Gianni Vattimo, A idade da interpretação

Richard Rorty, Anticlericalismo e ateísmo

Santiago Zabala, Uma religião sem teístas e ateístas

 

 

Atenção: 

do livro O Futuro da Religião, completei a resenha crítica do artigo de Vattimo, parágrafo a parágrafo. 

Os demais artigos resenharei quando tiver nova oportunidade. Espero que breve.

 

O Futuro da Religião

– uma análise

(I)

Osvaldo Luiz Ribeiro

22/12/2006

 

RORTY, Richard, VATTIMO, Gianni e ZABALA, Santiago (org). O Futuro da Religião: solidariedade, caridade e ironia. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2006. 110 p.

 

 

O Futuro da Religião é constituído por cinco textos. O texto propriamente de Rorty, Anticlericalismo e ateísmo (p. 47-62), o de Vattimo, A idade da interpretação (p. 63-76), o texto do organizador do livro, Santiago Zabala, Uma religião sem teístas e ateístas (p. 19-46), uma entrevista a três, de Zabala com os dois filósofos, classificada como Diálogo, e intitulada Qual é o futuro da religião após a metafísica? (p. 77-110), e um prefácio, Pragmatismo e hermenêutica, assinado por Paulo Ghiraldelli Jr. (p. 9-17).

 

O texto de Zabala é, a seu modo, tanto um comentário dos artigos de Rorty e Vattimo, quanto uma apresentação de seu próprio pensamento a respeito do tema do livro. É, aliás, o maior texto da coletânea. O menorzinho é o de Paulo Ghiraldelli Jr. Pelo Google, descobri dois sites dele, onde se pode ler, sob seu nome: “o filósofo da cidade de São Paulo”.

 

Minha idéia é comentar todos os textos, um a um. Como não realizarei a tarefa em apenas um dia, porque o calor está insuportável, e a paciência, mínima, começarei minha análise pelo texto de Vattimo, que me irritou e agradou, ao mesmo tempo.

 

Primeira análise

Gianni Vattimo a idade da interpretação (p. 63-76)

 

1a. (§ 1 p. 63-64; p. 63 § único) Percebo que “hermenêutica” constitui, em Vattimo, um termo sob “apropriação”, um termo de "comunidade", articulado sob a perspectiva com que essa comunidade, que se apropriada dela, a opera, retoricamente. Tornou-se o equivalente de uma “escola”. Vattimo o maneja de tal modo que faz a “hermenêutica” constituir um conjunto de proposições, de pressupostos, de perspectivas. Passa a ser um topos filosófico, uma “visada”. Nesse caso, uma visada que tem de ser diferente das outras, aquelas que pretendem saber algo sobre a “realidade”. Vattimo considera que a “hermenêutica” não sabe absolutamente nada do estado real das coisas, porque ela não é uma coleção de informações objetivas “mais ‘verdadeira’ que o neo-empirismo ou o materialismo histórico etc.”. Essa hermenêutica já teria se pronunciado pela boca de Nietzsche, quando ele, interpretando, considera que não haja fatos, apenas interpretações.

 

1b. “A hermenêutica mudou a própria realidade das coisas e transformou a filosofia”. Afirmação curiosa essa, porque, ela mesma, é, ou uma interpretação, e, logo, não diz nada sobre a realidade das coisas, ou constitui um ato falho, desses de quem não pode dizer que “sabe”, porque sua filosofia não permite que se saiba, mas que, no fundo, lá, onde são recalcados os valores invisíveis que sustentam as cúpulas das catedrais, a pedra negra de Notre Dame, de que fala Fulcanelli, sabe-se, sim, senhor. Vattimo diz que o próprio clássico de Heidegger não apresenta “provas” – o que, caso contrário, significaria que deveria aceder ao domínio heurístico das ciências “duras”: “a analítica essencial de Ser e tempo (...) é, em todos os sentidos, uma interpretação”. Movendo-se a partir do ponto em que Descartes afirma cogito ergo sum, Vattimo avança: interpreto, logo existo. Cartesianismo dissolvido em brumas.

 

1c. (p. 63 § 1) Se a hermenêutica mudou a própria realidade das coisas, deve-se ao fato de que ela tenha sofrido uma “radicalização ontológica (...) no desenvolvimento da filosofia heideggeriana”. Que, nesse caso, “aceita”, então, o estatuto de “interpretação” para tudo quanto se diz, com Nietzsche, e desde Nietzsche. Essa é a radicalização: doravante, não há mais nada além de interpretações.

 

1d. Resta dizer sob que critério não apenas se fazem interpretações – há? – mas, tanto mais importante, sob que critérios se avaliam interpretações – há? Os dois volumes de Transformação da Filosofia, de Karl-Otto Apel, estão justamente atrás desse critério de verdade, e não negociam a dissolução do real, como se, dissolvendo-o, estivesse resolvido o problema. Se a redução a que Vattimo levará o cristianismo – a caridade – puder servir como esse critério, ainda assim não se resolveu a questão da verdade. Passou-se por cima dela, como sendo alguma coisa menos importante do que a relação fraterna entre homens – e talvez seja mesmo. A história do(s) Cristianismo(s) pode ser contada como a história do conflito entre o Amor e a Verdade, algemados juntos. O Amor, até vai à janela, em tempos de ordem. Mas, quando, por alguma razão, a desordem aparece aqui ou ali, a Verdade abre os portões do palácio, vai às ruas, e resolve o problema. No que concerne à questão da validade das proposições humanas – para Vattimo, interpretações – a “caridade” não é ferramenta. Não foi em dois mil anos, não o será, agora, porque Vattimo o quer.

 

1e. Talvez possa parecer pueril a ilustração, mas a arrisco. Formigas trocam “informações”. Quando uma formiga “batedora” encontra um inseto morto, e não o pode, sozinha, carregar, retorna ao formigueiro, “informa” às companheiras do “ocorrido”, e, não demoram nem vinte segundos, sai do buraco uma fila delas, umas vinte, mais ou menos, e, seguindo rigorosamente as “informações” que receberam, e, em alguns casos, ainda recebem, quando se trata de feromônio, dirigem-se à presa. Elas chegam exatamente lá onde estava o inseto morto. Agarram-no, arrastam-no e o enfiam inteiro no formigueiro. Pergunto-me se essas formigas lidam, apenas, com interpretações, ou, se de fato, elas não interpretam isso com que lidam, o que não é a mesma coisa, já que elas sabem que presa é presa, e pedra é pedra. Naturalmente que não lidam apenas com interpretações. Seja qual for o nível de relação entre o sistema comunicacional delas, e o nosso, ambos devem estar perfeitamente adaptados ao movimento físico de seus respectivos organismos biológicos sobre o real. Qualquer tentativa de transformar-se a “representação” numa fantasia, ou numa arbitrariedade, resulta de uma desfisicalização do homem. Não se trata nem mais de o pensar como “centro do mundo”, tomando o partido da Igreja no caso Galileu. É mais do que isso: é tornar o homem o "fundamento do mundo". Nem de seu próprio ele o é, quanto mais do “real”, no qual, como bem diz Edgar Morin, ele não passa de uma frágil, ocasional e inacreditável emergência. Seja o que for a consistência – essência, estrutura, chame-se como quiser – da “representação” humana (tanto no sentido da cosmovisão, quanto da autocompreensão), ela tem de ser “pensada”, complexamente, como um desdobramento, uma emergência das mesmas estruturas funcionais dos seres vivos, da ameba à baleia azul, perfeitamente adaptados a moverem-se no “real”. Se tomarmos o conceito de “realidade” como um conceito hermenêutico para o “real” – isto é, como uma interface – deveríamos (penso necessariamente) admitir que essa “realidade” precisa estar perfeitamente alinhada ao “real”. Não se trata de dizer que o “real” tem sentido, porque, concordo, “sentido” é uma emergência noológica própria da consciência humana, mas de se admitir que a interpretação dá-se, também, por causa do real. Tem de haver necessária concomitância entre a “realidade” e o “real” naquilo de que depende a sobrevivência biológica da espécie.

 

2a. (p. 64 § 2) Vattimo, contudo, baseando-se em Ser e Tempo, afirma “que o conhecimento é sempre interpretação e nada mais que isso”. Num só fôlego, Vattimo vai dizer que as coisas do mundo aparecem para nós, porque estamos nele, e porque estamos sempre já orientados a buscar algum sentido específico. O que nos obrigaria a deduzir, então, que as coisas são o sentido que damos a elas. Mas não é verdade. Quando a “amada” pede beijos da boca do “amado”, claro, ela já sabe o que quer. Quando o beijar, e vai beijar, entrará em gozos inexprimíveis, sabemos também. Mas, cá entre nós, sem querer estragar toda a poesia e o erotismo do Cântico dos Cânticos, há, do outro lado da boca entreaberta e carnuda da amada, vermelha, quente e úmida, uma outra, feita de carne, nervos, nervuras, umidade e desejo. “Boca” é um “sentido”, mas por trás do sentido, há, independentemente dele, a coisa que dá sustentação à ação humana de pôr sentido. Poder-se-ia regredir na dissecação dessa coisa do real, que chamamos, na “realidade”, boca, pela funcionalidade, não pelo sentido, e chegar às células, às moléculas, aos átomos, às subpartículas, e nos bestificarmos diante da definição disso aí como partícula ou como onda. Independentemente do “sentido”, lidamos com todas essas “coisas”. Na prática, apenas com a carne da boca, que, encostando na nossa, produz reações para além das “interpretações” – que, aliás, quantas vezes, leva-nos ao “submundo” do cérebro reptiliano, onde sequer há “interpretações”, só pulsões instintivas, vindas dos porões da espécie. Sim, é verdade – vemo-nos, o tempo todo, operando interpretações. Mas não, não é verdade que essas interpretações não passem de interpretações. Se Vattimo aí não faz mais do que dar uma “interpretação”, corro o risco de errar a minha resposta, mas a vida é puro risco, e a dou: sua interpretação, diante da minha compreensão de como funcionamos, está errada. Para mim, faz toda a diferença. Para ele, nenhuma.

