E quem há de separar as palavras?

Osvaldo Luiz Ribeiro

(20/09/2007)

 

O professor Rômulo reunia-nos, um grupo de adolescentes do segundo grau, e ensaiávamos cenas de peças de teatro. Antes de ser “dirigido” pelo professor Rômulo, eu atuara em duas peças ainda mais amadoras: uma, para o dia das mães, ou dos pais, não lembro mais, onde eu fazia o papel de um pai bêbado, e Teresinha, ah, Teresinha, que me ganhava em (quase) todas as notas, a mãe, bem como uma outra, folclórica, mediada pelos personagens do Sítio do Pica-pau Amarelo, em que eu, o Visconde de Sabugosa, deveria receber um beijo de Márcia, a Emília, mas nunca, porque ela recusou-se a me conceder aquela excitação juvenil, como quem deveria beijar um sapo rugoso e, compreensivelmente, não quisesse. Só que o sapo era eu. Saudades daqueles dias.

 

Com Rômulo, ensaiamos duas peças, a última das quais, nunca terminamos. A Raposa e as Uvas, de Guilherme de Figueiredo, essa ensaiamos. Eu era Esopo, um escravo corcunda e feio, mas inteligentíssimo, astutíssimo. Meu amigo Marcos Roleira, era Xantós. Esopo era escravo de Xantós.

 

Recordo-me particularmente de uma cena. Xantós, bêbado, falara demais. Metera-se numa enrascada dos diabos. Dissera que beberia toda a água do mar. E, se não bebesse, entregaria a sua casa – uma verdadeira mansão – aos apostadores da cidade. Passada a bebedeira, deu-se conta da tragédia. Perderia a casa. Como?, como poderia ele beber a água do mar, toda a água do mar? Ou, de outro modo, como podia sair da enrascada?

 

Esopo! Xantós corre a pedir ajuda ao escravo. Conta-lhe a situação em que se metera. Esopo diz que pode livrá-lo, mas ao custo de sua própria liberdade. Xantós aceita. Esopo fica radiante. Será liberto.

 

Reúnem-se os cidadãos. Diante de todos, Esopo afirma que Xantós, seu amo, está ali para cumprir sua promessa – ele, que é um homem de cumprir promessas, vai beber toda a água do mar. Xantós quase enfarta. Arregalam-se-lhe os olhos. Esopo é louco. Varrido. Esopo, contudo, continua. Xantós beberá toda a água do mar. Mas – atenção –, adverte muito austeramente – Xantós beberá apenas a água do mar. Para que, contudo, Xantós beba apenas a água do mar, nada mais do que apenas todas as águas do mar, os cidadãos ali reunidos devem, antes, separar as águas dos rios que estão misturadas com as águas do mar. Quando elas, as águas, tiverem sido separadas, as águas dos rios de um lado, as águas do mar do outro, então Xantós, o homem que cumpre promessas, beberá as águas do mar, toda a água do mar, apenas a água do mar, e cumprirá sua promessa.

 

Foi uma festa. A astúcia de Esopo causou mais frisson do que o fato de ele ter permitido a Xantós passar a perna em seus apostadores. Xantós livrou-se. Ficou com sua mansão. Mas nunca libertou Esopo. Não era – de fato – um homem que cumpre suas promessas. E Esopo, no final da peça, lança-se do alto do penhasco, e morre.

 

Lembrei-me dessa história na segunda-feira, quando lecionava Metodologia Exegética do Antigo Testamento, em Nova Iguaçu. Adotamos, como roteiro didático-pedagógico, o livro de Horácio Simian-Yofre, Metodologia do Antigo Testamento[1]. Tratávamos do capítulo “Diacronia – os métodos histórico-críticos”. As abordagens diacrônicas – porque histórico-críticas – são geralmente, não necessariamente, muito controvertidas, porque há alunos que têm verdadeiro horror a pensar nas possibilidades que a exegese acadêmica descortina. Trocávamos observações sobre o capítulo, e, diante de uma pergunta, recorri ao exemplo de Esopo e das águas do mar, inseparáveis que saio essas das águas dos rios.

 

É que há uma certa forma de ler as Escrituras que, no fundo, “inventa” um sentido “divino” que nunca pode ser rigorosamente evidenciado pelas palavras do próprio texto, conforme o autor desse texto as teria, eventualmente, pronunciado, isto é, escrito. Cria-se um conflito terrível, a rigor, intransponível, entre “palavras divinas” e “palavras humanas”. Muitas vezes, excessivas vezes, as “palavras humanas” são, simplesmente, descartadas.

