Scarabeus sacer

Osvaldo Luiz Ribeiro

17/12/2006

 

Pense num besouro, pequeno, de uns 4 cm no máximo, de cor preta, brilhante, correndo pelo chão ocre das regiões ao norte da África.

 

 

Esse é o famoso Scarabeus sacer. Em comparação aos seus amigos africanos, pode-se dizer que seja um pequeno besouro. Porque há verdadeiros monstros na sua família.

Scarabeus sacer

 

 

Da mesma família Scarabaeidae, seus cinco primos, Goliathus, todos africanos, podem chegar a quase três vezes o seu tamanho - verdadeiros gigantes. O Scarabeus sacer sequer tem os "chifres" fantásticos de seu outro primo africano, o Augosoma centaurus, que pode, ainda, chegar aos seus 9 cm: praticamente um rinoceronte!

 

Sim, a família Scarabaeidae é grande, e, aparentemente, nosso (não o menor, mas) pequeno Scarabeus sacer não apresenta nada de especial. Ele não é grande, não tem chifres majestosos, não tem colorido especial. Não tem nenhuma característica aparente que pudesse fazer desse um case para Abhadya.

 

Quem é nosso pequeno besouro? Bem, em termos estritamente entomológicos, essa seria a sua identidade:

 

 

- Reino

Animalia

- Filo

Arthropoda

- Classe 

Insecta

- Ordem

Coleoptera

- Família

Scarabaeidae

- Subfamília

Scarabaeinae

- Tribo

Scarabaeini

 

 

 

Com sua ficha científica, ainda não se pode, contudo, entrever a sua singularidade. O que talvez ajude seja a apresentação de seus, digamos, "apelidos". Em inglês, ele é chamado de "dung beetle". Em francês, "scarabée bousier". Por aqui, nós o conhecemos como: besouro do esterco. Alhures, rola-bosta. Sua distribuição geográfica é bastante vasta, mas interessa, aqui, precisar que é característico do Egito, ao lado de outro parente muito próximo, o Kheper aegyptiorum, que pode ser visto no site da BBC. Logo se verá que o "sacer" do Scarabeus sacer, e o "Kheper" do Kheper aegyptiorum têm muito mais do que uma simples relação de parentesco...

 

Nosso amiguinho passa a vida alimentando-se do esterco de herbívoros africanos. Ele faz parte da enorme tropa biológica de processamento da matéria orgânica excretada pelas manadas inumeráveis do continente. E o que não falta é comida! Uma massa de esterco de elefante pode dar oportunidade para uma tropa de milhares de besouros coprófagos. O site da BBC fala de 16.000 deles em um único monte de fezes de elefante! E reside justamente aí, quem diria, na sua peculiar relação com o esterco, o interesse histórico-cultural por esse pequeno coleóptero.

 

Observe-se, por exemplo essa fotografia:

 

 

 

 

Aquele besourinho ali, no canto da fotografia, é o Scarabeus sacer. Essa foto é muito boa, porque, além de permitir que o tamanho comparativo de um Scarabeus sacer seja observado, mostra-o em sua atividade característica: rolar bolas de estrume. E é por isso que ele é conhecido como "dung beetle" ou "scarabée bousier" - escaravelho ou besouro do estrume.

 

Existem vários tipos de besouros do estrume, como, por exemplo, o Scarabaeus laticollis, o Kheper aegiptiorum, e o Scarabeus sacer. Essa família em especial, a Scarabaeidae, providencia alimento para seus filhotes, antecipando-lhes uma "refeição". Ao fazerem-no, dividem-se em quatro categorias: a) os paracópridos (ou "Dwellers"), que enterram um punhado de esterco, cavando exatamente debaixo do próprio monte de estrume, do qual o recolhem, b) os telecópridos ("Rollers"), que retiram uma porção de esterco do monte de estrume, fazem uma bola com ela, rolam-na até um lugar apropriado, cavam um buraco e a enterram, c) os endocópridos ("Tunnellers"), que fazem o ninho dentro do próprio monte de estrume, e, finalmente, d) os cleptoparasitas, que utilizam-se de ninhos de outros besouros, ou lhes roubam o esterco que recolheram.

 

O Scarabeus sacer, como se pode ver pela figura acima, e pelas abaixo, são telecópridos - "rollers", ou "roladores". Vão empurrando, resolutamente, sua bola de esterco.

 

 

 

 

Pode-se ver como era - e é - dura a vida de um "escaravelho do esterco", neste ilustrativo vídeo do Youtube.

 

 

 

 

Os egípcios antigos não deixaram escapar essa característica curiosa dos Scarabeus sacer e dos seus primos Kheper aegyptiorum. Podem-se ver representações deles nas paredes dos templos, eles e suas bolas de esterco.

