Interdição Feminina à Intermediação do Sagrado

História da redação de Levítico 15

Osvaldo Luiz Ribeiro

[Texto para leitura no

V Simpósio Nacional da Associação Brasileiro de História das Religiões] 

 

O capítulo 15 de Levítico, tomado como uma peça de redação sacerdotal elaborada no contexto da restauração de Judá, no século VI a.C., durante o período persa, insere-se no contexto das transformações político-religiosas decorrentes, em última análise, da destruição do Templo e da própria Jerusalém. Até esse momento, Israel parece ter-se constituído de um caldo cultural e religioso que, na sua massa populacional, dificilmente se destacaria da população que a partir de então seria distinguida como “cananeus”. A religião de Israel estava caracterizada tanto pela crença e pelo serviço religioso a mais de um deus – Yahveh, Asherah, Nehushtan, Tamuz – bem como pelas concretizações litúrgicas características do Oriente Próximo – culto de fertilidade e instrumentalização do serviço religioso por meio de imagens de deuses.

 

Com a ascensão da Pérsia, a política de governo para a Judéia concentrou-se no Templo de Jerusalém, em torno do qual uma elite sacerdotal reuniu condições político-religiosas para implementar sua reforma religiosa – monoteísmo masculino e aniconismo, bem como exclusividade do acesso à divindade masculina no Templo de Jerusalém. A reforma provavelmente teve sustentação de natureza teológica, litúrgica, legal e militar.

 

A tese de fundo da presente COMUNICAÇÃO consiste em intuir, a partir de evidências textuais esparsas na literatura constante da Bíblia Hebraica e contemporânea ao período persa, a presença de liderança religiosa feminina relacionada aos camponeses remanescentes na terra durante, pelo menos, as décadas que se seguiram ao cativeiro babilônico da elite de Jerusalém. Essa liderança religiosa feminina seria a responsável pela manutenção da alternativa camponesa ao projeto hegemônico de monoteização masculina exclusivista no Templo anicônico de Jerusalém. O sucesso da reforma monoteísta implicava na supressão dessa liderança feminina.

 

Com o objetivo específico de fundamentar a interdição dessa liderança feminina à intermediação entre camponeses e a divindade, a elite sacerdotal masculina do Templo de Jerusalém adota a estratégia de estabelecer uma teologia de impureza fisiológica aplicada à essência feminina. Trata-se de um passo mais largo do que a teologia casuística de impureza acidental – trata-se de afirmar que a mulher é impura, naturalmente impura, de modo que não lhe cabe a intermediação de quaisquer relações entre o povo e a divindade. A menstruação o sangue menstrual – foi tomada como fator fisiológico comum a todas as mulheres e, portanto, passível de ser tomado como essencialmente e universalmente contaminante.

 

Nesse sentido, a elite sacerdotal masculina do Templo de Jerusalém somente teve de cooptar uma antiga lei dos tabus dos humores genitais masculinos e femininos - essa é a hipótese fundamental da presente COMUNICAÇÃO. Segundo essa antiga lei de tabus, tanto homens quanto mulheres estavam constantemente sofrendo interdições decorrentes do contato com os fluxos corporais que, por conta da sua proximidade com as energias da vida – por isso genitais – contaminam no sentido em que o Sagrado contamina. A antiga lei previa, assim, que homens e mulheres acometidos de fluxos patológicos genitais ficariam interditados por sete dias, findo os quais, deveriam auto-aplicar-se lavagem lustral em água corrente. Previa, ainda, a lei, que em caso de contato do homem com seu sêmen e da mulher com seu sangue menstrual, deveriam, cada um a seu tempo, lavar-se em água – não necessariamente corrente – e permanecer em interdição até a tarde. Finalmente, previa a lei dos tabus dos humores genitais masculinos e femininos que, submetidos ao contato com o sêmen durante a relação sexual, homem e mulher, indistintamente, deveriam lavar-se e permanecer interditados até a tarde. 

 

Não se tratava essa lei de uma lei de impureza, mas de uma lei de tabu. A fonte do tabu eram os humores genitais, patológicos ou fisiológicos, a que se podiam expor homens e mulheres em circunstâncias incidentais ou decorrentes de sua própria vontade. Interessa, contudo, à elite sacerdotal, que seja em si essa lei já uma lei que prescreve interdição para o caso de exposição ao sangue menstrual. 

A elite sacerdotal masculina do Templo de Jerusalém reescreve a lei. Grandes movimentos intervencionistas são aplicados ao teor da lei de tabus. Primeiro, um movimento sistemático de circunscrição da lei de tabus ao espaço sacerdotal e ao aparelho do Templo: os sacerdotes transformam a lei dos tabus em uma lei de impureza, circunscrevendo-a ainda às operações rituais de purificação no Templo. Em segundo lugar, a seção feminina da lei dos tabus é completamente reescrita. A nova redação transforma a referência prescricional anterior à patologia venérea em uma agora referência prescricional à menstruação. Uma vez que a lei de tabus já se referia à menstruação, a referência prescricional original à menstruação é transformada em uma agora referência prescricional à disfunção menstrual. Terceiro, as lavagens cerimoniais femininas são suprimidas – o ritual de purificação da mulher deve ser universalmente realizado no Templo, segundo o teor do único ritual prescrito para toda a seção feminina. Finalmente, permanece apenas um único cerimonial de purificação para a mulher, que toma numa só prescrição tanto a menstruação quanto a disfunção menstrual agora referidas na lei de impureza. Deve-se atentar para o fato de que a interdição de sete dias constante da lei dos tabus e originalmente aplicada à patologia venérea, que permanece para a seção masculina de Levítico 15 ainda relacionada à patologia venérea, na nova redação da seção feminina da lei foi generalizada para universalizar a impureza feminina – o sangue menstrual é a impureza interditante, impureza essencial, impureza universal. A nova redação de Levítico 15 tem por objetivo uma supervalorização e uma sobrevalorização do sangue menstrual como elemento fisiológico essencial da impureza feminina: a mulher é impura porque menstrua. 

A presente COMUNICAÇÃO interpreta a revisão sacerdotal masculina da lei como instrumento programático e estratégia político-religiosa de interdição da mulher – da liderança feminina camponesa – à intermediação do Sagrado. Se o Templo anicônico de Jerusalém está programado a ser centro de arrecadação de tributos para o império e de manutenção do status quo sacerdotal por meio da centralização do culto, toda e qualquer concorrência deve ser superada e suprimida. A interdição da mulher à intermediação do Sagrado não foi um caso de guerra dos sexos, mas um fenômeno de enfrentamento e luta pelo poder político-religioso em que os antagonistas eram, de um lado, sacerdotes masculinos e o Império Persa e, de outro, líderes religiosas femininas. Em disputa estava a massa campesina. 

A julgar pela história do judaísmo, pela história da Igreja – e mesmo pela História do Ocidente – é muito provável que Levítico 15 represente um dos maiores sucessos de estratégia político-religiosa de todos os tempos, cujos efeitos ainda se fazem sentir não apenas ao redor de nós, mas muitas vezes, mesmo dentro de nós mesmos.

 

Data: De 27 a 30 de maio de 2003
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