AOS PÉS DELE

Osvaldo Luiz Ribeiro

 

(I)

 

Neste exercício de exegese, gostaria de pedir a crítica de todos os leitores interessados. Pretendo demonstrar que Rt 3,4 possui um erro de tradução ainda não corrigido em nenhuma das versões de que disponho. Aqueles leitores que possuem domínio do hebraico, ou detêm instrumentos técnicos suficientes para elaborar uma crítica com relação à tradução do versículo, sintam-se convidados a contribuírem, escrevendo-me para ouviroevento@ouviroevento.pro.br.

 
Aqueles que não dominam os rudimentos da língua hebraica, não se preocupem. Farei o possível para que o exercício não seja entediante.


Rt 3


"1 Então, disse-lhe Noemi, sua sogra: "Minha filha, não tenho procurado um lugar de descanso que seja bom para ti? 2 Mas, agora, Boaz, em companhia de cujas criadas estavas, não é um parente nosso?! Ei-lo joeirando a cevada perto da eira esta noite.
3 Tu te lavas, então, e te unges, e pões tuas vestes sobre ti. Depois, desces à eira - mas não te darás a conhecer ao homem até ele terminar de comer e de beber!
4 Quando ele estiver por se deitar, então tu observas o lugar em que ele se deitará. Depois, tu entras e te descobres aos pés dele e te deitas. Depois, ele te diz o que tu farás". 5 Então disse-lhe ela: "Tudo o que me disseres farei". 6 Então ela foi à eira e fez conforme tudo que lhe determinara sua sogra. 7 Então, Boaz comer e bebeu. Posto que ficara alegre seu coração, entrou para se deitar ao lado da meda. Então, ela entrou secretamente, e se descobriu aos pés dele e se deitou. 8 E aconteceu que, em meio à noite, o homem estremeceu e se virou - e eis uma mulher deitada a seus pés! 9 E ele disse: "Quem és tu?". E ela disse: "Eu sou Ruth, tua criada. Tu estendeste teu manto sobre tua criada, porque um remidor tu és!". 10 E ele disse: "Abençoada sejas tu de Yahweh, minha filha. Fizeste melhor esta tua última fidelidade do que aquela primeira, visto não ires atrás da juventude, pobre ou rica. 11 Portanto, agora, minha filha, não temas. Tudo que disseres eu farei para ti, porque é sabedora a toda cidade do meu povo que uma mulher de integridade tu és. 12 Mas, agora, apesar de, de fato, eu ser verdadeiramente um remidor, no entanto também há um remidor mais íntimo do que eu.
13 Pernoite esta noite. E será de manhã que, se ele te resgatar, ele te resgatará; mas se ele não for favorável a te resgatar, eu te resgatarei - vive Yahweh. Fica deitada aí até a manhã". 14 Ela, então, permaneceu deitada aos pés dele até a aurora e se levantou quando um homem ainda não reconhece um amigo seu (porque ele dissera: "Não seja sabido que esta mulher veio à eira"). 15 E ele disse: "Dá o manto que está sobre ti e segura nele". Então, ela segurou nele, e ele mediu seis cevadas e pôs sobre ela. Depois, ele foi à cidade. 16 Quando ela foi à sua sogra, ela lhe disse: "Quem és, minha filha?" Então ela lhe contou tudo o que lhe fizera aquele homem. 17 E ela disse: "Estas seis cevadas ele deu para mim, porque disse: "Tu não irás à tua sogra de mãos vazias!". 18 Ela disse: "Senta, minha filha, até que saibas como isso terminará. Porque aquele homem não descansará antes que tenha terminado hoje esta questão".

 

A tradução acima é própria, e está vertida propositadamente de forma bastante literal. O próximo passo seria lhe dar fluidez, proporcionar-lhe uma sintaxe mais natural. Mas a mantive assim, para que a análise possa tornar-se mais fácil por parte do leitor que deseje compará-la diretamente com a Stuttgartensia ou qualquer outro texto hebraico.

Mas fique claro que estou chamando a atenção do leitor apenas para o problema de tradução específico do verso 4. E já adianto a questão: a tradução corrente <os pés dele> não me parece adequada. Por uma série de razões, proponho <aos pés dele>.

O descuido de uma vírgula ou um ponto pode alterar substancialmente o sentido de uma passagem. Temos aqui um caso: se o termo hebraico for traduzido por <os pés dele>, é <objeto direto>; se for traduzido <aos pés dele>, é adjunto adverbial de lugar. E a sintaxe altera significativamente o sentido da frase.

