Nome e Magia

– de uma hipótese acerca do tabu em torno do nome de Yahweh

Osvaldo Luiz Ribeiro

(03/04/2008)

(necessário revisão)

 

O leitor deve ter em mente que se trata de uma hipótese de trabalho. Uma professora minha, do Doutorado em Teologia, tem acerca de mim a opinião de que meus textos sustentam-se por um excesso de pressuposições, de hipóteses. É verdade. Não há outro modo – e se, eventualmente, cogita-se a possibilidade de uma tese sem pressupostos, labora-se em equívoco: em Ciências Humanas, tudo, absolutamente tudo é pressuposto.

 

Quando alerto, contudo, o leitor, acerca do fato de que aqui vai uma hipótese, é que ela não foi, ainda, por mim, suficientemente testada. Nasceu há algum tempo, e não tive tempo de verificar as condições de plausibilidade metodológica dela. Se ouso escrever sobre ela, é, contudo, porque estou suficientemente convencido de que haja indícios – de que há indícios – a seu favor. Mas ainda não fui lá, garimpeiro indiciário, aos textos hebraicos, à caça de vestígios retoricamente comprobatórios, depois de ter dado à luz a intuição1.

 

Bem, quero apresentar a seguinte hipótese: o tabu quanto à pronúncia do nome de Yahweh entre os judeus constitui o resultado de uma estratégia de interdição do sagrado a qualquer agente que não os operadores autorizados do Templo de Jerusalém.

 

 

Operações políticas de interdição do Sagrado

 

 

A partir do século VI a.C., especificamente a partir da ascensão ao poder do sumo-sacerdote Josué, por volta de 520, quando da reconstrução, sob a Pérsia, do Templo de Jerusalém, inicia-se um processo de interdição do sagrado que me parece sem precedentes em Judá – se não já na história.

 

A razão da interdição teria sido a estratégia de tornar o centro hierocrático de poder – o Templo de Jerusalém – o único pólo de acesso ao sagrado, para, por meio dessa exclusividade simbólico-ritual, obter-se o controle sobre as expressões culturais e materiais da população – controle social, cultural e noológico, arrecadação de impostos, manutenção do poder. À tese de que a Pérsia manejava o conceito de liberdade religiosa, inaugurando-o, até, contraponho, veementemente, a tese de que, antes, a Pérsia inaugura a era do controle noológico, retórico-simbólico, mítico-religioso, programático, das massas. Não é à toa que em cada cidade Ciro se deixe levar pela mão do respectivo Deus – inclusive, pela de Yahweh. Desde que, claro, esse Deus aceite – ah, e aceitará, não há dúvida – a autoridade do imperador. Acordos sacerdotais - como aquele entre Ciro e os sacerdotes babilônicos de Marduque.

 

Há vestígios de que o templo não teve imediata aceitação por parte da população remanescente. Malaquias deixa isso muito claro, quando acusa o povo de roubar, já que, segundo a acusação, não se levavam todos os dízimos à Casa do Senhor - entenda-se, o Templo. Malaquias, aí, já é um sacerdote – e não um profeta – como se pode depreender muito claramente de Ml 2,7: “porque o sacerdote é o mensageiro de Yahweh”.

 

A seu turno, também um Ageu encontra-se revoltado com o fato de que cada um esteja cuidando primeiro de si, e que relegue – se tanto – ao templo sobras de tempo e de recursos. Também aí se percebe que a população, por si mesma, não está lá muito interessada em construir seu próprio carrasco. Pelo menos não vê no aparelho hierocrático nenhuma vantagem, não lhe desperta nenhum interesse aquela construção.

 

Há uma má vontade explícita (isso se o desaparecimento de Zorobabel não significa, já, que alguma violência social está por trás da ausência de herdeiros da coroa, daí a necessidade de pôr-se no poder um sumo-sacerdote).

 

E – é de se esperar – não tarda a reação.

 

Sabe-se que foram proibidas as imagens. Hipótese: porque, manipulando imagens cúlticas, o povo pode entender que não precisa do templo, já que pode, ele mesmo, o povo, angariar as benesses de Yahweh – ou de outras divindades – por meio de suas próprias práticas litúrgico-simpáticas. Fato: até o século VI, desenterram-se imagens na Palestina. Depois, acabam-se. Por quê?

