ÉTICA NO ANTIGO TESTAMENTO

Uma aproximação histórico-social do Sl 53

[Congresso Batista de Educadores Religiosos,

 organizado pela Coordenação de Educação Religiosa da Convenção Batista Fluminense,

Rio de Janeiro, novembro de 2001].

 

1.      Texto hebraico[1] 

 

ABliB. lb'n" rm;a' 1a

~yhil{a/ !yae 1b

lw<[' Wby[it.hiw> Wtyxiv.hi 1c

`bAj-hfe[o !yae 1d

 

~d'a' ynEB.-l[; @yqiv.hi ~yIm;V'mi ~yhil{a/ 2a 

lyKif.m; vyEh] tAar>li 2b

`~yhil{a/-ta, vreDo 2c

 

gs' ALKu 3a

Wxl'a/n< wD'x.y: 3b

bAj-hfe[o !yae 3c

`dx'a,-~G: !yae 3d

 

!w<a' yle[]Po W[d>y" al{h] 4a

~x,l, Wlk.a' yMi[; ylek.ao 4b

`War'q' al{ ~yhil{a/ 4c

 

dx;p;-Wdx]P' ~v' 5a

dx;p' hy"h'-al{ 5b

%n"xo tAmc.[; rZ:Pi ~yhil{a/-yKi 5c

`~s'a'm. ~yhil{a/-yKi ht'vobih/ 5d

 

laer'f.yI tA[vuy> !AYCimi !TeyI ymi 6a

AM[; tWbv. ~yhil{a/ bWvB. 6b

`laer'f.yI xm;f.yI bqo[]y: lgEy" 6c

 

 2.      Tradução 

1,1

O salmista olha, constata e fala

Disse o insensato em seu coração:

"Não há Deus."

Perverteram-se, e cometeram injustiça:

não há quem faça o bem.

 

1,2

O salmista põe Deus a olhar

Deus desde os céus olha sobre os filhos do homem,

para ver se há um sensato,

um que busque a Deus.

 

1,3

O salmista põe Deus a constatar

Cada um se distanciou,

juntos se corromperam:

não há quem faça o bem,

não há sequer um.

 

1,4

O salmista põe Deus a falar

Não sabem os obreiros da violência?

Os devoradores[2] do meu povo devoram pão!

Não invocam Deus!

 

1,5

O salmista relembra o passado

Lá tremeram de terror,

sem que houvesse terror,

porque Deus espalhou os ossos do que te sitiava.

Tu te envergonhaste, porque Deus os rechaçou...

 

1,6

O salmista contempla o futuro

Quem dera de Sião salvações, Israel...

Quando Deus mudar a sorte de seu povo,

Celebrará Jacó, festejará Israel.

  Uma boa epígrafe para o Sl 53 seria um trecho de A Banda, de Chico Buarque: 

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

(...)
 Mas pra meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou
E cada qual no seu canto
E em cada canto uma dor
Depois de a banda passou

Cantando coisas de amor  

Assim como a letra de Chico Buarque, o Sl 53 está caracterizado pela memória de um momento no tempo em que a dor é momentaneamente suspensa, como se nunca houvera dor. Mas logo o tempo continua a sua inexorável marcha, e “a minha gente” apercebe-se de que, de novo, há “em cada canto uma dor depois que a banda passou”. 

Mas há uma diferença entre as duas poesias: enquanto A Banda termina seu canto com um desencanto: “o que era doce acabou”, por sua vez, o salmista termina seu poema com uma esperança: “Quando Deus mudar a sorte de seu povo, celebrará Jacó, festejará Israel”. A Banda não pode ser a última festa... 

O salmista também viu a banda passar. Deve ter presenciado as comemorações oficiais em homenagem à vitória contra o exército inimigo (v. 5). Lá estava um brevíssimo momento em que meu povo “despediu-se da dor, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor”. Mas o salmista também viu que logo a banda passou e a dor retomou seu lugar (v. 6a) cotidiano (v. 4). 

É por isso que ele não quer mais bandas: “quem dera de Sião salvações, Israel...”. Chega de bandas! Que venha a verdadeira festa, a autêntica celebração – que Deus mude a sorte de seu povo... 

