Carta aberta a Saramago

 

Meu muito querido e admirado Saramago, você que é, por mim, tanto querido quanto admirado pelas coisas que escreve, querido, porque diz coisas que me tocam, suavemente, às vezes, dolorosamente, também, outras tantas, e admirado, porque escreve como escreve, e diz como diz.

 

Você é contado entre aqueles a quem devo grande parte de meu olhar. Pessoas que cruzaram meu caminho, mesmo sem o cruzar, mas que mandaram, pelo mar, seus livros, e pelo ar, suas dores e alegrias. Quantas vezes eu as tomei como minhas, Saramago. E quantas vezes me pego a embalá-las.

 

O primeiro livro seu que li foi o, dentre todos, o mais terrível – seu Evangelho. Li-o sofregamente, na condição de cristão evangélico. Compreendi seu livro de um modo entre muito tranqüilo e muito revolto, tanto como um lago plácido, quanto como vagalhões encrespados. Até hoje faço referências, anos depois, a partes cruciais do livro, como aquela, do encontro que você inventa entre Deus, Jesus e o diabo, coisas como Ariano faria por aqui. Você me parece ter feito teologia ali, em todos os sentidos. E achei aquilo fantástico. E você foi para a estante, ao lado de Feuerbach e de Nietzsche.

 

Não me tornei um ateu, como você diz ser. Não cheguei a perceber que era isso, afinal, seu desejo. Nesses mais de vinte anos de reflexão teológica, o ateísmo nunca me “tentou”, com o perdão da palavra. Penso que essa imunidade se deva ao fato de eu ter percebido, desde muito cedo, que teísmo e ateísmo são como dois irmãos pequenos, mas já implicantes, como as crianças são e gostam de ser, um de cá a bater o pé, sim, sim, sim, e o outro, de lá, a bater também, não, não, não.

 

Quando comecei a ler você, eu já dizia sim, sim, sim. Aliás acho que disse sim desde que me lembro por gente. Mas foi o cristianismo formal, catequético, aos meus dezoito anos, que me deu fotografia e RG, de modo que aos meus sim passaram a corresponder, então, coisas pra provar meu sim. Logo, entretanto, percebi o quanto eu era infantil, e, sem poder, contudo, deixar de dizer sim, acho que sim, talvez sim, é possível que sim, mas não sei, passei a olhar não para Deus, diretamente, mas para meu sim, e a investigar não Deus, diretamente ou indiretamente, mas meu próprio sim. E quando concluí que meu sim era o que era, descobri que meu sim era igual ao seu não, e me senti muito mais próximo de você.

 

Eu devo confessar que não me encontro em condições de dizer não. Por duas razões. A primeira, porque, de algum modo, o sim faz parte de mim, corre no meu sangue, acho que desde o bombeamento cardíaco materno. Não que eu o considere um vírus, não é isso, mas é que eu juraria que aprendi Deus, olhando para minha mãe, sua vida pobre e difícil, mulher de dores, as suas e as dos outros, tropeções por ofuscamento da vista, e porque lhe punham um pé na frente, mulher de dores, através de cujo corpo doloroso de mãe, é dar comida, é dar casa, é dar estudo, é dar roupa, eu, não me pergunte como, “vi(a)” o Invisível, que ela chamava de Deus, ouvia o Inefável, que ela chamava de Deus, sentia o Insensível, que ela chamava de Deus, chegando ao absurdo, veja só você, Saramago, confesso isso entre ruborizado e emocionado, entre a vergonha e a emoção, de arrumar travesseiro e lençol para que ele dormisse ao meu lado, nas noites da Avenida São Paulo, nos meus quinze anos. A palavra Deus, e o que ela significava na vida, na boca, no corpo de minha mãe, cravou-se no meu peito, e eu não consigo arrancar ela de lá, e nem quero, e nunca quis, que ela é uma doce palavra.

