Criação, descriação e narrativas de cercos militares na Bíblia Hebraica.

Diálogo entre Gn 1,1-2,4a e Is 34,1-17

Osvaldo Luiz Ribeiro*

(reformatado em 24/06/2007)

 

 

Resumo: o presente artigo consiste na tradução de Is 34,1-17; numa análise da recomposição estrutural da peça; e num breve comentário da narrativa, com vistas à discussão acerca de dois casos de uso de chave de linguagem mítico-descritiva de cercos militares na Bíblia Hebraica (Is 34,4.11b). O interesse é a relação desse tipo de narrativa histórico-mítico-descritiva com a cosmogonia de Jerusalém – Gn 1,1-2,4a – de modo que um maior aprofundamento nelas implicaria numa melhor compreensão histórico-social daquela peça literária.

 

 

Abstract: this article consists in the traduction of Isa. 34:1-17; in a analysis of structural recomposicion of account; and in a brief commentary of the account, in order to a discussion to two cases of use of mythical-descriptive language key to military sieges in the Hebrew Bible (Isa. 34:4.11b). Its interest is the relaction among this type to hystorical-mythical-descriptive account and the Jerusalem ’s cosmogony – Gen. 1:1-2:4a – so as to a bigger insight them should implicate a better hystorical-social comprehension of that literary account.

 

 

Palavras-chaves: criação, cosmogonia, deserto e desolação, mito, história.

 

 

 

 

Introdução

 

 

 

 

Gn 1,1-2,4a está em meu encalço há algum tempo, desde que tive de refletir sobre Gn 1,27 (“macho” e “fêmea”). É que para continuar podendo tentar afirmar a existência de “liderança religiosa feminina campesina” na Judá do século VI – objeto de minha Tese de Doutorado em andamento no STBSB, tinha – e tenho – de contornar a afirmação da pesquisa (Milton Schwantes, por exemplo) de que esse preciso versículo determina a necessidade de se pressupor, em termos das relações de gênero, um espaço histórico-social igualitário na época do exílio. Essa afirmação impõe sérias dificuldades à minha Tese – tinha de a contornar.

 

 

E o fiz, tendo para isso que descer mais fundo do que jamais o tinha feito até então em relação a Gn 1,1-2,4a. Escrevi já uma série de artigos – que tenho classificado como “série Vento Tempestuoso”[i]. É verdade que em nenhum dos artigos publicados na série acabei tratando de Gn 1,27 – é que me deparei com intuições tão interessantes, que a série tomou dimensões próprias, e transformou-se na (ou em parte da) Tese de Doutorado prevista para a PUC-Rio. O presente artigo, por exemplo, constitui em si mesmo um aprofundamento da tese do primeiro artigo. Lá, havia afirmado que Jr 4,23-26 teria servido de substrato literário para a construção de Gn 1,1-3. Aquela intuição recebe significativa força argumentativa através de novas relações apontadas entre Gn 1,1-3 e narrativas veterotestamentárias de cercos militares. A rigor Is 34 representa um estágio redacional além de Gn 1,1-3, e considero mesmo que dependa literária e geográfico-traditivamente daquela cosmogonia.

 

 

Ainda dependente da herança antico-próximo-oriental (efetivamente veterotestamentária) da descrição histórico-mítica de cercos militares, mas agora desenvolvendo, no que tange ao salto mítico da linguagem, referencial discursivo próprio relacionado à tradição cosmogônica do Templo de Jerusalém, Is 34 consistiria numa peça representativa de uma renovação histórico-traditiva que se tornará comum no desenvolvimento da Bíblia Hebraica – como de resto de toda a tradição literária do judaísmo primitivo e interbíblico.

 

 

 

 

Tradução de Is 34,1-17 e notas

 

 

 

 

Impossível me parece uma aproximação exegética a um texto bíblico sem uma tradução própria da peça. Os exegetas me confirmem, e os leitores não iniciados creiam com boa-vontade, o acesso ao texto na língua original é a entrada em um mundo absolutamente “novo”, e quantas vezes “diferente” (mesmo) daquele possibilitado pela tradução da narrativa no vernáculo. E já que o tive de traduzir, parece-me apropriado apresentar a tradução, para (espero) gosto do leitor.

 

Is 34,1-17

 

[;mov.li ~yIAg Wbr>qi (1aa)

Wbyviq.h; ~yMiaul.W (1ab)

Ha'l{m.W #r,a'h' [m;v.Ti (1ba)

`h'ya,c'a/c,-lk'w> lbeTe (1bb)

(1aa) Aproximai-vos, povos, para ouvir,

(1ab) e cidadãos[ii], escutai!

(1ba) Que ouça a terra e a completude dela,

(1bb) a redondeza, e a totalidade dos rebentos dela.

~yIAGh;-lK'-l[; hw"hyl; @c,q, yKi (2aa)

~a'b'c.-lK'-l[; hm'xew> (2ab)

`xb;J'l; ~n"t'n> ~m'yrIx/h, (2b)

(2aa) Porque Yahweh tem furor[iii] contra a totalidade dos povos,

(2ab) e ira contra a totalidade dos exércitos deles:

(2b) (ele) consagrou-os ao extermínio[iv], e entregou-os ao massacre,

Wkl'v.yU ~h,ylel.x;w> (3aa)

~v'a.b' hl,[]y: ~h,yreg>piW (3ab)

`~m'D'mi ~yrIh' WSm;n"w> (3b)

(3aa) e os mortos[v] deles ficarão estendidos;

(3ab) e (d)os cadáveres deles  subirá[vi] a inhaca deles,

(3b) e inundam-se[vii] os montes pelo[viii] sangue deles.

~yIm;V'h; ab'c.-lK' WQm;n"w> (4aa)

~yIm'V'h; rp,Sek; WLgOn"w> (4ab)

lAByI ~a'b'c.-lk'w> (4ba)

!p,G<mi hl,[' lbon>Ki (4bb)

`hn"aeT.mi tl,b,nOk.W (4bg)

(4aa[ix]) E serão decompostos[x] a totalidade do exército dos céus,

(4ab) e serão enrolados como um livro os céus,

(4ba) e a totalidade do exército deles cairá[xi],

(4bb) como o cair de uma folha da videira,

(4bg) e como a que cai da figueira.

yBir>x; ~yIm;V'b; ht'W>rI-yKi (5a)

dreTe ~Ada/-l[; hNEhi (5ba)

`jP'v.mil. ymir>x, ~[;-l[;w> (5bb)

(5a) Porque se empapou[xii] nos céus a minha espada,

(5ba) eis que sobre Edom (ela) descerá,

(5bb) e sobre o povo da minha consagração[xiii], para julgamento.

bl,xeme hn"v.D;hu ~d' ha'l.m' hw"hyl; br,x, (6aa)

~ydIWT[;w> ~yrIK' ~D;mi  (6ab)

 ~yliyae tAyl.Ki bl,xeme (6ag)

hr'c.b'B. hw"hyl; xb;z< yKi (6ba)

`~Ada/ #r,a,B. lAdG" xb;j,w> (6bb)

(6aa) A espada de Yahweh (está) cheia de sangue, engordura-se de gordura,

(6ab) de sangue de cordeiros e de bodes,

(6ag) da gordura de rins de carneiros;

(6ba) porque Yahweh tem um sacrifício em Bozra,

(6bb) e uma grande matança na terra de Edom.