 

A questão está em decidir se Rute "descobre <os pés dele> (de Boaz), e se deita", ou se Rute "se descobre <aos pés dele> (de Boaz), e se deita".

 

O termo hebraico aparece quatro vezes: em 3,4.7.8.14. Trata-se da mesma expressão marGülötäyw. O leitor pode consultar qualquer texto hebraico, e concluir por si mesmo. Sendo, assim, a mesma expressão, no mesmo capítulo, e referindo-se ao mesmo fato, deveria ser traduzida de forma semelhante em todas as quatro ocorrências. Mas não constato isso nas versões. Todas as versões que consultei, traduzem o termo hebraico por <os seus pés> em 3,4.7 e por <a seus pés>, nos v. 8 e 14.

Na minha opinião, as quatro ocorrências devem se traduzidas como <a seus pés>. Devo ser honesto e dizer que o termo pode, em princípio, ser traduzido como uma circunlocução semelhante a <o lugar aos pés dele>, conforme informa o The Analytical Hebrew and Chaldee Lexicon, de Davidson. Essa deve ter sido a leitura empreendida pelas versões correntes. Mas ela traz consigo problemas intransponíveis em relação ao texto de Rt 3,4.7.

 

Por outro lado, a tradução que proponho para o verbo hebraico merece explicações. As versões o traduzem por <descobre>, acrescentando o que entendem como seu objeto direto: <descobre os pés dele>. Mas, assim compreendido, o verbo exigiria, no hebraico, a partícula designativa do acusativo, que é, naquela e noutras línguas afins, o indicativo de predicação direta do verbo, introduzindo o seu objeto direto. Mas não existe a partícula do acusativo em Rt 3,4 e 7. Observe o leitor que todas as vezes que esse mesmo verbo hebraico aparece no Antigo Testamento, quando sua predicação é direta e se lhe acompanha um objeto direto, lá está a partícula designativa do acusativo. Em Lv 20,18, quando se fala de <(o homem) descobrir a sua nudez (da mulher com quem ele se deita)>, o hebraico apresenta a partícula designativa do acusativo. Aí, o verbo <descobrir> é transitivo direto, e <a sua nudez> é seu objeto direto. Também em Jr 49,10 o hebraico carrega consigo a partícula designativa do acusativo: "Mas eu despi a Esaú, descobri os seus esconderijos".

 

Partícula essa que não existe no texto de Rt 3,4 e 7. Portanto, 1) se todas as vezes que no Antigo Testamento, o verbo de Rt 3,4.7 aparece com predicação direta, acompanhado de seu respectivo objeto direto, consta do texto a partícula designativa do acusativo, e, 2) se em Rt 3,4.7 não existe a partícula, o verbo, ali, então, não pode ser transitivo direto, nem pode seu termo acompanhante ser objeto direto. De fato, o verbo é pronominal e seu acompanhante, adjunto adverbial de lugar.

 

Mas, com essa afirmação, fico devendo novas explicações. O grau do verbo hebraico de Rt 3,4.7 é piel. Esse grau indica que o verbo assume a ação que representa na sua forma mais ampla e intensiva. Assim, a tradução desse verbo está além de um <descobrir-se>. É, na verdade, um <desnudar-se>. É o mesmo verbo hebraico utilizado para descrever a cena constrangedora de um Noé despindo-se por causa do entorpecimento pelo vinho. Ainda que em Gn 9,21 o grau não seja piel, e, conseqüentemente, o sentido não é o de um <descobrir-se intenso>, um <desnudar-se>, é, contudo, exatamente esse o sentido, denunciado pelo castigo que sofre Canaã diante de seu comportamento face à nudez do pai.

 

No entanto, se por um lado a ação é intensiva, e devemos entender um <desnudar> na ação que propõe, por outro lado, a forma hebraica não é reflexiva. Esperaríamos um hitpael, em que o agente da ação é, ao mesmo tempo, o paciente: <desnudar-se>. Ficamos na seguinte situação: 1) se de um lado o verbo não é transitivo direto, a ação não recai, portanto, sobre nenhum objeto direto e 2) se além disso, a ação é intensa, significando <nudez>, 3) de outro lado, o verbo hebraico não possui o grau reflexivo (não poderia comportar dois graus ao mesmo tempo). Contudo, o verbo <descobrir>, no sentido de <retirar algo que cobre alguma coisa>, se não é transitivo direto, só pode ser pronominal ou reflexivo, porque a sua predicação indireta não é cabível. <Descobrir> implica, necessariamente, em <descobrir> alguma coisa: se não pode ser um objeto (e em Rt 3,4.7 não pode), só pode ser o próprio agente da ação - nesse caso, Rute, que <descobre-se>, aliás, uma vez que é piel o grau verbal, <desnuda-se>.

