O ANTICRISTO

de Fredrich Nietzsche

 

Não se trata, aqui, de afronta. Nem a mim, pessoalmente, nem ao Cristianismo, de modo geral.

Trata-se, no que me diz respeito, a ler atentamente o livro - cem anos depois.

O que eu quero é ler com cuidado - para aprender.

Há muita "verdade" aqui - e eu a quero descobrir.

Humano que era, com suas falhas, também seu livro deve estar cheio de equívocos

- esses eu simplesmente quero deixar de lado.

E os deixarei, depois de eu mesmo lidar com eles.

Como se trata de um passeio pessoal, não assumo a tarefa de "prestar um serviço"

- salvo a mim mesmo, claro.

Não sei se posso me contar entre os destinatários predestinados de que Nietzsche fala.

Se não sou, sou, com certeza, intrometido o suficiente para pôr-me entre eles

- como o pequeno caracol da parábola de Kazantzákis.

Não faço, portanto, uma leitura no front, mas na cadeira de balanço.

É que vou ficando velho, depois dos quarenta.

Se alguém preferir fazer guerra, tudo bem

- mas, por favor, baixo, porque gostaria de ler em paz...

 

Doravante, LEGENDA:

Em vermelho, o texto alemão e português de O Anticristo

Em preto, minhas reflexões pessoais sobre temas de O Anticristo

Em azul, meu comentário a O Anticristo

Em marrom, questões metodológicas relativas à leitura de O Anticristo

Caso o visitante queira dialogar com qualquer comentário meu, mande-me um e-mail indicando o tópico comentado. Então criarei um campo para apresentar as intervenções.

Desde agora, 28 de junho de 2006 - e lá vamos nós!

 

Friedrich Nietzsche

O Anticristo

(agosto de 1888 a janeiro de 1889)

Crítica contra o Cristianismo

Prólogo

 

Este livro destina-se aos mais raros entre todos. Talvez nem sequer possa encontrar um único. Esses seriam os que compreendem o meu Zaratustra. Como poderia eu misturar-me com aqueles a quem hoje se presta ouvidos? - Só o futuro me pertence. Há homens que nascem póstumos.

Conheço muito bem as qualidades que é preciso reunir para que alguém me compreenda, as qualidades que o forçam a compreender-me necessariamente. É preciso ser íntegro até a dureza nas coisas de espírito para poder suportar a minha seriedade e a minha paixão; estar habituado a viver nas montanhas, a ver abaixo de si o mesquinho charlatanismo atual da política e do egoísmo dos povos; e é finalmente, preciso ter-se tornado indiferente e não perguntar nunca se a vontade é útil, se chegará a ser um destino... Necessária é também uma predileção da força para questões que hoje ninguém tem coragem de dilucidar; inclinação para o proibido; predestinação para o labirinto. É preciso que tenham uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para uma música nova. Olhos novos para o que está mais longínquo. Uma consciência nova para verdades até hoje mudas. E uma vontade de economia de grande estilo: reunir a sua própria força, o seu próprio entusiasmo... O respeito por si mesmo, o amor-próprio, a liberdade absoluta para consigo...

Pois bem, só esses são os meus leitores, os meus verdadeiros leitores, os meus leitores predestinados: que importa o resto? - O resto é somente a humanidade.´- É preciso ser superior à humanidade em força, em grandeza de alma, - e em desprezo.

Friedrich Nietzsche

 

Friedrich Nietzsche

Der Antichrist

Nachgelassene Schriften

(August 1888-Anfang Januar 1889)

Fluch auf das Christenthum.

Vorwort.

 

Dies Buch gehört den Wenigsten. Vielleicht lebt selbst noch Keiner von ihnen. Es mögen die sein, welche meinen Zarathustra verstehn: wie dürfte ich mich mit denen verwechseln, für welche heute schon Ohren wachsen? - Erst das übermorgen gehört mir. Einige werden posthu<m> geboren.