~M'[i ~ymiaer> Wdr>y"w> (7aa)

~yrIyBia;-~[i ~yrIp'W (7ab)

~D'mi ~c'r>a; ht'W>rIw> (7ba)

`!V'duy> bl,xeme ~r'p'[]w: (7bb)

(7aa) E caem búfalos com eles,

(7ab) e touros com bezerros;

(7ba) e empapa-se a terra deles por causa do sangue,

(7bb) e o pó deles, por causa da gordura, está engordurado.

hw"hyl; ~q'n" ~Ay yKi (8a)

`!AYci byrIl. ~ymiWLvi tn:v. (8b)

(8a) Porque Yahweh tem um dia de vingança,

(8b) um ano de retribuição, pela causa de Sião.

tp,z<l. h'yl,x'n> Wkp.h,n<w> (9aa)

tyrIp.g"l. Hr'p'[]w: (9ab)

Hc'r>a; ht'y>h'w> (9ba)

`hr'[eBo tp,z<l. (9bb)

(9aa) E serão convertidos os ribeiros dela em pez,

(9ab) e o pó dela, em enxofre,

(9ba) e se tornará a terra dela

(9bb) em pez que queima.

hB,k.ti al{ ~m'Ayw> hl'y>l; (10aa)

Hn"v'[] hl,[]y: ~l'A[l. (10ab)

br'x/T, rAdl' rADmi (10ba)

`HB' rbe[o !yae ~yxic'n> xc;nEl. (10bba)

(10aa) Noite e dia não apagará,

(10ab) para sempre subirá a fumaça dela;

(10ba) de geração em geração estará devastada:

(10bba) pelos séculos dos séculos não haverá quem passe nela.

dAPqiw> ta;q' h'WvreywI (11aa)

Hb'-WnK.v.yI bre[ow> @Avn>y:w> (11ab)

`Whbo-ynEb.a;w> Whto-wq; h'yl,[' hj'n"w> (11b)

(11aa) Assenhorar-se-ão[xiv] dela mocho[xv] e ouriço[xvi],

(11ab) e coruja [17] e corvo [18] viverão nela.

(11b) Pois (ele) estendeu sobre ela o cordel do deserto e os prumos[xix] da desolação;

War'q.yI hk'Wlm. ~v'-!yaew> h'yr,xo (12a)

`sp,a' Wyh.yI h'yr,f'-lk'w> (12b)

(12a[xx] os nobres dela, então não haverá lá realeza[xxi] que (eles) proclamem[xxii],

(12b) e a totalidade dos príncipes dela serão ninguém.

~yrIysi h'yt,nOm.r>a; ht'l.['w> (13aa)

h'yr,c'b.miB. x;Axw" fAMqi (13ab)

~yNIt; hwEn> ht'y>h'w> (13ba)

`hn"[]y: tAnb.li rycix' (13bb)

(13aa) E (ela) verá crescer (n)os palácios dela espinheiros,

(13ab) cardo e urtiga (haverá) nas fortalezas dela;

(13ba) e servirá de covil[xxiii] de chacais[xxiv],

(13bb) pasto[xxv] para as filhas da avestruz[xxvi].

~yYIai-ta, ~yYIci Wvg>p'W (14aa)

ar'q.yI Wh[ere-l[; ry[if'w> (14ab)

tyliyLi h['yGIr>hi ~v'-%a; (14ba)

`x;Anm' Hl' ha'c.m'W (14bb)

(14aa) E se encontrarão gatos[xxvii] com hienas,

(14ab) e um sátiro[xxviii] ao companheiro dele gritará;

(14ba) sim, lá descansará[xxix] Lîlît,

(14bb) e encontrará para ela descanso...

jLem;T.w: zAPqi hn"N>qi hM'v' (15aa)

HL'cib. hr'g>d'w> h['q.b'W (15ab)

`Ht'W[r> hV'ai tAYd; WcB.q.nI ~v'-%a; (15b)

(15aa) Lá se aninha a cobra[xxx][30],

(15ab) e põe ovos[xxxi], e incuba[xxxii] os ovos, e choca[xxxiii] na sombra dela;

(15b) sim, lá se reúnem os abutres, (a) fêmea (e) a companheira dela.

War'q.W hw"hy> rp,se-l[;me Wvr>DI (16aa)

hr'D'[.n< al{ hN"heme tx;a; (16ab)

Wdq'p' al{ Ht'W[r> hV'ai (16ag)

hW"ci aWh ypi-yKi (16ba)

`!c'B.qi aWh AxWrw> (16bb)

(16aa) Estudai no livro de Yahweh, e lede[xxxiv],

(16ab) cada uma dentre elas não faltará,

(16ag) a fêmea e a companheira dela não faltarão,

(16ba) porque minha boca é que decreta;

(16bb) e o espírito dele é que reúne elas,

lr'AG !h,l' lyPihi-aWhw> (17aa)

wQ'B; ~h,l' hT'q;L.xi Ady"w> (17ab)

h'Wvr'yyI ~l'A[-d[; (17ba)

s `Hb'-WnK.v.yI rAdw" rAdl. (17bb)

(17aa) e ele (mesmo) lançou[xxxv] para elas sorte[xxxvi],

(17ab) e a mão dele distribuiu ela para eles com o cordel,

(17ba) para sempre (eles) se assenhorearão dela,

(17bb) por geração e geração viverão nela.

 

 

 

 

Introdução à estrutura interna e externa de Is 34

 

 

 

 

Não é o caso de uma revisão da literatura em torno de Is 34[xxxvii]. Trata-se, aqui, apenas de uma primeira abordagem ao contexto literário da narrativa, para, em seguida, enfrentar-se a própria narrativa. Recolho observações a partir de algumas versões bíblicas, e com base nos trabalhos de Croatto, Alonso-Schökel e Hans-Winfried Jüngling.

 

 

 

A estrutura de Is 34,1-17, segundo as versões

 

 

 

A Tradução Ecumênica da Bíblia divide Is 34,1-17 em três seções:

a)      o julgamento da terra – Is 34,1-4

b)      o grande massacre na terra de Edom – Is 34,5-15

c)      a propósito dos abutres – Is 34,16-17

 

A Bíblia Vozes trabalha com uma divisão em dois blocos:

a)      o julgamento das nações – Is 34,1-4

b)      punição de Edom – Is 34,5-17

 

A Bíblia de Jerusalém trata Is 34 como uma peça unitária: o julgamento de Edom. O mesmo faz a Almeida (consultada), sendo que o título que dá à peça é a indignação de Deus contra as nações. A Peregrino também trata toda peça como uma unidade: Julgamento. A Mensagem de Deus dá á seção o título: o dia de Javé sobre as nações, enquanto que a Pastoral prefere: Deus condena os opressores. A versão alemã Die Bibel trata todo o capítulo 34 com o título Gottes Strafgericht über Edom; a Revised Standard Version, com o título the day of the Lord.

 

 

Não há uniformidade, portanto, no tratamento estrutural que Is 34,1-17 recebe nas versões.

 

 

 

O contexto literário imediato de Is 34,1-17 nas versões

 

 

 

No texto bíblico, a TEB evidencia apenas as divisões estruturais maiores de Is 1-39; 40-55 e 56-66. Na Introdução, contudo, trabalha com uma composição Is 34-35, que ali é chamada de outros fragmentos apocalípticos. Essa composição Is 34-35 está evidenciada no próprio texto bíblico pela Pastoral: julgamento e salvação; pela Peregrino: escatologia do Segundo Isaías; e pela Bíblia Vozes: pequeno apocalipse.

