Blogdosvaldo

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Encantamento

A ânfora do meu peito até é forte, mas guarda, relicário, frágil flor. Encanto os teus olhos. Se guardam bondade, abre-os sobre o dente-de-leão, e derrama-a. Se não, fecha-os longe daqui, e deixa-me só, que me basta o vento na carne.

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1 Rabiscos primeiros (entre 26/08 e 03/10/2006):

I. As Folhas da Paraná   II. Boas lembranças da Pobreza   III. Meu amigo de plástico   IV. Cabeça de cera   V. Um guepardo na savana   VI. Ah, o amor...   VII. Me arrependo, sim   VIII. Minha vó   IX. Meu avô   X. Meu pai   XI. O quintal   XII. No MOBRAL   XIII. Quero meu Brasil de volta   XIV. Um menino solitário

 

2 Rabiscos segundos (a partir de 18/10/2006):

XV - Um cadim de tristeza   XVI - Ensinar teologia é ruim   XVII - Mas, como assim, meia-verdade?   XVIII - Educação teológica e política   XIX - Olho de mim   XX - Mais uma disciplina, menos uma disciplina   XXI - Vinte anos, e quero mais   XXII - E nos, pastando... XXIII - Graças a Deus não sou engajado!   XXIV - 06/08/2008 - sou Doutor!

 

 

 

 

Vai, menino, vai, levanta as folhas da vida, e ri delas. Ri delas, menino. Ri.

(I)

As folhas da Paraná...

Lembro-me de um dia. Era um dia de tarde. Um menino de poucos anos de adolescência caminha pela Rua Paraná. Amendoeiras de um lado. Amendoeiras de outro lado. Folhas ao chão. Muitas. Muitas folhas. Folhas demais. Perna pra frente, voam folhas. Parece que sobem até o céu, pra que todo mundo veja. Perna pra frente. Mais folhas, malditas...

A boca da calça tem setecentos quilômetros de diâmetro. Perna pra frente, a boca da calça levanta todas as folhas da rua. Andando, ele é um furacão de pernas finas, levantando folhas. Malditas folhas.

Era época do jeans. Quando se apresentasse, anos depois, ao Exército, um fardado diria ao grupo, entre cujos componentes ele se contava, que jeans era coisa de... não lembro mais de que. Só sei que não era coisa boa. Que se dane. Na Rua Paraná, maldita calça de tergal dos infernos! Tempo de jeans, e ele caminhando com uma calça de tergal com a boca do tamanho do Vesúvio! Um menino de adolescência fresca... Não se faz isso com uma pessoa...

Biorene na cabeça. B-i-o-r-e-n-e! Que lembrança! Um caniço, magrelo, magrelo, balançando tergal entre folhas de amendoeira. Quer se esconder, não quer que o vejam ridículo daquele jeito, mas as folhas, as malditas folhas, as folhas gritam, chamam a atenção, e todos olham para ele. Trocaria todas as malditas folhas por um buraco.

Não, você não está entendendo: Biorene na cabeça, tergal nas pernas, conga nos pés. Conga! Era a época dos tênis Kichute. Aquilo é que era tênis. E ele de conga. Azul. Desbotado. Puído atrás, naquela parte do calcanhar. Fios saltando pra fora do tecido do conga. A miserável da boca da calça é gigantesca o suficiente pra levantar um mundo de folhas, mas sacana o suficiente pra deixar de fora o conga. Os dois.

Coloque tudo isso num menino franzino. Não, mais franzino ainda. Mais. Tome-se um tísico. Tire-se (pelo menos isso) a tinhosa. É ele. Magro assim. Andando, ali, agora, é cabelo boi-lambeu, calça de tergal e conga nos pés. Praticamente um espantalho...

Quanta força uma criança não precisa fazer pra vencer isso... Você nunca se recupera totalmente disso. É como se houvesse uma retina no seu cérebro, onde a imagem das pessoas rindo de você ficasse gravada pra sempre. Não adianta dizer que ninguém estava, necessariamente, rindo. A imagem está lá, fez seus estragos, faz seus estragos. Você aprende a lidar com isso. Aprende a sublimar isso. Cresce. Compra seus jeans. Amaldiçoa tudo quanto é creme de cabelo, e transforma a palavra Biorene numa espécie de "interdito". Compra tênis brancos, sapatos. Faz sua catarse. Mas quando acha que passou, passou nada. De repente você treme, suas carnes tremem, e você está, de novo, na Rua Paraná, andando, andando, as folhas, malditas, ganhando asas, voando em torno de você, como morcegos, corujas, cegonhas, demônios, mil demônios.

Um gato feio não sabe que é feio. Até chutam ele, na rua. Você sabe que ele é feio, coitado, e que foi chutado a vida inteira. Mas um menino, ele sabe... E um menino feio, pobre, magro, de calça de tergal, de conga, com Biorene, não tem perdão.

Já usei ternos de linho. Fiz questão. Camisa de linho, terno de linho, celular de novecentos reais. Mas vi que não era essa a questão. Não uso mais ternos de linho. Se necessário, uso de novo. Até gosto. Mas aquela cena, aquela tarde, aquelas folhas, as pessoas, aquilo nunca mais deixará de estar lá, esperando... esperando... esperando...

Só Bel, mesmo, amando-me como me amou, amando-me como me ama, faz daquele menino aqui dentro um sol de alegria, que ainda chora como naquela tarde, mas logo sorri, entre um beijo e um sorriso de luar, um colo quente, um corpo morno. Crescer faz bem. Estou bem. Posso até olhar para aquela tarde, e amar profundamente o menino daquela tarde...

(26/08/2006 7:20)

Lembrar delas, nunca esquecer. Conhecer-me, sobretudo. Reconhecer a minha história, única. Porque de dois úteros saí um dia, um, de carne, outro, de momentos irrepetíveis de fogo eterno

 

 

 

 

NOSTALGIA

Nesse País de lenda, que me encanta,
Ficaram meus brocados, que despi,
E as jóias que pelas aias reparti
Como outras rosas da Rainha Santa!

Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
Foi por lá que as semeei e que as perdi...
Mostrem-me esse País em que eu nasci!
Mostrem-me o Reino de que eu sou infanta!

Ó meu País de sonho e de ansiedade,
Não sei se esta quimera que me assombra,
É feita de mentira ou de verdade!

Quero voltar! Não sei por onde vim...
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

Florbela Espanca

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Meu velho amigo, copo de farinha com açúcar, copo de fubá torrado. Obrigado pelos dias do passado, o gosto na boca, o som da colher, o brilho nos olhos, a alegria simples da criança que tece seu futuro, claro quanto o vidro, duro quanto o aço, doce quanto o teu açúcar.

(II)

Boas lembranças da pobreza

Fomos muito pobres na infância. Éramos cinco: mamãe, minha irmã, mais velha do que eu, eu, meu irmão mais novo do que eu, e minha irmã caçula. Não mencionarei o nome deles. O blog é meu, e eu não perguntei a eles se a nossa história, no que ela tem de comum, poderia ser exposta. O meu pedaço da história pode...

Minha mãe foi uma heroína. Com salário-mínimo, às vezes trabalhando de carteira assinada, na maioria das vezes costurando roupa para fora, algumas vezes fazendo roupas de tricô, levou todos os filhos até o segundo-grau, às portas da faculdade.

Mas as coisas eram muito difíceis. Eu era um alienado, coitado. Não tinha a mínima idéia das coisas concretas da vida, mas sabia que tínhamos situação financeira complicada.

Roupa, dificilmente comprava-se. Ganhávamos a maioria de uma vizinha amiga - Nilcéia. Era uma festa quando ela chegava com as roupas dos filhos e da filha, bem como dos sobrinhos. Eles tinham uma situação financeira razoável, pelo menos melhor do que a nossa.

A comida faltar nunca faltou. Quero dizer - jamais passamos fome. Mas era naquela base: um pra cá, outro pra lá. Doces, biscoitos, essas coisas, nunca tínhamos. Minha mãe se virava. Comíamos farinha com açúcar. Farinha de mandioca, farinha de mesa. Púnhamos num copo, colocávamos açúcar, e comíamos. Se você está com fome, até que desce gostoso. Pena que não era farinha torrada, era aquela mais vagabunda...

Comíamos fubá torrado também. Mamãe punha fubá na frigideira, um pouco de açúcar, e mexia, mexia, até torrar. Aí ia pro copo, sempre o copo, de geléia, claro, e a gente comia.

De vez em quando, cavacas. Mamãe fazia uma massa doida lá, com farinha de trigo, água e sal, e fritava. Era o mais perto que cheguei de pastel naquela época...

O pão, ou fazíamos torrada quando ficava velho e duro, ou mamãe fazia pudim de pão. Era gostoso o pudim. Era a coisa mais doce que comíamos, eu acho. Salvo quando, raridade, dava pra fazer um manjar com ameixa.

O Natal sempre era muito pobre. Uma vez, passamos na casa de minha tia. Como era mãe de santo, tinha muitos "filhos", e o Natal lá não era tão magro. Lembro-me de um Natal. Nunca tinha visto tantas azeitonas verdes na vida! Estava contando nos dedos para chegar o dia de comê-las: nham, nham. Maldição. No dia, tive dor de dente. Nunca senti tanta dor de dente na vida. Durou uns três dias a porcaria da dor de dente, maldita... Quando passou, nem caroço de azeitona tinha.

Meu sonho era comer Farinha Láctea e Ovo Maltine. Nossa. Se um dia comesse, morreria feliz. As coisas naquela época, parece que tinham outro gosto. Quando cresci, comi Farinha Láctea até enjoar, mas o gosto não era o mesmo. Como Leite Moça: mudaram a fórmula, ou quando a gente cresce, os gostos mudam?

Essas lembranças não me fazem mal. Não me recordo de um dia ter amaldiçoado a vida, ter chorado por não ter o que comer, ou ter, mas não gostar do que tinha. Quando casei, casei muito pobre ainda. Era 87. 2 de maio. Na manhã seguinte ao casamento, depois da lua-de-mel, acordei. Estávamos na casa do Marcos Dourado, um amigo - tão alienados (e apaixonados) estávamos eu e Bel, que esquecemos completamente que tínhamos que ir para algum lugar depois da cerimônia de casamento. Na véspera, o Marcos nos perguntou pra onde íamos. Foi engraçado. Aí ele emprestou a casa dele, aqui em Mesquita mesmo. Nessa casa dele, alugada, no domingo, 3 de maio de 1987, de manhã, peguei dois ovos, uma chaleira, fui ao fogão, pu-los a cozer, peguei um prato, descasquei-os, coloquei-os no prato, sentei no chão da sala e, pela primeira vez na vida, comi ovo cozido inteiro. E dois! De uma vez, pra arrebentar a boca do balão logo... Disse pra mim: morto o passado, nenhum fantasma daqueles dias te assombrará, Osvaldo. Quando você comer esses ovos, acordará para uma nova vida.

Bem, não foi bem assim. Foi, e não foi. Foi, porque esse passado jamais me assombrou, depois disso. Fiz minha catarse. Mas Bel e eu passamos maus momentos. Chegamos a comer sopa e mingau da LBA durante uns seis ou sete meses. Não agüentava mais aquela sopa. Eu não podia andar, com uma úlcera desgraçada no calcanhar, e ela ia a um centro espírita perto de casa, onde se entregavam as sopas. E comíamos. Israel, meu filho mais velho, é forte como um touro por causa daquelas sopas. Há males que vêm pra bem...

Depois desse período, um ano e meio mais ou menos, as coisas melhoraram. O dia em que descobri que tudo é muito relativo, foi quando realizei o sonho de ir ao supermercado e superlotar dois carrinhos, até a boca, transbordando. Fiz isso umas vezes, até que a coisa mostrou-se sem nenhuma importância.

Uma pessoa não devia ter falta de comida na infância. Mas também não precisa de fartura desnecessária. Ter o que precisa, para o que precisa. Talvez isso seja o máximo da felicidade...

(29/08/2006 11:07)

"Não é pois bom para o homem que coma e beba, e que faça gozar a sua alma do bem do seu trabalho? Isto também eu vi que vem da mão de Deus." (Ec 2,24)

 

 

 

 

Não é verdade, não. Deus não modelou a vida da gente, não. Mentira. Deixa eu contar: Deus modelou a gente, e pôs num pote. A vida, e pôs noutro pote. Aí levou os dois pro quintal, cantou What's Going On, derramou os dois potes na terra, sentou, e ficou olhando. Asherah veio de dentro, sentou, e sorriu. Ele disse: Vou demorar aqui um pouquinho mais, amor. Quero ver no que isso vai dar...

(III)

Meu amigo de plástico

Vânia - o nome dela. Nossa vizinha da frente. Das poucas, pouquíssimas, raras, raríssimas que, sabe Deus por que, mamãe, vovó e vovô deixavam ir lá em casa. Naquela época da tenra infância, já adolescência mesmo, não tínhamos amigos que iam lá em casa, e nem nós íamos a eles, na rua, na casa deles. Éramos nós. Só nós. E o quintal...

Vânia - o nome dela. Ela ia lá em casa brincar de boneca com minhas irmãs. Quem não tem cão, caça com gato, eu diria. Eu as vi, brincando de bonecas... Bem, bonecas é modo de dizer.

Eu conto. Vânia tinha uma boneca-boneca. Lá em casa, a dureba não tinha fim. A minha irmã mais velha ganhou uma boneca pequena, com boca colorida, olhos de vidro, cabelo amarelo, uns quinze centímetros de altura. Eu não tinha nada. Nem carrinho, nem bola. Lembro que fazia bola de papel e plástico, e jogávamos...

Mas quero falar das bonecas. Eu as vi, brincando. Naquele dia descobri meu talento. Me tornaria o melhor brincador de "boneco" do mundo. Pelo menos do meu mundo.

Aproximei-me delas, e pedi pra brincar. Do resto, não lembro. Só que infernizei mamãe até que ela comprasse um boneco. Bem, aquilo, tecnicamente era um boneco. Bel diz que o nome é Pára-Pedro ou Para Pedro. Eram bonecos pelados, de plástico meio-mole meio-duro, com as pernas arcadas, como cowboy, os braços levantados, sem articulações em nenhum dos membros. A cara era moldada. Ali estava o molde dos olhos, da boca, um projeto de nariz.

Apresento-vos "Riquinho". Esse foi o nome que dei a ele. Meu amigo. Cada um dos quatro irmãos ganhou um, sendo que a mais velha tinha aquela boneca mais chique. Franchesca. Mas pronuncia-se "Frantieska", paroxitonamente. Inventamos uma língua própria, infantilizada. Eu acho. Só agora me dei conta de que cresci demais.

Brincamos anos assim. Fiz, primeiro, uma casa comum, com tábuas de caixa de uva, da feira. Mas o "comunismo" não deu certo. Aí cada um fez sua casa. Pegamos pedaços de qualquer coisa e construímos, cada um, sua casa no quintal. Um quadrado de madeira, com teto, cama, armário, tapete, plantas etc, tudo improvisado. Quando chovia, esperávamos que amanhecesse, e, com o sol, corríamos para ver os estragos. Lembro da areia, marcada dos pingos da chuva, os grãos de areia dentro da casa, cada um, uma gota de respingo. Tudo dentro era areia de chuva, restos de respingos, lágrimas da terra.

Ficávamos o dia inteiro com os bonecos. Eu era o chefe da gangue. Inventava as histórias. Os "mundos". Certa vez, brincamos de "gigantes". Mandamos nosso primo, coitado, comprar pão na padaria. Ele, claro, era o gigante. Ele não sabia. Quando voltou, os bonecos tacaram tacos de assoalho nele, pedras com papel enrolado, e, hum, bem, tem crianças lendo isso? sai daí, er... com fogo aceso... Coitado dele. Mas quem mandou ele descobrir a passagem secreta que ligava o mundo dos bonecos ao dos adultos? Se ele contasse, tudo estaria perdido, da mesma forma como se descobrissem a passagem para a vila dos Strunfs! Não podíamos deixar que nosso mundo acabasse. Levávamos mesmo a sério aquele mundo.

Outra vez, cansamos de andar curvados. Sim, eram umas dezesseis horas por dia com as costas curvadas, andando com os bonecos pelo chão. Primeiro, agachados, andando. Faça isso dez minutos. Agora imagine dez horas. Aí administramos uma técnica de curvatura lombar. Segurando na cabeça deles, os pés deles no chão, andando. Haja costas! Com piaçava da vassoura, fazíamos arcos, e, com palitos de fósforo, flechas. Com pedaços de arame, ganchos, e, com barbantes, corda. Assim, eles podiam subir em tudo. O boneco que não tivesse apetrechos não podia subir. Tudo era muito real. Minha tia dizia que nos tornaríamos viados. Não me tornei. Hoje vejo milhões de meninos brincando com bonecos virtuais, em jogos de vídeo-game, que eu a-d-o-r-o. As aventuras que eles jogam, eu não as jogava só, eu as inventava.

Mas eu dizia que cansamos de andar curvados... Ah. mas lembro-me, também, da escola. Pegamos a parte interna da caneta Bic usada, cortamos o plástico, enfiamos ponta de grafite ali, e eis um lápis miniatura. Recortamos papel de pão: eis cadernos! Eita, que saudades do Riquinho.

Cansados das costas, eu dizia, inventamos um mundo aquático. Éramos espertos. Eles não andavam mais. Agora, nadavam. Nós, de pé, segurávamo-nos pela cintura, e fazíamos movimento de nadar no ar, e eles iam nadando. Havia uma linha imaginária que era a superfície. Claro, na altura do nosso peito - o que, na época, devia ser um metro, um metro e dez, eu acho. Tudo é tão diferente quando a gente é pequeno.

Essa fase não durou. Não era "real". Mas despertou-nos para a cisterna e o poço da vovó. Fazíamos "expedições" submarinas. Amarrávamos uma linha neles, e, também neles, uma pedra. Aí os jogávamos na cisterna, uns dois metros e meio de fundura, ou no poço, uns sete metros, e eles ficavam lá, nadando. Inventávamos mil coisas. Na cisterna, a gente os via. No poço, não. Fundo demais, e escuro. Vovó ficava desesperada. Sai daí, menino!

Nós os levamos à praia uma vez. Mangaratiba. Naquele dia, não fui eu quem foi à praia, foi Riquinho. Ritinho, para os íntimos.

Para a escola eu nunca o levei. Seria já instinto? Suspeitava eu da maldade humana já naqueles dias? Ninguém no mundo conhecia nosso mundo. Apenas os quatro bonecos, e mais um, quando o gigante tonto ia brincar com a gente, e levava o seu. Criamos nosso mundo. Vivíamos nele.

Eu tinha uma mangueira enorme no quintal, que escolhi, um dia conto, depois de Meu Pé de Laranja Lima. Subia lá. Brincava com Riquinho lá em cima. Uns quatro metros, cinco, de altura. De novo a vovó: sai daí menino! Um dia, fui subir. Você tinha que ter umas seis mãos pra subir na mangueira com o boneco, os apetrechos, sem cair. Acho que naquele dia deixei quatro dentro de casa. A cabeça do Riquinho bateu no tronco, e quebrou.

Lembro de ter chorado muito na vida. As duas vezes que me recordo ter chorado muito, muito mesmo, foram duas. Essa foi a primeira. A segunda, depois de burro velho, e, aí, um choro de alguns meses. Quando a cabeça do Riquinho quebrou, morreu um amigo. Colei com vela, primeiro, derretendo a cera na junção do corte. Nada. Depois mamãe deixou eu pôr a faca no fogo do fogão, e tentar colar, derretendo o plástico. Consegui, mas Pitanguy não recomendaria. A cabeça ficou torta, coitado. Um cordão preto-de-plástico-queimado deixou peito e as costas dele horríveis.

Mamãe acabou comprando outro. Direi que era horrível. Mas, vai ver, não era. Como a história de Jó, que depois de ele ter perdido os filhos (perdido? Perdido nada, que roubaram dele. Sei quem foi, só não digo porque... Mas um dia digo), ganhou outros. Dizem que mais lindos ainda. Jó era muito civilizado. Recebeu, agradeceu, e não disse o que tava pensando mesmo. Por dentro, gemia de dor.

Mas o Riquinho novo morreu na mangueira. E não me recordo mais de gostar de brincar. Talvez a vida me tenha matado Riquinho, para eu crescer. Acho que estaria com ele até hoje, curvado, envelhecendo, curvado, levando-o à escola, curvado. A vida acha que entende mais da gente do que a gente, e, então, a gente inventa um jeito de acreditar nisso. Pra ficar mais fácil.

Enterrei Riquinho. Um velório simples. De choro contido. E, aí, descobri a poesia. Não inventei mais um mundo pro Riquinho. Inventei um pra mim.

Esse, a mangueira não me matou até hoje.

30/08/2006 3:48

Bom judeu que era, Yahweh não fez um boneco com vento dentro. Fez um boneco que dança como o vento. O corpo-vento piscou, e era dia...

Dizem que Yahweh olhou, coçou a cabeça, e disse pra Asherah: Sei não. Era vento que eu queria. Mas acho que aí vai tempestade.

 

 

 

 

O sonho, ah, o sonho. Uma pequena pedra, um valioso rubi! Uma flor bem frágil, uma floresta inteira! Uma gota de lágrima, o Mar Oceano! Os pés, as asas! Os olhos, o mundo inteiro! A criança que sonha levanta pedras, e tira desde lá debaixo todos os bichos da terra.

(IV)

Cabeça de cera

Eu devia ter o quê? uns 10 anos, mais ou menos. Era ou o próprio ano, ou o ano anterior do lançamento, no Brasil, das revistas em quadrinho dos Strunfs, que eu tanto amei, de que tanto me servi, na imaginação, doido pra saber que gosto tinha salsaparrilha...

Não vá rir de mim, malvado leitor - mas eu tive um problema muito, muito esquisito. Minha cabeça inchou. Inchou de parecer um capacete de astronauta. Inchou de modo disforme, das pessoas olharem e acharem que ali ia uma aberração.

Doía. Muito. Eu chorava. Lembro que minha mãe corria comigo pra cima e pra baixo, e lembro-me, especificamente, do Hospital Menino Jesus, onde vi, enquanto esperava no corredor, um raio x de um moleque que tinha engolido algum troço, não lembro mais se moeda, aquele arame do pregador de roupa, ou uma bola de gude.

Lembro das dores. Lembro das viagens intermináveis de ônibus. Lembro de uma noite, desesperada noite, em que eu me estraçalhava de gritos de dor, e mamãe, em desespero, pediu socorro ao pai de meu primo. Era taxista. Não havia contatos mais entre nós, porque ele não criara meu primo, nem ficara muito tempo com minha tia. Mas ele foi lá em casa. Lembro dele ao volante. De mamãe chorando no banco do carona. E de mim, deitado no banco de trás, berrando. Noite do inferno, aquela.