Die Bedingungen, unter denen man mich versteht und dann mit Nothwendigkeit versteht <, -> ich kenne sie nur zu genau. Man muss rechtschaffen sein in geistigen Dingen bis zur Härte, um auch nur meinen Ernst, meine Leidenschaft auszuhalten. Man muss geübt sein, auf Bergen zu leben - das erbärmliche Zeitgeschwätz von Politik und Völker-Selbstsucht unter sich zu sehn. Man muss gleichgültig geworden sein, man muss nie fragen, ob die Wahrheit nützt, ob sie Einem Verhängniss wird ... Eine Vorliebe der Stärke für Fragen, zu denen Niemand heute den Muth hat; der Muth zum Verbotenen ; die Vorherbestimmung zum Labyrinth. Eine Erfahrung aus sieben Einsamkeiten. Neue Ohren für neue Musik. Neue Augen für das Fernste. Ein neues Gewissen für bisher stumm gebliebene Wahrheiten. Und der Wille zur Ökonomie grossen Stils: seine Kraft, seine Begeisterung beisammen behalten ... Die Ehrfurcht vor sich; die Liebe zu sich; die unbedingte Freiheit gegen sich ...

Wohlan! Das allein sind meine Leser, meine rechten Leser, meine vorherbestimmten Leser: was liegt am Rest? – Der Rest ist bloss die Menschheit. - Man muss der Menschheit überlegen sein durch Kraft, durch Höhe der Seele, - durch Verachtung ...

Friedrich Nietzsche.

 

O Anticristo

I

Olhemo-nos de frente. Somos Hiperbóreos, e sabemos muito bem como vivemos distantes. "Nem por terra nem por mar encontrarás o caminho que conduz aos Hiperbóreos - como já dizia Píndaro de nós. Para além do Norte, dos gelos, da morte - a nossa vida, a nossa felicidade... Descobrimos a felicidade, conhecemos o caminho que a ela conduz, encontramos a saída após milhares de anos de labirinto. E quem além de nós, a encontrou? - O homem moderno, talvez? - "Eu nem sei sair nem entrar; sou tudo aquilo que não sabe sair nem entrar" - suspira o homem moderno... E é dessa modernidade que enfermamos - da paz apodrecida, do compromisso cobarde, de toda a virtuosa imundície do moderno sim e não.

Esta tolerância, este largeur do coração, que tudo "perdoa", porque tudo "compreende", é para nós Siroco. Antes viver entre os gelos do que no meio das virtudes modernas e outros ventos do Sul!... Fomos bastante corajosos, não poupamos os outros nem a nós próprios, éramos por natureza menos domesticáveis que quaisquer outros: mas por longo tempo desconhecemos aonde ir com o nosso valor. Havíamo-nos tornado tristes, chamavam-nos fatalistas. A nossa fatalidade era a plenitude, a tensão, o surgir das forças. Tínhamos sede de relâmpagos e de fatos, conservávamo-nos o mais longe possível da felicidade dos fracos, da "resignação". A nossa atmosfera estava carregada de tempestade, a nossa própria natureza nublava-se - pois não tínhamos rota alguma. Eis a fórmula da nossa felicidade: um sim, um não, uma linha reta, uma finalidade...

Der Antichrist

1.

- Sehen wir uns ins Gesicht. Wir sind Hyperboreer, - wir wissen gut genug, wie abseits wir leben. "Weder zu Lande, noch zu Wasser wirst du den Weg zu den Hyperboreern finden": das hat schon Pindar von uns gewusst. Jenseits des Nordens, des Eises, des Todes - unser Leben, unser Glück ... Wir haben das Glück entdeckt, wir wissen den Weg, wir fanden den Ausgang aus ganzen Jahrtausenden des Labyrinths. Wer fand ihn sonst? - Der moderne Mensch etwa? "Ich weiss nicht aus, noch ein; ich bin Alles, was nicht aus noch ein weiss" - seufzt der moderne Mensch ... An dieser Modernität waren wir krank, - am faulen Frieden, am feigen Compromiss, an der ganzen tugendhaften Unsauberkeit des modernen ja und Nein.