 

Essa a razão mítica e mística, mágica e profana, a razão do menino assustado, que continua assustado até hoje, e que se pega pedindo socorro. Sim, a ele, veja você. Ma há uma outra razão, não mais de menino, mas de, como se diz, homem de calças compridas, que me veio pelo caminho das reflexões, das leituras, da teologia, essa que eu aprendi a picar em pedacinhos e a reescrever do meu próprio jeito. Trata-se da “descoberta” – romântica – de que o sim e o não são invenções nossas, o sim, minha, o não, sua, e que assim vamos nós, empurrando nossas pedras. Que Deus, em eventualmente existindo, não tinha nada a ver, nem com o meu sim, nem com o seu não, mas que tanto um, meu sim, quanto outro, seu não, eram invenções e riscos nossos, e só nossos, bonecos de cera que moldávamos à medida que a vela da vida ia-se consumindo, ora trazendo luz, ora nos queimando a pele, entre bruxuleios fantasmagóricos e leituras noturnas.

 

Então você vê, meu amigo, que me vejo na condição de, por um lado, ter o sim na veia, e no outro, saber que a vida e eu o pusemos lá, e que trocar o sim pelo não, eu, ou, você, o não pelo sim, é trocar seis por meia dúzia. Porque cheguei a esse estado de alma, para mim tanto faz se você diz sim ou não, acredite, e, honestamente, não me sinto nem um pouco interessado em demovê-lo de sua posição, ainda que gostaria imensamente, muito mesmo, de conversar com você, e descobrir, mais intimamente, a história de seu não, e ver se ele corre nas suas veias, assim tão misticamente quanto o meu sim corre nas minhas, ou se, no seu caso, se tenha havido um garoto, ele morreu, ou, quem sabe, nunca houve, mas sempre, e só, o homem de calças.

 

É engraçado eu falar de mística, porque há amigos meus, cristãos evangélicos, de tradição histórica, como eu, e outros, mais carismáticos, que me juram por incrédulo empedernido, os mais teologicamente relaxados, e um herege miserável, os mais ciosos de seus deveres religiosos. Nem uns nem outros conseguem perceber que o sim é sempre uma mística de pele, o que me faz vir à cabeça justamente aquela pergunta sobre o seu não, se ele é místico, como o meu sim, ou se é pura racionalidade articulada, retro-alimentada por suas posições políticas, as quais você não esconde de ninguém, e isso considero igualmente admirável.

 

Não é que, contudo, eu concorde com tudo que você diz. Outro dia, por exemplo, você falou da relação entre israelitas e palestinos como se Israel fosse o gigante e os palestinos fossem o pequeno Davi, uma cooptação inteligente da tradição israelita, mas contra ela, o que eu chamaria de uma reinscrição transgressiva, concorda? Já na época eu achei muito unilateral a sua retórica. Hoje, quando Davi se divide e, num ataque de loucura, num surto psicótico, corta a própria carne, entre eles também há Davis e Golias, pergunto-me se, de fato, você não estava projetando ideologias apenas sobre um dos lados, numa espécie de maniqueísmo político-ideológico bastante retoricamente norte-americano, os bons, os mocinhos, os cawboys, contra os maus, os bandidos, os índios.

 

Outra coisa que você disse – e que é a razão de eu escrever essa carta aberta para você – li-o ontem, numa página da Internet. O texto é O Fator Deus. Ele teria sido publicado na Folha de São Paulo, em 19/09/2001, logo, uma semana depois do episódio das torres gêmeas. Eu tive acesso a ele através do site Dubito ergo sum.

 

É um belo texto. Chegou a emocionar-me, e ele tem alguma coisa de seu Evangelho estampado nele. Você diz coisas profundas ali, coisas que impactam, e tanto, que você, no último parágrafo, reconhece que um leitor crente teria dificuldades de chegar até o final dele, que, contudo, não é tão grande. É que, nele, você afirma que “o fator Deus” – e não a idéia Deus, em si, é responsável pela maior parte das desgraças humanas. Seu parágrafo é o seguinte:

Ao leitor crente (de qualquer crença...) que tenha conseguido suportar a  repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiraram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento de não poder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do “fator Deus”. Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.