 

2b. Vattimo acrescenta que a própria interpretação, essa é o “único fato” de que podemos falar. E cita Luigi Pareyson: “o ‘objeto’ se revela na medida em que o ‘sujeito’ se exprime, e viceversa” (Verità e interpretazione. Milão: Mursia, p. 54). Devo discordar. Se dissesse que a interpretação é um fato de que se pode (e deve) falar, eu poderia concordar – seria mesmo obrigado a tanto. A exegese histórico-social lida com os textos bíblicos dessa forma: assume-os como interpretações histórico-socialmente situadas. Mas chegar a dizer que o único fato são tais interpretações, é ir longe demais (para mim). Quando eu olho para o céu, e digo: que belo aquele pássaro, há, aí, nisso que digo, uma interpretação, belo, e uma referência a um ser-vivo, que de fato voa. Alguém está a meu lado e retruca: se você acha urubu bonito... Com “urubu”, ele não apenas concorda comigo sobre o fato de que aquilo é um pássaro, sim, mas um “urubu”, como concorda com meu registro estético, analisando-o: se você acha urubu bonito, então aquele pássaro é bonito, porque ele é um urubu. O que não significa que ele ache urubu bonito. Se o diálogo se der na vida normal, contudo, um terceiro que ouvisse a conversa saberia que se está falando daquele pássaro, um urubu, e não de qualquer pássaro. Não importa se o Universo sabe da existência de um “urubu”. No mundo real, o da phisys, cuja história tem bilhões de anos, e teve por uma das emergências um planeta, a Terra, e, nele, seres-vivos, aquele urubu, por exemplo, “lá fora”, naquele momento, voa um “urubu”, e três pessoas o observam. Deixa que o urubu faça sobre os três o que a natureza impõe a todos, que jamais duvidarão daquela ave, porque, além de terem de lidar, agora, com a coisa quente e fedorenta, quente e fedorenta são, sim, "interpretações", parece que terão de se dar uma boa lavada, para tirar essa "interpretação" de suas cabeças. Literalmente. Para alguém, o “fato” será interpretado como sorte, enquanto que, para outro, uma desgraça. Tratar o fato como sorte ou como azar é um fato, que, contudo, não substitui o que a ave fez por si mesma. Se ali embaixo dela, no lugar de três cavalheiros, houvesse um tatu, e, inadvertidamente, que esse urubu não faz isso de propósito, a ave fizesse sobre ele o que fizera sobre os três cavalheiros, ainda assim seria o mesmo fato. A natureza urge... Se Vattimo não quer ir tão longe, deve, então – e não faz – restringir os limites de sua “interpretação”. Duro será aqueles senhores irem à opera carregando, consigo, suas respectivas e consistentes "interpretações".

 

3a. (§ 3 p. 64-65; p. 64 § 3) Vattimo quer ter certeza de que o entendemos: “não estamos defendendo alguma forma de idealismo empírico (...). Na interpretação, dá-se o mundo, não há apenas imagens ‘subjetivas’”. Veremos se ele leva sua “interpretação” até o fim – essa é uma questão. O que está claro, é que Vattimo pretende que se saiba que ele está defendendo que o “mundo” acontece na interpretação. Eu temo que essa seja uma “interpretação” vattimonianamente cristã – como Vattimo fará muitas nesse seu artigo – da idéia do homem como glória da criação. O homem não é apenas a glória da criação – ele, quando entra em ação, funda o mundo. É ir longe demais, eu acho, com o malabarismo retórico. É tomar muito arbitrariamente termos e noções, e fazer com que elas sustentem aquilo que, a rigor, não passaria de interpretação, logo, não demandaria legitimação alguma.

 

3b. (p. 64 § 3 e p. 65 § 1) Estarei exagerando? O que, então significaria essa afirmação de Vattimo: “o ser (a realidade ôntica) das coisas é inseparável do ser-aqui homem”. Esse “ser-aqui homem” é ou não é o fundamento? No fundo, quer-me parecer que Vattimo virou a Teologia de cabeça para baixo, e pôs no lugar do fundamento ontológico – Deus – um fundamento “hermenêutico” – o homem. Pergunto-me, honestamente, e gostaria de perguntar isso a Vattimo, se ele não leu O Método, de Edgar Morin, que já disse, e me fez rir docemente, que o cogito ergo sum cartesiano deve-se à ação, não teleologicamente relacionada a isso, de uma mitocôndria! Vattimo quer pegar o ônibus por meio de um ponto zero, e tomou a interpretação humana como esse ponto. Já teve oportunidade mais do que suficiente de inteirar-se sobre as discussões em torno do Pensamento Complexo, as críticas que uma tal epistemologia complexa faz ao princípio de disjunção "mente" - "corpo", e, contudo, esse Vattimo que se pronuncia aqui é um novo Descartes. Um já foi o suficiente. 

 

3c. (p. 65 § 1) Aos pontos a e b anteriores (interpretação é só interpretação, e interpretação é o único fato, p. 64 § 2), Vattimo acrescenta mais dois: c) “a interpretação (...) se revela como (...) eventual, histórica”, e, de tal forma, que jamais o deixará de ser, porque, “quanto mais queremos captá-la em sua autenticidade (Eingentlichkeit), mais ela se revela como Ereignishaft, eventual, histórica”. Vattimo toma essa assertiva como suficientemente clara, porque, dela, passa à seguinte, por meio de um “donde: d) (...) uma interpretação (...) só poderá  se realizar como resposta interessada a uma situação histórica determinada”. A pergunta que essas duas proposições me colocam é a seguinte: se Vattimo sente-se preso a uma situação histórica, dentro da qual – e só dentro dela – ele pode se expressar, mas como alguém preso a ela, de tal forma que somente a ela ele pode se referir nas “interpretações” que faz, sendo só o que faz, por que ele se interessa tanto pelo cristianismo de Jesus? Por que ele olha tanto para o passado? E como ele pode olhar para o passado? Como ele “encontra” Jesus? E como ele pode, ainda, falar do que Jesus teria falado? Se é verdade a “interpretação” que Vattimo inventa – “interpretar”, em Vattimo, é criar mundo, engendrar, logo, inventar, como, na “criação”, Deus inventou os céus e a terra – por que meio milagroso Jesus teria falado para além de sua situação histórica determinada? Talvez Vattimo respondesse, aplicando a si o que disse do que Heidegger propusera em Ser e tempo: Vattimo não precisa provar nada, porque é tudo, afinal, interpretação, e só isso, de modo que não há um fato chamado Cristo, só um apego a que Vattimo se entrega, por capricho, ou “tradição”, e que, então, ele julga bom, a ponto de perguntar-se, ainda, por que tipo de “boas novas” anunciaríamos, os cristãos, ao mundo: “assim, o que acontece quando chegamos a um lugar que nos recusa, como algumas partes do mundo islâmico, o que você acha que deveríamos pregar a eles?” (p. 98), ao que Rorty responderá, pragmaticamente, que há coisas boas no Ocidente, afinal. São nossos atos falhos que falam. Usando o recurso de Vattimo, de referir-se à tradição cristã, mas a seu modo, eu diria, e a meu modo, que eles são o terceiro céu, onde alguém foi, e onde se ouve coisas que não devem ser ditas, e que, por isso, são recalcadas, vindo à superfície para respirar, de vez em quando, como as grandes baleias, para mergulhar nas profundidades, depois. Baleeiro, ponho-me à proa, esperando justamente a hora delas respirarem. Estou nisso muito interessado.

 

3d. Isso a que Vattimo chama de “hermenêutica”, eu acho que deveríamos tomar por uma cosmovisão. Uma “postura”, uma atitude. Você pode ser um cético, ou pode ser, alternativamente, um “hermeneuta”. O resultado, contudo, é um fechamento tal que, se levado a sério, paralisaria absolutamente todo e qualquer movimento. É conveniente considerar-se a cultura como um “mundo engendrado”, uma representação, o mesmo valendo para as cosmovisões e as autocompreensões particulares humanas. Se, contudo, elas não têm nós cravados no “real”, se a “realidade” não nos põe em contato com a topografia do planeta, seus recursos, Deus do céu, cada ato de comer é um acaso, cada fuga, pura sorte, e, quando tomarmos um avião para o Sri Lanka, será surpreendente que não só nós cheguemos exatamente lá – mas que todos os passageiros do avião também. Plutão, coitado, foi humilhantemente rebaixado à categoria de planeta-anão. Pois bem: nos termos de Vattimo, tanto faz dizer-se que Plutão é planeta ou planeta-anão, porque, como toda taxonomia, trata-se, aí, de “interpretação” – mas, ainda assim, com base em elementos próprios dos objetos conforme eles assim se nos apresentam, já que a mamíferos corresponde leite. Quando se olha para um Scarabeus sacer, onde quer que seja, e seja quem for que olhe, sabe-se que se trata de um coleóptero, e não, por exemplo, de um himenóptero, ainda que se possa confundi-lo com seu parente próximo, o Kheper aegyptiorum. Retruque-se que tal classificação é estabelecida por critérios “humanos”. E como não? Quando, porém, aquele grupo de formigas puxa aquele besouro pela pata, claro que eles não estão, no nível deles, nem “puxando”, e nem pela “pata”, que são todos conceitos nossos, mas, ainda assim, conceitos nosso que descrevem, a nosso modo, coisas que estão acontecendo, sim, e que estão ali, sim, no “mundo real”, que pense sobre isso o quanto pensar Vattimo, que, contudo, pode ir lá, dar uma pisada, e matar, assim, as pobres formigas. Que a mãe do pobre passarinho que o cuco recém-saído do ovo empurrou lá de cima, e jaz estatelado cá embaixo, carne para formigas, não se dê por rogada de que lhe roubaram o filho, tomando por este o malvado cuco, talvez ilustre como até na “natureza”, há self-deception. É cômico, de um certo modo, ver a pequena mãe, metade do cuco adulto, tentando pôr comida na boca do “malandro”. Independentemente do que “pense” disso o cuco, a mãe biológica desse cuco, que pôs o ovo no ninho alheio, a dona desse ninho, que cria, como seu, o filho de outra espécie, e, ainda, o pobre assassinado projeto de passarinho, isso tudo acontece, naturalmente. De modo que é verossímil admitir que, independentemente de o chamarmos planeta ou planeta-anão, e independentemente do ligeiro abalo sísmico que essa alteração taxonômica tenha promovido no mundo da astrologia, lá, há 5,9 bilhões de quilômetros do mesmo sol que ilumina a Terra, gira, ainda que numa órbita excêntrica, um “corpo celeste” e seu pequeno pet, Charon. Se, depois de Praga, Plutão deve confraternizar-se com Ceres e UB 313, e, taxonomicamente, não mais com Mercúrio e seus irmãos, isso deve-se a uma questão que diz respeito, aí, sim, à comunidade astronômica internacional, gostem disso ou não os escorpianos. Seja como for, essa reclassificação de Plutão não muda em absolutamente nada “a própria realidade das coisas”. Se a lente do Hubble for direcionada para as “coordenadas” adequadas, bingo!, aparecerá na tela a imagem do corpo que gira, ali, há milhões e milhões de anos – antes mesmo de Vattimo e eu. Aliás, se forem programas as coordenadas 41°54'10.50" N e  12°27'12.20", o Google Earth fará aparecer em nossas telas, milagrosamente, a Basílica de São Pedro, no Vaticano. Só lamento, que, por enquanto, ainda não seja on-line. Talvez gostasse de dar um tchau para o papa. Vattimo beneficia-se da regra que ele estabeleceu para si, desde quando a usou para Heidegger: está isento de “demonstrar” o critério de verdade de sua proposição. Porque, a rigor, ela não é “verdadeira” – é apenas interpretação. Conveniente. Quanto a mim, ainda prefiro a obrigação de dar contas do que “penso”, e cobrá-las, primeiro, eu mesmo, e de mim mesmo.