Diese Toleranz und largeur des Herzens, die Alles "verzeiht", weil sie Alles "begreift", ist Scirocco für uns. Lieber im Eise leben als unter modernen Tugenden und andren Südwinden! ... Wir waren tapfer genug, wir schonten weder uns, noch Andere: aber wir wussten lange nicht, wohin mit unsrer Tapferkeit. Wir wurden düster, man hiess uns Fatalisten. Unser Fatum - das war die Fülle, die Spannung, die Stauung der Kräfte. Wir dürsteten nach Blitz und Thaten, wir blieben am fernsten vom Glück der Schwächlinge, von der "Ergebung" ... Ein Gewitter war in unsrer Luft, die Natur, die wir sind, verfinsterte sich - denn wir hatten keinen Weg. Formel unsres Glücks: ein Ja, ein Nein, eine gerade Linie, ein Ziel ...

 

 
 

IIa. Parto do princípio de que não se trata de poder no sentido político-militar. Penso que se trata do poder no sentido psicológico-filosófico da autonomia do sujeito. Daí que tudo quanto concorra para a autonomia desse sujeito é bom. O contrário seria "tudo o que nasce da fraqueza" - que eu tomaria como qualquer posição que se assuma na condição de "submeter-se", em face da heteronomia. Nesse caso, o sujeito não quer/não pode agir a partir de si mesmo, mas vê-se, por alguma razão, determinado pela vontade de outra consciência. Nesse sentido, a felicidade seria a experiência de constatar a própria autonomia, de superar determinada(s) heteronomia(s), e expressar-se a partir da própria consciência. Bem entendido - felicidade para quem deseja autonomia. Há quem prefira abdicar dela.

IIb. "Nenhum contentamento, mas mais poder" indicaria para a resistência à heteronomia - a não-conformação. Rm 12,1-2 recomenda alguma coisa aparentemente parecida: "não vos conformeis a este mundo". Contudo, ali se fala da "vontade de Deus", que, no entender de Nietzsche, constituiria heteronomia - travestida em "vontade de Deus", na verdade a vontade de sacerdotes sobre a consciência individual. Assim interpretaria a recomendação à guerra, e não à paz - recusar submeter-se em nome da dispersão do conflito potencial. Se for assim, então se poderia explicar que se recomende a virtu, e não a "virtude", o valor, e não a moral. Quer-se saltar sobre o cristianismo - moral - e tocar o varão da antiguidade greco-romana. Trata-se, então, do valor "aristocrático", da varonilidade "cavalheiro", da virilidade do "soldado", mas enquanto tipos ideais de "homens de valor", de "homens valorosos".

IIc. O último parágrafo pode ser lido de maneira ou política ou utópica. Com "política", quero indicar para a possibilidade de o parágrafo recomendar a supressão desse fraco aí, desse sujeito concreto que está diante de "mim". Não aposto nessa possibilidade de leitura. Com "utópica", quero indicar para a recepção em tese da proposta ideal de uma sociedade em que não existissem homens "fracos". Não estou bem certo, porque logo a seguir fala-se de que a compaixão é "o mais nocivo d(...)os vícios". Contudo, "compaixão" aí é uma metonímia para "cristianismo". O vício é, portanto, o cristianismo. 

IId. Faço o seguinte: tomo cada parágrafo em particular, leio-os uns pelos outros, leio-os pelo conjunto do capítulo, e o conjunto do capítulo pelo conjunto dos parágrafos. Leio recursivamente. Resultado: o cristianismo é o pior de todos os vícios, porque promove a heteronomia. Deve-se fazer guerra contra essa situação, e promover a autonomia dos indivíduos. A própria guerra provavelmente "os ajude mesmo a desaparecer". A guerra aí não consiste na aplicação da força contra o cristianismo ou contra os "fracos" heterônomos. Consistiria, antes, na defesa da idéia da própria autonomia em si. A publicação de O Anticristo seria uma guerra...