Não sei onde me levaram. Sei que não morri - pode ter certeza. Um dia, pegamos o ônibus e descemos em Deodoro, naquela praça em frente aos quartéis. Íamos pegar outro ônibus para mais uma romaria em hospitais. Aí algo mágico aconteceu. Sabe aquela banca de revista que ainda tem lá até hoje? Mamãe parou ali, e comprou uma revista. Eu não sei mais, se passou propaganda na TV, eu vi, fiquei excitado e pedi, e ela, claro, atendeu, ou se foi iniciativa dela. Sei que era o primeiro número dos Strunfs. Os strunfs eram duendes azuis, pequeninos, lindos de paixão. A primeira história era O Strunfíssimo. Era a minha primeira leitura "política" na vida.

Li como um louco a revista. Umas setecentas vezes. Depois vieram mais números, mas não foram muitos, porque logo a revista parou de ser comercializada. Eu ficava esperando, dia após dia, o mês seguinte, para a mamãe arranjar um jeito de comprar a número dois, a número três, a número quatro... Quando a revista chegava, a cabeça parava de doer. Eu me deliciava. O último número, ou os dois últimos, mamãe não teve como comprar.

Nunca soubemos o que houve. Parece que um médico desenganou-me. Não sei se fez exames. Sei que disse para mamãe que era meningite, e que eu não passava muito tempo vivo. Ou ele errou, ou mamãe acertou.

É que logo descambamos para o socorro espiritual, claro. Disseram para mamãe que era macumba. Deram até o nome de quem fez. Não era pra mim, era pra vovó. Mas pegou em mim. É  o que disseram. Na época, parece que todos acreditaram nisso. 

Uma outra versão, mecânica, eu mesmo dei. A casa de vovó era grande. Das antigas, praticamente do início da urbanização daquele pedaço de Mesquita, no início do século XX, quando ali era só laranjal e a linha do trem. Linda a casa. A sala, enorme. Dava para a rua. Era alta. Quando chovia, a Av. São Paulo enchia. Mas enchia mesmo. De virar rio. Não é que alagava como vejo na TV - água parada. A Av. São Paulo fica no pé de um morro. A água descia lá de cima por uma série de ruas. A Rio de Janeiro cortava a São Paulo. Imagine que a Rio de Janeiro é um pulso. Subindo, ela continuava como o dedo médio de uma mão, até o alto do morro. Paralela à São Paulo, a Minas Gerais, sendo cortada, também, pela Rio de Janeiro. Cortando-a, era como o dedo mínimo e o polegar da mão. O indicador, Espírito Santo. O anelar, Belo Horizonte. Essa mão: Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Minas Gerais. trazia toda a água da serra para a Av. São Paulo, escoadouro natural daquela mão geográfica. A rua tornava-se um rio, de corrente tão forte, que passava de tudo boiando, até poltrona velha...

Alta a casa, a sala dava pra varanda social. Uma porta de madeira de lei, pesada, que o vento batia. Para não bater, um prego, daqueles pregos de respeito, fincado no taco encerado, dobrado, para a porta não bater. Eu caí, um dia, e meti a ponta da cabeça ali. Eu não lembro disso. Mas contei isso com toda força, que passei a duvidar se menti, e cri na mentira, ou se era verdade mesmo, e eu me traía na memória. Mas disse que caí e bati com a cabeça. Esse osso do lado da testa, à direita. Um médico perguntou que tinha havido. Contei isso. Não sei se deu em alguma coisa. E ficamos entre meningite, cabeçada no prego, e macumba.

Por via das dúvidas, mamãe fez promessa para uma santa: Nossa Senhoras das Cabeças. Demorou um tempo enorme. Mas um dia, acho que em um ano, mais ou menos, eu fiquei bom. A cabeça murchou, e os Strunfs foram embora, também.

Lembro-me da igreja. Dos vitrais. Daquele jeito de nave católica. Um monte de imagens. Caras de santos católicos. Um azul desbotado. Um dourado. E um museu de cera. Cabeças. Pernas. Mãos. Braços. Um corpo. Velas. Uma que o pavio me obrigava a olhar pra cima. Eram os ex-votos. As pessoas fazem promessas. A santa cura. Elas deixam representações de cera na igreja. Se é um pé curado, um pé. Se é um braço, um braço. Lembro-me da mamãe abrir uma bolsa daquelas de papel, que os supermercados davam junto com as compras. Tirou de lá em embrulho. Desembrulhou. Era uma cabeça de cera. Não parecia nem um pouco comigo. Nem cabelo tinha. Mas eu sabia, exatamente, o que significava.

Ajoelhamos. Ela pôs a cabeça no altar. Quero dizer, a de cera. Benzeu-se. Não vi mais nada, que é pra isso que a gente fecha os olhos. Eu tinha esse ar religioso, que minha mãe me infundira. Nunca me dissera nada sobre Deus, que eu lembre. Mas sempre viveu Deus. Era muito religiosa, sem ser beata. Muito mística, sem freqüentar missa. Foi de tudo, quase, um pouco. Mas nunca me deixou tomar decisões fora da idade de as tomar. Quando eu ficasse grande, antes, não. Quando fiquei, virei batista. Acho que ela não esperava, e não gostou. Depois, talvez sim. Naqueles dezoito anos meus, não. Aí me ensinaram de Deus. Mas nunca mais o vi. Acabou tudo. Levantamos. Saímos. Descobri por que tinha demorado tanto pra ficar curado - tantos pés e braços, cabeças e troncos de cera ali, é que era muita gente pra santa atender...

Acho que talvez essa coisa que aconteceu comigo tenta desendireitado as coisas aqui dentro, se um dia foram direitas. Pelo sim, pelo não, encarno-me no poema do Quintana, o do menino arredio. Não acho que eu seja lá muito normal. Seja na vida social, seja na vida religiosa, sou mesmo um peixe fora d'água. Sempre. Eu mesmo, só quando comigo mesmo, e quando com a Bel, que, no fundo, sou eu mesmo, em carne morna de mulher. Talvez seja culpa daquela coisa que deu na minha cabeça. Sei lá. Mas mesmo aquela coisa vem a mim, desde o passado distante, com uma dose de nostalgia. Conto dos gritos, porque lembro da imagem de eu chorando, ainda vejo a Av. Brasil passando pela janela noturna do táxi. Mas não sinto mais nada a respeito. O que sinto, é uma saudade enorme, que você não imagina, da revista dos Strunfs. Depois que virei batista, imbecil, deixei que se perdessem, para agora chorar por elas. No fundo, acho que eu me tornei um deles. Um duende azul, pequeno, pequeno, escondido na floresta, atrás de sua salsaparrilha.

Nunca encontraram minha floresta. E eu vivo só. A floresta me trouxe a Bel. A Bel, os meninos. Com eles faço festa em torno da fogueira, recolho as folhas do outono, cheiro as flores da primavera, padeço o frio do inverno, e franzo os olhos no verão. Mas sempre sou aquele menino azul, pequeno, a quem a floresta preservou do mundo, a um preço muito, muito alto.

Não fosse a Bel e os meninos, não fosse meu coração moreno, de cabelos negros, a vida seria muito, muito triste. Porque a floresta é meiga, mas a solidão é fera...

31/08/2006 10:01

Vivo entre o sonho e a pedra. Aqui sou homem e pai, ali, um menino assustado. Por fora, bronze. Por dentro, areia. Dentro de mim, um livro. Do livro, um sonho. Do sonho, meu pequeno grão de vida, que guardo na concha das mãos, e abro só para meus amados 

 

 

 

 

Vê? Não ofega mais meu peito. O sol vai se pondo sobre minhas pernas ligeiras. Deito-me no chão de casa, e observo a longa pradaria. Meu corpo soube para onde correr. E corri. Agora descanso sobre o chão quente do pôr-do-sol. Quem me vê, não sabe nada do animal que sou.

(V)

Um guepardo na savana

Se me pedissem uma marca, um símbolo, uma imagem, que representasse minha personalidade, meu jeito, que representasse a mim, quando era menino pequeno, eu mostraria, se a tivesse comigo, uma foto que o padrinho de minha irmã mais velha tirou um dia. Vê-se, em primeiro plano, um poste. Não, não era pra ser a foto de um poste. Mas acabou sendo. Era pra ser uma foto de mim. Em preto e branco, o que se vê é um poste. Atrás, pedaços de um menino, que o poste faz cobrir quase todo. Vê-se as mãos, de um lado e de outro, porque ele se abraça, escondido, atrás da coluna de cimento. Um pé, que esqueceu-se de esconder-se, alusão mística a minha caminhada, escondendo-me, lançando-me, escondendo-me, projetando-me.

E a cabeça, claro. Um cabelo amarelo, que , já disse, de Visconde. Uma cara assustada, escondendo-se da câmera. João, falecido já, tentou bater a foto. Arisco, corri e me escondi. Para fugir, escondia-me. Ou corria. Era comum ver-me, quando indo à padaria, em missão caseira, ir correndo, voltar correndo. Não, não era para satisfazer a pressa da mãe. Era pra esconder-me, correndo. Correndo, passava tão rápido pelas pessoas, que julgava-me invisível.

Tudo fazia correndo. Na rua, cheguei a ser o segundo mais veloz. Cristiano era o mais veloz. Depois dele, eu. Ele, não sei por que. Eu, porque me escondia no vento, no pó, na velocidade de uma imagem que você não consegue captar, e não pode segurar na retina. Eu inventava o fast forward.

Essa foto devia estar com minha mãe. Não está. Talvez com minha tia. Não a tenho. E lamento. Porque a guardaria como uma relíquia. Um menino que se esconde, mas quer ver do que. Lá estão aqueles olhos que eu conheço, porque olho para eles todos os dias. Nunca mudaram. Talvez um dia a encontre.

Mais tarde, trabalhava numa padaria. Morava do outro lado da cidade, ainda Mesquita. Saía depois das vinte e três horas, e... corria. Ia correndo pra casa. Para uns, um atleta. Para outros, um maluco. Para mim, um guepardo na savana, correndo atrás da caça, fugindo do caçador. Correndo, sempre. 

Trabalhei num pequeno bar, de triste memória. Corria, também. De lá pra cá, corria.

Só parei de correr quando cresci e casei. Nunca mais corri. Talvez tenha me encontrado. O fato é que a estrada não me chama mais. E não é que não queira me esconder das pessoas que passam por ela. Não as vejo mais, é a verdade. Fiz com que sumissem. E sumiram. Caminho, na solidão de uma retina seletiva. Talvez o corpo tenha entendido que aquela correria toda não dava em nada de concreto, porque apenas chamava a atenção. Como um menino que põe as mãos nos olhos, e se esconde no escuro da pálpebra de dentro, escondia-me à luz do dia, levantando pó amarelo à minha volta.

Hoje, levanto o pó dentro dos meus olhos, e me escondo assim.

Caí na vala três vezes, que me recorde. As casas de Mesquita não tinham esgoto subterrâneo. Corria entre a calçada das casas e a rua uma vala, às vezes funda, com mato, projetos de córrego de cheiro ruim. Absorto no meu mundo, um dia ia pra escola. Quando vi, estava dentro da vala. Fiquei imundo, e voltei, correndo, pra casa. Nunca correra tanto na vida, e acho que tudo começou aí. O uniforme branco agora era preto. Um cheiro horrível exalava de mim. E uma lama escura escorria desde a minha cabeça. Corri muito.

Outras duas vezes. Numa, voltava da mesma escola. Ia encostado no muro, sabe-se lá pensando em que. Um cão latiu, quando eu passava em frente a um portão, colado a ele. O susto jogou-me para o lado. Na vala. A outra vez, saía de outra escola. Era mais velho, agora. A Av. São Paulo estava em obras de urbanização. Manilhas enormes, que me cabiam dentro, eram colocadas no meio da rua, cavada por enormes retro-escavadeiras. A cada lado, um canal era cavado para manilhar o que, até então, eram valas negras. Decidi passar pelo cantinho, entre a beirada dum dos canais, e o muro. Caí.

Em todas essas vezes, corri. E, sempre, para casa. A minha casa sempre foi um lugar seguro. Pobre, mas seguro. Às vezes, sem a afetividade de que aquele menino necessitava. Mas seguro. O que fazia das corridas, sempre, um esforço que prometia satisfação. Corre, Osvaldo, corre. Já já você está lá.

Hoje, não corro mais. Já disse. Mas a minha casa é, de todos os lugares do mundo, o único onde realmente quero estar. É aqui, só aqui, o lugar do meu coração. Meu porto. Minha rede na varanda. Minha jangada. Meu foguete. Minha savana.

Acho que eu corria daquele jeito pra fazer com que esse dia, o de hoje, chegasse mais rápido. Ele, enfim, chegou. Que parem todos os relógios. Que caiam todos os ponteiros. Que sequem todas as clepsidras. Esfarelem-se todos os gnomons. Quebrem-se as ampulhetas. Que Morfeu beije Cronos. Cheguei. Estou aqui. Estou em casa.

Bel, cheguei!

01/09/2006 08:51

Minha luta contra o tempo é longa. Corri para chegar em casa. O louro da maratona é meu, mas ele me espreita, agora. Pois que morra de fome o inimigo do meu descanso.

 

 

 

 

Vênus escondeu-se de mim a vida toda. Bel a contratara. Conta-se que a peso de ouro. Faz ele feio, Vênus, pra que ninguém o queira. Dê-me tempo de chegar, que também cá, donde venho, o vinho amarga a garganta, e o beijo da boca dele é o meu remédio.

(VI)

Ah, o amor...

Estudei a vida toda no Vocacional. É com esse nome que se conhece o Colégio Estadual Presidente Castelo Branco. Ele fica na Praça Porto Alegre, em Mesquita. Estudei lá a primeira série do primário. Fui transferido para uma escola municipal, onde estudei até a quarta-série. Da quinta em diante, voltei para o Vocacional, e encerrei o segundo-grau lá. Época mágica.

Um milhão de histórias. Professores de todos os tipos. Colegas de todos os tamanhos. Momentos inesquecíveis. Fui sempre ótimo aluno. Em tudo. Excelentes notas, quase sempre as melhores da turma, quando não havia nela uma Teresinha, que me roubava o lugar. Merecidamente.

Houve um professor. Wilson. Professor de Português. Nunca tive outro como aquele. Não pelas aulas em si. Boas, todas. Mas pelo estilo. Uma vez, disse para a turma que se eu não tirasse dez na prova dele, deixaria um cachorro da rua lamber-lhe a cara. Que pressão da turma. Nem me passou pela cabeça não tirar o dez. A turma ficou zangada. Mas passou.

Ele criou um sistema de cartas entre os alunos. Com pseudônimo. Você escolhia um pseudônimo. O meu era Pantera Negra, com a figurinha do álbum e tudo. Escrevia o pseudônimo num papel, que ia prum saco. Ele , então, distribuía entre os alunos. O nome que você tirasse era o do seu destinatário. Você escrevia uma carta para a "pessoa", entregava pro Wilson, que, então, distribuía aos "donos".

Lembro-me de ter sido essa a minha primeira oração. Não foi, com certeza. Mas, das outras, anteriores, não lembro. Dessa, lembro. Queria tirar o nome da Márcia. O serviço de espionagem já me informara o pseudônimo dela. Não lembro qual. Pedi a Deus para tirar o nome dela. Pedi com todas as forças.

Eu acabei me metendo em teatro na escola. Primeiro, uma peça do dia dos pais. Depois, uma com o povo do Sítio do Pica-pau Amarelo. Adivinha quem eu era, com esse cabelo de espiga de milho? Depois, Esopo. Quando ensaiaria Antígona, acabou. Foi quando me meti na peça do Sítio que Márcia apareceu, como uma aparição. Me contaram que a Emília, ela, dava um beijo no Visconde, eu. Deus do céu! Desde esse dia, que nunca chegou, porque ela se recusou a dar o beijo, e a diretora da peça mudou a cena, sonhava com ele, o beijo, e com ela, que mo daria. Paixonite inútil. Mas que me durou um tempo.

Sentado na carteira, pedi a bênção. E recebi. Abri o papel e lá estava o nome que era da Márcia. Que sensação estranha. Mas era um atendimento só. Devia ter pedido um beijo. Nem sei mais o que escrevi. Certamente, coisas estúpidas. Nunca recebi resposta. Nem o beijo.

Uma vez, um ano ou dois depois disso, lembro-me de estar correndo atrás de doce de Cosme e Damião com amigos. Peguei um saco de doce daqueles caprichados, que só casas de família com dinheiro davam, com Chokito e tudo. Fui até a casa da Márcia, com os amigos do lado. Márcia deve ter achado a cena mais estranha do mundo: Osvaldo, no portão dela. Foi gentil. Disse a ela que lhe daria aquele saco de doces, mas que queria um beijo em troca. Naquela época, era beijo de bochecha. Ela recusou. Dei o doce. Fui embora. Nunca mais a vi.

Rômulo era o professor de Literatura. Logo, assumiu o ensaio das peças. Era excelente. Tivera contatos com a TV no passado, dizia. Ensaiamos A Raposa e as Uvas, de Guilherme de Figueiredo. Eu era Esopo. A esposa de Xantós era uma menina linda de morrer. Não lembro o nome. O menino bobo apaixonou-se. Cheguei a armar um esquema com amigos. Ela era de outra turma. Um colega da turma dela pegou a carteirinha, deu-me, copiei o endereço, e a devolvi a tempo dele a repor. Ela nunca soube. E eu, nunca fui lá.

Descobri que nunca daria certo uma vez, quando ela estava na fila da merenda. Aproximei-me e disse: "Você pode me dar um minuto?". Ela respondeu: "Heim?". A frase funcionava na TV. Na vida real, vi que não. Disse que queria falar com ela. Conversamos, num canto reservado. E levei um fora. Depois disso, ela saiu da escola, e nunca mais a vi.

Havia outra menina. Não lembro o nome. Era ruiva. Foi a primeira vez que fui fazer trabalho na casa de alguém. Fui de camisa rosa. Como alguém deixa um menino ir na casa de colegas com uma camisa rosa? Lá, acabei contando para os colegas que gostava daquela menina. É que estávamos falando disso, de quem gostava de quem. Foram lá fora e gritaram bem alto. Não havia buraco pra eu me enfiar. A ruivinha sequer me deu bola...

Havia um menina que sentava sempre perto de mim. Não vou colocar o nome dela aqui. Ela morava perto da casa da minha tia. Acho que ela gostava de mim. Mas eu nunca "percebi". E, de qualquer forma, não cheguei a "gostar" dela. Era ótima aluna. Um dos ensaios da peça do dia dos pais foi na casa dela.

Essa peça foi um acontecimento na minha vida. Quem selecionou os "atores" foi a professora de Sociologia. Naturalmente, jamais eu seria escolhido, porque era arisco demais, tímido até a morte, e apenas era enxergado por causa das notas. O Marcelo foi escolhido para o papel do pai. Era pai, e bêbado. Teresinha era a mãe. Excelente interpretação. Marcelo, coitado, fazia rir. Tá, era uma comédia, mas a gente acabava rindo "dele", e não do personagem. Logo se viu que Marcelo não era bom pro papel.

Já não sei mais se eu me ofereci, se me empurraram, se todos tentaram, e não sobrou outra alternativa senão eu. O fato é que lá fui eu fazer o teste. Passei. Virei o pai bêbado. Fazia direitinho. Foi essa peça que fez Rômulo me chamar para as peças mais sérias. Um dia, o ensaio era na casa da menina branquinha que eu acho que gostava de mim. Mais branca do que eu. Uma vez vi a perna dela. Claro, quando havia física, a gente via a perna das meninas. Os shorts das meninas era daquele tecido que cola no corpo, e era uma experiência erótica, acreditem. Mas uma coisa é você ver a perna das meninas, quando elas mostram, na física. Outra, é quando ela está sentada, escrevendo, e a saia, matreira, revela a pele macia e branca. Era para ser erótica aquela visão. Mas eu vi veias azuis por toda parte. Corei, mudei os olhos de lugar, mas a cena jamais apagou-se de minhas retinas.

O ensaio estava marcado para a casa dela. Nesse dia, na escola, uma dor de barriga daquelas me pegou. Tive umas homéricas. Essa não foi a pior. A pior foi uma que tive quando meu avô me deu chouriço. A desgraçada da maldita esperou que eu chegasse na escola, e atacou-me. Quase morri. Gritava de dor. O termo é esse: caguei-me todo, de escorrer pelas pernas. Vim embora, naquele estado, chorando de dor. Entrei em casa, espalhando o cheiro do inferno em todos os cômodos, e caí dentro do vaso. Fiquei lá uma vida inteira, com a mão na barriga, até que as bactérias acabassem de roer minhas tripas.

Esse foi pior, por causa da dor. Mas o daquele dia do ensaio, tem que ser muito imbecil pra isso. Caguei-me, também. Mas não foi assim um evento de consagração. Foi mais contido. Menos evidente. Mas acreditem: fui assim para o ensaio. Não sei onde estava com a cabeça. Ficava encostado no muro, quando não estava na minha vez. Apostava que ninguém perceberia. Não perceberam. Pelo menos, não falaram. Talvez todos estivessem desconfiados uns dos outros. Menos eu. Mas ninguém falou nada.

Impossível fugir do clima romântico-erótico na escola. Nem os professores escapavam. Havia um, de química, que tinha um Puma. Imagino! As aulas dele eram interessantes. Ele obrigava a gente a decorar a Tabela Periódica. Para isso, inventava frases picantes, pornográficas mesmo, para cada linha da tabela. Ainda lembro de algumas, e, acreditem, não tenho coragem de pronunciá-la. Ensinava as frases. As meninas coravam. Algumas, ficavam indignadas. Ele, nada.

Ele mandava a gente ir lá na frente, e tomava a "taboada" da Tabela. Ele dizia o elemento, e a gente tinha que dizer a sigla. Quando iam as meninas, coitadas, ele imediatamente mandava: "Cobre". Elas, coitadas, falavam: "C-u", isto é, pronunciavam, primeiro, o cê, e, depois, o u. Ele, então, gritava: "C-u, não, Cu", e aplicava todas as técnicas de dicção e oratória para pronunciar a palavrinha. Gargalhadas de um lado, meninas vermelhas, de outro.

Nessa época, meu primo já estudava comigo. Éramos da mesma sala, eu, ele e minha irmã. Estudávamos a Tabela juntos. Ele era amigo de duas meninas, já moças, nessa época, uma delas, a mais bonita da escola. Foi o único beijo que dei na vida escolar. Foi na amiga dessa beldade. Um selinho.

Nunca houve um namoro. Uma vez, do nada, dois amigos e eu, eu mais porque estava no meio deles, naquela tarde, azaramos duas meninas que iam para a quadra de esportes. Acabou que dois casais se formaram, ele e a morena, eu e uma branquinha. O nome eu lembro, mas deixa. Foi a primeira vez na minha vida que uma menina me deu "bola". Eu já era burro velho. Queria levar ela em casa naquela tarde. Ela não deixou. Os dias passaram. Sentei uma vez com ela, no recreio, e mostrei o meu caderno. O professor Wilson dissera que, antes de a gente casar, deveria ver o caderno da pessoa. O caderno revelaria a personalidade. Sentados, ali, ela e eu, mostrava o caderno para ela. O Gilson, e sua turma, foram me avacalhar, e falaram muita besteira. Entre elas, que eu tinha medo de aranha. Não falavam de aracnídeos. Bobo, eu fiquei ali, ouvindo, como todo mundo da escola. Por que não o soquei, além do fato de ele ter três vezes o meu tamanho? Por que eu não fui embora?

