Quanto a um parágrafo a respeito da teologia

Osvaldo Luiz Ribeiro

21/06/2008

 

Nesses dias de discutir o estatuto teórico da teologia, meus olhos ficam atentos, quando não se tornam caçadores. Deparei-me nesse instante com um parágrafo em um artigo sobre Walter Benjamin e sua relação com a “teologia”. Não vou discutir o artigo. Vou discutir um determinado parágrafo dele. Eis o parágrafo :

 

Como ressaltaram inúmeros pensadores, a teologia não é, em primeiro lugar, uma construção especulativa dogmática, mas, antes e acima de tudo, um discurso profundamente paradoxal: discurso ou saber (logos) "sobre" Deus (theos), consciente, já no início, de que o "objeto" visado lhe escapa, por ele se situar muito além (ou aquém) de qualquer objetividade. Assim, a teologia seria o exemplo privilegiado da dinâmica profunda que habita a linguagem humana quando essa se empenha em dizer, de verdade, seu fundamento, em descrever seu objeto e, não o conseguindo, não se cansa de inventar novas figuras e novos sentidos. Por certo, nem todos os discursos humanos seguem a regra de uma impossibilidade transcendental e constitutiva de apreender o próprio objeto. Mas tal paradigma de um discurso que se definiria por sua insuficiência essencial, constituindo-se positivamente em redor dessa ausência — um paradigma oriundo da teologia —, habita no cerne da tradição filosófica e poética, especialmente contemporânea. Convém observar, aliás, que, se Deus é o primeiro e, talvez o mais radical, desses significados insondáveis e indizíveis, ele não é o único. Nem a beleza do mundo nem o sofrimento humano podem verdadeiramente ser ditos (Jeanne-Marie Gagnebin, Teologia e Messianismo no pensamento de W. Benjamin.  Tradução de Jean Briant [Théologie et Messianisme dans la pensée de Walter Benjamin], disponível em http://antivalor2.vilabol.uol.com.br/textos/frankfurt/benjamin32.html).

 

 

O parágrafo pretende ser “normativo”. O que eu quero dizer com isso é que ele dita e interdita – e não por acordo comunitário, mas como “questão pacífica” – formas de ser que, segundo a afirmação que faz ser de inúmeros pensadores, não corresponderiam à “teologia”. Recolho-as: “a teologia não é (...) uma construção especulativa dogmática” – uma interdição. Além disso, a teologia seria “consciente” de que, malgrado constituir “discurso ou saber (logos) ‘sobre’ Deus”, “Deus”, esse objeto de seu discurso, do discurso da teologia, escapar-lhe-ia.

 

Bem, não é verdadeira nem uma nem outra coisa. Tanto a “teologia” é – sim – uma especulação (do ponto de vista fenomenológico) dogmática (do ponto de vista político-eclesiástico), quanto a “teologia” não tem a mínima noção da indisponibilidade ontológica de seu objeto (também do ponto de vista fenomenológico). Para a Igreja, para as Igrejas, para os fiéis das Igrejas, para os “teólogos” das Igrejas (se excetuarmos do grupo aqueles que vão, pouco a pouco, atravessando o regime discursivo dogmático [ mas ao custo da e contra a dogmática!] até o outro lado do rio, onde perfaz-se um regime de metáforas – cf. Vattimo!), para os “professores” das Igrejas – a “teologia” não apenas é dogmática, ela é, ainda, revelada, certa e verdadeira, e nada de “especulativa”. Quando afirma que “a teologia não é (...) uma construção especulativa dogmática”, o parágrafo está – tem de estar – apenas afirmando que não toma por procedentes essa perspectiva de dizer e fazer ser a teologia uma proposição dogmática. Isso o parágrafo tem o direito de fazer, ou seja, de não aceitar como “definição” o postulado de que a “teologia” seja dogma. Eu mesmo não tenho mais a mínima condição de manejar o termo com essa acepção – teologia, para mim, não é nem pode ser (mais) [porque foi um dia!] dogmática. O que o parágrafo não pode fazer, e faz, é considerar-se instância decisória para a definição do termo. O parágrafo pode propor que a teologia não seja dogmática – mas, quando diz que ela não é, o diz contra uma inumerável nuvem de testemunhas de acusação. As evidências fenomenológicas dizem exatamente o contrário do que o parágrafo pretende por “verdade”. A realidade sociológica desmente o postulado – na prática do mundo religioso (ocidental e cristão), a teologia é majoritariamente dogmática. Eu até lamento que ainda seja assim. Mas é um fato. E o parágrafo não tem o poder de fazer com que a realidade seja dissolvida – salvo se por meio de um solipsismo nada materialista.

 

Do próprio discurso do parágrafo, contudo, posso depreender que entende-se a teologia não como especulação dogmática. É o parágrafo contra o mundo. Eu até me coloco, nesse sentido, ao lado do parágrafo. Mas nós dois não somamos quorum suficiente para metonimizar a realidade com pertinência representativa. Somos exceções.