(voltar para Reflexão um)

II

O que é bom? - Tudo aquilo que desperta no homem o sentimento do poder, a vontade de poder, o próprio poder.

O que é mau? - Tudo o que nasce da fraqueza.

O que é a felicidade? - A sensação de que o poder cresce - de que uma resistência foi vencida.

Nenhum contentamento, mas mais poder. Não a paz acima de tudo, mas a guerra. Não a virtude, mas o valor (no estilo do Renascimento: virtu, virtude desprovida de moralismos).

Quanto aos fracos, aos incapazes, esses que pereçam: primeiro princípio da nossa caridade. E que se os ajude mesmo a desaparecer! O que é mais nocivo do que todos os vícios? - A compaixão que suporta a ação em prol de todos os fracos, de todos os incapazes: - o cristianismo.

Questão metodológica um:

- penso que O Anticristo exija uma leitura a partir do eixo histórico-psicológico de Nietzsche. É necessário encarnar-se de sua posição relativa, condição sine qua non para a recuperação arqueológica do sentido de suas palavras. É que elas são especialíssimas, peculiaríssimas, além de, claro, ambíguas. Por que especialíssimas? Porque são de Nietzsche - um homem que nasceu póstumo. Por que ambíguas? Porque são vertidas em registro poético, cujo eixo referencial é - não há como resistir a isso - a intenção de Nietzsche.

Se Nietzsche é um Dom Quixote, está mais para Brancaleone. Não é um soldado de armas. Suas armas são a filosofia, sua espada, a pena. É, claro, um guerreiro, mas sua luta se faz com palavras, vestindo idéias precisas, mas em linguagem tão profundamente poética, de um rasgo passional tão intestino, que transmutam-se em registro poético. Corre-se o risco de situar o conjunto poético sobre um outro eixo qualquer, e pôr-se a perder a intenção histórica com que as palavras foram escolhidas, vocacionadas, articuladas.

O drama é, portanto, saber quem é Nietzsche. Para o saber, só lendo suas obras. Mas para o que é necessário conhecer Nietzsche - o que é possível, lendo-o. Deve-se, portanto, reconhecendo a necessidade de reconstrução recursiva do homem Nietzsche e de seu pensamento, tomar o bonde andando, e criticar a cada passo o resultado provisório da leitura.

voltar para IVb

 

2.

Was ist gut? - Alles, was das Gefühl der Macht, den Willen zur Macht, die Macht selbst im Menschen erhöht.

Was ist schlecht? - Alles, was aus der Schwäche stammt.

Was ist Glück? - Das Gefühl davon, dass die Macht wächst, dass ein Widerstand überwunden wird.

Nicht Zufriedenheit, sondern mehr Macht; nicht Friede überhaupt, sondern Krieg; nicht Tugend, sondern Tüchtigkeit (Tugend im Renaissance-Stile, virtù, moralinfreie Tugend)

Die Schwachen und Missrathnen sollen zu Grunde gehen: erster Satz unsrer Menschenliebe. Und man soll ihnen noch dazu helfen.

Was ist schädlicher als irgend ein Laster? - Das Mitleiden der That mit allen Missrathnen und Schwachen - das Christenthum ...

 

 

3.

Nicht, was die Menschheit ablösen soll in der Reihenfolge der Wesen, ist das Problem, das ich hiermit stelle (- der Mensch ist ein Ende -): sondern welchen Typus Mensch man züchten soll, wollen soll, als den höherwerthigeren, lebenswürdigeren, zukunftsgewisseren.

Dieser höherwerthigere Typus ist oft genug schon dagewesen: aber als ein Glücksfall, als eine Ausnahme, niemals als gewollt. Vielmehr ist er gerade am besten gefürchtet worden, er war bisher beinahe das Furchtbare; - und aus der Furcht heraus wurde der umgekehrte Typus gewollt, gezüchtet, erreicht: das Hausthier, das Heerdenthier, das kranke Thier Mensch, - der

Christ ...

