A “República” Sacerdotal de Judá à luz dA República de Platão

– uma abordagem comparativa  

por

Osvaldo Luiz Ribeiro*

Comunicação para leitura no II Congresso de Pesquisa Bíblica

setembro de 2006

 

 

A presente comunicação tem por objetivo comparar duas grandezas históricas: a organização político-religiosa de Judá, sob o regime sacerdotal pós-exílico, e o programa político-filosófico de Platão, consignado, principalmente, em sua obra A República. Antes da apresentação do insight propriamente dito, algumas observações se fazem necessárias.

 

Primeiro. A leitura de A República se faz indiretamente, com base na apresentação que dela fez Marcel Detienne em seu livro A Invenção da Mitologia.

 

Segundo. As duas grandezas históricas comparadas não se encontram no mesmo nível. De um lado, a organização hierocrática concreta da Judá sacerdotal durante as primeiras décadas após a reconstrução do templo de Jerusalém. De outro lado, o programa teórico de Platão, com base em cujo modelo se haveria de organizar a “cidade” perfeita. A sistematização teórica da organização político-religiosa de Judá, contudo, pressupõe um programa bastante semelhante ao de A República, ao mesmo tempo em que, aplicado, o programa de Platão convergiria para uma comunidade à semelhança da Judá sacerdotal.

 

1. A República de Platão, segundo Marcel Detienne.

 

Marcel Detienne não poupa A República. Apresenta-a na condição de uma programa de controle radical da cidade, por meio de uma estratégia de manipulação das consciências. Uma vez implantado, o programa garantiria o absoluto controle de pensamento e comportamento de todos os cidadãos.

 

Segundo Marcel Detienne, o programa de A República, com desdobramentos importantes nas Leis, fundamentava-se num processo educativo de três abordagens. Numa primeira abordagem, os lógoi, ou discursos, nos quais se consubstanciavam as normas que se queriam fazer implantar. Numa segunda abordagem, os mûthoi, cuja função era legitimar miticamente aquelas normas. Finalmente, numa terceira abordagem, os ōidaí, os cantos, cuja função era tornar subjetivamente relevantes os conteúdos constantes dos lógoi e dos mûthoi.

 

Segundo Marcel Detienne, os conteúdos constantes de cada um dos “três estágios da produção mitológica” (DETIENNE, p. 177) tinham por objetivo “persuadir, enfeitiçar, encantar: esta seria a única política do mito na cidade dos filósofos” (p. 173). Em última análise, tratar-se-ia de um “encantamento cujo poder é tão espantoso que a cidade encantada faz ouvir uma única e mesma voz” (p. 183s).

 

Para que fique claro a percepção que Marcel Detienne tem de A República e das Leis, observe-se o seguinte extrato:

Os responsáveis por A República determinam o procedimento a ser utilizado em matéria de ‘mitologia’ em função deste modelo revelado por sua clarividência: caberá aos filósofos modelar os ‘tipos’, em conformidade com as ‘leis’, segundo as quais, os artesãos do Estado, poetas oficiais, terão a missão de fabricar os ‘mitos’ destinados a serem estampados na alma dos futuros cidadãos. E a fim de que estas histórias exemplares marquem cada um de maneira ‘irreversível e imutável’ (Detienne cita A República, II, 378 e 1), os velhos e as velhas serão obrigados a repeti-las para as crianças, a derramá-las nos ouvidos dos bebês (Detienne cita A República, II, 378, d 1-3). Do cume à base, do filósofo à ama-de-leite, os ‘mitologemas’ indispensáveis à saúde da cidade, serão ditos e repetidos (p. 176s).

 

Finalmente, para que não haja interferência de qualquer ordem, o programa prevê a expulsão dos poetas ambulantes indesejáveis, porque seus discursos conspiram contra o efeito premeditado e único da mitologia oficial.

