Pecado, política e poder

– macro-conceitos político-culturais e seus desdobramentos sociais

Osvaldo Luiz Ribeiro

(15/06/2007)

 

O presente texto foi apresentado, a título de Comunicação, no XXII Encontro Nacional de Estudantes de Ciências Sociais - ENECS, no Campus Gragoatá da UFF, Bloco C, Sala Ismael Coutinho, em 02 de agosto de 2007, às 10 horas, através da Mesa "Ciência e Poder - para que servem as Ciências Sociais" - cf. webpage.

 

 

Costuma-se descrever os diversos termos que, em hebraico, conceituam a noção de “pecado” nas tradições israelitas/judaítas do Antigo Testamento. Esse tipo de classificação pressupõe que os termos significam “o que significam”, em qualquer contexto e teologia, em qualquer época e comunidade. Não estou convencido disso. A meu ver, os diversos conceitos de pecado alteram-se e alternam-se, de acordo com as noções mestras com que determinado recorte cultural de Israel/Judá, político-religiosamente, maneja a teologia.

 

 

A. Noções macro-estruturais de pecado e seus respectivos sistemas de satisfação

 

 

Proponho uma classificação macro-estrutural das noções de pecado, própria da história político-religiosa de Israel/Judá, mas não necessariamente restrita a ela. Nos seguintes termos.

 

1) Noção mítico-simpática de pecado

  

Tratam-se daquelas noções nem essencialistas nem casuísticas. O israelita/judaíta descobre-se “em pecado” por meio de interpretações pragmáticas de acontecimentos do dia a dia. Se a vida lhe vai bem, é porque “os deuses” estão felizes. Se a vida lhe vai mal, é porque os deuses estão enfezados. Se felizes, os deuses ou distribuem favores, ou, simplesmente, deixam o povo em paz. Se enfezados – encolerizados – os deuses costumam esmagar, na ponta de suas botas, os pequenos insetos humanos, isto é, as tragédias sofridas são interpretadas como causadas por deuses tomados de fúria.

 

Sim, isso significa que os deuses sejam, nessa cultura, temperamentais. Não há como saber se acordarão de bom humor, se de mau humor. É a série de acontecimentos do dia a dia que permitem ao israelita/judaíta deduzir o estado psicológico das divindades. Doença, morte, fome, peste, guerra, praga, seca – são indícios de que os deuses estão furiosos. Muitos grãos, saúde, bons partos, paz, sol e chuva – são indícios de que os deuses estão muito satisfeitos.

 

Há mecanismos para se tentar “saber” como é que, afinal, estão os deuses. São os “oráculos”. Se os oráculos dão a saber que os deuses, sim, estão realmente felizes, lá se vão cestas e mais cestas de oferendas – de gratidão. Que os deuses continuem assim, por longos dias. Se os oráculos dão a saber, contudo, que os deuses estão enraivecidos, lá se vão cestas e cestas de oferendas – de aplacamento. Há mecanismos de aplacamento – os rituais sacerdotais. Assim, o israelita/judaíta pode adaptar-se, adequar-se, conformar-se ao ânimo dos deuses, controlando-os em função de suas vontades divinas.

 

O aparelho religioso pertence, literalmente, ao rei. O templo, então, é "capela" real, lugar para os aplacamentos oficiais, de responsabilidade da coroa. O povo tem seus próprios altares, nas vilas, e, ao que tudo indica, ainda há templos não oficiais, os quais, ainda que não em grande número, representam significativo aporte instrumental para as celebrações eventualmente necessárias. Seja através do aparelho oficial do rei, seja através dos templos menores, seja através de rituais nas vilas espalhadas pelo território, estava-se, sempre, atento aos humores divinos.

 

Se essa descrição estiver correta, pode-se dizer que a noção de pecado, nesse cultura, consiste numa desconformidade entre o ânimo das divindades e o comportamento médio da população. Não importa quem tenha desagradadoo as divindades. O que importa é que, desagradadas, ficam enfurecidas, e desforram sua fúria nos primeiros que lhes aparecerem pela frente, até que sua honra seja lavada, quantas vezes com sangue.

 

Essa noção de pecado está muito próxima da cultura monárquica. Nela, os sacerdotes e os oráculos – videntes – ocupam posições simétricas, sob controle da coroa, de modo que a noção de pecado não chega a ser controlada por eles. É do próprio rei que emergem as categorias de simpatia, de modo que o rei e seus respectivos estados de ânimo servem de modelo para as percepções que a comunidade tem das atitudes e dos comportamentos dos deuses. Daí que o modelo pode ser descrito como mítico e simpático, porque transfere para o mundo dos deuses – mito – o perfil político-psicológico do monarca, e porque lida com a noção de pecado, em relação aos deuses, da mesma forma como lida com as cores de vontade real. Lidar com os deuses é como lidar com o rei - anda-se sempre no fio da espada.