 

IIIa. Um capítulo-chave para a compreensão do livro, que, por sua vez, precisa da adequada leitura do anterior. O tipo de homem que se deve criar é o autônomo.

IIIb. A autonomia já se testemunhou na terra. Mas, a julgar por Nietzsche, deu-se por acaso. Não era fruto de uma expectativa. Pelo contrário - era temível a sua aparição. E foi esse medo da autonomia humana, da livre determinação da consciência do sujeito que engendrou o caráter oposto: o Heterônomo. Heterônomo poderia ser o epíteto desse cristão que Nietzsche desenha.

IIIc. Compreende-se, assim, porque ele é descrito como "animal doméstico", porque sua autonomia, que faria dele um animal da floresta, um animal selvagem, lhe foi arrancada; como "rês gregária". Besta de carga acomodada à manada. Manada, porque a consciência se dissolve na congregação. Besta de carga, porque esse heterônomo está a serviço - e não se trata de uma consciência que se põe em serviço, mas de uma consciência sob serviço. Admirável Gado Novo, de Zé Ramalho, evocaria assim essa categoria: "vocês que fazem parte dessa massa, que entra nos projetos do futuro". É, pois, uma besta humana enferma, porque a sua saúde, segundo o diagnóstico de Nietzsche no capítulo II é a autonomia.

III

O problema que aqui me coloco não é qual a sucessão do homem na escala dos seres (- o homem é uma finalidade - ?) mas sim qual o tipo de homem que se deve criar, que se deve pretender, que tipo terá mais valor, que tipo será mais digno de viver, mais seguro do futuro?

Este tipo de elevado valor existiu já por mais de uma vez; mas como um feliz acaso, como uma exceção, nunca um tipo desejado. Pelo contrário, foi precisamente o tipo mais temido até ao presente, quase que foi a realidade temível por excelência - e esse temor engendrou o tipo inverso, desejado, criado, conseguido: o animal doméstico, a rês gregária,a enferma besta humana - o cristão...

 

IV

Ao contrário do que hoje se tem por verdadeiro, a humanidade não representa um progresso para algo melhor, mais forte ou mais elevado. O "progresso" não passa de uma idéia moderna, ou seja, de uma idéia falsa. Vale o europeu moderno bem menos que o europeu do Renascimento. Desenvolver-se não significa forçosamente elevar-se, aperfeiçoar-se, fortalecer-se.

Por outro lado, florescem constantemente casos isolados em diferentes regiões da Terra, provenientes das mais diversas culturas, nos quais se manifesta efetivamente um tipo superior: tipo que, relativamente ao conjunto da humanidade, constitui uma espécie de Übermensch. Esses golpes de sorte da grande realização foram, e serão talvez, sempre possíveis. E até mesmo raças inteiras, tribos, povos ou linhagens podem, em alguns casos, representar semelhante acertar no alvo.

 

 

Reflexão um:

Nietzsche tem uma visão negativa da modernidade. Mas ainda aqui é preciso cuidado - corre-se o risco de escapar da ótica histórico-social do próprio Nietzsche. De que modernidade ele fala? E por que ela é fraca relativamente ao Renascimento? Ela é fraca, porque perdera o seu impulso de autonomia, acomodou-se, acovardou-se, acocorou-se à sombra, arrumou as esteiras e deitou-se - orgulhosamente, a título de progresso. O que Nietzsche vê, é, contudo, a beira do abismo. A modernidade ainda caminha curvada sob os valores heterônomos.

É por isso que eu não posso ser considerado um teólogo liberal. No campo teológico, o liberalismo não me encanta. Por quê? Porque ele é um compromisso com um hegelianismo agostiniano. A idéia de progresso da modernidade nada mais é que a idéia de Cidade de Deus de Agostinho, de cujo portão principal arrancaram as letras D, e, u e s. Não é mais de Deus, mas é o mesmo "projeto". Não se vê - não? - que se está, ainda, atrelado a um programa heterônomo, ainda se encena uma peça dirigida desde outra consciência. Os valores ainda não são humanos, demasiadamente humanos, no sentido de existenciais e históricos.