Está conseguindo o leitor me acompanhar? Se não, talvez a razão esteja na leitura que pode estar fazendo do Sl 53. Talvez devamos dar as mãos e começar de outra forma nossa conversa sobre Ética no Antigo Testamento. 

 3.      Um olhar sobre o passado, um lamento sobre o presente

– a banda passou... 

Deixe-me apresentar minha leitura do Sl 53. Da forma como o leio, tendo analisado palavra a palavra do texto hebraico e comparado-o a versões nossas e católicas, bem como a comentaristas renomados[3], em nossas leituras devocionais e teológicas do salmo, deixamos escapar o fato de que não se trata de uma poesia qualquer, mas de uma crítica histórico-social aos líderes de determinada cidade de Israel – que penso haver razões para supor se trate de Jerusalém. 

O tema do salmo é a opressão cotidiana por parte dos chefes do povo, e, conseqüentemente, a opressão de que esse povo – chamado de meu povo por Deus (v. 4), padece. A opressão é constante (os devoradores do meu povo comem pão! ), e os chefes do povo já perderam completamente a noção dos limites: perverteram-se, e cometeram injustiça (v. 1); são obreiros da violência, os devoradores do meu povo (v. 4). Agem como se Deus não fosse mover a mão contra os seus crimes e violências (v. 1); e a corrupção da justiça está tão grave e arraigada na liderança do povo que não há um sequer que faça o bem (v. 3). 

O salmista está olhando essa situação histórica concreta: o insensato do verso 1 é justamente esse líder corrompido. Esse líder não fala que não há Deus – ele pensa assim consigo mesmo, em seu coração. É pelas suas ações (perverteram-se, e cometeram injustiça) que o salmista constata que agem sem qualquer receio de que Deus vai intervir contra sua opressão aplicada contra o seu povo. A injustiça que cometem (v. 1c) é exatamente essa: os devoradores do meu povo devoram pão (que talvez se deva ler no sentido comparativo – devoram-no como se devorassem pão). As mais das vezes sustentados pela força militar, “pisam a cabeça dos pobres no pó da terra” (Am 2,7a – IBB, Melhores Textos).  

Indignado, o salmista põe poeticamente Deus a olhar desde os céus para os líderes do povo (v. 2a-3). Deus pretende verificar se há um sensato, um que o busque (v. 2b.c) – e acaba constatando, como já o salmista constatara, que não há um que faça o bem, e que a corrupção desses chefes é tão profunda que nenhum dentre eles faz justiça (v. 3 – antes, todos devoram o povo como se devorassem pão (v. 4). 

Subitamente, a cidade é cercada (v. 5)! Um exército inimigo sitia a cidade – dentro dela, os devoradores do meu povo e o meu povo têm, agora, um inimigo comum. Não sabemos que reação meu povo teve, mas o salmista nos conta que os obreiros da violência foram tomados de terror – literalmente, terrificados de terror. Tão poderosos para oprimirem o povo, diante do exército inimigo tremeram de medo. Mas a leitura que o salmista faz dos fatos é a de que não havia qualquer razão para que tivessem tido tão mesquinha atitude de covardia, porque Deus espalhou os ossos do exército inimigo, concedeu a vitória à cidade, tanto a seus líderes corruptos quanto ao povo oprimido, e rechaçou o inimigo. Não admira que tenham os devoradores do meu povo sido, então, tomados de vergonha (v. 5)[4]

Liberta a cidade, deve ter havido festa – muita festa. Os devoradores do meu povo comemoram a vida e a salvação de Deus! Sim, porque não são ateus, como pensamos – celebram, cultuam e adoram: suas vidas é que são construídas sobre a absoluta ausência de justiça. Aos olhos do salmista, isso significa que, a despeito de sua religiosidade exterior, agem como se Deus não agisse na história, e julgasse a ação dos homens. Amós já denunciara que a religião pode estar acompanhada da injustiça, sem que disso se dêem conta os responsáveis pela injustiça (Am 4,4-5), e Isaías já o dissera de maneira bastante contundente: “as luas novas, os sábados, e a convocação de assembléias... não posso suportar a iniqüidade e o ajuntamento solene” (Is 1,13b, MT). 