 

4a. (§ 2 p. 65 e § 1 p. 66; p. 65 § 1) Talvez seja uma tentativa de “justificação”. Vattimo afirma que a interpretação “reduz toda a realidade a mensagem”. Não há privilégios sequer para as “ciências da natureza”, porque elas “verificam ou rejeitam como falsas suas proposições dentro de determinados paradigmas ou pré-compreensões”. A interpretação “é como um vírus”: “infecta todas as coisas com que entra em contato”. É “como um fármaco”. Como agente interpretante dessa interpretação, “a hermenêutica não é uma filosofia, mas a enunciação da própria existência histórica na época do fim da metafísica”. É necessário tomar fôlego. Primeiro, para verificar a tentativa de encampamento de toda e qualquer ação humana. Essa dita hermenêutica me lembra aquele Jesus, posto a chorar diante de Jerusalém, porque ele quisera por todos debaixo de suas asas, mas não quiseram. Pelo menos é uma metáfora “cristã”. Penso que é exatamente nesse ponto que deveria ser cravada a cunha teórico-metodológica de Karl-Otto Apel, que eu diria não de todo esculpida, no máximo, a caminho, mas que, contudo, não abdica da necessidade de perguntar-se pela validade das representações, reconhecendo, contudo, a distinção epistemológica própria das “ciências” e das “humanidades”. Para ele, não se trata de sobredeterminar uma a outra, mas de tomar as duas em consideração, questionando, aí sim, o critério de validade das “verdades” propostas por uma e outra. Para Karl-Otto Apel, e para mim, não se trata, no “mundo humano”, de transformar as ciências em “humanidades”. É risível a tentativa. Deve-se levar a sério a necessidade de, para usar o termo de Vattimo, contaminar uma com a outra – pensar humanamente as ciências, e, cientificamente, as humanidades, para, por meio disso, chegar-se a um critério que seja mais do que arbitrariedade voluntarista. Eu recomendaria a ambos, tanto a Vattimo quanto a Karl-Otto Apel, a cada um por uma razão diferente, a leitura de Edgar Morin, que, depois de O Método, não precisaria fazer mais nada.

 

4b. Vattimo dizer que a hermenêutica é a enunciação da própria existência histórica na época do fim da metafísica é um modo interessante de ele revelar para nós o quanto é difícil a linguagem, quando se toma esta pela própria realidade. Como assim “a própria existência histórica”? Vattimo não deveria ter dito “a minha hermenêutica” é “a minha enunciação histórica”? Por que considera poder falar em nome de alguma coisa como “a própria existência histórica”? Primeiro, porque o que Vattimo chama de “hermenêutica” eu já considerei “cosmovisão”. Segundo, porque eu chamaria de hermenêutica não a uma “coisa”, do modo como a toma o pensamento de Vattimo, e que pensa por ele, a “hermenêutica como ontologia radicalmente ‘niilista’” (p. 67), mas um constituinte intrínseco humano. Edgar Morin tem dito que o Homo é sapiens, mas é, também, demens, e ludicus, e faber etc. Tudo isso, sim, e eu diria, ainda mais: Homo hermeneuticus, porque ele lida com o “real” – sim, o “real” – hermeneuticamente. O resultado dessa ação hermenêutica humana sobre o “real” não pode ser tratada como “hermenêutica”. O resultado é a cosmovisão e a autocompreensão humanas, mutuamente recorrentes, e historicamente determinadas. Quando Vattimo torna a sua própria cosmovisão em “escola”, o que está fazendo é saltando o estágio necessário de, primeiro, explicar como se chega a uma tal cosmovisão, ainda que se a trate pelo imponente nome de “hermenêutica”. A posição de Vattimo lhe permite o voluntarismo, mas não transmuta isso que é.

 

4c. (p. 65-66 § 1) Vattimo, agora, vai recorrer a três “leituras” do período histórico mais ou menos próximo de nós (cem anos). De Nietzsche o termo “niilismo”. De Heidegger, a expressão “fim da metafísica”. E, de Lyotard, “fim da metanarrativa”. Com essas “fórmulas”, Vattimo pretende referir-se à época, ao evento – esse e essa que estão aí. Dar uma era como encerrada, contudo, não significaria, para Vattimo, o surgimento de uma “nova”, mais “verdadeira”, como se, olhando de fora, pudéssemos emitir um juízo sobre as duas, a que se foi, a que chega. Para Vattimo, trata-se do seguinte:

(...) um processo no qual precisamos, na medida em que estamos mergulhados nele e não olhando do exterior, colher um fio condutor que servirá para projetar seus ulteriores desenvolvimentos: para estarmos dentro dele, ou seja, como intérpretes e não como registradores objetivos de fatos.

Que cena nos descreve Vattimo? Não é, de certa forma, a da criança que acaba de nascer? Não é a da pequena criatura incompleta, porque lhe faltam não as potencialidades, mas as atualizações propriamente humanas, que se dão na cultura, que acaba de sair do útero? Ora, mas aquela pequena criatura, ela não vai ser forçada – pelo meio – a emergir de sua fundição com o meio? A consciência não é, em termos de atualização, de início de operação, uma ruptura com o meio, causada também pelo meio, a que a estrutura biopsicológica está geneticamente programada para reagir, “ligando” o circuito? Não se espera que essa criança “ligue”? E ela, efetivamente, não liga? E ligar, aí, não é justamente “sair” do mundo, retornando a ele, humanamente? Ora, parece-me que o que Vattimo pretende é que retornemos para o meio das pernas de nossas mães, e que fiquemos lá, para sempre. Pior – que concebamos a hipótese de que, de fato, nunca tenhamos saído de lá! Não sei por que razão sinto, aqui, o mesmo que, quando revivo o “mito” da “queda”, de Platão. Em algum ponto, Vattimo e Platão pisam o mesmo eixo axial, e talvez seja no ponto em que a “matéria” é dissolvida. Mas eu insisto: se é verdade que estamos no meio da situação, alienados nela, por que meios, Vattimo, chegamos a saber disso, se não temos a capacidade de, afastando-nos para uma metaposição, dirigirmos uma visada sobre nós mesmos, e sobre nossa situação, lendo-nos a nós mesmos nessa situação? Como Edgar Morin afirma, tanto nós quanto uma ameba somos sujeitos – um ego no centro de um mundo. A diferença é que nosso ego retroage sobre si mesmo, e vê-se como um outro. É essa faculdade da consciência, própria do humano, que permite que nós possamos, sim, mantendo-nos axialmente instalados num mundo, projetarmo-nos para fora dele, para nos mirarmos ainda lá. Não se pode abrir mão disso, Vattimo, porque é isso que é propriamente humano. Mesmo a caridade sequer o é – é mamífera. A consciência, essa é que não tem outro mundo onde habitar, que não as nossas próprias vidas. E pedes-me que seja caridoso, mas que abra mão da consciência? Que é que, no fundo, queres? Eu resumo: há um “real” – e fora de mim. Eu me movo nesse real, hermeneuticamente, lidando com ele, mediado por minha representação hermenêutica dele. Um terceiro de mim me vê vivendo em meu mundo hermenêutico, e esse eu-ele sabe que esse mundo meu, hermenêutico, é uma “representação” semântico-funcional de minha apropriação do real. Que ele não é o próprio real, esse eu-ele sabe, mas sabe, acima de tudo, que, não fora o “real”, e a ruptura entre mim – também “real” – e ele, essas palavras “eu”, “mim”, “eu-ele”, “mundo hermenêutico”, nenhuma delas sequer poderia ser articulada. Desconfio que Vattimo dissolveu o “real”. Não querendo lidar com ele, livrou-se dele – voluntariosamente.

 

5a. (p. 66 § 2 e p. 67 § 1; p. 65 § 2) Vattimo vai dar um passo audacioso. Dissera, e repete aqui, que tanto Nietzsche e Heidegger, quando se pronunciaram, pronunciaram-se “do interior do processo moderno de dissolução das metanarrativas”. O que “Lyotard e os teóricos do pós-moderno não viram e não disseram (...) [é que] falam (...) antes de tudo do interior da tradição bíblica”. Por exemplo: “a morte de Deus anunciada por Nietzsche é, em muitos sentidos, a morte de Cristo na cruz narrada pelos Evangelhos”. Não estou em condições de dizer se em alguma parte da obra de Nietzsche ele alguma vez o disse. Vattimo não o dirá. Não precisa. Prescinde de “provas”. Mas – alto lá: o que é que “Lyotard e os teóricos do pós-moderno” deveriam “ter visto”, se não há fatos? Ou, de repente, a vida de Nietzsche e de Heidegger tornaram-se “fatos”, ou, que seja, suas próprias interpretações tornaram-se "fatos"? Sim, porque uma coisa é a interpretação que Heidegger e Nietzsche fizeram, enquanto viveram. Outra, bastante diferente, é a própria vida deles. Que, contudo, não existe – porque só existem a própria interpretação que fizeram e a interpretação que se faz deles. E, se tudo é interpretação, o que é que Lyotard e seus companheiros poderiam ter deixado de ver, isto é, que estivesse além de sua própria interpretação? Uma interpretação de Vattimo? Mas, então, dissolvemos o real, mas não as confrontações? O real dissolveu-se, mas ainda há cegueira – eles “não viram” – e mudez – eles “não disseram”? O que é que eu mesmo estou deixando de ver – se há algo para ser visto? Vattimo brinca comigo? E eu, de bobo, caí na brincadeira dele?