Dias depois, um amigo levou a branquinha pra ele. Ia dizer "levou-me" a branquinha, mas ela nunca foi minha, para ele ma ter levado. Nunca nos falamos, ela e eu, sobre isso. Ela "deixou-me" como quem deixa um guarda-chuva no guichê da repartição, depois de pagar uma conta... Não sinto nada quanto a isso. Mas, na época, compreendi que era um mané mesmo.

E tive certeza, quando conheci a irmã de meu melhor amigo da adolescência. Ela era a coisa mais linda que eu já tinha visto na vida. Meio metida. Mas, para quem ama, ser metida faz parte do dom. E ela tinha. Nunca estudamos juntos. Mas eu flutuava perto dela. Num concurso de miss que ela participou, lá estava eu. Numa festa de aniversário, até ajudar a pôr vermelhão no chão do quintal eu ajudei. Mamãe me deu um frasco de Gota de Amor pra dar de presente. Ela ganhou, dum pretendente bonitão, um relógio lindíssimo. Ela acabou namorando ele. Depois de muito sofrimento à distância, capítulo que merece uma história em separado, numa festa, decidi falar com ela. Tinha alguma esperança. Pelo menos pedi pra dançar, e dancei uma música com ela. Pedi para namorá-la. E ela disse não. No dia seguinte, meu primo foi jogar bola de gude comigo. Decidimos jogar à vera. Perdi todas as bolas que tinha. Escrevi numa prancheta: perdi Fulana , perdi as bolas de gude, perdi tudo. Fulana no mesmo nível das minhas bolas de gude. Era ou não era um bobalhão?

Acabaram-se aí minhas histórias de quase-amor. No final das contas, um selinho na esquina. E só. Engraçado. Quem olhasse de longe, conhecendo minha fama de inteligente e de dar cola para toda a escola, a ponto de trocar de prova umas seis vezes com os colegas mais chegados, talvez pensasse que um menino assim deveria conseguir muitos beijos. Mas aí era só se aproximar de mim, e ver que ali ia um menino aparvalhado, sem qualquer time social, sem qualquer malícia, sem qualquer traquejo. Um bobão mesmo.

Quando eu entrei no Vocacional, as colunas do colégio me olharam e disseram umas para as outras: Mais um pra gente iniciar. Não sei o que queriam dizer com isso. Não me ensinaram as drogas. Não me ensinaram o sexo. Não me ensinaram a violência. Ensinaram-me a deixar a vida ir passando, entre sonhos de amor, e cadernos. No fundo, é ainda assim que vivo - no colo da Bel, e entre meus livros. Talvez era isso que aquelas colunas diziam, escolhendo-me para uma experiência.

Voltarei lá, olharei para elas, e chorarei um pouco. Alguém, de longe, não saberá se choro de alegria, de tristeza, de emoção, de que eu choro? Nem eu saberei. Mas chorar, ali, entre as colunas, será um tributo à memória daqueles dias, nos quais, e nunca mais, moldava a vida a minha vida, um pequeno grão frágil nas mãos do tempo.

02/09/2006 08:02

Bem típico. Mas nunca saberei a relação entre minha constituição física, magérrimo e feio, e minha aptidão para os estudos. O Visconde, feíssimo, ao lado da belíssima Emília, têm algo de mim. Por que nos apaixonamos tanto por nossa infância, mesmo quando já a vencemos? Vencemos? 

Eu não sei o que é. Não posso precisar do que se trata. Nem apontar uma direção. Mas alguma coisa vai acontecer. Ou está acontecendo, já agora.

Tenho uma sensação vaga, mas conhecida, de que o Universo está confabulando.

Essa sensação, já a tive uma vez. Na época, não sabia do que se tratava. Senti a sensação, e só depois, refletindo, lembrando da carne constantemente a tremer, recordando das recorrências da mente, é que compus a interpretação mística de que o Universo estivera confabulando. E, agora, sinto a mesma sensação.

Foi antes de 84. Começou em 82 mais ou menos. Tudo quanto eu escrevia, tudo, terminava referindo-se ao Sagrado, de algum jeito. Todos os textos, todos os pensamentos. A literatura que lia. Não era religiosa no sentido que hoje emprego ao termo, depois de ter acontecido o que aconteceu. Era mais quase-esotérica, como O Despertar dos Deuses, do Isaac Asimov. Mas escrevi sobre meninos em eterna fuga. Escrevi sobre cerimônias religiosas do passado. Sobre mistérios. E era totalmente envolvido pela mística.

Então, em 84, aos 10 de agosto, ouvindo um sermão no templo da Primeira Igreja Batista de Mesquita, tomando a sério a ameaça que me fizera o pregador de que Deus logo não me quereria mais, era ali, ou jamais, tornei-me um batista. Minha vida mudou. Toda. Tudo. Todos. Nada mais foi como havia sido antes. Nada. Nunca. Ninguém.

Sinto a mesma sensação, agora. Aqui. Nesse minuto. O texto de hoje consolidou essa sensação. É algo comigo. Profundo.

O que o Universo trama, pelas minhas costas? Não terminaram as experiências?

 

 

 

 

Meu quintal permanecerá para sempre lá, a meio caminho do 421 da Av. São Paulo, e o Mundo Fantástico. Quando levanto as pedras, às vezes saem borboletas azuis, ora, vermes de cemitério. Não quero outro quintal, sem vermes, sem borboletas. Quero esse mesmo. Que foi meu. Que é meu. Que sou eu.

(VII)

Me arrependo, sim

Das coisas que já escutei na vida, dessas que acabam sendo repetidas por todo mundo, o tempo todo, uma das mais absurdas me parece esta: "eu não me arrependo de nada". Pior, ainda, quando ela vem acompanhada de um: "o que está feito está feito". Pois, no que me diz respeito, eu me arrependo, sim, e muito. É verdade, o que está feito, está feito. Mas, seja como for, e justamente porque o que está feito está feito, eu me arrependo, sim.

O quintal da Av. São Paulo foi um lugar mágico. Hoje, está recoberto, em minhas retinas, por um lençol místico, poético, lúdico, nostálgico. Não é mais o quintal da Av. São Paulo, mas O Quintal, da Av. São Paulo. É um romance na minha cabeça, que minha personalidade, meus medos, minha coragem, minha reserva dita capricorniana, a rigor, minha mesmo, de menino criado dentro de casa, criaram para eu me lembrar assim, entre protegendo-me e ferindo-me, porque a mente da gente é assim, a minha é assim, agindo sempre a meu favor, e contra mim, e de um jeito tão estranho, que, quando age a favor, prejudica, e, quando prejudica, age a favor.

É racionalidade e irracionalidade. É afeição e desafeto. É vontade e apatia. É dor e prazer. É medo e ousadia. É reverência e atrevimento. Preto e branco. Não, cinza, não - preto e branco. Sempre preto, sempre branco, nunca cinza. Nada morno, não. Quente. Frio. Morno, nunca.

Aquele quintal é como  o reino de João e Maria. Mundo duas vezes da minha cabeça. Duas vezes, porque todo mundo é mundo da cabeça. Mesmo o mundo normal, enquadrado, adaptado, para usar um termo de Aldous Huxley, é um mundo da cabeça, em sentido schopemhaueriano. Mas, quando você toma já esse mundo de Schopenhauer, e dá a ele uma coloração também freudiana, é isso que digo quando falo de duas vezes da minha cabeça.

Aquele quintal ficou para trás. O que eu trago na minha cabeça, é poesia psicológica, é nostalgia da alma. É o primeiro tribunal da minha vida. Nele, admiro-me. Julgo-me nele.

Não havia proteção suficiente. Nunca há proteção suficiente. Por isso eduquei meus filhos sabendo que nunca há proteção suficiente. Claro, é responsabilidade minha de pai proteger meus filhos. E acho que protegi. Mas tentei, mais do que isso, mesmo fazendo isso, prepará-los para que eles mesmos se protegessem, quando sozinhos. E a vida é uma caminhada solitária. Se a gente sabe se proteger, melhor se caminha. Pai, mãe, avô, avó, Deus, no fundo não podem nos proteger o tempo todo. Deus poderia, se quisesse, dado o modo como o imaginamos. Mas, se ele é como imaginamos, também é verdade que protege, sim, mas só quando quer. Quando não quer, não protege. Deve ter suas razões. As teve, quando deixou seus dois bonecos à mercê da serpente. Fosse eu, pai, e os bonecos, meus filhos, estaria agora respondendo nos tribunais. Mas Ele tinha as suas razões. E, de qualquer forma, que juiz o interpelaria?

Uma vez escrevi uma história de meninos. Eles só faziam correr, correr. Atrás deles, uma perseguição não identificada. Mas o perigo estava ao encalço deles. O tempo todo. Na praia, enfiaram-se entre uma pedras enormes, que, umas sobre as outras, criavam uma gruta de mentira, mas que permitia a eles enfiarem-se ali, e tentarem se esconder. Ficaram lá um tempo, quietos. Então, descrevi como a água do mar, com a maré subindo, como se fosse uma mão líquida, que se esgueirasse entre as frestas da rocha, agarrava os seus pés, puxando-os. Minha mãe disse que a cena era muito forte, e muito bem escrita.

Talvez eu soubesse descrever bem, porque aquela gruta falsa era meu quintal. Aquela mão, eu não sabia dizer, mas era, de alguma forma, já, o mal. Quando crescesse e me tornasse batista, teria uma centena de nomes para ele. Mas são nomes teológicos, para ambientes teológicos. Não mudam o que é aquela mão. Em casas de psicólogos, a mesma mão tem outros cem nomes. Em casa de juristas, tantos outros. Essa mão de cem e cem nomes, abriu o portão do 421 da Av. São Paulo, subiu os degraus da escada, tomou de assalto a varanda, empurrou a porta, rindo-se do prego que me inchara a cabeça, atravessou a casa, saiu pela varanda dos fundos, atravessou o quintal, debaixo da mangueira, que me mataria meu amigo, ladeou a cisterna e o poço, entrou no quintal dos fundos, subiu na calçada, entrou na varanda, invadiu a sala, dobrou à direita, entrou no quarto, e enfiou-se em minha boca. Engoli em seco. Engoli.

Crianças são seres perversos. Eu e minha irmã mais velha, eu me lembro, pegávamos, algumas vezes, quando pequenos, uma tampa de leite Ninho e íamos com ela para a "rampa". A rampa era o acesso para a rua pelo portão da garagem. Não tinha carro, mas portão, tinha. O sol batia sempre muito quente ali. Colocávamos a tampa sobre o cimento, e ela esquentava, esquentava, esquentava. Então, pegávamos ou lagartas, ou minhocas, e colocávamos a coitada sobre a tampa fervendo. A bicha saltava desesperada. Por alguns segundos, e, esturricada, seca, desidratada, dura, morria, deixando fixa para a eternidade a forma da crueldade. Criança é bicho cruel.

O ápice da sofisticação era pegar um galho mais ou menos reto, um plástico de sacola, de preferência, enrolar o plástico na ponta do galho, acender o plástico, e esperar que as chamas tomassem conta dele, a tal ponto que gotas de plástico incandescente começassem a pingar no chão. A Arma da Morte estava pronta. Lá íamos atrás de formigas. Pingando sobre elas, errando, droga, acertando. Na mosca! A formiga sumia. Nesse caso, a sofisticação da arma tinha suas fragilidades, porque as formigas se reuniam, concentravam-se, mandavam um vodun, vodoun, voudou, voodoo, sei lá, mas que faziam a porcaria da gota cair justamente sobre o pé da gente. Era uma arma mortal, mas tinha efeitos colaterais, que as formigas podiam controlar.

Dói o meu coração, hoje, quando lembro disso. Chego a sentir um calor. Não durou muito tempo. Logo tornei-me um amante dos insetos, e acabou aquela fase de crueldade. Brincava com as formigas, depois disso. Havia um formigueiro de formigas pretas, caçadoras, de quintal, daquelas que os soldados têm uma cabeça grande, uma mandíbula poderosa, e são quase três vezes maiores que as pequenas formigas operárias. Eram ótimas essas formigas para eu brincar. Fincava uma bandeirinha perto da porta, e tomava o formigueiro como meu.

Caçava uma mosca, um inseto qualquer, ou uma barata. Matava. Aí ia para o formigueiro, levando a caça. Observava uma formiga que saía do formigueiro, e se distanciava. Sabia que ela era uma caçadora. Esperava que chegasse bastante longe. Quando achava que já estava bom, colocava o inseto morto na frente dela. Ela dava de cara com ele, e já agarrava, para arrastar para o formigueiro. Aí começava a operação. Punha, logo, uma pedra sobre parte do corpo do inseto, de modo que ficasse uma grande parte à mostra, mas que a formiga, sozinha, não conseguisse arrastar.

Primeiro ela tentava por uns dois minutos, puxa, puxa, puxa. Nada. Então, ela dá meia volta, dirige-se ao formigueiro, e, eu podia esperar dois ou três minutos, então saía um batalhão de umas vinte ou trinta delas. Iam diretinho para a caça. Lá chegando, começava o puxa-puxa. Só iam conseguir quando eu quisesse, porque eu podia colocar tantas pedras quanto cismasse. Sabia que tinha de aliviar, porque elas acabariam cortando o inseto, estratégia que aprendi que elas usavam, porque me driblaram algumas vezes.

Chegava uma hora, então, que eu tirava a pedra, e lá iam elas, cantando, alegres, levando seus molhos pra casa... Isso me alegra. Aquilo, me dói. Arrependo-me? Sim.

Outras maldades me atormentaram. Publicáveis. Impublicáveis. Contei-as todas pra Bel, para uma catarse psicológica e espiritual. Alivia. Não resolve. Volta e meia, sinto-me o pior dos homens. Depois, passa. Arrependo-me? Sim. E muito. Tem como mudar as coisas? Não. Tem como pedir perdão. Em alguns casos, adianta. Em outros, não. Quando você fere as pessoas, e você não esquece, mas a pessoa a quem você feriu nunca mais falou sobre o assunto, talvez seja porque ela resolveu jogar tudo no fundo do mar. Para você expulsar seus demônios pessoais, pedir perdão é fazer com que o outro mergulhe até as Fossas Marianas, para ressuscitar um demônio morto-adormecido. É arriscado demais. E, nesses casos, pode ser outro crime despertar um monstro adormecido. O remédio é deixar-se corroer nas tripas pelo próprio demônio pessoal, lentamente. Na maior parte do tempo ele dorme, despertando de vez em quando, para matar a fome. É trincar os dentes, e agüentar firme. Dói. Mas passa. Passa, mas vai voltar. O que alivia a dor, nessas horas, é lembrar-se que decidiu nunca mais ferir ninguém.

Arrependo-me? Sim. Muito. Um dos meus historiadores preferidos é Carlo Ginzburg. Gosto dele porque ele faz História como eu acho que se deve fazer, sem blá-blá-blá relativista de terceira categoria, assumindo todos os riscos histórico-exegéticos, sem tornar-se, não obstante, um positivista ingênuo ou mal-intencionado, pelo que alguns me tomam. Seu livro Relações de Força é um achado. Li-o. Reli-o. Ele conta a história de gente que dissolveu filosoficamente a noção de História, estratégia que usaram para tentar dissolver seus pecados, ou suas dores. Um, fora colaboracionista na França ocupada, na segunda guerra. Se não há História, se o tempo é ilusão, não há culpa. Outra, matou-se. Fora prisioneira em campos de concentração. Dissolvendo a História, não existe mais campo de concentração. Fora, talvez não, mas dentro dela, quando o arame farpado rasgou sua carne, ela não agüentou. Viveu quanto deu, e não deu mais. Olhar de frente para a História exige muita tripa. Às vezes o demônio é tão terrível, que uma bocada só nos leva todas, e não sobra mais nada que ser devorado.

Há arames farpados que me rasgam a carne, às vezes. Não fujo deles. Deixo-os penetrar até os ossos. E gemo. Não há remédio para quem acredita na História. Ilya Prigogine devia ser odiado por mim, que o Tempo rói devagarzinho. Porque diz exatamente isso, que o Tempo, logo a História, são constituintes do Universo, pense disso Newton o que quiser pensar. Então eu o devia odiar, porque me amaldiçoa a lembrar. Mas não o amaldiçôo. Antes, o abraço. É meu amigo. Ginzburg, Prigogine, Morin: a História, a Química e a Física, a Epistemologia, gritam aos meus ouvidos, dizendo que aconteceu, sim, Osvaldo, aconteceu. Engulo em seco, sinto dor, e continuo em frente, depois de esvaziar os olhos do mar que guardam lá dentro, porque ainda há tripa aqui dentro, demônios, não roeram todas! Há mais tripas do que mas podem roer todas as castas...

Isso me permite olhar para o homem do outro lado do espelho, e ter, dele, a justa medida. Anjo e demônio. Dragão e cotovia. Sábio e louco. Ora um, ora outro, ora uma orgia dos dois. O resultado é uma dose cavalar de auto-compreensão, não condescendência, de coragem, não violência, de humildade, não humilhação, de respeito, não vingança. É sanidade com carne sangrando. É maturidade nua. É recusar-se fechar os armários, e matar quem já ferimos. Cortamos sua carne - deixemos pelo menos que vivam com a carne cortada. Fingir que não há corte é cinismo, é ter cortado, fingir que não, e fazer da vida um teatro de atores da mediocridade.

A religião tem um jeito próprio de lidar com a culpa. Ajudou-me, naquilo que me deu forças para vencer grande parte dos pecados que nunca conseguira, sozinho. Uma força, sim, uma força invadiu-me, quando tornei-me batista, e deixei de fazer coisas que não gostava de fazer, antes, mas que fazia. A força, disseram-me, era o próprio Deus. Pode ser. Não há como saber, de fato, sem que acredite em quem me disse. O que sei, é que uma força me tomou, e sou grato. Gratidão é ungüento bom contra o roer das tripas. 

Mas depois descobri, por outro lado, que a própria religião, antepassada minha, inventara a condenação, a culpa teológica, a culpa ontológica, a culpa-essência. Não posso concordar com isso. Sei, conheço e reconheço a dor da culpa. Mas sei e reconheço que está vedado a qualquer ser-humano instrumentalizar a culpa. Não se pode domesticar impunemente o Livro de Jó. Assim, minha cabeça é um front onde  se enfrentam duas leituras sobre o pecado. Minha experiência de pecado, que reconheço, e que é anterior a qualquer dominação teológica, porque é carne sangrando. Além dela, a leitura religiosa ocidental, da qual Agostinho se embriagou até recuperar (?) ou perder (?) a lucidez, e fazer-se guru de tantos que igualmente pretendem recuperar (?) ou perder (?) a própria. Talvez consigam. Talvez tenham conseguido. São diferentes os demônios. Diferentes as tripas. Diferentes os dentes que roem.

A teologia da culpa e do perdão, em Agostinho, até faz a dor passar. Pelo que me contam, acredito. Como as aspirinas. Não curam. Mas a dor passa. Desde que você não pare, nunca mais, de tomar aspirinas. Funciona. Mas não mais para a mente que entende seu esquema placebo. Minha mente prefere a dor às cápsulas de farinha. Mas é sabido e re-sabido que placebo também cura. Mal cuidado: desde que não se saiba ser placebo.

E vou vivendo assim. Olhando para Deus, arrependido, sabendo, contudo, que o que está feito está feito. Está feito, mas não justificado. O erro que errei, o pecado que pequei estão lá. Podem até ter sido jogados no fundo do mar. Perdoado, sim. Sem memória, não.

 Miserere mei...

03/09/2006 00:41

Acabo de ler O Caçador de Pipas. De certa forma, num nível bastante menos dramático, mas nem por isso menos doloroso à memória, ali está um pouco de mim. Eu menti acima. Não há perdão, de fato. Não há pipas que cheguem. Apenas tardes no parque. Quando, desesperadamente, desesperadamente, saímos correndo. O fundo do mar? Esquece. Todo mar tem praias, vomitando, vomitando. Deus? Ah, sim, rezamos, oramos, beijamos o chão. Mas é só. Amanhã, uma nuvem, um livro, um pouco menos, ou mais, da dose de hormônio diária, e a gente cai, de novo, e não pela última vez, em choro. O choro, a dor, é, de fato, a única redenção. Tornar-se bom? Talvez, contabilmente, quem sabe? Mas, no fundo, só as doses incontornáveis de choro.

Ali se diz que isso, a dor do remorso, da culpa, é, no final das contas, um resto de bondade. Grande consolo! Mas, acreditem, é um consolo.

22/09/06 12:45 

A culpa é um verme que rói. Mora aqui, no crânio, e, ácida, escorre pelos ossos. Dura um pouco de tempo, e dorme. Não te come de vez. Te guarda um pouco, e um pouco de ti, para quando a fome voltar

 

 

 

 

Naquele dia era eu no tronco, cavando fundo, enterrando-me na madeira apodrecendo. Lá do fundo, olharia tudo, à medida que eu mesmo apodrecesse com meu mundo. Mas que nada! Nem o tronco podre do quintal é meu. A vida é desgraçadamente mentirosa, e, quando a gente pensa que é, é nada. Que seja. Mas deixa-me apodrecer o meu tronco, que já vejo os cogumelos sorrindo ao sol. A vida que se dane!

(VIII)

Minha vó

Poderia dizer que um terço dela está em mim. Da Belmira Diniz Ribeiro, o Ribeiro banha, desde aqueles dias, a Floresta de Luz. Um ribeiro raso, e silvestre, por causa do meu avô...

Mas não direi. Direi que não tenho como saber quanto dela sou eu, quanto de mim é ela. Só sei dessa saudade estranha, dessa invenção de saudade, que inventar a saudade é a melhor forma de inventar carinho, e expulsar da frente da gente todos os fantasmas, e todos os chinelos andando de noite, na sala.

As lembranças borboleteiam. Um enxame de abelhas. Na minha mangueira. Justo na minha mangueira. Elas vieram sabe Deus de onde. Vai ver, ele as trouxe. Um bolo enorme de abelhas, mais ou menos do tamanho de um botijão de gás. Enroscaram-se lá em cima, num galho, meu favorito, e voejaram aos milhões por todo meu quintal.

Minha vó gritou, e nós corremos, todos. Metemo-nos na "salinha", onde o padrinho de minha irmã mais velha, João, minha mãe e, eventualmente, Nádia, entre um jogo de buraco e outro, falavam sobre assombração, parapsicologia, kardecismo, misticismo, esoterismo, e tanta coisa que assombra a gente, criança, mas que faz da mente da gente um mar de sonhos, de imaginações, de janelas, mesmo, querendo ser abertas.

