Contra a tortura

– curtíssimo tratado noturno e pretensioso de exegese

Osvaldo Luiz Ribeiro

06/07/2007

madrugada

minto, já é aurora

 

Não, não podemos, não, compreender a pedra. Podemos, é verdade, pô-la ao microscópio, observar-lhe as configurações moleculares, representá-la em modelo num Mac de alta performance. Podemos juntar um monte delas, colar umas às outras, com cimento, e construir coisas com elas. Podemos jogá-las contra a superfície de um lago. Podemos ignorá-la, e ela a nós. Mas – compreender a pedra? Não, não é o caso.

 

Talvez, se a pedra falasse – e falasse a nossa língua. Talvez ela nos dissesse quem é. A linguagem tornar-nos-ia, nós e a pedra, irmãos. Não, mais do que irmãos, íntimos. Falar – e falar a mesma língua – é uma intimidade absurda. Tão absurda, que há quem se cale, quem não fale de si, que falar de si é dar-se, desnudar-se, decompor-se.

 

Não seria nem necessário que nós e a pedra falássemos o mesmo vernáculo, assim como não há grandes problemas no fato de que Edgar Morin fale francês. Se Morin e eu quisermos nos comunicar, ou um aprende a língua do outro, ou nos viramos com um tradutor, como se faz nos congressos científicos, nas reuniões de cúpula da ONU, nas praças do turismo internacional. Que a pedra falasse mandarim, eu aprenderia, e pronto, perguntaria imediatamente a ela quem ela é. E ela me contaria, se não me julgasse, pela pergunta, intrometido demais.

 

A despeito de toda a confusão da linguagem, os erros de interpretação, os mal-entendidos, os enganos propositais, os inadvertidos, a linguagem é um fenômeno que nos garante pontes intersubjetivas, de mão dupla, e de modo tão eficiente, que, com ela, constrói-se um mundo, construíram-se mundos, e mundos continuarão a ser construídos por meio dela - e nela.

 

Dentro da linguagem, e nos limites dela, nós podemos nos comunicar, dizer de nós, dizer do mundo, dizer dos outros. Claro que tudo quanto vamos dizer é dito do modo como pensamos isso tudo. Não se trata de eu dizer quem sou, realmente, mas de quem eu me vejo sendo. O mesmo do mundo. Não que eu saiba o que é o mundo, mas que eu tenho uma idéia do mundo. Quando eu falo do mundo, é da minha idéia do mundo que eu falo. Também dos outros, da Bel, de todos – é sempre do que temos como representação dessa pessoa, querida e morna, e das outras, que passam, que vão e que vêm, que falamos. As coisas estão dentro da nossa linguagem – fora dela também, claro, mas o que falamos, o que trocamos, o que entregamos nas mãos de quem pára para nos escutar, são as coisas-linguagem, representações que construímos em nosso mundo hermenêutico interior, cuja interface funciona perfeitamente bem, obrigado, e tanto que vamos chegando a Marte daqui a pouco. Sabemos fazer bons mapas do real.

 

Mas saber o que ele é, isso é outra coisa, porque ele não fala. Nós, sim, falamos. E escrevemos. Mas, pensemos bem, escrever é falar. Quando escrevemos, estamos falando. A escrita queria ser fala, mas ficou presa na folha. Nosso grito está na folha escrita. Nosso sonho está na folha. Nossa dor, nossa alegria, nosso sim, nosso não, nossa bondade, nossa maldade. Escrever é falar.

 

E ler? Ler deveria ser ouvir. Cada vez que tomássemos uma folha escrita, deveríamos assumir a postura de quem pára e ouve. Vai, fala. E ouvir. Deveria ser como se estivéssemos ali, ouvindo a fala, que agora é escrita. Felizmente é escrita, porque, fosse fala, estaria perdida na noite dos tempos. Felizes ou desgraçados aqueles que ouviram aquelas palavras ditas, quando ditas, porque, depois de ditas, ou a memória as rumina até o pó, ou o vento as arrasta para as solidões sombrias. Mas agora a fala foi escrita – e, apesar disso, ainda é fala. Sim, é fala, se eu me ponho na posição de parar e escutar.

 

Não é um jogo fácil. Não sei quem está falando. Para quem. Para que. Por que. Quando. Onde. De que. Como. Tudo isso me falta. Passo ao largo? Pode ser. Vou-me, como deixo a pedra. Mas e se não quero?