 

5b. (p. 66 § 2 e p. 67 § 1) Vattimo faz uma referência a Dilthey, a um texto produzido em 1883, Introdução às ciências do Espírito, onde, segundo Vattimo, não conheço o texto (infelizmente – ele existe? Ou só a interpretação dele? Ele existindo, independentemente da interpretação de Vattimo, posso chegar à conclusão de que Vattimo não o leu bem? Havendo, contudo, apenas interpretações, o que faz a referência a Dilthey no texto de Vattimo?), Dilthey teria afirmado que “é o advento do cristianismo que torna possível a progressiva dissolução do cristianismo”. Ainda segundo Vattimo, Dilthey faria culminar essa dissolução em Kant, mas, agora segundo o próprio Vattimo, ela leva até Nietzsche e Heidegger. O cristianismo seria o responsável pela introdução no mundo do princípio da interioridade. Aí estaria o início do processo de dissolução da “‘realidade’ objetiva”. Daí se poderia deduzir que a “hermenêutica moderna” seria uma espécie de “conseqüência” do cristianismo histórico. Vattimo quer, contudo, que tenhamos absoluta clareza do que ele pretende dizer:

O que proponho aqui é, ao contrário, que a hermenêutica, em seu sentido mais radical, expresso na frase de Nietzsche e na ontologia de Heidegger, é o desenvolvimento e a maturação da mensagem cristã.

 

5c. Confesso que, uma vez, já fui tentado eu mesmo a dizê-lo. Faltou-me coragem. Não a coragem de o dizer, mas a coragem de o dizer, e ter que admitir que só o poderia dizer por pura vontade de o dizer, sem qualquer base que não minha “manipulação” dos elementos que constituem a “metanarrativa” da história do cristianismo. Para Vattimo, que resolveu seu problema de escrúpulo de dizer, está dito. Mas é só. Está dito. Como se chega a poder dizê-lo, essa é outra história, que Vattimo, certamente, se recusa a “pensar”. Meu juízo é o seguinte: Vattimo, considerando-se no centro do mundo cristão, toma os termos axiais do cristianismo, as doutrinas, as proposições, os entroncamentos, mas tudo como espuma. Nada disso tem realidade histórica no sentido de ter, lá e então, um “sentido” próprio, preso à intencionalidade dos atores. O ator é Vattimo, no centro de seu mundo, do qual ele não pode sair. Vattimo é uma grande aranha, pousados todos os seus dedos sobre a teia, a qual, como um pianista mágico, tange, produzindo sua música, à medida que devora a presa que captura. Eu, contudo, o vejo, saindo e entrando. Saiu, tomou os termos na medida em que lhe interessam, tomando-os e vergando-os, como quem, com um galho, verga-o para o encaixar numa peça de engenharia. Os termos tornam-se o que a sua máquina exige que sejam. Ele não se curva aos fatos, com o argumento prévio de que eles, simplesmente, não existem – apenas a linguagem, apenas a mensagem, apenas as palavras, como Bultmann, que, malgrado jogar fora todo o mito cristão, agarra-se, e como?, ao seu querigma querido, meu tesouro, meu tesouro, simplesmente porque é seu tesouro. A Teologia e a História da Teologia, o Cristianismo e a História do Cristianismo não são mais do que um grande dicionário de termos, na direção do qual Vattimo estende a mão, recolhe termos, como gravetos, e acende sua fogueira.

 

5d. Vi Bultmann fazer a mesma coisa. Seus colegas de Universidade, historiadores, arqueólogos, historiadores, exegetas – mas ele mesmo, um deles! – dobravam, sobre suas respectivas mesas de gabinete, tanto o cristianismo quanto a sua história, desde o Novo Testamento, até a Patrística. Nada mais ia ficando de pé. Um fundamentalista norte-americano mandaria todos para o inferno. Bultmann, não. Prefere a saída que é, a rigor, a mesma de Vattimo: dissolve o “real”, reduz tudo ao querigma, e está salvo o tesouro. Diz-se existencialista a teologia de Bultmann. É voluntarista. Não há que dar provas de sua posição. Nem ele, nem Barth, nem, agora, Vattimo. Barth e Bultmann, porque apelam para a ontologia revelada ou assumida num querigma. Vattimo, porque dissolve a ontologia em “hermenêutica” – a sua. Ainda me parece uma estratégia de salvar alguma coisa querida. Ainda me parece acalentar-se uma esperança de nunca se ter estado enganado. É tudo, afinal, uma questão de... interpretação. Ei, de que cor é mesmo essa sua camisa? O quê?, você diz a cor dela, hoje? Bem, hoje apetece-me que seja amarela, porque combina com o sol. Mas ontem de manhã era cinza, porque chovia muito. E, se importa saber, manhã me apraz que seja branca, que tem a ópera.

 

6a. (p. 67 § 3 e p. 68 § 1; p. 67 § 3) O texto de Vattimo, agora, encaminha-se para o que ele diz ser o interesse específico de seu ensaio: “a relação entre os dois aspectos do nexo entre hermenêutica e cristianismo”. Nesse ponto, Vattimo faz uma afirmação que merece ser analisada: “que relação tem a hermenêutica como técnica e disciplina da interpretação (desde a Scriptura de Lutero até Schleiermacher e Dilthey) com a hermenêutica como ontologia radicalmente ‘niilista’, no sentido das afirmações de Nietzsche e de Heidegger?”. Não me interessa, por hora, a pergunta em si. Interessa-me a ultrapassagem de sentido entre a hermenêutica anterior e a contemporânea. Devo admitir, com Vattimo, que se trate de interpretação (dele) sobre a interpretação que Heidegger e Nietzsche eventualmente deram ao termo. Para Vattimo, a transformação da hermenêutica deu-se de uma técnica para uma cosmovisão. Nem sei como dizer isso nos termos de Vattimo, mas, se ele estiver certo, aquilo que era um instrumental, uma ferramenta, torna-se, agora, uma declaração, um ato de fé, que pode ser assumido, mas, não, “demonstrado”.

 

6b. A rigor, para que Vattimo diga o que diz, ele tem de considerar que hermenêutica é o que ele diz ser hermenêutica. Não me parece necessário, partindo de Nietzsche e de Heidegger, chegar a Vattimo. Pode-se passar pelo mesmo caminho, Schleiermacher, Dilthey – Nietzsche – Heidegger e Gadamer, e, ainda assim, levar a hermenêutica a outra espécie de transformação, convertendo-a em faculdade operacional humana. Seja qual for a cosmovisão de uma cultura, ela será elaborada hermeneuticamente, o que não significa que uma determinada cosmovisão cultural, a de Vattimo, por exemplo, seja a hermenêutica. O restante do ensaio de Vattimo terá de ser lido sob essa denúncia – ele chamará sua cosmovisão, voluntarista, de hermenêutica. Teremos – eu, pelo menos, terei – de fingir que concordo com ele, para poder “entendê-lo” a partir de sua própria fala. Mas, absolutamente, não posso aceitar sua afirmação.

 

6c. Vattimo inventou um mundo! A “ontologia hermenêutica” tem coisas a dizer. Não é que, por meio dela, chegue-se, alguém, a dizer alguma coisa – é dela a boca, é dela a fala. Um dia era o Deus Metafísica, outro, a Deusa Razão, agora, a Deusa Hermenêutica. Vattimo pergunta-se pelo que “nos diz a ontologia hermenêutica acerca da leitura e da interpretação dos textos bíblicos, da presença da interpretação dos textos bíblicos, acerca da presença e do sentido desses textos na existência das nossas sociedades”. Essa construção sintática deixa entrever que, de fato, a “hermenêutica” não é mais a técnica de interpretar, como, segundo Vattimo, fora, até Nietzsche. A “hermenêutica”, agora, com Vattimo, assume a posição da cátedra – e fala acerca de coisas. Ao que me parece, é Vattimo falando de coisas, como se não fosse mais ele falando, como se fosse a “hermenêutica” a falar. Isso é, realmente, profundamente cristão, porque, como Feuerbach viu e disse que viu, os cristãos, como gostamos de falar como se fosse Deus falando, dizendo que Deus é quem fala o que estamos falando, quando somos, no fundo - e no raso - nós mesmos a tagarelar.

 

7a. (p. 68 § 2, p. 69 e p. 70 § 1; p. 68 § 2) Esse longo parágrafo de Vattimo soou-me aos olhos como ato falho - mais um. Ele se inicia com uma declaração reveladora. As ciências reivindicaram o controle da verdade, dizendo-a objetiva, de modo que, no que tange a Igreja, "o desafio principal que ela teve diante de si foi a pretensão da ciência de valer como única fonte de verdade". Dói, não dói? A Igreja arvorou-se em dona da verdade por quase dois mil anos, e, em seus próprios termos, ainda se arvora. Parece que Vattimo está se comportando como um menino aborrecido, que lhe tiraram o brinquedo. Chateado, ele tem uma idéia: estragar a brincadeira de quem lhe roubou o brinquedinho: ei, seus tolinhos, a verdade não existe (aqui ele dá língua), a verdade é vapor retórico, uh (aqui ele põe cada mão numa orelha, e abana). Parece que tudo posse estar resumido a política.

