Olhos cegos, ouvidos moucos

– de uma hipótese acerca dos desdobramentos de Lc 24,12 como glosa

Osvaldo Luiz Ribeiro

04/04/2008

 

Tem de ser a Melhores Textos – ou alguma versão de editoras católicas, como A Bíblia de Jerusalém ou a Tradução Ecumênica da Bíblia. No ambiente evangélico, contudo, até onde pude controlar, tem que ser A Bíblia Sagrada – Velho Testamento e Novo Testamento, versão revisada da tradução de João Ferreira de Almeida, de acordo com os melhores textos em Hebraico e Grego. Longo nome – mas ela é conhecida como Melhores Textos, da Imprensa Bíblica Brasileira.

 

Pois bem: nela, na Melhores Textos, lê-se:

 

12 hMas Pedro, levantando, correu ao sepulcro; e, abaixando-se, viu somente os panos de linho; e retirou-se, admirando consigo o que havia acontecido.

 

Trata-se de Lc 24,12. A cena toda, como agora se encontra redigida, dá conta de que era o “primeiro dia da semana” (24,1), quando Maria Madalena, Joana, e Maria, mãe de Tiago, bem como outras mulheres (24,10), “mulheres que tinham vindo com ele da Galiléia (23,55), de madrugada (24,1), “foram ao sepulcro, levando as especiarias que tinham preparado” (24,1). A pedra, contudo, estava removida (24,2) e, dentro do túmulo, não acharam o corpo de Jesus (24,3). Eis que, enquanto elas ainda estão perplexas, dois varões se aproximam, “varões em vestes resplandecentes” (24,4), aproximam-se delas, e, elas atemorizadas, eles lhes perguntam: “por que buscais entre os mortos aquele que vive? Ele não está aqui, mas ressurgiu” (24,5-6a). Eles instam a que elas se lembrem das palavras dele (24,6b-7), e elas se lembraram (24,8). Elas, então, “voltando do sepulcro, anunciaram todas estas coisas aos onze e a todos os demais” (24,9). Diz-se, então, que, quando as mulheres contaram estas coisas aos tais que as ouviram – os onze e todos os demais – “pareceu-lhes como um delírio as palavras das mulheres e não lhes deram crédito” (24,11). Segue, então, o v. 12, citado acima, segundo o qual, Pedro, porém, sim, teria dado crédito, e tanto, que correra até lá, e pôde ver, com os próprios olhos coisa tão admirável.

 

De fato, essa particularidade é do conhecimento dos redatores de outro Evangelho. Segundo Jo 20,1-10, Pedro voltou mesmo. Com isso concorda João. Mas faz questão de acrescentar sua parte da versão. Que é a seguinte. Maria Madalena (não se fala das outras mulheres, só dela) foi ao sepulcro, ainda estava escuro, e percebeu que a pedra havia sido removida (20,1). Maria Madalena, então, correu “e foi ter com Simão Pedro e o outro discípulo, a quem Jesus amava”: “tiraram do sepulcro o Senhor, e não sabemos onde o puseram” (20,2). A partir desse ponto, o leitor depara-se com um episódio muito curioso. Eis o texto: “Saíram então Pedro e o outro discípulo e foram ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo correu mais ligeiro do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro; e, abaixando-se, viu os panos de linho ali deixados, todavia não entrou. Chegou, pois, Simão Pedro, que o seguia, e entrou no sepulcro e viu os panos de linho ali deixados” (20,4-6). A seguir, então, o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepulcro, entra: “e viu e creu” (20.8).

 

É muito sugestivo que as duas histórias, a rigor, não se encaixam, com exceção – justamente – da “informação” de que Pedro teria corrido ao sepulcro, depois de avisado pela(s) mulher(es).

 

Lucas

João

“Elas” (24,1), ou seja, “as mulheres que tinham vindo com ele da Galiléia (23,55), ou seja, Maria Madalena, Joana, Maria, mãe de Tiago mais as outras (24,10)

 

Maria Madalena (20,1)

No primeiro dia da semana, de madrugada, elas (Lucas)/ela (João) percebem a pedra removida do sepulcro (Lc 24,1-2; Jo 20,1)

 

As mulheres entram no sepulcro (24,3)

 

Maria Madalena não entra no sepulcro...

