Teologia e magia

- sobre pecados, demônios e sistemas mítico-ritualistas políticos

Osvaldo Luiz Ribeiro

27/06/2007

 

Escrevi há poucos dias o artigo Pecado, Política e Poder. Ali, defendia a tese de que os sistemas religiosos – especificamente, mas não exclusivamente – derivados da(s) religiões do Israel tradicional veterotestamentário, constituíam sistemas de satisfação do pecado, cujos operadores institucionais elaboravam todo o complexo político-teológico, em conformidade com o aparelho institucional, desde o qual operavam o sistema. Assim, sacerdotes, operando o templo, manipulam uma teologia essencialista do pecado. Fariseus, operando sinagogas, manejam uma teologia casuística do pecado. E a monarquia, operando a Grande Instituição – Tempo-Palácio – articula um sistema teológico de pecado mítico-simpático. No frigir dos ovos, cada sistema reflete os interesses político-econômicos dos operadores do sistema, construindo-se e mantendo-se por meio da simbiose entre base material e superestrutura noológica. Ou seja, a idéia encarnada na estrutura, e a estrutura alimentado a idéia.

 

Pois bem, se o pecado é um elemento fundamental da teologia cristã, qual o lugar que cabe à demonologia?

 

Parece-me essa uma questão importante, e que se coloca no entroncamento da História da Religião de Israel, justamente ali, onde ela bifurca-se - pelo menos - abrindo uma via cristã. Deve ser observado que, a rigor, os sistemas de operação dos rituais de satisfação do pecado – casuístico, essencialista e mítico-simpático – são, em se tratando de “Israel/Judá”, todos, anteriores à inserção da demonologia na cultura judaica. Em termos teológicos, não há demonologia no Antigo Testamento. Sim, há referências a “seres” mitológicos, aqui e ali, mencionados de forma não-sistemática, e mesmo em se considerando textos tão avançados quanto Daniel, por exemplo. Sombras de uma demonologia muito ainda incipiente imiscuem-se – no cânon – muito tardiamente, e estão absolutamente ausentes na literatura “clássica” – Torah e Profetas, bem como na maioria esmagadora dos Escritos.

 

Quando se chega, contudo, ao Novo Testamento, quando o pano se abre, como que saídos da coxia, milhares de demônios de todos os tipos, com nomes, com funções, com caras e bocas, com vozes, com idiossincrasias, invadem o . Paulo, por exemplo, é um campeão da luta contra os poderes do ar, porque, para ele, o ar é ninho de castas demoníacas. Paulo é um bom judeu helênico-pérsico. Um filho de Enoque, certamente.

 

Essa idéia profundamente mitológica nasceu num momento muito recente da História da Religião de Israel. Sem pretender reconstruí-la aqui, assinalo, apenas, que ela deriva da teologia persa e helênica, cozida a fogo, em Judá, durante o período “intertestamentário”. Se me permitem um trocadilho alquímico, o cadinho desde onde se precipitarão todos os demônios, culturalmente e literariamente falando, são os apócrifos – e nem os deuterocanônicos, mas os apócrifos mesmo, aqueles da altura de Enoque e O Testamento dos Doze Patriarcas. É ali – até onde sei – que nasce a demonologia neotestamentária, e, conseqüentemente cristã.

 

Os nomes dos demônios, sua genealogia, sua origem, sua história, sua queda, seu destino, suas maldades, suas especializações funcionais – está tudo ali. O lago do fogo, de Apocalipse? Está ali. Que fossem anjos, e que caíram? Está ali. Que habitam um dos andares dos “céus”? Está ali. Que atacam os homens, em bandos? Está ali. Nada há, em se tratando de demonologia, que não esteja ali. A práxis dos demônios, nos cultos neopentencostais contemporâneos não é diretamente recolhida dali, porque está mais aparentada com os rituais da umbanda, depois de sua demonização teológica. Mas os demônios lá, também falam, como aqueles que falavam com Jesus, antes dele os expulsar.

 

Jesus é tributário dela. Não é que Jesus tenha revelado aos judeus de sua época o fato de que o cosmos está apinhado de demônios. Como bom judeu, desde pequeno, Jesus deve ter sido educado a pensar assim, e a agir a partir daí – ou, ao menos, é assim que os Evangelhos o reconstroem, e que Atos se lembra dele – alguém que andou pelo mundo, libertando os oprimidos do diabo.

 

E esse é um ponto importante, se o interesse é pensar pecado e demonologia. Estaria eu laborando em erro se pretendesse entrever nos dois sistemas teológicos duas plataformas operacionais absolutamente independentes? Por que, por exemplo, os sistemas de satisfação do pecado não reservam um lugar para os “demônios”? Pelo menos não antes da demonologia?

 

Penso que a resposta não esteja muito distante da constatação de que, num sistema, o homem é culpado, e no outro, é vítima. Para a teologia engendrada pelo interesse de manutenção do aparelho institucional que elaborou político-teologicamente os conhecimentos e rituais de satisfação do pecado, o homem é culpado, e precisa servir-se da intermediação institucional, como salvaguarda pessoal. Os homens precisam dos intermediadores institucionais, porque precisam purgar suas culpas, de um jeito ou de outro, ou porque, simplesmente, é assim.

 

A demonologia funciona de forma diferente. Trata-se de uma guerra, na qual são necessários guerreiros carismáticos. Contra os demônios, a magia, o poder, o carisma. Os demônios vitimam os homens, coitados, que penam sob a maldade sobrenatural dos bandos, das castas, das hostes, dos infernos todos. Demônios da doença, da fome, da guerra, da dor. Demônios especialistas, cada um para cada coisa – como os santos! Vítimas deles, os homens precisam de socorro, de ajuda, de auxílio, de campeões. E, aí, instala-se o discurso legitimador do operador do sistema: a magia. Seja a força da palavra, que os expulsa, seja o conhecimento dos talismãs e dos amuletos, que os interdita, seja a administração dos passes, vão-se instalando centros de operação teológico-ritualística, contra os demônios.