 

 

A Bíblia de Jerusalém evidencia uma estrutura composta por Is 28-35, poemas a respeito de Israel e de Judá. A Mensagem de Deus vê um pequeno apocalipse de Isaías em Is 34-39, e a Revised Standard Version entrevê a estrutura em Is 28-35: Jerusalém.

 

 

A versão alemã Die Bibel transporta Is 34 para a seção de Is 13-23, resultando uma estrutura constituída por Is 13-23 und 34: das Gericht über die Völker.

 

 

A Almeida não trabalha com qualquer composição estrutural além das perícopes individualizadas.

 

 

Assim como a estrutura interna de Is 34 não é matéria consensual, tão pouco a sua posição estrutural no contexto literário imediato do livro de Isaías o é.

 

 

 

Estrutura interna e do contexto literário imediato de Is 34 na exegese

 

 

 

Croatto divide Is 1-39 em cinco partes: I. 1-12 – da ruptura da aliança ao novo êxodo; II. 13-23 – os oráculos sobre os povos estrangeiros; III. 24-27 – julgamento de Javé sobre o mundo; IV. 28-35 – julgamento e libertação. O passado e sua leitura presente (cf. a estrutura da Bíblia de Jerusalém); e V. 36-39 – atuação de Isaías no Reinado de Ezequias. Por sua vez, incrustado na seção julgamento e libertação, o capítulo 34 de Isaías formaria um “díptico de oposição” com Is 35: julgamento contra “Edom” – libertação dos exilados (Isaías I, p. 204). Esses dois capítulos “são duas unidades de per si independentes e auto-suficientes”, e não constituiriam literatura apocalíptica. De redação tardia, ambos pós-exílicos, Is 34 seria anterior a Is 35.

 

 

Is 34 seria constituído por duas seções internas: 1-15: contra Edom /terra/povos/ira, e 16-17: Javé reparte a terra. Da mesma forma como a TEB que entrevê em Is 34,16-17 uma seção independente, Croatto dá um tratamento diferenciado aos dois versos; mas o faz, considerando tratar-se de um desenvolvimento a partir do tema dos animais selvagens: “um intérprete retomou o motivo dos animais selvagens e ampliou o discurso em direção das esperanças pós-exílicas: Javé cumpre sua palavra, repartindo novamente a terra usurpada aos judeus” (Isaías I, p. 208). Isso significa que, para Croatto, Is 34 constitui uma peça unitária, cuja forma atual decorre de desenvolvimentos interpretativos sobre o oráculo original: “o grande oráculo contra os edomitas inclina-se para uma esperança de recuperação de terras perdidas. A força retórica do texto inclui a doação a Judá de todo o país de Edom. O que importa é a mensagem de libertação, não a literalidade do oráculo” (Isaías I, p. 208).

 

 

Alonso-Schökel caminhará em outra direção, a começar pelo fato de que, ao contrário de Croatto, assume que Is 34-35 consiste em “uma visão escatológica (que) toma Edom como valor emblemático” (Profetas I, p. 249), e isso mais acentuadamente para Is 34 do que para Is 35. Além disso, Alonso-Schökel considera que os capítulos 34-35 pertençam ao Segundo Isaías, tendo sido provavelmente atraídos para aí onde estão por força de Is 28-33 (Profetas I, p. 249). Assumiriam, assim, um “valor conclusivo, antes da inserção histórica 36- 39”.

 

 

Is 34 possuiria três partes: uma introdução (v. 1), uma primeira parte (v. 2-10), e uma segunda parte (11-17). A primeira parte estaria estruturada  sobre as quatro ocorrências da partícula yKi – em 2aa (“ira do Senhor”), 5a (“a sua espada”), 6ba (“matança do Senhor”) e 8a (“dia da vingança do Senhor”). Já a segunda parte seria construída a partir da correlação entre termos (Isaías I, p. 251).

 

 

Segundo Alonso-Schökel, “o poeta não tentou formular um quadro coerente no sentido realista, mas antes uma visão que recolhe dados contrastantes” (Isaías I, p. 252).

 

 

Mais recente é o pronunciamento de Hans-Winfried Jüngling. Entrevê-se uma estrutura que “enfoca o livro sob o aspecto do seu todo”[xxxviii]: 2-12; 13-23; 24-27; 28-35; 36-39; 40-66. Quanto à seção 28-35, “o trecho é estruturado pelo clamor do lamento fúnebre ‘ai’ (hōy; 28,1; 29,1.15; 30,1; 31,1; 33,1)”. Assim estaria estruturada tematicamente a seção:

28,1-29                                  “ai” sobre Edom

29,1-14                                   “ai” sobre Ariel

29,15-24                                “ai” sobre o povo

30,1-33                                  “ai” sobre os filhos

31,1-32,20                             “ai” sobre Jerusalém

33,1-35,10                              "ai" sobre o devastador

 

 

Da mesma forma como fizera já Croatto (Isaías I, p. 167s), Jüngling considera que, além dos “ais”, outro critério estruturante de Is 28-35 é a alternância entre palavras de condenação e de salvação (Introdução, p. 387). Somada a uma organização apoiada nos nomes “Jerusalém” e “Sião”, a alternância condenação – salvação resultaria na existência de quatro grandes blocos em Is 28-35: 28,(1-6).7-30,26; 30,27-31,9; 32-33; 34-35. Com o que retornamos ao díptico Is 34-35, ainda que sem maiores discernimentos.

 

 

 

Conclusão metodológica

 

 

 

Que conclusões genéricas podem-se reunir a partir dessas breves observações sobre a forma como a estrutura interna e externa de Is 34 é considera pelas versões e pela exegese? Primeiro, não existe unanimidade numa ou noutra direção. Segundo, apesar da falta de unanimidade, existem aproximações ao texto que se agarram a percepções semelhantes quanto à estrutura da peça. Terceiro, o que para algumas aproximações consiste em indício de quebra da estrutura, para outras aproximações pode constituir, pelo contrário, um elemento estruturante. Quarto, a delimitação adequada de uma perícope depende ao mesmo tempo de uma análise o mais próxima possível da narrativa (seus termos e suas possíveis relações dentro da narrativa), quanto de uma visada como que a dois passos de distância, tomando pé do contexto anterior e posterior àquele considerado a delimitação metodológica da perícope: “o todo” e “as pastes”, ou “o cenário” e “a imagem”, ou “o contexto” e “a narrativa” – a exegese deverá mover-se entre essas duas dimensões, criticamente.

 

 

 

 

Análise da estrutura literária de Is 34,1-17

 

 

 

 

Devo agora proceder a uma análise de Is 34. Começo apropriando-me da percepção de Alonso-Schökel da função estruturante da partícula yKi. Alonso-Schökel chama a atenção para a sua presença na “primeira parte” da peça narrativa (v. 2-10: 2aa (“ira do Senhor”), 5a (“a sua espada”), 6ba (“matança do Senhor”) e 8a (“dia da vingança do Senhor”). A rigor, a partícula yKi ocorre ainda em 16ba, com o que teríamos a seguinte estrutura:

 

(2aa) Porque Yahweh tem furor

(5a) Porque se empapou nos céus a minha espada

(6ba) Porque Yahweh tem um sacrifício em Bozra

(8a) Porque Yahweh tem um dia de vingança

(16ba) porque minha boca é que decreta

 

 

Dentre essas cinco ocorrências, três são construídas com a mesma estrutura sintática: partícula yKi + predicado atribuído a Yahweh + fórmula hw"hyl;, conforme se pode visualizar facilmente.

