ABHADYA

16/06/2008 19:24:00

o    p e r i g o    d e    t r e m e r    e    p a r a r

 

Nós somos, todos, criadores de mundo. Criamos mesmo um mundo em que nos concebemos como criados por um criador. Mesmo isso é criação nossa, independentemente de a essa criação corresponder um correlato não-noológico. Em si mesma, é noológica a idéia, e, desde Kant e seus desdobramentos fiéis à sua primeira intuição (Crítica da Razão Pura), sabemos que aí está uma verificação impossível. Deixo-a como está, portanto, e trato, então, de refletir sobre nós mesmos e nossa capacidade e possibilidade de reflexão.

Somos criadores de mundo. Vivemos no mundo que concebemos. E de tal forma o concebemos por nós mesmos, que cada um de nós vive em seu próprio mundo...

Chego a pensar assim depois de uma série de leituras, e de reflexões (in)conscientes desdobradas por um longo período de formação teológica. Recentemente, depois de uma breve passagem, apenas seis meses, pelo Curso de História na UGF, deparei-me, instigado pela questão metodológica da disciplina, com o livro História & Teoria, de José Carlos Reis, pós-doutor pela École de Hautes Étudesen Sciences Sociales (Paris). Com um subtítulo que me cooptou, Historicismo, Modernidade, Temporalidade e Verdade, seu último capítulo "revelou-me" chaves interessantes para minha caminhada pela Hermenêutica: Dilthey e o historicismo, a redescoberta da história.

Segundo os argumentos de José Carlos Reis, o redescobrimento da história se devia, basicamente, ao confronto militar e cultural, ideológico e secular entre França e Alemanha: Razão invasora, de um lado, Romantismo de resistência, de outro.

A Revolução Francesa teria permitido a substituição dos termos clássicos do programa de hegemonia cristão pelo seu correlato secularizado::

 Deus - Salvação - Santificação

versus

Razão - Libertação - Ética

 

Ah, tu então estás aí...

Somos bem-vindos aqui! Este é meu cantinho querido, meu aconchego meigo, meu lago tranqüilo, placidez virtual do colo da Bel...

Vou ficar por aqui quando me der vontade, falar, falar de mim, falar de tudo um pouco.

Esse é meu nooblog, onde a fantasia e a realidade dobrarão seus corpos um sobre o outro, enquanto eu me admiro de não me admirar que assim seja.

Fica por aí, ou vai embora. O que você quiser, está bem. Eu também, quando me der vontade, vou embora. Não há tempo aqui...

O Anticristo

textos alemão e português, e comentário.

Scarabeus sacer

do estrume ao sol.

Nietzscheanas

divagações a partir de Nietzsche

Eu quis começar meu blog com Nietzsche, porque de um jeito muito especial eu gosto dele. Comecei seriamente a ler Nietzsche com Zaratustra, e me apaixonei pelo "prólogo", que pus como frontispício na entrada do bosque...

<<Der Mensch ist ein Seil, geknüpft zwischen Tier und Übermensch - ein Seil über eninem Abgrunde. Ein gefährliches Hinüber, ein gefäherliches Auf-dem-Wege, ein gefährliches Zurücblicken, in gefährliches Schaudern und Stehenbleiben>>

Eu não sei se o entendo corretamente, porque o conceito de "super-homem" em Nietzsche tem sido apresentado de uma maneira diferente da com que eu o decodifico. Seja como for, direi como leio aquele preciso trecho do prólogo, e do que gosto.

O homem do prólogo de Zaratustra não está sobre uma corda: ele próprio é "uma corda" ou uma "ponte". Não vejo o homem do prólogo cruzando a ponte para chegar do outro lado, posto que o que há para ser amado nele é justamente ser a ponte, e não ser meta. Tão pouco vejo esse homem de Nietzsche transpondo a corda para o outro lado do abismo. Não, não: esse (im)preciso homem é justamente corda e ponte.

Se assim é, se esse homem que amo ser é, com efeito, corda e ponte, então é impraticável imaginar que seu destino, seguindo em frente, seja constituir-se no "super-homem", assim como, retornando, retornar ao seu estado "animal". Esse homem  é homem quando e enquanto corda e ponte. Se deixa de ser corda e ponte, tem o risco de tornar-se animal, logo, um não-homem, ou tornar-se super-homem, também aí um não-homem.