 

Não me causaram repugnância. Acredito em grande parte em sua percepção quanto ao assunto. Mas o que me interessa, ali, é um assunto do homem de calças compridas. Já li várias vezes o texto, para ver se lia corretamente, e cheguei à conclusão que você disse, sim, “se há Deus, há só um Deus”, e que isso que você disse significa isso mesmo que disse, que, em minhas palavras, eu diria assim: se Deus existe mesmo, então só existe um Deus, o que não significa que você esteja dizendo que esse Deus, então, seria o dos cristãos, e não o(s) do(s) outros, ou que ele seria um deus hindu, e não qualquer um dos outros deuses dos outros povos, mas que você está dizendo que, no final das contas, todos estariam a serviço do mesmo e único Deus, ainda que cada qual o chamasse por um nome em particular, como milhares de nomes se ouvem.

 

Eu achei essa sua declaração muito curiosa, porque ela está toda baseada em racionalização, e eu me perguntei se o seu ateísmo se crê “racional”, como o teísmo e o deísmo e o panteísmo de teístas, deístas e panteístas julgam-se, igualmente, racionais – o que implica em múltiplas racionalidades, em múltipla estupidez, ou em clarividência, e o problema, então, volta a ser quem, dentre eles, é o clarividente. Poder, poder, sempre o poder.

 

Eu gostaria de saber, Saramago, porque você acha que, se há um Deus, só pode haver um. Você acha que, afinal, vá lá, é possível tratar das questões “metafísicas” – em sentido mitológico – a partir das reflexões humanas? Há alguma coisa de simpatia nessa sua observação, isto é, deve ser lá em cima, se houver um lá em cima, como é cá embaixo? Por que, por exemplo, não poderia haver, eventualmente, vários deuses? O que Parmênides tem de absolutamente, e não relativamente, melhor do que, por exemplo, Heráclito? O que o judaísmo moderno tem, por exemplo, de superior, metafisicamente falando, mitologicamente falando, em relação às tribos africanas? Você, por acaso, acha que a política humana, sejam as socialistas, sejam as neoliberais, sejam as totalitárias, constituam andaimes noológicos para a reflexão sobre os “deuses”, e, nesse caso, para “Deus”?

 

Por exemplo, se o sistema político humano estiver interferindo em suas reflexões, paradigmaticamente, eu digo, o que acontece se projetamos a democracia no mito? Não resulta perfeitamente lógico que os deuses passem a ser vários, e muitos, e que decidam tudo quanto fazem por voto e decisões colegiadas? Que, caso haja um primeiro ministro, ou um presidente, ele o seja apenas na condição de “executor” das deliberações do conjunto dos deuses, eventualmente representados pelo “legislativo”? Nesse caso, a idéia de Deus não é mais, necessariamente, a do Ser de Parmênides, e posso trabalhar com a idéia politeísta, sem qualquer problema. Salvo, claro, para teístas e deístas. Mas essa seria uma questão de juris esperniandi, compreensível, que, contudo, o tempo cura.

 

Aprendi outro dia, no livro Formigas em Ação, de Deborah Gordon, que, ao contrário do que eu pensara a vida inteira, a “rainha” não tem qualquer papel no controle do formigueiro. Não manda, não dá ordens, não organiza estratégias, não elabora cronogramas, não permite, não interdita, não faz nada. Nada além de pôr e pôr ovos. O formigueiro é uma grande rede, que funciona por si mesma, através de múltiplas interações entre os seus milhares de componentes-indivíduos. Não há cérebro ali, senão que o sistema todo comporta-se como um grande cérebro. Não há rainha ali. Não há um deus ali. Senão que o todo que emerge dali é um grande “milagre”.