As mulheres, entrando, não acham o corpo de Jesus, admiram-se, aparecem-lhes dois varões de vestes resplandecentes, que lhes informam sobre Jesus estar vivo, e insta-lhes a se lembrarem das palavras de Jesus, de que deveria ser crucificado, morrer e, ao terceiro dia, ressuscitar, com o que elas se lembram (24,3-8)

 

 

As mulheres voltam do sepulcro e anunciam “estas coisas” aos onze e a todos os demais (24,9)

 

... mas corre, imediatamente, para avisar Pedro e João (20,2)

Todos, tanto os onze quanto os demais, não dão créditos às mulheres, considerando tratar-se de “um delírio” (24,11)

 

 

Pedro, sozinho (Lc 24,12)/acompanhado de João (Jo 20,3), levanta-se e vai ao sepulcro

 

 

João chega na frente, mas não entra. Pedro chega a seguir, e entra. Depois de Pedro ter entrado, João entra, e viu e creu (20,6-8)

 

É ou não é curioso? Além da informação tradicional – no primeiro dia da semana – a única informação comum às duas narrativas é a de que Pedro foi ao sepulcro. Se tomarmos a série Lc 24,11, Lc 24,12 e Jo 20,4, deparamo-nos com a seguinte seqüência: 1) os apóstolos (os onze) e os demais discípulos não creram nas mulheres, 2) mas Pedro creu, e foi até o sepulcro, 3) com João, que, contudo, correu mais rápido, e chegou na frente – ainda que Pedro tenha entrado primeiro, se bem que isso porque João não quis entrar de imediato.

 

Curioso, não?

 

Lc 24,11   >   Lc 24,12   >   Jo 20,4

 

A cada avanço na seqüência, é como se a história fosse “corrigida”, se já não “recontada”: eles não creram, quem?, os onze e os discípulos, ah, sim, mas Pedro creu, porque Pedro voltou, ah, sim, é verdade, Pedro voltou, mas não sozinho, João voltou com ele, e, aliás, chegou até primeiro, e Pedro só entrou primeiro porque João deixou que entrasse.

 

Até aqui, parece que essa história foi contada por Lucas e por João. Somando os dois, temos esse enredo curioso.

 

Mas, voltemos à passagem com que abri esse ensaio – Lc 24,12, conforme editada pela Melhores Textos. Observe-se que há um hagazinho, um pequeno h suspenso, uma nota de referência. Pois bem, no rodapé da Melhores Textos, pode-se ler:

 

h Em alguns manuscritos antigos não consta o versículo 12

 

Com efeito, as edições menos confessionais – ou, pelo menos, que se pretendem legitimadas por bases razoavelmente sólidas de pesquisa – são unânimes em registrar – ou acusar – o fato: Lc 24,12 não consta do conjunto dos manuscritos gregos mais antigos. O que significa isso? Significa que o autor de Lucas não escreveu isso que, agora, encontra-se no verso doze desse Evangelho. Trata-se de um acréscimo, de uma glosa. Alguém acrescentou ao texto de Lucas todo o conteúdo de Lc 24,12.

 

Muda alguma coisa o fato de Lc 24,12 não ser original? Naturalmente que sim, porque aquele enredo que extraí da soma de Lucas e João passa a ser um roteiro escrito não a duas mãos, mas a três. O texto de Lucas termina com a afirmação de que os onze e os demais não creram nas mulheres. Alguém, um interventor desconhecido, acrescenta sua glosa política – “mas Pedro, levantando-se, correu ao sepulcro etc.”. Ou seja, se os outros apóstolos e os demais discípulos não creram, que seja, mas Pedro, Pedro não, Pedro creu, sim senhor, e tanto que foi até o sepulcro e testemunhou – ele mesmo – o admirável acontecimento.

 

Mas, vamos com calma. Se não foi Lucas quem escreveu isso, se essa história de Pedro correr até o sepulcro não é de responsabilidade de Lucas, se não está em Marcos, nem em Mateus, como João “sabe” disso? Sim, porque o Evangelho de João conhece esse episódio. Bem, esse é um ponto controvertido. Lc 24,12 não se encontra em todos os manuscritos mais antigos, mas encontra-se em alguns manuscritos muito, muito antigos. Tão antigos, que se poderia imaginar até a possibilidade de duas versões de Lucas correndo pelas cristandades – uma, original, sem Lc 24,12, e outra, glosada, com o acréscimo que transforma Pedro na exceção de fé dentre os apóstolos e discípulos de Jesus. É que a glosa foi feita muito cedo, provavelmente logo nos primeiros anos, na pior das hipóteses, nas primeiras décadas, de circulação do Evangelho de Lucas. Uma vez que a redação do Evangelho de João é bastante tardia – final do século primeiro, início do século segundo, há aí um período de tempo considerável entre a redação de Lucas (década de 60?, de 70?, de 80?), a glosa de Lc 24,12 (década de 70?, de 80?, de 90?) e a redação de João (a década de 90?, a primeira década do século II?, a segunda década?). Há um espaço mínimo de uns vinte, e um máximo de uns cinqüenta anos entre as duas redações, de Lucas e de João. Nesse meio tempo, alguém alterou Lucas, alteração essa que, mais tarde, terá servido bem a João.

