Osvaldo Luiz Ribeiro  

 

Salmo 53  

 

quando os pastores são leões

 

Para

meus dois filhos,

Israel e Jordão,

um cabe dentro do outro,

um, a vida do outro,

como deve ser.

 

SUMÁRIO

Introdução  

Tradução Literal  

“A congregação dos pervertidos”

– Deus não vai fazer nada a respeito...  

A congregação d“os filhos de homem”

– Que se dane a justiça!  

“Os devoradores do meu povo”

– Será possível?    

Uma cidade sitiada, um rei envergonhado

– Ironia das ironias  

Pão e circo

– Até quando?  

Lições que extraio para mim  

 


Introdução

 

Era uma quinta-feira, e um convite para o sermão de domingo então próximo me instava a ler Nm 21,4-9. Um ano depois defendia, com base nesse texto, minha Dissertação de Mestrado, sobre Nehushtan, no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil. Lá se vão três anos!

 

 

Era uma quarta-feira, um aluno vai falar alguma coisa no culto de oração, à noite, e quer uma orientação sobre o Sl 53. Ao telefone, os dois, lemos juntos o salmo. Nasceu ali, naquela tarde, isso que vai aqui, ia lá, em flor, o que vai aqui, em fruto, e espero, saboroso, ainda que amargo...

 

 

Os textos que me têm marcado não os tenho escolhido. Eles vêm a mim, e me agarram, e não os consigo soltar mais, ou, seria melhor dizer, não me consigo soltar mais deles.

 

 

O Sl 53 é um desses. Tem um (quase) sósia, que o ilustre exegeta Alonso-Schökel considera o melhor preservado, logo, o mais “original”, para minha dor de cabeça, que penso diferente.

 

 

Penso que se trate de uma leitura histórico-poético-teológica, sapiencial sobretudo, de acontecimentos históricos que, quem sabe, se podem datar, nomear, circunscrever, e, até, olhar pela lente de um outro povo. Mas não quero dizer tudo. Digo apenas que tentei escrever o texto como o li pela primeira vez, como se fosse agora descobrindo tudo de novo, tanto criticamente, quanto emocionalmente, que o texto é tocante, lancinante, dolorido, machucado.

 

 

Por isso mesmo, necessário. Se o presente livrinho o ler de forma minimamente decente, se houver aqui um mínimo grau de plausibilidade – e esta é a sina da exegese, quem sabe até chegar perto, quem sabe até acertar na mosca, mas como saber? – então o Sl 53 mereceria um lugar de honra no portal de todos os templos, de todas as capelas, de todos os palácios, de todos os lugares onde “pastores” e “reis” se assentam, sob eles o povo, e sobre eles a responsabilidade de cuidar deles.

 

 

Ao que Deus deixou incumbido àquela que logo será tratada como a “congregação dos pervertidos”, como os “obreiros da violência”, como os “devoradores do meu povo”, parece equivaler aquela insistência de Jesus diante de Pedro, “amas-me?”, três vezes, e três vezes a resposta. Resposta que eu sei, tu sabes, ele sabe, nós sabemos, e a questão é se ouviremos, também nós, o grito indignado de Deus “não sabem!? não sabem!?”.

 

 

 

 

Tradução Literal

 

 

 

 

2aaDisse o desajuizado em seu coração:

2ab‘Não há Deus’.

2baPerverteram-se, e cometeram injustiça:

2bbnão há um que faça o bem.

 

3aaDeus desde os céus olha

3absobre os filhos de homem,

3agpara ver se há um sensato,

3bum que busque a Deus.

4aaCada um se distanciou,

4abjuntos se corromperam:

4agnão há um que faça o bem,

4bnão há sequer um.

 

5aa‘Não sabem os obreiros da violência?

5abOs devoradores do meu povo devoram pão!’

5bDeus eles não invocam!

 

5aaLá eles tremeram de terror,

5absem que houvesse terror,

5agporque Deus espalhou  5ados ossos do que te sitiava.

5bTu te envergonhaste, porque Deus os rechaçou.

 

6aaQuem dera de Sião salvações de Israel!

6abQuando Deus mudar a sorte de seu povo,

6bcelebrará Jacó, festejará Israel.


 

“A congregação dos pervertidos”

– Deus não vai fazer nada a respeito...

 

 

 

 

2aaDisse o desajuizado em seu coração:

2ab‘Não há Deus’.

2baPerverteram-se, e cometeram injustiça:

2bbnão há um que faça o bem.

 

 

Se é no seu próprio coração que o “desajuizado” diz que não há Deus, como o salmista o pode saber? O salmista lê pensamentos? Tem bola de cristal? Recebe uma revelação divina? Bem, se dependermos do próprio salmo para o dizer, a resposta parece ser mais simples, e mais realista – e nada nova. É que a comunidade a que pertence aquele que é dito “desajuizado” perverteu-se, e cometeu injustiça, o que, no v. 2, significa não fazer o bem.

 

 

É porque aquela comunidade, aquela associação de pessoas, não faz o bem, isto é, porque se perverteram, porque comentem injustiça, que o salmista pode dizer que, agindo assim, vivendo assim, vivem como se Deus não existisse.

 

 

O próprio verso nos dá informações esclarecedoras, e deixa pistas que, adiante, se mostrarão importantes para a compreensão do salmo. Deve-se, contudo, caminhar passo a passo, isto é, verso a verso, e se ir somando pedaço de entendimento a pedaço de entendimento, até que, comida fatia após fatia, se tenha comido todo o bolo...

 

 

Três declarações devem ser perfiladas então: 1) “não há Deus”; 2) “perverteram-se, e cometeram injustiça”; e 3) “não há um que faça o bem”. Tais declarações se definem uma pelas outras. Assim, “não fazer o bem” não consiste, no v. 2, em “deixar de fazer alguma coisa boa”, mas, o que é mais grave, em “cometer injustiça”. Por sua vez, “cometer injustiça” consiste em “perversão”. “Perversão” é, de certo modo, uma espécie de descarrilamento: saiu-se dos trilhos, por assim dizer. E tudo isso é transformado numa metáfora relevante no salmo: “não há Deus”.

 

 

De novo: não é que alguém esteja se declarando “ateu”. Não é essa a questão do salmo. Não é isso que a expressão “não há Deus” quer fazer significar. Quem quer que esteja sob a mira do salmista, nem mesmo está declarando alguma coisa! Ele está “vivendo”, “agindo”, e, vivendo e agindo como vive, age como se, em seu coração, dissesse que Deus não existe. Como assim? É que ele pratica injustiça, quando deveria praticar a justiça (“perverteram-se”, lembra-se?). Se ele pratica a injustiça, e isso significa praticamente dizer que se vive como se Deus não existisse, isso significa que ele pratica injustiça, apostando que nada lhe acontecerá. Não se trata de “ateísmo”, mas de descaso quanto à justiça de Deus.

 

 

Outra observação importante, é o jogo que o salmista faz com os olhos, ora olhando para um indivíduo, ora olhando para uma congregação. Quem diz em seu coração que não há Deus é um desajuizado. Por outro lado, quem se perverteram foram eles, assim como são eles que cometem injustiça, quando deveriam praticar justiça. Isto é, há um indivíduo e uma congregação, ou melhor, um indivíduo dentro de uma congregação. Finalmente, entre eles, na congregação, não há um sequer que faça o bem. Captamos o jogo de olhar do salmista?

 

 

O salmo se nos apresenta, convidando-nos a olharmos nós mesmos a cena, e o salmista se inclui nela. É como se dialogasse conosco, e nos convidasse a ver o que ele vê. Ele quer que se veja o que está acontecendo... Ele diz: “olha, lá, aquele lá vive como se Deus não fosse fazer nada. Olha lá eles: estão todos fora dos trilhos, e cometem injustiça atrás de injustiça. Pode procurar: entre eles não há um só que faça o bem”.