2aa

 hw"hyl; @c,q, yKi

6ba

 hw"hyl; xb;z< yKi

8a

 hw"hyl; ~q'n" ~Ay yKi

 

 

Por sua vez, as ocorrências da partícula yKi 5a e 16ba estão inseridas em estruturas sintáticas diferenciadas em relação a 2aa, 6ba e 8a.

(5a) Porque se empapou nos céus a minha espada

yBir>x; ~yIm;V'b; ht'W>rI-yKi

(16ba) porque minha boca é que decreta

hW"ci aWh ypi-yKi

 

 

Têm em comum as duas ocorrências: a) o fato de iniciarem com a partícula yKi; b) o fato de se referirem a grandezas ditas como pertencentes a Yahweh (“a minha espada” e “a minha boca”); c) o fato de que essa relação de pertença constrói-se com o sufixo da primeira pessoa do singular (“espada de mim” e “boca de mim”).

 

 

Essas observações não provam que as cinco partículas yKi de Is 34 constituam apoios da organização estrutural da narrativa, mas elas permitem, aí sim, que seja entrevista na narrativa uma organização estrutural:

A

(2aa)

Porque Yahweh tem furor

B

(5a)

Porque se empapou nos céus a minha espada

C

(6ba)

Porque Yahweh tem um sacrifício em Bozra

C’

(8a)

Porque Yahweh tem um dia de vingança

B’

(16ba)

Porque minha boca é que decreta

 

 

O tema do furor de Yahweh, que abre a estrutura com base nas partículas yKi, desdobra-se em duas dimensões em B e B’, e C e C’. A dimensão B e B’ encarregar-se-ia de desdobrar o modus operandi do “furor” de Yahweh – a espada e a palavra, talvez devendo significar que a espada é desembainhada pela palavra. A dimensão C e C’ teria a função de desdobrar a descrição e explicação do “furor”: trata-se do massacre de Edom, por conta de sua culpa diante de Yahweh (no caso da deportação de Jerusalém? Cf. Sl 137). Essa forma de estruturar a narrativa a partir das ocorrências da partícula yKi tem a vantagem de reunir numa mesma seção as duas ocorrência de 5a e 16ba, que destoam da série com a fórmula hw"hyl;. 5a e 16ba, respectivamente, abrem e fecham a grande seção a partir do v. 5, funcionando como uma espécie de moldura externa para as duas ocorrências de 6ba e 8a, que então funcionariam como moldura interna. Daí decorreria a “separação” de Is 34,1-4 (cf. a seção entrevista pela TEB), como também a maior percepção das versões e da exegese de que Is 34 constitua uma unidade.

 

 

Retorno a Croatto. Segundo sua opinião expressa em Profetas I , os v. 16-17 consistem numa releitura de Is 34,10-15, construindo-se como um “espelho” interpretativo em relação à narrativa original, mas com outro referencial. Croatto não está absolutamente seguro, e registra que pode ser que os v. 16-17 tenham mesmo ligação original com 10-15 (p. 207), mas ele mesmo tem outra opinião. O que o leva a assumi-la é o que ele descreve como “as referências ao ‘livro de Javé”, a sua boca e espírito, bem como o léxico e os conceitos do v. 17, (que) fazem pensar que o referente não são mais as aves de rapina do v. 15b nem os outros animais referidos desde o v. 11 e sim pessoas ou um povo” (p. 207). Croatto então argumenta que se pode, com efeito, constatar uma ruptura no nível dos sufixos: “o v. 17a abandona o feminino nos sufixos (...) para adotar o masculino, que persiste em 17b” (p. 207s). Os argumentos de Croatto levam-no a organizar a estrutura de Is 34,10b-17b da seguinte forma:

 

a       terra abandonada de geração em geração (10b)

b              os animais selvagens a possuirão (11a)

c                     Javé estenderá sobre ela o cordel do caos... (11b)

d                            não haverá reis nem príncipes e sim animais e espíritos (12-15)

e                                   BUSCAI NO LIVRO DE JAVÉ (16a)

d’                           ninguém faltará: repovoamento (16)

c’                   a terra é repartida entre eles com o cordel (17a)

b’             eles a possuirão para sempre (17b)

a’      habitarão nela de geração em geração (17b)

 

 

A proposta de Croatto trabalha com os mesmos elementos que Alonso-Schökel identificara como característicos da estrutura do que considerara a “segunda parte” de Is 34: os v. 10b-17. Com isso, temos a percepção de dois exegetas, em dois comentários, a respeito da força estrutural apreensível em Is 34,10-17, ainda que para Croatto essa força seja secundária, e derive, segundo o seu raciocínio, de um desenvolvimento interpretativo. Segundo Croatto, então, a perícope terminaria originalmente no v. 15, e os v. 16-17 teriam sido acrescentados posteriormente, “espelhando” a seção dos v. 10- 15, a partir daquelas três chaves temáticas: a) de geração em geração; b) a possuirão; e c) cordel, mas tendo mudado o referente narrativo de “animais/aves” para “pessoas/povo”. Nesse caso, então, deveremos admitir que a partícula yKi de 16ba talvez tenha sido também intencionalmente empregada, a fim de instalar o desenvolvimento narrativo dentro da estrutura composta pelas quatro ocorrências originais da partícula em Is 34,1-15.

 

 

Subsiste a uma crítica mais apurada a hipótese de Croatto? 16aa-16ba parece constituir uma unidade estrutural:

A         16aa       Estudai no livro de Yahweh, e lede,

B         16ab                cada uma dentre elas não faltará,

B’        16ag                a fêmea e a companheira dela não faltarão,

A’       16ba       porque minha boca é que decreta

 

 

Ficaria de fora 16bb, com a referência a espírito acompanhado do sufixo de 3pms, inédito até aqui, e todo o v. 17. Em 16aa-16ba, permanecem os sufixos de 3pfs usados desde o v. 11, como Croatto assinala, e o tema do “livro de Yahweh” constituiria paralelo ao mesmo referente da fórmula “a boca de mim”. A moldura interna B – B’ “resumiria” a descrição do “povo” que passaria a habitar a “cidade” depois de passado por ela o furor de Yahweh, enquanto que a moldura externa A – A’ constituiria o fundamento do oráculo: Yahweh o disse.

 

 

A partir desses indicativos, proponho um esquema para a perícope de Is 34,1-17. O esquema leva em conta as partículas yKi observadas por Alonso-Schökel, e acompanha a percepção da Tradução Ecumênica da Bíblia da independência estrutural de Is 34,1-4, sendo que acato a classificação de Alonso-Schökel do v. 1 como Introdução. Em termos metodológicos, o confronto entre Croatto e Alonso-Schökel quanto ao caráter da seção 10-17 permitiu-me optar por uma saída moderada, entrevendo uma seção em Is 34,5-17, com suas divisões internas. A organização estrutural seria a seguinte:

 

Introdução

v. 1                Convocação dos povos

A. Convocação dos povos (1a)

B. Convocação da terra (1b)

 

Primeira Parte

v. 2-4            Massacre dos povos como descriação

A.    Yahweh está furioso com os povos (2a):

B.     Yahweh consagra os povos à morte (2b-3aa), de tal modo que

C.    sobe o fedor deles, e o sangue deles inunda os montes (3ab-3b).

D.    Disso decorre dizer que os céus são decompostos, enrolados, e caem (4).

 

Segunda parte

v. 5-17           Destruição e despovoamento de Edom

A.     A espada de Yahweh desce sobre Edom (5a-6a);

B.    Yahweh tem um sacrifício em Bozra/Edom (6b-7)

C.    Yahweh tem um dia de vingança (8-15)

D.    A boca de Yahweh decreta (a devastação de Edom) (16-17)

 

 

Esquema temático-estrutural de Is 34,1-17

(1aa) Aproximai-vos, povos, para ouvir,

(1ab) e cidadãos, escutai!