 

A seção “Introdução: exegese, fé e teologia”, também escrita por Simian-Yofre, autor do capítulo sobre diacronia, discute esse tema. E recorri a ela, enquanto desenvolvia minha resposta. Simian-Yofre comenta, na seção sobre as críticas à exegese moderna, que tem-se insistido muito na distinção entre “Bíblia como palavra humana” e “Bíblia como palavra de Deus”. Insinua-se nessa insistência aquela distinção entre um sentido “divino”, não necessariamente idêntico ao sentido “humano” das narrativas. Ou seja, lá estão as “palavras humanas”, e lá estão as “palavras divinas”. Mas o sentido dessas “palavras divinas”, é o que se diz, aqui e ali, não está naquelas “palavras humanas”. Eu pergunto: ah, é?, e está onde, então? E Simian-Yofre, por sua vez, pergunta: “mas, se a profundidade da palavra de Deus não está presente na palavra humana, de que serve a Escritura?”[2]. E, então, escreve:

 

Parece haver, na base dessas formulações e posturas, uma filosofia da justaposição,sem chegar à integração (...). O autor humano e o autor divino, o texto de um e o ‘não-texto’ do outro, permanecem lado a lado, quase sem se tocar, tornando-se assim inútil o esforço para ler o primeiro (porque isso não nos permite chegar à Palavra divina) e inatingível o modo (espiritual, místico?) de interpretar o outro, que parece não poder exprimir-se com algum método[3].

 

De fato, a insistência em distinguir um sentido histórico, humano, de um sentido metafísico, divino, nas narrativas bíblicas, é pura retórica. Não é operacionalizável. Pelo menos, não, nos termos do postulado “protestante” do primado das Escrituras. Em termos acadêmicos, chega ser absurda a insistência, e, na prática, nem se lhe dá ouvidos. Os alunos, contudo, ainda que, circunstancialmente em ambiente acadêmico, articulam seu pensamento a partir da ótica teológico-eclesiástica, muito apenas “pastoralmente”, na sua maioria. A maior parte deles chega à academia com o modelo “dualista” instalado em suas cabeças. Muitos, sequer conseguem “ler”, em sentido forte, os textos. A “interpretação” teológica, o “sentido divino” está tão claro para eles, é-lhes tão forte, tão presente, que não conseguem mais perceber que uma coisa é o que “entendem”, outra, o que está escrito. Se não corrigem, epistemologicamente, essa disfunção teórico-metodológica de leitura bíblica, continuarão a sublimar essa questão importante: como chegam ao sentido “divino” do texto, se não chegam ao sentido humano, seja porque desdenham deste, seja porque não são competentes na exegese?

 

Aceitemos, por um momento, o jogo teológico-eclesiástico. Vamos caminhar por essa vereda, e ver onde ela vai dar. Segundo aí se considera, há um sentido divino e um sentido humano na mesma Escritura. À luz das considerações de Simian-Yofre, qualquer tentativa de distinguir um sentido divino de um sentido humano, separados, resulta improcedente, pelas razões que estão muito claras na citação acima. Se o sentido divino “flutua” sobre o texto, mas não está entranhado nele, de forma que se pudesse chegar ao sentido divino através do sentido humano, pra que serve o texto? Para nada, porque o sentido “divino”, o único que interessa ao leitor, não está no texto, mas “flutua” sobre ele, um pássaro que nunca pousa, um sabiá que visgo algum captura.

 

Ora – se o sentido não está no texto, porque, se estivesse, seria idêntico ao sentido desse texto, mas “flutua”, sobre o texto, como uma bolha de sabão, como o leitor captura esse sentido divino que “flutua”? Se for ao texto, não o encontra. Se tem uma visão, o texto nada tem a ver com isso, de modo que não será, jamais, uma “interpretação”, mas, apenas, uma ilusão de ótica. Se há uma “iluminação”, a Bíblia perde todo seu valor, porque a iluminação nada tem a ver, mais uma vez, com o sentido do texto, uma vez que cada um é “iluminado” de acordo com as doutrinas de sua tradição. Qualquer tentativa de estabelecer uma reserva mística, mágica, “espiritual”, cabalística, esotérica, teológica, sobrenatural, metafísica, para a “interpretação” do texto bíblico, faz desse mesmo texto bíblico uma coisa inútil. Faz da leitura, perda de tempo.

 

Pensemos, então, três possibilidades. Primeira – o sentido divino não tem relação com o sentido humano. Segunda – o sentido divino está entranhado em alguns dos sentidos humanos de alguns dos textos. Terceira – o sentido divino é idêntico ao sentido humano de todos os textos.

 

Qual a conseqüência? Da primeira – já discutimos: o texto é inútil, porque o sentido divino não está nele, e o leitor, um xamã, porque, para alcançar o sentido divino, que não está no texto, ele viaja até o céu, e ouve diretamente da divindade o que ela quer dizer. Há outras possibilidades, mais “políticas”. Mas fiquemos com essa. Da segunda – o leitor deve arrumar uma maneira, agora, de identificar quais são os textos em que o sentido divino está nas palavras, e quais os textos do tipo “inútil”, já que o sentido divino não está nelas, já que, para essa possibilidade, que testamos, o sentido divino está nos textos, mas não em todos, apenas em alguns. E como é que o leitor fará para saber em quais textos está o sentido divino, e em quais, não. Da terceira – basta ler criticamente o texto, e pronto, na medida em que se chegar ao sentido humano, se uma tal coisa for possível, eis aí, também, nesse sentido humano, o sentido divino.