 

 

Que movimento de olhos temos aí, e que movimentos de olhos o salmista nos propõe? O salmista mesmo olha para um indivíduo, o desajuizado. Esse indivíduo, por sua vez, é um dos componentes de uma congregação, a “congregação dos pervertidos”, digamos assim, que é flagrada, segundo o juízo do salmista, praticando injustiça, quando, também segundo o juízo dele, deveria praticar justiça. Houve uma abertura na angular da lente, um movimento do indivíduo para o grupo a que ele pertence. Finalmente, como a pôr a última pá de cal e a selar o juízo, o salmista afiança: entre eles, isto é, entre esses aí que compõem a “congregação dos pervertidos”, não há ninguém que faça o bem.

 

 

De quem fala o salmista? Onde estamos? O que é isso que a “congregação dos pervertidos” faz que aos olhos do salmista parece-lhe tão condenável?

 

 

Caminhemos. Sigamos os olhos do salmista. Ele está empenhado em dar nome aos bois...

 

 

 

 

A congregação d“os filhos de homem”

– Que se dane a justiça!

 

 

 

 

3aaDeus desde os céus olha

3absobre os filhos de homem,

3agpara ver se há um sensato,

3bum que busque a Deus.

4aaCada um se distanciou,

4abjuntos se corromperam:

4agnão há um que faça o bem,

4bnão há sequer um.

 

 

O salmista não se contentou em ele mesmo olhar a cena. Não está satisfeito em nos fazer olhar para a cena. O salmista quer mais. Quer trazer o próprio Deus para olhar, e ver, e dizer o que vê, e o que acha do que vê...

 

 

O céu é como um alto sobrado, e é como se tivesse uma grande janela. Do alto do sobrado, e através da janela, Deus se debruça, olhando. A “congregação dos pervertidos” recebe um nome: “filhos de homem”. Diz-se que Deus se debruça desde lá de cima para ver, e que tem uma intenção, um propósito. Qual? Deus quer ver se há um sensato, se há um que busque a Deus.

 

 

E o que é que, segundo o salmista, Deus descobre, quando se curva sobre os filhos de homem, para ver se entre eles há um sensato? Descobre que não, não há isso de sensatez entre eles. E o juízo que fizera o salmista no v. 2, agora Deus é levado a fazer no v. 4: cada um se distanciou, juntos se corromperam: não há um que faça o bem, não há sequer um”.

 

 

Os versos desse salmo são como comer com chineses. Deve-se comer devagar, sem pressa alguma. Cada palavra é um ritual. Não, não se trata de cabala, mas de genialidade literária, mesmo. Estamos diante de um mago das palavras. E, acima de tudo, estamos diante de um crítico político muito, muito severo e perspicaz.

 

 

Lá vai ele. Ele que fizera seu juízo no v. 2, quer outra testemunha, e que testemunha! Tira Deus de seu palácio celeste (cf. Sl 102,20; Lm 3,50), e o faz olhar para a “congregação dos pervertidos”. Não, não é para a “humanidade” que Deus olha, mas para o mesmo grupo de pervertidos que o salmista observara, indignado, no v. 2. O salmista imagina que Deus espere encontrar entre eles pelo menos um sensato.

 

 

Bem, se o salmista já sabe que entre eles não há um só que faça o bem, então não está dizendo que Deus é desapercebido. Está dizendo outra coisa, quando diz que Deus quer saber se há, entre os filhos de homem, algum sensato. Já sabemos que não. O que não sabemos, ainda?

 

 

O que não sabemos já estava dado em pista no v. 2, quando o salmista classificou a congregação de “congregação dos pervertidos”, e eu mesmo dei essa pista, quando comparei “perversão” com “descarrilamento”. Desculpe, é que eu já li o salmo todo, já comi o bolo...

 

 

A idéia de descarrilamento fica mais clara, agora. Primeiro, porque o salmista nos ajuda a crescer na compreensão do que tem a dizer, quando diz que Deus espera encontrar sensato(s) entre os filhos de homem. Com isso, o salmista está dizendo que essa é a condição deles: devem ser sensatos, é isso que Deus espera deles, é para isso que Deus os colocou lá. Digo as coisas depressa demais?

 

 

Vejamos o juízo dos v. 3-4. O que Deus “constata”, quando esperava encontrar sensato(s) entre os filhos de homem? Primeiro constata que “cada um se distanciou”. É cada um, sim, mas isso que fazem, isto é, isso de se distanciarem, fazem-no “juntos”, porque é “juntos (que) se corromperam”. Há um conluio, uma confabulação entre os filhos de homem. Fizeram um acordo, um pacto, e, assim, todos eles, e cada um deles, distanciou-se, perverteu-se. Perderam o rumo... “Corromperam-se”...

 

 

Novas e velhas jogadas sutis do salmista se encontram nesses dois versos. Se ele insiste, sejamos pacientes, que deve haver fundamento na insistência. Observe-se a relação entre “um sensato” e “um que busque a Deus”. Perceba-se também a relação entre “corromperam-se” e “cada um se distanciou”, de um lado, e “não há um que faça o bem”, de outro. Há uma série de relações implícitas aí e desde o v. 2, que precisamos recuperar, reconstruir, e deixar que nossos olhos vejam o que o salmista quer que vejamos, e ouvir o que ele quer que ouçamos.

 

 

2aao desajuizado

2ab‘Não há Deus’.

2baPerverteram-se, e cometeram injustiça

2bbnão há um que faça o bem.

 

3aaDeus desde os céus olha

3absobre os filhos de homem

 

3aum sensato

3bum que busque a Deus.

4aaCada um se distanciou,

4abjuntos se corromperam

4agnão há um que faça o bem,

4bnão há sequer um.

 

 

Há dois movimentos de análise que devemos fazer. O primeiro, acompanhando o paralelismo com que os versos 3 e 4 são redigidos em relação ao v. 2, perceber que ao juízo do salmista, corresponde o juízo de Deus. O que fora constatado pelo salmista, e que nos mostrara no v. 2, é agora constatado nos v. 3 e 4, e, novamente, somos instados a ver. Somos chamados como testemunhas!

 

 

Aos personagens do v. 2, correspondem os mesmos personagens nos v. 3-4. O “desajuizado” do v. 2 é a constatação triste do que deveria ser o sensato do v. 3. Era um “sensato” que Deus queria e deveria encontrar, mas é um desajuizado que ele encontra. Se estão pervertidos todos esses que compõem a “congregação dos pervertidos”; se juntos eles se corromperam, se, a seu tempo, cada um se distanciou, então é porque se perverteram em relação a uma ética x, se corromperam em relação a uma forma y, e se distanciaram de um lugar w. Esperava-se deles, pretendia-se de cada um deles, que agissem de um certo modo, que vivessem de uma certa maneira, que estivessem num lugar específico. Mas o quê? É isso que fazem? É lá que estão? Não.

 

 

Esse movimento é bastante explícito, e a arte de redação judaica em paralelismo permite uma visualização sem maiores esforços. O segundo movimento exige mais concentração de nossa parte, mas vale o esforço. Trata-se de brincar de procurar a definição mais exata de cada uma das declarações dos v. 2-4, construindo-as cada uma a partir das outras, as partes pelo todo, e o todo pelas partes. Cada pedaço do frango-xadrez deve ter o gosto do prato, mas o gosto do prato é o gosto de cada pedaço, lentamente degustado...

 

 

Vamos lá! Quem é o desajuizado? O desajuizado é o sensato que, devendo ser sensato, não o é, mas está completamente falto de sensatez, de juízo, e fez-se insensato. O que é ser “desajuizado”? Ser “desajuizado” é constar no rol da congregação dos pervertidos, é ter o nome na lista dos que se perverteram, dos que cometem injustiça; é distanciar-se, é corromper-se. Tudo isso junto pode ser descrito com o estribilho: “não há um que faça o bem”, constatação tanto do salmista (v. 2), quanto de Deus (v. 4), conquanto a constatação de Deus seja, a rigor, do salmista. Mas tenhamos boa-vontade... A indignação do salmista transborda a tal ponto que ele deve fazer com que seja essa uma indignação divina. Sob sua ótica e sua ética, sua indignação corresponde à indignação divina. É tanto a glória e a vanglória dos visionários, e mesmo que nos afeiçoemos de sua ética, é bom para a saúde de todos que tenhamos bem diante dos olhos que “Deus”, aqui, é o “Deus” do primeiro termo da célebre declaração de Tillich: “Deus é símbolo para Deus”.