 

Por quê? Por que a glosa serve a João? Porque não adiantaria nada – na eventualidade de a comunidade joanina conhecer a versão lucana original de um Pedro incrédulo da ressurreição, principalmente se, segundo tal versão (supostamente) original lucana, também João conta-se entre os incrédulos - desmentir a glosa. Mas se eu, membro da comunidade joanina, quero ter de meu herói-fundador, João, uma idéia heróica, é-me extremamente interessante, oportuno e eficiente acatar a glosa petrina – Pedro foi até o sepulcro! – e, inserindo-me dentro dela – Pedro foi, sim, mas eu fui junto – fazer recair sobre minha comunidade a vantagem de ser descendente daquele que primeiro lá chegou, mesmo antes de Madalena, já que, segundo a tradição de João, Madalena viu a pedra, mas deu a Pedro e a João – a João e a Pedro – a primazia de entrar, ver e crer. Ela só entrará mais tarde, precisamente, depois dos dois. É o que que - agora - se diz.

 

Eu não me admiraria de, inclusive, toda a seção de Jo 20,2-10 não ser exatamente da pena da comunidade joanina, e que a história contada ligasse Jo 20,1 diretamente aos versos 11 e seguintes, uma Maria Madalena heroína, a primeira a falar com o Senhor Ressuscitado (20,14-17), anunciando a ressurreição aos discípulos (Jo 20,18). Mas essa possibilidade levar-me-ia a uma digressão maior do que aquela que já me permiti (dizem-me prolixo, e talvez o seja, afinal). Seja como for, alguém conhece a história de Pedro, e alguém se serve dela para, por meio dela, dar, também a João, o ar da primazia. Sinto um cheiro de “acordo” em Jo 20,2-10 – um chega na frente, o outro entra, e as duas “comunidades” fazem as pazes. Talvez estejamos diante de uma clericalização regional, uma coalizão de comunidades, um rearranjo de tradições. Pedro, enfim, entrou primeiro.

 

Interessa-me, contudo, Lucas. Se não foi Lucas quem escreveu Lc 24,12, se esse verso foi escrito por terceiros, resulta dizer que a história de Lucas termina com a incredulidade dos apóstolos – todos, Pedro e João, inclusive. O que isso significa, em Lucas e para Lucas?

 

 

Testemunhas oculares confundidas

 

 

Persigo uma pista. Desde Lc 24, até At 1, Lucas – que a ele é atribuída a redação de ambos livros – insiste em pôr em constrangimentos o conjunto – inteiro – das testemunhas oculares, aquelas que teriam supostamente presenciado os eventos relacionados à vida de Jesus.

 

Primeiro, Lucas teria – em sendo verdadeira a afirmação de que ele não conhece uma credulidade petrina, mas encerra a primeira parte do relato da ressurreição com os onze e todos os demais considerando delírio a narrativa das mulheres – confinado todos os discípulos de Jesus – testemunhas oculares – em um cadinho de confusão e incredulidade: simplesmente não creram, quando as mulheres lhe contaram que Jesus ressuscitara. Isso teria significado o quê? - um "pobres discípulos, tão cansados", como quem diz - "coitados, tão desanimados, a fé lhes parece faltar", ou, antes, um "pobres discípulos, heim!", como quem diz - "que papelão, heim, senhores, e logo de quem!, de quem se diz herdeiro das tradições, as senhoras testemunhas oculares!"?