 

2. A “República” de Judá e seu programa político-religioso

 

A presente comunicação assume como hipótese de trabalho para a reconstituição histórica das décadas imediatamente seguintes à reconstrução do templo de Jerusalém um modelo bastante próximo àquele percebido por Marcel Detienne em A República. A ressalva a se fazer é que, enquanto para o caso de Judá não se tem “manual”, somente a percepção de um programa implantado, para o caso de A República, não se tem a aplicação prática do programa, apenas a sua proposição – o que tem levado à qualificação da obra como “utopia”.

 

No que diz respeito ao insight principal desta comunicação, tem-se, em Judá, na prática, o que se tem, em teoria, nA República. Se, de um lado, projetamos na direção de uma “teoria” sistematizada todo o padrão operacional da reorganização político-religiosa de Judá, chegamos a um programa muito próximo ao dA República. Ao mesmo tempo em que, de outro lado, se projetamos para o campo práxico o programa dA República, obtemos um caso típico, como o de Judá.

 

A reorganização político-religiosa da Judá pós-exílica dá-se segundo um modelo sacerdotal. Prefiro considerar que os planos de reorganização monárquica que se teriam desenvolvido desde o início dos trabalhos de restauração de Jerusalém tenham sofrido sérios e definitivos contratempos. Os percalços da coroa teriam gerado duas conseqüências principais: a) a implantação de um modelo hierocrático em Jerusalém/Judá, e b) a sustentação político-militar desse regime por parte da Pérsia.

 

A golah sacerdotal ter-se-ia estabelecido por meio de três abordagens: leis, mitos e cânticos. Trata-se do mesmo modelo dA República. Com as leis, tornando o direito uma prerrogativa divina, logo, hierocrática, logo, subordinada ao templo, passava a caber ao sacerdócio de Jerusalém a determinação das ações práticas dos cidadãos. Os direitos e os deveres dos camponeses-cidadãos são estabelecidos pela golah sacerdotal. Ao contrário do que considera Frank Crüsemann, o caminho da Lei para o Sinai não significa a sua instalação num ambiente fora do poder. É, antes, o Sinai o emblema da assunção do direito consuetudinário à esfera determinativa do poder hierocrático de Jerusalém.

 

Paralelamente à abordagem jurídico-legislativa, o templo lançou mão da mitologia. Os mitoplastas oficiais compunham mitos e narrativas mítico-literárias, cuja função consistia em legitimar não apenas aquelas determinações cúltico-legais, mas, principalmente, sua instância decisória – o templo.

 

Na vida real, a eficiência das leis e dos mitos depende do tempo. Para as demandas mais urgentes, emprega-se a força bruta, como Neemias, que, para fazer com que judeus expulsem suas mulheres estrangeiras, bate nuns e arranca cabelos de outros (Ne 13,25). Mas está-se falando da construção a médio prazo de uma cidade, e, nesse caso, o tempo é aliado do poder. “‘Conheces algum meio’, pergunta Sócrates, ‘para fazer com que se acredite neste mûthos?’ ‘Nenhum’, responde o interlocutor, ‘pelo menos para a geração de que falas, mas talvez se consiga persuadir seus filhos, seus descendentes, e os homens do futuro’” (A República, III, 414 c 1-415 d 2, apud DETIENNE, p. 174).

 

O problema da eficiência urgente das leis e dos mitos suscita a terceira abordagem: a liturgia. É cantando que se faz com que as “leis” e os “mitos” habitem a própria alma do camponês-cidadão. Talvez seja essa uma das razões que expliquem a considerável quantidade de salmos e hinos produzidos por Jerusalém.

 

Utilizando-se de leis, de mitos, e de cânticos, a golah assumiu o controle político-ideológico de Judá. Daí em diante, vale a declaração de Malaquias 2,7: “porque os lábios do sacerdote guardam o conhecimento, e de sua boca procura-se ensinamento: pois ele é o mensageiro de Yahweh dos Exércitos”.

 

Com esse movimento em três dimensões, procura-se, em Judá, o mesmo que se procurará nA República. Que tudo na cidade fale uma e a mesma coisa. Num regime ideológico como o da Judá hierocrática, portanto, não há mais lugar para os profetas. A República de Platão expulsa os poetas ambulantes. A Judá dos sacerdotes silencia os profetas-poetas (Zc 13,1-6). Até nisso se equivalem.