Dos basculhantes, excitadíssimos, apavoradíssimos, observávamos aquela cena, enquanto, além de lá, no galho, como um visgo vivo de miríades de bichinhos de asa, também cá, em torno da casa, elas também voavam, zum, apressadíssimas, atrás da gente, bicho-papão de pernas finas e rabo de fogo.

Vai ver estavam nada atrás da gente. Mas minha vó dizia: Africanas! Africanas! E, se minha vó, m-i-n-h-a v-ó, estava com medo, é porque o inferno tinha aberto a boca, e os dentes do diabo tinham virado, cada um, um monstro terrível.

De onde elas vieram, para lá elas foram. Sumiram, e nunca mais as vimos.

Outra vez, uma mangangava apareceu. Havia no quintal de casa um tronco. Nós o chamávamos de "o tronco". Ele ficava perto do poço, debaixo da touceira de colônia, entre a colônia e a amexeira. Apodrecia dia a dia, como nossa carne, mas dava ocasião para fungos e cogumelos, uma vida estranha, mas que ia vivendo do apodrecer da carne do tronco, como nossas idéias, que, fixando-se em nós, vão vivendo da nossa morte, ali, como diz o Morin, adorável, gênio vivo, no limite de sua própria destruição.

Esse monstro preto e amarelo entrou em cena como um helicóptero, dando rasantes, distribuindo barulho de motor, e meteu mais medo do que as abelhas. Gigantesca a mangangava. Queria morar no tronco. Achou um buraco, enfiou-se lá. Minha avó deu o jeito dela. Não sei o que ela fez. Temo, minha mente dói, que ela a tenha esmigalhado com a vassoura. Não. Isso não aconteceu. Minhas mente me trai. Posso dormir tranqüilo...

Aos marimbondos, ela reservava a fumaça de um pano queimando. Uma vara comprida, um pano na ponta, fumegando muita fumaça. Encostava na casa deles, e eles, coitados, deviam achar que era o Ragnarök, ou o Fim do Mundo, tudo a mesma coisa.

Eu gostava de marimbondos, mas tinha medo deles. Acho que fui mordido uma vez. Sei lá. Vi alguns lutando com lagartas. Se nunca viu, é por isso que ainda acha a Natureza uma deusa boazinha. É nada. Não sabe o que é ser boa, a Natureza. Sequer o que é ser má. Apenas vai sendo a Natureza enquanto se faz Natureza.

O marimbondo patrulha a goiabeira. Todos os que vi, adoravam patrulhar a goiabeira de goiaba branca do quintal dos fundos. Moravam dezenas de lagartas amarelas e peludas nessa goiabeira. Não na goiabeira vermelha, que de lá gostavam besouros, percevejos, enormes, cascudos. Amarelas, eram presa fácil. O marimbondo, impiedoso, avistava, atacava, e ela caía lá do alto no chão, já em início de estrebuchamento. O marimbondo pousa, e começa a matança. Ferroa, pica, morde, parte. A bicha é morta em segundos. Aí ele a prende, ou ao pedaço do corpo dela, com as patas, e tenta levantar vôo. Lá ia ele, pensando nos filhotes, deixando os dela na sacada, esperando, como as mulheres de Sísera.

Uma vez vi uma centopéia que mais parecia um trem do metrô. Um metro de comprimento! A gente podia sentar em cima e ela carregava a gente, não fosse esse dragão de garras doidas para entrar na carne do pé, da perna, e engolir a gente em pedaços. Minha vó, sempre ela, apareceu com uma vara de quatrocentos quilômetros e meio, e era tanta paulada, mais tanta paulada, que a centopéia morreu foi de susto mesmo, achando que era o fim do mundo. O corpo dela jogou-se na vala, e a água suja levou...

Outra vez umas cobras-cegas. Uma invasão, Deus o livre, ali no canteiro, sob o pé de abio. Umas tantas que nem sei. Foi de noite, e deu mais estardalhaço do que assunto que valha a pena demorar nele.

E o porco. Ela e vovô mataram um porco no quintal, depois de o terem engordado num chiqueirinho. Ele gritou, e morreu. E comemos ele. Quando mais tarde li O Senhor das Moscas, lembrei daquele porco, e o revivi, lutando. Mas minha vó não era páreo para ele. Nasceu morto, por assim dizer, como todos nós. A questão é que faca há de nos olhar o coração por dentro...

E houve os natais. Não gosto mais de natais, se um dia gostei deles. O mais mágico foi um em que o tema, na TV, era cantando pela Turma da Mônica. Nossa, Deus, como a fantasia é mais real que a realidade! Não lembro o que ganhei, e se ganhei, naquele Natal. Mas lembro dele. O mais fantástico deles foi um em que passamos na casa da titia. Mamãe disse que não teríamos presentes. Voltamos para casa, caminhando, de noite. Quando chegamos na sala da vovó, lá estavam presentes. Meu Deus, que alegria.

O triste é que parece que eu peguei o presente que, parece, era do meu irmão, e, no dia seguinte, mamãe me fez trocar, e isso estragou a alegria toda, pelo menos por uns dias. Não sei se era um caminhão grande, um lança-disco, não sei mais. Só sei que esse Natal marca, de um lado, a surpresa da vida, quando você acha um torresmo na farofa, e, de outro, a lembrança de que, no fundo, posso ser bastante egoísta, e tomar meu bocado primeiro. Sinto, no fundo, que civilizei-me, principalmente depois do Evangelho, e sou capaz de dar a melhor parte a alguém, mas isso somente se não for a minha preferida, quando, então, sei ser como um leão, que toma para si a melhor parte. Entre um e outro sentimento, estranho-me de ser bastante humano, e, enquanto humano, bastante animal.

Do lado direito da casa, havia um sobrado. Para nós, à época, era o Everest. Não lembro mais o que houve. Não sei mais se a gente, crianças do quintal, tacamos pedra no terraço, se os moleques de lá, nas tacaram. Não sei. Sei que minha avó chegou no quintal e abriu o verbo contra eles. Ela d-e-f-e-n-d-e-u a gente. Meus irmãos e eu arregalamos os olhos: nunca aquilo tinha acontecido. Éramos sempre "essa raça". Mas, agora, ali estava ela, meio metro de mineira, falando impropérios para aquela gurizada. Bem-feito. 

Naquele dia dormi como um menino feliz. Talvez mais surpreso, desconcertado, do que propriamente feliz. E soube, então, e desde então, que tudo pode acontecer, e que a salvação brota mesmo , e mesmo de onde a gente menos espera.

Tínhamos um ventilador velho. Muito. Tanto que era de ferro bruto. Dormi no chão da sala da casa da vovó. Fazia muito, muito calor, e ela pôs o ventilador num canto. De noite, arrastei-me tanto de cá pra lá, e de lá pra cá, no chão, dormindo, que meti o dedo do pé nas pás. Quase me perco a cabeça do dedo, que sangrou, claro, mas nem marca tem. Ela acordou, cuidou de mim, e nem brigou. Eu esperava um falatório, um escorraçamento, uma humilhação, e um pouco de mercúrio-cromo. Mas isso não aconteceu. Naquele dia.

A comida da vovó é imbatível. Nunca mais, em nenhum lugar, comi nada tão bom. A carne-moída com cenoura dela, cruz-credo, aquilo devia ser receita dos deuses de Minas. O café fraco fraco, do resto do coador de pano, ai, ai. Mas talvez seja o mesmo caso da Farinha Láctea. Não é gosto de boca, mas gosto da cabeça. Hoje me basta o frango que a Bel faz, deliciosíssimo. Ninguém faz igual, primeiro, cozido, depois, refogado em muita cebola, que faz o frango ficar com a cor da pele dela, igualmente deliciosa.

Morei por um tempo na casa de minha tia. Era na Santa Catarina, ao lado da igreja batista. Era um terreiro de umbanda. Duas casas, geminadas. Numa, a gente. Na outra, dezenas de imagens católico-umbandistas, e um quarto em que nunca entrei. Vivi aí muito tempo, comendo acarajé nas festas, vendo erês subir na árvore, nas celebrações. Muito tempo. Mal sabia que muito depois, muito mesmo, me tornaria membro da igreja do lado. Nessa época, sequer que aquilo era uma igreja, quanto menos batista, eu sabia. Coisas para outros dias. Naqueles, eu ia para a escola, e era longe. Eu saía da casa da minha tia, andava, andava, e, então, passava na casa da vovó. Lá estava uma lancheira. Dentro, uma garrafinha de plástico, com suco de coisas. Um pãozinho doce. Às vezes, o pão doce não estava, ainda, e um deles, minha vó ou vovô, iam comigo até a padaria, me punham o pão na lancheira, e me mandavam pra escola.

Quando voltava, passava lá e via um pouco de TV. Eram dias de desenhos hoje velhos. Ficava um pouco, e ia embora para casa. Memórias dulcíssimas, como o pão, sem memória do gosto, mas, decerto, delicioso, porque trabalhei nessa padaria anos depois, e o comeria de novo, e, num dia, chorando.

Durou pouco. Houve brigas. Eu não podia ter esse tratamento. Privilégio. Talvez fosse mesmo. Sei que nunca mais. Não podia mais pegar lancheira, engolir fantasia animada. Não houve sabedoria ali. Só tristeza. Mas eu era pequeno. Muito. Só mesmo o FrontPage para me arrancar da alma essa lágrima.

Minha avó era a Rabugenta. Deus do céu. Era a infelicidade em pessoa. Sofrera muito na vida. Na roça. Na adolescência. Na juventude. Àquela altura, nós, as crianças, como entenderíamos isso? Quando Deus estava fazendo todas as crianças na primeira, ele percebeu que tinha um problema de engenharia ali, porque, ou ele fazia elas saberem, mas aí não eram crianças, ou as deixava meio burras, tartamudas, capazes de ter a Dor diante de si, e não saber. Lembro-me que Deus ficou uma eternidade e um quarto refletindo sobre isso, e de ter consultado Plutão. Não chegaram a um acordo, e, então, Deus deixou que Plutão decidisse, e ele decidiu pelo que é, porque o que é é o que é, porque Deus decidiu que fosse assim, por isso mesmo é o que é, ainda que, na maioria das vezes, ouvindo um conselheiro aqui, outro ali, como no dia em que queria enganar o rei Acabe, e o Rûah se ofereceu para mentir. Ele se arrepende depois, mas, fazer o quê? É dar de ombros, se você ainda os tiver, porque às vezes ele chuta você, se você é um castelo de areia, e, aí, você acaba. Outras vezes, ele te rebaixa, como é o caso de Plutão, que, porque Deus se lembrou do conselho meio burro que recebeu, agora é o pobre um planeta-anão, coitado, para desgraça dos escorpinianos. Os terapeutas dos escorpinianos, dito astrólogos, estão tentando aí amenizar as coisas, dizer que, não, nada mudou, não. Mas, se eu fosse de Escorpião, eu ia ficar uma fera com Deus, porque, se ele quis corrigir um erro do Plutão lá do início das coisas, acabou punindo um doze avos do mundo. Não, minto, que na China é diferente.

Rabugenta, eu dizia. Rabugenta é pouco. Mas fiquemos aqui, que se ela ler isso, há de ralhar comigo, quanto mais se eu disser tudo quanto um dia eu pensei. Não digo nem para mim mesmo, no espelho, quanto mais aqui. É melhor que ela leia, aqui, que sinto saudades. Particularmente à medida que me aproximo da casa dela, vendo, na curva da estrada, que me espera, a casa dela, sentido ao nariz o cheio do café, eu, pequeno, mal chegando à pia, olhando o fio preto-claro-transparente caindo do coador, sustentado na argola de ferro batido, a boca cheia d'água, os olhos, de inocência...

Às vezes sei que aquele café eram todas as minhas lágrimas, caindo, uma a uma, no copo de geléia. Aquele fio, frágil, fino, frouxo, era mesmo eu, ralo e fraco, caindo, caindo. Eu esperava pra beber-me, levar-me de novo para dentro de mim, porque sair de lá dói, dói, deixa-me aqui, por favor... Mas não! A alma não cabe em si, nem em mim, e quer sair. E, saindo, sai como aquele fio de terra líquida, aquele gosto de madeira doce, aquele cheiro de manhã, aquele pano florido do vestido dela, caindo pra o fundo de todos os dias, para o outro lado de todos os dias, para o outro lado dos dias.

Gostaria que ela me abraçasse agora. Iria pedir a ela perdão. E a perdoaria. Vamos começar de novo? Tudo outra vez? Tentar novamente? A gente abre a porta da sala e entra, como se a casa ainda fosse sua. Você me dá um copo de Ovo Maltine, não dos de agora, mas dos daquela época, e agente senta pra ver Sítio do Pica-Pau Amarelo, os Herculóides e o Agente 86. Tá, vai, e uma novela sua. Se você cochilar, certas coisas não mudam, eu te acordo.

Vai pensando. Enquanto isso, dorme. Deixa-me viver um pouco, vó. Deixa-me ser feliz com a Bel e os meninos. Um dia, eles mesmos exorcizarão seus próprios fantasmas. Decerto estarei entre eles.

08/09/2006 8:40  

Eu te moldo, vó, da pedra bruta da memória. Corto-te, e me corto junto. Somos, tu e eu, pedras do chão, no chão, que a vida, achando-as, chuta, e batem uma na outra. Batemos, uma vez, e a isso chamou-se nossa vida. Queria aquele instante no ar, de novo, para te pegar com as mãos, e, dessa vez, deixar as coisas como são. Mas como é que elas são?

 

 

 

 

É assim que me lembro de você, vovô. Um banco vazio. O chão seco de folhas. As árvores do quintal. Mas, quando sento no banco, quando enfio dos dedos dos pés nas folhas secas, o ar torna-se a sua presença, e o vento, o seu sorriso.

(IX)

Meu avô

Definitivamente, só nos damos conta do valor das coisas, depois de as termos perdido. Mas, pobre de mim, como eu podia saber disso naquele tempo? Não sabia. Não sabia de nada.

O meu grau de alienação, na infância, é inacreditável. Reputo tal catástrofe a um deficit de afeição, seja "real", seja "percebido". Eu vivia dentro de minha casca, ainda que a casca pudesse ser do tamanho do quintal da Av. São Paulo.

Por exemplo: não lembro da voz de meu avô. Muito pouco, de sua fisionomia. Uma pele morena bastante queimada. Um nariz proporcionalmente grande. Um cabelo grisalho. Uma altura titânica. Camisa de pano. Calca sempre comprida. Não sei se chinelos, se sapatos.

Meu avô tinha uma predileção manifesta por meu irmão mais novo. Não vem ao caso. O fato é que nos relacionamos muito pouco. Calado, muito calado, não me lembro de termos conversado alguma vez. Lembro-me de tê-lo visto chorar na varanda da casa dos fundos, onde morávamos, e, então, eu soube que estávamos com problemas. Meu avô, chorando?!

Poucos flashes. Uma palmada de mão cheia. Foi uma vez que eu e meu irmão arengávamos. Eu, maior do que ele, não sei por que brigávamos. Mas acho que brigávamos. Estávamos na varanda dos fundos da casa da vovó. Uma mesa redonda, de madeira, no canto. Súbito, um solavanco terrível me jogou, pela bunda, uns metros pra frente. Era ele. A mão gigantesca me aplicara um safanão de gigante, e todos os meus ossos estremeceram. O mundo parou. Eu parei. Tudo parou. Ele não disse nada. Nem eu. Fim.

Na história do pão-doce, quando ia pra escola, lembro-me que ele estava envolvido. Lembro-me de sua presença. Mas só disso. Nada mais.

Lembro-me de um cata-vento de lata. Ficamos horas vendo-o preparar o pequeno brinquedo. Mas é só do que lembro.

Lembro-me de ter ido, uma vez, à feira-livre com ele. Em Mesquita. Perdi-me. Lembro-me de mim, perambulando entre as pessoas. Ele deve ter me achado, porque estou aqui, lembrando disso.

Lembro-me do chouriço miserável que comi, um pedaço que ele me deu. Ele adorava chouriço. Eu também. Mas aquele pedaço, ah, meu Deus, que desgraça.

Ele contava, ou minha mãe, que ele fabricara grande parte das caldeiras do Estaleiro Caneco. Que aprendera a ler os manuais em inglês, sem nunca ter estudado. E não sei mais nada de sua história.

A 421 da Av. São Paulo foi uma das primeiras casas da rua. Contavam, ele e vovó, que, quando a começaram, tudo era laranja. Pouquíssimas casas. Hoje, aquilo é um mundo de gente.

Não é uma coisa muito boa eu ter crescido sem a presença de um pai, ao lado, e com a presença quase ausente de um avô quase mítico. As probabilidades disso não dar em boca coisa deveriam ser razoáveis. É muito provável que minha estrutura de personalidade esteja indelevelmente marcada por essas duas ausências, uma real, outra psicológica. Compreendo-me, e isso me faz bem.

Se somo a essas duas ausências o fato de eu ter sido criado praticamente preso dentro de casa, está definitivamente explicada a minha pouca afeição pelas pessoas. Respeito-as, até a quase servidão, mas tenho pouca afeição por elas. Quando trabalho, sou cooperativo. Até demais. Mas não adquiro afeição por elas. Já me culpei muito por isso. Já sofri muito por isso. Mas não mais. Porque cheguei à conclusão  de que não tenho mais como desenvolver afeição pelas pessoas, porque as estruturas afetivas profundas de minha máquina cérebro-perceptiva foram articuladas fora dessa dimensão de afeto.

Isso é muito interessante, do ponto de vista clínico. Se é verdade, como tenho refletido, pesquisado, discutido, que os processos de compreensão humanos, isto é, sua estrutura hermenêutica intrínseca, articula-se a partir de três níveis inter-recursivos, um, cognitivo, outro, afetivo, e outro, volitivo, se é, também, verdade que tenho um problema relativamente sério na dimensão afetiva de minha estrutura hermenêutica, então meus processos de cosmovisão e de auto-compreensão funcionam de modo irregular. É possível. É provável. É praticamente certo. Eu me explicaria por essa hipoplasia da estrutura afetiva de minha estrutura hermenêutica profunda. Nesse caso, as dimensões volitiva e cognitiva ter-se-iam, hum, digamos, se  apropriado do "pedaço" que, mais propriamente, caberia à dimensão afetiva. 

Tendo, há tempos, concluído assim, achei razoável comportar-me socialmente. Não era necessário "gostar" das pessoas. Era necessário estar disponível, quando necessário. E é isso que procuro fazer, antes de entrar dentro de casa, trancar a porta, e respirar aliviado... Talvez tenha sido essa constatação pessoal que me levou a perceber, estarei certo?, que o amor bíblico, isto é, o amor semítico, judaico, não consiste em "sentimento", mas em ação. Não é necessário gostar das pessoas, mas fazer-lhes o bem, caridade. Vi-me nos textos? Torci-lhes o sentido? Ou uma espécie de deformação pessoal permitiu-me ver o que está lá, e que dificilmente é percebido, por conta de um culto contemporâneo ao amor sentimental?

Não foi senão recentemente, quando escrevi Sobre Ribeiros Rasos, que percebi a relação bonita entre o nome de meu avô e o meu. O nome de meu avô era Silvestre Ribeiro, e, o meu, Osvaldo Luiz Ribeiro. Meu avô era um ribeiro silvestre, e, eu, um iluminado ribeiro da floresta. E, se da floresta, também silvestre. Estávamos mais juntos do que eu podia supor. E, desde aquele dia, desde aquele iluminado dia, quando construía minha pequena catedral com as pedras que me jogaram, sinto afeição por meu avô. Uma saudade enorme. Uma vontade muito forte de conversar com ele, ainda que não soubesse absolutamente o que lhe diria, o que ele me diria, sobre o que conversaríamos. Talvez apenas nos olhássemos, sentássemos no degrau da varanda, e só.

Meu avô morreu antes de minha avô. Não fui ao enterro. Não me levaram. Não sinto falta de ter ido. Não me recordo do rosto dele, morto. Tanto melhor.

Depois, morreu minha avó. Antes, tratou de vender a casa, o quintal. A família que sempre nos dava roupas usadas a comprou. Estão lá até hoje. Foi-se vovô. Foi-se vovó. Foi-se a 421. Depois que eles se foram, foi-se também o mundo mágico da Av. São Paulo. Disse pra Bel que um dia recompraria aquele endereço. Sábia, ela me disse que não adiantaria, porque a magia já está desfeita. É verdade. Triste verdade.

Talvez um dia, quem sabe, não sei, eu possa olhar, de novo, nos olhos do meu avô. Não sei se nos reconheceremos. Pedirei a ele pra fazer aquele aro de ferro que ele fez uma vez, aquela vara de vergalhão com a ponta trabalhada em curvas, e iria empurrando meu aro pela rua, girando-o, girando-o. Não aprendi com ele as palavras. Elas se tornariam deslocadas naquele encontro.

13/09/2006 13:12

Tuas águas correram tranqüilas e silvestres. E pararam. Mas apenas para continuarem seu percurso no leito do meu corpo, entre as margens dos meus olhos, no fundo da minha alma.

 

 

 

 

Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
P'ra mudar a minha vida
Vem vambora
Que o que você demora
É o que o tempo leva
Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Dentro da noite veloz
Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Na cinza das horas

(X)

Meu pai

Foi difícil arranjar uma vaga para mim na escola. Na época, dormia-se na fila. Meu avô, agora lembro-me, ficou um ou dois dias na fila, não tenho certeza. Havia pouca vaga, e gente demais para preenchê-las. O resultado era restringir-se as matrículas a meninos e meninas que não soubessem ler. Foi minha primeira mentira institucionalizada. Mamãe me disse para não ler. Não li.

Sentada à mesa, uma senhora austera. Na mão, uma caneta. Sobre a mesa, uma folha de papel, escrita. Lê aqui, ela disse. Eu olhei para o papel, o papel, para mim, olhei para ela, e fiquei com aquela cara de bobo. Como não sei mentir, acho que ela viu que eu mentia com meu silêncio falso. Mas não fez nem disse nada. Eu acabava de ganhar uma vaga.

Dias depois, estava lá eu, sentado na cadeira, a professora escreve algo no quadro, e eu, esquecendo-me de que não sabia ler, li em voz alta: ligue. A professora olhou para trás, perguntou quem lera, e todas as canetas da sala, não, eram lápis, apontaram para mim. Mamãe foi chamada. Chorou. Adiantaram-me uma série. Estava eu na escola.

Nessa segunda série, compareci na sala da diretora. Não tenho mais a mínima idéia do que se tratava, só que era um procedimento geral. Todos os meninos e meninas foram, cada um na sua vez. Acho que eram exames médicos. Não sei mais. Não importa. A diretora fazia perguntas. Não me pergunte quais. Mas uma eu lembro. Ela: qual o nome do seu pai? Eu disse: Osvaldo Luiz Ribeiro. Ela me olhou. Esse não é o seu nome? É. Então você deve ter um "filho", um "neto", alguma coisa. Não. Só Osvaldo Luiz Ribeiro. Ué, mas o nome do seu pai não pode ser igual ao seu nome. É sim. Ela pôs lá.