 

 

Mas deixemos de digressões. Dizia eu que a expressão “não há um que faça o bem” funciona como uma espécie de resumo dos juízos com que os filhos de homem são julgados. Contudo, ao mesmo tempo em que os resume, também é definida por eles, porque, uma vez que o que a “congregação dos pervertidos” faz é “praticar injustiça”, “não fazer o bem”, já disse antes, não é ser “omisso” no bem, mas ativo no mal. Não é tanto o que eles não fazem: é mais o que eles fazem. E o que fazem? Injustiça.

 

 

Que injustiça eles fazem? Ainda não sabemos, mas como o salmista encontra-se em êxtase indignada, logo logo há de nos contar, acredite. Por outro lado, o salmista nos diz mais alguma coisa sobre essa injustiça. No v. 2, ele dissera que o “desajuizado” diz em seu coração que “não há Deus”. Agora, no v. 3, ele acrescenta outra metáfora: o “sensato” é “um que busque a Deus”. Ora, se viver como se não houvesse Deus é agir como se Deus não fosse fazer nada a respeito do comportamento com o qual se vive, das ações que se pratica, então o que é “buscar a Deus” senão agir de acordo com o que Deus espera que se faça? Sim, sim, e o salmista mesmo nos diz que Deus quer ver algo que deveria ver, isto é, Deus deveria encontrar alguém sensato, alguém que o buscasse, alguém que fizesse o bem. Mas como encontra a “congregação dos pervertidos” inteira corrompida, distanciada, não fazendo o bem, praticando injustiça, então é razoável ligar tudo isso e ver na expressão “buscar a Deus” uma metáfora para a ação que Deus esperava. Como essa ação era, à luz dos v. 2- 4, a prática da justiça, e, especificamente, a prática de determinada justiça (logo veremos qual) por determinado grupo (a “congregação dos pervertidos”, os filhos de homem), segue-se, então, que “buscar a Deus”, para esse grupo, seria a prática daquela justiça.

 

 

Não se trata, logo vemos, de “culto”. Não se trata de “liturgia”. Não se trata de “mística”. Trata-se de ética, de justiça.

 

 

Que gente é essa que pratica a injustiça? Que injustiça é essa que praticam? Que é, afinal, o que está acontecendo aqui, de tão grave, que faz o salmista indignar-se, que o faz nos agarrar pelo braço, como a nos dizer “olha lá! olha lá!”; que faz com que o salmista faça Deus levantar-se de seu trono, e, desde o céu, igualmente indignar-se?

 

 

Não será preciso esperar mais para o sabermos. O salmista não se contém mais... Deus não se segura mais...

 

 

 

 

“Os devoradores do meu povo”

– Será possível?

 

 

 

 

5aa‘Não sabem os obreiros da violência?

5abOs devoradores do meu povo devoram pão!’

5bDeus eles não invocam!

 

 

Só o salmista tinha falado até aqui. No meio de sua indignação, passávamos, ele agarrou nosso braço e nos mostrou sua indignação. Não era suficiente. No auge de sua indignação, brada aos céus, e traz Deus mesmo a indignar-se. Dá resultado. Deus mostra-se indignadíssimo. Haveremos nós de nos deixarmos tomar também pela indignação?

 

 

Deus não apenas fica indignado. A indignação que o toma lhe arranca tanto a voz quanto os cabelos da cabeça: “Eles não sabem!? Eles perderam o juízo!? Eles desviaram-se das minhas ordens? Eles esqueceram o que tinham que fazer? Eles esqueceram que eu lhes mandei cuidar do meu povo? Como não!? E o que é isso, por Deus do céu, por mim mesmo, Deus dos céus, e o que é isso, então, que fazem, esses “obreiros da violência?”

 

 

Senhor, eles devoram teu povo...  

 

 

“Sim, sim, e eu não estou vendo? E daqui de cima meus olhos não estão vendo isso? Não vejo que eles devoram meu povo, como se devorassem pão? Injustiça! Injustiça! Eles não me invocam, eles fazem o mal. Eles vivem como se eu não fosse fazer nada, como se eu não existisse!”

 

 

É curiosa a cena. Deus está furioso. Mais do que indignado, está furioso. Lembro-me de um Yahweh assim, enfurecido, e lembro-me do que ele fez a respeito. Lembro-me do Yahweh da narrativa pós-sacerdotal do dilúvio, aquela que conhecemos como a “javista”. Lá, Yahweh é tomado de fúria por conta de que é dito que o coração do homem é mal desde a sua meninice. Furioso, Yahweh vai fazer algo a respeito, e faz, e lá vem o mabul, as águas do dilúvio, e matam a todos que vêem pela frente, exceto “Noé”, preservado na arca que ele constrói... As águas lavam os viventes, diz o texto, o que nos remonta à narrativa pós-sacerdotal da criação, aquela que conhecemos como “javista”. Da terra úmida são feitos os homens, de barro e água; a água lava o barro, e mata todo mundo. A fúria de Yahweh vai passando, mas o que ele pensa a respeito da humanidade, não. Ela ainda é, ao fim e ao cabo, má desde a infância. Que fará a respeito Yahweh? Matou, antes, vai matar mais? De novo?

 

 

Epa! Mas o que é isso que vemos subir como colunas de fumaça? Não é que é fumaça mesmo? Não é “Noé” que vemos, assando seu assado, sacrificando seu sacrifício, construindo seu altar, imolando sua vítima, matando seu animal, aplacando a ira do irado e furioso Yahweh? E não é Yahweh, cheirando o aplacante cheiro da fumaça, inebriado pelo substitutivo símbolo ígneo-sanguinolento, que, por causa dessa fumaça e desse sacrifício de “Noé”, malgrado seu juízo renovado sobre a desgraçada maldade inescapável da população, decide aceitar a morte do bicho no lugar da morte do povo, não mata mais o povo, se o povo mata o bicho? (cf. RIBEIRO, 2004).

 

 

Ah, sim, lá, pelo menos, Yahweh fez algo a respeito, se é que me faço entender. E aqui? E aqui, quando é, mal comparando, “Noé” quem é desgraçadamente mal, o que será que Deus fará? Gritará apenas? Arrancará os cabelos apenas?

 

 

Não me culpem. Fomos trazidos à cena pelo salmista. O que ele queria? Não nos queria indignar? Não nos queria ver o que faz a “congregação dos pervertidos”? E não sabia ele que era tão grave a coisa que faziam, que se nos diz de cara não acreditaríamos, e que, agora, que sabemos, também nossas tripas se contorcem? O salmista trouxe Deus para a sacada de seu palácio celeste; fá-lo debruçar-se sobre a amurada; fá-lo olhar, para ver, e o faz ver o que vê, e o que vemos, isto é, os filhos de homem devorando o seu povo, justo o seu povo! e justo eles, que deveriam cuidar do seu povo!

 

 

Não é à toa que Deus se desespera, e grita: “não sabem? não sabem?” Claro que sabem, ora! “Então por que fazem o que fazem? Então por que devoram meu povo, meu povo, meu povo?” Ora, por que apostam, até agora, que o Senhor não vai fazer nada, como de fato, até agora, não fez...

 

 

E fará?

 

 

Não se turve nossa consciência, que sabemos que falamos com e ouvimos falar o “Deus” conforme o concebe o salmista, e quando nós mesmos falamos com ele, e o pomos a falar, é como se tentássemos ver o “Deus” que o salmista “vê”, que Deus mesmo está acima disso, de nós, do salmista, da “congregação dos pervertidos” e do povo, do seu povo, do seu povo...

 

 

Versos 2, 3, 4 e agora sabemos do que se trata. Que injustiça é essa de que ouvimos falar desde o v. 2? O “povo de Deus” está sendo devorado. Sim, sim, injustiça. Quem o devora? Ficará mais claro, ainda, muito mais, quando lermos o verso seguinte, mas já temos pistas, muitas, com que imaginar de quem se trate. Quem devora o povo é classificado como pervertido, corrompido, desviado, e já vimos que isso significa que o que quer que fazem – e o que fazem é devorar o povo – corresponde a um desvio do padrão, a um deslocamento. O que fazem é o inverso do que deviam fazer. Deviam ser sábios e entendidos, mas são insensatos e desajuizados. Deviam fazer o bem e praticar a justiça, mas fazem o mal e praticam a injustiça. Deviam andar por aqui, mas desviaram-se. Deviam estar desse jeito, mas se corromperam. Deviam cuidar do povo, mas o devoram...

