Texto e Narrativa em Metodologia Exegética do Antigo Testamento

definições e distinção técnica

 

"Dado o exposto, concluímos que a tomada de um termo por outro tem prejudicado o ensino e o desenvolvimento da prática de escrever, pois a ênfase está sendo dada às técnicas de redação, e o estudo do texto como unidade de significação apresenta-se insuficiente. É necessário estudar os processos que constituem a linguagem, analisando as diferentes formas de manifestação do sentido presentes no texto, entender o funcionamento da linguagem, a partir de como as unidades significativas são articuladas na superfície do texto, observar, enfim, aspectos sociais – históricos e culturais – e os processos sintático-semânticos."

BONETTI, Luaria Medeiros. Texto: reorganizando sua compreensão. Linguagem em (Dis)curso. v. 1. n. 1.

 

 

Em Metodologia Exegética do Antigo Testamento, convém distinguir os conceitos de texto e narrativa.

 

Texto consiste na reação de um sujeito-reagente histórico-social a ações, potenciais ou factuais, de ou sobre outro sujeito-agente histórico-social. Por reação entenda-se a “ação com vistas a”, a “ação intencional em direção a”; dir-se-ia que algum fator histórico-social, agindo sobre o sujeito-agente, promove reação da parte do sujeito-reagente. Por sujeito, entenda-se um indivíduo ou um grupo social, tanto o primeiro quanto o segundo sujeitos. Por “histórico-social” considere-se a condicionalidade desses sujeitos a seu tempo, a seu lugar e a suas relações sociais. Esses sujeitos devem ser tomados como função dialética de sua situação histórica e social. Com ações entendam-se atos históricos, que, efetivos ou potenciais, apresentam-se como de interesse da parte do primeiro sujeito – reagente. São tanto potenciais quanto factuais, porque o sujeito-reagente reage a ações concretas ou a possibilidades de ações concretas relacionadas ao sujeito-agente.

 

Distingam-se duas possibilidades: o sujeito-agente pode estar efetivamente agindo ou pode estar sofrendo uma ação histórica. Nos dois casos, o sujeito-reagente reage. Essa reação tem por objetivo o envolvimento com essa ação, ativa ou passiva, a que o sujeito-agente está relacionado.

 

Estão dados dois sujeitos: o agente – a quem o texto se destinará – e o reagente – quem elaborará o texto. O primeiro é agente no sentido amplo de a ele se relacionar o evento histórico-social que determinará a produção do texto, ainda que esse sujeito esteja agindo ou sofrendo a ação. Diante dessa ação-evento, o sujeito-reagente reage – elaborando um texto. Texto, então, consiste numa reação histórico-socialmente determinada.

 

O objetivo da reação do sujeito-reagente em elaborar o texto é intervir. A ação de escrever-ler o texto consiste num fenômeno de intervenção social. Com esse texto, instrumento, o sujeito-reagente, reagindo, pretende interferir naquela ação passiva ou ativa do/sobre o sujeito agente. A intenção de intervenção pode se retificadora – quando quer corrigir ou evitar determinado desvio comportamental do sujeito agente – ou ratificadora – quando quer reforçar, corroborar, incentivar determinado comportamento. Nesse sentido, o texto consiste num instrumento de intervenção social de um sujeito-reagente sobre um sujeito-agente.

 

Enquanto instrumento de intervenção social, o texto é constituído de intenção e conteúdo. A intenção não é dada de forma explícita as mais das vezes no próprio texto. Já o conteúdo é a própria narrativa. Com isso, pode-se pensar narrativa como o conteúdo de um texto, capaz de sustentar de forma plástica a estrutura intencional do sujeito-reagente. Dentro da cultura anticotestamentária, deve-se compreender que o texto não funcionava por si mesmo – antes, sua gênese estava tão determinada pelo contexto histórico-social – a arena – relacionada aos sujeitos reagente e agente, quanto sua explicitação dependia de instrumentalização contextualizada. Noutras palavras – a narrativa deve ser lida e explicada, e sua máxima carga de intenção expõe-se na leitura.

 

Narrativa, portanto, é função histórico-social da intenção reagente do sujeito em direção ao sujeito-agente. O sentido da narrativa está inexoravelmente ligado ä intenção do sujeito-reagente de intervir sobre o sujeito-agente. Cada palavra e frase da narrativa está ligada diretamente não à ação que determina a produção do texto, mas à intenção do sujeito-reagente diante dessa ação.

 

A narrativa, portanto, representa o mundo do sujeito-reagente – ou o mundo que ele cria intencionalmente como eficiente e eficaz em seu projeto de intervenção social. A narrativa não tem, geneticamente, fim em si mesma – mas consiste em meio, instrumento, função textual da intencionalidade histórico-social de sujeitos.

 

Constitui-se a narrativa de conceitos, tradições, idéias, proposições, palavras – mundo histórico-social em que estão inseridos ambos sujeitos. São conceitos, tradições, etc. que lhes diz respeito. Podem consistir em poemas, leis, sagas, mitos, lendas, histórias – gêneros variadíssimos. Enquanto gêneros, também nada são em si mesmos que não expressão de uma intencionalidade precisa, específica e direta – a intenção do sujeito-reagente em intervir na realidade.

(atualizado em 17/03/2006)