Cheguei em casa, e contei à mamãe. Ela me olhou. No dia seguinte, foi à escola. Deve ter explicado as coisas. E eu, então, tive o primeiro momento de consciência de minha absoluta alienação. Não sabia o nome de meu pai. Mamãe, depois, contou-me o nome dele. Mas o nome também não era aquele. Era um nome que ele usara, mas falso. O nome dele era outro. Como eu não fora registrado por ele, só com o nome de minha mãe, não tinha como saber. Só quando já era mais velho, perto dos dezessete, eu soube. Não vem ao caso aqui. O interessante é que meu nome é o nome falso de meu pai, quer dizer, o primeiro nome. Osvaldo, ele, Osvaldo, eu. Mas, o dele, não era verdade. O meu, tornou-se. Um pai de mentira, um nome de mentira. Faz sentido.

O que vem ao caso é que eu não sabia o nome. Nem o tinha presente. Minha mãe conta que um dia o viu, mecânico, enamorou-se e pronto. Alto. Louro. Gaúcho. Forte. Olhos como os meus, de um verde que quase nem se diz. Filho de italianos. Do sul da bota. Caminhoneiro. Estradeiro. Sem paradeiro.

Nasci em Mesquita. Segundo, de uma ninhada de quatro. Depois fomos para Goiás. Porangatu. Não me recordo de praticamente nada. Nem de meu pai. Há uma cena em minha cabeça. Um Jippe. Um rio. Eu, agarrado ao pescoço dele, nas suas costas. Ele mergulha comigo. Mais nada. Mamãe diz que costumávamos nadar no Araguaia. Como não aprendi a nadar até hoje, faz sentido a lembrança.

É tremendamente ruim não ter lembranças. Talvez, nem tanto. Não sei como eram as coisas. Aprendi que mamãe ora conta o que interessa, ora inventa memórias. Sempre guardou coisas para si. De modo que não sei o que passávamos, se bem, se mal. Só sei que de nada eu me lembro, nem de quando, diz mamãe, caí num poço abandonado, daqueles que lá se cavavam para fazer dele uma latrina. Nunca tendo sido para tanto usado, estava coberto de mato, e eu caí lá dentro. A dona que desceu pelas pernas de três para me tirar de lá arranhou-se toda. Eu, diz mamãe, nem um arranhão. Como caísse sentado, suspeitava-se de uma possível infertilidade, que não se confirmou, Israel e Jordão que o digam.

Contam-se histórias. Dias havia que papai chegava e jogava um monte de maços de notas sobre o colchão. Depois, perdia tudo, de um jeito que nunca me ficou muito claro, e mamãe nunca fez força para que ficasse. Ele teria tido quatorze carretas, tipo FNM. Perdera tudo. Uma das pedreiras de Nova Iguaçu. Igual destino. Ele enfrentaria qualquer motor de qualquer carreta. Para ele, era como jogo da velha. Muitos amigos. E inimigos.

As coisas não devem ter sido boas. O fato é que mamãe meteu-se numa viagem de carroça e ônibus, e veio de volta para a casa da vovó, não sei em que condições. Grávida da caçula, que nasceria aqui, cabendo na palma da mão. Lembro-me da esquina da Rio de Janeiro com a São Paulo. Do portão da 421. Um menino lá, era o meu primo, Julio. Tinha na mão um aviãozinho de plástico. Daí em diante, quanta história.

Eu devia ter, aí, por volta de quatro, cinco anos. E meu pai sumiu pelos dez seguintes. O que tenho dele na mente, está no subconsciente. É um período importante, o da primeira infância. Não necessariamente de formação de conteúdos, mas de estruturas. O que quer que tenha sido minha relação com papai, está lá, na estrutura de minhas sinapses. E eu não tenho a mínima idéia do que isso tenha significado, nem das implicações concretas disso hoje. Não se passa incólume a isso, é claro, e a minha história com meu pai deve ser, certamente, responsável por grande parte do que sou hoje. Mas, além das noites eventuais de choro, não saberia apontar para uma esquisitice minha, e dizer, ah-ha, tá aí. Que tá, tá. Mas o que, e quando emerge, não sei.

Ele, então, belo dia, bate à porta da casa da vovó. Foi um susto. Chegou num Maverick bordô, sem capu, vindo das bandas de Goiás. Na estrada, o vento o havia arrancado. Conversas de adultos, ele acabou ficando. Eu devia ter uns quinze ou dezesseis anos. Fiquei alegre. Acho que muito. Não tinha traumas de ausência que me fizessem olhar para ele, dar língua, e esconder-me debaixo da cama. Se hoje ele voltasse, eu o abraçaria, carinhosamente. Foi o que fiz, então. Traumas, não. Pelo menos não na superfície. O aceitaria de volta, sem problemas. Passeamos de Maverick naquele dia. E os dias passaram.

Lembro-me do perfume que ele usava: era o Très Brut de Marchand. Um frasco aerosol verde. Nossa, que cheiro bom! Até hoje, sentir o cheiro do desodorante, é lembrar dele. Esse cheiro é um incenso. É quase religioso. Impõe-me reverência. Faz-me arquiteto e engenheiro de cenas natimortas, mas vivificadas para a sanidade da alma e do corpo. Furtei uma baforada do aerosol, uma vez. Desde então, o sagrado tomou-me o corpo. Entrou-me pelo sovaco, que coisa!

Ensinou-me a fazer rede de pesca. Esqueci já. Aprendi a jogar tarrafa. Mas esqueci, também. Minha vida não mudou muito naqueles dias. Ele, tentando arranjar emprego, eu fazendo redes pra ele, estudando. Uma vez, era prova de Geografia, eu acho. Eu estudava de manhã. Antes de sair, arrisquei uma daquelas que, no passado, me deixara com cara de tonto, diante da menina, na fila da merenda. Pai, deseje-me sorte. Ele: que sorte que nada. Tem que ter é estudado. Cruz credo. Claro que eu estudara. Só tirava dez. Não era isso que eu queria. Queria outra coisa. Mas fiquei nisso mesmo.

Arrumou um emprego de entregador de água, motorista de carro-pipa. Numa noite, fui com ele, entregar água. Divertido.

Outra vez, meti-me a poeta. Culpa de meu primo, Julio. Inteligentíssimo. Meteu-se a escrever. Eu, com inveja, também. Rabisquei umas linhas poéticas. Corri e mostrei para papai. Ele disse que estava muito fraco. Que eu tinha que me esforçar mais. Não me esforcei. Se dependesse daquele olhar, daquelas palavras, daquele dia, nunca mais escrevia.

Minha vó tinha uma inquilina, que tinha sobrinhas. Muitas. Uma delas, Rita. Me deu um cartão de Natal. No quintal de casa, tinha a mangueira e a goiabeira branca. Entre as duas, uns dois metros e pouco acima do chão, um tronco. Fazíamos o tronco de rede, e brincávamos de vôlei. Rita e eu brincamos ali uma tarde. Só uma. Levei uma bronca, de mamãe, porque deixara de tecer a porcaria da rede. Meu primo, um outro, então, contou pro meu pai sobre a Rita. Não havia nada, absolutamente. Talvez a palavra flerte valesse, mas eu era tímido demais para alguma coisa além disso. Ele imediatamente perguntou: já fizeram sexo? O chão se abriu, eu caí até o fundo, ficando lá, soterrado. Mamãe brigou com ele, e ele disse umas coisas lá. Definitivamente, vivíamos em mundos separados.

Ele sabia dependurar-se pelos pés. Segurava no caibro do telhado, levava os dois pés até a parte de cima do caibro, punha os peitos dos pés firmados sobre o caibro, e dependurava-se. Dizia que era necessário treino, inclusive de luta, que ele, dizia, dominava. Nunca tentei. Fazia minha piruetas, mas não aquilo. Uma vez ele mandou que eu pulasse na cintura dele, prendendo-me com as pernas, que ele me seguraria. Eu pulei. Ele não me segurou. Caí feio, e bati com as costas e a cabeça no chão. Ele, então, contou-me uma história. Um menino, na janela lá do alto. O pai, embaixo. Manda que ele pule, que ele segura. O menino pula. O pai sai da frente. O menino, claro, esborracha-se no chão. O pai ensina ao filho a lição número um da vida: não confia nem em papei. Coisa imbecil. 

Um dia ele chegou em casa de carro. Deve ter bebido. É, bebera, sim. Trazia compras no banco traseiro. Mamãe foi abrir o portão da garagem. Quando ele foi entrar, esbarrou na coluna de sustentação do portão. O muro veio abaixo. Tinha grades em forma de lança. Uma delas abriu a batata da perna da mamãe. Nossa, foi horrível.

As coisas não ficaram boas depois disso. Aí, então, elas já não estavam boas. Ele não arranjava emprego. Vovó e ele não se entendiam. Um belo dia, ele me colocou no banco da frente do Maverick. Conversamos, eu acho, como homens. Não sei o que é isso direito, mas parece que foi isso. Ele me disse que a situação estava insustentável. Que ele teria que ir embora, porque ele e vovó não estavam se entendendo. Então ele se foi. Sumiu. E nunca mais o vi.

Soube que ele perambulava pelo Centro-Oeste. Em 88, mamãe informou-me que ele havia morrido. Ela, parece, recebera uma carta. Ela sempre recebia umas certas cartas, misteriosas. Não chorei, quando soube. Eram dias de doença grave, uma úlcera maldita no meu calcanhar. Israel bebê. Nós, comendo à custa das sopas da LBA. Não tinha lágrimas sobrando. Até que elas exigiram sua romaria pela face, e permiti que rolassem. Chorei. Não sei exatamente as circunstâncias da morte. Sequer se morreu mesmo. A história do nome falso o perseguia, e a mim e, entre um nome falso, e uma morte falsa, pouca diferença. Talvez tenha morrido mesmo. Não sei.

Hoje, sinto saudades. Não uma saudade da presença, mas uma nostalgia da idéia de pai. Imaginar pai e filho, às vezes, é um remédio para a falta de lembranças, e falta, simplesmente, porque não há o que ser lembrado. Se andava de caminhão com ele, pelas estradas de Goiás, não lembro. Se corríamos no quintal, não lembro. Se ele contava histórias, não lembro. Se sorríamos um para o outro, não lembro. Não lembro de nada. Maldição? Bênção? Deus o sabe. E, claro, mamãe. Talvez um dia ela me conte. Mas há coisas que a gente prefere esquecer, fingir que nunca aconteceu. E há mistérios do outro lado dos dias.

Uma coisa ele me ensinou. Rara. Mas preciosa. Lembro de uma tarde. Não sei o que havia acontecido. Mas lembro-me de entrar no quarto da vovó, em que ele e mamãe passaram a dormir. O quarto estava vazio. Dentei na cama, e chorei. Lembro de ter chorado muito. Aqueles choros que a gente chora com o corpo todo. Ele entrou. Viu-me chorando. Sentou e perguntou o que era. Disse a ele que queria ser como os outros meninos. Ele me disse para eu ser eu mesmo. Não sei se tornei-me o que sou, tão diferente do padrão, por conta do que ele disse. Mas é bom guardar na memória aquela tarde, aquelas lágrimas, e aquela alegria. Éramos pai e filho. Fomos, ali, pai e filho.

Se carrego traumas comigo? Talvez. Severíssimo comigo, austero com a minha alma, recuso-me a dor, em público, para mortificar-me, em segredo. Digo a mim mesmo que preciso ser forte, superar, vencer e vencer-me. Se eu repito isso a mim mesmo quatrocentas e dezoito vezes, acabo crendo. Mas a gente sempre escorrega, esquece, fraqueja, e, então, confesso a mim mesmo que quero colo. Nesses momentos, só chorando. E Bel me empresta o colo morno. Logo passa, e a vida continua.

Oh, não, não, não. Bel não se tornou substituta de pai e mãe. Bel é minha amiga, amante, confidente, companheira. Oh, sim, sim, sim. Sei bem a diferença. Mas não há montanha que não guarde, pequenos, frágeis insetos. Há horas que o vento bate gélido, e não temo em correr e pedir socorro. Às vezes choro só. Três ou quatro soluços, que soterro na imensidão da civilizada. Outras, a noite é negra demais, e o choro, mais forte. A mão meiga, o colo tenro, me aconchegam. E não dói mais. Não há verso bíblico mais verdadeiro que aquele que diz que é melhor serem dois, do que um...

Não sei quanto de minha relação de filho dele afeta minha relação de pai dos meus meninos. Tenho consciência de que os educo para a vida, para que eles mesmos peguem-na, e dêem seu destino a ela. Nutro um amor muito profundo por Israel e Jordão. Mas, no fundo, sei que eles são eles, que a vida é deles, lhes pertence, e não a mim. É como se a vida, Deus, chamem como quiserem, emprestasse de mim meu corpo, e, dele, arrancasse pedaços, para fazer outros corpos. Entre eles, os corpos, apenas relação de origem. Mas a vida é outra. O destino, outro. Olho para os dois e os vejo assim: criaturas da vida, a caminho de seu porto. E gosto disso. Preparo-me desde seu nascimento para sua partida, e vejo que ela começa a se tornar próxima. Logo, casarão. Logo, abrirão as asas, e eu ficarei na varanda, repetindo-me que sabia.

É diferente com a Bel. Eu a tomei da vida. Amarrei-a a mim, com laços de amor e desejo. Não a deixo ir, porque já não é ela. Sou praticamente eu, fundido, colado. A vida não me tirou ela de mim. Eu a vi passando, agarrei-a, e a tomei para mim. Quer dizer, isso é o que eu digo. Na verdade, eu passava, ela me viu, me agarrou, e me tomou para ela. Não sou mais meu. Sou dela. Não sou mais eu, sou ela.

De um jeito ou de outro, agradeço a vida ter-me arrancado do corpo de meu pai, ter-me dado vida, existência, pés. Que me importa se tive pouco carinho dele, se, ao menos, aqui estou, pronto para amar, viver, sorrir, chorar. Ah, vale cada minuto de dor e de alegria, de sol e de chuva, porque, simplesmente, estou aqui, e, quando olho para o lado, lá está ela, morena, deitada, de pé, sentada, andando, parada, morena, linda. Lá estão eles dois, desejosos pra ficar, desejosos pra partir.

Pois podem ficar, anjos, e podem partir. Batam as asas úmidas do casulo. Exponham-nas ao sol. Deixem que sequem. Exercitem-na. E, então, quando virem extraordinária borboleta voejando, saltitante de excitante primavera, batam poderosamente as suas próprias asas, e formem par. Verão que a vida não tem idéia do que nos preparou, de filhos, a homens...

14/09/2006 9:28

É barroca a minha dor, é lágrima e amor. Choro a ausência, mas também a saudade. Alegro-me da fumaça da memória, que invento, para sorrir. E sorrio, fingindo não ser dor a dor que é. Melhor assim, que banhar de sal a vida que me banha.

 

 

 

 

A Nostalgia morou dentro dos meus muros. Animava minha alma, lá, nas estradinhas, debaixo da mangueira. Ela tem saudades. Nostálgica, me assombra, e quer me levar de volta para o quintal, do outro lado dos dias.

Iria contigo, Nostalgia. Iria. Mas o Prazer me trouxe uma outra fêmea, irmã tua, e a pele dela é mais quente do que todos os sóis daquelas tardes.

Ironia, tua irmã, aprontou-te, Amiga! E não há consolo. Só mesmo uma mulher para apagar da alma de um menino o sonho das primaveras verdes.

(XI)

O quintal

Bem, não tem jeito mesmo, e devo confessar que estou numa fase down. Uma fase deprê. Um dia estudarei isso mais a fundo. Por enquanto, satisfaz-me perceber que funciono assim: períodos de grande euforia e produção literária, e momentos de muita depressão e baixa produção. É como se, enquanto estou eufórico, tudo quanto fora fermentado, no fundo das sombras da minha alma, eclodisse, em mil cores e tons, mil ruídos e sons, uma palheta fantástica. 

Mas que se esgota rápido. Para o que, então, parece ser necessário outro período de incubação. Eu acho que estou nesse período. Estava eufórico. Muito. Puxa! Não largava um segundo minha Tese de Doutorado, que estou escrevendo para a PUC-Rio. Mas aí, ai, tive um problema justamente lá. Tive de parar a Tese e resolver um problema de data/comunicação. Esse acidente/transtorno custou-me muita energia, e esgotou-me. Achei que ficaria curado depois do Congresso de Goiás. 

Não fiquei.

Voltei ainda pesado, vazio. Ainda que tenha produzido um texto, que considero bastante maduro, sobre o enfraquecimento necessário da idéia de Deus. Na verdade, todo esse blog é fruto de depressão periódica. Pelas datas das assinaturas, pode-se perceber. Um leitor apressado talvez julgasse que fosse um arroubo de criatividade. Mas não é. É o transbordamento de uma depressão, que se traduz em saudade. Nostalgia. Minha depressão não é suicida - é nostálgica.

Nostalgia do quintal da São Paulo, 421. Ali passei os melhores dias da minha infância. Não os trocaria, absolutamente, todos, por um dia sequer dos que passei ao lado da Bel. Mas, quando estou deprimido, o vento sopra sobre aquela terra, e o cheiro de iodo da chuva me vem às narinas, e, como Yahweh soprou na 'adamah, e fez dela um boneco animado, esse vento me sopra e me ressuscita a memória. Levanta-se da terra a Nostalgia, e seus profundos olhos de saudade.

Éramos muito criativos, eu acho. Brincávamos de carrinho. O chão, sob a mangueira, minha mangueira, era de terra. Calçada, somente em torno da casa da vovó, e como extensão da varanda da casa dos fundos. O restante, terra. Uma terra de cor clara, meio terra, meio areia. Pegávamos uma pedra, que fosse chata e tivesse um dos lados cortado em reta, ou, então, um pedaço de madeira, ou, ainda, uma caixa de pasta de dente, ou algo parecido, e, apoiando a parte cortada reta no chão, aplicando força, começávamos a fazer estradas na terra. Quatro ou cindo dedos de largura, no máximo. E íamos rasgando o chão, engenheiros.

Quando estávamos inspirados, fazíamos dezenas de metros de estradas, que desenhavam curvas, se entrecruzavam, contornavam o tronco da mangueira e da goiabeira, iam lá longe, lugar nenhum, e voltavam, só para a gente poder ter uma grande reta. Imaginávamos traçados. Recortávamos desenhos de todos os tipos. A terra era dócil.

Um montinho de terra ia se acumulando no acostamento das estradinhas, de fora a fora, por todas as extensões do traçado das pistas. Tentávamos fazer colinas, mas era difícil, porque a terra não era muito úmida e firme. Olhávamos, apreciávamos, avaliávamos. Dávamos como pronta a estrada. E chegava a hora de brincar. Coisa que digo por dizer, como se fazer as estradinhas não fosse, já, e das boas, brincadeira.

Se tínhamos carrinhos de plástico, não era sempre, lá íamos nós, vrum-vrum. Se não, que importa? Caixa de fósforos! Bastava tirar a parte de fora, e ficávamos com a caixinha em si, aquela parte em que são guardados os fósforos. Não duravam muito, porque a parte de baixo, sendo arrastada nas estradinhas, se desgastava rápido. Mas tinha a vantagem, nesse caso, de poder comportar um projeto de bonequinho dentro. E havia umas mais caras, que eram feitas de uma madeira muito fininha, finíssima, mas que davam um ar de carro de luxo aos nossos carrinhos de estradinha de terra. Pegar essas caixas de fósforos era tirar a sorte grande.

Quantas horas passávamos nisso? Sei lá. Dias. Acordávamos, antes mesmo do café, da higiene, da TV, lá íamos para debaixo da mangueira, primeiro, para ver os estragos da noite, do sereno, porque naquela época serenava em Mesquita, hoje, não mais, e, então, para consertar o que era necessário. O custo de manutenção era a alegria, o material, a fantasia, e os votos que ganhávamos eram nossos sorrisos. Ouvíamos vovó ou mamãe ralhando, fingíamos que não ouvíamos, até onde podíamos, e, depois do café e da escova de dentes, voltávamos para o DETRAN. Até que a noite nos lembrasse que havia um muro lá na frente, e a algazarra das crianças na rua, nos empoleirasse nele.

O muro da 421 era um point. Isso era muito curioso. Nós não podíamos brincar na rua. Só depois dos quinze, pelo que eu me lembro, é que eu pude jogar bola na rua. Não é à toa que eu sou um perna-de-pau, ainda que poderia ter-me tornado um exímio goleiro. Lembro uma vez, dezesseis oi dezessete anos, na calçada não calçada de minha vó, eu, goleiro, o Cristiano ia bater um pênalti, e eu disse que, fizesse o que fizesse, a bola não entraria. Ele tinha um chute muito forte, e certeiro. Era dos melhores da rua. Ele tomou distância. A bola estava no meio da Av. São Paulo, e ele chegou até perto do muro do outro lado da rua. Correu. Chutou.

Eu voei. Literalmente. Uma das melhores pontes que eu já vi na vida. E ele chutou no canto. Esquerdo. Inferior. Poucos lugares piores pra um goleiro. Mas eu era goleiro. Voei. A ponta de meu dedo bateu na bola. Doeu. Senti que o osso ia quebrar. Mas firmei. Empurrei a bola pra fora. Caí no chão. Ralei cotovelo. Cumpri minha palavra. Jamais esquecerei a cara de todos eles, que me olhavam. Inacreditável.

No retiro de carnaval da igreja batista de mesquita, onde era membro, ganhei medalha de goleiro menos vazado. Eu e outro menino. Mas ele teve um jogo a menos. Não devia ter ganho. Além do que, era 89, ano em que eu começava a minha tortura com a úlcera no pé. Joguei com a ferida. Mas joguei. Alguém me disse que faria gol. Eu disse que não, e ainda pagava um refrigerante. Não fez.

Depois abandonei a bola, porque o futebol entre aqueles meninos era violento demais. Um ou dois anos depois, no gol, sempre, fui defender uma bola. O atacante chutou o que tinha na frente. A pele da minha canela foi sendo arrancada até perto do joelho. Não gosto de futebol a esse ponto. Nunca mais, desde então, joguei bola.

Talvez, se eu tivesse sido descoberto... Quem sabe o Brasil não teria um bom goleiro? Eu também corria muito bem. Uma guepardo na savana. Mas nunca me descobriram. Na época, nem eu sabia quem eu era.

Mas havia o muro. Uma boa dezena de meninos e meninas, ia dando seis, sete horas, já corriam para a calçada da 421. Nós, irmãos do quintal, empoleirávamos ali, e passávamos a noite, conversando, até que mamãe prometesse nos matar. Não lembro quanto tempo isso durou. Sei que um dia, mamãe mandou a gente entrar. Mandou uma, duas, três, dez? Sei lá. Mandou. E, então, não mandou mais. Quando entramos, já devia ser quase uma hora. Hoje, isso é a hora normal dos meus meninos. Mas, naquela época, isso era absurdo. 