Felizmente, existe outro caso do uso do mesmo verbo de Rt 3.4.7, em que, apesar de não estar construído sob o grau hitpael, a tradução é claramente reflexiva. Trata-se de 2 Sm 6,20: "E, voltando Davi para abençoar a sua casa, Mical, a filha de Saul, saiu a encontrar-se com Davi e disse: 'Quão honrado foi o rei de Israel, <descobrindo-se> hoje aos olhos das servas de seus servos, como sem pejo se <descobre> qualquer dos vadios". Em ambas ocorrências do verbo em 2 Sm 6,20, o grau não é nem o piel intensivo, nem o hitpael, reflexivo. O grau é o passivo nifal. No entanto, fica clara a necessidade de tradução pela forma pronominal do verbo, <descobrir-se>.  

 

(II)


O exercício anterior tratou de aspectos técnicos da tradução de Rt 3,4.7. Agora, desejo ampliar o comentário a todo o capítulo, uma vez que, se a fundamentação técnica permite um aprimoramento na interpretação, uma configuração hermenêutica adequada justifica a correção técnica. Pretendo, verificar no conjunto de Rt 3, se há elementos suficientes para corroborar a tradução de Rt 3,4 para <tu te descobres aos pés dele, e te deitas>, conforme propus. Além disso, farei uma releitura do capítulo à luz desse elemento novo.

 

Minha opinião é de que Rute tenha levado Boaz a <conhecê-la> naquela mesma noite, e que seu comportamento todo, segundo as orientações de Noemi, encontra paralelo na atitude de Tamar, diante de Judá. Tamar veste-se de prostituta e se deita com Judá (não sem antes, estrategicamente, certificar-se de que sua segurança estaria garantida, mantendo consigo o selo, os lenços e o cajado de Judá). Ela o faz, reconhece Judá mais tarde, para manter o nome de Er, primogênito de Judá que o Senhor matara.

 

No caso de Rute, dá-se o mesmo. Noemi e Rute estão sozinhas, sem família. Seu futuro é incerto. Essa preocupação está estampada nas palavras de Noemi em 3,1: "(...) não tenho procurado um lugar de descanso que seja bom para ti?". Na verdade, a preocupação de Noemi é mais específica, e tem um nome: o goel, o resgatador, identificado no verso seguinte: "(...) Boaz não é parente nosso (...)?". Deveríamos nos perguntar por que Boaz, tendo o direito de goel, não o exerceu antes. Noemi afirma que Rute foi colocada junto às criadas de Boaz. O próprio Boaz, pessoalmente, deu ordens para que seus servos permitissem que Rute recolhesse as espigas que eventualmente ficassem nas plantações, ou caídas no chão. Mas, isso é significativo: Boaz não tomou a iniciativa de resgatar Rute. Assim como Judá, que depois de ter dado Tamar a Onã, seu filho, por esposa, após a morte de seu primogênito, e ter Onã recusado-se a perpetuar o nome de seu irmão falecido em detrimento do seu próprio nome, fez-se de rogado e mandou Tamar de volta a casa de seus pais.

 

E Noemi monta sua estratégia. Rute deve lavar-se, ungir-se e vestir-se e, então, descer à eira. O intuito é claro: Rute deverá <dar-se a conhecer> a Boaz. Mas, um momento: Rute deve <dar-se a conhecer> a Boaz, mas não antes que ele coma e, principalmente, que ele beba. Boaz deveria chegar ao seu limite. Somente depois, Rute deveria <dar-se a conhecer>.

 

Em 3,4 as orientações tornam-se bastante claras. Tendo Boaz comido e bebido, procurará um lugar na eira para deitar-se. Rute deve observar à distância os movimentos de Boaz. Quando ele se tiver deitado, Rute deve aproximar-se, <descobrir-se aos pés dele> e deitar-se. Segundo Noemi, quando Rute tiver assim se descoberto e deitado aos pés dele, "ele te fará saber o que deves fazer".