 

3. Amostras de textos representantes do programa hierocrático de Judá

 

No campo do direito, proponho considerar-se o Decálogo Cultual (Ex 34,10-28*) como abordagem básica desse período. Interessam sobretudo dois aspectos, ambos relacionados à relação do camponês-cidadão com o templo. De um lado, a peregrinação à Jerusalém: “três vezes por ano” (Ex 34,23). De outro lado, o cuidado que o texto tem de tranqüilizar o camponês-cidadão: “ninguém cobiçará a tua terra, quando subires para comparecer na presença de Yahweh teu Deus, três vezes por ano” (Ex 34,24).

 

No campo do mito, sobretudo o sistema criação-dilúvio chamado “javista”, e que proponho chamar, provisoriamente, de “complexo pós-sacerdotal”. No conjunto, estão legitimados nessas duas narrativas toda a teologia político-antropológica elaborada pela golah no século V. Depois de vencidas as primeiras demandas relacionadas à imposição do poder hierocrático, em cujo contexto o complexo criação-dilúvio sacerdotal teria ocupado papel político-teológico fundamental, cabe à golah, agora, tratar da relação político-teológica do campesinato com o templo. Não é suficiente legitimar a presença da golah em Jerusalém – é necessário trazer a Jerusalém a atenção e os corpos da massa campesina-cidadã.

 

Introduz-se o sacrifício substitutivo. A peça mítica responsável pela legitimação da novidade é a narrativa pós-sacerdotal do dilúvio. Um Yahweh enfurecido mata todos os homens, porque são maus. Depois da matança, estando Yahweh ainda enfurecido, Noé o aplaca com o sacrifício, sob efeito do qual, ainda considerando mal o homem, e, por conseguinte, digno de morrer, Yahweh declara sua intenção de não mais matá-lo. O efeito homilético da leitura pública da narrativa é o convencimento da culpa e da condenação, suspensa essa mercê de encaminhar-se o camponês-cidadão ao templo, e aplacar a indignação furiosa de Yahweh com um sacrifício. Naturalmente que a culpa do camponês-cidadão é-lhe informada desde a respectiva narrativa da criação.

 

No campo litúrgico, deve-se considerar, se não no todo, ao menos alguma forma do saltério dos degraus, cujo salmo central, o 127, faz eco àquele cuidado tranqüilizador de Ex 34,24. O peregrino canta cada vez mais devocionalmente as ameaças que, fora do contexto, soam bastante severas. Se o peregrino não vai à Jerusalém, não tem a boa-vontade de Yahweh. Construir a casa, cuidar da lavoura, cuidar dos filhos podem tornar-se ações perigosas, caso a peregrinação, por causa delas, seja adiada.

 

4. Duas Repúblicas, uma inspiração?

 

A presente comunicação tem o caráter próprio das proposições das ciências humanas: hipótese de trabalho. Supondo que tenha validade histórica, isto é, que realmente tenha havido uma estratégia político-religiosa por trás da reorganização de Judá, e que essa estratégia tenha sido planejada e executada nos termos em que aqui se propõe, a sua semelhança com o programa dA República, conforme a percebe Marcel Detienne, apresenta-se próxima demais para uma simples coincidência.

 

Propõe-se, nesse caso, considerar-se a possibilidade de não haver coincidência entre os dois programas. Por trás da estratégia de Judá estaria a política persa. Talvez a propalada política de liberdade religiosa da Pérsia consistisse mais apropriadamente na estratégia de utilização da teologia e da religião do próprio povo vencido como instrumentos de controle social. Enquanto os impérios anteriores impunham sua(s) divindade(s) como demonstração de força, a Pérsia aliava-se, por assim dizer, aos deuses locais, para, com eles, e por meio deles, tornar mais efetiva a dominação, não apenas político-geográfica, mas, agora, também teológico-psicológica.