Tentamos entrar. A porta estava fechada. A da cozinha, também. Chamar mamãe? Tá maluco? Procuramos uns panos de chão por ali mesmo, na varanda, e nos ajeitamos no chão. No dia seguinte, o coro comeria solto, mas, por hora, o sono cuidaria de nós. Lá pelas tantas, a porta se abriu. Nenhuma palavra. Entramos, esperando o cascudo. Passamos por ela, e ela nada disse. Nem veio cascudo. Dias depois, quando lembrávamos, os cinco, nós e ela, rimos muito. Ela ainda tentou se segurar. Compreensível. Mas não dava. Lembrar da cena dos quatro filhos enrolados em trapos, no chão, era demais.

Não sei por que os meninos e as meninas da rua iam lá pra nossa calçada. Ficávamos de bate-papo, eles, na calçada, nós, trepados no muro, até as tantas. Lembro que o muro da vovó era bastante antigo. Ele tinha uma parte de tijolos, e outra, de grades de ferro. Na ponta, cabeças de lança. O formato do muro lembrava uma muralha, alto nas pontas, e baixo na parte do meio. E era largo, com tijolos deitados, de forma que você podia sentar na parte do meio tijolo do lado de cá da grade, segurar-se na grade, com as pontas dela debaixo de seu braço, e ficar ali, até que a bunda ficasse dormente. Então, era só ir para o outro lado, e fazer o mesmo, com o outro lado da bunda. Disputávamos os lugares, que eram dois, e éramos quatro. Quem não sentasse, ficava horas em pé, com a cara nas grades. 

Havia um jeito melhor. Mas vovó mataria a gente. A grade não tomava todo o muro. As partes extremas do muro eram mais maltas, e, ali, havia uma plataforma de tijolos deitados. Era, cada um dos lados, como uma torre, e as grades nasciam de dentro da torre. Era a parte mais alta do muro, e você podia, se pudesse, sentar ali confortavelmente, tento, logo abaixo de você, saindo de entre as suas pernas, as pontas das lanças. Uma perna, ficava no meio tijolo da parte de dentro do quintal. A outra, no meio tijolo da parte de fora. Você ficava sentado no trono, lá em cima. E, você lá, todos falavam com você, olhando pra cima. Era o máximo.

Demoramos muito tempo, mais de ano, para conseguir o direito de sentar ali. No início, fazíamos isso escondido. Quando éramos pegos, acabava a farra. Perdíamos a liberdade naquele dia, no outro, até que a coisa esfriasse. Sempre esfria. Mas valia como projeto a longo prazo. Anos depois, já podíamos sentar lá em cima. O próximo passo foi poder ir para a rua.

Também brincávamos com giz. Desenhávamos foguetes no chão, agora, na calçada mesmo. Desenhávamos o contorno da nave, os comandos, a cadeira, o jato. Sentávamos, e fazíamos barulhos com a boca, para dar vida. E brincávamos assim.

Vovó e mamãe tinham uma amiga, falecida agora. Quando ela chagava lá em casa, e via os desenhos no chão, ficava apavorada, achando que a gente estava fazendo macumba pra ela. Era engraçado. Chegávamos a desenhar estrelas, e isso era um horror para ela. Zely, seus meninos...

Brincávamos de SWAT também.  E percorríamos cada centímetro quadrado do quintal, em todos os níveis, realizando missões. No chão, nas árvores, nos telhados, para desespero da vovó, geralmente, "o inimigo". A missão era não ser pego. Hoje, quando escrevo meus artigos acadêmicos, uso muitas expressões que me lembram o que fazíamos. Quando falo que o mito transignifica a realidade, vejo-nos, os quatro irmãos, olhando para o quintal, que não era mais quintal, era, agora, um mundo, que nós criávamos. Às vezes, era no quintal que estávamos, mesmo. Outras vezes, não. Aí, era num mundo mágico que nos movíamos, porque éramos todos mágicos.

Ah, e os brinquedos? Vamos lá: andador de lata. Pegávamos latas velhas, barbante, que vinha no pão da padaria, furávamos as latas com um furo em cada lado da parte de baixo, passávamos o barbante, subíamos na lata, medíamos a altura do barbante, até a altura da nossa mão, a gente de pé, e amarrávamos. Aí tínhamos sapatos de lata, que ficavam presos nos nossos pés, pelos barbantes, que segurávamos com as mãos. E lá íamos nós, andando. Era muito legal. Ploc, ploc, ploc.

Carro de lata de areia. Boa era a lata de Leite Ninho. Um furo no meio da parte de baixo. Um furo na tampa. Você passa um barbante nos dois furos e amarra as pontas. O tamanho, você decide. Enche a lata de terra. Fecha a tampa. Vira a lata de lado e começa a puxar, pelo barbante. É um rolo compressor. Não dura tanto, porque o barbante costuma arrebentar, carcomido pela lata recém-cortada. Arame até ajuda a durar mais, mas perde em controle. Legal era mesmo o barbante, enquanto durasse.

Arco e flecha. Era mais difícil. Como crianças, presas em quintal, conseguem um bom bambu? Difícil. Mas uma vez houve um trabalho na escolha, e eu precisa de bambu, para fazer um escudo de índio. Fui autorizado a ir com meu primo até o "valão", e pegar um. Conseguimos material para muitos meses! Fizemos arcos e flechas, e treinávamos em caules de bananeira, para desgosto de minha vó. Até que ela arrancou uma bananeira e deu o caule para nós, com a promessa de não atirarmos mais nas bananeiras dela.

Inventamos uma brincadeira em que esse caule, que durou uns meses, era um monstro. Levamos tão a sério que, de noite, ficávamos com medo do monstro. Minha irmã jura até hoje que viu o caule se mexer.

Divertidíssimo era brincar com o aro de ferro. Era um brinquedo sofisticado. Foi vovô que fez. Era uma roda de ferro, lixada, de uns  vinte, vinte e cinco centímetros de diâmetro. Você ia empurrando o aro, pelo chão, usando uma vara de ferro razoavelmente grossa. Você segurava na parte de cima, onde ela fora dobrada, para gerar um apoio fácil para a mão. A parte de baixo da vara de ferro era dobrada em vários ângulos, para formar uma cunha, onde o aro encostaria, para ser empurrado, no chão. Quando você encostava o aro nessa parte dobrada da vara, e empurrava, o aro começava a rodar, e virava uma espécie de carrinho.

Fazíamos arrancada. Você segura o aro no alto, com a vara, prendendo-o pela parte de dentro. Com um golpe firme, bate com o aro no chão, e ele arranca em disparada. Você tira a vara da parte de dentro, rápido, e a apóia na parte de fora do aro. Pronto: Fórmula 1. Éramos exímios pilotos. Eu dava voltas e mais voltas em volta da casa da vovó, cercada de calçada. Dava uns quarenta metros de perímetro mais ou menos. Era dez por sete a casa, mais ou menos. E eu, sempre eu, corria, corria.

Havia os caramujos. As formigas. Os morcegos. Rolinhas e pardais. Lagartixas, umas das quais, coitada, comida de um olho, mereceu Vick Vaporub na ferida. Como deve ter nos odiado, coitada. Saudades. Muitas. Crescer seria insuportável, não fosse a Bel. Juro que a única coisa que não me permite correr o mundo atrás da fórmula mágica de retorno aos muros da infância, é a Bel. E isso é bom.

É, eu acho. Como o Gottwald, que fala, deliciando-se, do mundo mítico, igualitário, não creio, original, das tribos de Yahweh. No congresso, agora, em setembro, ele disse que sim, cria naquele mundo tribal, mas que jamais quereria morar lá. Preferia seu mundo atual, com água encanada e TV. Entendo. Eu também não quero mais voltar para os muros da São Paulo. Pouca coisa mudaria de minha infância dentro daqueles muros, de tanto que ela me acalenta. Mas não trocaria os olhos da Bel, suas sobrancelhas negras, que me olham pelos ombros, juro que não. E eu sei porque: eu tocava o quintal. Minhas mãos tocavam o quintal. Como toco a Bel, meu quintal moreno. Mas a diferença, oh, Deus, e quanta, é que ela me toca. Ela me ama. Ela me vê. Meu quintal era meu, mas eu nunca fui dele. Vendido, é agora chão de outros pés, que pisam as flores da minha juventude.

Com ela, não são mais necessários os sonhos, porque eles moram na minha retina, e têm as letras do nome dela.

Lá, eu era um menino, a caminho de ser homem. Com ela, sou o homem que ali ia sendo criado, cada grão de sol, cada pétala de alegria, cada cheiro de dor, cada toque de mágoa, era eu me formando, mas sem ter deixado de ser aquele mesmo menino, que, agora, segurando a minha mão de homem, a entregará à minha mão de velho.

O mais curioso de tudo isso é que, enquanto estava empoleirado no muro da 421, Bel teria passado dezenas de vezes, de bicicleta, na pista de asfalto. Não havia lugar em Mesquita como aquela avenida, principalmente quando recém-asfaltada. Bel saída da Praça Sete Anões, onde, depois, noivamos, casamos e moramos, quando a úlcera me comia o pé, e ia andar de bicicleta, passando em frente à casa da vovó.

Alguma vez a terei visto? Se eu abrir as fotos freudianas da minha cabeça, lá estará ela, ela e a bicicleta dela? E nas delas, eu? Eu e aquela cena engraçada, de dezenas de moleques olhando para um poleiro, na calçada? Terá ela visto, lá no alto, no trono, um menino magro, louro, muito magro, muito, muito louro, muito, cabelos apontando pra cima, de tão arrepiados da incompetência dos barbeiros, sempre com dor de cabeça, até descobrir que era míope? Terá ela me visto?

Jamais saberemos. Foi preciso que eu fosse, aos dezoito anos, para a igreja batista do bairro. Lá, ela me esperava. Para isso fui lá. Todo o resto, eu sei, é acessório.

23/09/2006 17:06

 

Não o vejo.

Mas como?

Não está aqui.

Olha direito.

Tô olhando! Só tem uma sombra. E essa mangueira, sem folhas mesmo.

É grande, a sombra?

É triste. Acho que a árvore tá morrendo.

Deve ser saudades dele.

Deve ser.

Vem, me dá mão. Vambora.

Só mais um pouquinho... Quem sabe, ele não volta?

 

 

 

 

Cera e pavio. Posso morrer cera e pavio. Enterram-me, cera e pavio. Cera velha, pavio endurecido.  Imprestável na vida. Imprestável na morte. Vela apagada, pra quê? Promessa na gaveta. Vela enterrada, pra quê? Desprezo de vermes. Ou posso acender-me. Queima. Dói. Gasta-me. Mata-me. Mas nascer não é outra forma de morrer? Viver, morrendo? A vida, afinal, não é a fornalha da morte, cujo vestígio é a luz, se houver luz, se deixar vestígio? Queimo, pois. E a luz que queimo ilumina-me os olhos. Lágrimas quentes, pingando sobre meu caminho.

(XII)

No MOBRAL

É verdade, sim. Estudei no MOBRAL - Movimento Brasileiro de Alfabetização. E gostei. Muito. Eu tinha o quê? Uns dez anos, talvez, um pouco mais, um pouco menos. Na Rua Santa Catarina, paralela à Av. São Paulo, numa casa, havia um posto avançado do MOBRAL. Mamãe me colocou lá. Já sabia ler. Já sabia escrever. E daí? Havia cadernos, quadro-negro (verde), e a professora. Por que os dias do passado têm gosto de bala de anis?

Na verdade, comecei a estudar numa escolinha caseira, da Dona Valda. Uma negra bonita. Era na Minas Gerais, a paralela oposta à Santa Catarina, com a São Paulo entre as duas. Foi nessa aí que inaugurei minhas quedas na vala negra.

Naquela época, havia muitos mosquitos em Mesquita. Bota que bota "espirais" - a gente chamava de Durma-bem, mesmo, como chama as "lâminas" de Gillete. Bota que bota Flit. É que havia muitas valas negras, nascedouros de mosquitos. Nuvens intermináveis deles. Hoje, não têm tantos. E eu não reclamo. Em compensação, acabaram-se, também, os barrigudinhos, os caramujos, os insetos quase.

Mas lá ia eu para a Dona Valda, onde aprendi a ler e a escrever. Até a enchente de 88, quando Mesquita inundou, e eu perdi praticamente todos os meus papéis, inclusive as mais de cinqüenta cartas com que Bel deixou-se conquistar pelo projeto de homem que eu era, ainda tinha  a minha primeira prova. Um grande 10, escrito em vermelho. Meu primeiro, de uma série interminável. Minha carreira na escola foi uma coleção de 10. Quando tirei um C em Educação Artística, quase enfartei. Falei com a professora. Ela olhou pra mim, foi no diário, e mudou a nota, dizendo: "onde eu estava com a cabeça?". Foi pra essa professora que pintei, a grafite, os canhões de Paraty. Ela pôs no mural da escola. Não me devolveu, depois.

Nunca precisei estudar muito. Alguma coisa dentro da minha cabeça me ajuda a aprender com facilidade. Claro que eu prestava muita atenção às aulas. Gostava delas. Não conversava muito. Acho que esse é um bom segredo - prestar atenção às aulas, com interesse e gosto. Depois disso, é preciso muito pouco esforço. Naturalmente que há aquelas aulas chatas, e professores, mais ainda. Para essas e esses, o remédio é mesmo "estudar" em casa. Ossos do ofício. E vale a pena. Abrem-se os livros, sobre a mesa, e deixa rolar. Uma viagem!

Houve um livro. Nossa Terra, Nossa Gente. Nunca mais o vi. Meninos sobre uma arraia, de cidade à cidade, no Brasil, falando justamente disso, da nossa terra, da nossa gente. Maravilha. Delícia. E, claro, como não lembrar de Pompom, meu Gatinho?

Foi por causa da Dona Valda que tive de mentir que não sabia ler, quando fui para a escola formal. Naquela época, tão poucas vagas nas escolas públicas, excelentes, todas, que eu saiba (as minhas foram), os que não sabiam ler tinham prioridade. Claro, eu "não sabia". Saber, sabia. E bem. Mas mamãe instruiu-me, e eu fui bom aluno, a mentir. Já contei.

Não me lembro de detalhes, nem da Dona Valda, nem do MOBRAL. Só que era delicioso estar ali, escrevendo, estudando. Na Dona Valda, as provas eram no velho papel "almaço", pautado. Os cadernos, eram aqueles pequenos. Foi lá que me prenderam no banheiro, a primeira vez que colegas me aprontaram.

Não brigava. Que eu lembre, apenas uma vez, mas nem conta. Eu tinha um amigo. Isso era já no segundo grau? Não, no Ginásio. Sei lá. Ou era o fim do ginásio, ou o início do segundo grau. Mas acho que era o fim do ginásio mesmo, porque estudava de tarde. Naquela época, no Vocacional, jogávamos ping-pong. Fazíamos as raquetes lá mesmo, nas aulas de Técnicas Industriais. O chão era revestido de enormes lajotas de cimento, cujos retângulos providenciavam excelente marcação para uma "mesa" de ping-pong, com o inconveniente de você ter de jogar curvado. Havia dezenas de lajotas, dezenas de duplas. O recreio era merenda e ping-pong.

Num desses jogos, não sei mais por que, Arialdo e eu brigamos. De um chutar o outro, enquanto são segurados pelos outros colegas. Nem sei se ele e eu nos acertamos. Sei que fizemos as pazes no dia seguinte.

Uma outra vez, e única, brigamos Marcelo e eu. Ele me jurou me pegar na saída. Era a moda: te pego na saída. Naquele mesmo dia, quando saía da escola, ele tentou me dar um soco pelas costas. Só vi um corpo passando ao meu lado, tropeçando nas pernas, e se espatifando no chão. Era o Afrânio, um outro colega, menos íntimo, até, que o próprio Marcelo. Mas, antes que este me acertasse, ele o esmurrou com tanta força que o coitado catou cavacos e beijou o asfalto. Deve ter se ralado todo.

Não sei se aquilo foi bom ou mal, porque, claro, todo mundo viu que eu fui defendido. E o fui, é certo, primeiro, porque era franzino, e certamente apanharia, principalmente pelas costas. O Afrânio fez as contas, e agiu. Depois, porque dava cola para a turma forte da sala. Não tinha interesse nenhum. Mas dava. E Afrânio, eu acho, quis retribuir. Valeu-me as costas ilesas, e uns comentários maldosos. E só.

Lamento que minhas histórias de pugilismo estudantil acabem assim. Quer dizer, pelo menos no que diz respeito aos "causos", que não os tenho pra contar. Mas não lamento pela minha pele, preservada. Poucas marcas ela traz, para eu contar para a Bel, enquanto ela a acaricia...

Um capítulo à parte são as professoras. Lembro-me da Dona Teresinha, da terceira série. Gostaria de revê-la. Ela era bastante bonita. Pelo menos era o que eu achava. Ainda que, naquela época, jamais imaginaria o que significa, na prática, o amor. Se me recordo que a achava bonita, provavelmente era porque ela era carinhosa comigo. Quando você não é criado por um casal, e, além disso, é criado preso, e sem TV, e na cidade, não tem percepções sensuais antes de ir para a escola, e de ficar lá um bom tempo. E, na terceira série, eu era ainda muito "inocente". Até os animais me eram interditados. Mamãe sempre teve, apenas, cadelas, e elas não cruzavam. Vovó e vovô nem se beijavam. E nunca vi mamãe com um namorado, até muito, muito tempo depois disso. As saúvas cruzam no ar, e nem elas me deram lições sobre biologia. Moral da história...

Na roça deve ser diferente. Os meninos e as meninas têm contato desde muito, muito cedo, com a sexualidade natural. Isso é muito interessante, quero dizer, o fato de eu ter sido "preservado" do contato com a sexualidade social até uma idade relativamente avançada. Não é uma coisa de todo recomendável, porque os efeitos colaterais são muito ruins. Mas tem seu lado positivo.

O lado positivo, eu diria, consiste numa espécie de independência sexual. Não há padrões que você se veja obrigado a seguir. Seu próprio corpo vai falando, à medida que você vai crescendo. Claro, aí vêm os meninos da escola, as "revistas" tipo Vida e Saúde, verdadeiras revistas "pornográficas" para um menino como eu. Lembro-me das revistas O Cruzeiro, e de mulheres estonteantes em maiôs. Hoje, aqueles maiôs não serviriam nem para a seleção de vôlei! Mas, para mim, aquelas visões eram dinamite. Bum!

Dona Teresinha, não. Não era uma "mulher", para mim. Nem u'a mãe. Era, simplesmente, Dona Teresinha. E eu a amei, com sensibilidade. Com ela, li, que eu saiba, meu primeiro livro: No País das Formigas, do Menotti del Picchia, que devorei. Ganhei-o naquelas "cartelas", que você vende os números, e, então, ganha um brinde. Não sei onde foi parar o Menotti. Perdi-o.

Outra professora que me marcou foi a Hilda. Aí era já o Ginásio. Lembrar dela, é lembrar do Mauro. Talvez um dos meus melhores colegas de escola. Estudávamos juntos. Hilda era professora de biologia, e, naquela série, estudávamos zoologia. Ela exigia um caderno de desenho, e você tinha que desenhar todas as famílias, gêneros e espécies de animais. Decorei tudo. Pouco tempo atrás, meus filhos davam o mesmo assunto na escola. Testaram-me. É, eu ainda estou afiado. Quanto ao Mauro, um dia sonhei que ele me dizia que ia embora. Nunca mais o vi. Sonhei apenas? Ele me contou, esqueci, e sonhei, e me recordo só do sonho? O que sei é das tardes, à mesa redonda, desenhando gafanhotos, morcegos e peixes-boi.

Tantos outros e outras. Tantos. Que me marcaram. Não posso lembrar de todos. Uma vez, era dia da professora, e eu queria dar um presente para uma delas. Como? Mamãe, dura como um coco. Eu, filho de coco... Vovó tinha uma prateleira, daquelas antigas. Dentro dela, havia artesanato de conchas. Um deles, era um passarinho num ninho, bonitinho. Mamãe, hum, "catou" o bicho, embrulhou, e me deu. Tinha ainda teias de aranha. Limpamos, claro. Lá fui eu, correndo. Sempre correndo.

Caí. Tropecei, eu acho. O passarinho, no embrulho, voou metros lá longe. Já estava tão perto da escola... Quando o apanhei de volta, tinha voltado à sua condição original de um amontoado disforme de conchas. Quando cheguei em casa, mamãe perguntou se a professora tinha gostado. Disse que, sim, oh, sim, e como. Mas era mentira, claro. Vi meus colegas entregando seus presentes, e enfiei-me na cadeira. E menti para mamãe. Quantos erros ali: um roubo, uma mentira, e, agora, essa memória.

Lembro-me de um concurso de corrida de saco. Ganhei. E um pirulito. O mais gostoso de toda a minha vida. Não imagina o que era eu ganhar uma corrida de saco. Faça força, vai. Ha! Ha! Nem chega perto.

É curioso como eu posso aprender qualquer coisa, e, depois, falar sobre isso. Talvez por isso me tenha tornado professor. Sempre foi assim. Era ler os textos, e vomitá-los. No início, timidamente. Depois, avassaladoramente. Quando estou falando em público, depois de passado o terror das primeiras palavras, parece que é outro Osvaldo. E deve ser, mesmo, porque o Osvaldo, que sou eu, preferiria estar passeando na Lua, voando nos anéis de Saturno, a estar ali. Mas, já que está, parece que entrega a boca a outra personagem, um outro falante, de outro mundo. Uma possessão das idéias, eu acho.

Às vezes, acho que podia ter sido qualquer coisa. Quisera ser astronauta. E podia ter sido! Não era sonho. Eu tinha um Atlas, grande, cujas primeiras páginas discorriam sobre o Sistema Solar e o Universo. Eu li aquilo oitocentas vezes. Decorava tudo, até as distâncias entre os planetas. Sabia de cor os nomes de todos os satélites de Saturno e Júpiter. Conhecia as medidas de distância. Queria ser astronauta. Principalmente depois que achei um livro da vovó sobre a conquista espacial norte-americana. Podia ter sido, sim.

Mas eu não sabia nada de nada. Só fui me dar conta de Universidade, quando estava na última série do segundo-grau. Nesse sentido, o Seminário foi uma bênção, porque iniciou-me numa carreira. Fiz a graduação em Nova Iguaçu, no campus avançado, de 87 a 92. Tive de parar um ano, por causa da úlcera no calcanhar. Depois, fui para o Mestrado. Aí, já na Sede. Parei na metade, porque não gostava muito daquilo, naquela época. Depois, bem mais tarde, voltei. Aí já era 2001, e o curso havia sido totalmente remodelado. Lá encontrei o Haroldo Reimer, professor de Antigo Testamento.