 

Trata-se de um modelo bastante pragmático. Um exemplo pode ser apresentado. Trata-se da passagem em que, originalmente, a ira de Yahweh acende-se contra o povo. Porque a ira de Yahweh se acende contra o povo, Yahweh leva Davi a contá-lo. Porque Davi conta o povo, Yahweh alega ter, assim, ficado irado com o povo. Agora declaradamente irado contra o povo, Yahweh passa a matar parte da população. O restante da história consiste na tentativa de Davi de fazer Yahweh parar de matar as pessoas. Em termos objetivos, Yahweh estava aborrecido, e arranjou um pretexto. Davi sequer vai questionar o absurdo do joguete em que foi metido. Davi, sabendo como são as coisas, apenas pede que Yahweh lhe diga como parar a matança – isto é, como aplacá-lo.

 

Essa história é muito parecida, não nos detalhes, mas no conceito, com a história de Davi e Urias. Davi deseja e toma Batseba, mulher de Urias, de cuja mulher Davi se serve, enquanto ele, Urias, está na guerra. Preocupado com uma possível gravidez, decerto, Davi manda chamar, da guerra, Urias, para que ele possa distrair-se com sua mulher. Urias sequer entra em casa, e alega que não pode deitar-se com mulher, enquanto seus irmãos arriscam a vida, na guerra. Davi, então, dá ordens a que levem Urias de volta à batalha, e que o coloquem lá na frente, de onde, se sabe, ninguém sai com vida. Pronto – está feito.

 

Felizmente, o Estado Democrático de Direito não possibilita mais que esse tipo de conceito de pecado seja manejado. É verdade, contudo, que a “teologia” gosta de manter o título histórico-cultural “rei” aplicado à idéia de “Deus”. Política pura, é claro, uma vez que, das duas uma, ou “rei” é uma metáfora, e perde a sua noção em culturas democráticas, ou a “teologia” sabe, afinal, que Deus é “rei” mesmo. E não, não é. É metáfora, modo de dizer, e isso, quando se podia pensar em Deus como “rei” e achar bonito, se é que tudo não passava, enfim, de “educação religiosa”, logo, política. Quanto a mim, penso que a sociedade democrática não poderia manejar o conceito de “rei”, aplicando-o a “Deus”. Primeiro, porque o conceito de “rei” não é pertinente numa sociedade democrática. Na Inglaterra, por exemplo, assim que o “rei” – e a rainha” – tornaram-se peças retórico-simbólicas, inventou-se um “deísmo”, para adaptar a “teologia”, num acordo de cavalheiros entre a coroa e a mitra. Segundo, porque há outras noções muito boas e úteis, para, com elas, nos referirmos a uma noção de “Deus”, compatíveis com os valores democrático-republicanos – amigo, por exemplo, aplicado a Abraão. Jesus, por exemplo, diz-se, teria chamado seus discípulos de amigos, e o seriam, quando amassem. 

 

Não vejo razão para que o título "rei" seja preferível ao de "amigo". Bem, não se a questão for, mesmo, "Deus". A teologia gosta da palavra rei. Talvez porque seja feita, na prática, por descendentes do trono, muitos dos quais ainda aspiram a ele. Como a monarquia gostava desse modelo, a teologia, saudosista, esperançosa, mantém-no latente, hibernando, nos seus discursos de “Deus como rei”.

 

2) Noção essencialista de pecado

 

Toda noção de pecado é necessariamente política. A noção essencialista não o deixa por menos. Trata-se, com ela, de dizer que homens e mulheres estão, sempre, em pecado. A afirmação mais clara dessa noção está no texto do dilúvio, na narrativa em que a divindade é designada pelo nome “Yahweh”, que, a meu ver, é do século V, com o que poucos exegetas concordariam, mas que vai acabar se tornando hegemônica, mais cedo ou mais tarde, é só uma questão de tempo. Eckart Otto já se pronunciou favorável a uma tal datação, e Haroldo Reimer provavelmente me dê razão, mas ainda há muitos exegetas que não gostam dela. Para mim, não há dúvidas – ela é sacerdotal, e, se eu não estiver errado, ela é do século V.

 

Ela começa com Yahweh declarando que o coração do homem é mau desde a meninice. É um juízo. Depois de o dizer, Yahweh é tomado de uma fúria incontrolável. Tomado dessa fúria, Yahweh passa a matar todos os homens, mulheres, crianças e animais, indistintamente. Alguém tem de sobrar, claro, porque, senão, a história pára. Noé e sua família são escolhidos e salvos da matança. Dentro da arca, escutam os gritos, tanto os da divindade enfurecida, quanto os das pessoas, morrendo, aos milhares.