7b (p. 68 e 69). Vattimo reconhece que a Igreja brincou de objetividade, também, e que a ciência apenas lhe segue os passos, em seu próprio tabuleiro. Reconhece, ainda, que, por questões de política de catequese, alterou retoricamente o estatuto ontológico da verdade, jogando um jogo de menos objetividade. Mas Vattimo considera que apenas a retórica não adianta, e que a Igreja deve, definitivamente, "para não voltar a ser uma pequena seita fundamentalista, como era necessariamente em seus primórdios, e para desenvolver, ao contrário, a sua vocação universal é assumir a mensagem evangélica como princípio para a dissolução das pretensões de objetividade" (p. 69). Para Vattimo, é uma questão de relevância e sobrevivência. Quando o jogo era a verdade objetiva, e não havia concorrentes a altura, que a verdade seja objetiva, e tanto faz, se a questão é, no frigir dos ovos, política. Mas, agora que os tempos mudaram, é mais inteligente a retórica da dissolução das objetividades, porque o concorrente se esborracha, e a Igreja mantém-se na direção das rédeas. No fundo, não se trata de saber o que afinal seja a verdade, mas de construir um discurso com a palavra verdade, discurso de legitimação da relevância política. Não é de admirar que uma plataforma desse tipo demande uma "hermenêutica" descolada do real, porque se trata, o tempo todo, de política.

7c (p. 69 e 70 § 1). Política, contudo, que Vattimo tenta, em alguns pontos, dissimular, quando, por exemplo, ele afirma que "não é escandaloso dizer que não acreditamos no Evangelho porque sabemos que Cristo ressuscitou, mas que acreditamos que Cristo ressuscitou porque o lemos no Evangelho" (p. 69-70). Mesmo? Ou se crê que Cristo ressuscitou porque ouvimos tal coisa de gente a quem reputamos confiabilidade? Não é essa a conclusão a que Paul Veyne chega em Acreditavam os Gregos em seus Mitos? Desde o início, os cristianismos sabem que "a fé é pelo ouvir", e isso porque ouvir, é ouvir de alguém. Mas mesmo aí não se resolvem as coisas, porque dois ouviram, e um não creu, e dois lêem, e um não crê, de modo que nem ouvir, nem ler, mas, antes, aderir, e depois, aceitar, como a velha e estúpida regra, política, de crer para compreender. Não vivemos mais nos tempos da heteronomia, e autonomia não significa feira-livre. Não é dissolvendo o real em política retórica que extrairemos de nossa época o que ela tem de melhor a dar.

7d (p. 70 § 2). Que se trata de política, o tempo todo, posso-o deduzir da seguinte a firmação de Vattimo: "(...) para escapar de um ruinoso realismo, do objetivismo e de seu corolário, o autoritarismo que tem caracterizado a história da igreja" (p. 70). Do centro de sua teia, Vattimo confessa sua crise interna, relativamente à Igreja: o autoritarismo. Que ele liga a "realismo" e a "objetivismo". A meu ver, sem justificativas. Podia ter simplesmente afirmado que o autoritarismo da Igreja é fruto tanto da psicologia despótica do sacerdotalismo embevecido do divino, quanto da estrutura discursiva da Igreja, a saber, um platonismo ontológico-normativo. Não vejo a mínima razão para desviar a causa do autoritarismo da Igreja para os elementos mencionados por Vattimo. É perfeitamente possível uma ética complexa, sem a dissolução do realismo e do objetivismo. Ética é apenas um jogo, que se joga quando se quer jogar - e Igreja não quis, e não sei se quer, porque esse jogo, hoje, só pode ser jogado por pares. A Igreja, se largar o osso do poder, resolve-se, quer internamente, quer diante da sociedade. E, para isso, não precisa brincar de platonismo-cartesianismo voluntarista, escrevendo num pedaço de papel a palavra "hermenêutica", e colando-o na testa. O filho submete-se ao pai, primeiro, por causa da força, e depois, porque é o pai. Mas a força do filho cresce, e ele se torna tão homem quanto o primeiro, e o jogo muda. A sociedade cresceu, tornou-se mais forte do que o pai, e Vattimo quer dar um jeito de o pai ainda mandar em casa. Essa é boa. Para que a Igreja guarde relevância, a receita de Vattimo é: a) a realidade não é a realidade das coisas duras, do coco que cai na cabeça, e b) "o sentido do cristianismo como mensagem de salvação é justamente, antes de tudo, aquele de dissolver as pretensões peremptórias da 'realidade'" (p. 70). Vattimo não se dá conta, e, se dá, não lhe causa a menor espécie, que seu corpo está todo enrolado na rede de metáforas que ele mesmo liga e desliga. Vattimo acha que somos obrigados a seguir a história a partir das palavras que o passo gerou, saltando sobre elas, usando-as, ora como escada, ora como esterco. Todo o passado está latejando dentro da cabeça de Vattimo, as palavras do passado, a agenda do passado, o olhar do passado, e ele opera todo esse gigantesco cabedal de imprints, tentando, afinal, resolver-se. Vattimo é mesmo um filho do Cristianismo, e tem medo de sair de casa, e tanto, que jura que não pode. Brinca, então de sair, como quem foge de casa, e se esconde no sótão. De minha parte, prefiro o discurso de Zaratustra ao pé de ouvido do palhaço-equilibrista: não há inferno. Vattimo quer arrumar um jeito de que haja, sim, para o qual as "palavras" - ah, as palavras - do cristianismo sejam exorcismo freudiano. Mas, ora, quem passa por Freud, justamente não precisa mais de Freud.

8a. (p. 70 § 2 e p. 71 § 1; p. 70 § 2) Vattimo tem boas intenções, é verdade: "ainda a vontade de domínio dessa ou daquela corporação de 'técnicos', de especialistas, de pessoas que se sentem autorizadas a decidir por nós. Em geral, um regime democrático tem necessidade de uma concepção não metafísico-objetivista da verdade; do contrário, transforma-se imediatamente em regime autoritário" (p. 70-71). Vattimo pretende ser democrático, mas, a meu ver, erra, de novo, ao vincular, necessariamente, democracia e feira-livre. Além disso, ainda que seja democrático um regime, há questões sobre as quais há competências específicas, e um padeiro não pode decidir por elas, assim como, igualmente questões sobre as quais não cabe a um físico nuclear decidir. O Estado Democrático de Direito não prescinde da objetividade - pelo contrário, a primeira coisa que deve fazer é estabelecer um princípio de objetividade jurídico-judicial, criando o sistema juridico-judicial, que, em tese, produz objetividade, transferindo o poder da sociedade, por delegação, a uma decisão histórico-subjetiva. Mesmo os casos de polícia, que emperrariam na crise da verdade, são resolvidos ali, objetivamente, pelo sistema. Se, por um lado, todas as operações humanas dão-se no mundo, sendo, todas, hermeneuticamente determinadas, por outro lado não é verdadeiro que toda operação humana é, afinal, igual. Se é verdade que a sociedade precisa objetivar-se, juridicamente, também é verdade que a ciência pode desenvolver-se objetivamente por si mesma, porque o estudo do DNA não depende da decisão histórico-subjetiva de um juiz de toga, legitimamente delegado para tal procedimentos, mas responde, antes, a conquistas teórico-metodológicas, epistemológicas e tecnológicas indiscutíveis senão no seu nível. A sociedade até pode discutir questões de ética relacionadas - e deve -, se o caso é técnico, e relacionado, por exemplo, à física quântica, quem deve decidir pela construção de um acelerador de partículas ou um alto-forno são os físicos, não o psiquiatra. Vattimo peca ao pôr na mesma cesta ovos de diferentes galinhas.

 

8b (p. 71 § 1) Se meu leitor está confuso entre as posições de Vattimo e as minhas, talvez a próxima citação, se não o enlouquecer mais ainda, traga um pouco de sanidade ao debate: 

se reconhecer que o sentido redentor da mensagem cristã desdobra-se precisamente na dissolução das pretensões da objetividade, a Igreja poderia finalmente sanar até mesmo o confronto entre a verdade e a caridade que a tem como assediado no curso de sua história. Não pode mais ter validade, para o cristão, a sentença de tradição aristotélica: amicus Plato magis amica veritas (p. 71).

 

Vattimo quer resolver um conflito eliminando uma das partes. Se não há verdade, posso ser amigo de Platão. Mas não é verdade, primeiro, que, caso não haja verdade, a caridade estará livre. Cobiçar a mulher do próximo, por exemplo, não é uma questão de verdade, mas de pulsão sexual não civilizada, e, apesar disso, não dá para ser, ao mesmo tempo, amigo de Platão e dormir com a mulher dele - ainda mais se Platão sabe disso. Se Vattimo gosta tanto das citações reputadas como de Cristo, valeria aquela em que Cristo resolve o problema da caridade, não através da verdade, mas através da pragmática: faz ao outro o que queres que o outro faça a você (Mt 7,12), máxima que vale, sob a condição de eu não ser um masoquista. Não é pelo sacrifício da verdade - da questão da verdade, entenda-se bem - que se vai resolver a questão da ética e das relações humanas. A verdade é causa de violência não pelo fato de ser tomada ou não como séria, mas quando se torna valor hierárquico, o que não significa, contudo, que, eu amando Platão, a verdade deixe de ser o que é. Eu posso até deixar a verdade - ou a questão da verdade - em segundo plano, eticamente, para amar Platão, mas isso significa, realmente, que, resulta daí que uma tal coisa só é possível pela dissolução dela? A possibilidade transcendental do conhecimento, o pressuposto de um metaponto de vista, princípio de inteligibilidade, no modelo do logos aristotélico, mas em termos complexos, biopsicológicos, são necessidades críticas da cultura. Vattimo sugere que não se fale mais nisso, para que as coisas caminhem bem. O dia em que eventualmente lhe dêem um murro, e ele perceba que não se tratou de uma questão de verdade, mas de, digamos, ocasião, e de vontade, o esmurrador estava com a gota, e a cara de Vattimo, à mão, haverá de perguntar-se se, jogando a verdade fora, não acabou ficando sem coisa alguma.