 

Que eu não torture. Que eu não me sirva de instrumentos dolorosos, porque quero que a fala me seja contemporânea. Ah, eu quero que a fala me diga o que eu quero ouvir, o que eu quero que ela diga, como o espelho que deve sempre dizer-me como sou belo, e vai dizer, porque, afinal, sou eu quem falo. Torturar um texto é, pois, fazê-lo falar. Falei texto? Não, minto – texto, não, fala. Ali está a fala histórica de uma pessoa, pessoa de carne e osso, carne e osso comprometidos com uma fala, que está ali. Quem falava, falava para ser ouvido – para o bem ou para o mal, falava para ser ouvido. E eu devo ouvir. Se quero. Porque quero.

 

Torturar, é, pois, frustrar a vontade da fala. Torturar é desumanizar a fala consignada na folha, e convertê-la em pedra muda, que eu mesmo faço falar, forço a falar, para construir coisas. Construo retóricas com as palavras-pedras-mudas dos textos que torturo, enquanto elas gritam um grito de tragédia. Construo legitimações para meu mundo, enquanto elas queriam mostrar outro mundo. Construo espetáculos estéticos de gozo extático, como quem se vê refletido num rubi de anjos. Construo noologias políticas, palavras de ordem, certezas cortadas a frio na pedra-muda. É tortura, sim, porque, do outro lado, dói a fala, definha o fantasma da fala, defunta-se a pessoa da fala, duas vezes morta, e, na segunda, sob tortura.

 

Se eu passo pelas palavras e as trato como pedras, e as deixo onde estão, porque são pedras, menos mal. Mas se eu as tomo por pedras-mudas, é tortura o que faço, quando forço-as a dizer meu dito, a falar minha fala. Fala, fala. No fundo, a tortura é, sempre, em toda circunstância, um gesto de poder – de mais poder. Tortura-se porque se pode. Não se tortura porque se quer, porque, se se quer torturar, mas não se pode, não se tortura. Tortura-se, porque se pode – e claro, quando se quer e se pode.

 

Imobiliza-se o torturado. Ele deve permanecer lúcido, contudo, para que o que eu arranque dele, eu possa dizer que é dele, ainda que eu tenha arrancado dele, da carne dele, que sem que eu arrancasse dele, da carne dele, ele não me daria. É verdade que discute-se politicamente as condições de necessidade da tortura, quando é que o sofrimento imposto consciente e estrategicamente a um resulta em benefício para dois, três ou dez mil. Também é verdade que se pode viver da tortura das palavras – e a literatura, ah, dor, é tanto tortura quanto roubo, que se tortura a fala falada, e se rouba a palavra escrita. A estética é puro egoísmo existencial – e biológico. Também essa dor temos a nos bicar eternamente o fígado.

 

Mas a questão é torturar as palavras para além da estética, e, então, cometer dois crimes de uma só vez, torturar, matar e roubar – para construir nossa certeza. E claro – construir nossa certeza, sempre, contra a incerteza em que transformo a certeza do outro. Maldita tortura essa, maldita, mil vezes maldita.

 

Daí que me resta, entre passar ao largo do Paço da Indiferença – como, se as palavras me caem nas mãos? – e torturar a boca antiga que fala palavras vindas de longe, parar, sentar e ouvir. Ah, eu não tenho tempo? Meu tempo faço-o eu, roubando-o de coisas menos importantes para mim. Solução impraticável, se ouvir as palavras das almas mortas já não me move e comove. Tempo eu tenho. Todo ele.

 

E ouvir quer dizer o quê? Bem, para além de qualquer questão filosófica, ouvir é ouvir. Ouvir é deixar a pessoa falar, e prestar atenção ao que ela fala, somando palavra falada mais palavra falada, e cada palavra com o conjunto de todas elas, observando os olhos, o movimento do rosto e do corpo, as expressões, a cor da pele, a altura e a força com que se expressa a voz que fala. Sim, tudo isso está perdido na noite eterna do passado, mas ouvir é isso. Ou não é ouvir.

 

Tendo eu parado, condeno-me, sem sursis, a transportar-me para lá, para diante da boca que fala. Tenho de não apenas ouvi-la, mas ouvi-la lá. Lá e então. Reconstruir o corpo todo que fala, do fígado às mãos, os ouvidos dele e de quem o ouve, os pés, tudo. Reconstruir o cenário inteiro, que compõe-se de coisas muito importantes, como o protagonista da fala, os deuteragonistas da fala, os referentes da fala, o dia da fala, o chão da fala, as razões retóricas, e mesmo o ontem que se pôs sobre os seus ombros. Reconstruir o evento inteiro, aquele cubo, aquele pedaço do tempo, aquele momento do espaço, contexto inextricável da fala. E eu me pondo lá, intruso.