 

Noé, então, tem uma idéia genial. Ele abre a tampa da arca, pega um animal puro, e o sacrifica sobre o altar. A fumaça do sacrifício vai subindo, subindo, e chega às narinas de Yahweh, que ainda está tomado de cólera, ira e fúria incontroláveis. Yahweh inspira a fumaça – aplacante. A fumaça age sobre seus instintos, como um calmante. E Yahweh sente-se mais calmo. Olha para baixo e vê a matança toda que levou a termo. E, então, declara: os homens, o coração deles é mau desde a meninice. Ou seja, o juízo de Yahweh não mudou. Os homens ainda são essencialmente maus. Mas, desde que acalmado pela fumaça aplacante do sacrifício, Yahweh não os tornará a matar. O sacrifício do animal substitui a necessidade de que os homens maus devam morrer, porque são maus seus corações.

 

A explicação dessa maldade está na narrativa “javista” da criação (Gn 2,4b-3,24), que dato exatamente no mesmo período que a narrativa “javista” do dilúvio. Ambas são sacerdotais, e do século V, e ambas representam uma virada programática na teologia judaica, politicamente engendrada. A intenção é fazer de cada camponês um ser sob ameaça de vida, porque é mau, incontornavelmente mau, pesando sobre ele o juízo de Yahweh, juízo do qual não há como se livrar – exceto, claro, se esse judeu corre em Jerusalém, leva um animal para o Templo, socorre-se do sacerdote, e ganha, assim, uma sobrevida.

 

O conceito essencialista de pecado é profundamente marcado pela manipulação política da religião. Nada, no futuro, há que se comparar com essa extraordinária criação político-religiosa, tão cara, ainda, à teologia – aquela mesma que adora a palavra “rei”.

 

Uma tal noção foi incorporada ao mito platônico, digerida por Paulo, desenvolvida pela alegoria patrística, tornada cláusula pétrea no mentalmente desequilibrado Agostinho, e assumida até as últimas conseqüências pelo pensamento teológico evangélico-protestante. Hoje, é um fundamento da teologia, muito mais importante do que qualquer “dogma” de Nicéia, cujo brilho criativo e político é ofuscado, apenas, pelo esplendor estratégico e tático do templo sacerdotal de Jerusalém.

 

Por conta dessa noção essencialista de pecado, a teologia obtém um par de argumentos para a submissão do pensamento autônomo, isto é, do pensamento daquele que eventualmente entenda que um teólogo não passa disso – um teólogo, alguém que tem compreensões muito particulares, religiosamente engajadas, da história humana. Os dois argumentos são: a) se você não é bom o suficiente para render-se a Deus-rei de coração, e alegre, b) pior para você, porque, mortalmente nascido pecador, ou pega na mão de Deus, ou morre. É um modo interessante de apresentar “Deus” – mercadoria sacerdotal – como útil. E, nesse caso, muito útil.

 

A noção essencialista, sacerdotal, de pecado é mais nova do que a noção mítico-simpática, monárquica, de pecado. Penso ser possível que ela tenha substituído a anterior. Pode ser observado, por exemplo, que a narrativa sacerdotal da criação, o primeiro capítulo da Bíblia, não toca no tema do pecado, e isso, uma vez que esse assunto está reservado aos capítulos dois e três de Gênesis. Talvez. Por outro lado, o fato de que o “homem” ali criado, é “homem” que domina, e que, da mesma forma como, na Babilônia, o rei babilônico é imagem do deus, esse “homem que domina” é “imagem” e “forma” da divindade, talvez seja melhor, em termos histórico-sociais, considerar-se que essa primeira narrativa ainda seja monarquicamente administrada, e basta o verbo “dominar”, para que cada judeu saiba seu lugar diante do “homem que domina”, “imagem” do deus. Com efeito, se essa é mesmo uma narrativa do século VI – e aposto que é – ela é compreensivelmente monárquica. A presença de Zorobabel, na inauguração do templo de Jerusalém, revelaria que, afinal, a tomada de poder desse mesmo templo por parte dos sacerdotes, e a modificação do paradigma de pecado na nova cultura sacerdotal daí emergente, constituiria um “acaso” histórico, não previsto, mas que, uma vez instalado, fez história. E faz.

 

3) Noção casuística de pecado

 

Penso ser possível imaginar que a noção casuística de pecado, em Judá, tenha desenvolvido-se quase ao mesmo tempo que – e, daí, então, paralelamente – a noção essencialista, que, por sua vez, teria substituído a noção mítico-simpática de pecado. Uma vez que noção de pecado é formulada e administrada por um núcleo político central em relação à sua zona de autoridade, é necessária a concessão de um certo tempo, suficiente o bastante para que, em relação ao poder sacerdotal, responsável pela criação e sustentação do modelo essencialista, um novo poder emergisse, sem, contudo, substituí-lo, funcionando, socialmente, quase que como uma força concorrente.