Não posso tomar o cristianismo como a realização de um projeto ideal. Não o é. Não posso tomar a teologia como Lei. Não é é. Não posso assumir qualquer doutrina religiosa como Logos. Não o é. Não posso relativizar essas questões, secularizá-las, e brincar de moderno. Nesse sentido, não posso fazer paz - minha única saída, rigorosamente nos termos em que leio o capítulo II, é a guerra, aquela guerra. E eu a faço dentro de mim, e à minha volta, no meu metro quadrado.

Claro, meu metro quadrado, agora, com a Internet, pode estender-se ilimitadamente, sem deixar de ser meu metro quadrado. Não ficaria decepcionado. Talvez seja mesmo melhor que cada ser-humano torne-se senhor de sua própria consciência. Eu me esforço para o ser da minha.

4.

Die Menschheit stellt nicht eine Entwicklung zum Besseren oder Stärkeren oder Höheren dar, in der Weise, wie dies heute geglaubt wird. Der "Fortschritt" ist bloss eine moderne Idee, das heisst eine falsche Idee. Der Europäer von Heute bleibt, in seinem Werthe tief unter dem Europäer der Renaissance; Fortentwicklung ist schlechterdings nicht mit irgend welcher Nothwendigkeit Erhöhung, Steigerung, Verstärkung.

In einem andren Sinne giebt es ein fortwährendes Gelingen einzelner Fälle an den verschiedensten Stellen der Erde und aus den verschiedensten Culturen heraus, mit denen in der That sich ein höherer Typus darstellt: Etwas, das im Verhältniss zur Gesammt-Menschheit eine Art Übermensch ist. Solche Glücksfälle des grossen Gelingens waren immer möglich und werden vielleicht immer möglich sein. Und selbst ganze Geschlechter, Stämme, Völker können unter Umständen einen solchen Treffer darstellen.

IVa. O termo "humanidade" é ali tomado como a abstração do conjunto dos seres-humanos. Hegel está por trás desse parágrafo, e sua idéia de Espírito Absoluto, movendo-se em direção ao cumprimento de seu destino. Nietzsche não pode trabalhar com a idéia de "progresso", porque ele não tem sob mira a idéia de "modelo". Não há um ponto final onde se deve chegar. Essa humanidade apenas caminha... Caminhando-se, cada qual, e mesmo conjuntos inteiros, podem construir-se a partir de existências autônomas ou heterônomas. Por isso Nietzsche acha que o homem do Renascimento é mais valoroso, porque o Renascimento é um impulso de autonomia, diante do que a "modernidade" constituiria um enfraquecimento.

IVb. Parágrafo perigoso. O termo Übermensch é excessivamente ambíguo. Apelo para a Questão metodológica um: é necessário tentar acessar o termo pelo léxico histórico-social de Nietzsche. Tentarei um exercício de complexidade. A humanidade, enquanto o conjunto abstraído dos seres-humanos, não "caminha" em direção a um fim, sequer caminha como um corpo. Há bolsões de realização aqui e ali: indivíduos, linhagens, tribos, povos, raças inteiras. Não uma hipóstase ideal chamada humanidade, caminhando, rumo a uma realização histórica. Os seres-humanos realizam-se concretamente, desde o indivíduo concreto, até as articulações sociais, igualmente concretas. São essas constituintes concretas que soem manifestar-se, eventualmente, na condição de um "tipo superior".

IVc. O "tipo superior", pois, não é uma hipóstase, mas uma atualização concreta humana. Deve ser procurado o seu sentido na própria corrente narrativa que o acaba de introduzir - e nos termos dela. A corrente vem de apresentar a autonomia, e de valorizar o homem renascentista por conta do seu ímpeto de autonomia. Esse homem concreto, na posse de sua autonomia, esse é o Übermensch. Que é ele? O homem que se assume na condição de homem a caminho, não a caminho de. O homem, mas também a linhagem, a tribo, o povo, a raça que se sabe construtora de sua própria caminhada e condição - que se faz, que se projeta, que se lança, sempre a si mesmo. Cuidado! O Übermensch não é um "projeto", um "alvo", uma "meta", um "ideal". Ele é a assunção da autonomia como meta e risco.