Celebra, pois, a cidade liberta do inimigo. Mas logo termina a festa, logo a banda passa, e a vida continua. Para os chefes corruptos da cidade, banquete! Para o meu povo, também banquete – mas é que aqueles devoram a estes! e a estes lhes sobra serem devorados! 

É por conta dessa constatação que o salmista despeja seu lamento de esperança: “Quem dera de Sião salvações, Israel”. Leio esse lamento como uma possível indicação de que a cidade a que se refere o Sl 53 seja Jerusalém – e seus líderes, conseqüentemente, o rei e toda a máquina estatal (que em Amós se traduz pelo governo, pelo exército, pelo sacerdócio e pela aristocracia).  

O texto hebraico é interessante: laer'f.yI tA[vuy> !AYCimi !TeyI ymi - se o leitor deseja pronunciar o lamento, leia assim:  mi yiten   mitsion yshuot    yisra’el. É uma pequena jóia literária esse lamento. O salmista escolheu as letras que usou. Na tradução, o trabalho poético e artístico do salmista se constata pelos sons que a aliteração produz: mi yiten mitsion yshuot yisra’el 

Mas não nos distraiamos admirando a Palavra – estejamos atentos para o seu sentido! E aqui, devemos observar que os olhos do salmista estavam todo o tempo fixos nos devoradores do meu povo – o salmista os chamara por diversos nomes: insensato (1a), filhos do homem (2a), obreiros da violência (4a), devoradores do meu povo (4b). Não nos enganemos com os diversos nomes – trata-se sempre da mesma grandeza: a liderança corrupta e opressora da cidade, encabeçada pelo rei. O salmista usara diferentes formas de tratamento pronominal para referir-se a eles – ele: o insensato (1a); cada um que se distanciou (3b); não há um que faça o bem, não há um sequer (3c.d); eles: perverteram-se e cometeram injustiça (1b; juntamente se corromperam (3b); os obreiros da violência (4a); os devoradores do meu povo (4b); lá, tremeram de medo (5a). Agora, porém, introduz novo pronome pessoal – tu: tu foste sitiado e te envergonhaste

O que isso significa? Quem é tu? Penso que o contexto aponte para o rei. Toda a sua máquina estatal é instrumento da opressão que exerce sobre o povo de Deus, o povo da cidade. Mas, aqui, o salmista aponta para a sua pessoa – tu, rei, devora o povo de Deus! Não penso que se aplique àquela situação, mas não podemos evitar a lembrança das palavras dos anciãos do povo a Roboão, referindo-se a seu pai, o rei Salomão: 

“Teu pai agravou o nosso jugo;

agora, pois, alivia a dura servidão

e o pesado jugo que teu pai nos impôs,

E te serviremos.

(...)

Teu pai fez pesado o nosso jugo,

mas tu o alivia de sobre nós.

(...)

Se meu pai vos carregou dum jugo pesado,

eu ainda aumentarei o vosso jugo;

meu pai vos castigou com açoites;

eu, porém, vos castigarei com escorpiões.

(...)

“O rei, pois, não deu ouvidos ao povo” (1 Re 12,4.10b.11b.15a - MT)

 Parece que a opressão deve ter sido uma característica da monarquia. Também em Am 6,1-7, fala-se da tranqüilidade com que o aparelho estatal come, bebe, faz farra e algazarra à custa dos tributos do povo, sem que se dê conta da quebradura de José. Assim traduzi Am 6,4-6:

 

!ve tAJmi-l[; ~ybik.Voh; 4a

[Ai] (...) Os que se deitam sobre camas de marfim

~t'Afr>[;-l[; ~yxirus.W 4b

e se estiram sobre seus divãs;

!aComi ~yrIK' ~ylik.aow> 4c

os que comem borregos do rebanho

`qBer>m; %ATmi ~ylig"[]w: 4d

e novilhos do meio do estábulo;

lb,N"h; yPi-l[; ~yjir>Poh; 5a

os que improvisam com a boca da harpa,

`ryvi-yleK. ~h,l' Wbv.x' dywId'K. 5b

como David, inventam para si instrumentos sonoros;