 

Descobri ainda, agora com Prigogine, O Fim das Certezas e As Leis do Caos, e com o monstro – meu amigo – Edgar Morin, O Método, que o Universo é uma história, um empurrão original – e quem o deu? – seguido de desenvolvimentos aleatórios e retro-alimentadores, fruto das estruturas estáveis que se vão logrando bem suceder no transcorrer do tempo. Dado o peteleco "inicial", o Universo resolve-se a si mesmo. E, cá entre nós, Saramago, se quem deu o peteleco tem alguma coisa a ver com nossa conversa aqui sobre a possibilidade de Deus existir, convenhamos, que garantia temos de ter sido um jogador solitário de dados, ou uma aposta no cassino dos deuses?

 

Eu não estou em condição de dizer que tenha sido um jogador, solitário, ou que tenham sido vários jogadores, divertindo-se – vê como só faço projetar-nos lá, como bem nos contou Feuerbach, também amigo meu? Sequer tenho a condição de dizer que efetivamente houve um jogador, do mesmo modo como não posso dizer que não houve. De modo que voltamos ao ponto de partida, quando eu e você tínhamos duas palavras nas mãos, eu, um sim, e você, um não. Mas, agora, eu não posso acompanhar você na sua liberdade de dizer, porque você é livre – libérrimo – para dizer não, mas não é livre para dizer que, se sim, então só um. Compreende-me? Porque tanto pode ter sido, se foi, um, quanto sido vários. Quem vai saber? Não, decerto, você e eu.

 

Veja você a situação em que me coloco. Em face do tema “Deus”, eu digo sim. Você, não. Eu, que digo sim, vejo-me obrigado a não negociar modelos teológicos, como se teísmo, deísmo ou panteísmo fossem mais lógicos ou racionais – e não são – do que politeísmo. Não há qualquer maneira de se chegar à solução da pergunta, infeliz, sobre se é mais racional um Deus ou um punhado deles. Meu sim se abre para uma série de possibilidades, quem sabe já exaurida na história da consciência humana, quem sabe ainda incompleta. O que me deixa numa situação complicada, Saramago, diante do espelho, porque, quando dou com meu sim a correr nas veias, e me pergunto, o que é isso com que me dou, já não posso mais ir além do silêncio. Se o atravesso, como aqui fizemos, em nosso jogo, é apenas puro jogo que jogamos, e nossas palavras vão se comportando como peças de jogos de montar. Se eu não soubesse, montava, e ia-me, feliz, e bobo. Mas sei. Maldição, eu sei.

 

Talvez, amigo, você nem tenha refletido, mas apenas articulado retórica, como a tentar, desesperadamente, que nós, os homens e as mulheres do sim, paremos de nos matar em nome de Deus. Se foi isso, é compreensível. Mas eu continuo a considerar que, afinal, trata-se do que é, retórica, a mesma que usamos para nos matar uns aos outros, nós, os homens e as mulheres do sim. Ainda é a mesma arma, porrete contra porrete, e, talvez, seja melhor jogá-la no lixo. Vattimo está tentando usar retórica para pôr as crianças para dormir, e sequer se dá conta de que, basta que ele feche os olhos, e elas fazem xixi na cama. É chegada a hora, amigo, eu acho, de enfrentarmos nossos medos, de cara, sem máscaras, sem recalques (em sentido psicanalítico), e sentir a dor como ela é, aprender a suportá-la. Deixemos às multinacionais a fabricação de tranqüilizantes, eventualmente necessários. Quanto a nós, nada de retórica teológica racionalizadora. Combinado?

 

Essas eras as palavras que queria deixar com você, e que bem quisera trocá-las por suas, em resposta. Deixo-o com seus pensamentos, pedindo que, por mim, pise a areia de sua praia. Na minha página, o sistema de identificação de visitas marcou dois pontos, no Atlântico, a sudoeste de Portugal. Pensei na sua ilha, e perguntei-me se teria tido a honra.

Seria uma honra.

 

Osvaldo Luiz Ribeiro