 

Sabe-se que foram proibidos cultos a outros deuses e deusas que não Yahweh. Hipótese: porque, se o povo pode recorrer a outros deuses, e não apenas a Yahweh, deus do Templo de Jerusalém, logo resulta inútil toda a estratégia de tornar esse templo o centro político-religioso da província. Fato: a crer-se em Ezequiel, antes da “restauração” persa, o próprio templo de Jerusalém possuía imagens de répteis, e uma particular imagem, dita provocante de ciúmes, mas, talvez, “criadora”. Depois da restauração, apenas Yahweh – e mais nenhum deus – seja em Jerusalém, seja em Judá. A hipótese não explica, é claro, como Jerusalém tornou-se monolátrica, mas explica como, sendo Jerusalém monolátrica, deve ser monolátrica toda a Judá. O povo todo deve vir a Jerusalém para adorar Yahweh. Importante: deve vir.

 

Sabe-se que foram proibidos altares – mesmo quando uma tradição inteira, abraâmica, pinta o herói a construí-los às toneladas pelo solo de Canaã. Chega-se a orientar a sua construção – abster-se do uso de martelos de ferro. Mas, agora, acabou – sem altares, cavalheiros, exceto esse aqui. Hipótese: se a população, através de seu aparelho sacerdotal tradicional, tiver acesso a ritos de aplacamento da ira de Yahweh, ou de excitação dos seus favores, resulta perdida a força coercitiva do altar de Jerusalém. Fazer o quê? Impedir qualquer outro altar que não aquele.

 

Sabe-se que houve templos em Judá e em Israel. Não são muitos os que têm sido desenterrados, mas os há. Inclusive aquele sensacional, de Kuntillet ‘Ajrud, sem contar o de Arad, de Dã, de Bersabéia, de Hurvat Qitmit. Isso para manter-se a discussão no período pré-exílico, já que se sabe da existência do templo constrangedor de Elefantina, no Egito, utilizado pela colônia judaica até um período relativamente adentrado do pós-exílio. Mas, agora, não se querem mais templos. Apenas um – aquele. Sabe-se qual. Por quê?

 

Sabe-se que houve sacerdotes de vários tipos, além daqueles que assumiram, sob a Pérsia, o poder. Há um grupo de levitas, talvez aqueles relacionados aos altos, espaços cúlticos, cercados, arborizados, no alto de colinas, espalhados por todo o território de Judá. Também há o conflito entre casas sacerdotais rivais (será o caso da cena mítico-literária do conflito entre Moisés e Aarão, em Nm 12?). Agora, depois da ascensão ao poder de Josué, sumo-sacerdote, apenas eles, e ali, podem oficiar. Os demais, para sua sobrevivência e subsistência, devem integrar-se ao aparelho sadocita de Jerusalém. Por quê? Porque ninguém mais pode – deve – intermediar acessos ao sagrado, salvo eles, os sacerdotes sadocitas, e ali, em Jerusalém, no Templo de Jerusalém.

 

Sabe-se que todos os demais aparelhos cúltico-litúrgicos de Judá foram proibidos – altos, massebás, asherás. Por quê? Por que é necessário – essa é a política de Judá agora, que toda a população encaminhe-se a Jerusalém, ao templo, e que, ali, reconhecido como único centro de acesso à divindade, único meio, aceitem-se as regras político-religiosas da nova organização político-social da província. Apenas ele, o Templo de Jerusalém, e nada mais.

 

Sabe-se que havia uma série de oráculos em Judá – profetas críticos – ativistas políticos, a bem da verdade, como um Amós. Profetas cúlticos, oráculo oficial, ao lado do sacerdócio, na corte real, como um Natã, por exemplo. Profetas extáticos, como aqueles do grupo dentre os quais diz-se ter estado um Saul atormentado. Isso antes de Josué. Depois dele, é arriscado, muito arriscado apresentar-se como profeta – sob risco de morte, até. Há um só mensageiro de Yahweh, agora.