 

A noção casuística de pecado, ainda, responde a operações político-teológicas ainda operadas pelo templo de Jerusalém. Entre elas, sem dúvida – se é possível a inexistência de dúvidas, em se tratando de história –, é a operação de divinização do direito, aquilo que Frank Crüsemann chama de “o caminho da Torah até o Sinai”. A divinização do direito deu azo a que a “religião” tomasse sob suas mãos a operação do direito, bem como à teologia que passasse a determinar, a seu favor, naturalmente, os princípios de certo e errado, de puro e impuro. Essa divinização do direito, e a conseqüente desautonomização do direito popular – pelo menos do direito civil – poderia ser, por exemplo, interesse da narrativa “javista” da criação, e sua insistência no fato de que não cabe ao homem e à mulher “saber o bom e o mau” – o que deve significar que cabe a Deus uma tal faculdade. E, cabendo a Deus, óbvio, cabe ao seu aparelho político-religioso. Frank Crüsemann arriscou considerar que a "divinização do direito" - da Torah - constituiu uma salva-guarda da Torah em relação ao poder. Cá, com meus botões, duvido muito disso, apostando todas as minhas fichas na alternativa contrária: o poder religioso, finalmente, tomou posse do direito.

 

Seja como for, a divinização do direito dá-se por intermédio da ascensão da Torah ao status de literatura sagrada, inicialmente manejada sob exclusividade no e pelo Templo. A posição central do templo, contudo, será mais tarde, em algum momento entre os séculos IV e II a. C., rivalizada pelo surgimento - ainda de difícil determinação, pelo que me consta - das sinagogas, e, com elas, da nova classe político-religiosa, os rabinos fariseus. No Novo Testamento, o poder religioso de Judá está concentrado em dois grupos importantes – saduceus (templo) e fariseus (sinagogas).

 

Se for correta a consideração de que o modelo essencialista de pecado atende aos interesses de legitimação funcional do sacerdócio, não seria plausível que – ao mesmo tempo – ele viesse a atender os interesses de legitimação funcional de outro centro de poder político-religioso. Uma vez, contudo, que esse novo centro emergiu, emerge com ele e através dele um novo modelo, cuja noção de pecado – e de satisfação do pecado – gera a dependência noológica da população em relação aos controladores desse discurso político-teológico.

 

Essa noção, arrisco, corresponde ao modelo casuístico. O pecado passa a ser designado como a quebra de preceitos - da Torah -, dezenas, centenas, inumeráveis, com variáveis pragmáticas de caso a caso, que impõem a necessidade de uma casta de especialistas em determinar a infração ou não de um preceito, em que grau, e sob que penalidade. Trata-se daquele tipo de religião em que isso pode, isso não pode, isso pode, isso não pode, cujos responsáveis pela determinação do que pode e não pode constituem, por isso mesmo – e para isso mesmo –, a autoridade religiosa. A Torah oral dos fariseus assenta-se nos fundamentos dessa autoridade – desse poder.

 

Típicos são aqueles casos em que alguns fariseus tentam pegar Jesus em flagrante contradição em face dos preceitos “da lei”. São questões principalmente, mas não exclusivamente, relacionadas ao comportamento, o ir e vir do povo, em relação aos preceitos relativos ao sábado. Jesus tenta contornar a questão prescritiva e casuística com respostas que transformam o jogo em princípio: o sábado foi feito para o homem, e não o homem, para o sábado. Para fúria dos fariseus que o tentavam encurralar de qualquer maneira, porque esse tipo de saída de Jesus não apenas os deixava literalmente perdidos em meio ao debate público, autêntico jogo de poder retórico, mas, fundamentalmente, porque resultava na completa deslegitimação funcional da casta de intérpretes da lei.

 

Um clássico exemplo, já fora do Novo Testamento, é aquele que ter por protagonista o “herege” Menocchio, e por deuteragonistas, inquisidores da igreja. A história é contada por Carlo Ginzburg, em O Queijo e os Vermes. Quando Menocchio percebe que não tem saída, e que, de qualquer jeito, vai morrer na fogueira, solta a língua. Uma das coisas que diz é extraordinariamente lúcida, e demonstra como, por exemplo, as receitas de satisfação do pecado estão relacionadas à administração do poder político-religioso, e, conseqüentemente, ao controle social, em regimes teocráticos.