IVd. Quando se diz que "esse" tipo superior o é relativamente ao conjunto da humanidade, não se está falando de "tipo ideal" - mas do fato concreto de esse "tipo superior" ter-se tomado como senhor de si mesmo. Nesse sentido, aquele conjunto da humanidade estaria sub-existindo, dado o fato de que, estivesse pleno também ele de sua faculdade autônoma, constituiria também ele parcela daquele tipo superior.

IVe. O Übermensch aqui não é um sujeito que se torna sobre-excelente, transforma-se em modelo. Não é uma determinada linhagem santa ou "nobre". Não é uma determinada tribo germânica ou chinesa. Não é um determinado povo americano. Não é uma determinada raça ariana. O Übermensch é toda aquela qualquer grande realização assustadoramente poderosa de qualquer sujeito, qualquer linhagem, qualquer tribo, qualquer povo, qualquer raça tomar-se a si mesmo como nível, assumir-se em sua própria gestação histórico-cultural.

 

12/12/2006

Va. Diante de um parágrafo desses, fazer o quê? Um cristão mal-humorado, teria algumas opções. Primeira, negar. Nietzsche é um lunático, e o cristianismo é a religião da liberdade, os cristãos, os príncipes dos libertos. Meu diagnóstico dessa atitude: disfunção cognitiva. Segunda: concordar com Nietzsche, quando ele fala que o cristianismo tolhe a autonomia, mas discordando com Nietzsche quanto ao juízo sobre tal atitude da Igreja. É que, para um tal cristão, o homem é mesmo como Pascal diz (exceto os teólogos eclesiásticos, como Karl Barth, claro, que, contudo, têm a luz nos olhos, como já a tinha, a seu tempo, Platão, ainda que, para ele, também as almas estivessem estúpidas. Meu diagnóstico dessa atitude: tem gosto pra tudo. Minha própria atitude: irretocável.

Vb. "Não se deve embelezar nem desculpar o cristianismo". Sim, porque esse tipo de atitude apenas esconde o problema. Se a pulsão heteronomizadora do cristianismo não é denunciada, se não se usam megafones, no fundo, praticam-se acordos de engavetamento, dos mesmos que se condenam da Justiça ou do Legislativo. Mas é o mesmo quando, devendo reconhecer que o ser-cristão é o ser-heterônomo, simplesmente fazemos como que aceitamos a tese, mas, na prática, continuamos a marcha. É necessária a denúncia.

Vc. a guerra que o cristianismo travou contra aquele tipo de homem superior, isto é, contra o homem-em-emancipação, contra o homem-autônomo, é a guerra política de vontade-de-todo-poder sobre ele. A denúncia de Nietzsche está atrasada, porque já a fizera, e na cara da Igreja, o moleiro Domenico Scandella, segundo nos conta, magistralmente, Carlo Ginzburg. Esse Menocchio pôs o dedo na ferida, e na cara dos seus inquisidores: "vocês não querem que eu saiba o que vocês sabem". Mas, para Nietzsche, é também mais do que isso: é que não se quer um homem do tipo que queira querer, um homem que ouse querer, um homem que acredite que possa querer. Todo o querer, o pensar, todo o controle deve estar nas mãos do cristianismo. Que, contudo, bebe já nas fontes sacerdotais de Gn 2,4b-3,24, segundo cuja narrativa, Adão e Eva são culpados por quererem saber, eles mesmos, por eles mesmos, e, assim, tornar-se igual aos deuses, o que é bom ou ruim para eles mesmos. Tanto o narrador desse mito, quanto os inquisidores, quanto o cristianismo, de modo geral, têm por modelo estratégico de gestão o controle centralizado da vida humana. É patológico.