!yIy: yqer>z>miB. ~ytiVoh; 6a

os que bebem aspersórios de vinho

Wxv'm.yI ~ynIm'v. tyviarew> 6b

e o melhor dos azeites consagram;

`@seAy rb,ve-l[; Wlx.n< al{w> 6c

mas não se condoem pela ruína de José

 

O fausto e a farra da corte contrastam com a ruína de José. E parece que o texto indique para o fato de que a ruína de José é justamente os tributos destinados à corte – que para tal devem estar apontando as expressões borregos do rebanho, novilhos do estábulo, bebem aspersórios de vinho e o melhor dos azeites consagram. Além disso, a religião parece ter se colocado ao lado da opressão, porque os termos de Am 6,6a.b também são termos emprestados das cerimônias religiosas de consagração de ofertas – os aspersórios para o incenso, por um lado, e o azeite consagrado. Quando a religião dá as mãos à opressão, que resta ao povo? Quando a banda passou pela cidade, onde estariam os líderes religiosos? 

Por isso o lamento do salmista, mas um lamento de esperança: “quem dera de Sião salvações, Israel”. O salmista muda o olhar – tira os olhos de sobre os opressores – mais precisamente, de sobre o opressor, tu, o rei – e põem-nos, agora, sobre o meu povo, e o trata num vocativo – Israel. Novamente não nos enganemos: Israel aqui não é a grandeza nacional, porque o salmista não tem diante de si uma situação genérica, mas uma situação concreta e histórica de opressão. Assim como ele aponta para aquele rei, ele olha, agora, com ternura e dó, para aquele povo, o povo da cidade que desde tanto tempo sofrera opressão, por um instante vira a banda passando, mas que agora retorna à sua dor cotidiana... Quem dera, em lugar de opressões, viessem de Sião salvações, não Israel?, pobre povo oprimido desta cidade deste rei... 

É um lamento, uma constatação de que a dor continua porque a opressão continua. Vencido o exército inimigo que, paradoxalmente, por um instante suspendera a opressão na cidade, terminada a festa comemorativa, passada a banda, voltam à cena os mesmos atores, nos mesmos papéis, com os mesmos cachês – banquete de gente, em que uns (os chefes do povo) comem os outros (o povo). Chico Buarque terá lido o Sl 53, ou essa história é tão velha quanto contemporânea?? 

 

4.      Um olhar sobre o futuro

– não queremos bandas que passam, queremos festas que ficam! 

A constatação é sistemática: até o verso 6, todas as formas finitas verbais estão no completo – que, ali, expressam ou passado ou presente. Quando chega o verso 6, as formas verbais finitas estão no incompleto – que ali expressam futuro. Penso que isso se deva ao fato de que, até o verso 5, o salmista contempla a opressão que o povo sofre desde parece há tanto tempo, e que continua a sofrer, mesmo depois da vitória conseguida pela cidade contra o exército que a sitiava. No verso 6, porém, o salmista, tendo mudado o foco do seu olhar dos opressores para os oprimidos, reflete sobre o futuro – somente a mudança da sua sorte terminará definitivamente com a opressão e será razão verdadeira para festa e celebração. Ética é justiça: o resto é banda passando... 