De longe, e sem medo de magoar meus demais professores, foi o melhor que já tive na vida. Em todos os sentidos. Haroldo é o responsável pela reorientação de minhas pesquisas. Não abandonei teologia, definitivamente. Mas passei a me dedicar à exegese - e, modéstia à parte, acho que faço bem a coisa. Tive um excelente professor, que fez nascer em mim um apaixonado pela exegese da Bíblia Hebraica. Obrigado, amigo.

Hoje, estou a um ano, pouco mais, de terminar meu Doutorado. Ainda em Antigo Testamento, mas, agora, na PUC-Rio. Doutorado! Nem acredito. Eu estava, um dia, navegando na Internet. Era o Coordenador do Curso de Teologia, livre, do Seminário do Sul, na Tijuca/RJ. Já tinha meu Mestrado (livre), com o Haroldo. Estava preparando a documentação para entrada do Curso de Teologia no MEC. De repente, estava no site do MEC. Daí, na PUC. E, quando vi, estava mandando um e-mail, dos malucos que já mandei na vida. Uma semana depois estava sendo entrevistado pelo Dr. Bouzon. Um mês depois, era aluno. Bouzon faleceu recentemente. Estava esperando apenas que eu chegasse. Cheguei, ele podia ir pra casa...

Houve quem não cresse. Quem dissesse: como? Nem faculdade ele tem! E não tenho mesmo. Meus cursos de teologia, Graduação e Mestrado, são livres. A PUC aceitou minha Graduação, mas não o Mestrado. Aceitou-me, em parte, pelo Haroldo (orientador do Mestrado), e pelo Schwantes (examinador da Dissertação). Mas, também em parte, pelo meu trabalho, pela entrevista. Foi uma experiência sensacional. Um presente. Uma dádiva. Uma bênção. Uma chuva fresca em terra árida. Um vento fresco numa tarde de sol quente. Um sorriso amigo no meio da multidão. Nunca agradeci suficientemente ao Bouzon. Quando eu for para casa, lembrarei de agradecer mais uma vez. Se bem que acho que lá não haverá isso de ser grato, porque olharemos nos olhos, e acabaremos sabendo de tudo. Bel e eu somos já assim. É estar um do lado do outro, e basta. Mas ainda busco a palavra para dizer a ela. Sabe, aquela palavra, que diz tudo, que põe tudo sobre a mesa, depois da qual, mais nenhuma faz sentido... Não a achei ainda. Ela acha que não há. É provável. Mas, por que ela fica aqui, na garganta, querendo sair, como um choro, como um riso, cada vez que a olho?

Vou terminar meu Doutorado. E, então, não sei o que farei. Um Pós-doutorado? Tá na agenda. Terminar meu curso de História? Boas chances. Enveredar-me pela Lingüística, por conta da Análise do Discurso? Celeste diz que levo jeito. Parar, e só escrever? Adoraria.

Mas minha estrada não é minha. A Vida (Deus?) tem desenhado as estradas, como eu, as dos carrinhos de caixa de fósforo, sob a mangueira. Não faço planos. Planejo, sonho. Mas, sempre, a lápis. A mão do tempo me pegará a minha própria, e me encaminhará. Para onde quer que eu vá, irá o menino e o homem.

Dentro do homem, o menino olha. Pelos olhos do homem, o menino vê. Nunca deixei a Av. São Paulo: as grades do muro, as mãos na grade, os olhos nas mãos. Ontem mesmo, constrangi-me, homem, percebendo-me o olhar de menino. Foi num instante. Muito fugidio, mas, das duas uma, ou o homem flagrou o menino espiando, ou o menino percebeu que era observado pelo homem. E sorri. Um paro o outro, sorriam. Um para o outro, sorri.

Minha insaciável curiosidade pela vida é compatível com minha insaciável curiosidade com os livros. Sou seletivo. Excessivamente seletivo. Não leio qualquer coisa. Não vivo qualquer vida. A vida que vivo, tem de ser minha. Os livros, meus. A vida que vivo, tem que valer a pena. Os livros, o tempo.

Desde lá, com Dona Valda, com o MOBRAL, com os esforços de mamãe, encaminhando-me na escola, eu me forjava. Sou o que sou. E gosto disso. Sou o que fui. E gosto disso. E, sobre as pedras do que fui e do que sou, forjo meu amanhã, que serei. Eu gosto disso. Deus do céu, como eu gosto disso.

28/09/06 11:24

Te arrancam lágrimas dos olhos. Mas não te ferem. Espremem tua carne, e sangram-na. Mas não te ferem. Expõem tuas tripas, sobre a mesa, e riem delas. Mas não te ferem. Tu suas. Tu cansas. Tu choras. Mas não te ferem. Porque livros são amigos. Teus amigos. Mesmo quando te deixam nu. Os olhos com que te olham são mesmo olhos de Deus. Não, minto: são teus próprios olhos, te olhando, quando te querias esconder-te de ti mesmo. Malditos maravilhosos livros, que berram aos teus ouvidos todos os esquecimentos que te querias esquecer. Ogro mítico a devorar-te lentamente a carne. Mas não te ferem. Não, não te ferem. Não te ferem, não.

E, se te ferem, não são livros. São mãos descarnadas de almas assassinas. Fantasmas desossados, de bocarra. Esses, que te ferem, se te ferem, não são livros. Porque os livros, ah, os livros, não te ferem, não.

 

 

 

 

Hino Nacional Brasileiro

I

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da Pátria nesse instante.

Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó Liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!

Ó Pátria amada, 
Idolatrada,       
Salve! Salve!     

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece.

Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza

Terra adorada,    
Entre outras mil, 
És tu, Brasil,      
Ó Pátria amada!   

Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!

 

II

Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!

Do que a terra mais garrida
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
"Nossos bosques têm mais vida",
"Nossa vida" no teu seio "mais amores".

Ó Pátria amada, 
Idolatrada,       
Salve! Salve!

Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro desta flâmula
- Paz no futuro e glória no passado.

Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.

Terra adorada    
Entre outras mil, 
És tu, Brasil,      
Ó Pátria amada!   

Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!

 

A letra e a música foram extraídos da página oficial do Exército Brasileiro. Quis ser soldado. CPOR. Sobrei. Chorei muito. Não fui soldado. A vida continuou.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Faltam pedaços. Minha bandeira está rasgada. Nasceu rasgada. Cortada. Ferida. Por que minha bandeira é a própria terra brasileira, minha terra está rasgada, ferida. Nasceu ferida. Nasceu ferindo. Filho dessa ferida, não posso deixar de sangrar, também ferido. Curar-me, é preciso. Curando a terra, estarei curado. Curada a terra, minha bandeira tremulará, curada, sarada, serena. Hoje, não. Hoje ela tremula nervosa, varada de ventos que vão puindo seu tecido, esgarçando seu pano, desgastando suas cores. Resisto, porque a terra e a bandeira são meus pés e olhos. Tremular, sereno, esse é meu sonho.

(XIII)

Quero meu Brasil de volta

A essa altura, você já sabe que fui criado preso dentro de casa, sem TV até, pelo menos, a estréia do SBT, e sem muito contato com a "rua". Para além dos desdobramentos sobre a minha personalidade um tanto quanto anti-social (não, naturalmente, sociopática), minha visão-de-mundo também foi bastante afetada.

Um campo particularmente problemático de minha formação é o político. Eu usaria a palavra "alienação". Alienação na alienação. Sequer imaginava que era alienado. Claro: se você é alienado, você não sabe que é.

Lembro-me da Av. São Paulo durante as "eleições". Era a época da "ditadura", e havia apenas dois partidos: ARENA e MDB. Meu avô, pelo que me lembro, era pela ARENA (mas eu não sei se isso era apenas para apresentar-se "politicamente correto"). No passado, ele tivera um armazém, ao lado da casa, que fora saqueado em alguma situação, que não lembro qual. E, além disso, a ARENA era o partido "oficial". Minha mãe, também pelo que me lembro, era pelo MDB, mas ela não falava muito disso.

O que eu sei é que a Av. São Paulo ficava literalmente forrada de santinhos. Nós, as crianças, juntávamos toneladas deles. Para nós, era festa. Política era, então, colecionar santinhos na Av. São Paulo.

Houve uma época de campanhas sócio-comportamentais na TV. Cantava-se uma música, que vou transcrever aqui, da forma como me lembro dela:

O dever de construir não é só de nossos pais

vamos todos contribuir

com o esforço

para o bem de todos,

e para o Brasil progredir

o futuro

dessa nação

depende das crianças do Brasil

Tra-lá-lá lá-lá

Trá-lá-lá lá-lá-lá-lá

Nós, as crianças, colocávamos o chapéu de papel, que vinha no jornal, para recortar, e íamos marchando, pelo quintal, cantando essa música. Dávamos voltas e mais voltas entre os canteiros da parte da frente do quintal. A gente achava isso muito importante, porque, depois, ouvíamos a música na TV. Verdade seja dita - era divertidíssimo!

Na escola, tínhamos Educação Moral e Cívica, e, depois, OSPB. Tá, hoje sei que era parte de uma doutrinação político-social, mas, vamos lá, o que não é? E, de qualquer forma, não me recordo de jamais ter lido qualquer coisa sobre não pensar, não refletir, submeter-se, perseguir, denunciar, torturar etc. Eram apenas discursos bastante interessantes, que me lembre, sobre cidadania, civismo, respeito, organização etc. Pelo que me consta, assuntos todos muito necessários.

Na escola, cantávamos os hinos. Nós os aprendíamos em classe, e os cantávamos antes de subirmos para as aulas. Havia formatura para a entrada, e formatura no intervalo do recreio. O Hino Nacional era "sagrado", quero dizer, nós o cantávamos todos os dias. É verdade que, às vezes, era um "saco", além do que, também o é, muitos dos meninos e das meninas fingiam que cantavam. Mas não deixa de ser verdadeiro que aqueles momentos marcaram definitivamente nossa vida, e penso que para o bem. Hoje, sinto saudades de cantar os hinos, e lembro-me daqueles momentos com bastante carinho.

Havia um "ar" de nacionalismo, eu acho. Não em afetava conscientemente, mas por osmose. O Brasil era alguma coisa de significativo. Era mais do que um nome. Mais do que um lugar. Mais do que um mapa.

E tudo ficou para trás. De repente, nada mais de Moral e Cívica. Nada mais de OSPB. Nada mais de hino na escola. Acabou tudo. Acabaram com tudo. Será se foi a redemocratização? Sinônimo de aversão a tudo que é simbolicamente nacional? Não sei. Não entendo. Acabaram com a ditadura, e, com ela, jogaram fora todos os símbolos nacionais e cívicos?

Não sei. Hoje, falar de Brasil é parecer de "direita", "reacionário" etc. Ser de "esquerda" é marretar tudo quanto é nacional. Até as cores do Brasil viraram símbolo de "direita". E isso é triste, tristíssimo.

O fato de eu ter me tornado maior de idade não teve por conseqüência natural uma correção de minha alienação. Eu era, nessa época, uma simples projeção cronológica daquele menino da Av. São Paulo. Quando houve a eleição do Color, votei nele. Não me culpo tanto, hoje. Como podia ser diferente? Ele aparecia na TV com as minhas cores, o verde e o amarelo. Falava de brasilidade, de civismo. O Lula, não. Aparecia com a estrela vermelha, e eu lá sabia o que era isso?! Acrescente-se o fato de que, à boca miúda, Lula era de "esquerda", e pronto, como eu podia imaginar-me votando nele?

Nessa época, eu já era membro da igreja batista do bairro. A juventude de lá era, majoritariamente, de esquerda. Todos, lulistas. Não. Mais do que isso: petistas mesmo. Surpreenderam-se de mim, porque compareci `votação com uma bandeira do Brasil colada no bolso da camisa. Foi vê-la, e sabiam que eu votaria no Color. Eu achava que estava fazendo algo bonito. E a única coisa que eu sabia, ou pensava que sabia, é que queria o Brasil.

É. Lasquei-me. A rigor, Color foi inocentado pela justiça, e seu afastamento da presidência acabou indo para a História como jogo político. Sem mérito da questão, ponho minhas barbas de molho. Mas o fato é que, depois da era Color, tornei-me um petista à distância. Comício, só uma vez. Nas eleições pós-Color. Depois, nunca mais, apesar de sempre votar no Lula. Talvez mais por "lição", que aprendi dos jovens da batista. Minha cara, diante deles, depois de ter votado no Color, e ter dado no que deu, não era lá muito apresentável. A minha rendição foi óbvia.

Hoje, estou perdido. Completamente. Amanhã são as eleições 2006. Há dois anos, quase, que uma onda de denúncias tremem as bases de Brasília. Lá estão o PSDB e a HH, vociferando quanto podem. Minha cabeça é uma confusão só. Deixar de votar no Lula é uma possibilidade, mas, penso, para votar em quem? No PSDB de FHC? Deus me livre! Na HH, não dá. Pessoas que usam dois adjetivos ao lado de um substantivos, e, todos, adjetivos ofensivos e próprios do jargão retórico, fujo delas. É próprio de uma esquerda psicótica esse tipo de retórica. Sobram os risíveis, e o PDT, juntos, com 2%. O Noblat, disse, votará nele. Mas, acreditem, eu não consigo olhar para o Lula e não querer votar nele.

Ontem, enquanto voltava para casa, depois de corrigir as provas de hebraico dos alunos de Nova Iguaçu, vinha analisando esse meu pensamento. Sei que Lula pode estar envolvido até os cabelos com a corrupção denunciada, e até agora apenas denunciada (em termos rigorosamente jurídicos, ainda não provada, rigorosamente como o caso Color). Mas isso é um lado da questão. Achar que quem está denunciando quer o poder para a "ética", ha! ha! ha!, faz-me rir.

Havia corrupção na ditadura? Creio que sim. Depois, na fase da redemocratização? Creio que sim. Na era FHC? Sem dúvida. Na era Lula? Pelo jeito... Não me parece que o Brasil tenha mudado, nem que as forças políticas tenham se alterado. É pura retórica, falsidade, manipulação. Um pouco de Análise do Discurso aplicado ao PSDB e a HH, e dá pra vomitar.

Um dia, bancário, gerente, estive numa reunião de segurança bancária, ocorrida em um dos quartéis do Exército, na zona Oeste do Rio. Lá, tive oportunidade de conversar com o comandante. Falamos sobre ditadura, política, educação e Brasil. Ele, segundo me disse, não cria em solução para o Brasil. Segundo sua ótica, apenas a educação salvaria o Brasil. Mas, ainda segundo ele, educação se faz em pelo menos 25 anos, e os presidentes não investem nisso, porque estão ocupados demais, premeditando a próxima eleição. Isso vale para todos, inclusive, PSDB e PT.

O comandante imaginava uma "ditadura branca". Ele usou a expressão. Mas disse que não existem ditaduras brancas. Logo, não haveria chances de solução para o Brasil. Saí daquela reunião bastante desanimado. Isso tem uns oito anos. Ainda estou desanimado.

Como sou um biblista, e como os biblistas, no Brasil, são praticamente todos de "esquerda", a maioria, nascida nas agremiações políticas das décadas de 70 e 80, a eleição de Lula à presidência da República pareceu uma lufada de ar. É verdade que muita gente disse, à época, que aquela eleição era a tragédia definitiva. Circulam teses na Internet que vinculam o PT a programas comunistas e projetos de tomada da América Latina, como cansa de fazer o Olavo de Carvalho, que li recentemente, e não conhecia, à época. Mas me recordo que, quando das eleições, estava participando de um encontro da Comentários Bíblicos, em São Paulo, e que a atmosfera era de magia. Os biblistas pareciam ver, na tela da TV, com os movimentos preparativos para a posse, a concretização de seus sonhos, de suas lutas. Eu nunca lutei nem sonhei exatamente com isso, dado meu grau de alienação, mas compartilhei com eles da vontade de ver o Brasil de volta.

Não vi. Não caio na conversa fiada do PSDB, porque o que eles fazem na TV é pura demagogia. A sensação que tenho é que, no fundo, não passa de briga pra ver quem vai desossar o boi. E, entre uns e outros, a gente tem mais afeição por uns do que por outros. Por alguma razão psicológica, prefiro que Lula desosse, em lugar de dar meu boi à tropa de FHC. Sinto náuseas só de o ver, e não saberia exatamente por que. Porque doou a Vale? Provavelmente. Porque endividou criminosamente o Brasil? Pode ser. Ou porque ele é cínico, com ar superior, metido à besta, e debochado? Provavelmente.

Sei que, no fundo, é antipatia, de um lado, e simpatia, do outro. Talvez amanhã cometa mais um erro, votando errado. Mas votarei com a minha consciência, e errarei ou acertarei com ela.

O que eu queria era o Brasil de volta. Utopia? Não sei. Países há em que, parece, se vive melhor do que aqui. Se lá é possível, por que não aqui? Creio que é possível. Não sei como.

Queria que o Brasil voltasse a sentir orgulho de si. Que voltássemos a lutar pela civilidade, pela cidadania. Que os hinos voltassem a ser respeitados, e cantados, e não como força ideológico-partidária, mas como símbolo de unidade nacional.

Talvez eu morra sem ver isso. Quero viver ainda mais do dobro do que já vivi, o que me levaria além dos cem anos. Mas acho que nem assim verei o Brasil que desejo. Salvo, milagre. Com a turma que está aí, eu duvido.

Quero um Brasil democrático. Justo. Livre. Igual. Que todos tenham as mesmas condições de vida. Que todos sejam felizes, até onde é possível, já que felicidade não, apenas, uma questão de meio externo.

Definitivamente, a política agradece se eu não em meter a político. Sou praticamente um asno para esse tipo de avaliação. Não tenho a mínima certeza de que, amanhã, farei a coisa certa. Nem mesmo se é a coisa certa, esse amanhã. Não sei nada. Nadando no rio que abriram para mim, tenho de decidir-me dentro dele. E, dentro dele, não sei o que decidir. Quer dizer, até sei, mas com medo de estar errado, e vergonha de estar errado. Vergonha de estar tão afetivamente ligado a imagens ideológico-retóricas, que não enxergue o óbvio.

Nem vale apelar para Deus. Fosse ele fazer algo a respeito, já o teria feito. É votar, sentar e esperar. Vamos ver que números os dados revelarão amanhã.

Era bem mais fácil colecionar santinhos.

30/09/06 15:42 

Meu Brasil brasileiro foi sempre, desde pequeno, o do folclore, o dos livros da escola. Porque não sabia do Brasil brasileiro de verdade. Conhecia-o da maletinha de biscoitos São Luiz, velhíssima, de estampas da gente brasileira, biscoitos que nunca comi, mas que me fartei de imaginar, vendo aqueles desenhos do povo do Brasil. Povo de desenho. Brasil de estampas.

Esse Brasil está morrendo. Talvez, porque eu mesmo vá morrendo, dia após dia. Os olhos, à medida que envelhecem, assassinam a memória, e criam novas retinas. Não vejo mais Sacis, nem Iaras, e a vitória-régia que vi, ao vivo, só aquela do Jardim Botânico. Os índios, hoje, usam jeans, e andam de Ford. São-no índios no nome.

O preço que cobraria pela morte desse Brasil, único que conheci, seria o surgimento de um Brasil de Verdade, um Brasil de Gente, da Gente, pra Gente. Não de estampas. De carne e osso. Não de desenho. De carne e osso. Não da memória. De verdade. Não dos livros. Do céu, do chão, da terra.

O que Brasil que morre morre mais depressa do que o Brasil que nasce. Temo, tremo, que esses dois Brasis nunca se encontrem, e percam sua herança histórica comum. Temo que, perdidos os dois, eu me perca, sem nunca ter-me achado.

 

 

 

 

Não fui levado lá para encontrá-lo. Como? Se foi ele a me levar? Mais do que eu, sofrendo, ele sofria, e sofria com meu sofrimento. Mas sabia, ele sempre sabe, que meu coração não tinha remédio, minha alma, cura. Solidão era meu nome, e minha alma, de silêncio.

Então levou-me lá. E encantou-nos, Bel, a você e a mim, e costurou-nos os corações, com a luz que se derramava lá de cima.

Agora entendo aqueles dias. Como um peregrino que recebe a cama amiga, onde passa a noite, e deixa um tesouro escondido, sob o travesseiro emprestado, ele se foi, e deixou-me você, meu tesouro, meu pequeno barquinho de canela.

Talvez ele volte, heim? Que cara fará, ao ver que apliquei seu tesouro, e fiz de você a minha felicidade? Minha caravela de coragem contra as tempestades, é você quem vejo, lá, nas nuvens, desenhada pelo dedo dele, e dizendo-me, está tudo bem, agora, Osvaldo, está tudo bem. Você está em casa. A Fortaleza.

(XIV)

Um menino solitário

Há uma historieta contada nos espaços evangélicos, a respeito de uma tribo indígena que, ouvindo falar de Jesus por um missionário, afirmava tê-lo visto, porque passara por ali anos atrás. Na verdade, a tribo teria conhecido um outro missionário, cuja vida teria sido a própria descrição de Jesus. Eu sempre desacredito dessas histórias, mas não é de todo impossível que tenha ocorrido. Sei lá.

No que me diz respeito, conheci Deus quando era pequeno. Ele era minha mãe.

O que quero dizer, longe de ser: minha mãe era uma santa, e, muito menos ainda: minha mãe era uma catequista, era que a vida de minha mãe, mais do que suas palavras, inspirou-me a idéia de Deus. Disse a "idéia"? Cruz-credo! A "idéia", não, que isso é filosofia, e barro que tem de ser modelado, com medo. A "presença". Minha mãe infundiu-me a presença de Deus.

Não sei dizer quando a religiosidade, em alguma de suas manifestações, tornou-se uma característica de minha infância-adolescência. Tem aquela história da cabeça de cera, e, com certeza, ela está entre aqueles momentos mágicos em que, sem palavras, você é catequisado.

Mas houve outros. Primeiro, minha tia era mãe-de-santo. Morei na casa dela durante um bom tempo. Tempo à beça. Tá: bota tempo nisso. Era uma casa geminada, no fundo de um quintal enorme, na Santa Catarina. Se você entrasse pelo portão, cá na frente, lá nos fundos, a casa da direita, era a casa, propriamente dita, enquanto a casa da esquerda, aí já era o "terreiro". Era um terreiro de umbanda, o que significa que havia santos "católicos", preto-velhos, caboclos, "exus" e aqueles ferros próprios do candomblé. Na verdade, uma miscigenação cultural (europeus, negros e índios) e religiosa (catolicismo e religiões africanas e indígenas).

Não era difícil dormir ali, se você está se perguntando. Quando você é criado num ambiente assim, acostuma-se. E, depois, havia as festas. Uma festa de caboclo é um acontecimento. Tomar vinho na casca de coco, quando você é criança, empresta a você um ar emancipado, se você me entende. As festas tinham sempre muita comida. Aliás, talvez essa fosse a coisa mais impressionante da casa de minha tia - comida. Quanta comida! Os "filhos-de-santo" dela, e os clientes, viviam lá, e cada um que ia levava coisas pra cozinhar e comer.