 

De 3,5 a 3,7, Rute executa milimetricamente as orientações de sua sogra. Lava-se, unge-se, veste-se apropriadamente e vai à eira. Procura por Boaz e lá está ele, comendo e bebendo. E bebe tanto que seu coração fica alegre, com cuja declaração devemos entender o seu estado de entorpecimento pelo vinho. Exatamente como Noemi tinha previsto, Boaz vai deitar-se ao lado de um monte de cereais. Rute, então, aproxima-se de fininho e, então, <descobre-se aos pés dele>. E, assim, se deita.

 

Não fica dito se Boaz a faz "saber o que deves fazer". Na minha opinião, uma estratégia tão detalhada não seria frustrada. Além do mais, outros elementos adiante corroboram a possibilidade de Rute <ter-se dado a conhecer> a Boaz ao pé da meda. Seja como for, Boaz acorda, e "eis uma mulher deitada aos seus pés". Questionada, sua resposta é contundente: "Eu sou Rute, tua criada. Tu <estendeste> teu manto sobre tua criada, porque um remidor tu és". Não entendo por que as versões traduzem a expressão <estender o manto> no imperativo [<estende a tua capa> (versão revisada da IBB; versão revista e corrigida da IBB; revista e atualizada, da SBB; Bíblia de Jerusalém; Edição Pastoral; na linguagem de hoje, da SBB; Mensagem de Deus, da Loyola; revista e corrigida da co-edição SBB/Vida], se o verbo hebraico é o completo de qal, isto é, uma realização simples e completa. Rute não pede a Boaz que estenda seu manto sobre ela: Rute diz para Boaz que ele <já> estendeu o seu manto sobre ela.

 

A expressão <estender o manto> simboliza a união conjugal. Em Ez 16,8, a expressão é utilizada para simbolizar o desposamento de Yahweh com Jerusalém. Mesmo ali, onde a forma verbal é o incompleto de qal, não o completo, as versões traduzem a expressão pelo nosso pretérito perfeito. Nesse caso, torna-se inescusável recusar o mesmo pretérito perfeito para o completo de qal. Principalmente pelo contexto, onde 1) depois de receber instruções para <dar-se a conhecer> a Boaz somente após ter ele comido e bebido, 2) tendo ele ficado com seu coração alegre, Rute se deita a seu lado, descoberta. Se devemos entender a expressão <cobrir com o manto> como metáfora para a união conjugal, temos de admitir que a afirmação de Rute coloca essa união em algum momento entre o instante em que, <descobrindo-se aos pés dele, deitou-se>, e aquele outro em que, acordando no meio da noite, Boaz depara-se com uma mulher deitada <a seus pés>. "Tu estendeste teu manto sobre tua criada, porque um remidor tu és".

 

Será se as atitudes posteriores de Boaz confirmam a leitura? Certamente. A começar, já, por 3,10, quando Boaz declara que esta atitude de fidelidade de Rute é melhor do que a primeira. De que atitude de fidelidade está falando Boaz? Certamente, a fidelidade ao nome de seu falecido marido, uma vez que os frutos de sua união com Boaz recairiam sobre a memória e o nome de Malon, conforme 4,10: "E de que também tomo por mulher a Rute, a moabita, que foi mulher de Malom, para suscitar o nome do defunto sobre a sua herdade". Boaz reconhece na atitude de Rute um ato de fidelidade ao nome e à herança de seu marido, assim como Judá reconhecera na atitude de Tamar a mesma fidelidade a Er. Judá chama Tamar de <justa>; Boaz chama Rute de <abençoada>. Ambas mulheres lutam pela mesma causa, e usam a mesma estratégia.

Mas nenhuma luta se dá sem riscos. Tamar seria certamente apedrejada até a morte, não fosse sua estratégia de guardar consigo a prova de que sua atitude fora uma atitude desesperada de justiça para com seu marido. Rute está diante do mesmo risco. Mas Boaz tranqüiliza seu coração: "toda a cidade do meu povo sabe que és uma mulher de integridade". Em 3,14, observamos a preocupação de Boaz em manter Rute incógnita. Mais uma vez, na linha de coar vírgulas, pontos e preposições, devemos atentar para a tradução do pronome demonstrativo. Algumas versões traduzem <uma mulher> (versão revista da IBB e linguagem de hoje, da SBB); outras, traduzem o termo hebraico como pronome indefinido: <alguma mulher> (revista e corrigida da IBB e co-edição SBB/Vida); a versão revista e atualizada da SBB, talvez desconhecendo o costume de acorrerem as prostitutas às eiras durante as festas da colheita, desenha-nos um Boaz querendo esconder o fato de que havia ido mulher à eira. Na verdade, o termo representa melhor o pronome demonstrativo <esta>, já que a preocupação de Boaz é que ninguém saiba que aquela mulher que esteve na eira, ontem à noite, e que se deitou com Boaz, era Rute. É dessa forma que as versões católicas (BJ, Loyola e Pastoral) traduzem. É para que ninguém a reconheça que ela deve sair às escondidas. Se sabem que aquela mulher que estivera na eira ontem era Rute, ai, meu Deus!