 

 

Quem será? De quem se trata? Quem é a “congregação dos pervertidos”? Quem são os filhos de homem? Quem são os “obreiros da violência”? Quem são “os devoradores do meu povo”? Serão gênios diabólicos, infiltrados na calada da noite? Serão trasgos fantasmagóricos escondidos pelos becos? Serão ladrões que, em surdina, às escondidas, aqui comem um pé, ali, uma mão, e, se têm chance, mesmo uma cabeça e uma perna inteiras?

 

 

Diz logo quem são, salmista, antes que enfartemos! Porque, sejam quem forem, “Deus eles não invocam”, pelo contrário, comem a carne do seu povo, e palitam seus dentes com seus ossos...

 

 

... falando de ossos...

 

 

 

 

Uma cidade sitiada, um rei envergonhado

– Ironia das ironias

 

 

 

 

5aaLá eles tremeram de terror,

5absem que houvesse terror,

5agporque Deus espalhou  5ados ossos do que te sitiava.

5bTu te envergonhaste, porque Deus os rechaçou.

 

 

Nem o Spielberg seria tão genial. Que cortada de cena. O salmista não nos pega mais pelo braço, apenas, arranca nossos olhos, e nos transporta para outro dia, ontem? para outra cena. Mas não sejamos apressados em considerar que o salmista não sabe o que faz. Já vimos que ele sabe fazer com que as palavras façam o que ele quer que elas façam – se acertamos em compreender o sentido que elas, como saúvas em correição, carregam, uma a uma, e levam para sua horta subterrânea, enquanto nossa aorta vai inchando, inchando, até explodir...

 

 

O Sl 53 é praticamente uma cópia do 14. Eu deveria dizer o inverso – que é como eu vejo: o 14 é uma revisão do 53. Esse pequeno livrinho não é um comentário do Sl 14. Mas se você ler o 14, perceberá sutis (e nem tão sutis assim) diferenças. Uma delas é a tendência quase sistemática de substituir alguns “Deus” por “Yahweh”. Não “sei” qual a razão disso, mas deve ser por conta do ambiente da revisão, eu acho. A grande e radical diferença, monumental diferença, eu diria, é justamente o verso que agora nos é colocado diante dos olhos. No Sl 14, ele foi quase que completamente modificado. Vejamos como a Peregrino traduziu esse verso lá: “Pois terão de tremer, porque Deus está com os justos”. Vejamos, agora, como a mesma Peregrino traduziu esse mesmo verso, mas no Sl 53: “Pois terão de tremer, porque Deus está com os justos”, que dá no mesmo, é mesmo a mesma coisa. Em nota, Alonso-Schökel nos dá sua explicação de por que resolveu mudar o verso do 53 para o deixar igual ao verso do 14:

 

É variante, aparentemente menos bem conservada, do salmo 14. Mudanças importantes estão no v. 6. À primeira frase acrescenta ‘não havia tremor’; talvez nota de um copista. O segundo hemistíquio soa assim: ‘Deus dispersou os ossos de quem te assedia; derrotaste-o porque Deus o rejeitou’. É mais agressivo, mais bélico que o 14, e também duvidoso.

 

 

O leitor queira ficar à vontade, e concordar com a Peregrino. De minha parte, a mão com que tão firmemente o salmista me agarra, e talvez o fato de me ter arrancado os olhos da cara e me trazido para cá, com ele, vou por outro caminho. Simplesmente vou tomar o texto hebraico rigorosamente na forma em que ele se encontra. Nada de notas de escribas (que, contudo, é verdade, pululam em toda parte da Bíblia Hebraica, como moscas), nada de crítica textual (outro enxame evidentemente vivo também alhures). Por quê? Porque não acredito que um salmo tão bem construído até o v. 4 simplesmente perca a sua genialidade, porque a forma como a Peregrino traduz o v. 5 faz dele um lugar comum que não me parece corresponder ao esforço artístico e político de nosso anfitrião angustiado.

 

 

Deixemo-lo falar o que tem a falar, e vamos ver que sentido faz esse delírio dele, e nosso.

 

 

 

A cena

 

 

 

O que nos deve o salmista? Nos deve, além das tripas e dos olhos, algumas satisfações: quem são “eles”? quem é “ele”? quem é “o meu povo”? Que aqueles devoram este é dito. Que devorar aí significa a prática da injustiça, está claro. Mas de quem se trata, lá e cá? O que a cena tem a nos esclarecer sobre isso? Da forma como a observo, daqui, da colina para onde me trouxe nosso indignado salmista, tudo...

 

 

Traduzo a cena como passado. Cada Bíblia que você pegar traduzirá de um jeito. Há Bíblias que vertem para o presente. Outras, futuro. É que os verbos hebraicos são assim mesmo. É o contexto literário e intencional da narrativa que deve determinar a situação poética.

 

 

Vejo uma cidade no v. 5. É que a palavra traduzida por “sitiava” indica o cerco a uma cidade, como nos épicos do cinema e da TV: os exércitos cercam a cidade, acampam contra ela, erguem rampas e constroem armas de cerco. Se você viu O Senhor dos Anéis tem uma idéia do que isso significa. Aliás, uma boa ilustração é o que o exército da Assíria fez, certa vez, com Jerusalém. Lá dentro estavam o rei, Ezequias, seus oficiais, seu exército, sua gente, e uma certa quantidade de outra gente, aquela parte da população que geralmente mora na própria cidade, bem como, ainda, e certamente, uma outra grande massa de gente camponesa que, morando nas vilas ao, redor da cidade, no entorno rural, digamos assim, quando de invasões por exércitos inimigos, correm e se abrigam na cidade.

 

 

O Dr. Haroldo Reimer, meu professor no Batista do Rio, e da Católica de Goiás, contou-me que esteve algum tempo ajudando, na qualidade de pesquisador de campo, nas escavações de Laquish. Laquish era a última cidade-fortaleza na linha de defesa de Jerusalém. Os exércitos assírios cercaram a cidade de Laquish. Sitiaram-na. Construíram uma rampa de escombros e terra, para que pudessem entrar pelos muros. Lá dentro, o povo, desesperado, destruía casas e reforçava o muro, do mesmo lado em que, do outro, os assírios construíam seu caminho de assédio. 1 + 1 é 2, e eis que aquele monte de soldados caiu como moscas dentro dos muros de Laquish. Carnificina! Deus do céu! Imagino a sanha com que o exército entra, e mata, então, e fura, e cega, e esquarteja, e estupra, como escreveram João do Vale e José Cândido, e cantou como ninguém, um ano antes de A Banda, a baiana Bethânia, pega, mata e come...

 

 

Talvez alguém tenha escapado. Talvez alguém tenha fugido para Jerusalém. Talvez, mesmo antes do banquete, mensageiros tenham levado recados para Ezequias. “Chegaram”. “Estão construindo uma rampa”. “Vão entrar”. “Entraram... ahh”. Ezequias deve ter sentido a mão de Senaqueribe agarrar-lhe o pescoço, apertando, apertando, apertando...

 

 

Mas voltemos à nossa cidade do Sl 53. Ela, então, belo dia, foi sitiada. Belo? Belo nada! Terrível dia! Ou não? O que dirá o salmista? O que dirão eles sobre aquele dia? O que farão eles a respeito dele?

 

 

Lá está o exército sitiando a cidade. E dentro dela? Dentro dela, terror. O terror das horas, o terror da memória. Contam-se histórias de guerras e de cercos, e sabe-se o que fazem os exércitos nessas ocasiões, tanto lá, então, quanto hoje, e cá. Guerra é guerra! Sempre. Maldita guerra!