Mas o que significa mudar a sorte? De certa forma, a própria composição poética dá conta de sua explicação. Parece que a motivação histórica para que o salmista escrevesse sua poesia – seu manifesto político-social – tenha sido o retorno da opressão na cidade, após as comemorações da vitória sobre o exército invasor. Não se trata de uma mudança da situação: antes, trata-se de um retorno ao sistema opressivo a que a cidade já se acostumara. Talvez o salmista tivesse imaginado que, após uma aparentemente poderosa intervenção de Deus na vitória contra aquele exército, (v. 5a), eles, os devoradores do meu povo tomassem jeito e adotassem, digamos assim, uma estratégia mais humana de governo. Se nos recordarmos das palavras da comissão de negociação recebida por Roboão, constataremos que não pretendiam anarquia, nem a suspensão das convenções sociais – antes, pediam o mínimo: que se lhes aliviasse a carga pesada de sobre os ombros: “agora, pois, alivia (...) e nós te serviremos” (1 Re 12,4a.c). Contudo, depois de terminada a grande festa de comemoração que, acredito, tenha sido preparada e celebrada pelo Estado, a opressão retornou com sua carga total – as esperanças do salmista quanto a uma reabilitação das atitudes e das práticas dos chefes do povo perderam sua força: não há um sequer que faça o bem – não buscam a Deus – não o invocam – comentem injustiça, os obreiros da violência, os devoradores do meu povo! O salmista parece ter perdido completamente as esperanças de uma mudança de atitude por parte do rei e do Estado... 

...mas não a sua esperança na mudança de sorte do meu povo! O salmista acredita que Deus pode fazer com que a situação mude, que a sorte mude. Ora, se a sorte do povo, no momento em que o salmista compõe, é uma vida de opressão e desgosto – o que significa, então, mudança de sorte senão que a vida desse mesmo povo se converta em festa e celebração? Sim, mas não a festa demagógica do rei – mas a festa gerada pela liberdade, pela vida e pela esperança! O salmista não está a fim de contemplar a banda passando, porque ele sabe, pela experiência do meu povo daquela cidade, que, depois de passada a banda, a dor retorna a cada canto e corpo... 

 

5.      Ética e justiça, compromissos concretos da utopia 

Mas, perguntemo-nos, de onde poderia o salmista ter buscado inspiração para a sua esperança? Haveria tradições em Israel que apontassem para intervenções de Iahweh que determinassem uma mudança de sorte? Sim! 

Vamos ler, então, o cântico de Ana: 

 

1 Sm 2,1b-8d

 

hw"hyB; yBili #l;['

1b Regozijou-se meu coração em Iahweh

hw"hyB; ynIr>q; hm'r'

1c Levantou-se meu chifre em Iahweh

i yb;y>Aa-l[; yPi bx;r'"

1d Alargou-se minha boca conta os meus inimigos

`^t,['WvyBi yTix.m;f' yKi

1e porque festejei a tua salvação!

(...)

~yTix; ~yrIBoGI tv,q,

 4a Arco dos guerreiros aterrorizados!

 lyIx' Wrz>a' ~yliv'k.nIw>

4b E os acovardados cingiram-se de força!

WrK'f.nI ~x,L,B; ~y[ibef.

5a Saciados pelo pão se contratam!

d[; WLdex' ~ybi[er>W

 5b E famintos descansam perpetuamente!

h['b.vi hd'l.y" hr'q'[]

 5c Estéril gerou sete!

`hl'l'm.au ~ynIB' tB;r;w>

5d E a grande de filhos secou!

hY<x;m.W tymime hw"hy>

6a Iahweh - o que faz morrer e reanimar;

`l[;Y"w: lAav. dyrIAm

6b descer o Sheol, e subir;

ryvi[]m;W vyrIAm hw"hy>

 7a Iahweh- o que faz empobrecer e enriquecer

`~meArm.-@a; lyPiv.m;

7b o que rebaixa e levanta;

lD' rp'['me ~yqime

8a o que ergue do pó um pobre,

!Ayb.a, ~yrIy" tPov.a;me

8b do monturo levanta um necessitado,

~ybiydIn>-~[i byviAhl.

8c para entronizar com[5] os nobres,

~lexin>y: dAbk' aSekiw>

8d e um trono de glória os faz herdar

 Esse canto deve guardar memórias históricas muito antigas. Está repleto de referências à mudança de sorte – como diria Gottwald, inversões de sorte[6]. Chama a atenção o fato de que a raiz ~wr (levantar) seja usada três vezes, nos versos 1, 7 e 8, com variações na estrutura verbal[7]. As formas verbais da raiz apontam para a ação de erguer o pobre e necessitado (v. 8) para colocá-lo numa situação diferente. Se estava com o chifre rebaixado – agora está com o chifre levantado. Chifre, aqui, não significa, como em Daniel, por exemplo, símbolo de poder. Antes, a expressão levantar o chifre está relacionada à mudança de sorte em relação a uma situação de humilhação que se faz deixar por uma nova situação de liberdade. 