 

Mas, subitamente, nova pista interessantíssima aparece em 3,15, cuja chave é apresentada de maneira velada em 3,17. Boaz manda que Rute se sirva de seu manto e despeja nele seis medidas de cevada. E a despede. Rute chega em casa, conta tudo a Noemi e, então, Rute faz a declaração que me leva a crer ainda mais firmemente que, de fato, a intenção do escritor de Rute é declarar que Boaz estendeu seu manto sobre a moabita naquela mesma noite: "Estas seis cevadas ele deu para mim, porque disse: 'Tu não irás à tua sogra de mãos vazias'". Sou da opinião de que a expressão <não irás de mãos vazias> consiste numa figura de pensamento, e que, antes de referir-se ao alimento que Rute recebe, refere-se à posteridade que foi buscar para Malon, seu marido. Em 1,21, num discurso de profunda amargura, Noemi declara: "Cheia parti, porém vazia o Senhor me fez tornar". É a mesma expressão que Rute usa, mas declarando uma sorte inversa: Boaz não me deixou partir (de mãos) vazias! Devemos nos recordar que quando Noemi diz que partiu <cheia>, não está dizendo que partiu com fartura de alimentos. É justamente o contrário, porque Noemi e sua família vão peregrinar pelos campos de Moabe, fugindo da fome. Por outro lado, quando Noemi e Rute decidem retornar para seu povo, fazem-no, tendo ouvido que Yahweh havia visitado seu povo, dando-lhe pão (1,6). Portanto, a expressão <cheia parti, porém vazia o Senhor me fez tornar> refere-se à sua família, marido e filhos, todos perdidos e mortos. Noemi partira cheia, e voltara vazia. Rute vai ter com Boaz vazia, mas volta cheia. A estratégia de Noemi deu certo: Rute já carrega consigo sua posteridade!


Rt 3,1-18 é um texto fantástico. Ao mesmo tempo em que consiste numa magnífica peça literária, para o leitor crente, representa uma descrição vívida das vicissitudes do povo de Deus no passado. Quando o capítulo se inicia, deparamo-nos com duas mulheres desamparadas. Sua confiança em Deus não é decantada como matéria barata, porque a confiança em Deus é sentimento e atitude pessoal, silenciosa, privada. Mas a cada passo que dão, seu silêncio e sua firmeza parece confirmarem que tomam seus destinos nas próprias mãos, confiantes na ação de seu Deus. Quando Noemi lamenta desconsolada a aflição que Yahweh lhe impinge, Yahweh nada fala. Não precisa. No entanto, quando Rute declara que Boaz a fez voltar de mãos cheias, é possível enxergar Yahweh como o verdadeiro goel, agindo por trás dos bastidores. Mas Yahweh mesmo não fala. Yahweh mesmo não age. São as duas mulheres que tomam seu destino nas mãos, e o constroem.

 

O que seus concidadãos acharam disso? Perguntem a Rt 4,11 e 12: "Então <todo o povo> que estava no tribunal e <os anciãos> disseram: 'Somos testemunhas! Que o senhor torne a mulher que entra em tua casa como Raquel e como Lea, que edificaram juntas a casa de Israel. Faze fortuna em Efrata e torna-te célebre em Bet-Lehem; e assim, pela descendência que o Senhor te der desta jovem mulher, tua casa seja como a casa de Peres, que Tamar gerou de Judá”.

 

Não estou aqui para decidir, como juiz, se Rute fez certo, deitando-se com Boaz. Nem que Noemi tenha acertado ou não, orientando-a. Estou aqui apenas para certificar-me do que diz o texto bíblico. O que ele diz, segundo posso afiançar, aí está. Isso me põe a pensar – e muito. É um mundo distante demais do meu, o dessas mulheres no campo. De longe, observo-as. Não sabiam elas, mas estavam concebendo, na eira, no chão da eira, o avô de Davi...