 

Talvez os mitoplastas não fossem necessariamente judeus. Talvez fossem persas. Seja como for, é a Pérsia, seguramente, quem garante o poder em Judá, porque a Pérsia é o governo. O poder hierocrático de Judá é poder daí para baixo, conquanto esteja ele mesmo subordinado ao trono persa. Se há um programa político-religioso de governo em Judá, esse programa deve necessariamente ser persa.

 

De modo que se pode pensar na hipótese não de um programa “judaico”, por trás de Judá – mas de um programa “persa”. Talvez o “manual” operacional, a contraparte teórica do que se pôs em prática em Judá, estivesse de posse dos mitólogos persas. Nesse caso, não se deve desconsiderar o fato de que é justamente quando esse programa começa a ser implantado em Judá que a Pérsia começa suas escaramuças com a Grécia. Em pouco tempo estão as duas “nações” envolvidas numa guerra não pouco famosa. Será possível pensarmos numa origem persa para A República de Platão? Terão as guerras greco-pérsicas permitido a Platão os contatos necessários para a importação do modelo político-teológico de gestão da cidade perfeita que revelou em sua obra?

 

Considerações finais

 

Se a presente comunicação tiver alguma validade histórica, sua principal implicação é indicar para a origem intencionalmente político-ideológica de porções relevantes da Bíblia Hebraica. Parte dessas porções tem sido lida por alguns exercícios de hermenêutica especial ou regional com o objetivo de produzir discursos libertadores, quando, na origem, estariam relacionadas a intenções de controle das consciências e manipulação das rotinas da vida campesina-cidadã. A intenção de produzir libertação através de textos que originalmente tinham intenção contrária talvez seja louvável. Pergunto-me, contudo, se a denúncia de que a própria religião pode encontrar-se desde dentro contaminada pela gestão fraudulenta do sagrado, não poderia constituir veículo de uma libertação mais autêntica, posto que mais autônoma. No que diz respeito a religiosos de modo geral, acredito que a libertação mais profunda é aquela que o constitui enquanto sujeito autônomo diante da própria divindade. Estratégias de libertação mediadas pelo discurso do sagrado tendem a permanecer no nível da manipulação heterônoma. O custo dessa libertação é a manutenção de certa dependência psicológico-teológica.

 

No campo teórico-metodológico, penso ser necessário um esforço de reconstrução dos espaços vivenciais dos textos da Bíblia Hebraica. Segundo um enfoque estritamente histórico-social, textos são aquilo para o que foram feitos. Ler histórico-socialmente tais textos é, portanto, reinstalá-los em seu papel e lugar de instrumentos de intervenção social. Para o bem, ou para o mal, faziam mais do que dizer – faziam fazer, dizendo.

 

Tais textos estão carregados de mitologia político-religiosa. Uma vez que tais narrativas míticas construíram uma nação, está justificado Nietzsche, quando diz que não há maior legitimação para o Estado do que o mito. Para Judá, quero crer, não houve.

 

Referências Bibliográficas

 

DETIENNE, Marcel. A Invenção da Mitologia. Trad. de André Telles e Gilza Martins Saldanha da Gama. 2 ed. Brasília: UnB, Rio de Janeiro: José Olympio, 1998. 248 p.

 

NIETZSCHE, Friedrich. W. A Origem da Tragédia. 5 ed. Trad. de Álvaro Ribeiro. Lisboa: Guimarães Editores, 1994. 191 p.

 

RIBEIRO, Osvaldo Luiz. A República de Judá nas ‘visões” de Zacarias – porque o poder não é apocalíptico. Orácula, São Beranrdo do Campo, 3.4, 2006 (http://www.oracula.com.br/numeros/022006/artigos/Artigo%20-%20Osvaldo%20Luiz%20Ribeiro.pdf)

 



* Doutorando em Teologia Bíblica (Antigo Testamento) pela PUC-Rio. Mestre em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, sob a orientação do Dr. Haroldo Reimer.