É com essa expressão que o canto de 1 Sm 2,1b-8d começa. Festeja-se (v. 1e = Sl 53,6c) a salvação de Iahweh – salvação essa que deve ser lida como a vitória sobre o inimigo (v. 1d). Salvação em 1 Sm 1e apontaria para salvações em Sl 53,6a? O inimigo, portanto, mantinha abaixado o chifre do pobre e necessitado (v. 8a.b), sendo que Iahweh muda a situação, fazendo-os entronizar com [(?) apesar de?] os nobres e herdar um trono de glória (v. 8c.d). Parece que se trata de recordação história dos primórdios de Israel, em que alguma grandeza popular viu-se em meio a uma conflagração social em termos de mudança radical de sorte. Que terá se passado? 

Podemos apenas apontar sugestões que o canto deixa transparecer.  

Primeiro, constatemos que as expressões utilizadas para pobre e necessitado são as mesmas empregadas, por exemplo, por Amós (dal, pobre - Am 2,7; 4,1; 5,11; 8,6; cf. Rt 3,10; Lv 14,21; 19,15; Is 10,2; 11,4, etc.; ‘evion, necessitado – Am 2,6; 4,1; 5,12; 8,4.6; cf. Is 14,30). Trata-se, portanto, de uma categoria social presente em várias tradições (Salmos está repleto dessas expressões), sejam antigas, sejam mais tardias.  

Segundo, as referências a levantar o chifre, abrir a boca contra os meus inimigos relacionados à festividade da salvação de Iahweh aponta para o fato de que tal salvação diz respeito à mudança de sorte do pobre e necessitado frente seus inimigos. 

Terceiro, os termos das três inversões de sorte de 1 Sm 2,4-5 apontam para situações concretas de trabalhos forçados mantidos por força militar. Fala-se do valente tomado de terror, enquanto o amedrontado cinge-se de força – cingir-se, apontando para a prática de amarrar-se a túnica para mobilidade no trabalho ou na guerra (cf. Zc 12,8). Fala-se do que estava saciado e que, agora, tem de assalariar-se, enquanto que o que era faminto, agora pode descansar – esse descansar deve apontar para o fato de que seu trabalho anterior lhe era pesado e forçado: mudada, agora, a sua sorte, pode descansar, ao mesmo tempo em que não está mais faminto. Fala-se da mudança de sorte no âmbito da família – a estéril, agora, gera sete, ao passo que a grande de filhos secou!  

Quarto, os agentes paralelos a pobre e necessitado são nobres e trono de glória. O que isso significa? Deveríamos empregar a mesma relação que há entre pobre e necessitado e monarquia e governo em Amós, e aplicá-la a 1 Sm 2,1b-8d? O mesmo conflito social entre opressores e oprimidos que se configura numa leitura histórico-social do Sl 53 está presente no canto de Ana? Parece que sim. Gottwald chega a afirmar que “duas categorias sociais de pessoas experimentam inversões dramáticas totais de sorte”[8]. Ali, Gottwald interpreta que se trata da ascensão de Israel à categoria de povo autônomo – daí estar assentado com os nobres, i. é, governa-se a si mesmo, como as demais nações. No entanto, se tanto em Amós quanto no Sl 53 o conflito é rigorosamente contra os nobres, e considerando-se que a preposição ‘im hebraica pode ser convenientemente traduzida para apesar de – talvez o que o canto queira dizer que, apesar dos nobres, Iahweh faz o pobre e o necessitado ser entronizado, herdar um trono glorioso. 

Se for assim, além de nos remetermos a A Banda, talvez pudéssemos cantar, junto com Ana, outra poesia contemporânea: apesar de você, amanhã há de ser outro dia! Sim – apesar dos nobres, Iahweh faz o pobre governar! Do monturo ao trono... eta mudança de sorte!  