 

 

Mas quem é que o salmista nos mostra tomado(s) de terror? “Eles”. Nesse “eles” quem estará? Que a “congregação dos malfeitores” está lá, é claro para mim. Talvez até, é natural, o povo, também cercado, esteja apavorado. A lógica da narrativa, contudo, não me diz isso. Me diz, sim, que a quebra da seqüência do salmo, que vinha de narrar os juízos do salmista e de Deus, e de transcrever o descabelar-se de Deus, seu angustiado grito: “não sabem? não sabem?”, parece antes indicar que se trata de um foco neles, isto é, nos “devoradores do meu povo”. Não são eles tão fortes? Não são eles os violentos, os “obreiros da violência”? E não é irônico, ridículo mesmo, que, justo eles, Golias da cidade, estejam tomados de terror? Justo eles?

 

 

Mas estão. E “lá”. “Lá”, quando? Lá, no cerco. Durante o cerco. Enquanto cá fora da cidade a coisa vai ficando feia, a algazarra das bocarras escancaradas do inimigo gritam que querem carne e sangue; enquanto os engenheiros estudam o quadro geral; enquanto os operários constroem torres, catapultas, aríetes, preparam fogo, ferro e fúria; enquanto os artistas do rei inimigo vão lá escolhendo o melhor ângulo para a propaganda que será gravada nas pedras do palácio, cá dentro, e dentro de cá dentro, no palácio, dentro da cidade, no olho do furacão – terror! “Vão nos matar! Vão me matar!”.

 

 

Por que será que desesperam? Desesperam, porque não acreditam em milagres? Ou desesperam, porque tiram da situação a conclusão de que, afinal, Deus vai fazer, pelas linhas tornas, e que não fizera até ali, pelas retas? Morrem de medo por que vêm a mão de Deus, ou por que, de novo, não a vêm? Isso, eu acho, o salmista deixa para nosso juízo, para nossa reflexão, para que, assim julgando, assim refletindo, não caiamos nós mesmos nem numa nem noutra cova, as duas são escuras, e o terror lhes chega à boca escancarada...

 

 

O salmista, contudo, minha opinião, malgrado a de Alonso-Schökel, me conta que tanto terror é totalmente despropositado. Não há nenhuma razão para terror. O exército não chega nem a arrancar uma pedra do muro! Não? Como não? Sim, quero dizer, não, muito pelo contrário. Olha ali, em volta da cidade: o que você vê? Não é um mundo de ossos espalhados? Chegue mais perto, já estão mortos, e não vão mais matar e estuprar ninguém, mas só para ver de que cores são as roupas que as carnes usavam. Não são ossos, então, do exército? do exército que agora mesmo fazia e dizia que ia fazer e acontecer, e que coisa e tal? Cadê? Ah, lá, todos mortos...

 

 

Papelão, heim, moço, o teu. Estás aí, agora, todo envergonhado, porque gritavas, porque saltavas aos saltitos, desesperado, minha vida, minha vida... Todos viram teu papelão. Sabes aquela camareira? Esqueces que ela é amiga da cozinheira, aquela que te fazes o pão, de que lhes dás as sobras? Essa mesma. Não sabes que ela danou a contar para todo mundo, de cabo a rabo, o show que fizeste aqui nos teus palácios? Sabes os bufões? Como aquele palhaço do Zaratustra, eles agora fazem paródias de ti, nas ruas da cidade, e se riem todos, e comem das próprias risadas como se comessem pão. Sabes como é mesquinha essa gente, e como se diverte com essas coisinhas ridículas, mas o caso é que te fazes de bobo.

 

 

Ah, sim. Deixem-me ser menos poético. O v. 5 me conta de um cerco a uma cidade. Isso leio da palavra “te sitiava”. Esse “te” é uma novidade. Ele é um foco. Ele demanda nossos olhos para si. “Olhem para mim”, diz esse “te”. Voltaremos nele. Dentro da cidade, sabemos, há dois grupos: um, o dos violentos, o dos devoradores, o dos pervertidos – “os filhos de homem”; outro, o “meu povo”. Um devia cuidar do outro, logicamente, os devoradores são devoradores do povo, porque, em vez de cuidarem do povo, oprimem-no. Penso ser razoável inferir que se trate, um, dos líderes da cidade; de outro, dos liderados. Claro, tudo sob a ótica de um salmista indignado...

 

 

O “te” é um “tu” dentro da cidade, e, dentro da cidade, ainda dentro dos devoradores. É o devorador-mor, o violento-mor, o pervertido-mor, um outro filho de homem, muito, muito diferente, eu acho, de um certo outro, em um outro tempo, mas, de certa forma, nesse mesmo lugar... O “tu”, eu penso, é o rei. 1 + 1 é igual a 2. Sabe somar?

 

 

O “tu” não está sozinho. Desde os v. 2-4 que ora nos faz o salmista olhar para um, ora para eles. Mas é toda a mesma alcatéia, se nos deixarmos tomar pelo juízo do salmista a respeito deles, e para assim introduzir o dito latino: homo homini lupus. Não é apenas o “tu” que se deixa tomar de terror, olhos ejetados, pálido, suando, mas são todos eles... Contudo, é “ele”, digo, és tu, que é “envergonhado”, quando tudo acaba, nada acontece, e “ele”, o violento-mor, fica com aquela cara, a dar risos amarelos, a agradecer, se tem a quem...

 

 

Mas não é que nada não tenha acontecido assim gratuitamente. O salmista tem uma idéia muito clara dos fatos: aconteceu tudo, Deus agiu. Quer dizer, lá, Deus agiu. Deus rechaçou o exército invasor. Deus disse: “aqui não, garanhão”. Digamos que, quando Deus diz, é como se agisse, e, tendo dito “aqui não, garanhão”, vai-se lá controlar um Deus em fúria, eis lá os ossos espalhados, um monte deles, a cidade é um pudim cercado de ameixas de ossos, é só agora sair dos muros, tirar esses ossos daí, e voltar à vida...

 

 

É muito curioso isso. Na nossa maneira de tentar ilustrar o salmo, íamos nos recordando da aula de arqueologia do professor Haroldo, e, de repente, lá estávamos, como os artistas de Senaqueribe naquela colina a um certo ângulo de Laquish, preparando os relevos do palácio de Senaqueribe. Transportados para lá, assistimos a carnificina de Laquish, e acompanhamos os possíveis mensageiros de Ezequias. Deixamos Ezequias lá, ouvindo o último ahh do último mensageiro, que, tendo corrido sua Maratona, não tinha boas notícias a dar, e morreria como o grego...

 

 

Que terá acontecido? Temos o testemunho de Senaqueribe. Ele escreveu sobre suas campanhas de conquista, e nelas, fala alguma coisa sobre o cerco que fez às cidades de Judá, e ao cerco que fez a Jerusalém, quando sitiou Ezequias. Ouçamo-lo do alto de sua propaganda régia:

 

(...) Quanto a Hezekiah, o Judeu, ele não se submeteu a meu jugo, eu sitiei 46 de suas cidades, fortalezas muradas e inúmeros pequenos vilarejos em sua vizinhança, e conquistei(-as) por meio de rampas (de terra), bem batidas, e aríetes trazidos (assim) para perto (das muralhas) (combinados com) o ataque da infantaria, utilizando-se de túneis, brechas, assim como de trabalhos de trincheira. Delas expulsei 200.150 pessoas, jovens e velhos, homens e mulheres, cavalos, mulas, jumentos, camelos, incontáveis cabeças de gado, grandes e pequenas, e considerei(-as) saque. Dele próprio fiz prisioneiro em Jerusalém, sua real residência, como um pássaro numa gaiola. Cerquei-o com fortificações a fim de molestar aqueles que estavam deixando o portão de sua cidade. Suas cidades, que eu havia saqueado, tomei de seu país e entreguei-as para Mitinti, rei de Ashdod, Padi, rei de Ekron, e Sillibel, rei de Gaza. Assim reduzi seu país, mas ainda aumentei o tributo e os presentes katrû (devidos) a mim (como seu) chefe supremo, que lhe impus (mais tarde), além do tributo anterior, a ser entregue anualmente. O próprio Hezekiah, que havia subjugado pelo esplendor terrível de meu poder, e cujas tropas irregulares e de elite, que ele havia trazido para Jerusalém, sua real residência, a fim de fortalecê(-la), haviam-no desertado, mandou-me mais tarde, para Nínive, minha nobre cidade, juntamente com 300 talentos de ouro, 800 talentos de prata, pedras preciosas, antimônio, grandes talhas de pedra vermelha, sofás (incrustados) com marfim, cadeiras nîmedu (incrustadas) com marfim, presas de elefantes, ébano, madeira de buxo (e) várias espécies de valiosos tesouros, suas (próprias) filhas, concubinas, músicos. A fim de entregar o tributo e por obediência como escravo ele mandou seu mensageiro (pessoal) (do Prisma de Senaqueribe in ANET, 287-288; apud PINSKY, p. 25-26).