 

A primeira é política, porque cada “igreja” – na verdade, cada crente – vai enfiar na própria cabeça que o sentido divino é essa leitura que ele/ela faz/manda fazer, e não haverá quem lhe tiro isso dali. Se ele mesmo não se der conta do que faz, ninguém o despertará. Não percamos tempo com isso. A segunda é contraditória, porque resulta numa impossibilidade – como separar as palavras? Como saber o que é divino, o que é humano? É o mesmo caso de Xantós e sua idéia maluca de beber a água do mar, e da saída astuta de Esopo: Xantós bebe, se vocês separarem as águas. O problema é: quem pode separar as águas? Ninguém. Essa possibilidade, que testamos, pensa que a Bíblia seja um mar. Que lá tenha águas salgadas e águas doces. As salgadas, são as divinas. As doces, as humanas. O leitor, aí, só quer as salgadas. Gosto é gosto, tudo bem. Mas ele terá de, para beber apenas essas águas salgadas, separar delas as doces. Se você seguir adiante, e brincar com a possibilidade, descobrirá que, para separar as águas salgadas das águas doces, o leitor terá de saber, antecipadamente, o gosto delas. Ele sabe o gosto delas. E vai provando, e separando. O que ele prova, e sente que é salgado, ele separa na vasilha da direita. O que ele prova, e sente que é doce, na da esquerda. Ou seja, ainda que ele pudesse separar as águas – e não pode – separaria porque já sabe o gosto delas. É o mesmo que dizer que o divino não está nas palavras em si, mas nos olhos de quem lê.

 

A terceira – é metodológica. Discutam-se, severamente, criticamente, as regras de leitura, os métodos. Estabeleçam-se discussões não em torno de conteúdos – são eles que queremos, e não eles que decidem como chegar a si mesmos. Se nós já os temos, e é por meio deles que decidimos como ler, pra que ler, então, se já os temos? Não, não os temos, não – querêmo-los. Para chegar lá, é preciso descobrir como. São João da Cruz, tomado por grande místico do século XVI, dizia que para chegarmos onde não sabemos, temos de ir por onde não sabemos. Temos, portanto, que descobrir esse caminho que não sabemos, que não descobrimos, ainda, para chegar onde queremos chegar, onde ainda não chegamos. A discussão de método é fundamental. No que diz respeito à leitura, nada é mais fundamental.

 

E, agora, chegamos a um resultado muito surpreendente. Nos dois primeiros casos, em que separei os dois sentidos, posso brincar de sentido divino, mas não posso, nunca, demonstrá-lo no texto. Ele está, sempre e apenas, na minha mística. Nem eu posso chegar a ele, pelo texto, nem permito que, pelo texto, alguém me mostre que minha interpretação é vazia. Logo, não há, aí, verdadeiro sentido, apenas, ideologia. Há um sem número de “motivos” para se agir assim. Cada caso, um caso. Em todos, o mesmo dignóstico. Disfunção semântica. Leve, na República. Perigosa e contagiosa, nas hierocracias. Por isso, melhor prevenir-se.

 

No terceiro caso, até posso considerar que podemos, juntos, discutir um caminho. Mas como saberemos se esse lugar em que chegamos, é, de fato o lugar aonde deveríamos ter chegado? Como não temos o “modelo” do que deveríamos achar – temos apenas perguntas –, como, honestamente, sinceramente, inequivocamente, podemos saber se chegamos lá? Não, não podemos “saber”. Pelo menos não de um jeito que nos permitisse, para sempre, saber que chegamos. Teremos de sempre viver com a consciência de que podemos estar equivocados.

 

Ou seja, em termos de leitura bíblica, se queremos “certeza”, só fechando os olhos – se não já os arrancando das órbitas. Se os abrimos, contudo, a primeira coisa que vemos é que ela, a “deusa” certeza, não está disponível. Não para nós, criaturas. Salvo, claro, se brincamos de ser “deuses”. Só os “deuses” – só Deus – podem ter certeza.

 

Ah, então as palavras divinas, finalmente – e eu gosto disso! –, estão entranhadas nas palavras humanas. Essas, por sua vez, estão misturadas ao pó da história. Poeira no vento, diz a canção. Podemos recolher a poeira, e separar as palavras? Em todos os casos, quem há de recolher a poeira?, de separar as palavras?



[1] Horácio SIMIAN-YOFRE, Innocenzo GARGANO, Jean Louis SKA e Stephen PISANO, Metodologia do Antigo Testamento. Tradução de João Rezende Costa. São Paulo: Loyola, 2000.

[2] Horácio SIMIAN-YOFRE, Introdução: exegese, fé e teologia, em Horácio SIMIAN-YOFRE, Innocenzo GARGANO, Jean Louis SKA e Stephen PISANO, op. cit., p. 19-20.

[3] Horácio SIMIAN-YOFRE, Introdução: exegese, fé e teologia, em Horácio SIMIAN-YOFRE, Innocenzo GARGANO, Jean Louis SKA e Stephen PISANO, op. cit., p. 20.

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

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