(1ba) Que ouça a terra e a completude dela,

(1bb) a redondeza, e a totalidade dos rebentos dela.

Introdução

ü       Convocação dos agentes histórico-míticos

A.      Convocação dos povos (1a)

B.      Convocação da terra (1b)

(2aa) Porque Yahweh tem furor contra a totalidade dos povos, (2ab) e ira contra a totalidade dos exércitos deles:

 

(2b) (ele) consagrou-os ao extermínio, e entregou-os ao massacre, (3aa) e os mortos deles ficarão estendidos; (3ab) e (d)os cadáveres deles  subirá a inhaca deles, (3b) e inundam-se os montes pelo sangue deles.

 

(4aa) E serão decompostos a totalidade do exército dos céus, (4ab) e serão enrolados como um livro os céus, (4ba) e a totalidade do exército deles cairá, (4bb) como o cair de uma folha da videira, (4bg) e como a que cai da figueira.

Primeira Parte

ü       Massacre dos povos e descriação

q       Chave de Linguagem Histórico-teológica

A.      Yahweh está furioso com os povos (2a):

B.      Yahweh consagra os povos à morte (2b-3aa), de tal modo que

C.      sobe o fedor deles, e o sangue deles inunda os montes (3ab-3b).

q       Chave de Linguagem Mítico-descritiva

D.      Disso decorre dizer que os céus são decompostos, enrolados, e caem (4).

q        

(5a) Porque se empapou nos céus a minha espada,

 

(5ba) eis que sobre Edom (ela) descerá, (5bb) e sobre o povo da minha consagração, para julgamento.

 

(6aa) A espada de Yahweh (está) cheia de sangue, engordura-se de gordura, (6ab) de sangue de cordeiros e de bodes, (6ag) da gordura de rins de carneiros;

A espada de Yahweh se prepara nos céus

 

A espada de Yahweh escolhe as suas vítimas

 

A espada alcança as suas vítimas

 

(6ba) porque Yahweh tem um sacrifício em Bozra, (6bb) e uma grande matança na terra de Edom.

 

(7aa) E caem búfalos com eles, (7ab) e touros com bezerros; (7ba) e empapa-se a terra deles por causa do sangue, (7bb) e o pó deles, por causa da gordura, está engordurado.

A matança é liturgia sacrifical

 

(8a) Porque Yahweh tem um dia de vingança, (8b) um ano de retribuição, pela causa de Sião. Yahweh tem seu dia de vingança contra Edom
(9aa) E serão convertidos os ribeiros dela em pez, (9ab) e o pó dela, em enxofre, (9ba) e se tornará a terra dela (9bb) em pez que queima. A terra de Edom será destruída pelo fogo
(10aa) Noite e dia não apagará, (10ab) para sempre subirá a fumaça dela; (10ba) de geração em geração estará devastada: (10bba) pelos séculos dos séculos não haverá quem passe nela.

A destruição de Edom será definitiva

(11aa) Assenhorar-se-ão dela mocho e ouriço, (11ab) e coruja e corvo viverão nela. Os novos senhores de Edom assumem seu posto
(11b) Pois (ele) estendeu sobre ela o cordel do deserto e os prumos da desolação; Descriação – chave de linguagem mítico-descritiva
(12a) os nobres dela, então não haverá lá realeza que (eles) proclamem, (12b) e a totalidade dos príncipes dela serão ninguém. Os antigos senhores de Edom são existem mais
(13aa) E (ela) verá crescer (n)os palácios dela espinheiros, (13ab) cardo e urtiga (haverá) nas fortalezas dela;

Os palácios de Edom tornam-se ruínas

(13ba) e servirá de covil de chacais, (13bb) pasto para as filhas da avestruz. (14aa) E se encontrarão gatos com hienas, Suas habitantes passam a ser animais selvagens...
(14ab) e um sátiro ao companheiro dele gritará; (14ba) sim, lá descansará Lîlît, (14bb) e encontrará para ela descanso... ... espíritos do deserto...

(15aa) Lá se aninha a cobra, (15ab) e põe ovos, e incuba os ovos, e choca na sombra dela; (15b) sim, lá se reúnem os abutres, (a) fêmea (e) o companheiro dela.

...e mais animais selvagens.

 

(16aa) Estudai no livro de Yahweh, e lede, (16ab) cada uma dentre elas não faltará, (16ag) a fêmea e a companheira dela não faltarão, (16ba) porque minha boca é que decreta;

 

(16bb) e o espírito dele é que reúne elas,(17aa) e ele (mesmo) lançou para elas sorte,(17ab) e a mão dele distribuiu ela para eles com o cordel, (17ba) para sempre (eles) se assenhorearão dela, (17bb) por geração e geração viverão nela.

Yahweh já tomou sua decisão – disse-o e o registrou

 

 

A sorte já foi lançada, e a terra, dividida

Segunda Parte

A.      A espada de Yahweh desce sobre Edom (5a-6a);

 

 

 

 

 

 

 

B.      Yahweh tem um sacrifício em Bozra/Edom (6b-7)

 

 

 

 

 

 

C.      Yahweh tem um dia de vingança (8-15)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

D.      A boca de Yahweh decreta (a devastação de Edom) (16-17)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Chave de Linguagem mítico-descritiva em Is 34,1-17

 

 

 

 

Estamos agora prontos para analisar as duas partes da narrativa em que se pode constatar o emprego da chave de linguagem mítico-descritiva característica de algumas narrativas anticotestamentárias dedicadas à descrição histórico-profética de cercos militares a cidades (cf. Jr 46,1-12; 47,2-3a; 51,40-43; Ez 26,19-21). Nesse tipo de narrativa, o cerco é descrito sempre em duas dimensões – uma dimensão histórico-descritiva, e uma dimensão mítico-descritiva. A dimensão histórico-descritiva compõe-se sob a dupla descrição da destruição militar da cidade, e do massacre de seus habitantes (ou de sua deportação), referido em termos da desabitação ou do despovoamento da cidade. Por sua vez, a dimensão mítico-descritiva serve-se da metáfora das “águas” para “significar” o acontecimento histórico-militar. O cerco da cidade é descrito como um “dilúvio”: tühôm submerge a cidade, as águas a cobrem, o mar a traga, o Nilo a engolfa (RIBEIRO, 2004).

 

 

Is 34,1-17 se serve por duas vezes da chave de linguagem mítico-descritiva para representar o significado da destruição militar: na primeira parte, com a imagem dos céus sendo enrolados, como um “rolo”; na segunda parte, mediante a utilização dos termos clássicos de Gn 1,2, que descrevem o estado de desertificação (desabitação) e de destruição (devastação) pressupostos no cerco e na invasão de Jerusalém por Nabucodonozor[i].