 

Segundo, na seqüência da narrativa, descreve-se a descida triste dos dois discípulos que se dirigiam a Emaús. Jesus – em pessoa – é posto a aproximar-se deles. Eles, tão íntimos foram de Jesus, contudo, não o reconhecem, e, quando vão dar contas de sua tristeza, mais, de sua frustração, surpreendem-se de que o forasteiro não saiba que aquele que, eles esperavam, seria o remidor de Israel, jazia, agora, morto, e sepultado. Sim, eles ouviram falar das mulheres e de seu relato admirável, bem como do fato de que “alguns” haviam, de fato, instados pela narrativa das mulheres, ido até o sepulcro, mas que, contudo, também eles não teriam visto Jesus lá. Ou seja – eles sabem, mas, ao mesmo tempo, nada sabem. Têm os dados – a morte de Jesus, o sepultamento, tratar-se já do terceiro dia, o desaparecimento do corpo de Jesus –, mas esses dados não se reorganizam, dando corpo à informação fundamental: Jesus ressuscitou. Eles estão confusos, aturdidos, perplexos, admirados. Perdidos. Um Jesus redivivo lhes abre, então a Escritura e, subitamente, seus olhos se abrem. Jesus desaparece. Eles correm de volta a Jerusalém – aí, os onze e os discípulos estão reunidos, e, quando chegam os advindos de Emaús, descobrem, trocando experiências, que “realmente o Senhor ressurgiu e apareceu a Simão” (Lc 24,13-35). Eles, então, finalmente, entederam? É isso que Lucas está dizendo?

 

Aparentemente, a narrativa parece avançar para deixar as coisas claras – ah, eles (os onze, os discípulos, todos) creram. Mas ela continua. No meio deles, aparece o próprio Jesus, e os saúda. Lucas diz que eles, então – quem teria contado a Lucas? –, os onze, os discípulos advindos de Emaús, todos, ficaram espantados, atemorizados – “pensavam que viam algum espírito”. Não, não entenderam. Jesus lhes mostra as feridas, mas, ainda assim, eles têm dificuldades para crer. Não entendem, ainda. Jesus insiste – “tendes aqui alguma coisa que comer?”. Têm peixe. Ele come. Jesus, então, diz Lucas, “lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras”. Ah, talvez agora eles entendam. Posteriormente, Jesus ascende aos céus, os discípulos, então, depois de o adorarem, voltam, jubilosos, para Jerusalém, e passam a estar continuamente reunidos no templo (Lc 24,36-53).

 

O segundo volume dessas narrativas, Atos, acrescentará mais declarações constrangedoras para a "memória" dos discípulos - das "testemunhas oculares". Depois de os anjos terem aberto o entendimento das mulheres (Lc 24,6-8), depois de Jesus ter aberto o entendimento dos discípulos, em Emaús (Lc 24,31-32), depois de o próprio Jesus ter-se manifestado ao conjunto dos discípulos – os onze, aqueles de Emaús, os restantes todos –, ter mostrado as feridas, ter comido peixe, ter-lhes aberto o sentido das Escrituras, ter subido aos céus, ei-los, agora, esses mesmos discípulos – e eis, novamente, Lucas, a constranger sua memória – agarrados a velhas expectativas, rotas, equivocadas: "Senhor, é nesse tempo que restauras o reino a Israel?” (At 1,6). Não lhes compete, contudo, saber dos tempos e das eras, reservadas a Deus. Hum. Nesse momento, Jesus sobe aos céus – e esses mesmos discípulos ficam com os olhos estatelados, olhando as nuvens, por dentro das quais desaparece um Jesus desenhado como incompreendido. Lucas não explicitara esse “detalhe” no epílogo do Evangelho, mas, agora, faz questão de deixar claro que os discípulos, mesmo Jesus tendo acabado de ordenar que seriam revestidos de poder para uma missão, poder do alto – em Lucas, Jesus, inclusive, mandara que ficassem na cidade –, permanecem ali, olhando para cima, como que, derradeiramente, confusos, sem saber o que fazer. Um Jesus ressuscitado, ascendido, incompreendido. Uma comunidade de discípulos, que viram, que ouviram, que viram e ouviram tudo de novo, antes e depois da ressurreição, que viveram os fatos, que ouviram as interpretações teológicas autorizadas desses fatos – ei-los ali, agora, parados, olhando para cima, tão confusos que é necessário, diz Lucas, que dois varões se aproximem – Lucas gosta de anjos e do Espírito! –: “Varões galileus, por que ficais aí olhando para o céu?”.

 

 

Novos olhos, novos ouvidos – Pentecoste!

 

 

Lucas, então, redige o capítulo triunfal – nascimento da Igreja paulina. A historia é suficientemente conhecida – uma leitura de At 2 é suficiente para trazê-la à memória. O poder – prometido em Lc 24,49 e At 1,8 –, o poder, não, o Poder, desce do alto. Pedro é tomado – literalmente. Prega o sermão inaugural da Igreja. Começam as conversões. Pedro e João tornam-se líderes (os mesmos Pedro e João de João). A comunidade prospera. Enfrentam as primeiras dificuldades sérias – internas e externas. Complexifica-se. Organiza-se. Martiriza-se. Espalha-se. E surge Paulo.

