de capítulos lineares sobre o tema. Será se essa aparente confusão estrutural quer indicar a dificuldade de a temática mítica concretizar-se historicamente?! Que a paz deve não apenas ser buscada, mas construída?!

 

 

Na primeira parte, contudo, o tema da eleição é tratado de forma  pontual. Um breve apanhado escriturístico e uma apresentação do tema da eleição na história de Israel na era cristã. A discussão sobre o tema da eleição relacionado a Israel e à Igreja fecha essa parte.

 

 

Na segunda parte, a temática gira em torno das concretizações políticas da eleição e os respectivos conflitos. Sim, porque eleição implica em promessa, e promessa da Terra, de forma que é na questão da Terra que a dimensão política da eleição toma dimensões além do bate-papo de bar. Para Ben-Chorin, é sempre uma tentação para Israel tomar a Terra – a promessa, sem tomar a eleição – ser luz para as nações. Fechar-se em torno de si mesmo, e não abrir-se aos povos, para onde fora espalhado.

 

 

Seja como for, a concepção de eleição defendida por Ben-Chorin está bem delineada já no início do livro: “apresento aqui esta concepção para mostrar que o conceito de eleição de Israel não pode ser visto de maneira absoluta e exclusivista, mas que passa por uma ampliação, que no século XIX o rabino italiano Elia Benamozegh denominou o ‘catolicismo de Israel’” (p.16).

 

 

Mas vale uma advertência aos leitores cristãos: a advertência de que também a Igreja não consegue pronunciar essa vocação. Ela a devolve para Deus, adia a sua concretização para algum lugar além da vida, quando essa mesma eleição foi feita dentro da vida e para a vida. Nesse sentido, a dificuldade de Israel diante de sua vocação é a dificuldade da Igreja; e seu silêncio, também o nosso...

 

 

Como são confissões e bate-papos, não há que se julgar as palavras de Ben-Chorin. Talvez recebê-las como que dirigidas também a nós, Igreja, eleitos para sermos a luz das nações antes que admiradores de nós mesmos. Talvez devamos reaprender a ouvir... Talvez nos tenhamos perdido, quem sabe? Se devemos perguntar a alguém, talvez seja ao mundo, particularmente aquele mundo de quem Iahweh se apiedou e que, mercê dessa piedade, estamos hoje aqui discutindo eleição. Como uma grande Cabala, ou um midrash, talvez devamos tomar as palavras de Ben-Chorin e fazê-las curar nossas feridas, que são, a seu tempo, as feridas de Israel: ser e não saber ser...