 

8c. Vattimo é mesmo aquele menino sentado na calçada e chorando, porque lhe roubaram os brinquedos, e ele então decide arrumar um amigo imaginário, porque, assim, não lhe roubam esse: "a única verdade que as Escrituras nos revelam, aquela que não pode, no curso do tempo, sofrer nenhuma desmistificação - visto que não é um enunciado experimental, lógico, metafísico, mas sim um apelo prático - é a verdade do amor, da caritas" (com exceção do de caritas os itálicos são meus). Que declaração reveladora! Vattimo quer uma verdade que não pode ser tirada, ou como Vattimo diz, "desmitificada". E o remédio que Vattimo prescreve é, paradoxalmente, o mito. Sim, mito, porque amor é mito. Salvo, claro, se decidirmos - podemos, Vattimo? - investigar o amor como função biológica, própria dos mamíferos. Mas se decidirmos estudar o amor, se decidirmos abrir o cérebro humano, e ver de onde ele vem, isto é, que DNA da espécie responde por ele, quais hormônios o efetivam, ligam-no, desligam-no, quantas sinapses ele demanda, quantas calorias consome, ver-nos-emos de volta à questão da pesquisa, e, daí, à da verdade. Podemos suspender as pesquisas, se é o que Vattimo prefere, e, então, reduzir o amor a puro mito, esse, por exemplo, de que Cristo seja seu campeão. Sim, porque, se há fatos, Cristo até pode ter sido, se o foi, é questão em aberto, mas, se não há, só interpretações, é somente inventando um mito desse que podemos tentar fazer com que não nos roubem também isso, depois de nos terem roubado a retórica da verdade. O caminho de Vattimo interdita o caminho de Vattimo. Voluntarismo criptopragmático, e preguiçoso de resolver a questão pelo caminho mais árduo.

 

9a (p. 71 § 2 e p. 72 § 1; p. 71) "Não existe experiência da verdade senão como experiência de participação em uma comunidade". A afirmação de Vattimo não pode significar, necessariamente, que, portanto, a verdade seja uma ilusão, ou um contrato arbitrário. A própria afirmação deve ser analisada do ponto de vista biopsicológico, porque nada do que é humano o é senão por meios biopsicológico, antropológicos, tanto físicos quanto noológicos, de modo que nada apenas noológico explica coisa alguma que humano seja, nem nada que é humano se explica apenas fisicamente, sendo igualmente verdade que apenas físico-noologicamente que se podem explicar as coisas próprias dos homens. A afirmação de Vattimo apenas significa não que inventamos que são os homens que decidem, afinal, o que é, em termos consensuais, a verdade, mas que acabamos percebendo que, no fundo é assim, e sempre foi, mesmo quando, ontem, a Igreja falava como que de verdades reveladas desde o além. A afirmação de Vattimo é epistemológica, e, como tal, deve ser encarada.

 

9b. Está a noção de pragmática por trás da afirmação de Vattimo, o que significa que a comunidade opera sua atualização na forma de jogo, intuição que já estava presente em Homo Ludens, de Johan Huizinga, e que, mais recentemente, se vai desenvolvendo em diversas áreas do conhecimento, como se pode depreender de O Império do Sentido, de François Dosse. E não se trata meramente do gosto cultural pelo jogo, mas do fato de que o cérebro-mente humano opera na forma de jogos pragmáticos, circunscrevendo internamente a tais jogos - político, estético, heurístico - as atualizações da consciência humana, e as funções antropológicas para além da mera funcionalidade biológica - comer, defecar, urinar, dormir, cruzar, morrer (inda que mesmo tais funções biológicas podem, e são, também carregados ritualmente para a noção de jogo por meio de mitos e tabus). As relações do sujeito-consciente consigo mesmo, com o mundo, e com o "outro", desenvolvem-se sob câmaras pragmáticas semântico-teleológicas, em cujo interior o sentido é desdobrado como função semântica da intenção pragmática. As câmaras são inter-comunicáveis, complementares, mas, ao mesmo tempo, fechadas, antagônicas, de modo que o sentido expresso para uma ação, segundo uma pragmática, pode ser dissimulado, em outra, como quando. Não se trata de, simplesmente, inventar uma tal leitura, mas de descobri-la, como desdobramento do funcionamento do cérebro-mente, e se uma tal leitura estiver errada, isto é, essa, que acabo de apresentar, não o estará por vontade minha ou de Vattimo, mas pelo fato de, querendo ou não a comunidade de interpretação, os fatos gritarem de dor diante de duas tentativa de aplicação. A afirmação de Vattimo só tem valor heurístico caso seja efetivamente verdade que, no nível biopsicológico, o funcionamento do homem seja tal que proporcione à questão da verdade um tal estatuto comunitário. O que não a dissolve, antes, pelo contrário, a refunda no real: a verdade é comunitariamente construída, porque é assim que a espécie humana funciona. E lá vai Vattimo dar na cabeça com a marreta que usara para tentar quebrar justamente o real.

 

9c. De outro lado, dizer que é comunitária a construção da verdade, não significa o que Vattimo quer que signifique. Digamos que um grupo de sete pessoas decidam que a água está fria, apesar de a água estar de pelar porco. O que acontece se um deles, ou todos, entram na água? Eu, "realista", e ressabiado com essa "hermenêutica" que Vattimo quer vender, já ligaria para dois números: o do pronto-socorro, e o da funerária. Se não os dois, um deles seria muito útil. Seja a cabeça de um, sejam as cabeças de muitos, mesmo depois de Schopenhauer, a verdade terá, sim, de construir-se, apalpando o real. Ela ser´, sempre, histórica, é verdade, hermenêutica, é verdade, provisória, é verdade, humana, demasiadamente humana, é verdade - mas ou será verdade, ou será equívoco. A verdade gosta da democracia, e a democracia tende à verdade. 

9d. (p. 72 § 1) Quando Vattimo afirma que "mesmo quando falamos de correspondência, pretendemos aludir a proposições verificadas no âmbito de paradigmas cuja verdade consiste antes de tudo no fato de serem condivididos por uma comunidade", sua declaração tende a um idealismo platônico-cartesiano. O real nada é. Não conta. Vattimo precisa, urgentemente, refundar seu pensamento no real, já que já refundou o real no seu pensamento. Nem materialismo, Vattimo, nem idealismo, mas Pensamento Complexo.

 

10a. (p. 72 § 2 e p. 73 § 1; p. 72) "Eu disse anteriormente que, na perspectiva que proponho aqui, o niilismo pós-moderno (a dissolução das metanarrativas) é a verdade do cristianismo. O que significa que a verdade do cristianismo parece ser a dissolução do próprio conceito (metafísico) de verdade". Vattimo e eu somos muito parecidos. Estamos na mesma posição geonoológica. Situamo-nos no mesmo entroncamento da estrada, aquela, que levou de Cristo a Nietzsche, e outra, que dobra à esquerda, e se distancia de Barth, do Vaticano I e do fundamentalismo norte-americano do fim do século XIX. Para que eu siga pela esquerda, assumo o mesmo princípio de Vattimo, o desvio, mas não quero levar comigo a carga do Cristianismo platônico. Antes de continuar a caminhada, retorno até as portas do cânon cristãos, porque, como Vattimo, sou cristão, de algum jeito, ainda, e recomeço a caminhada. Diferentemente de Bultmann, não levarei nada de querigmático, nada de verdadeiro, do velho continente e da velha estrada, senão o que sobrou dela, a cânon. Se permaneço nele e com ele, é porque ele me vai bem à alma. Mas o lerei, agora, a partir da ótica do desvio, e a agenda não será mais a velha. Tudo será novo, tudo. Não para Vattimo. Ele ama demais as palavras que aprendeu no catecismo. A palavra Jesus está colada em seu céu da boca. Mas Vattimo também gosta do desvio, e está tentando entrar por ele, carregando um esqueleto às costas. Deixe-o tentar. Logo os ossos vão se desconjuntar de um ta jeito, que Vattimo vai perceber que a estrada pela qual ele decidiu trilhar não pede esqueletos. O desvio é  segunda Renascença, mas, dessa vez, em todos os sentidos, e de um jeito novo, que não estava na primeira. Como Vattimo ama as suas palavras, sua herança, e o caminho novo o chama, ele quer tentar fazer do Cristianismo um espelho do caminho novo, fazendo de Jesus o fundador do niilismo, e, de Paulo, o da hermenêutica. Tivesse Vattimo entendido mesmo o novo caminho, depositaria as palavras de que tanto gosta ao mar, para que as ondas decidam o que fazer com elas. O jeito de salvar seu tesouro é pintá-lo com as cores do novo sol. Bultmann fez escola.

 

10b. (p. 72-73) Vattimo sabe do que estou dizendo. Antecipa-se: "mas então, para chegar mais rapidamente à conclusão, porque ainda falarmos em cristianismo?". Para o responder, engendra um diálogo virtual com Rorty, tomado então por um não-fundacionalista. Diz que Rorty pode ser não-fundacionalista, somente porque o Cristianismo permitiu a expressão de proposições-partidos não fundacionalistas, com o que Vattimo está dizendo que Rorty tem o direito de dizer o que quiser, sem a obrigação de dizer com base em quê, e isto por concessão histórico-cultural da história ocidental-cristã. Não me crê, o leitor? Pois leia por si mesmo: "ora, sem nenhuma pretensão de converter Rorty, considero que (...) também o pensamento não-fundacionalista de Rorty é possível - apresentável como uma tese razoável - somente porque vivemos em uma civilização forjada pela mensagem bíblica e especificamente cristã. Se não fosse assim, paradoxalmente, Rorty seria obrigado a demonstrar como uma tese 'objetiva' o seu não-fundacionalismo: a argumentar que, na realidade, não há fundamentos. Esquecendo assim a cláusula da frase de Nietzsche: 'Não há fatos, apenas interpretações, E ISSO É UMA INTERPRETAÇÃO'" (p. 72-73, itálico e caixa alta são dele). Diante dos meus olhos, vejo a seguinte operação retórico-epistemológica. O Cristianismo operou por mil e oitocentos anos na pura retórica, garantida tanto pela cultura não crítica e pelo poder institucional que se arrogava ter, e, de fato, tinha. Há duzentos anos, a racionalidade crítica detonou os alicerces daquela Igreja, de tal modo que aquele fundamento - aquele - esboroou-se completamente, e os ossos da Velha Igreja tomaram-se de osteoporose, dobrando-se sob o peso da autonomia da cultura. Vattimo sente-se mal com isso. Se não pode vencer no campo epistemológico do inimigo, vai cooptá-lo. Vai a Nietzsche, coopta-o naquilo que lhe interessa, maneja-o a partir de sua própria - de Vattimo - hermenêutica, extrai dele uma cosmovisão, que, a um só tempo, tanto é gerada pela própria Igreja, quanto dissolve as pretensões de "poder" da sociedade emancipada, isto é, "poder" de tornar a Igreja irrelevante e excêntrica. Vattimo é irmão gêmeo de Justino, sem garantias de que, mais adiante, não surja outro Ireneu. Vattimo opera uma estratégia política, para assegurar a centralidade ocidental do discurso da Igreja, fazendo dela aquilo que seria, inclusive, sua maior derrocada. É um golpe de mestre, genial mesmo. Mas não vai durar mais do que uma ou duas gerações, porque os fatos acabam, mais cedo ou mais tarde, opondo-se a nossas acomodações, e todas as vezes que cheiramos as rosas, o espinho nos espreita, faminto.