 

 

 

 

Além disso, representaram-nos por meio de enfeites e de uma série de objetos culturais, de toda sorte, e de toda utilidade, tanto ricos quanto pobres, desde os Faraós e sacerdotes, até os simples camponeses.

 

 

- enfeites e amuletos

 

 

- artigos funerários (escaravelhos-coração)

 

 

Clique aqui para ver três fotos de um escaravelho-coração do The Global Egyptian Museum

- visão lateral

- visão de cima

- visão de baixo

 

 

Como se pode ver da terceira foto acima, escreviam-se, na parte de baixo dos escaravelhos, fórmulas de toda sorte: encantamentos, votos, nomes (sinetes), que extraiam da força simbólica do escaravelho a força que precisavam para se expressar, desde que constituíam desde símbolos pessoais, até invocações da força mágico-vital do Scarabeus sacer - a rigor, como se verá, bem mais do que isso.

 

E isso valia não não apenas no que diz respeito ao povo de modo geral, mas, principalmente, aos sacerdotes e ao próprio Faraó. Os achados arqueológicos das tumbas dos reis egípcios são ricos em representações de ouro do Scarabeus sacer - o escaravelho sagrado.

 

 

um escaravelho de ouro, encontrado na tumba de Tutancamon

peitorais cerimoniais

um escudo funerário da tumba de Tutancamon

Se você lê francês, gostará de clicar nessa imagem

 

 

O Scarabeus sacer tem duas razões principais para ser tão apreciado, simbolicamente, pelos egípcios. Primeiro, porque tornou-se um símbolo do renascimento. Trata-se, com efeito, de um fenômeno histórico-cultural muito interessante, que ilustra de modo extraordinário e singular o fato de que as mais adiantadas especulações míticas podem nascer, como de fato nascem, da observação das coisas mais cotidianas, e do mundo natural.

 

No caso do Scarabeus sacer, trata-se do fato de a fêmea pôr o seu ovo dentro da bola de esterco, e enterrá-la. Daí, algum tempo depois, nascerá um novo Scarabeus sacer, que encontrará, em seu "sarcófago", a matéria de que se alimentará, antes de sair para o mundo, onde lhe esperam montes e montes de estrume, e a série interminável de recolher um punhado, engendrar uma bola, rolá-la, enterrá-la, cuidar de pôr nela um novo ovo, e, depois de morrer, "saber" que a vida continuará no próximo besourinho de estrume.

 

A apropriação simpática é compreensível. Os humanos, enterrados, esperam que, um dia, renasçam para uma nova vida. Muitos escaravelhos rituais são encontrados em inúmeras tumbas egípcias, e o sentido é evidente: assim como o escaravelho, enterrado, renasce para uma nova vida, também aquele homem ou mulher, enterrado ali, deseja renascer um dia, para sua nova vida. O fato de que, no caso do escaravelho, se trate de uma série, isto é, macho e fêmea - ovo - larva - pupa - besouro, enquanto que, no caso humano, se trata de uma morte singular, e não um processo de procriação, não desarticula o mito em si, porque, nele, a imaginação criativa vê as coisas da forma mágico-poética própria da interpretação da vida através das alegorias participativas e simpáticas.

 

Dessa forma, olhando para baixo, para o pequeno besouro de estrume, aos seus pés, rolando sua bola de esterco, o egípcio antigo podia ver mais do que um besouro de estrume - via nele um escaravelho sagrado, um Scarabeus sacer.

 

Foi encontrada uma escultura enorme, de mais ou menos um metro e meio de comprimento, provavelmente instalada em algum templo egípcio, por volta do século IV a.C., feita de diorita, que traduz, de forma plástica, a expressividade da simpatia simbólica entre as crenças religiosas e a singularidade desse pequeno coleóptero.

 

 

No site do The British Museum, clique em "compass", e pesquise por "scarabeus", para as informações detalhadas

Escaravelho gigante, próximo ao Lago Sagrado, em Karnak

 

 

A segunda apropriação simbólico-mitológica que os egípcios elaboraram, observando a vida do Scarabeus sacer, é das mais interessantes de que tenho notícia. Os egípcios fizeram uma "ponte" entre a bola de esterco, que o Scarabeus sacer rola pela terra, e o sol. O sol foi tomado como uma representação da bola que o escaravelho sagrado rola. Nas representações dos templos, acima, bem como nos enfeites cerimoniais, quer sacerdotais, quer dos Faraós, vê-se não apenas o escaravelho em si, mas igualmente a "bola", aí, naturalmente, não mais a própria bola de esterco, que o Scarabeus arrasta, mas já a representação mítico-simbólica do sol.