Se estiver correta a leitura, os inimigos do v. 1 são exatamente os nobres do v. 8, e a salvação festejada do v. 1 é a mudança de sorte que, historicamente, traduz-se pela revolução camponesa festejada, a vitória contra a tirania opressora. 

A palavra ética não soa bem aos lábios se a palavra justiça não pode ser livremente pronunciada – ou se pode, mas de maneira tão falsa que não corresponda à situação concreta do povo. Pode-se falar da ética de um faminto africano que empurra seu irmão para catar primeiro do que ele seu punhado de arroz e terra ali do chão? Pode-se falar da ética de um pai de família que deve decidir qual dos filhos ou das filhas deverá empenhar para adquirir recursos para plantar (Ne 5,1-5)? Ou deve-se, antes, se pronunciar a palavra justiça e, com ela, pressupor a ética? Não será a ética dissociada da justiça uma moral não tão nobre quanto dos nobres? Como o Sl 53 responde a tais questões? Bem, nos termos em que aqui coloco as coisas, com um lamento de esperança – quem dera...  

Ética e justiça não podem se separar. Ética, sem justiça, é controle da moral, assim como teologia sem liberdade é controle do espírito. Justiça sem ética é tirania, assim como ortodoxia sem ética é vilania. Ética, sim, mas com justiça

 

6.      Para uma educação religiosa cristã batista para a ética e a justiça

– ensinando a enxergar a banda... 

Não tenho jeito, e tudo quanto penso, o penso pelo prisma dos Princípios Batistas. Se o presente ensaio pode servir de inspiração para engajamentos mais concretos em termos da mudança de sorte do povo rumo à justiça – o que constituiria uma abordagem política; por outro lado também pode servir – e principalmente dentro do contexto deste Congresso de Educação Religiosa, para a reflexão quanto à prática educacional e a ética. 

Os Princípios Batistas tratam do tema, tangenciando-o, mas sinalizando-o. Fundamentados numa visão de que “Cristo como Senhor (é) a fonte suprema da autoridade cristã”[9] e que “as Escrituras revelam a mente de Cristo”[10], considera que “o Espírito procura alcançar vontade e propósitos divinos entre os homens”[11]. Os Princípios Batistas precisam: “(o Espírito) exige uma submissão livre e dinâmica à autoridade de Cristo, e uma obediência criativa e fiel à palavra de Deus”. O que faltaria dizer, senão quanto à forma como tanto a mente de Cristo é compreendida nas Escrituras, quanto à expressão da submissão e obediência  Cristo e à palavra de Deus? Aqui – precisamente, reside a questão da ética e da justiça, em termos de educação cristã: a forma é o indivíduo.  

Os Princípios Batistas dizem o seguinte acerca do indivíduo:  “tem que aceitar a responsabilidade de estudar a Bíblia, com a mente aberta (questão de ética ou de justiça?) e com atitude reverente, procurando o significado de sua mensagem através de pesquisa e oração”[12]. O indivíduo é o agente do estudo e da busca, de sorte que, falando acerca da competência desse indivíduo, acrescenta: “estreitamente ligada a essa competência está a responsabilidade de procurar a verdade e, encontrando-a, agir conforme essa descoberta e de partilhar a verdade com outros”[13]. Seu estudo das Escrituras, em busca da mente de Cristo e da verdade, para o que é competente, deve ser realizado num ambiente em que se lhe respeite “como inalienável a liberdade de consciência”[14]. Não se trata de um capricho desse indivíduo, ou uma benevolência do Estado ou da igreja – trata-se, antes, de “um direito outorgado por Deus”[15]. Nesse caso, então, “todos os cristãos são iguais perante Deus e na fraternidade da igreja local”[16]. E, se por um lado não existem sacerdotes privilegiados, antes “depois de tornar-se crente, a pessoa (...) entra no sacerdócio real”[17], por outro lado tão pouco existem portadores privilegiados da verdade. O ensino e treinamento cristãos não são fórmulas dissimuladas de proselitismo – seu intento é “treinar os indivíduos afim de que possam (i. é, eles mesmos) conhecer a verdade que os liberta, experimentar o amor que os transforma em servos da humanidade, e alcançar a fé que lhes concede a esperança no reino de Deus”[18]. Note bem – a educação não lhes ensina a verdade, o amor e a fé – antes, os instrumentaliza para que conheçam, eles mesmos em sua liberdade, a verdade, experimentem o amor e alcancem a fé.  