 

Esse tipo de ouvir é – ao mesmo tempo – muito difícil e muito fácil. Há mesmo muito pouco a ser feito com as palavras, e todo esforço do mundo a ser feito dentro dos meus ouvidos, na porta deles, que as recolhem, nos canais auditivos, que as encaminham, nos ossinhos de brinquedo do ouvido, está bem, vai, ossículos, pronto – martelo, bigorna, estribo – a baterem, a rangerem, nos tímpanos, nos labirintos, nos nervos, no cérebro, dentro de mim. Sou eu que tenho que me pôr a postos. Pouca coisa a fazer com as palavras, e tudo a fazer em mim e comigo. Porque torno-me dia a dia imprestável para ouvir. Não ouço os vivos – os mortos hão de ter paciência.

 

A língua não é obstáculo difícil, porque eu aprendo. E, outra vez, fui eu quem adaptei-me às palavras. Depois, então, é ouvir, de olhos fechados, primeiro deixando as palavras entrarem pelos ouvidos, todas elas, e, depois, interrompendo a fala a cada palavra, e perguntando se essa palavra significa isso mesmo. Essa resposta, contudo, ela não será ouvida, porque a fala está escrita, e não haverá outras falas além dessas. É através dessas palavras escritas que terei de ascender à compreensão delas mesmas, utilizando-as para verificar, a cada momento, se entendo cada uma e o conjunto delas.

 

Na prática, é como efetuar operações algébricas. É mesmo uma operação algébrica. Há lacunas – incógnitas – que se deixam em suspenso, e se caminha com a, com b, com x, até que se possa voltar com uma hipótese para a, para b e para x. Acredite – “’textos’ podem ‘responder’”. Olha que beleza: quem disse isso não fui eu, que creio nisso desde que me apaixonaram as palavra mortas das Escrituras – e, sim, dizê-las “vivas” é prática de tortura cristã, acredite-me. Quem disse que “’textos’ podem ‘responder’” foi Karl-Otto Apel, claro que numa nota de Transformação da Filosofia II, mas eu tomo essa fala – esse oráculo – e extraio delas o maior gozo possível, porque acredito nelas. Que razão teria eu de escrever estas palavras de quase-aurora, o corpo morno do meu amor a dormir, se eu não cresse que, quando inquiridas, quando sinceramente inquiridas, elas responderão a quem lhas pergunte o que elas carregam, quando então elas dirão que carregam minha alma?

 

Deve-se armar uma teia. Pega-se a primeira palavra e amarra-se nela um fio. Estica-se o fio, e vai-se até a próxima palavra. Amarra-se nesta o fio, o mesmo fio. Ao mesmo tempo, toma-se o mesmo fio, e amarram-se as duas palavras, juntas, de modo que, agora, tem-se na mão dois fios, um, que amarra cada palavra, e, outro – que é o mesmo, contudo – que amarra cada palavra uma na outra. E assim se vai indo, pouco a pouco, sem tirar os olhos da folha, os ouvidos das palavras, os pés da terra nua dos séculos que murcharam, mas ainda podem florescer de cerejeiras japonesas, que o calor da minha atenção espanta delas o inverno das almas passadas.

 

Oh, sim, muita paciência. Trabalho de rendeira. Sem automatismo, contudo, que o automatismo é a morte do ouvido, como quando a amada fala, e você está e não está ali, mas já foi, só a casca vazia do corpo imprestável permaneceu, que corpo é muito bom, ah, sim, é muito, muito bom, mas se tem alguém dentro. Tratar as palavras veneráveis com a negligência dos casamentos é preparar-se para o divórcio, que as palavras veneráveis não têm a paciência que as esposas têm, porque – ah, dor – não foram pronunciadas para nós, e apenas nos aturam, porque é o preço de não morrerem nunca, como Gilgamesh que, descobrindo que a morte é inexorável, construiu em resposta as muralhas de Eridu, para viver nelas para sempre. As palavras veneráveis da fala ancestral mantém-se vivas em nossos ouvidos, se nós as deixamos mortas na página. Mas se as vivificamos em nossos ouvidos, as matamos na página. É mortas como estão na página que poderão permanecer vivas, elas, as sagradas palavras dos mortos. Se ouvidas mortas.