Penso que leio corretamente o pequeno poema, porque o próprio Zaratustra dirá que, sendo o homem "uma corda estendida entre o animal e o super-homem", assoma-se diante dele uma série de perigos: 

o perigo de transpor o abismo!

o perigo de continuar adiante!

o perigo de olhar para trás!

o perigo de tremer, de parar!

Percebo aqui um paradoxo delicioso, que me deixa com as carnes trêmulas, porque é também aqui um medo, um medo de ter errado, mas gostar imensamente desse erro que teria errado. Suspeito que o pensamento complexo que bebi de Edgar Morin goteje desde essa pérola.

É que esse homem que é corda e ponte corre eternamente o risco de transpor o abismo, se vai, ou de retornar, se vem. Se vai, deixa de ser homem, vira super-homem, não-homem; se vem, deixa de ser homem, vira animal, não-homem. Contudo, ai dele! ele deve "seguir", porque há, decerto e sempre, também o risco de tremer e parar!

Nosso homem não pode transpor o abismo, nem para frente, nem para trás, mas, coitado! tão pouco pode parar! Minha cabeça dói...

Dói mesmo? Nietzsche brinca conosco, de esconde-esconde. Onde escondeu o segredo? Não será no itálico que vejo na versão: transição? Não será que Zaratustra sabe que o homem não pode seguir em frente, rumo a uma meta - não há metas! que o homem não pode retornar, desistindo da caminhada! que o homem deve, a todo tempo, transmutar-se, metamorfosear-se, morrendo, mas morrendo e renascendo, e sempre de si mesmo, como fruto de si mesmo e de sua caminhada perigosa?

Por isso o que há para ser amado no homem é ser ponte, e não meta - porque meta é grandeza não-humana. Seguir, ir, transitar, ah, sim, fado e fardo - mas nunca sair da condição de sempre transitar, de sempre ir, de sempre ser ponte e corda, eternamente sobre o abismo.

Sobre o nada, entre o animal e o super-homem, o homem de Nietzsche treme o tempo todo. E, tremendo, faz tremer com ele a terra inteira...

Uma palavra sobre o "super-homem". A rigor, o termo alemão que Nietzsche usou é Übermensch, e não significa exatamente "super-homem", mas, mais adequadamente, "sobre-humano", "além-do-humano". O que reforça minha idéia de que é provável que Nietzsche já estivesse, aí, com esse termo, nesse prólogo formidável, usando-o dentro de um raciocínio complexo, de modo que Übermensch não seria o que o homem deve se tornar a longo prazo, mas o que ele se torna (sobre-humano = além-do-humano = não-humano) se abdica de sua condição de equilibrista. Longe de ser o que o homem deve ser, o Übermensch ameaça o ser do ser-humano. Para mim, ele consiste no "modelo". O homem não tem modelos - nasce para fazer-se, fazendo-se, à medida que se faz (cf. O Anticristo, III). Há, contudo, cabeças que imaginam modelos para ele: modelos políticos, filosóficos, morais, teológicos. Esses são os super-homens, eu imagino. Quando o homem abandona a sua incerteza existencial, sua insegurança ontológica, quando o homem abandona o gosto de tremer em devir perpétuo, quando abraça e se deixa abraçar pelo gosto do modelo, eis aí o super-homem, porque eis aí um não-homem: chegou lá! está pronto! e se mexer um dedo pra cá ou pra lá, chegou mesmo a transgredir o padrão...

Se não há modelos, então, e se esse Übermensch de Nietzsche é mesmo, como eu penso que é, esse "ser humano" em rumo de si mesmo, de si para si, talvez pudéssemos brindá-lo com a velha letra do Raul:

 

Metamorfose Ambulante

Raul Seixas

(música e letra)

 

Prefiro ser essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator

É chato chegar a um objetivo num instante
Eu quero viver essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Hoje eu sou estrela amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator

Eu vou lhes dizer aquilo tudo que eu lhes disse antes
Prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

 

Hum... vou continuar pensando sobre isso, porque pode ser que eu esteja errado. O tempo tem tempo... E, enquanto espero o tempo, que me espera o pensamento, bebo a sabedoria dos versos de Antonio Machado.

 

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.

(Poesías completas. Madri: 1973. p. 158)