Uma educação cristã que desconsidere essa distinção não se faz particularmente adequada aos Princípios Batistas, porque, para essa formulação tradicional, o indivíduo não é um meio: “os batistas, historicamente, têm exaltado o valor do indivíduo, dando-lhe um lugar central no trabalho das igrejas e da denominação”[19]. Alerta especial reside na seguinte declaração:  

os programas são justificados pelo que fazem pelos indivíduos por eles influenciados. Isso significa, entre outras coisas, que o indivíduo nunca deve ser manobrado, nem tratado como meta estatística. Esse ideal exige, antes, que seja dada primordial consideração ao indivíduo, na sua liberdade moral, nas suas necessidades urgentes e no seu valor perante Cristo[20]. 

Por outro lado, que tipo de educação é essa que consideraríamos brotar dos Princípios Batistas? Ora, uma que capacitasse esse indivíduo a “enfrentar e resolver eficientemente os problemas sociais, morais e espirituais do mundo hodierno[21]. 

Ora, essa espécie de educação cristã não é uma educação do tipo alienante – antes, apela para a autonomia e a consciência do indivíduo, a fim de que não se conforme a este mundo, mas que se transforme mediante a renovação do seu entendimento. É pois, com o desenvolvimento do espírito crítico e autônomo, capacitado para a leitura do mundo e de sua situação de profunda injustiça, que a educação religiosa cristã há de tornar-se útil ao indivíduo, antes que mais um dente da engrenagem que já sente a ferrugem lhe comer... 

A educação religiosa cristã deve conciliar a fé e a razão[22] e, trabalhando para a autonomia do indivíduo, deve orientar a igreja a “defender e proteger o direito de o povo perguntar e criticar construtivamente”[23].  

Trata-se de uma mudança de sorte – a autonomia do indivíduo e a sua participação na construção de uma sociedade justa, por isso ética, solidária e fraterna. Se a justiça e a ética não forem componentes dessa sociedade, para que sociedade? E se a justiça e a ética não forem elementos constitutivos da educação religiosa cristã, para que educação religiosa cristã, senão para a fundamentação ética da opressão? Por isso, há que construir-se também uma educação religiosa cristã para a ética e para a justiça.


[1] Texto conforme a Biblia Hebraica Stuttgartensia, 1990, publicado na Biblia Sacra Utriusque Testamenti - editio Hebraica et Graeca, 1994.

[2] Cf. Nm 13,32: a expressão terra que devora seus habitantes (h'yb,v.Ay tl,k,ao #r,a, ).

[3] Como Schökel, por exemplo, em Salmos I – 1-72: texto, introdução e comentário. São Paulo: Paulus, 1996. pp. 251-261; 717-718.

[4] O Sl 14, que é uma duplicata do Sl 53, tem o verso 5b alterado, de forma que, lá, a leitura histórica do cerco à cidade não pode ser verificado – ainda que o verso 5a mantenha a referência à situação de terror infundado.

[5] Também poderia traduzir: para entronizar apesar dos nobres, como conectivo concessivo. No entanto, estaria assim forçando a opção?

[6] Op. cit. p. 540.

[7] Tribos de Iahweh, Paulinas, pp. 539ss.

[8] Op. cit. p. 540.

[9] Impacto – realidade batista, CBF: Niterói , p. 11.

[10] Ibdem, p. 11.

[11] Ibdem, p. 11.

[12] Ibdem, p. 12.

[13] Ibdem, p. 12.

[14] Ibdem, p. 12.

[15] Ibdem, p. 12.

[16] Ibdem, p. 13.

[17] Ibdem, p. 13.

[18] Ibdem, p. 20.

[19] Ibdem, p. 16.

[20] Ibdem, p. 17.

[21] Ibdem, p. 20.

[22] Ibdem, p. 20.

[23] Ibdem, p. 20.