Catedral

 

Se comparada a uma catedral, a teologia cristã ostentaria grande parte de sua fachada em estilo helênico – a Grécia platônica. Os grandes arcos estruturais da nave central, as colunas altíssimas, os capitéis elaborados, os janelões enormes, toda a arquitetura respiraria o ar da Grécia. A Alma, a Queda, a Salvação, a Providência – e mesmo o sacerdote, outra face do filósofo dA República – nenhuma dessas configurações estéticas da catedral deixaria de ser helênica. Primeiro helênicas, e depois, e por isso, cristãs. Primeiro, pensadas por Platão, e depois, e por isso, por Paulo.

 

Que não teve qualquer dificuldade, contudo, em admiti-las, estruturalmente, em sua teologia, agora, cristã, ele que fora um homem de seu tempo, um tempo helênico, um homem de seu mundo, um mundo helênico. A catedral que Paulo desenha, e que campeões pós-paulinos – um Orígenes, um Agostinho, um Lutero-Calvino, um Karl Barth – irão erguer até as nuvens, tem seus fundamentos estéticos-arquitetônicos lá, nas águas mediterrâneas, das quais Paulo bebeu...

 

E, no entanto, que lutas intermináveis a mente teológica de Paulo deve ter enfrentado! Que tenha bebido daquelas águas, nascido naquele tempo, vivido naquele mundo, Paulo era, entretanto, sobretudo judeu. E um judeu, ah, um judeu, era tudo quanto um grego não o era. O valor maior, inegociável, é-lhe o corpo. O longo período do imperialismo grego sobre Judá modificou sensivelmente a antropologia judaica, é verdade, mas apenas acrescentando configurações cada vez mais abstratas e espirituais à noção de alma. O corpo judaico, contudo, lá permaneceu, como uma espécie de cláusula pétrea da fé daquela gente.

 

Daí que brilha, no vitral mor da catedral, na fachada que aponta para o nascente, a figura teológica da Ressurreição – a pérola do judaísmo. Para um judeu, para o Paulo judeu, é impensável a alma, se não for pensado, junto, um corpo – o corpo. Seja ele de que tipo for, não importa – o que importa é que haja um corpo. Porque a alma, como há de se manifestar, sem um? Impensável. Ao menos para aquele atormentado teólogo que, seu corpo cravado entre dois mundos – um helênico, imaterial, e um judaico, materialíssimo – tentou conciliar o inconciliável.

 

Quando sou levado a pensar na Ressurreição, não é no amanhã que penso. Não no futuro. Não naquele dia – seja ele qual for. Penso no agora. Não é para cima que olho, mas para as minhas próprias mãos. E me toco, com elas, as faces, o peito, os braços. E as levanto, e quero que o vento as beije. Porque eu sou meu corpo. Eu sou aqui. Eu sou agora. E, se Paulo estava certo, somente porque eu serei um corpo amanhã é que eu poderei mesmo repetir essa frase: eu sou meu corpo...

 

O corpo que eu vivo. Meu corpo. Viva o corpo. Viva o corpo vivo.