 

 

Impressionante a atenção que Senaqueribe deu à “pequena” Jerusalém. Ela parece de acordo com a informação que recebemos de Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman acerca das pesquisas da assirióloga Stephanie Dalley (FINKELSTEIN e SILBERMAN, p. 289s). Os estudos que a assirióloga fez das chamadas “listas de cavalos” assírias, levaram-na a concluir que, enquanto Sargão II simplesmente incorporou ao seu exército regular as tropas militares dos reinos conquistados, a única tropa que mereceu ser preservada em sua autonomia foi a tropa de bigas israelita.  Na batalha de Qarqar, diz-nos os arqueólogos de que me sirvo aqui (p. 289), Acabe enfrentou Salmanasar III com 2.000 das suas bigas! Isso em 853 a .C., isto é, cento e trinta anos antes de Sargão II (722-705) e de sua anexação das tropas de bigas israelitas como sua tropa de elite. Segundo Finkelstein e Silberman, eis as palavras de Sargão II: “eu formei uma unidade com duzentas das suas bigas para a minha força real” (p. 290).

 

 

Naturalmente, além de fundamentar os argumentos dos arqueólogos no sentido da opulência e do poder do “reino do Norte”, tais informações dão uma certa dose de credibilidade às descrições também naturalmente propagandísticas de Senaqueribe, e à aparente relevância que concede à região de Judá em seu Prisma. Ora , Senaqueribe é o sucessor de Sargão II, que anexa as tropas de bigas de Israel à sua própria tropa de elite. Senaqueribe devia ter informações a respeito da particular belicosidade e da relativa condição de defesa daquelas regiões judaico-israelitas.

 

 

Seja como for, propaganda por propaganda, também temos a de Judá. Os eventos relacionados a esse cerco de 701 a .C. estão descritos, sob a ótica de Judá, em 2 Re 18-19. Lá se conta praticamente a mesma história, mas sem o peso da vitória nas costas dos assírios, e um Ezequias piedoso mesmo nos é apresentado. O que ali se diz sobre o que afinal aconteceu “lá” – opa! devagar... – encontra-se em 2 Re 19,35-37, que afirma que o Anjo de Yahweh dizimou 185.000 homens do exército assírio, e que o próprio Senaqueribe, retornando para sua “nobre cidade”, Nínive, aí é assassinado, entre seus deuses, tendo sido seguido por seu sucessor, “Asaradon”. Donner nos dá conta de que “Assaradão” assume o trono assírio em 681 (p. 531), o que faz com que vinte anos tenham passado desde aquele terrível dia de 701 e o dia da morte do mesmo sitiador assírio, Senaqueribe, em 681. Os anos no Senhor passam lentamente, não tão rápidos como os três versos de 2 Re 19,35-37 parecem querer fazer parecer. Houve tempo para os relevos do palácio, para a preparação do prisma, e para sentar, Senaqueribe, nos sofás de marfim de tomou de Ezequias, o piedoso.

 

 

E é justamente porque Ezequias, segundo a crônica real de 2 Re 18-19, é assim, tão piedoso, que nos dói e arde nos olhos imaginar que se trate, afinal, lá e cá, do mesmo rei, porque o rei do Sl 53 age como se Deus não existisse, como se não fosse fazer nada; o rei do Sl 53, rei que era, e “pastor” que devia ser, como o do Sl 23, e como se auto-intitula o grande rei babilônico, em sua famosa estela: “eu (sou) Hammurabi, o pastor” (BOUZON, p. 40), pastor não era, mas leão, devorador, se lobos há em peles de cordeiro, leões igualmente os há, nas de pastores...

 

 

Não é possível que se trate, afinal do mesmo rei... É?

 

 

 

Respirando fundo, recobrando ar

 

 

 

Vejo no v. 5 uma memória, carne viva exposta. Uma chaga fresca. Dúbia. Foi ou não foi um dia de livramento? Sim, sim, a cidade seria invadida, mortos os seus homens, estupradas suas mulheres. O salmista não nos dá muitos detalhes sobre a História, que o que ele faz é mais teologia, política e poesia, ele mais chora e desabafa do que conta história. Contudo, dá-nos lenha suficiente com que acendermos uma fogueira, e minhocas suficientes, boas o bastante, para com que peguemos um peixe, viva o Congresso de Goiânia!  

 

 

Ele nos diz, textualmente, que houve um cerco à cidade onde, dentro dela, devoradores de povo devoravam o povo de Deus. É uma cidade de injustiça, aquela, de injustos e, logo, de injustiçados. Não se trata de bons e maus, mas de leitura sociológica (já?), ideológica, comprometida, que o salmista faz. Se gosto dela, é porque gosto de pensar que a injustiça é ruim, decidir quando ela efetivamente se instala é uma questão mais grave. Mais exegeta do que profeta, minha exegese, contudo, não deixa de se condoer com a possibilidade, desenhada à mão no couro (?), no papiro (?), na carne, de que aquela fosse, àquela altura, uma cidade de injustiça, como as nossas o são, é só uma questão de onde é que nos situamos, se no Pontal, se em Brasília, tanto quanto uma questão de quem esteja num e noutro lugar.

 

 

É muito fácil bradar impropérios, panfletar juízos, encher a TV com propaganda política pró e contra. Difícil é a vida real, quando a coisa é pra valer, e estamos mesmo em dias de saber se fomos como o cão que ladra contra o pneu e que, quando pára o carro, sai ganindo, sem uma dentada... Devagar no juízo, também aqui, mesmo aqui, e principalmente aqui, é, como diz o velho Jorge, assim como canja de galinha.

 

 

Mas retorno. Os violentos são tomados de terror. A cidade é sitiada. Vão morrer. Tudo acabado, adeus sofás de marfim, foi o mesmo com o vizinho (cf. Am 6,4). Se de falta de fé, ou excesso dela, isto é, se porque não criam num milagre, ou porque interpretaram a tropa assíria como o dedo mínimo de Deus, o fato é que não apostaram na saída, inimaginável saída, e demonstraram verdadeiro pânico, o pânico dos lordes...

 

 

Todos viram. Até o salmista, ou viu, ou contaram-lhe as camareiras. O fato é que era tudo à toa. Do outro lado das muralhas, o Terror, o verdadeiro Terror, agia, e agiu como nunca, ou quase, porque fez do invencível exército do vanglorioso Senaqueribe um mar de ossos, e a cachorrada fez a festa, que se cães lamberam a caveira de Jezabel, quantos mais não roeram os ossos dos assírios, se é que eram assírios esses ossos. De qualquer jeito, se cães não havia, sempre há abutres...

 

 

Foi dia de quê? Dia de festa? Como lavar o rei sua vergonha? Que tal no vinho?

 

 

 

 

Pão e circo

– Até quando?

 

 

 

 

6aaQuem dera de Sião salvações de Israel!

6abQuando Deus mudar a sorte de seu povo,

6bcelebrará Jacó, festejará Israel.

 

 

Ou estamos diante de um exímio artista das palavras, ou se trata de uma montagem mal-feita. Caminharei como até aqui: estamos diante de um artesão, como aquele que compõe So 3,8, usando todas as consoantes da língua hebraica, inclusive as finais, esculpindo o verso como se esculpe uma jóia, escrevendo, parando de escrever, pensando: “qual palavra posso por aqui que me dê um nun final? Haron. Isso: h-a-r-o-n”  e “ai! ai! meu reino por um pe final, hum, isso, se aqui eu puser um le’esof...”, tudo isso para fazer com o que o sentido de “totalidade” da mensagem esculpida fosse assim ilustrado pela própria ilustração... É, acredito estar (também aqui) diante de um artista...