 

Há mais um equívoco, porém. O parágrafo afirma que a teologia tem consciência de que seu objeto lhe escapa. Tem? Qual teologia? De que teologia fala Jeanne-Marie Gagnebin? Não, decerto, as teologias, aquelas mesmas que mencionei anteriormente, as das Igrejas – de seus cleros, de seus fiéis, de seus doutores. Não a de Barth, certamente – e a de seus discípulos eclesiástico-dogmáticos, ontológico-metafísicos, que lhe devem todo o século XX. Barth recolheu todo o discurso romântico – história e assombro, a solidão humana num mundo demasiado humano – e deu com ela na cabeça (decidamos se na de si mesmo ou se na dos românticos), cooptando, a seu tempo e modo, e para seus propósitos, justamente esse veredicto de solidão humana – que rasgou com a velha revelação de Platão, com pitadas de Paulo e Agostinho. Aí, em Barth, e aí, na estrada da “teologia” – a única teologia do século XX (a única verdadeiramente representativa, posto que as demais não passaram de balões de ensaio, idiossincrasias de teólogos esquivos) –, não há absoluta nenhuma consciência da indisponibilidade do objeto “Deus”. Essa teologia não apenas tem acesso a ele – ele está disponível! – quanto o conhece – fala dele dia e noite – e o sente – essa teologia descobriu o “sentimento” romântico como fundamento e prova de Deus!

 

Esse é um equívoco grave. Mas há outro ainda mais – e dentro desse. Em que sentido é pertinente falar-se de “Deus” como objeto da teologia? Recorrendo ao termo logos? Mas o termo logos aponta na direção de Feuerbach – de modo que logos, aí, constitui não apenas linguagem humana, mas, igualmente, pensamento humano, imaginação humana. Se o parágrafo considera saudável uma teologia não dogmática que tenha consciência da indisponibilidade do objeto “Deus”, força-me a abandonar suas pegadas, porque não posso aliar-me a uma reflexão teórica sobre teologia que ainda “olhe” para o objeto “Deus” – mesmo que assumindo-o como indisponível.

 

Então, em que pé ficamos? No seguinte. A meu juízo, não é verdade que a teologia não seja necessariamente especulação dogmática – para a esmagadora maioria dos “teólogos” ela o é. Mas corrija-se também essa declaração. Teologia não é necessariamente especulação, porque, ao contrário do que o parágrafo diz, do ponto de vista da maioria esmagadora dos teólogos – eu não me conto entre os desse tipo – teologia é revelação. O que me força a afirmar, ainda, que o parágrafo, mais uma vez, equivoca-se em afirmar, quando afirma, que a teologia tem consciência da indisponibilidade de seu objeto, “Deus” – porque, para a maioria esmagadora dos teólogos, Deus não apenas “está aí”, quanto pode ser pregado e ensinado, tanto quanto sentido.

 

Pois bem: se o parágrafo quis tão somente, como eu tenho tentado, defender uma definição de teologia, chegou a construir uma – teologia é um discurso sobre “Deus” indisponível – indisponível Deus, não o discurso. Mas o fez por meio da negação de seu contrário, e negação que não tem o direito de fazer, porque, enquanto a teologia do artigo não passa de proposta – como as minhas – a teologia que ele, o parágrafo, nega enche as Igrejas, os templos, as ruas, o mundo.

 

Quanto à definição de teologia de Jeanne-Marie Gagnebin, tenho dúvidas se a podemos levar a sério na “academia”. O Objeto Indisponível é uma “invenção” noológica do artigo, assumida a partir da fé pessoal ou da racionalização secularizante da tradição fideísta. As ciências não têm o que fazer com isso, não têm como lidar com isso. A meu ver, as ciências – e a teologia como ciência! [a presença da teologia na CAPES e no MEC exige dela um estatuto teórico, uma definição e uma prática científicas] – só podem lidar com a teologia, e a própria teologia lidar consigo mesma, enquanto ciência, tomando como objeto não “Deus” – seja disponível, seja indisponível, seja por meio de uma teologia dogmática, seja por meio de uma teologia negativa. “Deus”, “Deus mesmo”, sob qualquer forma e foco, não pode constituir objeto das ciências. “Deus” (sob todas as formas histórico-fenomenológicas), contudo, é objeto, sim, da de milhares, milhões, bilhões de pessoas. As ciências devem tomar isso como seu objeto – a , o pensamento, a crença, o discurso humano. A teologia com o ciência só pode ter como objeto o que homens e mulheres dizem pensar sobre “Deus”. Isso nas ciências. Na academia. Mas – mesmo aqui – está difícil de isso ser aceito, se é que foi entendido, até agora.

 

A sensação que eu tenho, diante do parágrafo analisado, é que ele encontra-se em um mundo próprio, onde as coisas reais são tais quais aquele pequeno de habitantes dele o determinam. É um modo de viver no mundo. O problema é que a teologia não é propriedade desse mundo – ela é uma palavra empregada em todo o ocidente, e sob regimes epistemológicos os mais diversos. Se o parágrafo tem consciência de ter-se pronunciado segundo um recorte propositivo muito pessoal, era de se esperar que o leitor o soubesse. E, para o saber, deveria ter sido alertado. Não o foi. É provável que esse problema se resolvesse anaforicamente – que os ouvintes da palestra fossem, todos, comungantes desse recorte. Não é o caso de sua situação na página. Todos, agora, são seus ouvintes e leitores. E, agora, podemos estranhar que o parágrafo discurse como que falando da teologia como consenso. Quando estamos a anos luz de uma tal coisa...

 

Não sei se morro apenas depois de ter visto a teologia ser tratada, na academia, como discurso sobre os discursos humanos sobre Deus(a/es/as). Temo que morrerei ainda ouvindo mestres e doutores muito ciosos da indisponibilidade do objeto “Deus”. Como aquele velho profeta, gostaria de morrer apenas depois de meus olhos contemplarem meu sonho. Mas temos não chegar a ser tão feliz.