 

10c. Vattimo não quer admitir que o Cristianismo tornou-se epistemologicamente caduco. Descobriu que não passa,agora, depois de Nietzsche, de simples retórica fechada, política, cuja manutenção e relevância dependem da boa vontade, cada vez menor, de seus próprios internos. Vattimo acha que pode, como era antes, derrubar os muros de 1789 e, assim, espalhar essa retórica acrítica, mística, encantada, pelos campos, para além dos muros da Catedral. É o que quer. Se ele pudesse fazer, de novo a Rainha reinaria, feliz. Esquece-se - ? - de que os camponeses sempre podem, e é o meu caso, dar de ombros, considerando alguma coisa entre excentricidade e anacronismo a pregação do filósofo. Se eventualmente não se seguirem a Vattimo um segundo Ireneu e um segundo Tertuliano, Vattimo terminara como terminaria Justino, gritando: vamos alegorizar, vamos alegorizar, mas sem Ireneu e Tertuliano para, depois, resolver as coisas. Se Tertuliano não impuser a verdade de Vattimo goela abaixo dos pares, esse tipo de discurso tende a morrer, quando o último corpo que o sustenta descer à cova. Pena que Vattimo não creia em fatos. Talvez pudesse aprender com a história de Justino, Ireneu e Tertuliano, e aprender com a desgraça que fizeram. Certo, Vattimo não parece ser, e creio, Ireneu e Tertuliano. Mas, à sombra de seu discurso, espreitam os espectros deles, porque nenhuma instituição fechada tolera a falta de fundamentos, nem que o fundamento seja, afinal, um voluntarismo imposto.

 

10d. Pela enésima vez, Vattimo confessa que todo seu esforço deve-se a um projeto de tirar o poder autoritário de quem o deseje empregar: "uma espontânea preferência por uma visão do mundo que, rejeitando o fundacionalismo, é mais desejável também por ser menos autoritária e mais aberta à livre projetualidade humana" (p. 73). Vattimo tem na cabeça a idéia fixa de que a idéia da verdade é incompatível com a de sociedade aberta - e não é. Talvez, se Vattimo se confessasse seus projetos conflitantes: pugilar por uma sociedade democrática e aberta através da manutenção do discurso cristão, agora não-fundacionalista. Eu penso que Vattimo não tem as coisas claras diante de si, ou eu é que estou completamente perdido, em face de uma profundidade que me escapa, o que é até possível. Seja como for, uma visão de mundo em que a noção de verdade seja suprimida, ou, pelo menos, articulada não-fundacionalisticamente não parece pragmaticamente viável. Claro, há campos do discurso humano em que tanto faz. Mas, convenhamos, há zonas do discurso humano e social que absolutamente não prescindem de fundamentos correlacionais ao real. O discurso de Vattimo torna tudo zona morta, tudo cinza, sem núcleos duros de contato entre o real e a consciência humana. Vattimo acha que abolindo os valores e as funções da consciência, anula a autoridade, a violência, o poder. Como se a Natureza, não consciente, fosse democrática, pacífica, e caridosa. Não, não é, Vattimo. Mesmo contra Nietzsche, a quem respeito profundamente, a quem admiro, e a quem devo muito de minha própria visada pessoal, somente a consciência humana pode, operando criticamente, superar a violência, a autoridade e o poder, porque ela os descobriu como atitudes. A Natureza, não. Ela é, sob a perspectiva da consciência humana, violentíssima, crudelíssima, de modo que nós, naturais que somos, o podemos igualmente ser. É necessário superar essa naturalidade e animalidade humana, articulando critica e recursivamente a consciência, para nos convertermos, à luz do esgotamento de lutar contra os fatos, à fraternidade democrática, ao pacifismo voluntário, ao esvaziamento do poder pessoal. Não será o mito a conseguir tal proeza, porque o mito é necessariamente alienante. É necessário que a conquista desses valores sócio-antropológico-noológicos se dê pelo vento cortando a carne viva, dilacerada de bater-se contra as escarpas do real. Tua proposta consiste em fuga do real, Vattimo. E o real não perdoa.

 

11. (p. 73 § 2 e p. 74 § 1) Esse parágrafo de Vattimo apenas repete argumentos anteriores: "em um tempo em que, graças ao cristianismo que permeou também a história das nossas instituições e a história da nossa cultura em geral, estamos conscientes de que a experiência da verdade é antes de tudo escuta e interpretação de mensagens (também ns ciências 'duras' existem os paradigmas, as pré-compreensões que recebemos como mensagens), a a inderrogabilidade da revelação cristã nos é dada quando nos damos conta de que sem ela a nossa existência história não teria sentido" (p. 73-74). Já falei da cooptação política que Vattimo faz da cultura niilista contemporânea, para, com ela, derrubar, com um só golpe, qualquer poder novo que se eleve, ou o pretenda, acima do Cristianismo. Ele o faz, de novo, aqui. E peca absurdos, quase me levando à completa perda de paciência, em querer, ainda, comparar as ciências duras com seu discurso todo-relativista, politicamente dissimulado. Uma coisa é a decifração de mensagens lingüísticas, que projetam quadros conceituais culturais produzidos pela própria cultura, por intermédio de consciências que se articulam nela e por meio dela. Isso vale, por exemplo, para a interpretação das proposições bíblicas, por exemplo, todas tidas na condição de cultura e linguagem, ainda que, a seu tempo, elas tenham por função uma adaptação noologicamente determinada ao real. Outra coisa, absolutamente diferente, e Vattimo dá nos nervos, em querer esconder esse fato, é a decifração de mensagens que vêm à consciência não a partir de outra consciência tateante, mas do fundo do real. Isso vale, por exemplo, para o estudo dos neutrinos e das amídalas. O que há de comum a ambas as decifrações é o estatuto antropológico, sociológico e noológico do observador, o que apenas complexifica a questão, mas não a contorna - ainda são duas mensagens diferentes, com diferentes soluções de nível. Se, no Cristianismo de dois mil anos, gostou-se e se forçou a que se gostasse de ouvir e crer, e se algum cristão ainda quer viver assim, pois que viva, e não me encha a paciência com isso, desde que eu possa, com todas as garantias do Estado Democrático de Direito, passar à fase crítica da consciência humana, e ter o direito de ouvir e até rir da risível proposta que me pretende encantar os ouvidos treinados. Um cientista "duro" - um químico, por exemplo - sabe que não é "melhor" do que eu, um cientista "mole", mas Deus me livre, Vattimo, de achar que é a mesma coisa ser "duro" ou "mole".

 

12. (p. 74 § 2 e p. 75 § 1; p. 74) Para Vattimo, ser cristão é ser niilista, mas às avessas, já que o niilismo torna-se Cristianismo. O raciocínio é: o cristianismo deságua em niilismo, que somente é verdadeiro niilismo se for autêntico Cristianismo, de modo que o verdadeiro niilista é o cristão. "Dado que ainda não somos suficientemente niilistas, isto é, cristãos, ainda opomos à inderrogabilidade histórico-cultural da tradição bíblica uma 'realidade natural' que subsistiria independentemente dela e em relação à qual a verdade bíblica deveria 'provar-se'". Um teólogo brasileiro usa o mesmo argumento, para dizer que, num mundo sem fundamentos, que fiquemos onde estamos, com o bom e velho dogma cristão, que, claro, ele vende como a Trindade etc. Mandei-lhe, também, meu recado, bem mais áspero do que esse que aqui, muito mais tranqüilamente, produzo. Mas ambos comportam-se da mesma forma. Política de front, no front.

 

12b. (p. 74-75) Formalmente, à guisa de argumento, Vattimo, finalmente, diz a que veio. Questiona a procedência de que somente se poderia crer em Jesus se, ao mesmo tempo, se pudessem demonstrar todas as outras afirmações das Escrituras, sejam quanto à criação, ao próprio Jesus etc. Para ele, o simples fato de estarmos, aqui e agora, inseridos nessa dinâmica discursiva, "é muito mais razoável" (p. 74) como argumento retórico. Fiquemos nos termos de Vattimo: é verdade, para crer em Jesus, não é preciso nada disso, e Bultmann já o provou, jogando tudo fora. Mas, ou eu tomo Vattimo a sério demais, e ele não passa de um menino traquina, fazendo arte e molecagem, ou sua astúcia é mais refinada do que a minha capacidade de alcançá-la, porque quem disse que se trata, no que diz respeito à verdade, de "crer", ou, pelo menos, de "crer" porque se pediu para "crer"? Não me vejo chamado, mais, a crer em Jesus, mas a ler o Novo Testamento, criticamente, como cristão, com os resultados pesados e medidos dessa posição epistemológica. O laço de Vattimo é bem feito, mas ele o lança mal. Reduzir a ciência a uma comparação com "crer em Jesus" é um pouco demais para os limites da tolerância retórica.