 

É o Senhor, pessoalmente, quem arranca Saulo de seu caminho, e faz dele Paulo. Não, Paulo não foi – jamais – testemunha de coisa alguma. Mas qual a necessidade disso? Os onze não o foram? E de que lhes valeu isso? Creram? Compreenderam? Quer dizer, lá, enquanto viam e ouviam? Não – somente depois, no derramar Deus, desde os céus, o Espírito, que puseram-se a falar, a pregar, como se assim tivessem crido e sabido desde o início. Mas não – Lc 24 e At 1 deixam claro que não creram, não, não sabiam, não, estavam perdidos, confusos, incrédulos, vacilantes, e foi – apenas – a unção do alto, o Espírito, Pentecostes, quem os encheu de fé e sabedoria, de força, de ousadia. O Espírito, naquele dia – e desde então – arrancou-lhes os olhos cegos da cara, os ouvidos moucos das orelhas, e lhes deu olhos de ver e ouvidos de ouvir. Os mesmos que Paulo recebeu, pessoalmente do Senhor, na estrada para Damasco

 

(...).

 

O conjunto Lc 24-At 2 aparece-me como não apenas uma acusação de que, afinal, ser ou não ser testemunha ocular de Jesus nada significa, e que o poder do Evangelho se manifesta no e pelo Espírito, mas, também, e principalmente, uma defesa do apostolado paulino – ou das comunidades originadas desse apostolado –, apóstolo do Espírito, pelo Espírito, no Espírito – e convocado pessoalmente pelo Cristo Ressuscitado.

 

Essa forma plástica de retórica denuncia uma possível crise de autoridade, baseada na crítica de que, afinal, Paulo nada sabia de Jesus, pelo fato – óbvio – de que não o conhecera, não testemunhara absolutamente nada de sua vida, de sua morte, de sua ressurreição – prerrogativa, está implícito, dos apóstolos. O final do Evangelho de Lucas e o início dos Atos dos Apóstolos parece constituir a resposta paulina – que seja: da comunidade paulina – a essa crítica, a esse escárnio.

 

Se Lc 24,12 constitui, de fato, uma glosa – é mais fácil admitir que foi acrescentado muito cedo às cópias de Lucas, do que admitir que alguém, em sã consciência, quiçá por equívoco, e nem assim, suprimisse a informação então lucana, tão importante, dum Pedro crédulo e, desde sempre, líder das cristandades –, e se essa glosa deve ser explicada por meio da hipótese que acabo de esboçar, então resulta plausível admitir que são representantes das testemunhas oculares, lideradas por “Pedro” – conflitos políticos internos das cristandades plurais e multi-clericais do primeiro século –, os que produziem a glosa petrina: Pedro, o primeiro herói. O resto da história, já esbocei, se ela foi mesmo assim como imagino.

 

É checar, e ver. O que deve estar bem à vista é a possibilidade dos conflitos políticos entre as comunidades – quantas! – cristãs – de todos os tipos – do primeiro século terem esboçado mesmo o conteúdo das narrativas que, agora, compõe o cânon. A ser correta uma tal hipótese, rotinas no estilo de “Breve Harmonia dos Evangelhos” devem ser consideradas obstáculos indesejáveis à adequada compreensão da histórica cristã tal qual ela efetivamente se deu. Não se pode somar, tem-se que dividir, separar, pôr cada pronunciamento em seu contexto, em seu conflito, e observar o conjunto tal qual ele se dá à nudez dos olhos críticos – conflito, front, estratégias, negociações..

 

Oh, sim, Jesus veio mesmo trazer a espada a terra. Com uma, Pedro arrancara a orelha de um Malco. Com outra, podemos estar cortando as nossas próprias, quando, no afã de somar tudo, de tudo manter na harmonia amorosa do céu, dissimulamos o calor mais infernal da história humana, os conflitos, as disputas – claro, também o encontros, por que não?, mas, por favor, sem esconder as rusgas, essas, sim, fundamentais –, que marcam definitivamente a agenda dos discursos bíblicos. Não, não. A agenda não é celeste. É humana, demasiadamente humana.

 

É que somos assim. Sabemos o que dizemos, quando insistimos que Deus fez questão de fazer-se, também ele, assim?

© Osvaldo Luiz Ribeiro

– autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações no texto –

– página atualizada em 05/04/2008 11:18:11