Era como os sacerdotes, vivendo no templo de Jerusalém, e cantando o salmo 133. Eu, à minha moda, morava no "templo". Vale para mim o que valia para aqueles sacerdotes. Respirávamos o "sagrado". Não importa se judeus, evangélicos e católicos, herdeiros daqueles sacerdotes, demonizarão a religiosidade da casa de minha tia. Do ponto de vista antropológico, fenomenológico, é tudo a mesma coisa.

Minha mãe participava das festas. Vê-la "tomada" pelos orixás não era uma coisa muito agradável. Principalmente quando baixava nela um preto-velho lá. A cara dela ficava toda retorcida, e aquele charuto de meio metro que ela punha na boca era horrível. Mas, vá saber, era a sua mãe. E parecia que os orixás que baixavam nela eram especiais, sei lá, porque era como se, num show de pagode de rua, aparecesse por lá o Zeca Pagodinho. As pessoas respeitavam muito.

Vivi arrastado para cima e para baixo em terreiros de umbanda e de candomblé. Festas intermináveis, de varar a madrugada. O som dos atabaques, o cheiro no ar, a poeira levantada pelos pés, dançando, as cores das roupas, a palha, as galinhas, os pombos, o cabrito, enquanto eu acabava morrendo sobre a esteira, e sendo acordado no dia seguinte, para comer a farofa deliciosa de todos os dias seguintes. Quando, anos depois, li o Antigo Testamento, percebi que muitos rituais eram parecidos, quero dizer, aqueles de sacrifícios de animais. Vá lá que a gente diga que os judeus faziam sacrifícios para Deus, enquanto os africanos, os umbandistas etc. o façam para os demônios. Mas isso a gente diz porque não tem coração mesmo, e a verdade que a gente diz ou pensa dizer vale mais que a vida das pessoas.

Minha tia, anos mais tarde, com o dinheiro que recebeu da venda da casa da vovó, comprou uma casa na Espírito Santo. Era uma casa grande, tão grande quanto a da vovó, e com um quintal enorme nos fundos. Fez lá um terreiro muito bonito. Na última vez que fui àquele terreiro, era para ser o dia mais espetacular de todos os dias. Haveria uma festa de caboclo. Uma baita festa. De arromba mesmo. Titia fez roupas estampadas, com folhas estampadas no tecido, para dar um ar de floresta. Meu primo e eu ganhamos roupas, cordões especiais para a festa, feitos de contas, e treinávamos horas e horas os atabaques, que ocupavam uma espécie de "altar", no fundo do terreiro, onde ficaria o "palco", se fosse um show. E era. Para nós, meu primo e eu, era. Tocaríamos na maior festa de todos os tempos. E ensaiávamos. Na umbanda, toca-se com as mãos. E elas incham.

Chegou o dia da festa. Umas cinco horas antes, já estávamos prontos, de roupa, cordões, chinelas, e toca e toca, bate e bate, canta e canta, espera e espera. Passei anos, depois de converter-me à igreja batista, sem cantarolar aquelas músicas. Lembrar delas, agora, é interessante. Nostalgia delas, é surpreendente. A Fenomenologia da Religião é mesmo libertadora.

O terreiro foi enchendo. Chegando gente de todos os lados. Gente conhecida. Desconhecida. E nós dois, lá. Sentados. Não saíamos de lá para nada. Não podíamos tocar, agora. Só quando começasse a festa. E o relógio, desgraçado, andava para trás.

Aí, então, aconteceu um dos fatos mais curiosos de minha vida religiosa, ou pré-religiosa. Adentrou o terreiro um ogã famoso, acho que do terreiro onde titia havia sido iniciada. Ela não pensou duas vezes. Mandou que meu primo e eu saíssemos dos atabaques, para que ele assumisse.

Quando conto isso, digo que saí rasgando a roupa na frente de todo mundo. Não deve ser verdade. Conhecendo-me, sabendo como eu sou, fiz isso, sim, mas dentro de casa. Na frente de todo mundo, não. Dizem que um capricorniano é tímido por natureza, recatado, comedido. E, mesmo se você nasce em 22 de dezembro, vá lá, é capricorniano. Um capricorniano, como `{a época eu era e cria ser, faria isso? Difícil. A memória, às vezes, é ficção. É como a gente imagina que deveria ter sido. Do que eu conto, é verdade que tirei a roupa, talvez a tenha rasgado, não sei, os cordões, as chinelas, joguei em cima da cama, e fui embora pra casa. Nunca mais voltei.

Mamãe nunca quis que eu me iniciasse na umbanda. Eu era menor de idade, e ela achava que eu deveria decidir sozinho, quando fizesse dezoito anos. Quando fiz dezoito anos, sem que eu sequer imaginasse isso, sem que eu sequer soubesse o que era isso, converti-me ao Evangelho, através da pregação de um leigo, em um culto na igreja batista do bairro.

Antes disso, ainda peregrinei em outros ambientes. Mamãe era kardecista também. Parece que, às vezes, ela e titia arengavam, às vezes de leve, às vezes, pra valer. Parece que, nesses períodos, mamãe freqüentava o centro kardecista. Ela não podia ficar sem expressão religiosa. Lembro que, bem pequeno, eu freqüentava a "escolinha" do centro. Era lá no alto da Av. São Paulo. Não lembro mais o nome. Quando, anos depois, já batista, fosse acometido daquela micobacteriose no calcanhar, Bel iria a esse centro diversas vezes, para pegar sopas da Legião Brasileira de Assistência (LBA), um programa social dirigido pela Primeira Dama, enquanto, soube depois, os visinhos apostavam quanto tempo eu ainda ficaria na batista, passando aquele perrengue dos infernos...

Na época de minha infância, aprendi musiquinhas infantis, que esqueci todas, colei feijões pretos sobre contornos de desenhos, no papel, diverti-me. Não tenho lembranças concretas desse período. Só que era legal.

Às sessões espíritas, propriamente, fui poucas vezes. Talvez me lembre de uma. Mas não sei se é memória, mesmo, ou se invento. O kardecismo não me afetou tanto quanto a infância da umbanda.

Mas os efeitos colaterais do kardecismo, sim. Mamãe era médium clarividente. Ela tinha visões. Oficialmente, isto é, pelo que ela me contou, mais tarde, teria sido por isso que ela abandonou o kardecismo. Quer dizer, não pelo fato de ter as visões, mas pelo fato de, apesar de as ter, não poder fazer nada a respeito. Ela sofria com isso. Ela viu (leia-se "previu") o assassinato do vigia da padaria, e, caso trágico, a queda do viaduto Paulo de Frontin. Era 1971. Numa sessão, teve a visão. Foi terrível o acidente.

Aí decidiu abandonar. Tinha sonhos e visões terríveis, ela conta, depois que abandonou. Ela dizia que os espíritos não a queriam deixar. Um prato cheio para o neopentecostalismo moderno, não?

Mamãe, uma vizinha, chamada Odete, que a gente chamava de Dona Odete, e, coitada, cujo nome a gente invocava quando a linha da pipa enrolava toda, mais meu primo costumavam freqüentar o centro. Um dia, aconteceu um negócio muito curioso. Mamãe teve um sonho, que chegava em casa, voando, ela e os dois. Ela e meu primo entravam pelo nosso telhado, e a Dona Odete, pelo telhada da casa dela, que ficava em frente da nossa.

Ela acordou e foi tomar café. Meu primo acordou, e, conversa vai, conversa vem, falaram do sonho. Ficaram excitadíssimos, porque tiveram, os dois, o mesmo sonho. Na hora, largaram o café, e correram na casa da Dona Odete. Ela já os esperava na porta.

Isso de a Dona Odete já os estar esperando, na porta, eu que escrevi. Dá um efeito danado, não dá? Mas eu não sei se ela os esperava mesmo. Sei que, quando chegaram lá, segundo contam, e contaram, ela também tinha tido o mesmo "sonho". A explicação que eles se deram era que haviam se encontrado durante o sono, enquanto seus corpos-astrais estavam projetados. Eles acreditavam na saída da alma durante a noite.

Minha infância foi povoada de coisas desse tipo. E, de algum modo, minha religiosidade foi moldada pelo mistério. Até aí, se você prestou atenção, nenhuma doutrina. Apenas "práticas". Eu ia vendo minha mãe, e ia aprendendo. Deus não me vinha em palavras. Era gestos, todos sem qualquer condição conscientemente catequética. Só gestos. E, quando se dissolviam, ficava a presença misteriosa.

Na umbanda, minha tia disse-me, e eu adorei, que era "filho" de Ogun. Como a imagem de Ogun, na umbanda, é São Jorge, tornei-me uma espécie de admirador de Ogun e de São Jorge. Lembro-me de uma imagenzinha, pequena, de plástico, que eu tinha. Lembro-me de uma vez ter acendido uma vela ao lado da imagenzinha, e ter feito um pedido. Não lembro mais nem quando, nem o que pedi. Nunca fui a qualquer igreja de São Jorge. Nunca fui a festas. Só gostava dele(s).

Foi muito curioso quando, mais tarde, escrevendo minha dissertação de mestrado, pesquisando as religiões envolvidas com a prática da manipulação dos metais (metalurgia primitiva), deparei-me com Ogun. Pesquisava Nehushtan, a Serpente de Bronze, e encontrei Ogun. Encontrei, também, Quetzalcoatl, que o Schwantes disse ter gostado de ver, citado, em minha dissertação, porque ele gosta de tudo que é latino-americano. Mas eu gostei mesmo foi de encontrar o velho amigo, sendo descrito na Sociologia da Religião, do Joaquim Wach. Algumas das descrições dele são idênticas a descrições de Yahweh, mas é melhor a gente deixar isso pra lá, né?

Minha mãe era muito religiosa, já disse. Conversava horas com o padrinho de minha irmã, e com meu primo, e com mais quem quer que fosse lá em casa, nós mesmos não íamos à casa de ninguém, e aí eu posso me entender, tatu enfiado no buraco, sem sair de casa. As conversas eram, sempre, sobre religião e mistério, parapsicologia e assombrações. Quando eu não ficava morrendo de medo das assombrações, ficava tentando mover com a mente os pregadores no varal, ou transmitir meu pensamento para meus irmãos, ou sair do corpo, de noite.

Tive minha fase de discos-voadores. No quintal da Av. São Paulo, nos fundos, havia uma caixa d'água externa, sob quatro colunas de cimento. Ficava a uns quatro metros do chão, e servia de cobertura para o tanque de lavar roupa. Subindo no tanque, e depois, no telhado da casa dos fundos, eu ia para cima da caixa d'água. Deitava ali e ficava olhando as estrelas. Pedia que discos-voadores viessem me levar. Nunca foram.

Lembro-me de dormir na casa dos fundos, na Av. São Paulo. Era um quarto muito grande, em que dormíamos todos juntos, mamãe e nós quatro. Eu ajeitava minha cama, colocava dois travesseiros, chegava para o lado, ajeitava o lençol, que era para Deus dormir ali, comigo. Lembro-me de, em fases especiais, abraçá-lo.

Na infância, mamãe e titia passaram muito tempo na comunidade católica. É a Igreja de Nossa Senhora das Graças, com festa a 27 de novembro. Ela fica, por assim dizer, na Rua Paraná, lá no alto. Sob ela, uma escadaria considerável, desaguando, ironia, quase em frente à igreja batista do bairro, onde, em 84, dez de agosto, eu me decidiria formalmente por uma religião.

Igreja de Nossa Senhora das Graças. Mamãe e titia praticamente cresceram lá. Mas, quando adultas, nunca foram, que eu me lembre. Fui levado a uma missa, uma vez. Acho que vovó, não sei mais. Era pequeno demais. Lá, ouvi uma música que ficou ecoando na minha cabeça durante muito, muito tempo. Anos depois, muitos anos, ouvi uma música que estalou minha cabeça. Era "Pra Não Dizer que não Falei das Flores", do Geraldo Vandré, e, eu juro, era essa a música que eu tinha ouvido. Fiz as contas. Eram dias da ditadura. Provavelmente, aquela missa...

Entre 83 e 84, eu escrevia como um louco. Contos, poesia, um livrinho: Chico e o Sapo. Os contos eram, todos, religiosos, de um jeito ou de outro. Alguma coisa estava acontecendo. Em 84, tive de me alistar. Um amigo, Marcos Dourado, passou pelos exames do CPOR comigo. Eu era doido para servir. Não queria nada mais na vida, àquela altura, do que alistar-me. Diziam que a cavalaria é que iria me fazer o treinamento, e que eu comeria o pão que o diabo amassou. Eu gostava de ouvir isso. Nada me demoveria. Mas me meteriam na lama, lá no Gericinó! E daí. Eu já me sentia, na chuva, na lama. Seria como as brincadeiras de criança, quando eu era criança, e, talvez, ainda fosse.

Fiz as provas. Passei. Na prova escrita, na véspera, sem nunca ter estudado logaritmo, folheei um livro. Tinha lá uma questão-exercício, com a resposta. No dia seguinte, no estádio do Vasco, fazendo a prova, um fiscal ficou me olhando, desconfiado, porque eu ria sozinho. Mas o que eu podia fazer, se a única questão de logaritmo que caíra, era, acredite, exatamente aquele que eu tinha visto no livro, ontem? Parecia que Deus estava comigo. Ele me tinha pego pela mão...

Fiz os exames médicos. Fiquei pela primeira vez nu em público. Constrangidíssimo. Na chuva, na fila, roda pra cá, levanta o pé, vira. Horrível. Mas era uma iniciação. Eu passaria. Havia, inclusive, obturado umas cáries. Eu as colecionava. Fora amamentado com chá-mate, em Goiás, e tivera uma infecção violenta na infância, curada à custa de muito antibiótico, e meus dentes foram pro espaço. Minha pequena tragédia pessoal. Era muito ruim sorrir. E eu quase não sorria. Quando sorria, não abria a boca. O espelho nunca gostou de mim, nem eu dele.

Os exames físicos foram feitos na Quinta da Boa Vista. Exatamente naquela semana, eu, useiro e vezeiro em ter unhas encravadas, tinha assim as duas unhas dos dedões do pé. Pedi ao capitão que me permitisse  correr descalço. Não deixou. Eu corri assim mesmo, de tênis, entre estrelas. Corria uns metros, desembestadamente. Quando a dor era insuportável, parava, sentava, e apertava a base das canelas. Quando todos os corredores já haviam passado, eu me levantava, trincava os dentes, e corria, de novo, desembestadamente. Passava todo mundo - um guepardo! E, quando tudo ia ficando preto, sentava, lá na frente, antes que desmaiasse. O Dourado chegou na minha frente, claro, mas eu consegui.

Passei em todos os exames.

Mas não me quiseram. Cortei o cabelo, e ficava na fila durante dias, esperando, esperando, esperando. Até que me deram o certificado de reservista. E me mandaram embora.

O Dourado arrumou pistolão pra sobrar. Não queria servir nem amarrado. Ele me deu um convite. Nunca abri. Sabia que era pra igreja dele. Ele era da igreja batista do bairro, e eu nem sabia o que era isso. O terreiro de umbanda da minha tia, onde eu morara boa parte da infância, era do lado, muro com muro. Aos domingos, a bola dos meninos da igreja caía lá em casa, e eles subiam no muro, e pediam de volta. Eu jogava a bola pra eles. Mas não sabia que era uma igreja.

É que na porta, que dava para a rua Paraná, a casa da titia dava para um casa que tinha a frente do lado da igreja, enquanto a casa da titia, mesmo, dava frente para a Santa Catarina, rua dos fundos da igreja, na porta, então, havia uma placa de madeira, sustentada por duas estacas de madeira, também. Na placa, havia uma coisa escrita: "E a quem quiser, dar-lhe-ei de beber da água da vida". Havia "água da vida" no centro kardecista da mamãe, também, e, como do outro lado da igreja havia um grande centro kardecista, eu só podia achar que ali era um centro kardecista. Copo por copo, tinha o do centro, além daquele atrás da porta, lá de casa, com um olho de boi dentro, e aquele outro, benzido pelo rádio. Mais um, não.

Não abri o convite. Ele se perdeu. Naquele mesmo ano, era uma sexta-feira, mamãe estava arrumando a casa, e achou o convite. Deu-me, de noite, quando cheguei da Dallari, onde eu trabalhava. Perguntei o que era aquele lugar, e, meio sem vontade, ela me disse que era uma igreja. Como era o convite do Dourado, acabei indo.

Era sábado, 10 de agosto de 1984. A igreja estava lotada. Gente até o ladrão. Lembro-me que alguém recebeu-me à porta, e me levou até um banco. Lembro que um rapaz, hoje ele é pastor, sentado no banco, olhou meio de cara feia para o recepcionista, porque ele me colocara ali. Depois, entendi que ele estava guardando o lugar para a namorada dele.

Não lembro de muita coisa. Não sabia cantar nada. Mas cantou-se. E, lá pelas tantas, um pregador leigo começou a pregar. Por favor, não me pergunte o que ele disse. Não faço a mínima idéia, ainda que imagine, em tese, que tenha anunciado o Evangelho, daquele jeito peculiar dos batistas.

Terminou. Fez o apelo característico. Pessoas foram lá na frente. Eu, não. Fiquei ali, ouvindo, suando frio. Era comigo que ele falava...

Quando tudo havia terminado, ele disse que Deus não era um frasco de Novalgina, que eu usasse apenas quando precisasse, e, então, disse a coisa mais terrível que alguém podia dizer para aquele menino, naquele dia, ali: "Buscai ao Senhor, enquanto se pode achar. Invocai-o, enquanto está perto". Era a primeira vez que alguém me dizia que, se eu não fizesse o que se estava dizendo, Deus não me quereria mais. Recordo-me dessas palavras, em brasa, queimando-me o cérebro: vai ter um dia que Deus não vai mais me querer? Uma faca em fogo vivo, vermelha, na manteiga da minha cabeça.

Covardia. Um  menino como eu, solitário, sozinho, e, agora, sem seu melhor amigo? Quando vi, estava lá na frente.

Não muito tempo depois, freqüentando a igreja regularmente, cheguei em casa. Mamãe acendera uma vela de sete dias na prateleira improvisada da cozinha. Disse pra ela, com o amor próprio das catequeses, com a misericórdia característica dos fundamentalismos, sem coração, sem alma, sem corpo, sem vida, só com doutrina na cabeça, e apostando toda a minha vida, maldição, nelas, que era por isso que Deus não nos dava nada.

Há uma série de dias que, se eu pudesse apagar da minha vida, apagaria. Há os dias dos meus pecados, ácido a me escorrer pela carne, dia após dia, e ainda hoje. Mas se fosse apenas um dia, um só, que eu pudesse escolher, seria esse, porque, nele, matei a fonte da minha religiosidade, e abri caminhos para uma bestialização da fé, que apenas a muito custo a teologia histórico-crítica extraiu da minha alma. Se fosse hoje, talvez a ajudasse com a vela, e perguntasse se ela acreditava, mesmo, que Deus se importava com a cera queimando.

Não renego aquele dez de agosto. Como posso? O que quer que tenha dado errado, depois daquele dia, por causa daquele dia, pouco a pouco foi se acertando, com o Seminário. A Graduação sacudiu-me, e tanto, que, orador da turma, disse que saía do curso sem saber quem era Deus. O mestrado me pôs a Bíblia, decentemente, na mão. E, agora, vou caminhando em meu Doutorado, com ela.

Aquele dia é importante. Oh, sim. Muito. Não posso lamentar dele, muito menos renegá-lo. Pelo contrário! Bel se lembra dele. Conta-me que ficou surpresa de ver aquele menino, quer dizer, já era um rapaz, magro, de cabelos amarelos, magérrimo, de repente, levantar, sem mais nem menos, quando o apelo já tinha terminado, indo lá pra frente. Eu brinco com ela, dizendo que já ali ela havia se encantado. Mas eu era feio pra chuchu, magérrimo, e só por graça e misericórdia de Deus ela poderia ter sentido alguma coisa por mim. Ela ri, com aquele riso dela. Se você nunca viu a Bel sorrir daquele jeito, não tem como explicar pra você. Paciência.

Foi nesse dia, 10 de agosto de 1984 que Bel me viu. Quase nos perdemos. Um menino solitário, no meio da meninada da igreja, sentia-me como pinto no lixo. Havia brincadeiras de roda, que chamávamos de "social", e, ai, como era bom, lá estava eu. Ela, não. Ficava pelos cantos.

O Dourado me "assumiu", desde aquele dia. Naquele mesmo dia, 10 de agosto, apresentou-me a Bel. Ou foi no domingo seguinte? Não tenho mais certeza.

No final daquele mesmo ano, a Dallari me mandou para São Paulo. Ia ficar lá um mês, cuidando da fazenda. Na despedida, Bel me deu um cartão. Pronto. Não tinha mais jeito: eu fora fisgado. Quando voltei, começamos a namorar. Nos separamos uns dois ou três meses, porque eu era um poço de insegurança e imaturidade, sofri o diabo, escrevi mais de cinqüenta cartas, chamando a Bel de "meu barquinho de canela", e ela deixou-se reconquistar. Nunca a conquistei. Até hoje. Digo a ela que ela é uma Fortaleza Inexpugnável, e que mora lá, sozinha. Nunca entrei lá. Ela é que me abre o portão, e me deixa entrar. Foi assim naquele 85. E é assim, até hoje. Ela é a Fortaleza, e me deu um quarto dentro dela, onde durmo, tranqüilo menino que chegou em casa. 

Reatamos em maio de 85. Noivamos em maio de 86. Casamos em maio de 87.

Ano que vem faz 20 anos.

Bendito dia, aquele. Bendito convite, aquele. Bendita mão aquela que me levou até àquele dia.

03/10/06 15:09 

Catedral

O deserto que atravessei
Ninguém me viu passar
Estranha e só
Nem pude ver que o céu é maior

Tentei dizer
Mas vi você
Tão longe de chegar
Mais perto de algum lugar

É deserto onde eu te encontrei
Você me viu passar
Correndo só
Nem pude ver que o tempo é maior

Olhei pra mim
Me vi assim
Tão perto de chegar
Onde você não está

No silêncio uma catedral
Um templo em mim
Onde eu possa ser imortal
Mas vai existir
Eu sei, vai ter que existir
Vai resistir nosso lugar

Solidão, quem pode evitar?
Te encontro enfim
Meu coração é secular
Sonha e deságua dentro de mim
Amanhã, devagar
Me diz como voltar

Se eu disser que foi por amor
Não vou mentir pra mim
Se eu disser deixa pra depois
Não foi sempre assim

Tentei dizer
Mas vi você
Tão longe de chegar
Mais perto de algum lugar

Zélia Duncan

 

 

 

 

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

– autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações no texto –

– página atualizada em 09/08/2008 18:23:06