 

Menocchio não desacredita o conceito de pecado. Às portas da fogueira, ele ainda argumenta, tendo como princípio o fato de que, eventualmente (casuística) ele, Menocchio, peque. A partir daí, então, desabafa. O problema não é que peque, o problema é que ele não sabe o que fazer, quando peca, quais as penitências específicas. Por isso, quando peca, e, então, precisa penitenciar-se, tem de descobrir de que penitências precisa. Para o descobrir, deve reportar-se aos padres, que, então, prescrevem as penitências pertinentes ao caso. Diante do quadro, Menocchio conclui que, se ele, Menocchio, soubesse, de antemão, as penitências, não precisaria dos padres. Se, diz ele, uma árvore soubesse as penitências, bastaria que ela fosse consultada, e não os padres. Mas, ele continua, os padres não querem que ele, Menocchio saiba o que eles, padres, sabem, e, segundo seu raciocínio, justamente porque os padres sabem que precisam controlar as penitências, para legitimarem-se. A ordenação, então, e o Espírito Santo, conseqüentemente, são uma questão de “estudar” – qualquer que estude pode ser “sagrado” (= consagrado), porque basta “saber”. É a chave do poder da casuística, que, contudo, legitima-se inclusive pelo recurso à “revelação” das interpretações, como no caso da Torah oral dos fariseus, revelada a Moisés desde o Sinai.

 

4) Conclusão parcial

 

Na história de Israel, os sistemas político-religiosos de satisfação do pecado correspondem às respectivas noções de pecado: modelos mítico-simpático, essencialista e casuístico. Por sua vez, cada noção-modelo de pecado atende às prerrogativas operacionais dos gestores daquelas satisfações rituais. Talvez seja correto dizer que tanto o aparelho político-religioso de gestão regulatória dos ritos de satisfação tanto tenham desenvolvido as respectivas noções, quanto tenham se cristalizado a partir da possibilidade de instalação delas.

 

Por exemplo, tanto a monarquia se serve da teologia, para legitimar-se, quanto aquela determinada expressão teológica sustenta-se através da monarquia. O rei legitima Yahweh, e Yahweh legitima o rei. Tanto o templo sustenta uma noção essencialista de pecado, quanto essa teologia específica legitima a necessidade operacional dos sacerdotes do templo. Finalmente, tanto a casuística do direito divino escrito fomenta uma casta de intérpretes desse direito, quanto essa casta, daí originada, incrementa o valor religioso das prescrições. Trata-se, em todos os casos, de uma relação de simbiose, na qual dois sistemas, um (político)-social e um noológico legitimam-se mutuamente. É insuficiente trabalhar-se com o conceito de que os sistemas político-sociais manipulam os conceitos noológicos. Sim, manipulam, mas o inverso é igualmente verdadeiro, uma vez que, instalada a simbiose, tanto um quanto outro passam a se conformar mutuamente, um em função do outro.

 

Em conclusão, eu arriscaria dizer que o aparelho pragmático de satisfação de pecados, num dado sistema político-religioso, atende aos interesses político-sociais do aparelho de poder que administra os conhecimento e os ritos de satisfação, sendo que, ao mesmo tempo, tal sistema noológico-ritualístico passa a conformar o discurso, as atitudes e as práticas desse aparelho. A administração da salvação é um negócio politicamente muito rentável. Para o aparelho.

 

B. Questões-satélites ao tema “pecado” x “satisfação do pecado”

 

Não se pode enfrentar um tema dessa envergadura do alto de um maniqueísmo do tipo o sistema é mal e as pessoas são boas. Que o sistema político que assume o monopólio da gestão das rotinas de satisfação do pecado atende aos interesses políticos dos gestores é uma coisa. Que, do outro lado, haja apenas manipulados, é outra.

 

Não há apenas manipulados do lado da massa controlada pelo sistema. Aqui, muita coisa acontece, desdobramentos criativos, de toda sorte. Interessa-me tratar de dois. Primeiro, a emergência de micro-sistemas, administrados por personagens do próprio povo, que enxergam oportunidades na adesão ao sistema, sem, contudo, ascenderem oficialmente até ele. Segundo, os núcleos de resistência ao sistema.

 

O primeiro caso parece ser de responsabilidade do fato de que o sistema consiste, como disse, numa relação simbiótica entre dois “organismos”. Um, o organismo político propriamente dito – a coroa, o templo, a sinagoga - e a igreja. Outro, o organismo noológico, a teologia, e, mais especificamente, os conceitos mítico-simpático, essencialista e casuístico de pecado, respectivamente. Ambos intervêm na sociedade sobre a qual exercem seu poder político-teológico. A estrutura político-clerical, legitimando-se, a teologia, inoculando-se. As idéias – também as religiosas – são como vírus, ou como possessões, nesse caso, segundo Edgar Morin. Uma vez que se incorporam no cérebro-mente de uma pessoa, controlam-no, e, controlando-o, controlam-na, algumas vezes de forma, para ela, absolutamente incontrolável. Algumas vezes a pessoa sob domínio de idéias fortes tem lampejos de consciência de sua situação, mas a idéia age de forma a debelar esses reflexos condicionados de resistência.