 

Não sei se esses itens mencionados esgotam todas as interdições. Poderia subdividir alguns, e explicitar o atentado político-religioso contra as mulheres, sacerdotisas e profetisas, mas, a rigor, elas estão inseridas dentro do quadro geral de interdição, ainda que com elementos retóricos especiais, como a transformação do tabu da menstruação em imundície interditante. Seja como for, o quadro está bem desenhado – conforme eu o percebo, claro.

 

O que sobrou?, quero dizer, na mão do povo?

 

Bem, não exatamente na mão, mas na boca – o Nome. Com efeito, é muito suspeito que haja um tradição de não se pronunciar o nome de Yahweh – em vão – quando a própria Bíblia Hebraica testemunha milhares de vezes a sua escrita, estando pressuposta a sua leitura, obviamente, e, conseqüentemente, a sua leitura pública. A prática de pronunciar-se “‘Adonai” em lugar de “Yahweh”, testemunhada pela vocalização massorética, “Yeovah”, do tetragrama apenas ilustra uma situação própria da época massorética – séculos depois da época pós-exílica, praticamente mil anos história adentro - não, absolutamente, do período em que os respectivos textos vocalizados teriam sido, efetivamente, escritos. Lá e então, não apenas se escrevia o tetragrama, como se pronunciava, sim, senhor, o Nome.

 

Sabemos da máxima neotestamentária: “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. O nome, aí, bem entendido, é o de Jesus da fé. Ora, se o acesso ao nome é interditado, resulta que não se pode invocá-lo, e você tem de recorrer a quem pode, efetivamente, fazê-lo. Terá, então, o tabu da pronúncia do nome de Yahweh, originado-se do mesmo padrão de retirar do povo todos os instrumentos de acesso ao sagrado? Sem nada nem ninguém que abra a porta das escadas dos céus, nem mesmo o nome, para bater à porta, e gritar pelo morador, o que resta? - bater à outra porta: aquela.

 

A hipótese é tentadora.

 

É bom ter em mente que a cultura judaica é uma cultura mágico-simpática, que vê na palavra não um conjunto sígnico-fonético de representação lingüístico-noológica do real. Para Judá, a palavra é efetiva, eficiente, eficaz. Não é por outra razão que Yahweh tem de, a todo custo, evitar que Balaão amaldiçoe Israel. Ele não poderia, simplesmente, deixar que a maldição fosse lançada, e, zombando dela, mostrar quão fraco é o profeta? Nos termos da narrativa, não – se Balaão amaldiçoar, nem Yahweh pode fazer alguma coisa a respeito. Por isso, é necessário que, como um satan, Yahweh coloque-se entre a mula e o povo, e impeça Balaão de lançar, desde sobre a montanha, palavras sobre o povo – como um vírus, elas contaminariam, como uma chuva, elas molham, como areia, elas entram pelos olhos e boca.

 

A palavra é mágica. Daí que, privado dos templos, dos altares, dos equipamentos litúrgicos, das imagens, dos sacerdotes campesinos, dos profetas, das profetisas, resta ao povo, somente, uma coisa – o nome.

 

Mas não por muito tempo. Interdite-se o nome. Ensine-se que constitui pecado a sua pronúncia – o seu manejo. Deve-se investigar a hipótese de a retórica do Nome de Yahweh habitar o templo constituir não o resultado de um processo de abstração teológica do sacerdócio jerosolimitano, mas de uma estratégia de privação do então último recurso popular de contornar a sufocante administração sacerdotal do sagrado. O poder de Jerusalém sabe que, dada uma estratégia de controle noológico da população (minha hipótese: A República ensina, programaticamente, a fazer isso, talvez porque A República seja, afinal, a sistematização de rotinas persas, aprendidas e apreendidas pelos gregos, durante as guerras), é necessário “encantar, enfeitiçar, convencer” a população por meio de mitoplasmas e retóricas ensaiadas, bem como por meio da expulsão da cidade das vozes dissonantes, caso contrário, o “murmúrio” do governo não se fará ouvir em todos os recantos da cidade (é assim que Marcel Detienne lê A República). Não – o povo não pode pronunciar o Nome, e, assim, crer que pode acessar, por si, e lá longe, os poderes da divindade. O povo deve vir aqui, e nós, e apenas nós, devemos e podemos acessar tais poderes – a um certo preço, claro.