 

13a (p. 75 § 2 e 76 § 1) Chego, assim, ao último parágrafo do artigo de Vattimo, cansado de tanto fazer força, a um tempo para me esquivar do laço escorregadio de Vattimo, e perguntar-me a cada cinco minutos, se aprendi a ler mesmo, porque, às vezes, chego a duvidar que Vattimo tenha mesmo dito o que estou achando que ele disse. Se eu estiver lendo errado Vattimo, as coisas ficam mais fáceis, porque, se o leio corretamente, não posso assumir praticamente nada de suas proposições. Nem a de despedida: "assim que tentamos dar conta de nossa condição existencial, que nunca é genérica, metafísica, mas sempre histórica e concreta, descobrimos que não nos podemos colocar fora dessa tradição aberta pelo anúncio de Cristo", a cuja declaração ele acrescenta a confissão de que prega, como bom católico, prega: "esse argumento também não é, decerto, tal que possa garantir que os descrentes serão persuadidos" (p. 75). Assumo-me, nos termos de Vattimo, como um dos descrentes que ele não consegue, com essa pregação docetista, me persuadir. Para ser bastante provinciano, se esse tipo de retórica me encantasse, Bultmann me teria convencido, porque, como luterano, está mais perto de minha tradição batista do que o bom Vattimo. Também há inúmeros teólogos evangélicos brasileiros, cada qual defendendo seu próprio projeto de mundo, valendo-se dos argumentos dessa natureza, paupérrimos de coerência epistemológica, senão no exíguo espaço de sua interioridade discursiva. Está na moda a defesa da teologia como metáfora, aqui no Brasil, depois de Vattimo - e há quem cite, no mesmo livro, Vattimo e Hans Küng, naturalmente, claro, com a condição de que não estão obrigados a dizer como os dois podem sentar à mesma mesa, salvo se o que se pretende é, ao fim e ao cabo, manter as aparências, já que tanto o teólogo fica com seus tesouros, seus preciosos tesouros, como Vattimo e Hans Küng, cada um a seu modo, terminam pela defesa da fé em Jesus. Ecumenismo retórico, que a mim parece uma loucura epistemológica, para não dizer uma imprudência e improcedência retórica.

 

Conclusão

 

Não que Vattimo o seja, não o conheço pessoalmente, mas seu artigo é cínico. Não está nem aí para minha eventual contra-argumentação. Erige-se sobre seu próprio fundamento - que é desdizer os fundamentos - e pronto, eu, leitor, é que o acompanhe, e, se ao fim do artigo, eu não o acompanhe, ele simplesmente me avisa que já sabia que os descrentes, bem, os descrentes sempre são assim, a Igreja sabe, ele, agora, a Nova Igreja, o sabe também.

 

Quanto a mim, não queria ser levado à fé, eu que já me deslevei dela, por meio também dela. Só me resta a fé-enquanto-silêncio, e, mesmo para essa, não admito o dar de ombros, mas persigo a sua compreensão e expressão inteligente. O que eu esperava de Vattimo eram argumentos com os quais eu pudesse dialogar. Não há nem mesmo um só.

 

Não posso aceitar, e Vattimo não fará força para o demonstrar, a seu modo, apenas o diz, cinicamente, e eu que me vire, que a hermenêutica sabe, ou que seja um conjunto de proposições relativas à cosmovisão particular de uma visada cultural, que ela seja alguma coisa conteudística. Hermenêutica é uma operação sistêmica do cérebro-mente humano, o jogo dentro e a partir do do qual a consciência emerge, se instala e opera sobre si mesmo, sobre o mundo e sobre o outro. Hermenêutica não é estrutura, é processo sistêmico, biopsicológico, complexo, emergência do organismo humano, baseada em seu cérebro-mente, é função do sujeito-consciente humano. A hermenêutica produz conceitos, idéias, ou melhor, o homem as produz, hermeneuticamente, mas ela mesma, a hermenêutica, não é uma idéia, nem possui idéias suas. O cérebro-mente humano é um caçador, a consciência é a linha, os sentidos, a isca, e a hermenêutica, a técnica. Todo peixe pescado, o será hermeneuticamente pescado. Mas há diferentes tipos de peixe. Vattimo acha que com sua vara de bambu do Nilo vai pescar todos os tipos de peixe, mas só pesca os que ele quer.

 

O artigo de Vattimo e idealista, tributário de Platão e Descartes, e Bultmann já tentou, com menos excitação, para a defesa da . Talvez a síndrome de totalidade e unidade católica tenha levado Vattimo a abarcar com as pernas o mundo todo, com sua tarrafa de meio-metro. Vai votar para casa, e quando a mulher perguntar dos peixes, ele vai xingar meia dúzia de palavrões italianos, no fundo aborrecido porque os peixes era descrentes, a mulher italianíssima batendo na cabeça dele com o rolo de massa, que peixes não são convencidos a entrar na rede, são enredados, e se não o são, a culpa não é dos peixes, mas do pescador.

 

Não se trata de radicalismo de minha parte, que sou um ótimo peixe. Fui fisgado por Edgar Morin, e ele só tinha deixado a tarrafa em cima da mesa, por descuido. Ela escorregou, caiu na água, e eu me deixei fisgar. Inteiro. Não sei se Edgar Morin me há de considerar um bom peixe, de troféu, mas eu estou orgulhoso da rede em que caí. Pescado fui, além disso, por Ilya Prigogine, pescador sutil, de pescar em águas profundas. Por Carlo Ginzburg, que pesca com porrete, eu boto a cabeça fora d'água, curioso, e ele me arrebenta a testa. Não dói? Claro, mas quando para é bom à beça! Fui fisgado por Karl-Otto Apel, e olha que ele justamente está na direção absolutamente oposta a de Vattimo, insistindo que tem de haver um critério razoável de inteligibilidade, para além, absolutamente para além do fisiologismo corporativista, da arbitrariedade subjetivista, da preguiça epistemológica, do utilitarismo ideológico. Se Vattimo não me pesca, não é porque não sou peixe de ser pescado, mas é que sua técnica não funciona com peixes como eu, que exigem o certificado de propriedade epistemológica da linha, do molinete, da vara, e a licença de pesca.

 

Não comungo com a tese de Vattimo de que Cristianismo é niilismo de fundo. Não faz o menor sentido, e tal afirmação se constrói mediante o concurso à metodologias híbridas de aproximação ao tema. É, no fundo, de natureza alegórica, porque aplica ao passado, que em nada diz respeito ao presente, teleologicamente, senão historicamente, os conceitos eleitos pelo filósofo. Um Jesus niilista é uma boa invenção. Um Cristianismo niilista é uma boa retórica de púlpito, claro, dependendo da platéia. No Brasil cristão atual, o que funciona mesmo é exorcismo e a prosperidade, e Vattimo não tem muita utilidade para isso. Um Brasil evangélico teológico bem aproveitará o artigo, Nicodemos, por exemplo, tirando o que aproveita à essa de sua própria ortodoxia de Jesus, e tratando o restante como perigo à sanidade das ovelhas, como já fez, com o discurso pós-moderno, em seu livro, que resenhei. É apologia e retórica de front, e vai gostar de algumas técnicas de Vattimo. Outro Brasil, nem neopentecostal nem retórico-apologético, vai ler o nome de Nietzsche, e vai fechar o livro.

 

De que aproveita, então o artigo? Para refletir. Provocações são úteis, heuristicamente falando. Para driblar a falta de fundamento de Vattimo, somos forçados a pensar em fundamentos. E isso é bom, de qualquer forma.

 

Ficam em abertas uma série de questão:

 

a) o critério da verdade, que, em Vattimo, ou é uma coisa nem pensada, ou resolve-se politicamente, e eu disse, até que dois não-fundacionalistas, munidos cada qual bom um bom porrete de três quilos, resolvam decidir qual não-fundacionalismo é mais bem fundamentado do que o do outro. O relativismo é levado ao paroxismo;

 

b) o conceito de hermenêutica, totalmente instrumentalizado em Vattimo, como se Heidegger apresentasse um discurso, antes que uma visada e uma consciência;

 

c) a distinção entre as diferenças expressões científicas: ciências humanas, ciências naturais, ciências exatas, que, em Vattimo, são todas niveladas como doxa, de modo que projetar, construir e lançar um foguete é a mesma coisa que decidir se um analisando tem uma problema de fixação oral ou anal, ou como se desse no mesmo escrever a História do Brasil ou o roteiro de O Senhor dos Anéis.

 

d) a questão da Pragmática, tomada como Teoria do Jogo, segundo a qual as atualizações humanas desdobram-se em câmaras lúdicas: uma política, uma estética, e uma heurística, cada qual estabelecendo, teleologicamente, o contexto semântico da interpretação das ações internamente realizadas, conforme o sujeito se volte para si mesmo, para o real, ou para o outro. O tema está avançado demais para que uma estudo, pretensamente hermenêutico, se esquive dele. E, uma vez que a solução de Vattimo é "pragmática" (termo que, em Vattimo, não tem o sentido com que aqui o manejo), deveria, ao menos, contorná-lo, se não o cooptasse.

 

e) a questão relacionada ao binômio verdade e amor, que, com razão, Vattimo denuncia como conflituoso na história da Igreja. Vattimo acha que resolve o conflito, dissolvendo a verdade. Mas não o resolve, porque a violência não é uma questão noológica, é física e biológica, mas pode ser resolvida noologicamente. Vattimo simplesmente a recalca. O efeito dos recalques costuma ser muito perigoso, a médio prazo.

 

f) a questão epistemológica em si. Vattimo não é positivo em sua assunção epistemológica, não se situa. Eu o peguei movendo-se politicamente na maioria das vezes, e, somado a isso o fato de que escondeu sua pressuposição metodológica, declarando-se escusado de justificar suas afirmações, resulta, ao menos a meu ver, para quem o jogo dialógico não pode prescindir dos fundamentos relativos, e dos argumentos, os quais, a qualquer momento, podem ser verificados, improcedente. Vattimo ou foi negligente, ou politicamente motivado. Seu comportamento é bem o comportamento clássico da Igreja, de laçar segundo suas regras. Não admira que termine ensaiando uma catequese bem rasa.

 

Se Vattimo continuar a escrever, provavelmente continuarei a lê-lo. Só para ver onde isso vai levar o pescador-filósofo italiano. Nos termos de seu pragmatismo, talvez, para ele, isso esteja bom assim.