 

A conseqüência disso é que a própria teologia contamina a sociedade, que, convertendo-se às proposições de que se constitui o discurso religioso, passa a responder, espontaneamente. É o paraíso para a simbiose político-noológica, porque a massa, inicialmente sob severo controle, agora, ela mesma, participa da manutenção do sistema. De modo que é possível ver repetido o sistema em várias micro-regiões da massa, o que significa que o controle teológico do sistema passa a operar inclusive através de elementos da própria massa, situações em que um homem simples, ou uma mulher simples, assume comportamentos de poder, mesmo ali, em suas dimensões sociais de subordinação ao poder central. Em termos locais, o poder é assumido por um elemento qualquer, que, em simbiose com o sistema, tanto lhe presta serviços de fundamentação, quanto se serve dele para ensaiar exercícios de poder.

 

Nesse sentido, o rei não se impõe apenas por si só, mas logra ter elementos a seu serviço entre a própria população – e isso não importando que tipo de rei seja. Há quem odeie Gandhi. Há quem ame Hitler. Da mesma forma, o sacerdote não controla sozinho a população laica. Há, entre os leigos, elementos que se servem do sistema, num jogo de duplo interesse, dando ao sistema, e recebendo dele. O mesmo vale para os fariseus. Arrisco dizer que o mesmo vale para qualquer sistema político-religioso, para qualquer política, para qualquer religião, para qualquer sistema.

 

Se, entre a massa sob controle político-religioso há experiências de simbioses, localizadas, entre o poder e componentes populares, há, na massa, a emergência de resistência. Sempre haverá, e por isso, também sempre, todo sistema político-religioso tenderá a identificar e eliminar tais entraves.

 

Um exemplo de resistência pode ser captado de uma história, cujos protagonistas são dois, Jesus e a mulher de que se diz ter sido pega em adultério. Sem prejuízo da possibilidade de que se trate de desenvolvimento comunitário a partir de memórias fragmentadas, o exemplo é plenamente válido, porque não se trata de valorizar a resistência ao sistema, apelando-se mítico-simpaticamente a Jesus, mas de ilustrar que o sistema, fatalmente, encontra resistências. A possibilidade gravita em torno do sol político-religioso. Eventualmente, ela combate as suas chamas.

 

Um grupo de homens apresenta a Jesus a mulher, e lhe querem pegar na casuística. Ela deve ser apedrejada, é o que manda a lei. Como em outras narrativas, Jesus contorna a questão, negando-se a jogar o jogo no mesmo tabuleiro dos seus deuteragonistas, mas, ao contrário, trazendo-os para o seu próprio tabuleiro. Nesse caso, Jesus não descarta o teor da lei, mas afirma que qualquer um que não tenha pecado, que cumpra o rigor da lei. A narrativa dá conta de que, um a um, todos se foram. Ficam Jesus e a mulher. Dirigindo-se, então, à mulher, Jesus pergunta onde estão os acusadores dela. Foram-se, e não a acusam mais. Jesus também não vai acusá-la. Ela deve ir-se, e não pecar mais.

 

Para o contexto do presente ensaio, o que significa essa resposta de Jesus? Uma série de detalhes podem dar a direção da resposta. Primeiro, Jesus não nega o “pecado”. No final de sua fala, Jesus reconhece a liberdade da mulher, que não é ele quem concede, já é dela, mas pede que ela não peque mais. Se é assim, é porque tanto ela pecou, quanto ainda pode pecar. Independentemente disso, ela é livre para ir. E vai. Segundo, Jesus deixa claro que, em termos político-religiosos, o cumprimento de uma pena esconde o encobrimento de inúmeras outras: quem não tem pecado, atire a primeira pedra. Fica denunciada a hipocrisia por trás do sistema. Terceiro, revela-se que são os atores do jogo os responsáveis pelo movimento das peças do jogo: onde estão os seus acusadores? Se os jogadores se recusam a jogar, o jogo não acontece mais. Finalmente, Jesus recusa-se a pôr-se na condição de crupiê. Jesus recusa-se a dar as cartas, em se tratando, esse jogo, do jogo do controle sobre os conhecimentos e os ritos de satisfação do pecado. Também eu não te condeno. Jesus havia arrancado as pedras das mãos dos acusadores da mulher. Agora, que as pedras estavam em suas mãos, ele as deposita aos pés dela. Jesus recusa assumir o controle do poder do sistema que, no fundo, é a raiz das mazelas humanas. Quando doze séculos depois, Anselmo dirá que Deus tinha que sacrificar Jesus, porque tinha que cobrar a dívida que a humanidade contraíra com ele, Anselmo faz de Deus crupiê. Jesus recusara, viu-se. Deus não pôde manifestar-se em juízo.