 

 

 

Os céus são enrolados como um rolo

 

 

 

O primeiro exemplo de chave de linguagem mítico-descritiva em Is 34,1-17 está na primeira parte da seção (v. 2-4). A seção começa afirmando que Yahweh tem furor contra os povos (2a), e a tal ponto de os dedicar ao extermínio (anátema, interdito), entregando-os a um massacre de tal ordem que não há quem enterre os mortos, que se espalham por todos os lados (2b-3aa) de um jeito tal que o mau cheiro infesta tudo, e o sangue inunda os montes (3ab-3b). O tipo de linguagem com que se disse tudo isso é compreensivelmente metafórico, porque já prepara a grande metáfora dos rituais de sacrifício dos v. 5-7; mas ela tem ainda por referente os “mortos” pela guerra, que são nomeados na narrativa. Talvez se pudesse reclamar da ausência de menção à destruição da “cidade” em si, e com razão, ao que talvez se poderia responder com a afirmação de que inclusive a “cena” da destruição de Edom foi transposta da “cidade” cercada (Bozra) para um “alto” onde se realiza um sacrifício de proporções cósmicas.

 

 

Disso se pode concluir duas coisas: a primeira, é que a leitura mítico-metafórica está sendo construída por representantes do templo, e, eu diria, mesmo por sacerdotes/escribas do templo. A descrição do sangue e da gordura na espada, o sangue e a gordura no chão, de certa forma transportam o compositor da narrativa como que por assim dizer para o seu próprio ambiente de “trabalho”, assim como pode estar por detrás de certos detalhes “quentes” da descrição da hierofania de Is 6,1-7 os traços da atividade profissional do grupamento humano possivelmente responsável pelo culto de Nehushtan. A construção do templo de Jerusalém é a grande derrota simbólica de Edom, se quisermos nos manter sob a ótica do sentimento descrito no Sl 137, e se considerarmos que Is 34,1-17 tem particular interesse pelo sangue sacrifical...

 

 

A segunda coisa que se pode dizer é que, com o v. 4, aí sim o referente sofre uma transmutação: dos povos que se descreviam, da sua carnificina, logo, de sua descriação, passa-se a falar dos “céus”, e porque se passa a falar dos “céus” é que se pode considerar que nos v. 2-3 se fala em termos de descriação, nos termos das descrições histórico-míticas de cerco militar.

 

 

Chama a atenção o fato de que a descriação não seja descrita como um grande dilúvio, uma invasão tumultuosa das águas de criação – destruição, mas que se fale diretamente dos céus como uma grandeza que se pode “enrolar”. Aqui eu quero crer poder encontrar o movimento contrário descrito em Pr 30,4a: “quem subiu ‘os’ céus?”, isto é, “quem estendeu os céus?”. Toma-se os céus a partir de duas metáforas – os céus descritos como um “rolo” (cf. o livro de Yahweh em 16aa), e como folhas de videira e de figueira que secam e caem. Penso que essa forma mais concreta, mais teológica, mais ontológica, menos histórico-traditiva, de um lado (o conceito histórico-traditivo antico-próximo-oriental dos cercos militares descritos como “dilúvio”), e mais “literária” de outro (cf. a referência aos termos de Gn 1,2 em Is 34,11b),evidencie dependência literária do complexo templário em Israel. Arrisco dizer que Is 34,2-4 depende muito diretamente da teologia da criação desenvolvida pelo templo de Jerusalém a partir da redação da cosmogonia de Gn 1,1-2,4a, aqui particularmente – e não se trata do ponto culminante dessa relação entre narrativa e templo em Is 34 – a descrição dos céus como um rolo.

 

 

Dizer, contudo, que os céus serão enrolados, e que cairão como a folha da videira seca e da figueira caduca é dizer, ainda, que o destino de Edom (=dos povos) é um destino “significativo” – ainda estamos diante de ambientes mágico-simpáticos, diante de desejos religiosos que transbordam em descrições plásticas, magia disfarçada em narrativa... se não se trata já de história teologicamente “profetizada”.

 

 

 

Instrumentos de construção para descriar Edom

 

 

 

O segundo caso de chave de linguagem mítico-descritiva encontra-se na seção C da segunda parte de Is 34,1-17: v. 8- 15. A seção é inaugurada pela partícula yKi, e o verso de entrada à seção descreve os próximos elementos da narrativa como a descrição de “um dia de vingança”. O contexto narrativo leva à identificação da Edom da narrativa com a Edom mencionada, por exemplo, no Sl 137, que teria se beneficiado da invasão de Jerusalém por Nabucodonozor no início do século VI (CROATTO, p. 207). Apesar da declaração de Croatto de que o que “expressam os textos comentados é o clamor do oprimido que anseia pela libertação” (p. 207), não estou convencido de que se trate dessa questão. Pelo menos não encontro nenhum indicativo na narrativa que leve a tal consideração, salvo uma consideração de entrada propensa à teologia latino-americana. Em si mesma, parece que a narrativa apenas menciona a destruição de Edom (v. 9), o desejo teológico de que seja uma destruição definitiva (v. 10), situação em que os senhores de Edom deixarão de ser nobres e príncipes (v. 12), e passarão a ser animais selvagens arredios (v. 11a), além de que os seus novos habitantes serão aves e animais silvestres (v. 13.15), bem como os trasgos do desertos (v. 14). Não deixa mesmo de soar como uma maldição, que me faz lembrar de Balaão...

 

 

Seja como for, a destruição da cidade em si (v. 9-10) e a sua desertificação, desabitação, desocupação populacional (v. 11b.12-15) remetem à dupla temática histórico-descritiva das narrativas de cerco – destruição da cidade e sua “desertificação”, isto é, o desaparecimento de sua população, seja por morte durante o cerco, seja por desterro: destrói-se a cidade, desaparecem seus habitantes. O fato de que os v. 8-15 são construídos também sob essa temática parece indicar que se trata, ainda, do ambiente traditivo pertinente às narrativas de cerco militar, para o que apontaria ainda, a fortiori, a ruptura de linguagem no v. 11b, onde se descreve os mesmos eventos de 8-11a.12-15, que foram elaborados em chave de linguagem histórico-descritiva (teológico-literária), agora em chave de linguagem mítico-descritiva.

 

 

Is 34,11b usa a metáfora da construção para referir-se à descriação de Edom: “os instrumentos para construir, que são o prumo e o nível (...) servem para destruir” (ALONSO-SCHÖKEL, Profetas I, p. 252). Entretanto, mais do que os instrumentos que são descritos, interessa-me destacar os adjuntos que os acompanham: Pois (ele) estendeu sobre ela o cordel do deserto e os prumos da desolação”. “Deserto” (Whto) e “desolação”  (Whbo) são, nessa mesma ordem, os dois termos utilizados por Gn 1,2 para descrever a “terra”, então um deserto e uma desolação, no momento em que “os céus e a terra” começavam a ser criados por Elohim.

 

 

Não se trata de uma afirmação “nova”. Pode-se ler algo muito próximo mesmo em Alonso-Schökel, quando afirma que a narrativa alude à “situação caótica antes da criação (Gn 1,1)”, o que pareceria “sugerir um retorno à criação” (p. 251). Ocorre, contudo, que o lugar comum de tal tipo de afirmação é explicar-se a passagem à luz de Gn 1,1-2, isto é, afirmar-se que o narrador pretende introduzir na narrativa que compõe o sentido de “caos” hodiernamente amiúde pressuposto como presente no conceito teológico da narrativa de Gênesis. Tomo a liberdade de discordar dessa opinião.