 

Uma vez que a bola não se faz rolar sozinha, mas é rolada pelo Scarabeus sacer, não foi difícil a invenção do oficiante do movimento do sol. Assim, os egípcios inventaram o deus Khepri:

 

 

Khepri representado na tumba de Nefertiti

 

Khepri

 

 

 

Observe-se a cabeça da divindade, representada pelo próprio Scarabeus sacer. Na forma estilizada, sobre o barco, Khepri não apenas tem a cabeça em forma de escaravelho, mas até os seus braços tornaram-se as asas do besouro. Ou, ainda, a divindade ao lado do próprio escaravelho sagrado e de sua inseparável bola sagrada:

 

 

 

 

Khepri representa, assim, o sol da manhã, o levante, o sol que nasce e cruza os céus, em sua jornada diária. Está relacionado, portanto, à vida, e à força geradora de vida do sol. Os textos sagrados egípcios falam de Khepri como aquele que se gera a si mesmo, que, apesar da aparente abstração metafísico-mitológica, traduz de modo bastante coerente a relação simpática do deus com o Scarabeus sacer, cuja "bola" é o ninho, de onde nascerá o próximo besouro da espécie. Ainda que, depois de hipostasiado na forma de um deus, Khepri, mesmo derivando do Scarabeus sacer, testemunhem-se desenvolvimentos mítico-teológicos próprios, relacionados à dinâmica do culto e das doutrinas a ele relacionadas, na origem, contudo, os elementos característicos do deus e do culto engendram-se a partir das próprias singularidades materiais e naturais da vida do besouro. O próprio hieróglifo que representa o nome do deus Khepri é formado pelo desenho do Scarabeus sacer:

 

 

 

 

A simbólica do Scarabeus sacer é bastante complexa. Ela foi traduzida nas práticas rituais de sepultamento egípcias, não apenas na forma - sarcófagos mortuários, representando a "bola" funerária -, mas, também, no sentido funcional. Para os egípcios, o corpo renasce numa outra vida, da mesma forma como, eles sabem, o escaravelho emerge da terra. Escaravelhos de coração eram colocados nas tumbas, mesmo as mais simples, para representar justamente essa esperança de renascimento. A vida não se resume em morrer - a morte é uma transição: a vida continua em frente. Olhando para baixo, para os próprios pés, para aquele bichinho preto, especialista em rolar bolas de estrume pelos campos, em cavar, em enterrar, em fazer renascer a vida, pode-se, daí, emprestar simbolicamente todo o ciclo à própria vida humana.

 

Levantando a cabeça, a bola do sol mostra-se parecida com a bola do escaravelho. Alguém deve rolar o sol - é Khepri, que recebe, em hipóstase, todas as características simbólicas do Scarabeus sacer: o nome, o ciclo de vida, o poder de auto-criação, o movimento do sol.

 

É provável que a própria mumificação, no Egito, constitua uma simpatia relacionada, também, ao Scarabeus sacer, que atesta um processo de desenvolvimento biológico comum aos coleópteros: ovo - larva - pupa e espécime adulto. As larvas de besouros são bastante diferentes dos indivíduos adultos, e a mumificação pode, de certa forma, ser uma tentativa de reproduzir o estado larval do Scarabeus sacer, contribuindo-se, assim, com a vida.

 

Seja como for, se a mitologia egípcia é tomada em si mesma, independentemente de suas condições histórico-sociais de emergência, pode-se cair num abstracionismo absolutamente improcedente. Como imaginar, contudo, que a mitologia de um deus a rolar o sol pela abóbada celeste tem sua origem na observação de um pequeno inseto, comedor de estrume de animais? Como imaginar que os escaravelhos colocados nos sarcófagos, nas tumbas, levados como "patuás" ("charm"), amuletos, como bijuterias, como enfeites, como peitorais e broches, esculpidos nas paredes, pintados em papiros são, de fato, representações mágico-simpaticas, cujo objetivo é emprestar do ciclo biológico do Scarabeus sacer toda a sua forma mágico-simbólica?

 

Por mais abstrata que seja uma fé, por mais complexa e articulada, por mais "sobrenatural", pode-se retroagi-la até a sua origem histórico-social, se dispusermos dos vestígios. O caso do Scarabeus sacer é apenas um dentre muitos outros. Refletir sobre essa história causa em nós uma sensação de pertencimento ecoplanetário à espécie humana. Todas as fides são estruturalmente comparáveis. Na origem, nascem a partir de abstrações histórico-culturais de aspectos naturais da vida e do mundo, cujas simbólicas são transferidas para o mundo noológico propriamente mítico, onde desenvolvem-se num novo ecossistema, articulando-se com e contra todas as demais mitologias ali já situadas, com as quais eventualmente entre em contato..

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

– autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações no texto –

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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