 

 

Mas o salmista que temos aqui, ou que nos tem, porque nos pegou pelo braço e nos arrasta até agora, que falto as aulas do Frei Everaldo e do Frei Izidoro para terminar meu livrinho, cadê que consigo levantar dessa cadeira, Bel, me tira daqui! Sim, sim, o salmista que nos tem a nós é mago não só das palavras, mas, se vejo bem, se ouço bem, também das cenas, das transposições da câmara, o espírito dele é algum Alfred Hitchcock, algum Woody Allen, algum Steven Spielberg, vai se ver são todos judeus, não?

 

 

Acompanhe meu raciocínio. Agarrados pelo braço, fomos levados a olhar para “ele” e para “eles”, que, veríamos a saber, eram o rei da cidade e seus oficiais. Ouvimos os juízos do salmista e os de Deus, e vimos o que os “devoradores do meu povo” faziam, como eram violentos, como estavam corrompidos, como praticam injustiça, como não invocavam a Deus.

 

 

Súbito a cena mudou. O salmista nos leva para alguns dias antes. A mesma cidade, o mesmo rei, os mesmos oficiais, mas ei-los cercados de terror por todos os lados. A cidade é cercada, e ilustramos o que deve ter sido esse cerco com o caso histórico do cerco de Jerusalém e de seu rei Ezequias, o piedoso. Não temos o nome de nosso rei, nem o de nossa cidade, nem o de nosso rei sitiador... Tínhamos os nomes da história real, real não de rei, mas de acontecimentos históricos de 701 a .C., e eram Ezequias, Jerusalém e Senaqueribe, mas não chegamos a identificar nome com nome, dia com dia, lugar com lugar, porque o rei de cá é violento, devorador, injusto; ele é leão, e não pastor; ele não invoca a Deus – é quanto nos dá a saber o salmista, se é que ele sabe o que diz, e, no entanto, as crônicas reais nos fazem saber se tratar, no caso de Ezequias, de um piedoso rei que, cercada que foi sua cidade, corre piedosamente para a casa de Yahweh, não se podia esperar dele coisa outra que não essa.

 

 

Ficamos, assim, com toda a história montada, mas sem os nomes. E as cenas, tanto dos bufões a zombarem do rei medroso, quanto dos montes de ossos espalhados em torno da cidade, não nos saem das retinas. Sem, contudo, termos os nomes...

 

 

Será?

 

 

E se tomarmos o último, o derradeiro verso, como nova transposição cinematográfica? E se nosso Spielberg nos faz mudar de dia, de lugar, e de foco? Que tal um último esforço?

 

 

Como é que nosso artífice das câmaras, nosso diretor, nos remete à nova cena? 6aaQuem dera de Sião salvações de Israel!”. Quem dera! Isso que é? Uma exclamação. Pelo quê? Pelo desejo de que, de Sião, venham salvações... Olha aí um nome, e que nome!

 

 

Joguemos com o jogo do salmista. O insensato devia ser sensato, e não é, é insensato. O rei devia ser pastor, e não é, é leão. O povo devia ser cuidado, e não é, é devorado. Os filhos de homem deviam buscar a Deus, praticar justiça, e não buscam, não praticam justiça, vivem como se Deus não fosse fazer nada a respeito das injustiças que praticam, os obreiros da violência. Espera-se uma coisa, e lá está outra, como se dirá também em Is 5,7, na versão da Peregrino, mas, eu acho, que na boca de mulheres:

 

A vinha do Senhor dos exércitos é a casa de Israel,

sua plantação preferida são os homens de Judá.

Deles esperou direito, e aí tendes: assassínios;

esperou justiça, e aí tendes: lamentos.

 

 

Bingo? Ciosos desse jogo narrativo do salmista, decodifiquemos o que ele quer dizer com sua exclamação, quando diz que “ah, quem dera de Sião salvações de Israel”, que entendo como se dissesse, “quem dera viessem de Sião salvações de Israel, e não as opressões que ele suporta”. Não se diz “salvação” de Israel. O que o salmista quer são “salvações”. Penso tratar-se de um jogo, tanto com a “salvação” milagrosa de Deus, desbaratando, destroçando o exército até os ossos, quanto com as violências da cidade, que, então, Deus nos livre, é Sião, a própria Jerusalém em pessoa, ou em pedra, e só nos falta agora um jeito de dizer que o rei é, afinal, Ezequias, o piedoso, valha-nos Deus!

 

 

Outras leituras são possíveis, ainda que eu acredite que o salmista quer dizer apenas uma coisa, e me esforço aqui para ouvir, não sei se ouço. O que eu ouço, contudo, é que a cidade é Jerusalém, a mesma que Senaqueribe usou como gaiola para a ave de rapina, se se trata do mesmo rei, o de lá, o de cá. Se se trata de Jerusalém, as salvações de que fala o salmista, que ele espera, ainda? não são salvações que Jerusalém pode dar, mas salvações que devia dar, e não dá, porque ouvimos o salmo inteiro dizer que Jerusalém come seus filhos, devora o povo de Deus, sua população.

 

 

Se se trata de Jerusalém, se trata de uma Jerusalém, aquela de que fala o salmista. Jerusalém não é tipo de todas as Jerusaléns de todos os tempos. Não é a primeira, antes que Davi a tomasse, nem a atual, que o Aranha ratificou a golpe de martelo, mas aquela, sob aquele rei, naqueles tempos, quando o rei era leão, quando comia a carne dos cordeirinhos, disfarçado de pastor, cajado na mão, paulada na cabeça, carne no espeto, nham, nham... Claro que o salmo se torna típico para toda Jerusalém que, tendo seu rei, é este um pulha, como o salmista pinta a cara daquele, seja ele quem for, se faz o que se diz que faz, é pulha mesmo, Deus me perdoe.

 

 

Em que momento se dá a cena do v. 6? Depois ou antes da do v. 5? E em que posição em relação aos v. 2-4? Direi que a última cena é o v. 6. Desta cena, deve-se refletir à luz dos v. 2-4, e então, a edição fecha a película de volta no v. 6. Mais ou menos assim:

 

Estava à toa na vida

O meu amor me chamou

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida

Despediu-se da dor

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor

(...)

Mas pra meu desencanto

O que era doce acabou

Tudo tomou seu lugar

Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto

E em cada canto uma dor

Depois de a banda passar

Cantando coisas de amor

(Chico Buarque, 1966)

 

 

Por que cito A Banda, de Chico Buarque? E veja que o cito no começo, e no fim, porque ela começa como acaba, como nosso salmo, que termina, como começa. Cito A Banda, como ilustração do v. 6, e mesmo, de todo o salmo, pra ser sincero. Há uma festa em A Banda , uma farra e uma fanfarra, pão e circo, como a apagar memórias e dores, como parece querer dizer esse hino brasileiro.

 

 

Vejo festa em Sl 53,6. Há uma referência explícita a ela no último verso: “celebrará Jacó, festejará Israel”. Acho que ela indica para uma grande festa que o rei fez, para lavar sua vergonha e, por que não? para afogar as mágoas, afinal... É muita imaginação para um livrinho só? Não creio. Se de fato houve cerco, e pode ter sido o de 701 a .C., por que o rei não faria uma semana de festejos, até encher as burras?

 

 

Alonso-Schökel e Cecília Carniti não apostam nisso, mas reconhecem a possibilidade. Eles dizem assim:

 

O que o Sl 53 tem de específico (em relação ao 14) ficaria claro se conhecêssemos a situação. Neste ponto, não podemos ultrapassar as conjeturas.

– Uma situação histórica, real ou fictícia. Suponhamos o cerco de Jerusalém por Senaquerib. Deus rechaça, menospreza as tropas aguerridas dos assediantes, desbarata-as e dispersa-as; realiza, assim, de Sião a salvação de Israel e muda sua sorte, quase desesperada. O povo celebrará a libertação (p. 718).