 

 

Considero que Gn 1,1-3, logo, o v. 2, e principalmente ele, é que tenham sido compostos à luz da tradição histórico-descritiva e mítico-descritiva de narrativas de cercos militares, porque Gn 1,2 descreve não uma situação caótica utópica de antes da criação, mas a situação tópica de destruição e desocupação populacional de Jerusalém sob o cerco de Nabucodonozor. Gn 1,1-2,4a é uma cosmogonia que tem atrás de si a tradição histórico-mítico-descritiva de narrativas de cerco militar. Gn 1,2 descreve a resultante do cerco de Jerusalém em 587 a .C., naturalmente não uma descrição fotográfica, mas político-partidária – em todo caso, uma descrição histórico-mítica de um evento histórico, real e verdadeiro. Ocorre, contudo, não se tratar Gn 1,1-2,4a de uma narrativa histórico-mítico-descritiva de cerco militar, mas de uma cosmogonia redigida a partir da tradição antico-próximo-oriental de elaboração histórico-mítica de narrativas de cercos militares. É (somente) porque se pode pensar a destruição de uma cidade em termos histórico-míticos-descritivos propriamente característicos das narrativas de cercos militares é que se pôde pensar o seu vetor em sentido contrário – não descriação, mas criação. Por trás da narrativa histórico-mítica, litúrgico-teológica e político-religiosa da reconstrução de Jerusalém – a cosmogonia de Gn 1,1-2,4a – está a tradição antico-próximo-oriental de descrição narrativa de cercos militares em forma histórico-mítico-descritiva.

 

 

Não teria dificuldade de pressupor que narrativas como as de Jr 46,1-12; 47,2-3a; 51,40-43 e Ez 26,19-21 estejam na base histórico-traditiva de Gn 1,2, e que, por sua vez, constituindo “escola” teológica privilegiada por conta de sua pertença à cosmogonia do templo de Jerusalém, a própria tradição de Gn 1,2 termine por desdobrar-se em novas formas e fórmulas histórico-míticas e teológico-formais, como seria o caso de dizer de Is 34,11b que, a seu tempo, depende tanto semanticamente, quanto histórico-traditivamente de Gn 1,2. Mas se ressalte: dependência semântica no nível da tradição antico-próximo-oriental de descrição histórico-mítica de cercos militares, e não de um aventado conceito de “caos” utópico-ontológico e teológico-especulativo, porque esse somente muito mais tarde haverá de se acomodar à estrutura narrativa e interpretativa de Gn 1,2.

 

 

De um jeito ou de outro, o que Is 34,11b tem a dizer é que se espera que a destruição de Edom seja definitiva – assim como fora construída, a cidade será, agora, destruída – deserto e desolação hão de assumir o controle da região, e os novos senhores e moradores têm pressa de assumir seus postos...

 

 

 

 

Conclusão

 

 

 

 

Is 34,1-17 constitui uma narrativa que, na sua forma atual, pressupõe unidade. Pode ter sido originada a partir da junção de uma narrativa genérica sobre os povos (v. 2-4) e uma narrativa específica sobre Edom (v. 5-17), se bem que não esteja absolutamente descartada a composição original desde o v. 1 até o v. 17. Quer dizer, o v. 17 em si mesmo parece denunciar um desdobramento interpretativo, de modo que os v. 16-17 são alvo de alguma controvérsia.

 

 

A estrutura de Is 34 pode ser desenhada a partir das cinco ocorrências da partícula hebraica yKi, que, por sua vez, redundariam na divisão da narrativa em três partes – uma introdução (v. 1), uma primeira parte, consistindo daqueles versos de caráter aparentemente genérico (v. 2-4), e uma segunda parte, desdobramento tópico da primeira parte, então, utópica (v. 5-17).

 

 

Em ambas as partes encontram-se dois casos de descrição da resultante de cercos militares a cidades em chave de linguagem mítico-descritiva. A chave de linguagem mítico-descritiva consiste num recurso histórico-traditivo dependente do conjunto cultural antico-próximo-oriental, e consiste na descrição em dupla perspectiva dos cercos militares – numa perspectiva, descreve-se o cerco militar em si, desdobrando a narrativa na descrição da catástrofe física proporcionada à cidade, bem como ao destino trágico dos habitantes; na outra perspectiva, descreve-se o mesmo evento através de metáforas relacionadas às convulsões aquáticas cataclismáticas: dilúvios, enchentes, cheias, através da utilização de termos como tühôm, águas, mar, rio. À primeira perspectiva chamo histórico-descritiva; à segunda, mítico-descritiva; ambas constituem chave de linguagem de acesso à narrativas de cercos militares na Bíblia Hebraica.

 

 

O primeiro uso de chave de linguagem mítico-histórica em Is 34 encontra-se no v. 4. Descreve-se o massacre dos povos como o enrolar-se dos céus, ou o cair deles como o de uma folha de videira ou de figueira, folha seca, solta e caída. A descrição histórico-litúrgico-teológica dos v. 2-3 é reforçada significativamente pela descrição mítica da matança dos povos. “Reforçada significativamente” tem o objetivo de dizer que esse tipo de narrativa pressupõe certo nível de simpatia, logo, de magia: se o evento não é descrito como simpático aos fundamentos da existência – e o mito é especialmente o universo dos fundamentos, o que não é miticamente descrito (e descritível), na verdade não tem fundamento, logo, existência; logo, descrever a descriação requer a mesma expressão fundante que a descriação da criação – então o evento carece daquilo de que sua linguagem carece. Não estamos diante de outra lógica em relação à lógica “moderna”, mas de outra linguagem, de outra visão de mundo.

 

 

Esse primeiro uso trai já uma tradição concreta de teologia da criação. Há já um grau especulativo – teológico-literário (cf. Pr 30,4, Jr 10,12) – por trás da reflexão teológica que está na base da metáfora mítico-descritiva de Is 34,4. Estamos evidentemente em algum momento necessariamente posterior a Gn 1,1-2,4a.

 

 

O que diria ainda mais do segundo caso de uso de chave de linguagem mítico-descritiva em Is 34: o v. 11b. Trata-se da descrição da descriação mítica de Edom através do recurso aos dois “substantivos”, não “adjetivos” de Gn 1,2 – “deserto” e “desolação”. Estou inclinado a tomar essa coincidência terminológica como indício de dependência literária – Is 34,11b depende literariamente de Gn 1,2, assim como, já afirmei antes, Gn 1,2 depende literariamente de Jr 4,23-25 (cf. a série Vento Tempestuoso). Como Gn 1,2 depende da tradição histórico-mítico-descritiva das narrativas de cercos militares de cidades no contexto antico-próximo-oriental, é compreensível que a narrativa mítico-descritiva da destruição simpática de Edom tenha recorrido aos dois termos de máxima memória jerosolimitana – a destruição de sua própria cidade, Jerusalém. E se foram efetivamente logo os edomitas que se teriam deliciado com a tragédia (cf. Sl 137), nada “melhor” do que lhes servir o mesmo prato – frio... Ah, sim, o dia da vingança de Yahweh (Is 34,8a), que se confunde mesmo com a “causa de Sião” (v. 8b), confunde-se porque é mesmo o desejo incontido de vingança de Jerusalém que dá até a última gota ao vizinho odiado o veneno ígneo que foi obrigada a beber, e que bebeu, e que agora aquele que se riu beberá.

 

 

Deve ter sido um momento de amarga memória essa em que o compositor de Is 34,11b reportou-se até algum momento de 587/6 e contemplou o deserto e a desolação que, então, cantavam cerimonialmente nas litanias do templo, que usava a cosmogonia de Jerusalém. Mas, se existiu o desconforto, foi apenas por um breve momento, porque quando se recordou de que a narrativa destinava-se simpaticamente a Edom, recordou-se de que tudo estava escrito:

(16aa) Estudai no livro de Yahweh, e lede

(...)

(16ba) porque minha boca é que decreta.