 

É profundamente triste e lamentável que a Igreja – genericamente – tenha preferido seguir os modelos essencialista-sacerdotal e casuístico-farisaico, quando construiu suas primeiras catedrais. Lamentável sob todos os aspectos, porque isso significa, acima de tudo, que optou pela legitimação dos seus respectivos aparelhos de poder clerical por meio da administração das rotinas de conhecimento e ritual de satisfação do pecado. Lamentavelmente, a Igreja manteve as pedras na boca e nas mãos, e as atirou em quem bem quis atirar. Poderia ter aprendido com aquele gesto de Jesus, contudo. Porque, se para fazer sua escolha, contornou aquele gesto lindo, porque não escolheu o lindo gesto, e contornou a escolha que faria? O problema, porém, é que esse gesto de Jesus – justamente esse gesto de depor as pedras aos pés dos “pecadores” - não tem qualquer serventia para um sistema político, não atende às prerrogativas do poder, não estrutura uma ordem, um clero, uma casta, uma casa que seja. Não serve para nada. Pelo menos para nada que sirva a projetos de poder.

 

Tanto a Igreja Imperial, quanto aquelas que se dividiram, depois e a partir dela, construíram seus aparelhos de poder em torno do sistema de satisfação do pecado. O pecado original, tão caro aos protestantes e evangélicos, é resquício direito do sacerdotalismo jerosolimitano. As penitências católicas, em todos os níveis, e de todos os tipos, resquícios da casuística farisaica. Sem contar que, enquanto houve reis cristãos, cristãos estiveram à mercê das mítico-simpáticas atitudes do rei, e de Deus, de Deus, e do rei.

 

É tão bem constituída a simbiose entre o poder político-sacerdotal cristão – o aparelho gestor do sistema – e a teologia do pecado, que um protege o outro. À primeira tentativa de questionar o poder, a teologia grita (e, nesse caso, tanto a partir do próprio poder, quanto a partir das suas micro-cristalizações na base popular, onde se articulam aquela pequenas simbioses entre povo e poder). À primeira tentativa de questionar a teologia, o sistema grita. Um e outro se confundem, de modo que onde está a teologia, aí está o sistema, onde está o sistema, aí está a teologia.

 

É surpreendente – mas de certa forma reforça a tese da existência dos fenômenos de resistência – que a civilização ocidental tenha encontrado uma maneira de pôr-se a salvo dos sistemas político-religiosos, criando a República, na forma de Estado Democrático de Direito. Não fosse esse fato histórico de extrema relevância civilizatória, todo o ocidente estaria, ainda, a mercê de caprichos político-religiosos de castas e castas de monarcas-sacerdotes-fariseus.

 

O que não significa, contudo, nem que a religião cristã livrou-se, assim, da praga política, nem que a civilização ocidental livrou-se do mal do poder. O cristianismo, agora sob a vigilância do Estado Democrático de Direito, ainda se vê às voltas com os aparelhos de controle teológico. Não se pode mais exercer pode sobre o mundo inteiro, como antes, e isso ainda que seja isso que se queira, mas, ali, onde se pode exercer tal poder, ali ele é exercido, e as noções essencialistas e casuísticas de pecado servem aos mesmo propósitos que em Israel e Judá, há mais de três mil anos, e isso de um modo tão profundamente piedoso que faz parecer que Jesus era um representante galardoado de um dos dois - ou dos dois - modelos de controle político-religioso.

 

Por sua vez, a sociedade, emancipando-se, não logrou melhores performances. Sistemas oficialmente não religiosos, mas profundamente religiosos em seus pressupostos e práticas, encenaram as mesmas encenações contra as quais disseram ter-se rebelado. O homem secularizado, civilizado, ocidental não é um homem melhor do que o homem religioso, cristão, medieval. É o mesmo homem – apenas serve-se de tacapes diferentes para arrancar cabeças.

 

Em função disso, penso ser necessário pensar em duas questões. Primeiro, que a noção de pecado, em si, não é uma noção política. Não acredito que aqueles sistemas político-religiosos inventaram a noção de pecado. Inventaram, sim, um modo de se servir politicamente dela. Mas acredito que a noção de pecado é anterior à política, em sentido sócio-estrutural. Acredito que tal noção seja uma emergência noológica propriamente político-antropológica, o resultado de uma leitura perspectivista, em face do outro, da vida, do si, das ações do si na vida.

 

Se essa perspectiva estiver correta, o pecado - como Deus! - é uma companhia humana, sua companheira de berço e de túmulo, não um defeito, corrigível, mas uma marca estruturante – biopsicológica. Uma emergência da consciência humana em sua expressão como autocompreensão antropológica. O pecado, então, é constitutivo da espécie, porque traduz-se, apenas, em consciência de que o homem, afinal, faz isso que ele faz, e que ele chama isso que faz de pecado. E não é porque ele faz que seja pecado, mas porque ele chama de pecado isso que faz. E, dado que ele pode chamar, e chama, isso de isso, não é simplesmente mudando o nome disso para aquilo que ele resolve o problema. O problema nasce com a possibilidade de o homem poder, como ninguém mais – que se saiba –, ver-se como sujeito consciente, e ator de ações desintegradoras de formas estáveis (violência contra o outro e contra a vida), bem como ator sujeito à desintegração da própria forma (violência do outro contra si e violência da vida contra si).