 

Um parêntesis. Parece que Jesus esteve envolvido com polêmicas em torno de (e)vocativos. Se Joaquim Jeremias estiver correto, e o uso do tratamento abba por parte de Jesus representar, mesmo, uma crítica e um programa de superação do controle social por parte da inteligentsia religiosa judaica, não estamos tão longe, então, de entrever fenômenos de resistência aos movimentos sacerdotais. Segundo Joaquim Jeremias, diante do fato de que Yahweh fora aprisionado pelas retóricas do poder – templo e sinagoga –, e, lá preso, desde lá saírem orientações de tratamento compatíveis com essa administração, sempre em detrimento da liberdade popular, a prática de Jesus ter usado o termo de tratamento que apenas crianças usavam em relação a seus pais, e isso, ainda assim, apenas no interior das casas, já que, em público, seria considerado desrespeito, significaria que Jesus está recusando entregar ao poder religioso a administração do acesso ao sagrado, e devolvendo-o, retoricamente, ao povo – cada um, em sua casa, fale com seu paizinho, e está bom assim.

 

Palavras, jogos, armas. Sem palavras, sem armas – esse é o jogo. Sem armas, rendição.

 

Minha hipótese, a ser investigada, então, é essa – o Templo inventou o tabu do nome, para reagir ao uso mágico-simpático popular das rotinas de invocação eficiente do nome sagrado, estratégia que se delineia na esteira operacional do templo de interditar todos os acessos, de fechar todas as portas, de prender Yahweh em uma cômodo inacessível - ou quase.

 

Porque não terminou aí essa história. Ela continuou. Registrarei, aqui, brevemente. Sempre hipoteticamente, e sempre a ser investigado. Diria que a reação a esse aprisionamento de Yahweh, agora também do nome de Yahweh, no Templo, foi a teologia da Sabedoria. Ela é posta a falar nas ruas – não está presa. Ela é apresentada com todas as características de Yahweh, mas não é Yahweh, porque, se for, está presa. Não parece ser coincidência que os criadores da doutrina da Sabedoria sejam os mesmos que digam que o sentido da vida está em amar a mulher da sua juventude, comer o pão, beber o vinho, estando, aí, ausentes, as referências litúrgicas e rituais próprias de Jerusalém – é guerra retórica, guerra de mundos, reação e contra-reação.

 

Se for correta essa percepção – não é de estranhar que Eclesiástico vá transformar tal Sabedoria, livre demais, solta demais, na Palavra, saída da boca de Yahweh, e tabernaculada, encarnada no Templo de Jerusalém, e, junto com Baruque, trasnforme-a, agora, na Torah2 nhac, e ele come mais um! Também não é mais estranho, a essa altura, descobrir-se que João não inventou a encarnação – a tabernaculização - do Verbo, da Palavra, da Sabedoria. A retórica já estava pronta, em Sabedoria, Eclesiástico e Baruque, e era, já, operada pelos saduceus e fariseus. O que João faz é reagir, confrontar, negar – não, não é nem no Templo nem na Lei que está encarnado o Verbo de Deus – mas em Jesus. A Lei é "apenas" de Moisés - mais ninguém (nem Moisés? - Nm 12,7-8) jamais viu a Deus (Jo 1,18), apenas esse Jesus-Verbo Encarnado, porque estivera com Deus, antes de encarnar.

 

Jesus – e começou tudo outra vez...



[1] Reporto o leitor a dois textos importantes de Carlos Ginzburg – Relações de Força, e Raízes do Paradigma Indiciário. Este é anterior àquele.

[2] Franco MANZI, Seconda Lettera Ai Corinzi. Nuova versione, introduzione e commento. Torino: Paoline Editoriale Libri, 2002, p. 180.

© Osvaldo Luiz Ribeiro

– autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações no texto –

 

 

 

– página atualizada em 23/04/2008 19:36:05