 

 

 

 

Referências Bibliográficas

 

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ALONSO-SCHÖKEL, Luís e SICRE DIAZ, J. L. Profetas I – Isaías e Jeremias. Trad. de Anacleto Alvarez. São Paulo: Paulinas, 1988. 679 p.

 

CROATTO, J. S. Isaías I - 1-39. O profeta da justiça e da fidelidade. Trad. J. A. Clasen. São Paulo: IM/Vozes/Sinodal, 1989. 247 p.

 

KIRST, N.; KILPP, N.; SCHWANTES, M.; RAYMANN, A., ZIMMER, R. Dicionário Hebraico Português e Aramaico Português. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 1989. 305 p.

 

RIBEIRO, Osvaldo Luiz. Vento Tempestuoso – um ensaio sobre a tradução e a interpretação de Gn 1,2 à luz de Jr 4. Fragmentos de Cultura, Goiânia, n. 4, p. 573-598, 2002.

 

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RIBEIRO, Osvaldo Luiz. “A Terra” e “as Águas” Originais. História e linguagem mítica em Gn 1,1-3. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 80, p. 40-48, 2003.

 

RIBEIRO, Osvaldo Luiz. Tehôm” e “águas”. Paralelos histórico-traditivos entre Gn 1,1-3 e Ez 26,19-21. Revista Teológica Londrinense, Londrina, 2004 (em fase de publicação).

 

ZENGER, Erich e outros. Introdução ao Antigo Testamento. Trad. de Werner Fuchs. São Paulo: Loyola, 2003. 557 p.

 

 

 

 

 

NOTAS

 

* O autor é Bacharel e Mestre em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil; é Doutorando em Teologia pela mesma instituição (2002-2004), sob a orientação do Dr. Haroldo Reimer, e pela PUC-Rio (2004-2007), sob a orientação do Dr. Emanuel Bouzon, e nenhum dos dois doutores tem qualquer responsabilidade por qualquer impropriedade de qualquer ordem que se aponte no presente ensaio, ainda que alguma virtude que se possa eventualmente também encontrar aqui deverá, nesse caso, ser creditada ao esforço de ambos em pôr as coisas certas nos lugares certos – no que, então, teriam logrado êxito, malgrado o aluno. Que responde pela Coordenação de Teologia da primeira Casa citada. Aos dois mestres, meu muito obrigado (e eventuais desculpas...).

 

[i][1] O primeiro artigo saiu em 2002, publicado na Fragmentos de Cultura; em 2003, saíram o segundo, na Revista Teológica Londrinense, o terceiro,  na Via Teológica, e o quarto, na Estudos Bíblicos; em 2004, está previsto o quinto, já aprovado para a Revista Teológica Londrinense, n. 8 (segundo semestre), e o presente, que se encaminha para apreciação da Via Teológica. Para detalhes, cf. as Referências Bibliográficas.

 

[i][39] O leitor é remetido à série de artigos do autor publicados entre 2002 e 2003, e constantes das Referências Bibliográficas.

 

[ii][2] O vocábulo expressa sentido de “a gente”, “as pessoas”, sendo de gênero masculino.

 

[iii][3] Com Alonso-Schökel, p. 587.

 

[iv][4] Com Alonso-Schökel, p. 246.

 

[v][5] Com Alonso-Schökel, p. 225.

 

[vi][6] O verbo é de 3pfs, logo, rege vaoB. (inhaca = fedor)

 

[vii][7] Sigo a tradução do verbo apresentada pela BJ: “os montes se inundam com o seu sangue”. Em Alonso-Schökel, Peregrino e Profetas I, p. 250, traduz-se: “os montes jorram sangue, e os vales se fendem”, que nem lá nem cá, faz-se acompanhar de justificativa. A TEB traduz: “e das montanhas escorrerá seu sangue”, desconsiderando a preposição que rege “o sangue deles”.

 

[viii][8] “Por, por causa de”, com Alonso-Schökel, p. 382.

 

[ix][9] Segundo a nota u da TEB, 4aa falta no texto grego, e Qumran traz, em seu lugar: “e os vales se racharão e todo o exército dos céus se decomporá”.

 

[x][10] Com Alonso-Schökel, p. 400.

 

[xi][11] Com Kirst e outros, p. 149.

 

[xii][12] Com Alonso-Schökel, p. 608.

 

[xiii][13] Alonso-Schökel, p. 246, e Peregrino, “povo proscrito”; a Almeida consultada, “anátema”.

 

[xiv][14] Com Alonso-Schökel, p. 297.

 

[xv][15] Segundo Alonso-Schökel, “ave de identificação duvidosa: coruja, mocho, gralha Lv 11,18 Dt 14,17 Is 34,11 Sf 2,14 Sl 102,7” (p. 568).

 

[xvi][16] Segundo Alonso-Schökel, p. 585: “ouriço, porco-espinho; coruja? Is 14,23 34,11 Sf 2,14”.

 

[xvii][17] Com Alonso-Schökel, p. 281: “coruja Lv 11,17 Dt 14,16 Is 34,11”.

 

[xviii][18] Com Alonso-Schökel, p. 516.

 

[xix][19] Cf. Alonso-Schökel, p. 24: e) instrumento de construção. Prumo Is 34,11 + wq; nível, cordel”.

 

[xx][20] Verso aparentemente difícil. Profetas I, p. 250s, e Peregrino, ambos de Alonso-Schökel, desconsideram a primeira palavra do verso (acompanhando a suspeita do aparato crítico da BHS), e vocalizam ~v' como ~ve: “e não resta nome para chamar seu reino, seus chefes voltam ao nada”. A Almeida consultada traduz: “eles chamarão ao reino os seus nobres, mas nenhum haverá”. A Bíblia de Jerusalém parece resolver a dificuldade: “já não haverá nobres que proclamem a realeza; os seus príncipes desaparecerão”.

 

[xxi][21] Cf. Alonso-Schökel, p. 377: a) como substantivo: coroa, poder real ou seu exercício”, e a BJ.

 

[xxii][22] Com Alonso-Schökel, p. 588, e a BJ.

 

[xxiii][23] Com Alonso-Schökel, p. 424.

 

[xxiv][24] Com Alonso-Schökel, p. 705.

 

[xxv][25] Com Alonso-Schökel, p. 240.

 

[xxvi][26] Com Alonso-Schökel, p. 284.

 

[xxvii][27] Cf. Alonso-Schökel, p. 560: “animal selvagem, talvez gato montês ou hienas”.

 

[xxviii][28] Cf. Alonso-Schökel, p. 646: “sátiro, divindade menor, silvestre ou agreste Lv 17,7 Is 13,21 34,14”.

 

xxix][29] Com Alonso-Schökel, p. 606.

 

[xxx][30] Com Alonso-Schökel, p. 585, que não está seguro disso. Peregrino: serpente.

 

[xxxi][31] Com Alonso-Schökel, p. 379, e BJ.

 

[xxxii][32] Com Alonso-Schökel, p. 113.

 

[xxxiii][33] Com Alonso-Schökel, p. 151.

 

[xxxiv][34] Com Alonso-Schökel, p. 588.

 

[xxxv][35] Com Alonso-Schökel, p. 442.

 

[xxxvi][36] Com Alonso-Schökel, p. 136.

 

[xxxvii][37] Uma aproximação à literatura pode ser obtida no volume de Erich Zenger, Introdução ao Antigo Testamento.

 

[xxxviii][38] Cf. ZENGER e outros, Introdução ao Antigo Testamento, p. 382. Para Isaías, p. 380-398