 

Não é fácil começar. As exigências são muito maiores do que meditação ou yoga. Mas são comparáveis, tanto em desafio, quando no que significam, em termos de concentração e objetivo. Julgue-se se não é de fato dura a tarefa de ouvir, se, para ouvir de verdade, tenho que deixar de lado todas – absolutamente – todas as minhas certezas. Sim, todas as nossas certezas são inimigas irreconciliáveis das palavras dos mortos, e é por isso que as torturamos, para que, sobre os ossos dos corpos cremados pelo fogo imemorial do tempo, erijamos nossas catedrais inabaláveis, tanto mais altas quanto nosso pavor de ruírem, e é por isso que temos horror de ratos, e de traças, e de cupins, que nossa catedral de cedros do Líbano não pode cair jamais. Num estado de espírito assim, como despir-se, e andar nu no chão de terra que o Jordão rasga? Que esforços. Que hercúleos esforços. E, como eu dizia, não para a folha, mas para meu próprio cárcere de certezas amadurecidas.

 

Quero eu, contudo, ouvir? Então pago o preço, e viajo nu até o passado, e me transformo em arqueólogo das palavras, ajudando-as a me ajudarem a montá-las do jeito certo na minha cabeça, que o jeito certo é o jeito conforme elas foram montadas pela boca que as pronunciou. História, arqueologia, geografia, antropologia, sociologia, fenomenologia, filosofia, epistemologia e quanto mais o seja são, indiscutivelmente, muito úteis, mas imprestáveis sem as palavras montadas do jeito certo, que se pode fazer sociologia de coisa nenhuma, arqueologia de equívocos, história de quimeras, filosofia de nuvem. Antes uma mula que ouça bem as palavras, que um sábio de saquinhos de pó mágico, a soltar máximas de pirilampos nunca-havidos. Mas o melhor dos mundos mesmo é que o sábio conte as palavras, uma a uma, e todas de uma vez.

 

Mas alto lá. Ouvi-las, não é compactuar com elas. Lembre-se o ouvinte de eventos de que as palavras que ali estão não são de anjos, e de Deus, se o são, é modo de falar, que só o são se forem, primeiro, de gente., e, aí, tanto faz. De gente que são, portanto, são de gente de carne e osso. E gente de carne e osso que é? Isso mesmo – gente. Uns bons, outros maus, outros, às vezes bons, às vezes maus. Ouvir o que elas querem dizer não significa, depois, fazer o que elas querem que se faça. Depois de ouvir, é decidir se se faz ou não. Na maioria das vezes, é não fazer, que muitas – digo a maior parte? – falaram coisas de doer, falaram coisas feias, porque estavam cheias de intenções que, se eram boas, eram-no apenas para a boca que as falava, mas não para os ouvidos que as ouviam.

 

Ah, sim, há gente morta, nessas páginas, das quais a vida não terá saudades, e que são importantes justamente – e apenas – porque cometeram todos os erros que eu mesmo posso cometer, e que, tendo-os escancarado diante dos olhos, recebo a dádiva de, antecipando-os, não os cometer. Por isso a tortura das palavras é pecado grave, porque acabamos nos servindo da estrutura malvada da sintaxe que organiza as proposições do texto, e projetando em nossa alegoria a morte que vai nelas – e, como antes elas eram morte brincando de Deus, brincamos de Deus com elas, fazendo morte.

 

À passividade-ativa do ouvir deve corresponder a crítica incessante. Somente a crítica pode salvar a boa leitura, a boa audição, quando ela quer ser história e passado.

 

É possível, então, ouvir. Claro que o desespero epistemológico, a angústia epistemológica, a agonia epistemológica – para quem se permite – é não ter como saber se, de fato, ouviu-se bem. Pode-se mesmo chamar outros ouvidos, e pedir ajuda, pedir uma verificação crítica. E que se ganhou? Um cardume de peixes que se seguem uns aos outros. Talvez se esteja mais perto de ter lido bem, porque, caso contrário, poder-se-ia ter apontado precisamente onde se leu mal – e não foi o caso. Mas essa saída retórica, heuristicamente relevante, não tranqüiliza a alma inquieta. Depois que se levanta o ogro epistemológico do ceticismo crítico, ou se aprende a viver na angústia, ou se enlouquece.

 

A exegese situa-se nos limites da sanidade pessoal. Mas é nas fronteiras, secas ou molhadas, que as trocas culturais acontecem. Para sair do próprio mundo, é mister ir para a fronteira – onde estão as belas plantas exóticas, mas também os animais desconhecidos - quiçá peçonhentos. Além do que, ouvi dizer, é lá onde vagam os espectros do deserto, sorvendo o espírito dos incautos, e rindo-se deles à volta da fogueira acesa dos seus ossos...

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

– autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações no texto –

– página atualizada em 27/09/2007 15:46:18