 

Esses quatro tipos de violência são tão comuns aos animais quanto aos homens, e a própria “natureza” é agente e paciente dela, ferindo-se a si mesma o tempo todo, em processos recursivos indissociáveis, destrutivos/criativos. Ocorre, contudo, que, como já o disse Pascal – o homem sabe disso, de seu “poder”, de seu “mal”, disso que ele chama pelo nome de poder e daquilo que ele chama pelo nome de mal, e que, fora de sua consciência, são apenas movimentos amorais.

 

Não há, pois cura, para o pecado. Há, apenas, a condição de aprofundamento crítico da consciência, superação das mitologias recalcadoras e das políticas instrumentalizadoras da condição humana, e a esperança – ou a paciência? – pelo amanhã. Li, outro dia, um comentário sobre o filme O Baixio das Bestas, no qual o futuro sociológico afirmava que a humanidade está mesmo apodrecendo. É uma questão de conjunto. Se forem reunidas num conjunto apenas as baixezas perpetradas por homens e mulheres, sim, está. Mas, por outro lado, se forem observadas, num conjunto, apenas as suas grandes realizações, do espírito e da técnica, os inumeráveis e anônimos pequenos gestos de amor, não, não está. Tudo depende de para onde dirigiremos nossos olhos, para um grupo?, para outro?, e de se vamos “escolher” definir a espécie por um ou outro conjunto. Somos uma espécie marcada pelos dois conjuntos, capaz das maiores virtudes, e das piores bestialidades. Edgar Morin nos chama Homo sapiens/demens. Com razão.

 

Não há garantias. Nem de apocalipse, nem de paraíso. E, no entanto, ambos são alternativamente possíveis. Não há caminhos pré-determinados, ainda que Einstein desgostasse da idéia de que seu Deus jogasse dados. Mas a nossa espécie parece mais do que sugerir, mas comprovar que, sim, dados foram jogados, e nós, num conjunto inextricável de atores terríveis e maravilhosos, nós mesmos os jogamos, e não apenas a cada novo ano, também aí, nem a cada novo dia, também aí, mas a cada gesto, a cada atitude, a cada pensamento. Bem aí.

 

É necessário devolver o pecado à sua condição de marco material-ideal da espécie humana, e – não sei se devo, arrisco –, como aquele Jesus daquela passagem – mas há, decerto, inúmeros exemplos em outras culturas, de modo que o que eu quero apontar não é tanto aquele Jesus, mas a saída para qual ele aponta, saída essa que pode ter sido apontada em qualquer outra cultura –, abrir-se mão de qualquer desejo e tentativa de instrumentalizá-lo político-teologicamente, em benefício confesso ou inconfesso de aparelhos político-religiosos, que fazem do pecado e da culpa os nutrientes de suas refeições cotidianas.

 

É necessário, insisto, considerar o pecado como uma possibilidade humana, tornado consciente de si por conta da consciência humana, e que, por meio da própria consciência humana, revela-se como “mal”, porque violenta, fere e mata. Se eu mesmo, sozinho, não o pude perceber enquanto pecado, e somente em face do outro o pecado se mostra como pecado, é apenas em face do outro que pode estar a possibilidade – não de superação do pecado, mas – de controle de seus efeitos. Os mecanismos devem ser, antes de tudo, político-sociais, como sistemas de educação, sistemas de direito, sistemas de auditoria, sistemas de policiamento. O Estado Democrático de Direito, em sua concepção, mas nem tanto em sua realização histórica, até agora, é o que de melhor se pôde pensar, até agora. Modelos “religiosos”, à semelhança da expressão daquela passagem na qual Jesus deposita aos pés da mulher as pedras, para cujo uso contra ela ele podia julgar-se legitimado, modelos de serviço sincero ao próximo, ainda que como a Deus – mas, efetivamente, ao próximo – são outros elementos importantes. Seja como for, não se pode esperar que a “humanidade” – que consiste numa abstração irrealizável, e apenas retoricamente disponível – alcance a “luz”. Tem-se que criar instrumentos civilizatórios, libertários, emancipadores, dignificantes da vida humana e da vida enquanto dom do Universo – ou de Deus –, instrumentos que permitam aos homens e mulheres concretos construir relações mediadas e ecológicas entre si, no nível de civilidade em que cada qual se encontra.

 

Ah, sim, que sejam acalentadas utopias, porque elas são fogos que aquecem a mente, o corpo, as mãos, se não são, contudo, também, montanhas imobilizadoras de todo engajamento em direção ao futuro. Mas não está nas utopias a condição humana. Está no dia a dia, de cada membro da família-espécie. E é no dia a dia que o futuro se constrói. Para o bem. Para o mal.  

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

– autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações no texto –

página atualizada em 26/08/2007 16:27:22