Vd. Todo o parágrafo é um libelo contra a atitude do cristianismo contra a autonomia humana. O medo do pensamento crítico, o horror pelos "instintos fortes", isto é, os instintos autônomos. Legitima-se o discurso pela mesma via de sempre: são idiotas estúpidos os homens, e a verdade está no conta-gotas, na mão do filósofo e do clero. Não é à toa que, diante da crise avassaladora da emancipação cultural, intelectual, científica, moral, social, que caracterizou, principalmente, o século XIX, o "século romântico", as três igrejas ocidentais tenham reagido justa e energicamente contra esse espírito natural. O mundo católico, com o Vaticano I, o protestante, também europeu, com a neo-ortodoxia de Barth, e os evangélicos norte-americanos, com o Fundamentalismo. Nesses ambientes, "pensar" é "pecar". Nietzsche está certo, certíssimo. Miséria para nós, cristãos, porque, hoje, aos seis anos do século XXI, ainda somos absoluta e rigorosamente a mesma gente.

V.

Não se deve embelezar nem desculpar o cristianismo: ele travou uma guerra de morte contra este tipo de homem superior, renegou todos os instintos fundamentais deste tipo e desses instintos destilou o mal, o negativo - o homem forte como tipo censurável, como proscrito. O cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo, incapaz, fez oposição aos instintos de conservação da vida forte, um ideal; e até corrompeu a razão das naturezas intelectualmente poderosas, ensinando que os valores superiores do intelecto não passam de pecado, desvios e tentações. O mais lamentável exemplo: a concepção de Pascal, que julgava estar a sua razão corrompida pelo pecado original; estava corrompida sim, mas apenas pelo seu cristianismo!

 

Reflexão dois:

"Acho que o Espírito Santo está em todo mundo [...] e acho que qualquer um que tenha estudado pode ser sacerdote, sem ter que ser sagrado."

"Ir se confessar com padres ou frades é a mesma coisa que falar com uma árvore."

Se esta árvore conhecesse a penitência, daria no mesmo; alguns homens procuram os padres porque não sabem que penitências devem ser feitas para seus pecados, esperando que os padres as ensinem, mas, se eles soubessem, não teriam necessidade de procurá-los."

"Acho que a Sagrada Escritura tenha sido dada por Deus, mas, em seguida, foi adaptada pelos homens. Bastariam só quatro palavras para a Sagrada Escritura, mas é como os livros de batalha, que vão crescendo."

"A respeito das coisas dos Evangelhos, acho que parte delas é verdadeira e, noutra parte, os evangelistas puseram coisas da cabeça deles, como se pode ver nas passagens onde um conta de um modo e outro de outro"

"o que é que você pensa, os inquisidores não querem que nós saibamos o que eles sabem"

Domenico Scandella, dito Menocchio (in Carlo Ginzburg, O Queijo e os Vermes. O cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. Companhia das Letras: 1989. p. 53, 55, 128s).

Curioso é que, 500 anos depois, ainda tem doutor em teologia que não tem a coragem desse moleiro... Talvez nem a sanidade.

5.

Man soll das Christenthum nicht schmücken und herausputzen: es hat einen Todkrieg gegen diesen höheren Typus Mensch gemacht, es hat alle Grundinstinkte dieses Typus in Bann gethan, es hat aus diesen Instinkten das Böse, den Bösen herausdestillirt, - der starke Mensch als der typisch Verwerfliche, der "verworfene Mensch". Das Christenthum hat die Partei alles Schwachen, Niedrigen, Missrathnen genommen, es hat ein Ideal aus dem Widerspruch gegen die Erhaltungs-Instinkte des starken Lebens gemacht; es hat die Vernunft selbst der geistigstärksten Naturen verdorben, indem es die obersten Werthe der Geistigkeit als sündhaft, als irreführend, als Versuchungen empfinden lehrte. Das jammervollste Beispiel - die Verderbniss Pascals, der an die Verderbniss seiner Vernunft durch die Erbsünde glaubte, während sie nur durch sein Christenthum verdorben war! -