 

 

Aí está, acho que os dois exegetas até acharam as bolas de gude, mas sou obrigado a apostar que não se deram tempo para apreender as regras do jogo. Num só movimento, tornaram Jerusalém uma cidade-unidade, quando o salmista pinta seu interior como uma caça de leão a ovelhas, rei contra população, os devoradores do meu povo e, logo, o meu povo devorado. Mas Alonso-Schökel e Cecília Carniti entrevêem, como eu, a festa que se faz. Dizem que é festa do povo, e dizem que a sorte de Israel foi mudada, e que, por isso, se celebra. Mas isso mesmo o salmo não diz. Pelo contrário, diz que há festa, sim, mas diz que a sorte não foi mudada. É por isso que o salmista ainda se lamuria, como um velho queixoso, até quando? até quando? E, como sabemos que o cerco acabou, as salvações que se espera não são salvações contra o cerco, que já era, puf!, foi só Deus estalar os dedos, mas salvações contra a própria Jerusalém, contra o rei, contra o devorador-mor, que, como a tradição guarda de Salomão, é o que se diz, pôs sob o povo uma dura cerviz, que seu filho há de tornar pior, e o teria feito, novamente a tradição nos dá conta, não fossem as dez tribos construir casas de marfim em Samaria...

 

 

Não, não, há festa sim, obrigado, Alonso-Schökel, obrigado, Cecília, mas não festa do povo, e muito menos festa para comemorar a mudança de sorte justo do povo. Vejo a festa como festa real, e lá vai, sim, o povo, a comer pão, a pular corda, atrás da banda. Lá está a moça feia, o velho fraco, a namorada, o faroleiro, o homem sério, a meninada toda, todo mundo, cada dor, cada uma delas, pelo menos durante sete dias o vinho lavou gargantas, sei lá. Mas só por sete dias, eu acho, porque depois, ah, depois, que o diga o Chico, como já disse: E cada qual no seu canto/E em cada canto uma dor”.

 

 

Vejo a festa, e vejo o salmista vendo a festa. Ele vê o povo, alegre. O salmista é uma espécie de intelectual orgânico, uma espécie de quase-povo, mas não é povo, porque não consegue ir para a festa, como lá, certamente, está o povo. Amanhã ele vai vergar sob o peso do jugo, ah se vai, mas que se dane o mundo, não me chamo Raimundo, às taças, galera, às taças, e quem os há de julgar?

 

 

Nosso salmista não os julga, eu acho, só os vê. Em seu pessimismo orgânico-intelectual, antevê as opressões da pós-ressaca, e já lhe dói, ansioso, as dores de amanhã, que nem o vinho de agora lhe entorpeceria. Talvez faça ele bem: ao bêbado Boaz lhe arrancaram um filho, astutas mulheres aquelas, mulheres de Mesters, e o que não será arrancado nessa festa, dessa vez? Contudo, perdeu sua festa. A banda passou, e ele ficou sem a banda, e sem as salvações...

 

 

O lamento do salmista é que a sorte do povo verdadeiramente venha a mudar. Salvo do dragão assírio, será carcomido pelo fungo jerosolimitano, e, de um jeito ou de outro, terá comida a sua carne. O lamento do salmista, contudo, é um lamento, um gemido, uma perplexidade. Ele nem pede mais a Deus que aja. Deus agiu, matou o exército inimigo, protegeu Jerusalém. Deus age. Deus pode agir...

 

 

... quando quer. Tomara queira Deus agir. Tomara queira agir. Tomara. Quem dera salvações de Sião. Vai perdendo a fé, o salmista, na festa? Vai dizendo em seu coração “não há Deus”, isto é, “e Deus não faz nada a respeito”? Pode até ter lhe passado esse pensamento, essa fé pesada como a glória. Mas, então, como que lá de dentro, talvez porque esteja diante de nós, e se constranja, talvez porque acredite mesmo, embora lhe custe, lá do fundo pensa uma festa, uma verdadeira festa. Naquele dia, aí sim, o povo festejará, aí, sim, terá ele o que celebrar: 6abQuando Deus mudar a sorte de seu povo, [aí, sim] 6bcelebrará Jacó, festejará Israel”.

 

 

Por enquanto, não. Por enquanto, é só pão e circo...

 

 

 

 

Lições que extraio para mim

 

 

 

 

O salmo pode ser lido em várias perspectivas. Podemos fazer o papel do rei, se somos líderes, do povo, se somos liderados, do salmista, se nos metemos a intérpretes da vida do povo e do povo da vida.

 

 

Como povo que sou, leio o Sl 53 como leio Eclesiastes, e penso mesmo que quem o escreve é do círculo de sabedoria. Não vejo no salmista um profeta, muito menos alguém da corte, menos ainda alguém do templo. Parece mesmo constituir um sábio, um intelectual orgânico a representar o povo e, nisso, há muito que aprendermos dele, nós latino-americanos da Teologia Latino-Americana.

 

 

Não me culpem a juventude velha, ou a velhice jovem, mas penso que ao povo cabe bem viver a sua vida com a mulher amada, comer o seu pão, beber o seu vinho (cf. Ec 2,24; 3,22; 5,18; 9,9), e mesmo isso é vaidade. De um jeito ou de outro, o velho Zé Ramalho já nos dizia que a vida é de gado mesmo...

 

 

Não se trata de um niilismo sócio-político. Trata-se de uma coisa que meu velho e bom professor Haroldo um dia me disse, se o cito bem, e o honro. Falava ele de tantas coisas duras, dessas de a gente se enfiar na cadeira, e ter a alma comprimida até não se ver sua cor, e eu, desalentado, ou desesperado, perguntei: “que fazemos, mestre? que fazemos?”, e, do alto de sua haroldiana essência, me disse o inesquecível: “quanto a você, não sei; quanto a mim, sábado vou a banhos de cachoeira com os meninos...”.

 

 

Vida de cão, às vezes os vemos a abanar o rabo, alegres. Como pode, magrelos, sem pêlo, sarnentos? Só sendo cão para o saber. Tem que ter a sabedoria da gente simples, para saber.

 

 

Mas e como líder que sou, longe de rei, mas, à minha maneira, “pastor”. Ah, que Deus nos livre de comer seu povo, de devorar sua gente. Poderíamos dizer que ao lamento do salmista, Deus respondeu com a encarnação do Verbo, mas Saramago ralhará com a gente, com certeza, e seremos obrigados a ver quantos reis nasceram nessa história, e quanta carne se comeu, carcará...

 

 

Não temos tempo, nem desculpas, para ingenuidades. Somente uma conversão como a que Karl-Otto Apel sugere, não religiosa, mas pós-iluminista, humanista em sua mais sacossantíssima dimensão, pode fazer de nós “pastores” pastores, e não “pastores” devoradores. Estão nas mãos de nós líderes, as chegadas das salvações de Israel, e são salvações, no plural, e não salvação, no singular, porque as salvações são diárias, são o exercício da ética, da fraternidade, da justiça, do cuidado pelo povo, que desde o céu se debruça Deus para ver como os filhos de homem cuidam de sua gente...

 

 

Como salmistas que, quantas vezes nos metemos a ser, e exegese nos mete nisso, talvez nos reste acalentar a festa que se faz, seja qual for. Espera-se de nós um compromisso com a justiça, mas a consciência de que fazemos Deus falar também em nossos textos, e o Deus que pomos ali a falar é mesmo um Deus que construímos nós mesmos, porque o achamos melhor do que o dos outros, mas que, não, não temos a patente de porta-vozes, quando muito, de intérpretes.

 

 

Entrar no meio do povo, e entre o povo e o rei, como quem entra com Deus pela mão, é perigoso. É mesmo o que o rei faz tantas vezes, e se ele faz, façamos nós, podíamos dizer. Mas não. Respeitemos nosso silêncio. Respeitemos a dignidade que devemos conceder, como que deles, ao povo. Respeitemos o rei. Coloquemo-nos intransigentemente do lado da vida, sempre, esteja ela do lado do povo, do lado do rei. Deixemos que Deus, por si mesmo, tome partido. Se Deus tomar o partido da vida, há de nos encontrar lá, pés firmes no chão, gritando “aqui não, garanhão! aqui não”.

 

 

Quem sabe, nesse dia, não se faça uma festa? Talvez eu até dance...

 

 

 

 

 

Referências Bibliográficas

 

 

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