 

A essa altura, se o homem escapa da rede institucional, construída em torno dos conhecimentos e dos rituais de satisfação do pecado, onde ele, o homem, é culpado e réu, escapando, então, ele cai, fatalmente, na rede dos carismáticos, poderosos contra todos os demônios, protetores dos homens oprimidos pelas hostes de enxofre.

 

Vê-se, afinal, que há uma diferença muito grande entre demonologia e harmatologia. São sistemas político-religiosos operados por diferentes poderes sociais. A manutenção dos respectivos poderes sociais, que os operam, aprofunda cada vez mais a simbiose entre infra-estrutura material e superestrutura noológica, de modo que o aparelho tende ao refinamento e às minúcias teológicas.

 

Por outro lado, essa diferença revela justamente o que têm de igual – são sistemas de oportunidade político-social, em que operadores institucionais sobrevivem à medida que garantem a sobrevivência dos respectivos sistemas teológicos.

 

Naturalmente que pode ser trazido à luz o argumento de que, na “teologia” – isto é, no sistema doutrinário-dogmático cristão, a que se chama, politicamente, “teologia” (como no jargão Literatura e ‘Teologia’), os dois sistemas estão interligados. É verdade. No ambiente do sistema doutrinário cristão, o “pecado” é “explicado” – ? – por meio da alegoria de Gn 2,4b-3,24: a “serpente” é “Satanás”, de modo que é “Satanás” o responsável pelo “pecado”. Assim, os dois sistemas são unificados.

 

O que não significa, e não significa mesmo, que o fossem, antes de o serem. E, se eu estou raciocinando de forma correta, se os dois sistemas foram unificados, foram-no por interesse de uma instituição-poder. De fato, será a teologia cristã institucionalizada e clericalizada a fazê-lo, e não duvidaria, aliás, é a inferência natural deste artigo, que o tenha feito com o interesse de recolher para si todos os poderes de conhecimento e de rito disponíveis na “religião cristã”. Doravante, se estou certo, o clero cristão pretende para si o monopólio dos ritos de satisfação do pecado, bem como os de exorcismo. Os poderes são sacramentos.

 

O movimento evangélico brasileiro contemporâneo apresenta-se dividido. De um lado, as igrejas históricas, tradicionais, que ainda sustentam seu discurso político-teológico marcadamente harmatológico. O Evangelho que se prega, aí, é aquele de “perdão” do pecado – essencialista, é claro, uma vez que tal sistema elaborou-se pelo ciúme do templo, desde a origem, e o ciúme do sacerdócio, desde há quinhentos anos. As igrejas são celeiros de graça, e a elas devem recorrer os pecadores.

 

Os movimentos neopentencostais romperam com esse sistema. Substituíram-no pela demonologia, na qual, se viu, os homens são vítimas. Aí, os operadores do sistema não precisam ser “teólogos” – têm que ser mágicos, xamãs, carismáticos. A demagogia institucional de tais movimentos reporta-se à memória de Jesus, em Atos, cujo mister teria sido livrar as pessoas do diabo. E isso se faz, dia e noite, nos templos neopentencostais, seja diretamente – exorcismo – seja indiretamente – curas (já que as doenças são explicadas, aí, como ações de “encostos”).

 

O mundo evangélico é como um cinturão de asteróides. Não há um “sol”, mas uma farranchada de planetóides, cada um por si, todos empurrados pela mesma força gravitacional. Assim, o sistema institucional de satisfação do pecado nada pode fazer contra os discursos de legitimação institucional de exorcismo e cura. Resta a pirraça. As igrejas evangélicas não detém “poder” central, de forma que faz-se o que se quer. E os sistemas demonológico e harmatológico são tão independentes que, de fato, operam independentemente – basta analisar um culto “batista” (clássico) e um culto neopentecostal.

 

Já o catolicismo, dada a sua força institucional “forte”, logra manter relativamente sob seu controle dogmático as duas plataformas político-teológicas, administrando, desde o “centro” romano, quer os conhecimentos e os ritos de satisfação do pecado, quanto, ao mesmo tempo, os rituais de exorcismo.

 

Porque nasceram em momentos históricos diferentes, porque pertencem a registros ideológicos diferentes, porque foram artificialmente costurados numa dogmática centralizadora, harmatologia e demonologia até podem funcionar simbioticamente, mas prestam-se à rivalizações de mercado muito interessantes, como a “batalha” entre a teologia clássica evangélica e a teologia neo-evangélica – que, talvez, tenha vindo pra ficar.

 

Se a consciência desse indivíduo ainda o leva a considerar que seu sofrimento é fruto dos efeitos eficientes e inexoráveis de sua própria culpa, podem-se mostrar a ele trezentas e dezoito hostes de satanases de rabo e chifre, que ele ainda há de procurar o perdão no sistema harmatológico. Ganharão os sacerdotes da graça. Se a consciência desse indivíduo, contudo, vai-se tornando, hum, dissociada da teologia da culpa, e inclinou-se à noção de vítima, e vítima dos diabos de rabo e chifre, ele quererá ser atendido, e rápido, pelos exorcistas evangélicos, os curandeiros de Jesus, como quem, acometido de uma dor de dente, não está nem aí para a causa, desde que se lhe ministre o anestésico específico. Ganham os xamãs. Não me admira que, pragmáticos ao extremo, os que sofrem corram para os dois lados, por precaução. Se um falhar, o outro segura.

 

O que é, afinal, que ganha a sociedade com isso?

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

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– página atualizada em 31/08/2007 10:35:45